Revisitando o Território Fluminense VI

Glaucio José Marafon · Capítulo 7 de 18

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Revisitando o Território Fluminense VI

6. Transformações no espaço rural fluminense: o papel da agricultura familiar e das atividades turísticas

Transformações no espaço rural

 

fluminense: o papel da

 

agricultura familiar e das

 

atividades turísticas

 

Glaucio José Marafon1

 

1. Introdução

 

Na atualidade, ao analisarmos as mudanças do mundo rural e as

transformações em curso, é necessário remeter ao processo de

urbanização (das ocupações não agrícolas, da expansão do consumo,

da acessibilidade etc.). Essas mudanças estão, em grande medida,

associadas aos espaços de lazer, de produção industrial e dos

“processos de produção de valores simbólicos” (Reis, 2001, p. 7).

Entre as principais transformações, encontramos maior urbanização,

cosmopolitismo dos comportamentos e intensa relação com os

mercados de trabalho. Concordamos com Reis (2001, p. 12) quando

afirma que

 

parece claro que as mudanças no meio rural e a maior territorialização das

práticas socioeconômicas comportam uma mais intensa relação das práticas

socioeconômicas comportam uma mais intensa relação quer com políticas

públicas, quer com agentes externos (que seguem essas políticas). Esta dupla

abertura do espaço rural (a que lhe é trazida por agentes externos que o

procuram segundo novos interesses e novas lucratividades e a que resulta da

própria metamorfose dos agentes originariamente locais) é com certeza o

grande traço de novidade para o que aí vem. Resta, pois, continuar a observar

de que modo abertura e mudança geram novas mudanças.

 

Entretanto, além da produção moderna e integrada aos mercados

globalizados, temos a presença expressiva da produção de base

familiar no meio rural brasileiro. Em busca de reprodução e sobrevivência, a produção familiar tem apresentado características

como trabalho em tempo parcial, em face da diminuição da jornada de

trabalho (favorecida pela incorporação das tecnologias de produção),

ou seja, há liberação de membros da família para exercer outras

atividades, agrícolas e não agrícolas, complementando, assim, a renda

familiar.

Atualmente, entre as atividades não agrícolas presentes no campo,

merecem destaque as atividades turísticas, devido à proliferação das

áreas de lazer. O desenvolvimento de atividades turísticas está

associado ao processo de urbanização e ao transbordamento do

espaço urbano para o espaço rural (Graziano da Silva, 1998). Para

esse autor, “novas” formas de ocupação passaram a proliferar no

campo. Entre elas, destacam-se: um conjunto de profissões tidas

como urbanas (trabalhadores domésticos, mecânicos, secretárias etc);

moradias de segunda residência; atividades de conservação; áreas de

lazer (hotéis-fazenda, fazendas-hotel, pesque-pague, entre outras).

Essas novas atividades demandaram um número crescente de

pessoas para dar sustentação à expansão das atividades turísticas no

espaço rural, o que possibilitou que os membros das famílias,

liberados das atividades rotineiras da exploração agrícola, pudessem

ocupar as vagas geradas pela expansão do turismo nos espaços

rurais.

Para Rua (2007), há algum tempo o espaço rural é percebido como

terra-mercadoria capaz de gerar outras mercadorias. Surgem novas

territorialidades resultantes da interação campo-cidade. Essa hibridez

está presente nas diversas atividades que encontramos no campo e

está associada às atividades rurais. Ainda segundo Rua, existem duas

vertentes da teoria social crítica que analisam as relações entre o

urbano e o rural. A primeira procura trabalhar com a noção de

urbanização do rural, com a incorporação do rural ao urbano,

associada à ideia de um continuum, ou seja, haveria graus distintos de

urbanização do território. A outrapostula a urbanização no rural e

entende a manutenção de especificidades no espaço rural, mesmo

com a impactação do urbano.

