Receitas cristãs
Mundo civilizado ...................................................................................
Costumamos chamar de “civilizações” aquelas grandes aglomerações de pessoas do passado que construíram grandes monumentos de pedra, ou que atingiram grandes feitos que marcaram a sua presença na história do mundo. Mas também podemos traçar uma linha divisória entre o mundo civilizado e mundo não civilizado na antiguidade pela existência ou não de um conjunto de leis que estabelecessem a ordem em um grupo de pessoas. As pessoas que não viviam sob o domínio de um estado onde existisse uma lei civil, que devia ser obedecida por todos, estavam naquilo que em O Livro dos Espíritos é chamado de “Estado de Natureza”.
Na resposta à pergunta 776 deste livro os espíritos informam que “A civilização é incompatível com o estado de natureza” e Allan Kardec acrescenta que “O estado de natureza é a infância da Humanidade e o ponto de partida do seu desenvolvimento intelectual e moral.”
Mas como era este tal estado de natureza? O estado de natureza era o estado em que se encontravam todos os espíritos da terra nas eras primitivas, antes do estabelecimento das civilizações. É onde reinava o que chamamos hoje de “lei da selva” ou “lei do mais forte”, na verdade é a falta de qualquer lei. Se não existe um estado, alguma forma de governo que estabeleça leis que devem ser obedecidas por todos, então todos possuem liberdade total, livres de qualquer coerção e qualquer punição, se acham então no direito de fazer o que bem entenderem e, ao mesmo tempo, ninguém tem direito a nada. Isso porque cada um só pode dizer que é seu aquilo que conseguir por conta própria tomar conta e evitar que seja tomado por outra pessoa, não existe o conceito de propriedade, não existem direitos e nem mesmo uma noção ou guia do que possa ser considerado certo ou errado. A terra no estado de natureza era semelhante aos mundos atrasados descritos em O Evangelho Segundo o Espiritismo:
“Nos mundos mais atrasados, os seres que os habitam são de
algum modo rudimentares; têm a forma humana, mas sem
nenhuma beleza. Os instintos não têm ainda nenhum
sentimento de Delicadeza ou de benevolência nem noções de
justiça ou de injustiça. A força bruta é a única lei.” (Cap. 3,8)
O estado de natureza em que se encontrava a terra em era primitivas é similar àquele estado de coisas que vemos nos filmes ou séries de TV apocalípticos, que retratam um futuro em que a humanidade retrocede (algo que o espiritismo nos mostra ser impossível) a um estado de barbárie, que na verdade é inspirado nas nossas memórias distantes de tempos passados.
As primeiras civilizações foram aqueles pequenos agrupamentos de pessoas que se uniam para se protegerem contra agressões externas. Construíam então suas casas próximas umas das outras e frequentemente erguiam algum tipo de proteção como um muro em volta de todas as casas. Logo se formavam as cidades muradas, com suas próprias leis, as chamadas “cidades estado” de onde derivam os termos cidadão, civil, civilização etc. Os habitantes das cidades não estavam mais sujeitos aos perigos da “lei da selva”, mas dentro delas era preciso estabelecer um conjunto de regras mínimas a serem obedecidas por todos e também algum tipo de poder que tivesse o direito de usar a força contra quem violasse estas regras. Mas aqueles que viviam fora dos muros da cidade não estavam sujeitos a nenhuma lei, pois não havia quem pudesse impor leis e punir quem estivesse fora da cidade. Lá fora o estado de guerra ainda era permanente, todos podiam fazer o que quisessem e ninguém estava a salvo de qualquer violência. Por isso a maior punição para um cidadão era ser expulso da cidade, expulso da civilização.
Após alguns milênios de lutas frequentes entre grupos rivais, chegamos ao mundo atual em que quase toda a superfície da terra está dividida em nações, imensos estados, mas cada um ainda com suas próprias leis. As nações atuais na prática funcionam ainda de forma muito similar às cidades estado, cada cidadão de uma nação deve obedecer somente às leis do território ao qual pertence e só pode ser punido pela violação das leis do país ao qual pertence ou onde estiver residindo. Uma diferença é que a maioria dos países não adota mais a pena de banimento, até porque praticamente não existem mais áreas “sem dono”, ao sair de um país já se está automaticamente dentro de outro.
Existem hoje é claro muitos acordos e organizações internacionais como a ONU, FMI, Banco Mundial, Interpol, OIT etc. e também as chamadas leis internacionais, que são acordos voluntários entre países que estabelecem regras de conduta, como as convenções de Genebra. Mas ao contrário das leis internas de cada país, não existe uma força que obrigue um país a obedecer qualquer tratado ou lei internacional, os países apenas obedecem aqueles tratados que lhes são convenientes e apenas enquanto ainda forem convenientes e não existe uma polícia internacional ou justiça mundial que possa punir um país por desobedecer qualquer lei.
