Revisitando o Território Fluminense VI
8. Dinâmicas territoriais no estado do Rio de Janeiro: reflexões em torno da região Noroeste Fluminense
Dinâmicas territoriais no estado
do Rio de Janeiro: reflexões em
torno da região Noroeste
Fluminense
Bruna Piraciaba, Linovaldo Lemos1
1. Introdução
O jornal O Globo, em 26/10/2014, buscava sintetizar, por meio do
título de uma matéria, o quadro da estagnação vivenciada por uma
região do estado do Rio de Janeiro (ERJ): “Noroeste Fluminense
enfrenta esvaziamento econômico e dificuldades na geração de
renda”. Longe de ser uma notícia referente a um quadro sazonal de
dificuldade na região, esse título figura como uma espécie de
epígrafe que tem sido utilizada, por vezes em tons ainda mais
incisivos ou mais opacos, para identificar e singularizar o Noroeste
Fluminense vis-à-vis o ERJ.
Analisam-se, aqui, as transformações pelas quais essa região tem
passado, situando-as no contexto mais amplo das dinâmicas
territoriais do ERJ. Pretende-se, com isso, lançar luz sobre essas
dinâmicas e compreender as mudanças por que tem passado o
Noroeste Fluminense (NOF), procedendo-se a uma caracterização
socioeconômica e ao estabelecimento de diferenciações internas
entre os municípios que compõem a região.
Nessa perspectiva, a pesquisa se baseia em dados secundários
disponibilizados por: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE); Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE/ RJ);
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD);
Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado do Rio de Janeiro (Sebrae-RJ); Fundação Centro Estadual de Estatísticas,
Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro
(Ceperj); Relação Anual de Informações Sociais (Rais); e Ministério
do Trabalho. Também recorre a alguns trabalhos da Federação das
Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Esses dados são
analisados à luz de uma bibliografia que versa, direta ou
indiretamente, sobre o tema da dinâmica territorial no ERJ.
Ao centrar a análise no NOF, o texto privilegia, como
procedimento metodológico, a coleta e a análise de dados capazes
de auxiliar no estabelecimento de um perfil geral dos municípios que
compõem a região, trazendo indicadores para caracterizá-la e situá-
la no contexto do ERJ. Munidos de dados dos últimos censos (1991,
2000 e 2010), este ensaio busca contribuir para a compreensão da
atual realidade dessa região, de modo a apontar as principais
transformações por que passa, bem como o respectivo papel no
contexto estadual.
Acompanham este estudo três pressupostos básicos no que diz
respeito às escalas de análise que nortearam a pesquisa e que
precisam ser apontados de antemão.
Em primeiro lugar, parte-se do pressuposto básico de que os
municípios têm importância como entes federados dotados de
prerrogativas constitucionais que o capacitam a formular e
implementar políticas públicas em diversas áreas, tendo, por isso
mesmo, grande capacidade de intervenção na realidade local e na
vida do cidadão. Reside aí, em grande parte, o atual interesse da
geografia política no município (Castro, 2005). No entanto, o
reconhecimento da importância do município não exclui uma
abordagem que procure articular as escalas para além do recorte
municipal.
Em segundo lugar, tem-se o pressuposto de que as escalas de
ação – no presente caso, a regional – são concebidas como
construções históricas e como um foco de contestações e disputas
de diferentes atores sociais (Vainer, 2001; Castro, 2005; Cruz,
2003). Pensar o NOF significa conceber a multiescalaridade dos
fenômenos em suas imbricações e em seu realizar-se
espaçotemporal.
2. Danças e contradanças de um
estado em transformação
A atual configuração territorial do ERJ resulta de um processo
histórico marcado pelo papel de centralidade desempenhado pela
capital no contexto da federação e, concomitantemente, pelos
desafios que isso trouxe para as relações entre a capital e as partes
que compõem o estado – grosso modo, o interior. Para além da
questão da forte discrepância entre os pesos econômico, social,
político e cultural da capital e da região metropolitana em relação às
demais regiões do estado, tem-se ainda a questão do papel desse
interior em face de um estado com forte peso da Região
Metropolitana (Alentejano, 2005; Ribeiro, 2013). Em outras palavras,
o que está em jogo aqui é a compatibilização das forças de
aproximação e o distanciamento entre o todo e as partes que
compõem um estado da federação que tem como particularidades: i)
o papel de centralidade desempenhado pela cidade do Rio de
Janeiro; ii) o peso e a forte concentração da população e das
atividades produtivas na Região Metropolitana; iii) o papel
desempenhado – e atribuído – ao interior nesse contexto, bem como
a integração territorial-produtiva e política desse interior em relação
ao centro.
