Receitas cristãs

José da Silva de Jesus · Capítulo 13 de 18

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Receitas cristãs

Justiça do bem .....................................................................................

 

As leis divinas nos informam que seremos responsabilizados por cada mal que causarmos ao próximo e dentro desta mesma lógica, não é justo que soframos nem um pouco mais do que aquilo que devemos. É baseado nestas leis divinas que as sociedades humanas, apesar de pequenos retrocessos momentâneos, vão aos poucos se tornando cada vez mais solidárias e é evidente que no geral vivemos em sociedades muito mais tolerantes e que possuímos hoje muito mais segurança, dignidade e direitos básicos do que possuíam os homens da idade média ou dos tempos bíblicos.

 

Porém, esta nossa solidariedade e compaixão com o sofrimento alheio se desfaz rapidamente quando testemunhamos espíritos sofredores pagando pelos seus crimes perante a justiça dos homens. As pessoas costumam ter uma reação de satisfação com o sofrimento daqueles que violam as leis humanas, sejam eles bandidos “pé-de-chinelo”, mas principalmente com os bandidos do colarinho branco no meio político, maior ainda é a satisfação quando o criminoso pertence a um “time” com uma ideologia política contrária à nossa.

 

A ideia por detrás desta diferença de tratamento com aqueles que sofrem ao terem de responder por uma violação à lei, é a de que este criminoso provocou aquela situação e portanto seu sofrimento é merecido. Mas se realmente acreditamos na justiça de Deus, será então que não devemos acreditar também que todo e qualquer sofrimento é sempre merecido? Deixa de fazer sentido a ideia de que uns sofrem por merecerem e portanto não são dignos de pena, enquanto outros sofrem sem merecer e por isto são dignos da nossa compaixão. Se Deus existe e é justo, todo sofrimento deve ser de alguma forma merecido.

 

Mas é claro que é muito difícil para nós termos a mesma reação diante de um criminoso pego pela polícia, do que diante de uma pessoa com câncer. Mas a ideia de um Deus bom e de uma justiça divina impõem que ambos não podem estar sofrendo sem merecerem, e que de alguma forma este sofrimento será benéfico tanto para o criminoso quanto para o doente. No caso do criminoso, o motivo e o propósito do seu sofrimento estão bem claros, ele sofre porque violou as leis e prejudicou seu semelhante, seu sofrimento (em teoria) serve para que ele se regenere. Já no caso do doente, o motivo está quase sempre oculto em tramas que remontam a outras encarnações e é comum até mesmo duvidarmos da justiça divina quando testemunhamos o sofrimento de um parente próximo, muito mais difícil ainda quando se trata de pessoas muito jovens.

 

Mas se realmente acreditamos na justiça de Deus, então não podemos esquecer nunca que ambos são sofredores, que ambos sofrem por um motivo e não por mera obra do acaso, e principalmente que todos os que sofrem precisam e merecem nossa compaixão. Se Deus é bom e justo, então o sofrimento do doente ou do criminoso não pode ser um mero castigo, na forma de uma vingança, mas uma lição útil que de alguma forma trará um crescimento espiritual para ambos.

Nossa inferioridade moral constantemente ainda nos faz esquecer destas verdades e nos contaminamos rapidamente por ideias que se baseiam num sentimento egoísta de vingança, sem preocupação real com o bem estar geral ou com a regeneração do criminoso para a sociedade. Devemos nos lembrar que Deus só permite o sofrimento daquele criminoso porquê de alguma forma ele será benéfico. Primeiramente servirá para lhe ensinar que o crime não compensa. Vai ajudar a deixar mais claro na sua mente ignorante onde fica a linha divisória entre o certo e o errado, afastando aquela distorção tão comum que fazemos ao considerarmos como certo tudo aquilo que é bom para nós. Vai também trazer uma oportunidade de arrependimento e mudança de rumos, mesmo que isto leve anos, décadas ou mesmo várias encarnações, mesmo até que o criminoso tenha que reencarnar num corpo doente.

 

Mas não é este tipo de sentimento que motiva editores e consumidores de jornais sensacionalistas. Recentemente a notícia da prisão de alguns dos homens mais ricos e poderosos do Brasil rendeu muitos trocadilhos e piadas nas capas de alguns jornais “populares”. Foram mostradas as fotos das celas, dos cortes de cabelo, da comida servida aos presos etc. Não vemos neste tipo de exposição nada que pudesse sugerir um suposto alívio dos responsáveis pelas matérias, com a interrupção da atividade criminosa que prejudica a sociedade, ou uma felicidade pelo fim da trajetória de erros do criminoso e o início forçado de sua regeneração. Só o que se viu foi a intenção clara de agradar aquele nosso sentimento pobre de vingança, que se alimenta da desgraça daqueles que consideramos nossos inimigos.

 

O cidadão honesto, que vive do fruto do próprio trabalho e sem prejudicar a ninguém, é capaz de reconhecer o certo e o errado e se manter firme aos seus princípios, não praticando nenhum ato parecido com aqueles crimes do colarinho branco típicos destes grandes empresários e políticos. Mas a sua indignação com a má conduta daqueles que encontraram maneiras de se apropriarem do dinheiro público, rapidamente se transforma num desejo de vingança. O cidadão de conduta irrepreensível perante a justiça dos homens, logo se perde nas cadeias mentais do ódio e do sarcasmo. Longe de se ver feliz com o início do processo de regeneração daquela alma sofredora, perdida no mundo do crime, ele se sente feliz é pela desgraça daqueles que ele elegeu como inimigo, justamente por se considerar uma pessoa de bem.

 

Nestes tempos de tantas reviravoltas políticas, em que o Brasil vai aos poucos deixando de ser mais um país, como tantos outros, onde o dinheiro permite a uma grande parcela da população viver sem se preocupar em respeitar as leis, é fácil nos contaminarmos por sentimentos inferiores quando assistimos à queda dos poderosos malfeitores. Mas é necessário sempre nos lembrarmos de que um cristão só pode aceitar qualquer tipo de punição a qualquer pessoa, se está for benéfica. A felicidade pela correta aplicação da justiça deve se basear em primeiro lugar no fato de que o criminoso vai finalmente ser obrigado a parar de cometer seus crimes e de se endividar mais ainda perante a justiça divina. Depois, por saber também que o criminoso vai ter a oportunidade de se arrepender e se libertar das ilusões egoístas do crime. Resumindo, a nossa felicidade não pode nunca ser motivada pelo sofrimento alheio, mas somente pelo bem que aquela punição temporária poderá em breve trazer para a alma daquele criminoso.

Não podemos nunca nos esquecer de que a perfeição não é deste mundo. Somos todos filhos imperfeitos de Deus, vivendo num mundo de provas onde estamos ainda bastante sujeitos a errar. O verdadeiro cristão não possui inimigos, e a única felicidade que a notícia da punição de um criminoso pode trazer para o cristão, é a de saber que o arrependimento logo poderá resgatar aquela alma perdida e traze-la para o time dos homens de bem.