Receitas cristãs
Meu dinheiro honesto ...............................................................................
É comum ouvirmos alguém dizer ou às vezes nós mesmos falamos frase: “é meu dinheiro ganho honestamente, então faço o que quiser com ele”. Não pretendemos falar sobre o que cada pessoa deve fazer com o seu dinheiro, mas apenas pensar um pouco se esta ideia está correta, se aquilo que eu consigo ganhar obedecendo às leis vigentes pode sempre ser considerado honesto.
O conceito de honesto e desonesto muda muito, a cultura muda com o tempo e as leis mudam com ela. Em um determinado século, a prática de cobrar juros por um empréstimo era um crime punível com a morte, no século seguinte uma atividade normal. Num determinado período a escravidão era uma prática normal e apenas umas poucas décadas depois já era um era crime gravíssimo. Conforme explicado na questão nº797 de O Livro dos Espíritos: “797. Como poderá o homem ser levado a reformar suas leis? R: “Isso ocorre naturalmente, pela força mesma das coisas e da influência das pessoas o guiam na senda do progresso. Muitas já ele reformou e muitas outras reformará. Espera!”
Estes dois exemplos de leis que citamos são na verdade mudanças culturais que se desenvolveram gradualmente e quando finalmente ganharam a força necessária, provocaram a mudança nas leis, para que elas se adequassem aos costumes. Mas além destes exemplos de leis que mudam conforme o progresso da cultura, de que trata a questão respondida em O livro dos Espíritos, existem outros exemplos de mudanças mais rápidas, pois as leis são feitas por pessoas e é comum vermos pessoas tentando mudar leis em benefício próprio, como no caso do empresário que financia a campanha eleitoral de um futuro legislador. Em outros casos, grupos de pessoas com interesses comuns podem exercer pressão para que certas leis sejam mudadas, mas nem sempre numa ação consciente e planejada como a do empresário corrupto e pode ocorrer que um grupo exerça uma pressão acreditando que uma mudança seja benéfica para todos, mesmo que não seja. Mas seja qual for a forma como as leis mudem, toda mudança nas leis, desde que feita de acordo com o devido processo, é geralmente considerada justa, legal e moralmente aceitável.
Assim, o conceito de justo e honesto perante as leis dos homens pode mudar de um dia para outro. A maioria das pessoas enxerga a classe política como digna de pouca ou nenhuma confiança, mas se um político faz uma mudança que me beneficia, ai esqueço rapidamente aquele conceito negativo que eu tinha dele e não vejo problema nenhum em me beneficiar da nova lei. Um entre muitos exemplos recentes que poderíamos citar no Brasil é o do programa de parcelamento de dívidas tributárias.
A sonegação de impostos é um crime com pena de vários anos de cadeia e o motivo disto é bem compreensível, pois este dinheiro usurpado é dinheiro que faltou para o aparelho de respiração dos bebes recém nascidos, ou o conserto da viatura quebrada da polícia ou do carro de bombeiros que evitaria uma tragédia. Não é um crime leve, as consequências do crime, apesar de não estarem ligadas diretamente, são bem previsíveis. Mas com a mudança na lei e a possibilidade de parcelamento e a anulação de multas e juros, me torno honesto novamente perante a lei. O meu crime desaparece, apesar de todas as consequências do crime não terem desaparecido, com a simples assinatura de uma lei eu fico livre para gastar o dinheiro que economizei e posso dizer que ninguém tem nada com isso porque “é o meu dinheiro honesto”.
Um outro exemplo, que não tem nada a ver com mudanças na lei, é o do patrão que promete uma promoção ao empregado com a intenção de ver este empregado rendendo mais sem ter a intenção de realmente efetivar esta promoção. Este patrão não está violando lei nenhuma, mas está enriquecendo às custas do esforço do empregado iludido. O patrão não pode ser punido, mesmo que tenha causado grande desilusão e até um atraso na vida profissional do empregado. Esta é uma situação muito comum e, apesar do prejuízo pessoal para o empregado, não é um caso que possa ser levado à justiça, pois o patrão apenas irá alegar que as condições do negócio não permitiam a promoção. Para todos os efeitos, este patrão agiu de acordo com as nossas leis e seus lucros extras são um dinheiro considerado honesto.
A má vontade com que um empregado executa suas funções também podem ser objeto do mesmo tipo de questionamento. Mais grave ainda seria o desleixo de um funcionário pago com dinheiro público, por exemplo, quando este deixa de trabalhar porque passa parte do dia mergulhado em livros estudando para prestar um outro concurso, para um cargo melhor e mais respeitável, como por exemplo o de juiz. É uma prática quase que invisível e difícil de ser coibida. Quando finalmente for aprovado ele dirá, cheio de orgulho, que conquistou sua respeitável posição graças a grande esforço individual e que merece cada centavo de seu bom salário.