Assim, há um importante pano de fundo representado pelas
engenharias territoriais processadas no ERJ (Silva, 2011) e o papel
que desempenharam no engendramento da atual configuração
territorial. Tomemos, en passant, a transferência da capital para
Brasília em 1960, a criação dos estados da Guanabara e do Rio de
Janeiro no mesmo período e o processo autoritário de fusão dos
dois estados em 1974, em pleno período militar. Entre danças e
contradanças, criou-se a situação de um Rio de Janeiro versus o
Rio de Janeiro (Motta, 2007), que se traduziu na “inexistência de
coesão e de laços de solidariedade territorial” (Davidovich, 2001, p.
2) e numa singularidade em que capital e interior figuraram como
“duas vidas, se não autônomas, pelo menos paralelas e
relativamente independentes” (Galvão, 2009, p. 89).
É igualmente importante levar em consideração o quadro de crise
– real ou imaginada – trazido na esteira da perda do papel de capital
do país pela cidade do Rio de Janeiro e os desdobramentos com a
posterior fusão. De forma aberta ou velada, atribuiu-se ao interior o
papel de um espaço arcaico, agrário e conservador,1 símbolo do
atraso com que a antiga capital agora teria de se confrontar e lidar.
A premência de uma análise mais acurada tem sido
repetidamente apontada por pesquisadores dedicados a esse
estudo, ponto de vista compartilhado pelo autor deste artigo. Esses
pesquisadores advogam a necessidade de uma posição mais
nuançada, compreendendo que a tão propalada crise, cujo principal
indicador tem sido a redução relativa da participação na composição
do PIB da capital e da Região Metropolitana em relação ao conjunto
das regiões do estado, deve ser situada num contexto mais amplo
de transformações processadas no território fluminense,
principalmente a partir dos anos 1980.
Cabe, portanto, um olhar mais abrangente sobre o território do
ERJ, com uma abordagem menos “carioca-centrada” (Cruz, 2013) e
mais preocupada com os elementos que, atualmente, promovem a
integração do “território fluminense” em torno do “crescimento e da
dinamização de certas atividades econômicas” e das redes
logísticas que compõem seu território (Lemos e Rodrigues, 2014).
No sentido de problematizar e compreender essas transformações é
que nos referimos a uma nova ordem territorial (Binsztock, 1999) em
andamento no ERJ, com a mudança do papel das diversas áreas
que compõem o estado (Limonad, 2004), o que tem promovido um
novo ordenamento territorial e uma nova regionalização econômica
(Oliveira, 2005).
Ribeiro e Marafon (2009), por seu turno, afirmam que, nos últimos
trinta anos, o ERJ “apresenta uma diversidade de situações
provocadoras de mudanças geradoras de novas formas de
organização representadas por inúmeras inovações” tanto na
metrópole quanto no interior. Reconhecer essas novas dinâmicas,
contudo, não significa menosprezar o papel desempenhado pela
Região Metropolitana do Rio de Janeiro, especialmente pela capital.
De fato, parece que o discurso sobre a crise da cidade do Rio
predomina em muitos casos, seja na visão do Rio de Janeiro como uma “baleia encalhada” (Urani, 2008), seja como uma cidade “em
busca de autoestima” (Lessa, 2005), seja ainda a visão de uma
cidade – e de um estado – que se encontraria na “hora da virada”
(Urani e Giambiagi, 2011), em função do avanço das atividades
petrolíferas, da expansão dos investimentos públicos e privados,
bem como da emergência da cidade do Rio de Janeiro como centro
de grandes eventos.2
Para além da cidade do Rio de Janeiro e da Região
Metropolitana, alguns estudos têm demonstrado a crescente
importância do chamado “interior” do estado, com a análise de
diferentes questões, experiências e realidades centradas no ERJ,
em seus municípios e regiões (Fauré e Hasenclever, 2003 e 2005;
Fauré et al., 2008; Marafon e Ribeiro, 2003, 2008, 2010, 2012). De
forma geral, esses estudos vão ao encontro da ideia já referida aqui
de que ocorre um processo de transformação nas dinâmicas
territoriais do/no estado, com a crescente importância do interior.
