Políticas e sistemas de saúde em tempos de pandemia
6. O Reino Unido diante da Covid-19: hesitação política e capacidade de resposta de um sistema de saúde universal
6. O Reino Unido diante da
Covid-19: hesitação política e
capacidade de resposta de um
sistema de saúde universal
Suelen Carlos de Oliveira, Lucia de Fatima Nascimento de Queiroz
O Reino Unido tem uma população de mais de 68 milhões de habitantes distribuídos entre a Inglaterra, a Irlanda do Norte, a Escócia e o País de Gales, da qual 85% vivem no território inglês. É a sétima economia do mundo, com o produto interno bruto (PIB) dividido entre os setores industrial, de manufaturas e, majoritariamente, de serviços
(IMF, 2020). A despeito do bom desempenho econômico, o Reino Unido apresenta importantes diferenças entre as classes sociais da população, e embora seus índices de desemprego sejam baixos (4,1% do total da força de trabalho em 2020), 13% dos trabalhadores têm
empregos considerados vulneráveis (World Bank, 2020).
A Inglaterra é o mais rico e o mais desigual dos países do Reino Unido (índice de Gini de 0.414 em 2016). Nos últimos dez anos tem registrado deterioração dos indicadores de saúde da população que vive em áreas socialmente vulneráveis e aumento das desigualdades em saúde (Marmot et al., 2020).
O Reino Unido é uma monarquia parlamentarista em que o primeiro-ministro exerce a coordenação do governo e a chefia de Estado é
exercida, desde 1952, pela rainha Elizabeth II.1 O sistema partidário é marcado por dois partidos de maior porte e projeção – o Partido Conservador e o Partido Trabalhista –, cuja alternância no poder configura, na prática, uma situação de bipartidarismo. Desde 2010 o Reino Unido é governado por uma coalizão liderada pelo Partido Conservador, e o primeiro-ministro, Boris Johnson, um dos principais
incentivadores da saída do Reino Unido da União Europeia,2 assumiu o governo em julho de 2019, após a renúncia de sua antecessora, Theresa May.
A resposta do Reino Unido à pandemia de Covid-19 é considerada de interesse para estudo de caso por vários motivos. Em primeiro lugar, por seu National Health Service (NHS), sistema de saúde baseado no modelo beveridgiano de proteção à saúde, que concede acesso às ações sanitárias e assistenciais como um direito dos cidadãos e residentes no país. Por ter sido o primeiro sistema de saúde baseado na seguridade social, o NHS é considerado um sistema universal e público de saúde paradigmático no cenário mundial. Além disso, o Reino Unido atua de forma expressiva no desenvolvimento científico e tecnológico, com experiências de articulação entre universidades e empresas, o que, a priori, poderia favorecer a resposta do sistema de saúde em situações de emergência sanitária. Em terceiro lugar, o Reino Unido integra um grupo de países que já havia estruturado planos para lutar contra eventuais pandemias, além de ter experiências prévias no controle de epidemias nas ex-colônias britânicas e no continente africano. Por fim, não obstante as expectativas positivas em relação à capacidade de resposta do país, a experiência do Reino Unido merece ser analisada pelo fato de o país ter sido duramente atingido pela Covid-19, apresentando, ao longo de 2020, taxas de incidência e de mortalidade bastante elevadas no cenário europeu e mundial: no Reino Unido está o quinto maior contingente de casos e óbitos por Covid-19 no mundo, com a soma de 1.282 óbitos/milhão de
habitantes em janeiro de 2021 (Worldometers, 2020).
Isso posto, priorizamos aqui a análise das respostas do sistema de vigilância e de atenção à saúde da Inglaterra à pandemia de Covid-19, dada a concentração da população, a importância política e a relevância do NHS nesse país no Reino Unido.
Além dos aspectos metodológicos já descritos na apresentação deste volume, o estudo de caso do Reino Unido fundamentou-se em pesquisa documental realizada em sites do governo e de órgãos oficiais, incluindo legislação e resoluções relativas à política de saúde, relatórios de organizações governamentais e não governamentais, veículos de imprensa e redes sociais. Ademais, foram analisados documentos oficiais do Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido em que se contemplam as principais reformas introduzidas no sistema saúde a partir de 1990.
Os dados secundários foram obtidos nos sistemas de informações oficiais do Office for National Statistics (ONS), do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) e de órgãos relacionados ao National Health Service England e ao Public Health England. Foram ainda utilizados dados das bases Health Data, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além dos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Contexto e características do sistema
de saúde do Reino Unido
O National Health Service (NHS), criado em 1948 no governo de Clement Attlee, do Partido Trabalhista, introduziu o acesso universal à assistência médica gratuita, que se constituiu como um dos princípios mais importantes do Estado de bem-estar social do Reino Unido durante o processo de reconstrução econômica e social do período pós-Segunda Guerra Mundial (Cylus et al., 2015). Nos países ocidentais, o NHS foi pioneiro na construção de um sistema nacional de saúde com cobertura universal e financiamento fiscal.
Originalmente, a configuração do NHS preconizava a organização nacional e o planejamento centralizado, com responsabilidades compartilhadas entre órgãos regionais e locais. Contudo, desde a década de 1990 o sistema passou por distintas mudanças, promovidas por diferentes governos e partidos. A primeira-ministra Margaret Thatcher introduziu, por meio do National Health Service and Community Care Act (1990), a abertura do sistema de saúde para instituições privadas e separou as dimensões de prestação e de compra de serviços médicos, constituindo um mercado interno com o principal objetivo de aumentar a eficiência e a qualidade dos serviços com base nos princípios de um mercado competitivo (Boyle, 2011). John Major, sucessor de Thatcher e integrante do Partido Conservador, prosseguiu as transformações iniciadas no sistema de saúde por sua predecessora.
No período de 1997 a 2007, no governo do trabalhista de Tony Blair, houve continuidade da orientação das políticas de saúde voltadas para a perspectiva privada, consolidando-se a separação entre prestadores de serviços de saúde (Filippon et al., 2016). Duas importantes legislações foram regulamentadas nesse período. Em 1997, o National Health Service (Primary Care) Act introduziu a administração desconcentrada e criou os Primary Care Groups (PCGs), denominados posteriormente Primary Care Trusts (PCTs), responsáveis pelo comissionamento dos serviços de saúde primários e secundários. Nos anos 2000, com o NHS Plan 2000 e o Wanless Report (2002) procurou-se reestruturar a hierarquia do NHS e incentivar a competição entre os prestadores de serviços no âmbito do NHS. O NHS Foundation Trusts é uma autarquia do NHS criada pelo Health and Social Care (Community Health and Standards) Act, de 2003, com a finalidade de transferir a tomada de decisões do governo central para as organizações e comunidades locais. Assim, apesar do compartilhamento dos princípios e diretrizes do NHS, a partir de 1999 os países do Reino Unido constituíram sistemas de saúde separados e independentes (Peckham et al., 2019).
