Receitas cristãs

José da Silva de Jesus · Capítulo 12 de 18

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Receitas cristãs

Autoridade moral e autoridade terrena ..............................................................

 

Na terra a autoridade se manifesta de várias formas. A primeira autoridade que reconhecemos é a de nossos pais. “Honra a teu pai e a tua mãe” diz o mandamento de Deus a Moisés. Mandamento que não obriga os filhos a obedecer cegamente por toda a vida as ordens ou conselhos dos pais, mas que serve no mínimo como lembrete de que os filhos nunca devem usar de sua posição privilegiada, no auge da maturidade e força, para prejudicar aqueles a quem devem muita gratidão, quando estes já estiverem velhos e fracos.

O segundo tipo de autoridade que aprendemos a respeitar é aquela das pessoas mais velhas. Geralmente isto é ensinado em nossa infância pelos nossos pais que nos lembram que, não somente eles, mas também outros adultos possuem experiência que uma criança ou jovem ainda não adquiriu e por isto devem ser ouvidos e respeitados.

Longe do convívio dos pais e dos parentes mais próximos, ou de professores e outros guias, o terceiro tipo de autoridade que aprendemos a respeitar é a autoridade da força. Este era o tipo de autoridade que predominava no mundo antigo, a chamada “lei do mais forte”, e com poucas exceções o soberano, desde as civilizações mais remotas até recentemente na idade média, era aquele que conseguisse submeter toda uma população pela violência ou pela ameaça de violência. As leis antigas também sempre davam privilégio aos mais fortes, como o primogênito, ou a prevalência do homem sob a mulher em inúmeras questões como o direito ao voto, às heranças, a idade para a maioridade civil (que no Brasil só foi igualada no ano de 2002) e muitas outras. Era uma maneira (injusta é claro) de pacificar conflitos desnecessários, pois, numa sociedade governada pela força física, o mais forte acabaria por prevalecer sob o mais fraco de qualquer maneira. Já funcionários públicos como policiais ou juízes, exercem não a sua própria força, mas a força autorizada pelo estado. Nas sociedades republicanas, existe a soberania não de um rei ou tirano, mas a soberania do interesse público, que deve prevalecer sobre o interesse individual, por isso a força dos representantes do estado, dentro dos limites da lei, é a única que podemos considerar como sendo justa.

Outro tipo de autoridade que percebemos nas sociedades modernas é a autoridade daqueles que possuem muitas posses, a autoridade do dinheiro, que muitas vezes manda mais do que a própria lei. O dinheiro ou os bens materiais que ele compra (e que a maioria de nós busca desesperadamente a vida inteira) conseguem, de maneira sutil, comprar a amizade e a influência em todo tipo de organização. Seja dentro de partidos políticos, governos, clubes privados ou mesmo organizações religiosas, aqueles com mais dinheiro quase sempre acabam assumindo as posições de maior destaque e respeito.

Por fim, um outro tipo comum de autoridade terrena é a dos diferentes cargos e funções no ambiente de trabalho. Está é uma autoridade mais natural e aceitável quando derivada da experiência e do mérito daquele trabalhador encarregado de organizar o trabalho, pois, experiência e mérito são justamente os elementos essenciais da autoridade moral.

Longe da esfera material, entre os espíritos organizados para a tarefa do bem, só existe um tipo de autoridade, a autoridade moral. A autoridade moral pode ser de certa forma parecida com a autoridade dos mais velhos, pois, em geral, os espíritos mais experientes são aqueles que já tiveram a oportunidade de aprender pelos próprios erros o caminho do bem. Mas ao contrário do mundo espiritual, esta autoridade moral não necessariamente se reflete nas posições que os espíritos ocupam na terra quando encarnados. Podemos encontrar um espírito experiente em uma criança com pais ainda moralmente imaturos e cheios de más tendências. O mesmo vale para qualquer relação entre diferentes posições sociais, entre chefes e subordinados, entre ricos e pobres etc. A autoridade moral não equivale e muitas vezes não corresponde à autoridade terrena estabelecida pela força, pelo dinheiro ou simplesmente pela idade. Desde o nascimento aprendemos a respeitar a autoridade terrena nas suas diferentes formas, seja esta autoridade justa ou injusta. Por isso não precisamos nos modificar para aprendermos a aceitar autoridade que se impõe a nós, a autoridade imposta dos pais, dos chefes, da lei, da força ou aquela imposta pelas intrigas e acordos políticos, não exige que aqueles que se submetem a ela estejam de acordo. Ao contrário desta, a autoridade que é muitas vezes difícil de ser aceita é a autoridade moral e justamente por não corresponder à autoridade terrena, muitas vezes nós a suprimimos com nossa posição privilegiada.

