Receitas cristãs

José da Silva de Jesus · Capítulo 9 de 18

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Receitas cristãs

Felicidade para poucos. ............................................................................

 

Frequentemente em conversas com amigos em que falamos sobre as dificuldades e problemas comuns desta vida, surge algum comentário com a ideia de que a felicidade só foi feita para poucos. Quase sempre esta ideia está ligada ao conceito errôneo de que dinheiro significa felicidade, conceito este que aos poucos vamos conseguindo deixar para traz, pois “a riqueza é, de ordinário, a prova mais perigosa do que a miséria.” Mas esta ideia, de que a felicidade só é possível para poucos, está ancorada em outra ideia, a de que a riqueza, que acreditam ser necessária à felicidade, só é possível para poucos.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos a afirmação de que “Está matematicamente demonstrado que, se a riqueza fosse igualmente repartida, daria a cada qual uma parte mínima e insuficiente;” (cap. 16, 8) o que parece corroborar a ideia de que esta riqueza com a qual muitos sonham, não é possível para todos. A afirmação faz sentido, pois a própria definição de riqueza já traz em si a ideia de que esta é uma condição restrita a uma minoria, pois, riqueza exprime uma relação de proporção, assim como os conceitos de claro e escuro, alto e baixo, rápido e lento etc. riqueza e pobreza são grandezas relativas, não se pode ser rico se não houver outros em situação pior com quem se possa comparar, ninguém é rico ou pobre se não puder ser comparado com mais alguém. Portanto faz sentido a ideia de que uma riqueza distribuída a todos, eliminaria automaticamente todas as riquezas.

Já em outro trecho do mesmo livro lemos que “A Terra produzirá o suficiente para alimentar a todos os seus habitantes quando os homens souberem administrar os bens que ela dá, segundo as leis de justiça, de caridade e de amor ao próximo. Quando a fraternidade reinar entre os diversos povos, como entre as províncias de um mesmo império, o supérfluo momentâneo de um suprirá a insuficiência momentânea do outro, e todos terão o necessário.” (cap. 25, 8) E ainda em “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem. Toda religião e toda moral se encontram nesses dois ensinamentos. Se eles fossem seguidos aqui na Terra, seríeis todos perfeitos, sem ódios, sem conflitos. Direi mais ainda: sem pobreza, visto que, do excesso das sobras da mesa dos ricos, muitos pobres se alimentariam.” (cap. 13,9) Destas duas últimas citações podemos concluir que toda pobreza e toda privação do necessário existente hoje na terra, se devem à própria inferioridade de nossas estruturas sociais que refletem nosso egoísmo e impedem “a fraternidade reinar entre os diversos povos”.

Podemos ainda pensar em dois sentidos para a riqueza, o primeiro significaria ter muitos bens, ser muito rico em relação aos demais homens, o que equivalia a ter alguns bois na idade média, ou a ter milhares de bois nos dias atuais. O outro sentido de “riqueza” significaria apenas ter suas necessidades satisfeitas, o que pode acontecer quando se tem muito no caso do egoísta, ou quando se tem o equivalente à média dos outros homens, no caso das pessoas menos egoístas. Neste segundo sentido “riqueza” ou a parcela de bens suficiente para aliviar o sofrimento e não atrapalhar a felicidade do homem, é possível sim para todos, conforme explicam os espíritos.

Contrariando também aquela ideia de que a felicidade (entendida como a satisfação das necessidades materiais) não é possível para todos e que temos de nos conformar em viver em um mundo onde alguns estão naturalmente destinados a sofrer, podemos citar o exemplo do exercício proposto pelo filósofo Michael Sandel. Ele pede para que imaginemos uma cidade onde todos pudessem ter todos os bens necessários a uma vida confortável e feliz, mas sob a condição de que uma criança teria de ficar isolada em uma condição muito ruim e sofrendo sozinha. O pensador argumenta que não pode ser justo um sistema em que a felicidade de uns dependa da infelicidade de outros, mesmo que seja a infelicidade de apenas uma pessoa e que no geral a média da felicidade de todos fosse muito maior do que antes. O espiritismo nos ensina algo parecido ao expor a falta de lógica na ideia da igreja tradicional de que os espíritos no céu conseguiriam ser eternamente felizes, ao mesmo tempo em que alguns de seus entes queridos arderiam eternamente no inferno.

