Receitas cristãs
Controle remoto ....................................................................................
Uma pessoa está com um controle remoto da televisão em sua mão, ela aponta para a TV e tenta mudar de canal mas a TV não responde, o motivo é que ela está com o controle virado para o lado contrário, apontado para a própria barriga em vez de apontado para a TV. Ela começa então a mostrar sinais de insatisfação e irritação, bate no controle e com a voz zangada pergunta a si mesma: Por que a TV não responde?
Uma outra pessoa que assiste à cena percebe o que está acontecendo e se pergunta: Qual atitude devo tomar? Apenas avisar que o controle está virado para o lado contrário? Ou tomar o controle das mãos do outro e inverter a posição, apontando para o lado correto?
Em relação a muitos desafios do nosso dia-a-dia é comum nos encontramos diversas vezes em ambas as posições, às vezes estamos na posição daquele que aponta para o lado errado e outras vezes estamos no lugar daquele que sabe o lado correto e deseja ajudar o outro. Somos espíritos com graus de evolução diferentes e também possuímos diversas experiências e níveis de conhecimento diferentes adquiridos nesta encarnação. Por isso sempre estamos sendo confrontados com situações em que podemos ajudar ou em que podemos aprender com o próximo.
Em uma situação como a do controle remoto, ou em uma outra situação que seja realmente importante, qual a atitude correta a se tomar? Apenas avisar que a pessoa está apontando para lado errado? ou tomar à força o controle da situação e fazer a mudança por conta própria?
Se nos contentarmos em apenas avisar, corremos sempre o risco de sermos ignorados. Mas se tentarmos tomar o controle, também corremos o risco de haver resistência e de não conseguirmos efetuar a mudança desejada, neste caso então tentaremos voltar para a primeira opção, aconselhando a pessoa sobre o seu erro e a maneira de corrigi-lo. Mas então quase com certeza seremos ignorados, seremos acusados de sermos controladores e estarmos tentando obter o controle para nós, visando apenas nossos interesses.
Assim como o controle remoto apontado para o lado errado, os rumos da sociedade no nível coletivo, com em relação às políticas públicas de governos, associações, sindicatos, cooperativas, empresas, condomínios ou qualquer outro tipo de organização coletiva, também podem estar apontados para o lado errado. Tentando corrigir estes rumos e direcionar a sociedade para o progresso, encontramos os chamados movimentos progressistas, que são organizações de pessoas que se unem para tentar influenciar a sociedade e aqueles que detém algum poder, para um caminho que o bom senso aponta como sendo o mais correto. Entre os exemplos de movimentos deste tipo, podemos citar os movimentos contra o racismo, contra a intolerância, a homofobia, o machismo, os movimentos em prol da democracia, movimentos pelo direito universal à educação, à proteção da infância e juventude, proteção à velhice, movimentos pela proteção do meio ambiente, em favor da liberdade religiosa, movimentos contra a extrema desigualdade e injustiça social, entre muitos outros. Estes movimentos, chamados progressistas, possuem muitas semelhanças e objetivos em comum com as religiões progressistas, que tentam igualmente espalhar a palavra e a ideia de igualdade de direitos, tolerância, respeito e amor ao próximo, sendo o evangelho de Jesus o exemplo maior deste tipo de filosofia progressista.
Mas qual seria a maneira correta destes movimentos e religiões progressistas agirem? Tentar tomar o controle da sociedade e dos indivíduos à força e efetuar as mudanças necessárias? Ou apenas avisar e aconselhar sobre o caminho correto que a sociedade deveria tomar? Existe ainda a terceira opção, que é a indiferença, ou seja, deixar que cada um sofra as consequências dos seus próprios enganos e “lavar as mãos”. Esta última não parece ser uma opção válida para um seguidor da doutrina espírita baseada na caridade ou para qualquer cristão.
Não precisamos dizer que tanto os movimentos políticos quanto os religiosos, sendo governados por seres humanos imperfeitos, estão sempre sujeitos a uma série de falhas e distorções que podem muitas vezes manchar o nome do movimento ou instituição. O século XX foi marcado por uma luta constante entre correntes ideológicas opostas, entre os grandes embates do século, dois que ganharam bastante atenção foram os movimentos pela libertação da opressão econômica e do colonialismo e o movimento contra o racismo, que de muitas formas estão meio que entrelaçados.
Em relação aos movimentos contra o racismo vimos um grande progresso durante o último século com fim do Apartheid, as conquistas importantes do movimento pelos direitos civis nos EUA e a libertação de povos inteiros que viviam sob o domínio europeu na Ásia e na África, sendo talvez o mais notório de todos o movimento pela libertação da Índia. Mas em relação aos movimentos que lutavam contra a desigualdade e opressão econômica, o século foi marcado pela disputa política por poder e influência entre duas facções radicais rivais. De um lado as forças aliadas à velha ordem econômica mundial sob a bandeira do capitalismo, com virtudes muito bem divulgadas mas também sérios e conhecidos problemas e do outro a facção comandada pelos vencedores da violenta revolução bolchevic. Sem entrar em detalhes e nos argumentos ideológicos de cada lado, podemos ver facilmente que a maior parte do século passado se resumiu a uma luta interminável entre o lado que detém o controle da economia capitalista em quase todo o mundo e o lado que afirmava possuir uma fórmula para um mundo melhor e que tentava arrancar o controle das mãos do outro à força através de guerrilhas revolucionárias. O que resultou, como seria de se esperar, em muita violência de ambos os lados durante a chamada guerra fria.