Mas a intenção aqui não é sair criticando todas as pequenas fortunas ou o mérito das pessoas em posição de destaque, estes exemplos servem para que possamos fazer uma autocritica. Pois dos outros nós sempre sabemos muito pouco, sempre muito menos do que julgamos saber, já a respeito de nós mesmos não podemos alegar a mesma ignorância. Não sabemos exatamente como o dinheiro do próximo foi ganho, não temos como saber exatamente o nível de esclarecimento do dono de um estabelecimento que aparentemente explora seus empregados, é difícil diferenciar ignorância de malícia, apenas a própria consciência de cada um é que pode julgar com exatidão estas atitudes. Não sabemos também as necessidades de cada um, o que parece muito para mim pode ser na verdade pouco perante a responsabilidade de sustentar diversos familiares. Não sabemos também as obras de caridade que o próximo pratica, ele pode ser um bom seguidor do conselho de que “sua mão direita não saiba o que faz a esquerda”.
Vemos que a conformidade com as leis humanas não pode ser considerada medida exata de justiça perante a lei de Deus, então para fazer um julgamento adequado de minha própria consciência, resta estabelecer qual a medida da verdadeira justiça, quando e como posso me assegurar de que aquilo que ganhei está de pleno acordo com a justiça? Não perante a justiça e as leis falhas dos homens, mas perante a lei máxima do amor ao próximo, perante o mandamento “faça aos outros como gostaria que lhe fizessem”.
No evangelho de Jesus não vemos o mestre estabelecer leis precisas de riqueza ou pobreza. Jesus disse ao jovem rico: “venda tudo o que tem, dê aos pobres e me siga” já sabendo que ele não seguiria seu conselho, mas para deixar claro que a abastança e o orgulho não combinam com a humildade dos que entram para o reino dos céus. Mas é claro que este é um exemplo radical e é impossível que todas as pessoas vendam tudo o que tem e passem a viver de doações, pois, num mundo material as necessidades materiais precisam ser atendidas por meio do trabalho. Um exemplo recente de uma alma iluminada com a qual podemos comparar nossas atitudes é o de Chico Xavier, que poderia ter ganho milhões e mesmo assim trabalhou em atividade humilde como funcionário público até se aposentar e terminou sua vida na mesma humildade em que nasceu.
A recusa de Chico Xavier em usufruir de todo o conforto material que poderia ter acesso é um lembrete de que as nossas leis são falhas. O que é considerado justo pelas nossas leis, muitas vezes é injusto segundo as leis divinas que, pela regra simples do “faça aos outros o que gostaria que lhe fizessem”, impõe uma igualdade não só de direitos e deveres, mas também de trabalho e de lazer, de conforto e de sacrifício.
Sendo as nossas leis imperfeitas, não existe medida legalmente estabelecida que possa ser considerada uma medida de plena justiça. A única medida possível de honestidade e de merecimento por um determinado padrão de conforto material é uma comparação com a média geral, e esta é uma comparação que só pode ser feita pelo próprio indivíduo. Uma auto crítica das próprias condições, perguntando-se por exemplo: Será que eu trabalho mais ou menos que a média das pessoas? Será que meu padrão de vida é abaixo ou acima da maioria das pessoas? Se eu trabalho razoavelmente bem ou mesmo acima da média e vivo num padrão médio ou mesmo abaixo da média das outras pessoas, então não posso me considerar como uma fonte de desequilíbrio ou um abusador das facilidades que a vida me ofereceu. Mas se eu trabalho igual ou até um pouco menos que a média de um trabalhador comum e vivo uma vida bem confortável, ai pode ser que eu esteja me beneficiando das leis humanas imperfeitas.
A melhor lei, a melhor forma para estabelecer a verdadeira justiça entre os homens é a lei do amor ao próximo, que Deus planta no coração de cada indivíduo e que se torna mais clara conforme progredimos. Por isso precisamos sempre estudar a nós mesmos e nos tornarmos conscientes de nossa posição e assim quem sabe podemos perceber quando nos tornarmos uma fonte de desequilíbrio. Quem sabe podemos perder o costume de aceitar todas as vantagens e todas as oportunidades de lucro, ao mesmo tempo em que rejeitamos tudo o que nos traga um mínimo prejuízo. Quem sabe até podemos ter o privilégio de abrir mão de alguma vantagem injusta devolvendo alguma coisa para a sociedade em forma de caridade e dizer: “eu não preciso disto” ou “isto é mais do que eu preciso e mais do que mereço”. Reconhecemos que estamos distantes da humildade das almas iluminadas que nos servem de exemplo, mas que sabe assim pelo menos já estaremos dando um primeiro passo em direção a elas.