A reforma mais recente, ocorrida num contexto de austeridade e de redução dos gastos em saúde, foi realizada em 2012, no governo conservador do primeiro-ministro David Cameron. O Health and Social Care Act intensificou a competição e a concorrência na contratação de serviços de saúde, com a criação dos Clinical Commissioning Groups (CCGs). Após a reforma de 2012 os CCGs ficaram a cargo do comissionamento de cuidados de saúde para sua área local (compra dos serviços hospitalares e comunitários) e passaram a ser gerenciados pelas General Practices.
Em conjunto, as estratégias implementadas pela reforma de 2012 reduziram os níveis de integração e de organização que caracterizavam a formatação original do sistema de saúde britânico. As sucessivas mudanças, associadas às políticas de contenção de gastos e austeridade fiscal implementadas a partir da crise de 2008, reconfiguraram e debilitaram o NHS (Giovanella & Stegmüller, 2014; Stuckler et al., 2017), com efeitos na crise sanitária produzida pela
Covid-19 (Marmot & Allen, 2020).
Na configuração atual, o Departamento de Saúde e Assistência Social (Department of Health and Social Care) é o órgão governamental responsável pelo financiamento e pela formulação de políticas de saúde no Reino Unido. A administração e a supervisão do sistema de saúde, no caso da Inglaterra, ficam a cargo do NHS England, órgão público executivo não ministerial do Departamento de Saúde e Assistência Social. O NHS England é autônomo, mas presta contas ao governo e anualmente estabelece com este estratégias de ação.
O financiamento do sistema de saúde advém principalmente de contribuições de tributação geral e de seguridade social. Em 2018 o gasto em saúde configurava 9,6% do PIB e o gasto público em saúde
correspondia a 7,6% do PIB (World Bank, 2020). Segundo dados da OCDE, em 2017, 78,8% do financiamento da saúde foram públicos, ao passo que o desembolso direto, considerado baixo se comparado aos dos países da União Europeia, equivaleu a 15,9% do gasto em saúde. Desde 2016, a aprovação da saída do Reino Unido da União Europeia e a continuidade das medidas de austeridade têm impossibilitado aumentos do orçamento da saúde acima da inflação do país (Peckham et al., 2019).
O comissionamento dos serviços primários e hospitalares de cada território é realizado pelos Clinical Commissioning Groups (CCGs). Os CCGs são administrados por consultórios privados de profissionais autônomos, as General Practices, que avaliam as necessidades de saúde locais e contratam os serviços assistenciais para atender a população inscrita de acordo com sua residência ou trabalho. Os NHS Foundation Trusts fornecem os cuidados que os CCGs contratam, incluindo serviços hospitalares e serviços de ambulância e de saúde mental. As ações de saúde pública, de vigilância e de alguns programas de atenção à saúde estão sob a responsabilidade da agência nacional Public Health England (PHE), que coordena as ações nos níveis regional e local.
A regulação do sistema de saúde é centralizada e realizada por três principais instituições: o National Institute for Health and Clinical Excellence (Nice), que define as diretrizes nacionais regulatórias e da medicina com base em evidências; o Monitor, autarquia responsável pela governança financeira, pela regulação da prestação de serviços e concorrência do sistema; e a Care Quality Commission (CQC), responsável pela inspeção, regulação e análise dos serviços assistenciais.
A Figura 1 ilustra a estrutura da organização do sistema de saúde da Inglaterra e as respectivas funções de suas instituições.
Figura 1 – Organização do sistema de saúde – Inglaterra, 2020
Fonte: elaboração própria.
CCGs - Clinical Commissioning Groups; NICE - National
Institute for Health and Clinical Excellence; GPs general
practitioners; CQC - Care Quality Commission
Organização prévia e relações entre os
sistemas nacionais de vigilância em
saúde e de atenção à saúde
As ações de vigilância desenvolvidas pelo NHS são de responsabilidade da Public Health England (PHE), que, além do órgão central, possui nove centros em diferentes regiões da Inglaterra. Há também as PHEs locais, as Health Proteccion Teams (HPTs), que dão suporte ao NHS e às autoridades locais e são responsáveis pelas ações de vigilância em saúde no nível local; por sistemas de alerta; pela investigação e gerenciamento de surtos; e pelo monitoramento e implementação de planos de ação nacionais para doenças infecciosas
em âmbito local. Há 20 HPTs atuando na Inglaterra (United Kingdom,
2020a).
As ações de Atenção Primária à Saúde (APS) são realizadas pelos clínicos gerais, os general practitioners (GPs), em clínicas privadas autônomas. A garantia do acesso e da coordenação dos serviços de APS ocorre mediante a atuação de profissionais da saúde, contratados de forma direta pelas General Practices, pela autoridade local ou pela via dos CCGs. A organização da APS se realiza com base na abrangência territorial, para grupos populacionais de cerca de 1.500
pessoas (Huddlestone et al., 2020). Em novembro de 2020, havia aproximadamente 135.813 trabalhadores vinculados a equipes de
cuidados primários na Inglaterra (NHS Digital, 2020). Há também os serviços denominados Out of Hour Services, que atendem à população por meio de contato telefônico e de internet, como o NHS 111, que tem caráter não emergencial, de triagem e orientação para casos menos graves, e o número 999, linha telefônica exclusiva para pacientes que
necessitem de cuidados de emergência (Norman, 2019).
O acesso da população às ações e serviços prestados pelo NHS ocorre sob a responsabilidade das General Practices, que assumem o papel de porta de entrada no sistema (é obrigatório o registro da população em uma General Practice), e encaminham os casos mais complexos aos hospitais ou especialistas. Os médicos especialistas são funcionários dos ambulatórios ou de hospitais, que são predominantemente públicos. Apesar de o Reino Unido contar com metade da capacidade de leitos hospitalares dos países da União Europeia (2,5 leitos/1.000 habitantes, em 2016), o número médio de dias de internação em 2017 (6,9 dias) esteve abaixo do registrado nos países europeus (7,9 dias) (OCDE, 2019a, 2019b). Os serviços altamente especializados, relacionados à atenção terciária, são realizados geralmente por hospitais-escola, pertencentes às faculdades de medicina, ao passo que os cuidados de longa permanência são usualmente financiados por governos locais, embora possam ser também oferecidos pelo setor privado.
