Receitas cristãs

José da Silva de Jesus · Capítulo 14 de 18

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Receitas cristãs

Corrupção política e corrupção do dia a dia. .......................................................

Corrupção política e corrupção do dia a

dia.

 

Em um vídeo que circula na internet o historiador Leandro Karnal explica que a corrupção não está só na política mas em todos os lugares, no uso indevido da vaga de deficiente, no recibo falso usado na declaração do imposto de renda, no favor de quem pede para “tirar” uma multa de transito, e explica que esta corrupção se repete até os altos escalões do governo.

Mas existem grandes diferenças nas consequências destes dois tipos de corrupção. Por exemplo, imaginemos um engenheiro que possua uma renda de $10 mil por mês more em um condomínio pagando uma taxa de condomínio de $400, da qual são desviados $100 por um esquema fraudulento do síndico. Isto significa que este engenheiro terá 1% de sua renda de $10 mil desviada indevidamente para o bolso do corrupto. Mas imaginando que este engenheiro seja uma pessoa normal, com um comportamento que não esteja muito acima da média em termos de honestidade, ele provavelmente irá praticar algum ato que lhe dê uma vantagem indevida de $100, por exemplo quando ele consegue um favor de alguém que anula uma multa por ter estacionado na vaga de deficiente. Repare que no final ficou tudo “elas por elas” ou conforme o ditado “se todo mundo levar vantagem em tudo, ninguém leva vantagem em nada”.

Muito diferente é o prejuízo causado pelo desvio de dinheiro público. No Brasil hoje a carga tributária está próxima de 40%, morando aqui este engenheiro poderia ter cerca de $4000 de sua renda direta ou indiretamente encaminhada para impostos, se 40% forem desviados pela corrupção são $1600, ou 16% da renda do engenheiro indo parar nos bolsos de quem não deveria, um prejuízo muito maior do que aquele causado pelo síndico corrupto. Podemos imaginar que este engenheiro sendo uma pessoa comum e não estando envolvido em nenhum grande esquema ilegal, não terá como recuperar estes $1600 perdidos para a corrupção na esfera política.

A corrupção política gera acumulação de riqueza em larga escala, algumas das construtoras envolvidas em escândalos recentes no Brasil acumularam nos últimos anos grandes fortunas, transformadas em monopólios legalizados na forma de rodovias, ferrovias, estaleiros etc. Os grandes empresários corruptos do passado são hoje gigantes que monopolizam “honestamente” setores importantes da economia como transportes, telecomunicações, agronegócio, indústria, redes de televisão e tudo o mais que se possa imaginar. A possibilidade de roubo em larga escala por uma parcela muito pequena da população gera enormes concentrações de poder e desigualdade social, diferentemente da corrupção do dia a dia que gera pequenos prejuízos e vantagens mútuas entre pessoas comuns.

Ao contrário dos pequenos atos de desonestidade do dia a dia, os grandes empresários corruptores e seus políticos corrompidos possuem o poder de moldar a sociedade em uma estrutura extremamente desigual. Por exemplo, há séculos atrás os traficantes de escravos conseguiram a aprovação da igreja para legalizar o seu negócio, distorcendo as leis da igreja cristã que governava a sociedade da época, resultando em uma desigualdade econômica entre pessoas negras e brancas que não conseguimos superar até hoje. Esta e outras tantas grandes injustiças do passado criaram a sociedade brasileira, uma das mais desiguais do mundo. Mas uma vez estabelecida esta desigualdade social, os poderosos passam a corromper os governos para que impeçam a reversão do sistema, mesmo que as leis futuras como as da nossa constituição de 1988 atendam justamente o desejo da população de ver revertidas as injustiças hereditárias, a corrupção da classe política opera justamente para impedir este processo, ao corrupção política opera constantemente para impedir a execução do que está estipulado nas chamadas leis progressistas.