Esses autores também têm destacado, para além da predominância
socioeconômica da capital e da Região Metropolitana, a tendência a
uma desconcentração das atividades produtivas e a uma
consolidação dos espaços especializados e de crescimento
demográfico ao longo das principais rodovias que cortam o estado
(Limonad, 2004). Como resultado, tem-se um processo de
“desconcentração” das atividades econômicas, com a reorientação
de investimentos e a movimentação da população no território
fluminense (Medeiros Júnior, 2013).
Focando-se nas áreas rurais, Rua (2007) corrobora essa ideia, ao
defender que existe “emergência de novas territorialidades”, a partir
de “eixos de maior densidade de urbanidades” nas áreas rurais do
ERJ. De forma complementar, Lemos e Rodrigues (2014) defendem
a ideia de que “vem ocorrendo uma transformação na dinâmica
territorial do estado” capaz de, progressivamente, imprimir maior
coesão às “suas diversas regiões, em função do crescimento e da
dinamização de certas atividades econômicas, bem como do papel
desempenhado pelas redes logísticas articuladas aos portos”
(Lemos e Rodrigues, 2014, p. 45).
A identificação dos setores e atividades econômicas responsáveis
por essas transformações, bem como a análise e a caracterização das regiões, fogem ao escopo deste artigo. Neste ponto, o que nos
interessa de perto é o papel do NOF no contexto das
transformações territoriais, o que se fará a seguir.
3. O cenário do Noroeste Fluminense
e o papel de Itaperuna
A região NOF foi criada em 1987, a partir do desmembramento do
Norte fluminense. Cruz (2007) salienta que, após décadas de
reivindicação regionalista, a busca pela “independência” da região
Norte Fluminense, mais especificamente em relação a Campos dos
Goytacazes, resulta, entre outros fatores, do fato de esse município
monopolizar a atenção e os recursos da iniciativa privada e dos
governos estadual e federal na escala da outrora região Norte-
Noroeste Fluminense.
Em meio a essa busca por emancipação, foram criadas “formas
próprias de organização, buscando construir um discurso e uma
pauta própria, ancorados na identidade territorial do NOF” (Cruz,
2003, p. 238). No entanto, alguns autores como Costa (2012)
ressaltam que, mesmo com a cisão ocorrida em 1987, não houve o
fim da periferização do NOF em relação ao Norte Fluminense e ao
município de Campos dos Goytacazes, questão que será abordada
mais adiante.
Atualmente, a região é composta por 13 municípios: Aperibé, Bom
Jesus do Itabapoana, Cambuci, Italva, Itaocara, Itaperuna, Laje do
Muriaé, Miracema, Natividade, Porciúncula, Santo Antônio de
Pádua, São José de Ubá e Varre-Sai, conforme se observa na
Figura 1.
Figura 1. Cartograma do estado do Rio de Janeiro, regiões de
governo e municípios da região Noroeste Fluminense.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Os desmembramentos municipais podem ser identificados em
três momentos: final do século XIX, com a criação dos municípios
de Santo Antônio de Pádua, Itaperuna e Cambuci; anos 1930-1940,
com a criação dos municípios de Bom Jesus do Itabapoana,
Miracema, Natividade e Porciúncula; e o último período, nos anos
1980 e 1990, com a emancipação de Italva (1986), Aperibé (1993),
Varre-Sai (1993) e São José de Ubá (1997), desmembrados,
respectivamente, de Campos dos Goytacazes, Santo Antônio de
Pádua, Natividade e Cambuci.
O exame dos dados relativos aos períodos de 1991/2000 e
2000/2010 nos esclarece que o NOF é a região de menor densidade
demográfica, com as menores taxas de crescimento populacional e a menor taxa de urbanização das regiões administrativas do estado
(Tabela 1).