As vitórias significativas dos movimentos contra o preconceito racial podem ser atribuídas principalmente ao uso da tática da não-violência. Ao abrir mão do uso de qualquer tipo de violência estes movimentos conseguiram deixar bem claro para a opinião pública quem exercia o papel do opressor violento e quem era o oprimido e pacífico, minando a conhecida estratégia de manipulação midiática que sempre faz os oprimidos aparecerem como sendo os causadores do problema. A inferioridade moral dos racistas ficou escancarada com a firmeza e convicção dos manifestantes que se recusavam a tomar qualquer atitude violenta, mesmo sofrendo inúmeras agressões e muitas vezes até mesmo a morte. O grande guia deste movimento foi a alma iluminada de Gandhi na Índia que inspirou mais tarde as vitorias de Martin Luther King nos EUA.
Já o movimento e a luta por um modelo econômico menos injusto foi grande fracasso, a desigualdade até foi contida durante alguma parte do século passado, principalmente nos países mais ricos e capitalistas, ironicamente para tentar minar os argumentos dos comunistas, mas voltou a regredir e hoje países como os EUA possuem aos piores níveis de desigualdade já registrados. Também vemos hoje países como o Brasil, onde ocorreram igualmente significativas vitórias contra o racismo, passando até mesmo ser considerado crime, mas que ainda se mantém como um campeão da desigualdade, o que acaba prejudicando as conquistas que poderiam ser alcançadas em uma sociedade que caminha para se libertar do preconceito racial, pois a desigualdade extrema e a consequente falta de mobilidade social impedem a ascensão daqueles que se encontram na pobreza justamente pelo motivo de serem herdeiros de séculos de escravidão.
Fica claro que as vitorias de um movimento e os fracassos do outro se devem aos métodos empenhados para tentar atingir os objetivos. De uma lado vitórias expressivas e surpreendentes daqueles que adotaram a não violência, do outro o fracasso quase completo daqueles que, em busca de um modelo econômico menos injusto, acabaram se deixando dominar pelos oportunistas que pregavam a revolução violenta. De um lado temos como símbolo maior o revolucionário Che Guevara, que apesar de bem intencionado era um jovem imaturo, violento, impulsivo e sem fé religiosa; do outro Gandhi, velho, calmo, pacífico ao extremo e profundamente religioso.
Não resta dúvida de que o único método condizente com os princípios cristãos, para se lidar com qualquer pessoa, em qualquer situação em que acreditamos possuir um conhecimento e uma formula melhor para se resolver qualquer problema é o método pacífico, não violento e sóbrio. Mas estas são características que só a pessoa de fé possui, a pessoa que possui fé em Deus sabe que o caminho do progresso é inevitável, que todas as sociedades se transformarão e que apesar dos aparentes retrocessos momentâneos, a sociedade caminha sempre na direção do progresso, com a eliminação de todo tipo de opressão e injustiça. Munido deste conhecimento e da fé com Deus em dias melhores, esta pessoa estuda e abre sua mente para diferentes opiniões com humildade e respeito à aqueles que possuem opiniões divergentes, para aos poucos adquirir a convicção de que aquilo que defende é o melhor caminho para a sociedade e tentar de forma pacífica espalhar a ideia daquela nova forma de viver.
A não violência vai contra o instinto animal de auto defesa, a reação violenta é típica daquele que se sente ameaçado, acuado. O homem de fé, mais racional e espiritual, menos animal e irracional, não precisa nunca agir com violência, justamente porque sabe que até mesmo a perda de sua vida é coisa insignificante diante da eternidade, por isto não se sente intimidado e acuado, não precisando assim agir com violência. A revolução do homem de fé é gradual e pacífica e por isso mesmo sólida e duradoura.
O espiritismo cristão também nos ensina através da lei de ação e reação, que nenhum resultado positivo pode ser gerado a partir de uma ação negativa, violenta. O fim da escravidão não se deu com revoltas violentas, nem as conquistas na luta contra a o machismo e a violência doméstica ou a luta contra a homofobia podem ser atribuídas ao uso de violência contra a violência sofrida, pois a violência, é claro, só gera mais violência e aqueles que se utilizam da violência para perseguir e oprimir sempre o fazem de forma covarde, por perceberem que são mais fortes.
O bom cristão, como Gandhi (que se definia como cristão, judeu, mulçumano e indu) ou como Martin Luther King, sabe que a atitude mais cristã é evitar a agressão, mas, caso inevitável, oferecer a outra face. Confiante no progresso constante e na justiça divina ele não se desespera com as injustiças, os preconceitos e as calamidades sociais, não vê motivos para a revolta violenta e, pelo contrário, sente pena do agressor, pois sabe que o maior prejudicado é sempre aquele que comete a falta e é preferível estar na posição do injustiçado do que daquele que comete a injustiça. Munido deste conhecimento o cristão não se abala, e a indignação momentânea com o testemunho de uma injustiça não se transforma em perturbação e revolta violenta, ao contrário, ele tenta aliviar o sofrimento do injustiçado mas lembrando do mestre que ensinou “amai os vossos inimigos” também sente pena e tenta alertar e corrigir aquele que comete a falta.
Por fim, o homem de mente progressista, com fé em Deus e que deseja ver a sociedade terrestre transformada, não foge à luta. Ghandi e King eram pacíficos, mas também eram uma pedra no sapato de grupos racistas e políticos conservadores e como o nosso exemplo maior Jesus, deram a vida pela causa da justiça sem nunca verem abalada sua fé num mundo melhor.