Receitas cristãs
Mudando a própria bolha ............................................................................
Os mecanismos das principais redes sociais tem favorecido a criação das chamadas “bolhas sociais”. Ao compartilhar ou dar o sinal de “joinha” em um texto, imagem ou vídeo, a programação interna destas redes registra o tipo de conteúdo que costumamos gostar e o tipo que costumamos rejeitar. Elas então propositalmente passam a nos mostrar mais e mais daqueles conteúdos de pessoas que compartilham dos mesmos gostos e preferencias, ao mesmo tempo também passam a esconder os conteúdos de pessoas que possuem ideias de que não gostamos. A intenção destas redes sociais é que, sendo expostos ao conteúdo que nos agrada, nós acabemos passando mais tempo dentro daquela rede, evitando que desviemos nossa atenção para outra atividade quando confrontados com um conteúdo ou opinião que nos contrarie.
O resultado desta seleção artificial de conteúdo é que acabamos sendo expostos apenas a ideias das quais já estamos convencidos e raramente somos expostos a opiniões muito diferentes das nossas. A tendência então é que acabemos cercados de amigos virtuais que pensam igual e ao mesmo tempo também convencidos de que nossa opinião, sobre os mais variados assuntos, é a opinião geral de toda a população.
Participando de redes sociais na internet, hoje é praticamente impossível não estar incluído em alguma destas bolhas. Todos aqueles assuntos que costumam gerar mais polêmica, como ideologias políticas, religião e até marcas preferidas de produtos, costumam ativar os mecanismos de filtragem das redes sociais para esconder da nossa visão as ideias divergentes e reforçar nossa convicção, nos expondo a conteúdos que carregam ideias similares às nossas. Uma maneira de não sofrer este tipo de isolamento dentro de uma bolha seria possuir uma dupla personalidade e dois perfis diferentes em uma determinada rede social. Teríamos que agir então como verdadeiros agentes infiltrados, concordando e reforçando opiniões das quais na verdade discordamos, só para poder continuar tendo acesso às ideias produzidas “do outro lado”.
Esta tendência a formação de bolhas e o isolamento que elas causam costuma ficar bastante evidente quando adicionamos alguém do nosso círculo real de contatos ao nosso círculo de amigos virtuais. Muitas vezes aquele colega de trabalho ou parente que acabamos de adicionar aos nossos contatos pertence a uma bolha bem diferente da nossa e, pelo menos por algum tempo, podemos ser expostos a ideias radicalmente diferentes das nossas. Surgem de repente informações que parecem ser bem comuns para outros grupos, mas que para nós são uma completa novidade. E esta exposição costuma durar até que os mecanismos automáticos se encarreguem de esconder aqueles conteúdos divergentes.
Cada um tem direito à sua própria opinião e, sendo espíritos imperfeitos, é impossível que estejamos sempre certos sobre tudo. Mas existem certos assuntos nos quais podemos ter razoável certeza de que estamos corretos, principalmente quando princípios básicos como o direito à vida, a igualdade ou a dignidade humana são desrespeitados. Não discordar diante de uma opinião extremamente racista por exemplo, poderia até ser entendido como uma concordância tácita de nossa parte, no mínimo seria uma omissão do nosso dever de esclarecer um irmão seduzido por ideias enganosas.
Na pergunta de número 573 de O Livro dos Espíritos encontramos alguns dos deveres dos espíritos encarnados: “573. Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados? Resposta: Em instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais.”
A melhor maneira de tentar mudar o mundo para melhor é pela ação, as atitudes concretas de caridade, tolerância, paciência, trabalho, tudo o que possa ser entendido como a prática do amor ao próximo. Além do resultado concreto destas ações por nossa parte, também colaboramos para criar um mundo melhor pelo exemplo, pela inspiração para a pratica do bem que estas atitudes podem provocar nos outros. Mas, ainda que em menor escala, nossas opiniões e ideias também podem exercer uma influência positiva na sociedade. Na era atual de fácil acesso à tecnologia, qualquer um pode expor suas ideias, que podem ser compartilhadas com facilidade por muitas pessoas. É ai que as bolhas podem exercer um papel danoso. Isolados por um algoritmo que cria ligações apenas entre pessoas com ideias similares, é difícil para aqueles que desejam espalhar ideias positivas e progressistas verem suas ideias chegarem até aqueles que se encontram em círculos dominados por ideias preconceituosas e retrogradas. Também por causa das bolhas sociais é muito mais difícil tentar espalhar ideias altamente inspiradas em círculos e grupos dominados por ideias chulas, não só porque os mecanismos automáticos se encarregam rapidamente de esconder estes conteúdos divergentes, mas também porque estas ideias tendem a se destacar muito e causar estranheza nos participantes daquela bolha.