Tabela 1. Taxa média geométrica de crescimento anual, taxa de
urbanização e densidade demográfica, segundo as regiões de
governo e municípios do estado do Rio de Janeiro (1991-2000 e
2000-2010)
Regiões de Taxa média Taxa média Taxa de Densidade
governo geométrica geométrica urbanização demográfica
de de (2010) (%) (1)
crescimento crescimento 2 (hab/km)
anual (1991-anual (2000-
2000) (%) 2010) (%)
Estado 1,32 1,06 96,7 365,23
Região 1,17 0,86 99,5 2.226,43
Metropolitana
Região 0,97 0,65 82,6 59,16
Noroeste
Fluminense
Região Norte 1,51 1,97 88,1 87,21
Fluminense
Região 1,02 0,69 85,8 116,15
Serrana
Região das 4,17 3,76 87,6 160,56
Baixadas
Litorâneas
Região do 1,39 0,86 95,6 138,22
Médio
Paraíba
Região 1,20 0,69 85,5 89,64
Centro-Sul
Fluminense
Região da 3,54 3,44 91,6 115,79
Costa Verde
Fonte: Adaptado da Fundação Centro Estadual de Estatísticas,
Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro
(Ceperj).
A análise da Tabela 2 permite acompanhar a oscilação da
população absoluta dos municípios entre os anos de 1991 e 2010.
Note-se, em primeiro lugar, que, em 2010, somente Itaperuna se
aproximava dos cem mil habitantes, pois os demais municípios
estavam na faixa inferior a cinquenta mil habitantes, alguns até com
pequena população, como, por exemplo, São José de Ubá, Laje do
Muriaé e Varre-Sai, com menos de dez mil habitantes.
Tabela 2. População total dos municípios da região Noroeste
Fluminense (1991-2010)
Municípios 1991 2000 2010
Aperibé – 8.018 10.213
Bom Jesus do Itabapoana 29.873 33.655 35.411
Cambuci 21.011 14.670 14.827
Italva 12.764 12.621 14.063
Itaocara 22.933 23.003 22.899
Itaperuna 78.000 86.720 95.841
Laje do Muriaé 7.464 7.909 7.487
Miracema 25.091 27.064 26.843
Natividade 21.765 15.125 15.082
Porciúncula 14.561 15.952 17.760
Santo Antônio de Pádua 39.600 38.692 40.589
São José de Ubá - 6.413 7.003
Varre-Sai - 7.854 9.4759.475
Fonte: IBGE.
Dados organizados por Neves (2006) a partir dos Censos
Demográficos de 1950, 1970 e 1980, aliados àqueles apurados na
presente pesquisa (Censos de 1991, 2000 e 2010), demonstram um
quadro de municípios que enfrentaram estagnação, lento
crescimento ou até mesmo a perda de população (em maior ou menor grau), ao longo de todo esse período. Parte da explicação
para esse baixo crescimento demográfico e para a queda da
população em alguns municípios da região Noroeste está nas
emancipações e na consequente divisão da população, conforme já
citado. No entanto, cabe ressaltar que o principal fator desse quadro
deve ser buscado em questões ou problemas estruturais da
economia regional, caracterizada por baixo dinamismo e pela
incapacidade de reter a força de trabalho ao longo das décadas
(Oliveira et al., 2005), o que pode ser sintetizado na ideia do NOF
como uma região-problema (Cruz, 2003; Natal e Oliveira, 2004;
Silva, 2006; Oliveira e Natal, 2004).
Se tomarmos em conjunto os dados dispostos nas Tabelas 1 e 2 e
acrescentarmos os dados apresentados na Tabela 3, que demonstra
a diminuição relativa da participação do PIB da região NOF no
conjunto das regiões do ERJ entre os anos de 2000 e 2010, teremos
alguns elementos apontando para o esvaziamento econômico da
região. Tal esvaziamento é refletido na baixa participação do
Noroeste no PIB estadual: em 2000, a participação era de 1,23%,
diminuindo para 1,05% em 2010, representando, assim, o menor
PIB entre as regiões do estado do Rio de Janeiro.
