Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Gabriel Pereira · Capítulo 43 de 48

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Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

O caminho dos Cucos

Porque se chama quinta das Lapas? Ha por aqui algumas lapas, grutas, cavernas? Parece que houve lapas a que se attribuiam lendas de mouros. Perto de casa ha uma vinha, um grupo de pinheiros mansos, uma elevação de terreno de poucos metros de altura; ahi umas cavidades consideraveis. Parece que em tempos alguem fez excavações; acharam cacos, louças partidas. Tudo se extraviou.

Seria uma mamunha? Um d’aquelles tumulos prehistoricos, em que as sepulturas eram cobertas por um monticulo artificial? Não sei, o que hoje se vê pouco significa.

Numa construcção ou pavilhão de fresco perto do jardim fui encontrar no embrechado que reveste as paredes interiores alguns exemplares de contas vitreas coloridas de fabrico egual ao das contas de Chellas, da capella (desapparecida) das Albertas, e da cascata da Quinta do Meio. Aqui tambem estas singulares contas são acompanhadas de cylindros, discos, etc., de vidro escuro. Continúa para mim a ser um problema a proveniencia de taes objectos.

 

O caminho dos Cucos

 

Pela avenida ampla, arborisada, chega-se á estação do caminho de ferro, que nos fica á direita; está á vista o castello ennegrecido e escalavrado, no seu morro severo destacando entre as collinas; o caminho passa sob a via ferrea; passa a ponte do Rei, sobre o Sizandro; vamos entre vinhas e arvoredos; agora a arcada do aqueducto; á direita uma ermida antiga com umas construcções, ao lado um portão com seus enfeites; era a albergaria de S. Gião, ou Julião. Lá se conservam inscripções que nos dizem que os sapateiros da villa no anno de 1359 (era 1397), construiram o modesto albergue, cuja instituição se incorporou na Misericordia em 1586. Os confrades de S. Gião ahi ouviam missa aos domingos. Um respeitador de antiguidades renovou a inscripção em 1849.

Pouco adiante, á esquerda da estrada, indo para os Cucos, existe uma quinta de construcção vistosa, a quinta das Fontainhas, com seu terraço e jardim, onde se lê um lettreiro, na parede occidental da casa, que diz:

Sua Alteza Real

O sern.ᵐᵒ principe o sr. D. João

e a seren.ᵐᵃ princ.ᵃ

a sr. D. Carlota Joaquin

e o sr. infante D. Pedro Carlos

jantaram n’esta quinta

no dia 16 d’outubro

de 1797.

Este infante D. Pedro Carlos tinha então dez annos. D. Marianna Victoria, filha de D. Maria I, casou com D. Gabriel, infante de Hespanha. Deste casamento nasceu o infante de Hespanha D. Pedro Carlos de Bragança e Bourbon, que foi almirante em Portugal. Nasceu em Aranjuez em 18 de julho de 1787, e falleceu no Rio de Janeiro a 26 de maio de 1813. Este infante casou, no Rio, em 1810, com D. Maria Thereza, princeza da Beira.

Os banhos dos Cucos são conhecidos de ha muito; a virtude singular d’esta agua já em épocas remotas attrahia enfermos.

Ainda existem as casinholas onde se abrigavam os miseros banhistas.

Hoje as installações hydrotherapicas das thermas dos Cucos são boas, feitas com largueza, direi mesmo com generosidade. O edificio das thermas, a casa dos machinismos, o amplo casino, os dois grandes chalets, e outras construcções, rodeiam um grande rocio ajardinado e arborisado. A grande obra começou em novembro de 1890; em julho de 1892 já as thermas funccionavam, provisoriamente; em 15 de maio de 1893 realisou-se a inauguração. Todavia não está cumprido o programma inicial, faltam chalets, e recreios para os banhistas, ou para as pessoas de familia que acompanham os enfermos. O principal está feito, e isto deve-se á coragem do opulento proprietario sr. José Gonçalves Dias Neiva. Á coragem e á generosidade, porque me affirmaram que embora a frequencia seja grande já, todavia nem 2% rende o capital alli empregado.

Como o estabelecimento thermal fica a dois kilometros de Torres Vedras, muitos banhistas ficam nos hoteis da villa, que são regulares, e em algumas casas particulares.

A villa lucra com isto dezenas de contos annualmente, todavia nem o municipio nem os habitantes se esforçam por tornar a villa aprazivel aos seus hospedes; nem commodidade, nem distracções; nada que realce a natural belleza d’aquelles sitios. Bem lindos são os arredores da villa, convidando a pequenos passeios campestres, mas raras as estradas que prestem, as de macadam cheias de poeira, as primitivas de barrancos e pedregulhos. Uma das questões locaes é o abastecimento de aguas potaveis; esta porém não importa muito aos banhistas, que quasi todos consomem a agua dos Cucos. Eu não bebo d’outra; faz bem e é agradavel, com o seu ligeiro sabôr salgado. Liga-se optimamente com o vinho. É uma excellente agua de mesa que os sãos, não só os enfermos, tomam com agrado. Melhoram o appetite e facilitam a digestão.

Esta agua, que tem o maravilhoso lithio, é muito pura segundo a analyse microbiologica, feita em 1904, pelo illustre chimico Carlos Lepiérre.

Os pobresinhos teem tratamento gratuito nos Cucos; a poucos utilisa esse beneficio porque nos Cucos não encontram albergue ou hospital. Para isto me parece deveria olhar a Camara Municipal e a Misericordia de Torres Vedras; proximo dos Cucos um albergue gratuito para pobres seria um grande bem. E ainda outro de preço muito moderado, uma hospedaria simples, a simplicidade não exclue o asseio e hygiene, de alimentação singela e mobilia barata, onde os menos remediados encontrem agasalho.

Parece facil, isto. Naquelle chanfro do terreno que liga a grande varzea dos Cucos ao sitio dos pequenos tunneis do Caminho de ferro seria facil construir modestos albergues, pequenas moradas de construcção economica.