Isto ficou bem claro nos anos recentes quando os líderes dos Estados Unidos (que já tentaram se investir no papel de polícia do mundo) resolveram unilateralmente declarar guerra e invadir o Iraque com um pretexto que se provou mais tarde ser uma mentira, desrespeitando as resoluções da ONU e também inúmeros tratados internacionais como as próprias convenções de Genebra, o que provocou grande indignação até mesmo de parte de sua própria população. Mas apesar das inúmeras violações às leis internacionais, não houve qualquer país ou qualquer polícia ou força internacional que pudesse nem ao menos sonhar em aplicar qualquer punição por estas violações.
Este e outros exemplos mostram que na prática ainda não vivemos em um mundo que se possa chamar de civilizado, ou completamente civilizado. Não existe uma autoridade internacional e uma força internacional que possa punir por exemplo empresas que manipulam governos corruptos e provocam guerras em busca de maiores lucros. A única interferência possível é a pressão de outros grupos econômicos poderosos que temem ver seus negócios prejudicados e no mundo de hoje, assim como há 200 anos, ainda é muito comum vermos grupos extremistas formando guerrilhas e sendo financiados pelos interesses econômicos de países rivais como na Ucrânia, Iêmen, Síria etc.
No futuro da terra, quando vivermos sob uma verdadeira civilização, quando pudermos realmente nos considerar civilizados, nenhum cidadão do mundo vivera mais sob o medo de ver seu país destruído por uma guerra entre interesses internos ou estrangeiros. Pequenos grupos radicais como o Estado Islâmico e outros similares serão rapidamente contidos e na verdade nem conseguirão acesso a armamentos, pois em um mundo civilizado uma efetiva polícia do mundo conterá os radicalismos ao invés de financia-los. Um mundo civilizado será governado por uma lei comum, com peculiaridades locais, mas com princípios comuns que nenhum governante regional ousará violar.
Os espíritos violentos, sedentos de guerra e separatismo serão como os criminosos comuns de hoje, que são exceção e não maioria. Estes espíritos violentos não conseguirão mais convencer a população de países inteiros e arrastar nações para a guerra sob qualquer pretexto, assim como os criminosos comuns hoje não conseguem convencer multidões a invadirem e roubar os bancos.
Um dia os espíritos agressivos e preconceituosos, os que pregam políticas e espalham boatos maliciosos contra imigrantes, os que pregam ideias nacionalistas radicais e incitam guerras etc. estarão todos mudados de personalidade, ou, caso contrário, serão mudados de planeta. Uma humanidade transformada não tolerará mais os políticos com discurso de ódio e nem aqueles que tratam qualquer conflito econômico ou político como motivo suficiente para ameaçar um agressão militar. O comportamento violento e as agressões gratuitas daqueles que se julgam superiores não será mais tolerado, da forma similar ao modo como o bullying está aos poucos sendo banido das escolas.
Num planeta terra plenamente civilizado, as leis serão efetivas e se aplicarão a todos não importando o quanto poderosos sejam os interesses. Não existirão mais guerras porque os conflitos serão mediados por um poder comum acima de todas as forças de qualquer país e assim a lei do mais forte não será mais aplicada nas relações internacionais. Desta forma, os últimos resquícios da “lei da selva” serão removidos.
Mas por hora o que podemos fazer é banir da política os espíritos violentos e com discurso radical, aqueles que constantemente sugerem que a violação das leis que asseguram direitos e garantias sociais pode ser a solução para se obter uma sociedade melhor. Estes na verdade prefeririam ver a democracia ser substituída por uma estrutura hierárquica militar, onde não existe espaço para debate, apenas obediência ou punição. Estes são os espíritos atrasados da nascente civilização terrena, por detrás de um discurso que fala em “lei e ordem” na verdade encontramos espíritos que vivem intelectualmente num mundo onde só existem fracos e fortes, onde se manda ou se obedece, independentemente do que seja certo ou errado, justo ou injusto. Estes espíritos precisam ser ajudados para se adaptarem a uma sociedade plural e democrática e não serem colocados em posição de comando.
Sem estes princípios básicos, sem o respeito à lei e às diferenças, não poderemos viver em verdadeira paz e nunca poderemos nos considerar seres realmente civilizados. Podemos, e na verdade precisamos, começar a construir este mundo civilizado hoje mesmo e o primeiro passo é afastar de nossa mente todos os pensamentos e ideologias que tendem para o autoritarismo e a intolerância. Um mundo realmente civilizado, livre de toda intolerância e de toda agressão gratuita contra os mais fracos, ainda é um sonho distante, mas é um mundo possível e cuja construção começa dentro de nós mesmos. Em uma época em que o clima político e a facilidade de acesso à informação ajudam a exacerbar as posições radicais, se aprendermos a nos controlar e tolerar as opiniões divergentes, sempre seguindo o exemplo de humildade e paciência do Cristo, já estaremos dando um importantíssimo primeiro passo em direção a um mundo civilizado.
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José da Silva de Jesus