Tabela 3. Produto Interno Bruto das regiões do estado do Rio de
Janeiro (R$ 1.000) (2000-2010)
Regiões de PIB 2000 Participação PIB 2010 Participação
governo (R$ 1.000) da região (R$ 1.000) da região
(%) (%)
Estado 118.711.624 344.405.425
Região 88.298.966 74,38 223.424.276 64,87
Metropolitana
Região 1.454.906 1,23 3.630.073 1,05
Noroeste
Fluminense
Região Norte 8.771.009 7,39 43.039.118 12,5
Fluminense
Região 4.820.355 4,06 14.127.379 4,1
Serrana
Região da 4.601.532 3,88 20.473.343 5,94
Baixadas
Litorâneas
Região do 8.023.542 6,76 25.322.904 7,35
Médio
Paraíba
Região 1.434.809 1,21 3.943.155 1,14
Centro-Sul
Fluminense
Região da 1.306.506 1,1 10.445.178 3,03
Costa Verde
Fonte: Ceperj.
A principal explicação para o baixo dinamismo econômico do NOF
consiste, em sua origem, nos problemas do setor agrário.
Tradicional área produtora de café (parte de uma grande área
produtora que se estendia da zona da Mata Mineira ao sul do
Espírito Santo), a região passou a sofrer os reveses da erradicação
desse cultivo a partir da primeira metade do século XX. Com uma produção de café considerada de qualidade inferior e inadequada à
exportação, minguaram paulatinamente os recursos governamentais
e, com isso, assistiu-se à instauração de um quadro de crise já nos
anos 1960.
Itaperuna, o principal produtor de café de então, foi o município
mais prejudicado (Cruz, 2003). Nesse contexto, a atividade leiteira
surgia como substituta para a decadente cultura cafeeira: em 1941,
foi fundada a Cooperativa Agropecuária de Itaperuna Ltda. (Capil),
congregando os produtores de leite da região. Em 1961, com a
instalação da fábrica de leite instantâneo Leite Glória em Itaperuna,
a pecuária leiteira passou a figurar como uma possível alternativa ao
café (Silva, 1997 e 2006), muito embora não tenha conseguido,
isoladamente, reverter o quadro de baixo dinamismo econômico da
região. Assim, buscando caracterizar a economia local, o município
de Itaperuna tem como uma das fontes de geração de renda para a
população a produção leiteira, liderando essa produção, segundo o
IBGE, com 28.920 mil litros no ano de 2010. Atualmente, Itaperuna
conta com a instalação da empresa paulista Quatá, que já opera em
São Paulo, Minas Gerais e Paraná, e também com a empresa de
laticínios Marília. Além das fábricas de lacticínios, o município tem a
Fábrica Boechat Ltda., voltada ao mercado de freios para veículos
pesados, além de pequenas e microempresas no setor de
confecção. Marafon et al. (2011) assinalam que, no decorrer da
década de 1970, a região já vinha se firmando como uma das
principais produtoras de produtos lácteos do estado, produzindo
leite, iogurte, manteiga e leite em pó, entre outros. Apontam que,
além da atividade de agropecuária, a região se destaca na produção
de tomate e cana-de-açúcar; nos municípios de Varre-Sai,
Porciúncula e Bom Jesus do Itabapoana, acrescenta-se a produção
de café.
No contexto do ERJ, o NOF é a região com maior peso da
agropecuária na composição de seu PIB regional (5,1%), segundo
dados do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (2014),
representando uma porcentagem bastante superior à média do
estado, o que está em consonância com a importância da pecuária
e da agricultura para a economia dos municípios que compõem
essa região. No entanto, a despeito de sua importância, hoje a agricultura enfrenta sérios problemas socioambientais, relacionados,
primordialmente, ao desmatamento. Incluídas por Gomes et al.
(2009) como parte do conjunto dos municípios do ERJ que são
áreas de vulnerabilidade e de pressão antrópica, as ínfimas áreas
florestais remanescentes encontram-se dispersas e correm risco de
desaparecer.
Para Soffiati (2015), o desmatamento é o principal problema da
região Noroeste Fluminense, na medida em que comporta, ao
mesmo tempo, uma questão ambiental e uma questão social. Para
ele, o desmatamento é responsável não só pela destruição do
ecossistema, com a perda de sua rica biodiversidade, como também
gera empobrecimento social, na medida em que desempenha papel
relevante no êxodo rural e nas dificuldades da agricultura.