Esta felicidade dos eleitos no paraíso ou dos habitantes daquela cidade imaginária é uma felicidade egoísta, e não pode ser considerada uma felicidade real, mas apenas a satisfação de desejos egoístas, pois a real felicidade é aquela baseada no amor ao próximo, a felicidade daquele que vê os outros felizes. Mas teorias baseadas neste conceito distorcido de felicidade são bastante comuns no discurso político. Recentemente no Brasil vimos ressurgir no debate sobre o a reforma do sistema previdenciário, ideias que trazem na sua raiz este conceito distorcido de felicidade. Muitos insistem que é necessário impor mudanças que na prática irão excluir o direito a aposentadoria de milhões, para que seja possível “salvar o sistema” e manter os benefícios para pelo menos alguns, mas será que um sistema que não garante um mínimo de dignidade para todos já não é em si um sistema falido? Teorias econômicas que pregam ideias como a do “crescer o bolo para depois dividir” também possuem raízes neste mesmo tipo de filosofia egoísta em que o sofrimento de alguns é apresentado como necessário ao “bem-estar geral”.

Uma sociedade que se possa chamar de cristã, não pode ser aquela onde a felicidade de uns depende de um sistema onde alguns sempre deverão ficar excluídos. Onde a “felicidade” ou a satisfação das necessidades materiais básicas, não seja possível para todos, mas apenas privilégio de uma minoria. Se o nível atual de tecnologia e capacidade produtiva não permite que todos tenham um alto padrão de vida com que alguns sonham, então não é justo que em busca deste alto padrão, uma minoria tire da maioria o direito ao básico. E mesmo que exista crescimento econômico e que os especialistas na TV estejam muito satisfeitos com os números dos rendimentos desta minoria, uma economia que não forneça o básico para uma grande parcela da população não poderá nunca ser considerada uma economia saldável.

Toda esta distorção de valores é apenas um reflexo das nossas imperfeiçoes, do nosso materialismo. O espiritismo, sendo uma doutrina que provém dos espíritos que conhecem as raízes dos nossos problemas, oferece soluções lógicas e simples para as nossas questões sociais. Ao invés de propor soluções mirabolantes, propõe simplesmente a caridade e a solidariedade como sistema universal de governo. Ao invés de apoiar o homem tolo na sua busca por uma felicidade baseada na satisfação de seus caprichos, explica que a satisfação das paixões é motivo para que o homem não evolua “O homem que se considera feliz na Terra, porque pode satisfazer às suas paixões, é o que menos esforços emprega para se melhorar. Muitas vezes começa a sua expiação já nessa mesma vida de efêmera felicidade, mas certamente expiará noutra existência tão material quanto aquela.” (Questão 983) E ainda “O homem carnal, mais preso à vida corpórea do que à vida espiritual tem, na Terra, penas e gozos materiais. Sua felicidade consiste na satisfação fugaz de todos os seus desejos. Sua alma, constantemente preocupada e angustiada pelas vicissitudes da vida, se conserva numa ansiedade e numa tortura perpétuas” (Questão 941).

Em o livro dos espíritos encontramos ainda uma explicação do que consiste a felicidade para o espírito encarnado neste planeta, na questão 922: “A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de felicidade comum a todos os homens? Resposta: Com relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranqüila e a fé no futuro.” Os espíritos separam os conceitos de felicidade em relação à vida material e felicidade em relação à vida moral, afirmando que a felicidade possível para todos os homens em relação à vida material consiste na “posse do necessário”, já em relação à vida moral “a consciência tranqüila e a fé no futuro”. Pois é justamente a cegueira em relação à felicidade da vida moral que faz os homens tentarem preencher este vazio, se concentrando na acumulação dos bens materiais, como se um excesso de um tipo pudesse suprir a falta do outro. O resultado é que justamente a acumulação inútil de uns é que impede a “posse do necessário” aos outros.

Ainda em O Livro dos Espíritos vemos que ao contrário da grande maioria dos homens apegados ao materialismo “O homem moral, que se colocou acima das necessidades factícias criadas pelas paixões, já neste mundo experimenta gozos que o homem material desconhece. A moderação de seus desejos lhe dá ao Espírito calma e serenidade” (Questão 941). Este homem não tenta preencher o vazio moral com um excesso de felicidade material, ele busca apenas a posse do necessário, aquela que é possível a todos, e vai preencher sua felicidade moral com o trabalho em favor do próximo. A busca por esta felicidade, que é possível a todos, impõe que devemos em primeiro lugar mudar nosso foco, desistindo da corrida inútil que tenta preencher o vazio moral com excesso material, e assim também acabamos incentivando os outros à nossa volta a adotarem um estilo de vida mais simples. A solução para os problemas sociais e econômicos não é tão complicada quanto muitos fazem parecer, não faltam nem recursos nem pessoas dispostas a trabalhar duro oferecendo sua contribuição à sociedade. Como sempre, o que falta mesmo ao homem é um pouco mais de amor ao próximo.