Receitas cristãs

José da Silva de Jesus · Capítulo 17 de 18

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Receitas cristãs

Um mundo sem vaidade. ..............................................................................

 

Como seria um mundo sem vaidade? Como seria nosso mundo se de repente passasse a ser habitado apenas por seres vindos de esferas superiores e que não carregam consigo nenhuma vaidade?

Primeiramente, em relação aos bens materiais, podemos dizer que viveríamos em um mundo bem diferente. Imaginem por exemplo que as pessoas comprassem todos os tipos de bens sem nem mesmo um mínimo de preocupação em relação ao que as outras pessoas irão achar da sua nova aquisição, por exemplo um celular ou um carro novo. Existem muitos objetos como celulares, relógios etc. que antigamente custavam bem caro e por isso eram símbolo de status, um sinal de que o seu dono pertencia a uma elite restrita de pessoas. Estes objetos com o passar do tempo se tornaram baratos e hoje pessoas de todas as classes sociais podem compra-los, mas mesmo assim ainda carregam esta ligação com o status e a vaidade pessoal. Carros, celulares, relógios de pulso e até calças jeans um dia foram símbolo de alto status pessoal e após se tornarem mais baratos, passaram então a terem versões de luxo, que costumam possuir algumas poucas funcionalidades a mais (às vezes nenhuma), mas que possuem a função de satisfazer a vaidade, o desejo exibicionista de seu dono.

Este comercio da vaidade é tão comum e tão amplo que a sua eliminação alteraria profundamente as relações econômicas do nosso mundo atual. Existem hoje em dia quase todo tipo de objetos de grife (grife, VIP, gourmet, exclusivo etc.), desde casas e apartamentos, até computadores e roupas, o mesmo se repete em relação à prestação de serviços como escolas particulares, cabeleireiros, cinemas e todo tipo de coisas. Mas ao contrário da ideia comum de que estes bens e serviços são um tipo de enganação porque são vendidos a preços mais altos, na verdade estes bens e serviços também custam mais caro para serem produzidos. O tênis de marca custa centavos para ser fabricado em Bangladesh, mas o fabricante também precisa arcar com centenas de milhões pagos em patrocínio de esportistas famosos. O telefone de grife, que dá ao proprietário o direito de colar o adesivo de uma fruta mordida no vidro do carro, custa cerca de cento e poucos dólares para ser produzido, mas além deste custo de fabricação, que inclui o pagamento de mão de obra semi-escrava em uma fábrica insalubre na China, outra centena de dólares é gasta em comerciais que ressaltam o caráter de exclusividade do produto. Aliás a própria palavra exclusividade já diz muito, exclusivo: aquilo que exclui, exclui os pobres eu acho. Esta indústria do status e da vaidade é um verdadeiro atestado da capacidade humana de despender recursos valiosos com coisas totalmente inúteis. Em um mundo sem vaidade, boa parte deste desperdício e ineficiência econômica seriam revertidos para bens e serviços realmente úteis.

Já que mencionamos as roupas de grife, podemos falar também sobre o modo de se vestir das pessoas em geral. Para a maioria de nós espíritos encarnados aqui neste mundo, o próprio ato de se vestir é governado pela vaidade, ao escolhermos que tipo de roupa compramos ou que tipo de roupa usar em cada ocasião quase sempre nossa preocupação principal é com como seremos vistos pelos outros. Será que seremos reprendidos por palavras ou olhares? Será que nos sentiremos diminuídos de nosso status ao usarmos esta ou aquela roupa? Será que posso ser confundido com uma pessoa pobre ou de pouca instrução? O conforto e a funcionalidade costumam ficar em segundo plano, tanto é que quando estamos em casa, longe dos olhares de estranhos e onde só precisamos nos preocupar com o frio ou calor, conforto ou praticidade, costumamos nos vestir de forma bem diferente de como nos vestimos para o trabalho ou para fazer compras. Em um mundo sem vaidade nos apresentaríamos de maneira bem diferente.