Nesse contexto de problemas ambientais, a região também
enfrenta problemas drásticos de abastecimento de água, o que
prejudica a população local e as atividades econômicas. A bacia
hidrográfica do rio São Domingos, que abrange os municípios de
São José de Ubá e Itaperuna, representa uma das áreas mais secas
e degradadas no Noroeste. O desmatamento, a erosão dos solos e
o assoreamento dos corpos d’água alteram o ciclo hidrológico e
prejudicam a reposição dos aquíferos (Gonçalves, 2008), o que
colabora para esse quadro de crise do setor agrário.
Apesar do peso da agropecuária no contexto estadual, é o setor
de comércio e serviços que concentra a maior participação da
atividade econômica na região NOF, com a administração pública
ocupando o segundo lugar na região (35% de participação no valor
adicionado bruto em 2010) (Sebrae, 2015). Ao se comparar a
participação de seus setores de atividade econômica com o ERJ,
percebe-se, na região, maior participação da administração pública
(18% no ERJ e 35% na região Noroeste) e da agropecuária, e
menor da indústria (30% no ERJ e 14% na região), do comércio e
de serviços (51% no ERJ e 46% no Noroeste).
O peso da administração pública se reflete na geração de
empregos formais, sendo o percentual de funcionários públicos em
relação ao total de empregos formais maior na região em 2012
(24%) do que no estado do Rio de Janeiro (17%). A administração
pública desempenha papel fundamental na geração de empregos formais nos municípios de Varre-Sai (64%), São José de Ubá (63%),
Laje do Muriaé (60%) e Natividade (50%) (Sebrae, 2015).
Analisando a região pelo Índice de Desenvolvimento Humano
Municipal (IDHM), disponibilizado pelo Programa das Nações
Unidas (PNUD), 3 percebe-se que todos os municípios da região
apresentam índices inferiores ao do estado do Rio de Janeiro, muito
embora tenha havido uma melhora no período de 1991 a 2010.
Tabela 4. Índice de Desenvolvimento Humano Municipal: estado
do Rio de Janeiro e municípios do Noroeste Fluminense. Ranking do
IDHM nos anos de 1991, 2000 e 2010
IDHM Ranking IDHM Ranking IDHM Ranking
1991 1991 2000 2000 2010 2010
Estado do 0,573 0,664 0,761
Rio de
Janeiro
Aperibé 0,483 46° 0,62 30° 0,692 64°
Bom Jesus 0,49 43° 0,625 26° 0,732 22°
do
Itabapoana
Cambuci 0,464 58° 0,599 51° 0,691 65°
Italva 0,462 61° 0,561 73° 0,688 68°
Itaocara 0,497 35° 0,627 19° 0,713 41°
Itaperuna 0,511 26° 0,624 28° 0,73 23°
Laje do 0,435 73° 0,561 73° 0,668 78°
Muriaé
Miracema 0,502 30° 0,615 37° 0,713 41°
Natividade 0,481 50° 0,626 23° 0,73 23°
Porciúncula 0,464 58° 0,572 69° 0,697 60°
Santo 0,493 37° 0,611 44° 0,718 35°
Antônio de
Pádua
São José 0,416 78° 0,542 85° 0,652 88°
de Ubá
Varre-Sai 0,385 88° 0,522 88° 0,659 83°
Fonte: Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil/PNUD.
Em 1991, Itaperuna apresentava o IDHM mais elevado dos
municípios da região (0,511). Em 2010, o IDHM mais elevado era o
de Bom Jesus do Itabapoana (0,732) e o mais baixo era o de São
José de Ubá, com 0,652. No ranking municipal de 2010 disponibilizado pelo PNUD, nenhum município da região Noroeste
ocupou os primeiros lugares; somente Bom Jesus do Itabapoana
alcançou o 22° lugar, seguido por Natividade e Itaperuna, ambos no
23° lugar. Entre os mais baixos no ranking municipal, estão São
José de Ubá (88°) e Varre-Sai (83°). Assim, nesse contexto de baixo
dinamismo econômico, Itaperuna é o município que mais contribui
para o desenvolvimento da região (Cruz, 2007; Lumbreras, 2010),
destacando-se na extensão territorial, na concentração da
população e em relação ao Produto Interno Bruto regional (PIB),
com forte presença do setor de serviços (IBGE, 2010), o que se
pode constatar pela concentração de empregos formais, sendo esse
setor o maior empregador, com 8.180 empregos diretos em 2010.
