Receitas cristãs

José da Silva de Jesus · Capítulo 7 de 18

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Receitas cristãs

Quanto dinheiro eu preciso? ........................................................................

 

De quanto dinheiro eu preciso para ser feliz? Será que preciso de muito, ou será que é possível ser feliz com quase nada? Podemos escrever mais um texto onde se repete a frase “dinheiro não traz felicidade”, mas não é exatamente disto que iremos falar, pois apesar de saber que dinheiro (no sentido de muito dinheiro) não é a formula da felicidade, ainda assim permanece o fato de que o trabalho e as necessidades básicas de todos são reguladas pelo dinheiro. Para saber se estou buscando inutilmente (mesmo que sem perceber) a minha felicidade no acumulo de bens materiais, eu preciso saber primeiro o quanto pode ser considerado um acumulo ou excesso de bens materiais, o quanto é muito e o quanto é pouco dinheiro, que estilo de vida e de posses materiais é útil e necessário e que estilo de vida pode ser considerado extravagante ou materialista. Eu preciso saber onde é que fica, se é que existe, esta linha divisória.

À primeira vista esta pode parecer uma questão muito subjetiva, pois, o que é muito para um, é o mínimo para outro. Os espíritos mais evoluídos e que veem ao mundo em missões especiais, como Chico Xavier, Bezerra de Menezes e outras dezenas de exemplos de pessoas de todos os credos e culturas ao redor do mundo, provam que para ser feliz não é necessário quase nenhum conforto material. Mas isso é para eles, espíritos especiais, e quanto a mim? Qual será a medida do necessário e do supérfluo para mim, espírito imperfeito vivendo uma vida comum?

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo aprendemos que o homem primitivo usava sua inteligência básica para se proteger do clima e contra as ameaças e que Deus concedeu a ele o desejo e a inteligência para aperfeiçoar suas condições de vida, com o trabalho constante motivado por esse desejo de melhoria “sua inteligência se desenvolve, sua moral se purifica”. (Cap. 25, 2) Assim, o desejo constante de obter uma condição melhor é uma lei natural para o animal racional. Enquanto que os seres irracionais se contentariam apenas com alimento farto dentro de uma caverna, o ser racional quer sempre melhorar sua caverna, sua casa, sua cama, o seu ar-condicionado etc. e esta busca diária por melhores condições é essencial para o aperfeiçoamento do espírito. Mas ao contrário do ser irracional que se contenta com o necessário, a inteligência e o desejo de melhorar-se nos leva facilmente ao materialismo, que nos prende a um ciclo constante de ambição por condições melhores. A inteligência e o desejo de nos melhorarmos é ao mesmo tempo uma benção e um fardo, procuramos e conseguimos nos melhorar materialmente, mas não sabemos colocar um limite racional a esta busca e acabamos nos tornando prisioneiros dela.

Ainda em O Evangelho Segundo o Espiritismo vemos que o homem imperfeito muitas vezes não enxerga bens mais preciosos que os da terra e com isso “tudo faz para conseguir os únicos bens que para ele tem valor. A perda do menor de seus bens é um doloroso desgosto.” (Cap. 2,5) Já o homem de fé dá menos valor à vida material e aos bens passageiros “a importância atribuída aos bens terrenos está sempre na razão inversa da fé na vida futura”. Mas isso não significa que um homem de fé não precise tomar conta do seu presente. O instinto de melhoria de que falamos, nos impulsiona a querer estar na melhor condição possível, com o máximo de conforto que possamos alcançar, o que também ajuda a acalmar o espírito e libera a mente para trabalhar em favor do próximo. Portanto não existe nenhum tipo de limite natural ao máximo de conforto que os seres humanos encarnados na terra possam obter coletivamente. Não se deixando, é claro, cair nas armadilhas das paixões e prazeres do corpo, o homem pode sempre fazer evoluir seu estado material com a finalidade de obter mais segurança, saúde e conforto necessários para trabalhar mais e melhor.

Mas antes de nos deixarmos levar pela ideia de que, não existindo um limite natural para o conforto, eu posso então acumular bens sem me preocupar com mais nada, precisamos lembrar que o ser humano é um animal social. Não produzimos absolutamente nada sozinhos, basta olharmos em volta neste exato momento e não encontraremos nada que não tenha dependido da mão de obra de pelos menos 2 ou 3 outras pessoas, a tela usada para ler este texto envolveu a mão de obra de literalmente milhares de pessoas.