A maioria dos gastos com ações de saúde é referente aos serviços de atenção primária (31%), acompanhados pelos gastos com internações (29%), em proporções semelhantes à média dos países da União Europeia (OCDE, 2019a, 2019b). As ações preventivas correspondem a 5% dos gastos em saúde. Para os atendimentos odontológicos e as prescrições medicamentosas são cobradas taxas fixas, apesar de haver isenções para diversos grupos populacionais.
O Reino Unido tem desenvolvido estratégias inovadoras de informação e vigilância em saúde, das quais participam instituições de ensino e empresas. O Centro Digital de Informática Clínica do Oxford Royal College of General Practitioners (ORCHID) é um sistema de plataformas digitais de vigilância hospedado pela Universidade de Oxford, no Departamento de Ciências da Saúde de Atenção Primária de Nuffield, e mantém parceria com a PHE para estender e aprimorar a vigilância de doenças infectocontagiosas. A Plataforma de Vigilância é orientada para a vigilância de atenção primária estendida, e a Plataforma de Ensaios, plataforma simplificada de ensaios clínicos, é
integrada à prática de atenção primária de rotina (Lusignan et al.,
2020 3 4 ). O NHS Digital e o NHSX são responsáveis por apoiar o avanço e o manuseio de dados no NHS, com suas ações atualmente voltadas para a identificação dos casos de Covid-19.
O país possui importante estrutura de vigilância genômica, realizada no âmbito do Covid-19 Genomics UK Consortium (COG-UK) do Wellcome Sanger Institute. O COK-UK sequenciou mais de 100 mil genomas do novo coronavírus (Sars-CoV-2) até o início de janeiro de 2021 e detectou a disseminação de nova variante (B.1.1.7 variante), considerada mais transmissível do que o vírus originário identificado na China.
Evolução da pandemia de Covid-19 no
país
Os primeiros casos de Covid-19 no Reino Unido foram identificados em 31 de janeiro de 2020, em integrantes de uma família de ascendência chinesa, hospedada em York, no nordeste da Inglaterra.
Em 5 de março de 2020 foi registrada a primeira morte no Reino Unido, seguida pela confirmação da transmissão comunitária no país
(Coronavirus: two..., 2020b). Apesar do aumento crescente do número de casos a partir de fevereiro de 2020, o governo, seguindo as
orientações do Scientific Advisory Group for Emergencies (Sage),5 não implementou medidas de lockdown no mês seguinte à identificação dos primeiros casos, limitando-se a conduzir campanhas informativas e o esclarecimento da população sobre as formas de contaminação da doença. As orientações repassadas à população se concentraram nas formas de identificação dos sintomas iniciais da Covid-19, no aconselhamento às pessoas que estivessem em trânsito e em informações sobre os serviços de triagem e de testagem que passaram a ser instalados no país.
Apenas após a declaração de pandemia pela OMS, em 11 de março de 2020, foram adotadas as primeiras medidas voltadas para o distanciamento social para os grupos de risco e a população em geral, com orientações para que as pessoas que tivessem febre ou tosse contínua se autoisolassem durante 7 dias. As viagens e os contatos considerados não essenciais também foram desaconselhados, mesmo para a população assintomática, e foi solicitado às pessoas que restringissem as atividades fora de seus domicílios, saindo apenas para a realização de compras essenciais, necessidades médicas e exercícios físicos. As determinações adotadas pelo governo incluíram ainda a proibição do funcionamento de locais de entretenimento, como pubs e restaurantes (mantendo os serviços de delivery), e a suspensão de atividades presenciais em escolas e universidades (Scally, Bobbie & Abbasi, 2020). Essas medidas resultaram em uma corrida momentânea da população aos supermercados e farmácias, o que gerou a necessidade de restringir a venda de alguns produtos, com o objetivo de regularizar os estoques, mesmo que a entrada de mercadorias no país por portos e aeroportos tenha permanecido sem restrições.
Houve mudanças nas orientações oferecidas pelo NHS 111 e pelas equipes de rastreamento de contatos, bem como o abandono do padrão preconizado pela OMS para encontrar, testar, tratar e isolar os casos, que funcionou bem em países que suprimiram com sucesso a propagação viral. Em março de 2020, Chris Whitty, diretor médico da Inglaterra e consultor médico-chefe do Departamento de Saúde e Assistência Social, analisou a estratégia de não identificar, por meio de testes, todos os novos casos e alertou para os efeitos do direcionamento dos testes para pacientes hospitalizados, em oposição às recomendações da OMS. Não havia no país um plano para a localização de casos com base na comunidade, em testes e no rastreamento dos contatos. A aquisição e a entrega dos testes diagnósticos foram consideradas ineficazes, apesar de o país dispor de um teste viral pronto e de ofertas de ajuda de laboratórios universitários e privados (Scally, Bobbie & Abbasi, 2020).
Os casos de Covid-19 registrados em 2020 configuraram a curva que
pode ser observada no Gráfico 1. Após o aumento do número de casos registrados entre março e maio de 2020, houve queda nos casos e estabilização da curva entre os meses de junho e agosto. Em setembro os casos voltaram a aumentar e, após pequena queda em novembro, houve novo aumento dos casos registrados em dezembro de 2020.
Gráfico 1 – Média móvel de novos casos (nos 7 dias anteriores)
confirmados de Covid-19 por milhão de habitantes – Reino
Unido, jan. a dez. 2020
Fonte: Our World in Data, 2020.
Com relação aos dados da média móvel dos óbitos confirmados de
Covid-19, o Gráfico 2 ilustra os registros desde o primeiro óbito reportado em março de 2020 até o final de dezembro de 2020. A curva assumiu perfil ascendente a partir de março, com pico no número de óbitos no mês de abril e subsequente declínio até agosto de 2020, quando voltou a subir, sobretudo a partir de novembro de 2020.
Gráfico 2 – Média móvel dos óbitos confirmados de Covid-19
por milhão de habitantes– Reino Unido, mar. a dez. 2020
Fonte: Our World in Data, 2020.
Embora tenha havido aumento na média móvel dos novos casos e dos óbitos por Covid-19 nos meses de outubro a dezembro de 2020, a taxa de letalidade (a proporção entre o número de mortes por Covid-19 e o número total de doentes por Covid-19 ao longo de determinado período) vem diminuindo desde julho de 2020, como se pode observar
no Gráfico 3.
Gráfico 3 – Taxa de letalidade da pandemia de Covid-19 –
Reino Unido, jul. a dez. 2020.
Fonte: Our World in Data, 2020.