A autoridade moral daqueles que não possuem posição de poder ou comando na terra se manifesta, entre outras formas, pelas opiniões, pelas pequenas atitudes benevolentes ou pela postura pacífica. Aquele que possui autoridade moral sempre escolhe o caminho da paz e do perdão, quando confrontado com a opção de agir de duas formas diferentes, sempre escolhe a atitude que trará o menor prejuízo aos outros, mesmo que isto signifique algum prejuízo para si mesmo, estando sempre disposto a se sacrificar pelo próximo. Por sua atitude pacífica, quando somada ao fato de estarem numa posição subalterna, estas pessoas às vezes são rotuladas de simplórios ou pacatos. Mas a atitude não combativa e a disposição para abrirem mão de benefícios e se sacrificarem pelo próximo não são fruto de fraqueza ou mediocridade, é apenas o reflexo da superioridade moral que possuem, que torna estas pessoas capazes de abrirem mão daquilo que outros brigariam para conseguir e estariam dispostos a prejudicar o próximo para obter.

Naturalmente aqueles que possuem esta autoridade ou superioridade moral entrarão em conflito com aqueles que exercem autoridade de forma injusta, sejam os que se impuseram pela força, pelo dinheiro ou aqueles que abusam da autoridade imposta pela lei ou pelas relações do trabalho. E exceto em raras exceções estes se curvarão diante de uma grande autoridade moral presente em alguém com baixo status, como teria feito o papa certa vez diante da autoridade moral de São Francisco de Assis.

É difícil para nós, espíritos ainda cheios de orgulhos e preconceitos, nos curvar diante da discordância de ideias de pessoas em posição subalterna, mas podemos começar a tentar exercitar nossa humildade aprendendo a ouvir e nos questionar se não estamos diante de uma autoridade moral superior à nossa. Podemos começar nos perguntando se aquela opinião adversa não se deve ao fato de a pessoa estar levando em conta princípios morais que podemos ter esquecido de considerar, se o motivo daquele subordinado discordar da nossa opinião ou resistir à nossa imposição não é porque estamos adotando uma posição desnecessariamente agressiva ou se estamos ignorando prejuízos que aquela atitude pode causar a terceiros.

Nas relações com pessoas de fora do nosso círculo mais íntimo, principalmente no ambiente de trabalho, nosso orgulho torna difícil aceitarmos nos curvar diante de uma autoridade moral superior à nossa, presente em alguém com baixo status ou em grau hierárquico inferior. Na intimidade do lar, longe dos olhares de estranhos, é mais fácil começarmos a praticar este tipo de humildade, nos questionando por exemplo se um filho não possui valores morais inatos que estão acima dos nossos. Sendo espíritos imortais esta é sempre uma possibilidade, aliás, é mesmo muitíssimo provável que aqueles que se encontram sob nossa guarda e proteção, possam possuir pelo menos alguns aspectos do seu caráter em estado evolutivo superior ao nosso, pois dificilmente podemos nos considerar superiores a tudo em relação a outro espírito igualmente em estágio de aprendizado.

Começando a praticar esta humildade dentro de casa, podemos algum dia tentar expandir esta prática para as relações com todas as demais pessoas. A humildade e o desejo sincero de executar qualquer tarefa da melhor maneira possível, elimina a falsa autoridade terrena e abre espaço para que um dia a terra também seja governada apenas pela autoridade moral.