Em 1991, o setor de comércio era responsável por 1.623
empregos, passando para 2.711 em 2000 e, após, em 2010,
aumentando a oferta para 5.572. Vale destacar que a geração de
empregos formais no setor da indústria teve sua participação
aumentada entre 1991-2010. O setor de agropecuária teve
crescimento no estoque de empregos formais entre 1991 e 2000,
mas permaneceu praticamente inalterado de 2000 até 2010, como
se observa na tabela a seguir.
Tabela 5. Empregos formais por setores de atividade econômica
no município de Itaperuna (1991, 2000 e 2010)
Setores de Atividade Econômica 1991 2000 2010
Indústria 1.636 2.603 3.817
Construção civil 234 263 826
Comércio 1.623 2.711 5.572
Serviços 3.524 3.355 8.180
Agropecuária 51 654 656
Fonte: Rais/Ministério do Trabalho.
Na região, Itaperuna é o município que apresenta os melhores
indicadores socioeconômicos: melhor PIB per capita, menor
percentual de pobres e maior renda domiciliar per capita (Sebrae, 2015). O município também é referência na oferta de serviços, tanto
na área de saúde (a cidade conta com o Hospital São José do Avaí,
que realiza mais de dez mil atendimentos por mês e emprega
diretamente mais de seiscentas pessoas)4 como no setor de
serviços educacionais, abrigando universidades como a Redentor, a
Fundação Universitária de Itaperuna (Funita), a Faculdade de
Filosofia de Itaperuna (Fafita) e o consórcio Cederj. Além disso,
Itaperuna oferece diversos serviços urbanos, o que confere ao
município posição de destaque na rede urbana fluminense, já que
“sua área de atuação extravasa os limites estaduais, exercendo
influência sobre municípios capixabas e mineiros” (Ribeiro, 2012, p.
7), ao lado da influência regional no Noroeste-Norte fluminense.
4. Perspectivas de uma região em
mudança?
Os dados apurados demonstram que a região Noroeste
Fluminense apresenta um dinamismo relativamente fraco, o que
resulta, entre outros fatores, na menor taxa de crescimento
populacional entre as regiões do estado e em sua baixa participação
no PIB estadual. Como assinalado, o município de Itaperuna
desempenha papel de centro regional, com destaque para sua
extensão territorial, a concentração da população regional e a maior
participação no Produto Interno Bruto (PIB) regional. Também é
digna de nota a diversificação de suas atividades econômicas,
especialmente na oferta de serviços de saúde e educação.
De modo geral, a literatura sobre o ERJ vem apontando para uma
recuperação da participação do setor industrial no contexto nacional
(Oliveira apud Siqueira, 2015). No entanto, assinala-se o caráter
concentrador da distribuição das atividades econômicas no ERJ, já
que, entre 2000 e 2010, a melhora mais significativa na área de
emprego nas indústrias ocorreu, principalmente, no Norte
fluminense, no Médio Paraíba e nas Baixadas Litorâneas (Medeiros
Júnior, 2013).
Por um lado, há que se ter sempre em mente o peso da Região
Metropolitana, não só em relação à sua histórica concentração
política e econômico-social, como também na projeção dos
investimentos que se delineiam na atualidade. Com base nisso e
tomando-se os estudos da Federação da Indústria do Estado do Rio
de Janeiro (Firjan), Silva Neto e Rocha (2014) analisaram o impacto
dos investimentos na dinâmica de emprego nas regiões do ERJ. Os
autores apontaram que os investimentos – previstos ou em
andamento – apresentam forte tendência à concentração na Região
Metropolitana do ERJ, o que poderia indicar uma perda de
importância relativa do interior e uma “reconcentração no entorno da
capital” (p. 11). No que se refere ao emprego formal, prossegue o
estudo:
As regiões do interior do ERJ que mais contribuíram para a geração de
empregos no período analisado [...] foram as regiões: Norte, Médio Paraíba,
Serrana e, com expressivo crescimento, Baixadas Litorâneas. As regiões
Costa Verde, Centro-Sul Fluminense e Noroeste continuam apresentando
pouco dinamismo econômico e pequena capacidade de geração de novos
postos de trabalho frente às demais regiões do Estado (Silva Neto e Rocha,
2014, p. 13).