Nesse sentido, concordamos com Ferrão (2000) ao sinalizar que

deveremos levar em consideração que o espaço rural não é somente

agrícola. Rompe-se deliberada e explicitamente com dois elementos

secularmente associados ao rural: sua função principal não é mais, necessariamente, a produção de alimentos, nem a atividade

predominante é a agrícola, reforçando, assim, a noção de hibridez do

espaço rural. A dimensão não agrícola vem aumentando e, muitas

vezes, está associada à noção de patrimônio, com a renaturalização

da paisagem. Enfatizam-se a preservação e a proteção da natureza,

valoriza-se a busca pela autenticidade dos elementos paisagísticos

locais, a conservação e a proteção dos patrimônios históricos e

culturais, o resgate da memória e da identidade. Dessa forma, há uma

mercantilização das paisagens, com a consequente expansão das

atividades de turismo e de lazer.

Na atualidade, com a (re)valorização da natureza, com o retorno de

pessoas para as áreas rurais, esses territórios passaram a ser alvo de

atenção e a merecer uma visão não mais setorial, mas territorial. Em

outras palavras, busca-se uma forma de promover o desenvolvimento

sob a ótica do território, a fim de romper com a visão setorial até então

dominante e com um perfil mais adequado ao período pós-fordista.

Reafirma-se a revalorização de temas associados à produção familiar,

à conservação do ambiente, às estratégias de sobrevivência dos

produtores rurais, à busca pelas múltiplas funções do espaço rural e à

proliferação de atividades não agrícolas.

Esses processos ocorrem no estado do Rio de Janeiro, porém não

com a mesma intensidade. Em função de seu elevado grau de

urbanização, das dificuldades com a mecanização de seus solos e da

expansão imobiliária decorrente, sobretudo com as atividades

turísticas desenvolvidas, temos muito mais mudanças que

permanências no espaço rural fluminense. As permanências seguem o

padrão brasileiro de concentração fundiária, precariedade nas relações

de trabalho e conflitos pelo acesso à terra. As mudanças, por sua vez,

estão associadas à valorização do espaço rural, com a presença

crescente de pessoas oriundas da cidade em busca de áreas de lazer

ou de uma segunda residência, devido à valorização das terras e ao

surgimento de atividades não agrícolas (em geral, de baixa

qualificação). Essas terras, então, passam a ser ocupadas pelos

integrantes das famílias de produtores rurais.

Este ensaio tem o objetivo de efetuar algumas considerações sobre

a permanência da produção familiar e o avanço de atividades não

agrícolas no território fluminense, sobretudo aquelas associadas às

atividades turísticas no território fluminense. Buscamos embasamento no referencial bibliográfico, em dados censitários e em informações de

cunho qualitativo, obtidas nos trabalhos de campo. Tudo isso nos

levou a identificar algumas características da produção familiar e das

atividades turísticas desenvolvidas no estado do Rio de Janeiro.

Assim, apresentamos um debate sucinto sobre a produção familiar e

as atividades turísticas, bem como sobre seu rebatimento no território

fluminense.

 

2. Debate sobre produção familiar

 

Existe um consenso em torno do conceito de produção familiar, que

se caracteriza pelo trabalho familiar na exploração agropecuária e pela

propriedade dos meios de produção. Para Wanderley (1999),

atualmente a agricultura familiar se constitui em um conceito genérico,

que incorpora uma diversidade de situações específicas e particulares.

Dessa forma, o campesinato corresponde a uma dessas

manifestações específicas da agricultura familiar.

A concepção que prioriza a agricultura familiar como unidade de

análise está centrada nos estudos da FAO/Incra (1994), que divide a

exploração agrícola em modelo patronal e familiar, e no

estabelecimento do Programa Nacional de Produção Familiar (Pronaf).

Objetiva-se estabelecer diretrizes e ações que levem ao

desenvolvimento rural e à integração dos produtores familiares ao

mercado e, para tanto, realiza-se uma classificação dos agricultores

familiares brasileiros. Assim, a agricultura de propriedade familiar se

caracteriza por estabelecimentos em que a gestão e o trabalho estão

intimamente ligados, ou seja, os meios de produção pertencem à

família, e o trabalho é exercido por esses mesmos proprietários em

uma área relativamente pequena ou média.

Segundo a classificação da FAO/Incra (2000) e Molina Filho (1979),

os agricultores familiares estariam classificados em três eixos:

consolidados, em transição e periféricos ou de subsistência.