O Gráfico 4, obtido com base nos registros realizados por semana epidemiológica (SE), permite a comparação entre os dados relativos ao total de mortes registradas em 2020 e a média de mortes registradas nos últimos 5 anos na Inglaterra. Esses dados revelam aumento do número de óbitos ocorridos entre abril e junho de 2020, indicando que o período pode ser caracterizado como a primeira onda de Covid-19 no país, seguida por leve aumento entre os meses de outubro e dezembro
de 2020. A análise do Gráfico 4 permite ainda constatar que o número total de mortes semanais diminuiu de 10.680 na penúltima SE de dezembro para 9.325 na última SE do mês, sendo 1.904 mortes (25,7%) acima da média de quinquenal da penúltima SE de dezembro
(Gráfico 5).
Gráfico 4 – Número de óbitos registrados por semana
epidemiológica – Inglaterra, 2020
Fonte: Office for National Statistics, 2020.
A análise regional dos óbitos registrados por Covid-19 na Inglaterra
evidencia diferenças entre as nove regiões do país (Gráfico 5). Com
base nos dados do Office for National Statistics (2020), conclui-se que, das regiões inglesas, o Sudeste registrou o maior número de óbitos gerais no período analisado (1.595), ao passo que a região londrina registrou a maior proporção regional de óbitos acima da média no último quinquênio (54,3% do total de óbitos).
Gráfico 5 – Óbitos por região – Inglaterra, jan. a dez. 2020
Fonte: Office for National Statistics, 2020.
Os dados referentes aos óbitos por Covid-19 registrados na última SE de dezembro de 2020 confirmam a tendência de elevação anteriormente identificada. Houve aumento em cinco das nove regiões inglesas, com proeminência da mortalidade na região londrina, que se expressa tanto na comparação com os óbitos registrados nas demais regiões do país quanto na comparação com a média dos registros
observada nos 5 anos precedentes (Tabela 1).
Tabela 1 – Número de mortes por região – Inglaterra, semana
epidemiológica 53 (26 dez. 2020 a 1 jan. 2021)
Porcentagem
Média dos
Região Óbitos acima da média
últimos 5 anos Diferença
(%)
Londres 1.159 751 408 54,3 West 1.024 753 271
36,0
Midlands
South East 1.595 1.209 386 31,9 East 997 796 201 25,3
Fonte: Office for National Statistics, 2020.
Porcentagem
Média dos
Região Óbitos acima da média
últimos 5 anos Diferença
(%)
East 842 706 136
19,3
Midlands
North West 1.346 1.134 212 18,7 North East 547 461 86 18,7 South West 929 822 107 13,0 Yorkshire e 886 790 96
12,2
Humber
Fonte: Office for National Statistics, 2020.
Na Tabela 2 são apresentados os dados da evolução da pandemia de Covid-19 no Reino Unido entre julho e dezembro de 2020. Em 31 julho de 2020, o Reino Unido tinha um pouco mais de 4.460 casos de Covid-19 por milhão de habitantes, com mais de 670 óbitos por milhão
de habitantes (Worldometers, 2020). Nesse mês inicia-se uma tendência à estabilização no número de casos e óbitos.
Tabela 2 – Dados da pandemia Covid-19 – Reino Unido, jul. a de
Casos Óbitos
Novos Óbitos Novos totais/ totais/ Test
Data Casos Letalidade
totais casos totais óbitos milhão milhão tota
hab. hab.
31 303.181 880 46.119 120 4.464 679 15,2 16.019
jul.
30 334.467 1.715 41.499 1 4.923 611 12,4 16.273
ago.
30 453.264 7.108 42.143 71 6.668 620 9,3 24.507
set.
31 1.011.660 21.915 21.915 326 14.876 685 4,6 33.470
out.
30 1.629.656 12.329 58.448 205 23.953 859 3,6 43.479
nov.
Fonte: Worldometers, 2020.
Casos Óbitos
Novos Óbitos Novos totais/ totais/ Test
Data Casos Letalidade
totais casos totais óbitos milhão milhão tota
hab. hab.
31 2.488.780 55.892 73.512 964 36.564 1.080 3,0 54.892
dez.
Fonte: Worldometers, 2020.
Contudo, em outubro de 2020 o número de casos e óbitos voltou a subir, o que levou o governo a retomar medidas de distanciamento social e de fechamento de espaços públicos para o mês de novembro
(UK Coronavirus..., 2020). Apesar das medidas adotadas, entre julho e dezembro de 2020 o país saltou de pouco mais de 300 mil casos totais para quase 2,5 milhões de casos de Covid-19.
O final do ano de 2020 e o início de 2021 no Reino Unido foram marcados tanto pela identificação de uma nova variante do Sars-CoV-2 quanto pelo início da campanha de vacinação. O Departamento de Saúde e Assistência Social iniciou a vacinação contra Covid-19 no dia 8 de dezembro de 2020, o que fez do Reino Unido o primeiro país do mundo a iniciar a imunização da população, com a administração da vacina produzida pela empresa farmacêutica Pzifer/Biontech. Na semana seguinte ao início da campanha vacinal, ao mesmo tempo que foi identificada uma nova variante do Sars-CoV-2, considerada mais contagiosa que as precedentes, o governo anunciou um relaxamento das regras adotadas para o isolamento social, que viria a ser cancelado em 19 de dezembro de 2020.
Na primeira fase da campanha, aproximadamente setenta hospitais receberam as doses do imunizante, e foram priorizados os profissionais da saúde, os profissionais que trabalham em instituições de cuidados
para idosos e os idosos com idade acima de 80 anos (Reino Unido...,
2020). Embora com as ações de vacinação evoluindo de forma mais lenta do que o previsto pelo NHS, mais de um 1,3 milhão de pessoas
haviam sido vacinadas no país até o dia 3 de janeiro de 2021 (Our
World in Data, 2021).
Governança na resposta à pandemia no
Reino Unido
As estratégias de governança adotadas pelo Reino Unido na resposta à pandemia assumiram contornos distintos ao longo de 2020, o que permitiu a delimitação de duas fases durante o período estudado.
A primeira fase da resposta governamental à pandemia corresponde ao período de identificação dos primeiros casos e óbitos de Covid-19 no Reino Unido e transcorreu nos dois primeiros meses de 2020. Nesse período, o primeiro-ministro assumiu a coordenação das medidas de controle da epidemia, adotando posicionamentos considerados hesitantes e até negacionistas com relação à gravidade
da Covid-19. Com um estilo concentrador de poder (Gaskell et al.,
2020), o governo assegurava que o país se encontrava extremamente bem preparado para o controle da situação, negligenciando a relevância das medidas de isolamento social e subestimando os efeitos protetores da decretação de lockdowns, que já estavam em
implementação no continente europeu (Sanders, 2020; How
Coronavirus..., 2020).