Para “instruir os homens”, conforme o trecho que citamos de O Livro dos Espíritos, é útil questionar ideias retrogradas, opinar e aconselhar, sempre de forma sutil, não querendo nunca impor suas ideias, mas apenas expondo sua discordância, como por exemplo no caso de uma opinião racista, mas sempre de forma pacifica, pois é impossível combater intolerância com mais intolerância. As palavras daquele irmão que expressa uma opinião infeliz são fruto da ignorância, ignorância do sofrimento das pessoas vítimas destes preconceitos, ou ignorância sobre as raízes históricas de problemas complexos que não se resolvem com raciocínio raso, ou simplesmente ignorância das vantagens de se praticar o bem no lugar do mal. Nossa posição portanto deve ser a de quem sente pena e não raiva, de quem tenta elucidar e não simplesmente de quem tenta vencer um debate, de quem espera sinceramente ver um irmão se melhorar e se libertar da ignorância que provavelmente, em maior ou menor grau, também possuíamos há não muito tempo atrás.
E a maneira mais eficaz de tentar espalhar boas ideias e opiniões é dentro da sua própria bolha, dentro daquele círculo de pessoas que possuem mais ideias em comum do que ideias divergentes. Tentar espalhar boas ideias dentro de um ambiente de pessoas com interesses e opiniões muito diversos dos nossos quase sempre resulta em rejeição total, pois a tendência é que as outras pessoas reforcem as opiniões uns dos outros contra a opinião divergente do estranho. Seria similar ao cristão que tenta mudar a opinião dos fiéis de outra corrente religiosa, por exemplo tentando convencer a eles de que cristo foi um exemplo de humildade, e que não faz muito sentido ostentar posses materiais como símbolo de progresso espiritual. Ele provavelmente seria rejeitado não porque seus argumentos não possuem fundamento, mas sim porque é um estranho tentando mudar a opinião de uma outra corrente religiosa. Mais útil seria tentar convencer os fiéis de sua própria religião.
Um outro exemplo que podemos dar é o da opinião a respeito do aborto, que para muitos, tanto na esquerda quanto na direita política é uma questão de liberdade ou um direito das mães. Inútil seria por exemplo para um defensor de ideias de esquerda tentar mudar a opinião de um defensor da liberdade do aborto dentro de um grupo de direita. Muito mais fácil seria tentar convencer as pessoas dentro dos grupos dos quais faz parte (neste exemplo os alinhados com a esquerda política) de que o aborto fere o direito à vida, e que o direito e à liberdade das mães não se sobrepõe à liberdade e o direito à vida dos filhos. O mesmo pode se dizer por exemplo de um militante de direita que tenta convencer alguém dentro de um grupo de esquerda, de que a democracia é uma conquista fundamental da qual não se pode abrir mão, quando alguém nestes grupos estivesse defendendo a ruptura democrática para que um líder de esquerda assumisse o poder. Muito mais útil seria tentar mudar sua própria bolha, convencendo os simpatizantes da direita política de que não se deve nunca preferir uma ditadura a um governo eleito democraticamente, por pior que seja a opinião a respeito deste governo.
Quando os apóstolos perguntaram a Jesus porque ele falava por parábolas ele respondeu que o povo possuía o coração endurecido, mas que para eles, seus apóstolos, podia explicar com clareza o que significavam as alegorias da parábola do semeador. Jesus também procurava os sofredores e angustiados, muitos deles rejeitados pela sociedade, desde os mendigos até os ricos coletores de impostos como Zaqueu, porque estes estavam mais preparados para ouvir as palavras do evangelho, ao contrário dos orgulhosos doutores do templo que, mesmo sendo respeitáveis conhecedores das leis, não estavam prontos para ouvi-lo. Até mesmo Jesus se conteve em pregar apenas para aqueles que estavam preparados para ouvir.
O debate franco e sincero, sem medo de nos expor e de admitir que podemos também estarmos errados, é a melhor maneira de espalhar boas ideias. O outro sempre possui suas razões para discordar e é quase impossível que seus motivos e sua perspectiva do assunto não possam contribuir um pouco para o nosso próprio esclarecimento. O exemplo de Jesus mais uma vez é o modelo ideal para aquelas oportunidades em que acreditemos poder contribuir com nossas ideias e opiniões, debater com muita humildade, sem impor mas apenas expor suas ideias, mas acima de tudo guiando-se pelo amor ao próximo e não pelo amor ao debate. Lembrando que a verdadeira vitória acontece quando a verdade se sobrepõe ao engano e por isso podemos nos considerar vitoriosos quando conseguimos convencer um irmão ou mesmo se descobrirmos que estávamos errados.