A valorização do mundo rural e as transformações que ocorrem nas

unidades familiares de produção, como, por exemplo, a diminuição do

tempo destinado às atividades agrícolas, a diminuição da renda

agrícola, a busca por outras atividades para a complementação de

renda, o retorno para as áreas rurais de pessoas oriundas do espaço urbano, sobretudo aquelas que se aposentam, que, então, passam a

se dedicar também às atividades agrícolas, tudo isso tem levado a

uma busca pela caracterização desses fenômenos, os quais, de forma

genérica, têm sido denominados de unidades familiares de produção

pluriativas.

No Quadro 1, encontramos os principais temas investigados no

setor agropecuário brasileiro, a partir da metade do século XX. Nele, é

possível observar que a abordagem da agricultura familiar foi-se

intensificando a partir de meados da década de 1980 e se consolidou

na década de 1990. A agricultura familiar, embora não seja uma

categoria recente, ganhou importância na análise do espaço rural

brasileiro apenas na década de 1990.

Quadro 1. Síntese dos principais temas voltados à agricultura a

partir de 1950

 

Período Principais discussões e vertentes

 

Décadas Três vertentes principais:

de 1950

e 1960 1. Agricultura como entrave econômico

2. Visão funcionalista da agricultura

3. Visão descritiva

 

Nenhuma delas destacava a agricultura

familiar.

 

Década A pequena produção e o campesinato ganham

de 1970 destaque nas análises.

Duas vertentes de análise:

 

1. Análise da pequena produção como

relação não capitalista

2. Análise da pequena produção em relação

à subordinação ao capital

 

Não trabalha especificamente com agricultura

familiar, mas vê a pequena produção como

uma solução para os problemas brasileiros.

 

Década Discussões mais importantes: de 1980

1. Debate sobre a modernização da

agricultura e suas consequências para a

sociedade brasileira

2. Modernização dependente da ação do

Estado

3. Complexo agroindustrial como unidade

analítica fundamental

4. A pequena produção passa a não mais

ser vista como uma solução para os

problemas brasileiros

5. A agricultura familiar começa a ganhar

destaque no final da década

 

A partir 1. Agricultura familiar como unidade

da analítica fundamental

década 2. Emergência de um novo paradigma

de 1990 tecnológico (sustentabilidade ambiental)

3. Agricultura familiar como possibilidade de

atingir cidadania e como receptora de

políticas públicas, com destaque para o

Pronaf

 

Duas vertentes principais:

 

1. Agricultura familiar como uma forma de

produção camponesa

2. Agricultura familiar como resultado do

processo de modernização da agricultura

 

Fonte: Hespanhol, R. A. de M. (2000) e Cortes, C. P. (2008).

 

Apesar da grande complexidade na elaboração do conceito,

algumas características devem basear a análise e definição da

chamada agricultura familiar. Assim como Hespanhol (2000) destaca a

terra, o trabalho e a família como fatores fundamentais para sua

definição, Abramovay (1997) afirma que

 

a agricultura familiar é aquela em que a gestão, a propriedade e a maior parte

do trabalho vêm de indivíduos que mantêm entre si laços de sangue ou de

casamento. Que esta definição não seja unânime e muitas vezes tampouco

operacional é perfeitamente compreensível, já que os diferentes setores sociais

e suas representações constroem categorias científicas que servirão a certas

finalidades práticas: a definição de agricultura familiar, para fins de atribuição de

crédito, pode não ser exatamente a mesma daquela estabelecida com

finalidades de quantificação estatística num estudo acadêmico. O importante é

que estes três atributos básicos (gestão, propriedade e trabalho familiares) estão

presentes em todas elas (p. 3).

 

O conceito de agricultura familiar – ou pelo menos aquilo que assim

é considerado nas políticas públicas – foi politicamente construído. Essa construção visou englobar interesses, inclusive a melhoria das

condições dos trabalhadores do campo, que, incluídos nessa

categoria, teriam a real possibilidade de tentar um financiamento para

produção ou aumento de produtividade.