A vida em sociedade possui algumas regras bem simples e de fácil compreensão por todos. Por exemplo, ao entrar em um transporte público vazio, pode-se ocupar dois ou três assentos e até deitar e tirar um cochilo sem incomodar ninguém, mas basta entrar alguns poucos passageiros e logo já nos sentiremos um pouco constrangidos e nos perguntaremos se não estamos sendo um incomodo para os outros ao deitarmos em vários assentos. E não precisamos de nenhuma regra de conduta escrita para saber que quando o ônibus ficar lotado, seria uma grande falta de respeito continuar deitado ocupando 3 lugares. O mesmo podemos dizer de um terreno na mata, sem dono, usado como ponto de acampamento e que possa ser ocupado livremente, mas à medida que o acampamento fosse ficando cheio de outras barracas, as minhas coisas espalhadas pelo terreno começam a incomodar os outros campistas. O mesmo vale para uma panela cheia de comida que eu encontro ao chegar em casa, eu posso comer à vontade se tiver certeza de que ninguém mais irá jantar, mas se descobrir que não sou o único, seria uma enorme falta de respeito devorar 3 pratos cheios e não deixar nada para os outros.

Regras como estas são tão obvias que não precisam ser escritas, não precisamos de leis e regulamentos para saber que todo espaço ou bem compartilhado por outras pessoas deve respeitar um balanço entre as necessidades minhas e também as necessidades dos outros. O mesmo deveria valer para a quantidade de bens materiais que uma pessoa ou família poderiam desfrutar numa sociedade que produz tudo coletivamente. O limite onde termina o necessário e começa o supérfluo é sempre o limite social, o limite onde o meu estilo de vida começa a custar mais do que aquilo que a média da população poderia também obter. O limite é sempre o limite do prejuízo ao próximo, quando começo a reservar muito espaço, muita comida ou muito dinheiro para mim, começo a privar o próximo do direito de também desfrutar destas coisas, mesmo que eu esteja agindo de forma honesta e não exista nenhuma lei que me proíba de fazer isto.

Mas é impossível estabelecer um limite fixo em valores ou em bens materiais, como a tecnologia evolui sempre, este limite está sempre mudando, ter 3 TVs na década de 70 seria uma extravagancia, ter 4 TVs hoje é possível e razoável até para uma família de classe C. Portanto a medida do necessário e do suficiente muda conforme evolui a tecnologia, mas o necessário e o suficiente devem sempre ficar limitados ao que a sociedade como um todo for capaz de oferecer a todos os que participam do trabalho. Se um certo nível de conforto e de posses materiais não for possível de ser alcançado por todas as pessoas que trabalham e contribuem para o bem estar geral da sociedade, significa que este estilo de vida e de posses está em desacordo com aquela lei do equilíbrio.

Podemos concluir então que o equilíbrio e o bom senso são as medidas ideais para que eu não me torne prisioneiro de uma armadilha materialista, em uma sociedade que valoriza mais o status do que as boas ações. Não preciso de leis ou regulamentos que me digam como devo viver, assim como basta olhar a quantidade de passageiros e de assentos disponíveis no ônibus, também basta olhar à minha volta, na minha rua, meu bairro, minha cidade e ver se o estilo de vida que eu busco é acessível a todos ou se eu estou causando um desequilíbrio por não saber controlar minha ambição. Se estou tentando comprar um carro que poucos podem comprar, uma casa maior e melhor do que a maioria possui, se possuo roupas e aparelhos eletrônicos que a maioria não tem, provavelmente não estou contribuindo para o equilíbrio da sociedade e mesmo que eu seja bastante trabalhador e honesto, provavelmente existem muitos outros igualmente trabalhadores e honestos, mas que não foram agraciados com a mesma sorte que eu.

 

Se ainda não sou capaz de ser um exemplo de humildade e abnegação como Deus desejaria que eu fosse, ou como foram as almas iluminadas dos grandes mestres do espiritismo e do cristianismo, posso pelo menos por enquanto tentar não ser um ponto de desequilíbrio, o que com certeza trará muito mais tranquilidade para a minha vida. Enquanto ainda não atingi este grau de evolução moral capaz de me libertar, me desapegar das ambições materialistas, vou tentando por enquanto ser mais feliz com um pouco menos, pois a experiência nos mostra que as almas mais felizes que já viveram na terra na verdade não precisaram de quase nada.