O receio de produzir medidas passíveis de rejeição pela população também pode ser notado nas deliberações do Scientific Advisory Group for Emergencies (Sage), o grupo de aconselhamento científico para emergências do Reino Unido. O Sage é um comitê constituído por uma equipe de especialistas, com a responsabilidade de aconselhar as autoridades governamentais sobre as ações de controle da Covid-19 e realizar parcerias com conselhos científicos e grupos de
especialistas.6 7 , Atualmente é presidido pelo conselheiro científico-chefe do Governo, sir Patrick Vallance, e copresidido pelo diretor médico, professor Chris Whitty, e inclui especialistas com atuação governamental e acadêmica, além de membros de instituições renomadas internacionalmente, como a Universidade de Oxford, o Imperial College London, a London School of Hygiene and Tropical Medicine, a Universidade de Cambridge e a Universidade de Manchester, entre outras. No início de 2020 o Sage recomendou ao governo que não fossem adotadas medidas de lockdown, com o argumento de que não havia transmissão comunitária do vírus no país (Sanders, 2020) e de que a população do Reino Unido estaria despreparada para aceitá-las (Scally, Bobbie & Abbasi, 2020).
Nesse contexto inicial, nas declarações governamentais transparecia uma postura complacente com a expectativa da população e pouco responsiva (Sanders, 2020). Enquanto eram divulgados dados sobre o avanço do número de casos e diversos setores demandavam a explicitação das medidas que seriam adotadas para a contenção de riscos, o governo foi incapaz de evitar a interrupção do programa de rastreamento domiciliar e testagem massiva, disponibilizando-a apenas em serviços hospitalares, ao mesmo tempo que as organizações de trabalhadores da saúde lançavam alertas sobre a falta de equipamentos de proteção individuais (EPIs) para os profissionais que estavam na linha de frente dos cuidados (Sanders, 2020). Essa condução governamental foi duramente criticada não apenas pelos
erros de coordenação e de comunicação cometidos (Gaskell et al.,
2020), mas também por indicar adesão à estratégia de permitir a propagação do vírus para desenvolver a imunidade de grupo na
população (Parker, Pickard & Hughes, 2020).
Contudo, com a tensão gerada pela progressão dos casos e pelo agravamento da situação epidemiológica no país, as lideranças políticas e técnico-consultivas perceberam a fragilidade da atuação governamental, retrocederam em seus posicionamentos e divulgaram, no início de março de 2020, o Coronavirus Action Plan: a guide to what
you can expect across the UK (United Kingdom, 2020c). O lançamento do plano de ação demarcou a tentativa de mudança na coordenação que vinha sendo assumida pelo governo. Em seguida, o Coronavirus Act 2020 foi discutido pelo Parlamento britânico e recebeu o consentimento real para se tornar lei, o que ampliou os poderes do governo para a adoção das medidas consideradas necessárias naquele
momento da pandemia (United Kingdom, 2020b).
Em 16 de março o primeiro-ministro realizou a primeira entrevista coletiva à imprensa sobre os delineamentos do plano, passando, desde então, a conceder atualizações diárias sobre a situação sanitária no
Reino Unido (Sanders, 2020; Coronavirus..., 2020). Essa iniciativa marca uma inflexão na estratégia de comunicação que vinha sendo adotada pelo primeiro-ministro e representantes de comunidades científicas, que passaram a estar presentes nas coletivas de imprensa (Sanders, 2020). Transparece nesse movimento o objetivo de recuperar a confiança da população, por meio de mensagens que procuravam ser mais diretas e claras a respeito das medidas governamentais e dos
rumos da epidemia (Parker, Pickard & Hughes, 2020).
No plano de ação foram apresentadas as diretrizes a serem seguidas pelas organizações governamentais e não governamentais envolvidas na contenção e no controle dos casos e a definição de responsabilidades das agências e autoridades de saúde pública, determinando que tais organizações estabeleceriam planos para detectar e isolar os casos de Covid-19. Foram também previstas estratégias de apoio e de coordenação das atividades de pesquisa, que incluíram o desenvolvimento rápido de testes específicos para o Sars-CoV-2, em parceria com a OMS e uma rede global de laboratórios. No plano se enfatizou também a relevância dos canais de articulação e de comunicação intra e extrassetoriais, com a proposição de medidas voltadas para a divulgação, entre os profissionais da saúde, dos protocolos para a identificação de casos suspeitos de Covid-19, bem como das medidas de quarentena e de isolamento a serem adotadas para aqueles que retornassem de áreas de risco. Além disso, o plano continha medidas de prevenção e de detecção de casos suspeitos nas aeronaves que chegassem ao Reino Unido, articulando o setor Saúde,
os operadores portuários e os transportadores (United Kingdom,
2020c).
Diante da manutenção do elevado número de casos e de óbitos, o governo adotou medidas progressivamente mais rígidas no que concerne às restrições à vida social e ao funcionamento da economia. O primeiro lockdown decretado no Reino Unido durou pouco mais de um mês, com início em 20 de março e término em 26 de abril de 2020. O segundo lockdown, caracterizado por determinações mais restritivas, foi comunicado em 31 de outubro e contemplou medidas como a proibição de reuniões e celebrações, mesmo que em ambientes e jardins privados, mantendo o fechamento, em todo o país, de pubs, bares, restaurantes, lojas de produtos não essenciais, academias,
locais de lazer e entretenimento (UK Coronavirus..., 2020; Covid-19...,
2020). Em janeiro de 2021 foi decretado o terceiro lockdown no país, com previsão de duração até meados de fevereiro.
Além do Sage, o governo tem contado com outros comitês consultivos, como o Civil Contingencies Committee, conhecido como Cobra, mobilizado para cuidar de contingências civis, grandes crises, atos de terrorismo ou desastres naturais, o New and Emerging Respiratory Virus Threats Advisory Group (NERVTAG), o Advisory Comittee on Dangerous Pathogens (ACDP) e o Joint Committee on
Vaccination and Immunisation (JCVI) (Rajan et al., 2020).
O JCVI tem assumido proeminência no cenário de controle da pandemia, por assessorar o Departamento de Saúde e Assistência Social nos assuntos voltados para a imunização. Em dezembro de 2020 o JCVI ratificou a eficácia e a segurança das vacinas da Pzifer-Biontech e da AstraZeneca, utilizadas na campanha vacinal então em curso no país, sugerindo que fosse priorizada a vacinação de mais pessoas com a primeira dose, e não a aplicação da segunda dose do
imunizante (United Kingdom, 2020d). A meta de vacinação da primeira dose nos quatro primeiros grupos priorizados foi cumprida em fevereiro de 2021, correspondendo a aproximadamente 15 milhões de pessoas imunizadas no país.