A mesma vaidade também governa muitas posturas e atitudes dos homens públicos. É até certo ponto compreensível que políticos que dependem do voto popular apresentem-se com uma postura bastante artificial diante das câmeras, seja fingindo-se mais sérios do que realmente são ou mesmo mais humildes e mais preocupados com os problemas dos necessitados do que realmente estão. Mas este motivo não explica a mesma atitude de autoridades que não dependem do voto para se manterem em seus cargos. Como exemplo podemos citar muitos delegados, promotores, juízes etc. que costumam assumir posturas e até entonação de voz muito diferentes ao se exporem na mídia ou em eventos públicos, basta providenciarmos um microfone e logo vemos uma mutação instantânea. Muitas decisões e posicionamentos relativos ao cargo também costumam ser influenciadas pela vaidade dos homens públicos, como nos exemplos recentes de juízes e promotores que só resolveram dar andamento em investigações ou processos após terem sido citados de maneira desrespeitosa em áudios que vazaram para a imprensa. Em um mundo sem vaidade, muitas posturas e atitudes de homens públicos seriam modificadas.

O ego e a vaidade pessoal também reinam dominantes no mundo das carreiras de destaque. É muito comum vermos executivos, escritores, profissionais liberais etc. que fazem de tudo para promover a sua imagem pessoal, criando um verdadeiro personagem fictício e sem relação alguma com a pessoa real, e repetidas vezes estes acabam conseguindo se destacar à frente dos outros profissionais mais competentes ou mais focados no trabalho do que no ego. Em um mundo sem vaidade teríamos um maior foco no mérito e no esforço pessoal, a ausência de vaidade também modificaria a estrutura do mundo do trabalho.

A vaidade acaba governando muito do nosso mundo e também dos nossos relacionamentos pessoais. Pense nas respostas mal educadas que damos ou que recebemos, aquela atitude ríspida ou impaciente, muitas destas atitudes são governadas pela vaidade, na verdade pelo nosso orgulho ferido quando recebemos um questionamento ou uma cobrança por algum trabalho mal executado ou uma pergunta difícil que não podemos responder, mas que nossa vaidade não nos permite dizer: “não sei, preciso me informar melhor”. Assim damos uma resposta confusa ou incoerente para nos esquivar, ou dependendo do caso já soltamos de primeira uma grosseria, tudo para esconder uma fraqueza e evitar arranhar nossa falsa imagem de sabedoria. Este comportamento é muito comum principalmente com aqueles que consideramos como supostamente inferiores hierarquicamente, como empregados, subordinados, filhos, estagiários etc. Em um mundo sem vaidade as pessoas seriam mais afáveis e muitos conflitos e desavenças seriam evitados.

Este mundo sem vaidade ainda está muito distante da realidade do nosso planeta, mas ao contrário de um mundo utópico, como por exemplo um mundo sem dinheiro, é possível sim nos aproximarmos bastante deste mundo sem vaidade mudando voluntariamente nossas atitudes. Não precisamos nos transformar em hippies ou passar a viver no meio da floresta para abandonar a vaidade em relação aos bens que consumimos, basta nos questionarmos se este carro ou esta escola ou este celular novo são realmente mais úteis que os outros mais baratos, ou se estou sendo motivado pela vaidade, basta nos preocuparmos mais com a real utilidade ao invés de ficarmos tentando justificar a nós mesmos o porquê de ter gasto mais com um produto mais caro que satisfaz nossa vaidade, fingindo que ele é mais útil que o outro. Também posso esquecer os olhares e os julgamentos das outras pessoas e me vestir da maneira mais funcional em qualquer ocasião, imaginem o juiz do supremo largando aquela toga ridícula que o faz parecer um religioso de um tribunal da idade média e vestindo calças jeans, da marca barata é claro. Imaginem homens públicos despreocupados com as câmeras e agindo segundo apenas sua consciência, ou profissionais de destaque que se destacam pela competência e humildade e não pela imagem pessoal artificialmente fabricada.

Este mundo sem vaidade parece distante, mas para entrar nele precisamos apenas de uma mudança de atitude. Basta que paremos de nos preocupar com as comparações inúteis entre os bens que nós e nossos vizinhos consomem, paremos de valorizar tanto nossa imagem pessoal, nos preocupemos menos com nosso orgulho ferido e logo entramos neste mundo sem vaidade. O mundo à nossa volta reflete o nosso estado mental e quando aprendermos a ignorar as disputas de ego passaremos a nos sintonizar em outra frequência mental onde marcas, rótulos, títulos e reputação artificial não possuem valor algum. Neste mundo sem vaidade, que está bem aqui e acessível a qualquer um hoje mesmo, nosso dinheiro rende mais, trabalhamos melhor, nos vestimos de forma mais confortável, somos mais sinceros e brigamos menos. No dicionário vaidade significa aquilo que é vão, vazio, sem conteúdo; abandonando a vaidade deixamos para trás um mundo vazio e nos tornamos mais completos, um bom exemplo de como menos por ser mais.