O campo não pode mais ser visto como sinônimo de área em que se

desempenham apenas atividades agrícolas, embora estas mantenham

a grande importância em sua dinâmica. Porém, a diversidade de

atividades desenvolvidas e de condições sociais, culturais e políticas

desse espaço contribui para aumentar a complexidade de seu

funcionamento, não representando uma área apenas de produção de

bens para os grandes centros urbanos ou abastecimento dos

complexos agroindustriais. As atividades diversas e as relações

envolvidas no espaço rural hoje são tantas que não podem sequer ser

entendidas como transformações facilmente padronizáveis. Ocorrem

de acordo com as localidades e as realidades envolvidas, o que torna

ainda mais complexto seu estudo. Essas transformações não são

homogêneas no espaço e apresentam particularidades de acordo com

os interesses dos agentes envolvidos, com a disposição de

infraestrutura, a atuação governamental e a proximidade com os

grandes centros urbanos, entre outros fatores.

De todos os fatores apontados, destaca-se como um dos mais

importantes na difusão das transformações no campo a proximidade

com os maiores e mais dinâmicos centros urbanos. A proximidade

com as regiões metropolitanas favorece a criação de fluxos em direção

às áreas rurais em busca de amenidades, além da construção de

casas de segunda residência. As classes média e alta, principais

consumidoras dos espaços rurais, atraem investimentos privados e

públicos, que melhoram a infraestrutura e os atrativos locais,

facilitando, portanto, a reprodução de atividades turísticas e não

agrícolas no meio rural.

Nesse sentido, as atividades turísticas merecem destaque na

análise das relações existentes nos ambientes rurais, contribuindo

para a intensa transformação espacial das áreas em que atuam,

principalmente naquelas próximas dos maiores centros urbanos. O

chamado turismo em espaços rurais atrai cada vez mais adeptos e

movimenta a economia dos municípios do estado do Rio de Janeiro.

Para Marafon (2006, p. 27),

[...] o turismo em espaços rural se afirma como mais uma alternativa que se

coloca para os agricultores familiares venderem sua força de trabalho e

complementar sua renda, reforçando o caráter pluriativo das unidades familiares

de produção e inseridos no processo de produção do espaço.

 

O estado do Rio de Janeiro, em virtude de seu alto grau de

urbanização e rede de circulação e comunicação, apresenta elevado

grau de conexão entre as áreas de produção familiar e as práticas de

atividades turísticas.

 

3. Agricultura familiar e atividades

 

turísticas: reflexões a partir do

 

território fluminense

 

O estado do Rio de Janeiro é o segundo polo industrial do Brasil,

produz cerca de 71% do petróleo nacional e também é o maior

produtor de gás natural do país. Além disso, sua produção de pescado

é significativa, assim como a olericultura, a horticultura e o leite. Sua

paisagem natural é bastante diversificada, mas também muito

degradada, devido às atividades socioeconômicas vivenciadas pelo

estado. Corresponde ao estado mais urbanizado do país, com 96,7%

da população vivendo em áreas urbanas, e, de acordo com Rua

(2007), o território fluminense é marcado por eixos de urbanização nos

quais ocorre uma urbanização mais densa. Percebe-se, assim, uma

redistribuição populacional e das atividades produtivas (Limonad,

1996).

Tabela 1. População urbana, rural e índice de urbanização no

estado do Rio de Janeiro – 1950/2010

Ano Total Urbana Rural Índice (%)

1950 4.674.645 3.392.653 1.281.992 72,6

1960 6.709.891 5.300.629 1.409.262 79,0

1970 8.994.802 7.906.146 1.088.656 87,9

1980 11.291.520 10.368.191 923.329 91,8

1991 12.807.706 12.199.641 608.065 95,3

2000 14.391.282 13.655.386 569.816 94,9

2010 15.989.929 15.464.239 525.690 96,7

Fonte: Censos Demográficos/IBGE –

1950/1960/1970/1980/1991/2000/2010 (Negef, 2015).

 

Apesar da ainda acentuada concentração da população fluminense

na Região Metropolitana, nos anos 1990 surgem algumas novidades

em relação à dinâmica demográfica do estado do Rio de Janeiro. A

mais importante diz respeito à simultaneidade de um movimento

tendente à despolarização espacial, com a emergência de novos

centros de porte médio no interior do estado, e de outro, em sentido

inverso, de consolidação dos centros urbanos metropolitanos (Santos,

2003). Apesar de a expansão demográfica nas bordas metropolitanas

manifestar-se desde, pelo menos, a década de 1950, esse movimento

não resultou em desconcentração da população em direção ao interior.

