Receitas cristãs
A necessidade da riqueza ...........................................................................
Vivemos num mundo de extrema desigualdade, isso é fato, outro fato porém é que Deus permite esta situação. Se acreditamos na bondade e na justiça divina, então esta desigualdade deve ter algum motivo e alguma utilidade para o progresso moral do ser humano. Mas qual seria exatamente esse motivo ou essa utilidade? Será que a concentração de riqueza é mesmo necessária?
Dentro da doutrina espírita encontramos nas obras básicas como O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo a lição frequente dos espíritos dizendo que aquele que é agraciado com a fortuna na terra não é dono e sim usuário temporário e, como Jesus deixou claro na parábola dos talentos, a fortuna material é uma graça ou talento do qual devemos produzir frutos e pelos quais seremos um dia cobrados.
No contexto político e social da época em que as obras básicas da doutrina espírita foram escritas, era comum que os homens respeitados na sociedade usassem sua riqueza para financiarem sozinhos a invasão e escravização de nações inteiras no continente africano. Também era comum que possuidores de grandes fortunas se juntassem para formar companhias privadas especializadas no tráfico de drogas como o ópio para a China ou então no tráfico de escravos para a América. Dentro deste contexto, a sugestão da doutrina espírita de que os homens afortunados usassem sua riqueza exclusivamente para negócios que não prejudicassem o semelhante e que procurassem ajudar o próximo, um mínimo que fosse, já podia ser considerado uma doutrina radicalmente pacifista e benevolente.
Vejamos um exemplo de um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo em que somos convidados, não a abrir mão da fortuna em favor da caridade, mas “pelo menos” ajudar com o nosso supérfluo:
“Deus vos emprestou, deveis restituir, e Ele vos empresta sob a
condição de que o supérfluo, pelo menos, reverta em favor
daqueles que não têm o necessário. Um dos vossos amigos vos
empresta uma soma; por pouco que sejais honesto, tereis a
preocupação de lhe restituir o empréstimo, e lhe ficareis
agradecido. Pois bem, essa é a posição de todo homem rico:
Deus é o amigo celeste que lhe emprestou a riqueza; pede-lhe
apenas o amor e o reconhecimento, mas exige que, por sua vez,
o rico dê também aos pobres, que são, tanto quanto ele, seus
filhos.” (Cap. 16, 14)
Pregar universalmente a justiça social naquele mundo do século 19, onde o racismo e a escravidão ainda eram aceitos com naturalidade pela maioria das pessoas, onde as mulheres não tinham praticamente nenhum direito de cidadania, onde não existiam organizações como a ONU ou a Declaração Universal dos Direitos do Homem e em pleno ápice do colonialismo europeu, seria mesmo impossível. Prega-se então “pelo menos” a caridade material daqueles que possuem muito. Mas, apesar dos espíritos que ajudaram a estabelecer as bases da doutrina espírita não atacarem diretamente as instituições sociais da época, de forma alguma podemos afirmar que eles concordassem com a ideia que a desigualdade e a injustiça social sejam normas estabelecidas por Deus, como eles mesmos deixam bastante claro na resposta à pergunta 806 de O Livro dos Espíritos: “806 É lei da Natureza a desigualdade das condições sociais? Não; é obra do homem e não de Deus.”
Mas sendo o espiritismo uma doutrina lógica e racional, logo adiante vemos também que os espíritos não endossam teorias radicais que pregam por exemplo uma igualdade absoluta de riquezas, como na resposta à pergunta número 811: “811. Será possível e já terá existido a igualdade absoluta das riquezas? “Não; nem é possível. A isso se opõe a diversidade das faculdades e dos caracteres.”
Como seria possível um jovem imaturo e um velho experiente terem uma igualdade absoluta de riquezas? Um com conduta precavida e outro com conduta irresponsável, mas usufruindo exatamente do mesmo nível bens. É fácil concluir que isto seria um sistema injusto, além do mais, como o jovem imaturo aprenderia com seus erros se eles não trouxessem nenhuma consequência? E quanto ao empreendedor com espirito aventureiro comparado ao homem simples, modesto e precavido? É disto que se trata a tal “diversidade das faculdades e dos caracteres”, pois não faria sentido um sistema que forçasse todos a terem sempre exatamente a mesma quantidade de posses em todas as situações.
Mas isto não significa que os espíritos endossem a conduta do egoísta que acumula capital e o usa como ferramenta para explorar seu semelhante. Muito menos ainda podemos dizer que os espíritos endossariam a conduta daquele que enriquece às custas da fraude, como se verificou na conduta de grandes empresários em vários episódios da política nacional dos últimos tempos.
Além das pequenas desigualdades naturais, como o tamanho da família, os gostos pessoais, o espírito aventureiro ou conservador, para que mais poderiam servir as desigualdades? Será que a desigualdade tem alguma função especial na economia?