Como cristãos buscamos sempre nos tornarmos pessoas melhores e queremos também ver a sociedade reformada com a fim da corrupção política, mas para isso precisamos aprender a nos interessar mais pelos resultados das nossas escolhas políticas. Ao invés do nosso comportamento de costume que consiste em adotar um “time” e torcer por ele, elegendo de pronto os nossos heróis e vilões e torcendo para a derrota do outro lado, precisamos aprender a escolher políticos realmente compromissados com o combate à corrupção. Um bom ponto de início para esta difícil escolha seria se recusar a votar em qualquer político que tenha sido beneficiado com doações de empresários envolvidos em esquemas de corrupção, seja de qual partido for, esteja ou não sendo denunciado ou investigado, podemos deduzir razoavelmente que o político que aceita este tipo de doação não pode estar seriamente compromissado com o fim da corrupção.

Mas porque todo este volume de dinheiro nas mãos do estado? Será que não seria melhor desmanchar o estado, eliminando a fonte de enriquecimento destes corruptos e eliminar assim a corrupção?

Como dissemos, a constituição do estado brasileiro, assim como a da maioria dos estados tem como função principal justamente tentar inverter este jogo. A arrecadação de impostos que acaba em boa parte sendo revertida para financiar a corrupção, existe justamente para tentar eliminar os frutos da corrupção do passado, que se traduz nas injustiças do presente. Por exemplo, as faculdades públicas deveriam ser destinadas a quem não pode pagar, financiamentos de bancos públicos deveriam se concentrar nos pequenos empresários e consumidores que não possuem crédito, saúde pública e educação básica publicas deveriam garantir tranquilidade e oportunidades iguais a todos, ajudando a reverter séculos de corrupção política e concentração de renda. Uma das funções primordiais do estado é justamente nivelar o jogo, criando uma igualdade de condições e oportunidades para todos. Assim, um dos principais motivos da existência da corrupção na política é justamente impossibilitar esta função básica do estado e manter em funcionamento os velhos esquemas.

A corrupção na política tem como um dos seus alvos principais o ataque às políticas que promovem a igualdade de condições, que possibilitaria a emancipação de milhões de pessoas que se encontram em situação de pobreza/miséria, e que uma vez que alcançassem a classe média se tornariam uma força política muito difícil de se controlar. Em todo o mundo, povos que se emancipam da pobreza costumam exigir o fim de velhos privilégios, passam a exigir maior participação democrática e se tornam uma grande ameaça às velhas elites corruptas. Assim, o desmanche das políticas do estado ao invés de ser uma passo na direção do fim da corrupção, na verdade é a ferramenta ideal para manter intactas as velhas estruturas, conservando a desigualdade que é fruto da corrupção política do passado.

Tanto a corrupção política como a corrupção do dia a dia são fruto das mesmas falhas de carácter, e o cristão que deseja se tornar uma pessoa melhor precisa aprender a depurar o seu caráter evitando cometer os pequenos atos de “esperteza” do dia a dia. Mas tão importante quanto não ser conivente com qualquer ato imoral/ilegal, precisamos aprender a não aceitar a continuidade das injustiças históricas, como os salários menores pagos às mulheres, a falta de oportunidades aos herdeiros da escravidão, precisamos aprender a não nos beneficiarmos do desespero do trabalhador pobre que, passando fome, aceita trabalhar por um salário que lhe garantirá o pão de hoje mas não garante a saída da miséria, podemos quem sabe aprender a não nos beneficiarmos do sistema já consagrado de exclusão do ensino superior público, que banca quase que exclusivamente os estudos de alunos que teriam condições de pagar e deixa de fora os que não podem. Todas estas injustiças, das quais podemos fingir não termos parte, são fruto de séculos de corrupção, mas não dá para fingirmos combater a corrupção sem que estejamos realmente compromissados em combater o fruto desta corrupção histórica, que é a desigualdade, sempre lembrando que o homem de bem segundo Allan Kardec, nunca é demais repetir, “toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça”. Meu dinheiro honesto