Desse modo, o papel do Noroeste Fluminense no contexto das
transformações territoriais faz emergir o debate a respeito das
perspectivas de desenvolvimento e da capacidade de reversão do
quadro de baixo dinamismo econômico pelo qual a região tem
passado, bem como seu papel num contexto regional mais amplo,
próximo daquilo que Cruz (apud Siqueira, 2015) chamou de “grande
região fluminense de produção petrolífera”, englobando o Norte-
Noroeste Fluminense e as Baixadas Litorâneas.
Existem três aspectos que consideramos importantes para a
análise do NOF numa perspectiva que seja capaz de englobar
diferentes escalas geográficas. Em primeiro lugar, historicamente, o
NOF foi relegado a um papel secundário nos planejamentos
regionais, o que tem trazido uma marca de periferização em relação
ao Norte fluminense e, recentemente, foi reforçado pelo efeito
polarizador do complexo petrolífero do NF em relação aos atuais
investimentos no setor portuário (Costa, 2012).
A observação das transformações – e permanências – por que
tem passado o NOF nos leva ao segundo aspecto: a escala a ser
privilegiada nos processos e nas expectativas de desenvolvimento
socioespacial. Olhando-se por uma perspectiva interna, é preciso ter
em mente os avanços setoriais, tanto no que se refere a certas
atividades econômicas e ao destaque dado a certos municípios da
região (Sebrae, 2015; Andrade, 2001) como no que diz respeito às
melhorias em alguns indicadores sociais, como, por exemplo, o IDH.
Da mesma forma, vale ressaltar, conforme estudo de Costa (2012),
que, entre os anos 2000 e 2010, houve melhora na dinâmica
demográfica da região, com aumento significativo da população com
idade acima dos 25 anos, o que pode significar maior capacidade de
fixação da população mais jovem na região. Por outro lado, a
identificação e a análise dos desafios e a capacidade de projeção de
uma “visão do futuro” da região (Firjan, 2015) encontram seus
limites na própria capacidade da escala local de promover
processos duradouros de transformação socioespacial. Embora se
reconheça que o município apresenta amplo escopo de atuação
como implementador de políticas públicas, cabe dispensar a devida
atenção ao estudo recente de Siqueira (2015), que, ao analisar o
caso do NOF, afirma que há um esgotamento daquela concepção
localista de valorização excessiva das vocações internas como
elemento capaz de deflagrar processos de desenvolvimento. Cada
vez mais, segundo Siqueira, a perspectiva deve ser transescalar e
pensada em função de um projeto nacional de desenvolvimento
(que, portanto, extrapole os limites locais), com ênfase para as
políticas regionais numa perspectiva cooperativa, integrada às
diversas escalas do território e sob a coordenação do governo
federal (Siqueira, 2015).
Por fim, mas não menos importante, verifica-se que, atualmente,
há um elemento político e econômico representado pela acentuada
queda nas receitas dos royalties do petróleo, pela redução drástica
dos investimentos da Petrobras na bacia de Campos e nos efeitos
deletérios que isso tem significado para o orçamento municipal e
para a futura dinâmica do ERJ e das regiões em destaque. Diferente
do caso do Norte fluminense, o NOF não possui municípios que
figurem como grandes recebedores de royalties e de participações especiais do petróleo, portanto não compartilham da situação de
municípios que têm suas receitas baseadas, majoritariamente,
nessa fonte de recursos. 5 Se, por um lado, isso significa menor
disponibilidade de capitais, por outro, também representa melhores
perspectivas de gestão fiscal e financeira, além de menor
dependência em relação a um recurso finito e sujeito à oscilação
internacional (como, por exemplo, aquelas que, atualmente, ocorrem
em função da queda dos preços internacionais do barril do petróleo).
Nesse sentido, cabe pensar, nesta parte final, nas perspectivas
para o desenvolvimento em nível regional a partir de alguns
indicadores e elementos atuais. Falar em perspectivas significa
ingressar em uma seara difícil, em função dos inúmeros fatores que
intervêm, em maior ou menor intensidade, nessa esfera. Não sem
motivo, em duas ocasiões, Cruz (2007 e 2013), se referiu a desafios
no que se refere a desenvolvimento, tanto em escala regional (NOF)
como em nível estadual (ERJ).
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