Na época em que as obras básicas foram escritas, existia uma forte crença de que a fortuna concentrada nas mãos de uma aristocracia era uma benção geradora de riqueza para o resto da população, e não faltavam teóricos para defender a concentração de renda. Alguns economistas como Malthus, chegavam a afirmar que a miséria e todas as mazelas associadas a ela como as epidemias, as mortes prematuras de crianças, a fome etc. eram bênçãos de Deus, que ajudavam a evitar um “excesso de população”.
Naquele mundo, não muito distante, de uma Europa extremamente rica por um lado e ao mesmo tempo com uma população miserável, a concentração de riqueza era defendida como uma fonte de progresso para toda a sociedade. Mas o mesmo não pode ser dito a respeito da economia nos dias de hoje. Ao contrário daqueles tempos de participação mínima do estado na economia, hoje as maiores empresas de praticamente todos países são extremamente dependentes dos recursos públicos, como os subsídios, os financiamentos como juros abaixo do mercado, o investimento dos governos em tecnologia nos centros de pesquisa, os contratos e licitações para fornecimento de bens aos governos ou as operações de salvamento empresas falidas. Hoje, pelo contrário, o capital privado é que se pode considerar dependente do investimento público, e é praticamente impossível encontrar uma grande empresa no mundo que já não tenha sida salva pelo menos uma vez por recursos públicos.
Voltando à pergunta: A riqueza e concentração de renda são necessárias no mundo de hoje? A única resposta possível é sim, pois Deus não permitiria o sofrimento desnecessário. Mas não pelos motivos que se defendia a concentração de riqueza no passado. No mundo de hoje a defesa desigualdade como fonte criadora da prosperidade na economia não se sustenta mais. Mas ela persiste exatamente pelo mesmo motivo já explicado pelos espíritos a 150 anos “é obra do homem e não de Deus” que cria para si mesmo a injustiça da qual acaba sendo vítima. O homem egoísta apoia um sistema baseado na desigualdade e, na esperança de um dia estar no degrau mais alto da escala social, se vê vítima das injustiças que apoia. Como os alunos que se sujeitam a todo tipo de abuso para serem aceitos em uma fraternidade das universidades americanas, com a esperança de um dia eles também poderem abusar de outros calouros.
Mas devemos lembrar que nem todo o mundo é igual, existem países que se saem melhores ou piores em relação ao combate à desigualdade. Em muitos países europeus é possível encontrar uma grande classe média, onde ninguém possui exatamente o mesmo nível de riqueza que ninguém, mas também não existe miséria extrema. Contrariando o mito de que uma sociedade mais igualitária seria constituída de pessoas manipuladas, sem opinião, usando roupas e cortes de cabelo iguais, consumindo as mesmas coisas, na verdade a Europa, mesmo que ainda muito imperfeita, dá exemplo liberdade de expressão e diversidade cultural. Isto acontece porque em uma sociedade sem grande diferença de riqueza e de poder entre os cidadãos, mais pessoas passam a ter o direito de opinar e criam-se assim sociedades mais pluralistas e tolerantes.
Na contramão deste caminho estão os países que se deixam levar pelo discurso da intolerância, que visa conservar tudo de ruim que existiu no passado como o machismo, o preconceito, a homofobia etc. O discurso da intolerância é muito útil àqueles que desejam manter a sociedade dividida entre os que podem e os que não podem, os que mandam e os que obedecem.
O Brasil está se aproximando de um momento onde deveremos escolher qual o caminho que nossa sociedade vai tomar, que tipo de país queremos ser no futuro. Uma sociedade mais igualitária, menos preconceituosa e intolerante, ou nos mantermos como uma sociedade desigual, cheia de velhos preconceitos raciais e religiosos e onde as mulheres valem menos.
A raiz dos preconceitos está no egoísmo daqueles que se encontram atualmente em uma posição privilegiada e que resistem em abrir mão de seus privilégios. Acuado por aqueles que desejam igualdade de direitos, o egoísta parte para o ataque e como resultado acaba criando uma sociedade intolerante e violenta da qual ele mesmo se torna vítima. A literatura espírita confirma isto descrevendo inúmeros casos de pessoas que em determinada encarnação abusaram de seus privilégios, mas que se viram obrigadas a reencarnar na mesma posição daqueles de quem abusou.
Nós, espíritos ainda imaturos e egoístas, estamos constantemente aprendendo com nossos erros. Aprendemos pela experiência e pelo sofrimento a dividir e compartilhar, sejam bens materiais, direitos ou o simples respeito mútuo. Por hora, a desigualdade material é um mal inevitável, inerente à nossa própria inferioridade como indivíduos e como sociedade. Cabe a nós começar a criar hoje um mundo melhor, onde a desigualdade extrema, a injustiça e os preconceitos existam apenas nos livros de história.