A exemplo do que tem ocorrido em outros países do continente europeu, o governo enfrentou manifestações de movimentos anti-lockdown e antivacinação, sobretudo nos períodos anteriores à
implementação de medidas de restrição (Carothers & Press, 2020). Não obstante essas reações, no início de 2021, ao mesmo tempo que alguns setores alegavam que o Coronavirus Act e outras legislações implementadas durante a pandemia são estratégias de violação das liberdades individuais dos cidadãos, o governo de Boris Johnson passou a ser reconhecido pela agilidade no desencadeamento e condução da campanha vacinal, agregando novos apoios e se permitindo até definir prazos para o controle da pandemia no país
(McGee, 2021).
Panorama das estratégias
suprassetoriais no enfrentamento da
pandemia
As estratégias suprassetoriais adotadas pelo Reino Unido incluem medidas de caráter econômico, assistencial e as voltadas para o controle dos fluxos de pessoas e mercadorias. No âmbito econômico, essas iniciativas foram predominantemente orientadas para a preservação das atividades produtivas, visando à proteção dos locais de trabalho e da saúde dos trabalhadores.
A pandemia da Covid-19 elevou o número de desempregados, atingindo de forma mais intensa os grupos etários que estão entrando no mercado de trabalho (entre 16 e 24 anos) e os que estão saindo (65 anos ou mais). Cerca de 7% da população nessas faixas etárias estão desempregados, sendo afetados de forma desproporcional os trabalhadores de grupos de minorias étnicas, mulheres, jovens trabalhadores, trabalhadores com vínculos vulneráveis e com
deficiência (House of Commons, 2020). Esses grupos têm menor probabilidade de trabalhar em home office e maior probabilidade de trabalhar nos setores fechados pelos lockdowns, além de serem mais expostos aos riscos de adoecimento e morte pelo vírus.
As medidas aplicadas pelo governo britânico na área econômica envolveram a liberação de recursos para o Health and Safe Executive (HSE) e contemplaram desde a publicação de orientações para ajudar os empregadores a manter o funcionamento dos locais de trabalho em segurança até o desbloqueio, a partir de março de 2020, de recursos orçamentários adicionais, destinados às empresas de tecnologia que apresentassem soluções de suporte digital para trabalhadores em atividades de home office. Nesse sentido, foram adotadas estratégias para minimizar o impacto que a Covid-19 teve sobre os trabalhadores, como o Self-Employment Income Support Scheme (SEISS), que fornece apoio aos trabalhadores autônomos na forma de bolsas, e o Coronavirus Job Retention Scheme (CJRS), que oferece subsídios para cobrir uma proporção dos salários dos trabalhadores licenciados das empresas. Ambos foram estendidos para 2021, o primeiro até abril e o segundo até março. Ainda no sentido de proporcionar condições de subsistência aos profissionais e famílias em condições de isolamento, o governo viabilizou por intermédio das empresas um suporte financeiro para as famílias com pessoas com deficiências físicas ou mentais. O financiamento destinado para esse suporte foi de até 25.000 libras por empresa.
No âmbito da assistência social, com o Plano de Ação para a Assistência Social, publicado em abril de 2020, objetivou-se expandir o contingente de trabalhadores na área social, superar a fragmentação organizacional do setor e priorizar grupos populacionais formados por idosos, mulheres e minorias étnicas. Além das modalidades assistenciais destinadas aos trabalhadores inseridos no mercado formal de trabalho, foram previstos auxílios emergenciais suplementares, liberados em etapas para as autoridades locais. Foram concedidos auxílios aos indivíduos acometidos pela Covid-19 no período compreendido entre a hospitalização e a pós-hospitalização, extensivos às suas famílias e adaptados à duração do período de
isolamento, mediante a realização do 8 NHS Test and Trace , desde que comprovadas a necessidade e a impossibilidade de trabalhar
(Bingham, 2020). As ações previstas no plano governamental asseguraram ainda auxílios financeiros para instituições de caridade localizadas tanto em território britânico quanto em países em desenvolvimento, com elevação das doações realizadas pelo Reino Unido para 744 milhões de libras, incluídas as transferências direcionadas às agências da Organização das Nações Unidas (ONU), à OMS e à Cruz Vermelha. Suplementarmente, em junho de 2020 o governo anunciou medidas voltadas para a proteção de locatários em situação de inadimplência, com a proibição de ações de despejo contra pessoas afetadas pela Covid-19.
Na esfera das medidas protetivas destinadas ao controle dos fluxos de pessoas nos espaços recreativos e de lazer, a atuação do governo se pautou pela viabilização do cumprimento das regras de distanciamento social, que incluíram, a partir de maio de 2020, a fiscalização do uso de máscaras em ambientes públicos e as restrições à realização de reuniões e ao recebimento de hóspedes, mesmo que em espaços privados e domiciliares. Foram interditadas as reuniões em grupos de mais de seis pessoas, com a participação de famílias residentes em domicílios distintos, em ambientes externos ou internos, inclusive em residências particulares.
Desde julho de 2020 foram instituídas normas voltadas para a simplificação e a redução de custos de licenciamento para bares, restaurantes e cafés, cujas mesas e barracas tiveram seu funcionamento autorizado ao ar livre, o que viabilizou o uso de estacionamentos e terraços como áreas destinadas ao consumo de refeições e bebidas. Os espaços destinados às atividades de lazer e ao condicionamento físico foram objeto de regulamentação específica, com a desativação de todas as instalações desportivas cobertas ou fechadas em março de 2020. A reabertura gradual, e em condições controladas, desses espaços ocorreu a partir de julho de 2020, desde que sujeita ao cumprimento de normas de distanciamento social e das estritas medidas de segurança sanitária em vigor, que incluem o respeito às regras de higiene, a limitação do número de pessoas, a garantia de ventilação e a marcação no chão para as atividades coletivas.
Ainda no tocante às atividades de lazer e de turismo, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido manteve, entre março e julho de 2020, a recomendação aos residentes no país de que voltassem para casa, desaconselhando a realização de todas as viagens internacionais não essenciais. Nesse período, os portos e aeroportos permaneceram em funcionamento, com a finalidade de assegurar repatriamentos. A partir de julho de 2020 foram emitidas determinações de restrição desses fluxos, que previam o fornecimento de informações e de contatos para passageiros provenientes de países específicos na chegada ao Reino Unido, bem como a recomendação de autoisolamento para os casos considerados suspeitos ou com teste positivo, à exceção dos viajantes incluídos na lista de isentos. A verificação dessas situações é feita pelas forças de fiscalização das fronteiras, sendo previstas multas para os viajantes que se recusem a fornecer seus dados de contato. Reconhecida a relevância das parcerias com os países da Europa continental, os fluxos rodoviários de cargas foram considerados essenciais durante todo o período estudado, razão pela qual não foram objeto de interrupção durante a crise causada pela pandemia.