Rua (2002, pp. 47-8) assinala que, no estado do Rio de Janeiro,

“prevalece a projeção da metrópole carioca, que intensifica o processo

de urbanização”, e essa intensa urbanização marca fortemente o

território fluminense nas “dimensões política, cultural, comportamental

e econômica, onde o significado dessa área urbana torna-se

esmagador”. O interior fluminense vem-se destacando não somente

em termos de crescimento demográfico (ainda pequeno), mas também

no abastecimento de produtos agropecuários (hortigranjeiros, leite e

produtos com nicho de mercado especializado, como orgânicos, ervas

finas, leite de cabra, trutas, entre outros), além de estar servindo como

área de lazer para a prática de turismo rural, de ordem

contemporânea, com a proliferação de hotéis-fazenda, pousadas, spas

e casas de segunda residência. A prática desse turismo em espaço

rural segue, em boa medida, os eixos de urbanização na Figura 1,

tratando-se de uma prática alternativa ao turismo intenso que ocorre

na costa fluminense (Costa Verde e Baixadas Litorâneas).

 

Figura 1. Eixos de maior densidade de urbanidades no estado do

Rio de Janeiro

 

Fonte: Adaptado de João Rua.

 

No Quadro 2, tem-se uma radiografia da distribuição dos

estabelecimentos agrícolas no estado do Rio de Janeiro para os anos

de 1996 e 2006, constatando-se que a maioria desses

estabelecimentos apresenta menos de 100 ha. Em 1996,

representavam 75% e, em 2006, 84%, o que imprime significativa

importância à produção familiar e às estratégias que esses agricultores encontram para fazer frente à queda na renda agrícola e ao intenso

processo de urbanização. Observa-se, de 1996 a 2006, um aumento

do número de estabelecimentos, mas uma pequena diminuição da

área ocupada por eles.

 

Quadro 2. Distribuição dos estabelecimentos agrícolas no estado do

Rio de Janeiro (1996-2006)

Grupos de Censo Agropecuário 1996 Censo Agropecuário 2006

 

área Número de Área Número de Área

estabelecimentos estabelecimentos

Menos de 3.962 14.293 5.275 16.667

10

hectares

10 a 13.647 659.266 14.384 653.596

menos de

100

hectares

100 a 5.860 1.247.891 7.572 1.667.703

menos de

1.000

hectares

1.000 319 1.261.615 376 1.153.317

hectares e

mais

Sem 0 --------- 1.875 ---------

informação

ou sem

área

Total 23.788 3.183.065 29.482 3.491.283

Fonte: FIBGE. Censos Agropecuários, 1996 e 2006.

 

Constata-se que a estrutura fundiária é marcadamente concentrada

no território fluminense. A exceção são os municípios da Região

Serrana fluminense, mais especificamente na área chamada “Alto da

Serra” (Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo). O fato de essa região

ter tido sua gênese associada a um projeto de colonização agrícola, a partir da vinda de imigrantes, aliado às condições desfavoráveis ao

desenvolvimento de culturas tropicais, acabou por garantir uma

organização do espaço rural caracterizada por um processo de

ocupação territorial com base em pequenas propriedades de

policulturas.

De acordo com Ribeiro (2002) apesar de o estado do Rio de Janeiro

apresentar totais baixos em relação aos totais nacionais, quanto às

variáveis pessoal ocupado, valor da produção, quantidade colhida e

modernização, seu quadro agrário apresenta relevância e acentuado

contraste no âmbito estadual. Esses contrastes decorrem da

agropecuária tradicional, que domina a maior porção do território

fluminense, confrontando-se com outra, de caráter moderno. De um

lado, os produtos tradicionais, exemplificados pela cana-de-açúcar,

além de cultivos de subsistência; do outro, culturas que requerem

técnicas aprimoradas, como tomate, horticultura, fruticultura e

olericultura, marcando o Cinturão Verde da metrópole e ocupando os

municípios integrantes das regiões Serrana, Centro-Sul e Noroeste

Fluminense.

