Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Gabriel Pereira · Capítulo 37 de 48

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Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Uma cadeira do seculo XV

Na Misericordia dei mais attenção ao Senhor Morto, porque me parece o mais antigo que conheço; não se repare na encarnação; é uma estatua rigida, hirta, feita com certa rudeza mas com attenção. Parece-me anterior ao seculo XVI.

Em Santa Maria do Castello vi esculpturas boas: um Jesus Menino bem notavel e antigo.

E mais antigas ainda me parecem algumas imagens que vi na ermida da Senhora do Amial, a Senhora do Ó, o S. Vicente, e especialmente a Senhora de Rocamador talvez do seculo XIII.

Será bom reparar n’estas obras d’arte, mórmente agora por causa da invasão franceza de estatuetas e oleographias baratas.

 

Uma cadeira do seculo XV

 

A pouca distancia, uns tres kilometros, a poente de Torres Vedras fica o convento do Varatojo; é um bonito passeio a pé, atravessando a varzea, e subindo lentamente a vereda, descobrindo successivamente aquella região de serras e cabeços, em grande parte vestida de vinhedos, agora n’este mez d’agosto, mui viçosos.

Em trem, o caminho é mais longo, por causa de grande rodeio, seguindo pelo campo do Amial, onde ha uma ermida muito antiga e interessante, cortando depois os campos do Paul, e subindo a encosta por estrada um tanto ingrata; a estrada nova cheia de covas e poeira, a antiga coalhada de calhaus.

No convento vi a porta ogival da egreja, tendo aos lados as armas de Portugal, e o rodizio emblema adoptado por Affonso ; o claustro, bem conservado; os portaes da casa chamada dos retratos que são do tempo de D. Manuel; a torre dos sinos de ventanas ogivaes, assim como o portal de um pateo interior; vi pinturas em madeira, um frontal de seda bordada de origem italiana, me pareceu, e, n’uma pequena dependencia da sacristia, entre variados objectos, uma cadeira extraordinaria!