A resposta do sistema de saúde para o
controle da crise sanitária
Diante do aumento crescente de casos de Covid-19 no decorrer de 2020, o Departamento de Saúde e Assistência Social recomendou mudanças radicais na organização dos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) do NHS. Para a maioria das clínicas de APS, essas mudanças começaram a partir de 16 de março de 2020, com as práticas gerais sendo alteradas, do modelo tradicional face to face para avaliações por telefone ou videochamadas, além do registro prévio dos pacientes, para reservar horário e evitar consultas presenciais.
Em abril, os profissionais da APS passaram a usar EPIs e os pacientes com sintomas passaram a ser encaminhados para centros especializados. São exemplos de mudanças na infraestrutura de tecnologia na APS/NHS em articulação com o NHS Digital e NHSX a informatização completa de todos os registros médicos eletrônicos; a conexão para o acesso dos pacientes aos serviços; a reserva de consultas médicas; os pedidos de prescrições e o envio de receitas eletrônicas para farmácias de escolha do paciente em qualquer local do Reino Unido. Essas mudanças permitiram aos general practitioners trabalhar remotamente, com acesso aos prontuários do sistema, e às equipes de APS se manterem disponíveis para chamadas gratuitas no 111 NHS (Majeed, Maile & Bindman, 2020).
Em conjunto com as estratégias implementadas na APS, foram desenvolvidas ações de divulgação, contato, rastreamento e controle dos casos de Covid-19. Boris Johnson, após ter sido contaminado pelo Sars-CoV-2 no final de março de 2020 e encaminhado para uma unidade de terapia intensiva, passou a incentivar as medidas de prevenção e de distanciamento social nos pronunciamentos oficiais
(Coronavirus..., 2020). Desde março, relatórios detalhados passaram a ser divulgados semanalmente, informando sobre as ações de vigilância
e atenção à saúde no site da Public Health England (PHE)9 (United
Kingdom, 2020c), com dados sobre os novos casos confirmados, as taxas de incidência por região, o rastreamento dos contatos realizado no âmbito da estratégia NHS Test and Trace, o monitoramento por meio do serviço NHS 111, os sistemas de vigilância baseados na internet
sobre consultas realizadas no site de buscas do Google10 e a utilização da ferramenta da web Flusurvey, que permite monitorar as tendências da Covid-19 no Reino Unido (ECDC, 2020).
Foi estabelecida uma abordagem nacional para testar pessoas suspeitas de exposição à Covid-19 por intermédio do The Oxford Royal College of General Practitioners Research and Surveillance Centre (RCGP RSC), que é uma rede de general practitioners (GPs) com representação nacional, que fornece dados pseudonimizados para a
vigilância semanal de doenças infecciosas (Lusignan et al., 2020). Ao mesmo tempo, e separadamente, a vigilância do RCGP RSC foi estendida para monitorar a distribuição temporal e geográfica na comunidade e avaliar a eficácia das estratégias de contenção. A atuação do RCGP RSC engloba aproximadamente 500 GPs e inclui o monitoramento de doenças semelhantes à influenza e outras doenças transmissíveis e respiratórias na Inglaterra, com produção de relatórios anuais. O conjunto de dados do RCGP RSC inclui todos os dados codificados, prescrições e vacinas. Foram criadas estratégias de vigilância sindrômica para monitoramento do número diário de consultas nas General Practices e dos casos de pacientes com sintomas respiratórios, incluindo casos de Covid-19, das visitas diárias não agendadas e das ligações para os GPs fora do seu horário de funcionamento (GP In Hours (GPIH) e GP Out of Hours (GPOOH).
Na atenção secundária, os Severe Respiratory Failure Centres (SRFs) são responsáveis pela coleta de dados de todos os pacientes aceitos por esses centros. Atualmente existem seis desses centros no Reino Unido, cinco na Inglaterra e um na Escócia. O sistema de vigilância sindrômica permite monitorar o número de visitas de pessoas aos hospitais com sintomas respiratórios mediante a articulação dos resultados fornecidos pelos laboratórios. O sistema on-line Covid-19 Hospitalization in England Surveillance System (CHESS) permite realizar o controle e a testagem dos pacientes com infecções respiratórias graves, comunicando os resultados à PHE.
As ações relacionadas à vigilância genômica assumiram proeminência na resposta do sistema de saúde do Reino Unido. Em março de 2020 foi lançado o Coronavirus Disease 2019 (Covid-19) Genomics UK Consortium (COG-UK), viabilizado por um investimento de 20 milhões de euros do UK Research and Innovation, do UK Department of Health and Social Care e da Wellcome Trust. O objetivo desse consórcio é sequenciar o Sars-CoV-2 em até 230 mil pacientes, profissionais da saúde e outros trabalhadores essenciais no Reino Unido com Covid-19, rastrear a transmissão do Sars-CoV-2, identificar mutações virais e integrar os registros obtidos com os dados de saúde, para avaliar como o genoma viral interage com cofatores e consequências da Covid-19. Os resultados dessa iniciativa estão orientando a gestão do NHS e os relatórios semanais do Sage. Essa é a primeira iniciativa na qual a epidemiologia genômica em larga escala tem sido usada para orientar e informar a resposta da saúde pública a uma pandemia no Reino Unido, preparando o sistema para servir como ferramenta central para o rastreamento de surtos em pandemias futuras.
O COG-UK é coordenado a partir de um hub integrado (baseado entre a Universidade de Cambridge e o Wellcome Sanger Institute, ambos em Cambridge, UK), com coleta de amostra e sequenciamento ocorrendo em múltiplas organizações em todo o país. Esse modelo descentralizado permite o sequenciamento rápido e o acesso nacionalmente equitativo. O núcleo do COG-UK é formado em torno de uma rede de centros de sequenciamento em instituições acadêmicas e agências de saúde pública. O sequenciamento realizado em centros de sequenciamento regional é feito em tempo quase real, com resposta em 24 a 48 horas e dados interpretados e usados localmente.
O Wellcome Sanger Institute oferece grande capacidade de sequenciamento nacional, usando sequenciamento de alto rendimento e baixo custo para hospitais do Reino Unido que não têm recursos de sequenciamento (parceiros contribuintes) e centros nacionais de testes para trabalhadores-chave. Para aumentar o valor dos dados de sequência, foi criado um conjunto de dados integrados, conectando os dados de genoma viral com os dados multidimensionais de pacientes de fontes clínicas e epidemiológicas. Os acessos foram feitos a partir de registros existentes do NHS e fontes relacionadas, para evitar sobrecarregar os funcionários do NHS.