Os agricultores familiares, em sua maioria, passam por uma grave

crise, devido à concentração de renda e à falta de políticas agrícolas

efetivas. Os estabelecimentos acima de 100 ha correspondem a 26%

e ocupavam uma área de 78% em 1996. Em 2006, esse padrão se

mantinha, com pouca alteração, uma vez que corresponde a 27% dos

estabelecimentos em uma área de 80%.

Por outro lado, verifica-se que os pequenos proprietários – bastante

numerosos no estado do Rio de Janeiro – têm pouca possibilidade de

realizar investimentos em suas terras, uma vez que operam com

retornos muito reduzidos para permitir a capitalização de suas

unidades de produção. Esse é o caso dos pequenos proprietários

fornecedores de leite às cooperativas do Noroeste Fluminense, do

Médio Vale e Centro-Sul Fluminense, que, embora detenham a

propriedade da terra, têm uma forma de inserção na produção regional

que implica reduzida autonomia na condução do processo produtivo, e

limitação quanto à possibilidade de investir em suas unidades de

exploração. Em outros casos, como na Região Serrana, em que há

predomínio da produção de hortigranjeiros nas pequenas

propriedades, a pluriatividade é adotada como fonte de renda

alternativa pelos agricultores. Muitos, além de realizarem suas funções na propriedade agrícola, exercem atividades não agrícolas (como

caseiros, motoristas, empregados domésticos, fiscais de rodovia etc.)

nas casas de veraneio, nos hotéis e nas prefeituras da região.

Constata-se que, em território fluminense, as transformações no

espaço rural, como a prática do turismo rural e a disseminação de

empregos não agrícolas, encontram-se associadas ao intenso

processo de urbanização, o que pode ser sintetizado da seguinte

forma (ver Figura 1): eixo que se desloca da RMRJ em direção a

Angra dos Reis e Paraty, a região da baía da Ilha Grande, também

conhecida como Costa Verde, em que se destacam as atividades de

turismo, o que tem provocado intensa transformação, com grande

apelo para o turismo de praia, histórico e ecológico.

Essa região concentra grandes reservas de Mata Atlântica,

inúmeras ilhas (entre elas, a Ilha Grande) e cidades históricas, como

Paraty. Boa parte do território integra áreas de proteção ambiental, o

que inibe a prática de atividades agrícolas. A expressiva ocupação por

grandes hotéis de luxo e condomínios fechados tem provocado muita

especulação imobiliária, expulsando os produtores familiares de suas

terras. A eles, resta inserir-se no mercado de trabalho urbano ou na

prática da agricultura extrativista, com a exploração de banana e

palmito. Além disso, assessorados pelos técnicos governamentais da

Emater e do Ibama, exercem atividades não agrícolas, trabalhando em

hotéis e condomínios.

Outro eixo que encontra no turismo um forte vetor de crescimento é

o que segue da RMRJ para Cabo Frio, Búzios e Macaé, a região das

Baixadas Litorâneas (Costa do Sol). Observa-se intenso crescimento

de turismo de massa na direção do litoral norte do estado do Rio de

Janeiro, o que provoca intensa urbanização e conduz à proliferação de

segundas residências. Isso, por sua vez, leva ao fracionamento da

terra e à expulsão das atividades agropecuárias, com vistas à criação

de loteamentos e condomínios. A presença da Petrobras em Macaé

representa, de acordo com Rua (2002, p. 48), “uma avassaladora

especulação imobiliária, com profundas marcas de segregação

socioespacial”.

Um eixo adicional de urbanização é o que ocorre no “topo da serra”

(Rua, 2002). Seus principais representantes são os municípios de

Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis. Essa área é marcada pela

produção de hortigranjeiros e flores para o abastecimento da RMRJ. Também apresenta um tradicional e significativo polo industrial (com

destaque para a moda íntima), além de haver inúmeros sítios de

veraneio, casas de segunda residência, hotéis-fazenda, pousadas e

spas, estabelecimentos associados aos aspectos naturais da região.

Corresponde a uma região alternativa ao turismo de praia da Costa

Verde e da Costa do Sol.