O consórcio fornece um conjunto de dados com análise semanal para o Sage, com foco em: transmissão local versus casos importados; taxas de crescimento epidêmico; correntes de transmissão; mudanças genéticas observadas e identificação de mudanças genômicas que podem afetar os testes de diagnóstico comuns ou terapias diretas (por exemplo, quimioterápicos) ou indiretas. O site tem publicações de acesso aberto, análises regionais e resumos de dados adequados para o público geral.
Até o início de janeiro de 2021, das mais de 323 mil sequências publicadas sobre vigilância genômica do Sars-CoV-2, cerca de 42% (137 mil) genomas foram sequenciados pelo COG-UK, o maior número de qualquer país até o momento. Honrando o compromisso de colaboração global, os dados sobre vigilância genômica têm sido compartilhados no site do Wellcome Sanger Institute e publicados na
plataforma de acesso de dados aberto Gisaid (COG-UK, 2020; Toledo,
2021).
O Reino Unido foi o primeiro país do mundo a iniciar uma campanha de vacinação contra a Covid-19. Após pouco mais de um mês desde o início da campanha, em dezembro de 2020, cerca de 12,5% da população (profissionais da saúde, da assistência social e idosos acima de 80 anos) havia sido vacinada com a primeira dose e 0,7% com a
segunda dose (Elgot & Walker, 2021). Até o início de 2021, dois imunizantes estavam sendo utilizados no país: a vacina produzida pela Pfizer/Biontech (desde dezembro de 2020) e a produzida pela Oxford/AstraZeneca (desde janeiro de 2021). Enquanto isso, a vacina da Moderna foi aprovada pela Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency (em janeiro de 2021), o que a habilita para uso no país. O governo prevê que até meados de fevereiro de 2021, 21% da população pertencente aos grupos prioritários estejam vacinados. Esse contingente inclui todos os residentes em abrigos para idosos; toda a população com mais de 70 anos; os trabalhadores da linha de frente das áreas da saúde e da assistência social e os indivíduos portadores de condições clínicas que os classificam como vulneráveis aos quadros graves da Covid-19.
Conclusões
A análise da experiência do Reino Unido no enfrentamento da Covid-19 evidenciou variáveis de natureza política, econômica e organizacional que teriam interferido na trajetória percorrida pela pandemia no país. Com relação aos aspectos políticos, o posicionamento claudicante do primeiro-ministro tem sido identificado como responsável pelo atraso de uma série de medidas para a contenção da Covid-19 nos primeiros meses da pandemia. Apesar da experiência prévia na condução e no controle de situações de emergências sanitárias internas e em outros países, a atitude governamental de não decretar medidas de lockdown e interromper estratégias adotadas para o processo de testagem dos casos nas primeiras semanas da pandemia, em contraponto ao que fizeram outros países europeus (Scally, Bobbie & Abbasi, 2020), potencializou as dificuldades que desafiaram o NHS em diferentes níveis.
Outra variável a ser realçada nesse processo remete às condições postas pela saída do Reino Unido da Comunidade Europeia. A preparação para o Brexit sem que tenha havido um acordo prévio obrigou o país a destinar parte importante dos recursos nacionais ao financiamento dos arranjos que se interpuseram à saída do bloco europeu, o que repercutiu na distribuição dos recursos internos ao país e agravou a situação de escassez de materiais e insumos para as necessidades do NHS (Davies et al., 2020). Esse processo político produziu consequências econômicas para o sistema de saúde, exacerbando uma situação resultante de políticas de contenção dos gastos setoriais e de austeridade fiscal que vinham sendo adotadas no país desde a crise econômica de 2008 (Giovanella & Stegmüller, 2014;
Stuckler et al., 2017; Marmot & Allen, 2020).
O cenário econômico adverso tem produzido efeitos sobre a conformação social do Reino Unido, país que, apesar de rico, apresenta altos níveis de desigualdade social, especialmente na Inglaterra. Como indicado anteriormente, a pandemia de Covid-19 expôs e amplificou as desigualdades sociais presentes na sociedade
(Marmot & Allen, 2020), piorando os indicadores de saúde da população que vive em áreas socialmente mais vulneráveis e aumentando as desigualdades em saúde da população em geral (Marmot et al., 2020).
Outro conjunto de variáveis importantes para a compreensão do caso relaciona-se à forte presença institucional do NHS no cenário da crise causada pela pandemia. Em primeiro lugar, merece realce a sólida articulação preexistente entre o NHS, as agências de saúde pública, as instituições acadêmicas e de pesquisa especializada e os demais setores da indústria farmacêutica, o que possibilitou a condução de pesquisas e de testes voltados para o desenvolvimento de uma vacina com a eficácia necessária ao controle da Covid-19, simbolizada sobretudo pela parceria estabelecida entre a Universidade de Oxford e a empresa biofarmacêutica AstraZeneca. Ademais, os consórcios entre o Departamento de Saúde e Assistência Social e as instituições envolvidas com processos de vigilância genômica possibilitaram a identificação e o rastreamento de uma nova cepa do Sars-CoV-2
(COG-UK, 2020), o que tem beneficiado a população não apenas do Reino Unido, mas de inúmeros outros países. Nesse sentido, o Reino Unido muito se beneficiou dessa colaboração, destacando-se como o país que tem realizado o maior número de sequenciamentos genéticos até o momento.
Em segundo lugar, a configuração assistencial do NHS é outro aspecto a ser salientado, por ser um sistema público, de caráter universal e considerado referência internacional. De fato, o NHS tem como um dos seus pilares uma rede de atenção construída a partir de uma APS forte e abrangente, organizada em base territorial e populacional, que atua como porta de entrada do sistema e opera de forma articulada e coordenada com os diferentes níveis de atenção à saúde (Filippon et al., 2016).
Isso posto, o caráter abrangente e universal do sistema de saúde do Reino Unido foi identificado como fator decisivo para a compreensão do cenário no qual foram organizadas as respostas à crise gerada pela pandemia no país. Embora contingências, sobretudo de natureza política, tenham retardado a resposta institucional à situação posta pela pandemia e produzido lacunas entre as experiências institucionais pregressas e as ações implementadas, são crescentes as expectativas de que, passados os obstáculos iniciais, o país possa, amparado nos resultados da campanha vacinal em curso, superar o preocupante quadro de morbimortalidade que remanesce até o momento atual.
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