Nessa área, ocorre intensa produção agrícola de base familiar,

centrada nos pequenos estabelecimentos, na mão de obra familiar e

na baixa tecnificação da lavoura. Esses produtores, na maioria das

vezes, ficam à mercê dos atravessadores, que controlam o processo

de comercialização da produção. Sua produção consiste em alface,

brócolis, couve-flor, tomate, entre outros, e eles acabam tendo uma

baixa remuneração por suas atividades agrícolas. Na complementação

da renda familiar, inserem-se no mercado de trabalho não agrícola

como jardineiros, caseiros e domésticos, ou exercem suas atividades

em empresas das cidades da região. Essa área também produz

orgânicos e hidropônicos com vistas a um mercado consumidor restrito

à zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Na Região Serrana

fluminense, nota-se a presença marcante de atividades relacionadas

ao turismo rural contemporâneo e em sintonia com a produção familiar.

O território que engloba as regiões do Médio Vale do Paraíba e

Centro-Sul Fluminense, além de leite, contribui com a produção de

hortigranjeiros para o abastecimento da RMRJ, embora apresente,

como marca de sua paisagem, a atividade cafeeira, com a presença

de grandes casas nas sedes das fazendas. Essa peculiaridade levou

os municípios da área a organizarem o “Festival do Vale do Café”. No

entanto, não se verifica interatividade com os produtores familiares,

que continuam a buscar complementação de renda nas indústrias da

região, as quais concentram um grande número de empresas do setor

metalmecânico.

As regiões Norte e Noroeste Fluminense, em função da distância da

área metropolitana, apresentam fortes características rurais, com a

produção de leite, cana-de-açúcar, café e frutas. Esse quadro tem sido

alterado com a presença da Petrobras e de seus royalties, que têm

gerado emprego também para os agricultores dessas regiões. O

estabelecimento de um roteiro turístico associado à atividade

canavieira é incipiente, encontrando resistência por parte dos

proprietários das fazendas.

Em termos de permanência e mudança associadas ao território

fluminense, o intenso caráter de urbanização e a expansão da

metropolização auxiliaram a acirrar as singularidades presentes no

espaço rural fluminense e a intensificar os conflitos fundiários no

estado. Devido à intensa urbanização, muitos assentamentos se

situam em áreas extremamente urbanizadas, articulando atividades

agrícolas e não agrícolas, o que aponta para o rompimento de uma

concepção limitada de assentamento, empregada na atualidade. Tem-

se, assim, um espaço rural em transformação, que, de acordo com

Rua (2002, p. 24), conta com a presença de “urbanidades no rural, que

seriam todas as manifestações do urbano em áreas rurais sem que se

tratem esses espaços formalmente como urbanos”, mas que não se

contrapõe à ruralidade, entendida como “um modo particular de

utilização do espaço e da vida social” (Moreira, 2005, p. 21).

O desenvolvimento do modo de produção familiar no espaço rural

fluminense, bem como suas estratégias de sobrevivência e

reprodução, está associado ao processo de urbanização. Existe uma

inter-relação, embora assimétrica, entre o rural e o urbano que resulta

no transbordamento do espaço urbano para o espaço rural. No

entender de Lefebvre (2001), o “tecido urbano” não se limita a formas

fixas urbanas, consistindo também no suporte de um modo de viver

urbano, que se espalha pelo território de forma desigual, deixando

setores mais ou menos amplos escaparem. Trazidas pelo tecido

urbano, as urbanidades (rede elétrica, carros, serviços e sistema de

valores) penetram nos espaços rurais, porém estes não perdem por

completo algumas de suas especificidades, como, por exemplo, o

modo de produção familiar no campo.

No estado do Rio de Janeiro, de acordo com Rua (2007), a

metrópole carioca exerce um poder hegemônico e sua projeção para o

território fluminense intensifica o processo de urbanização em seus

aspectos políticos, culturais, ideológicos e econômicos, “com uma

urbanização difusa, que ultrapassa os limites das cidades, alcançando

todo o território do estado” (p. 283).

A intensificação do processo de urbanização no território fluminense

vem, portanto, provocando profundas mudanças socioespaciais, e

novas formas de ocupação passaram a proliferar no campo,

destacando-se: o conjunto de profissões tidas como urbanas

(trabalhadores domésticos, mecânicos, secretárias, entre outros); segundas residências; atividades de conservação; áreas de lazer

(hotéis-fazenda, fazendas-hotel, pesque-pague, entre outras). Essas

atividades demandam uma quantidade crescente de mão de obra não

agrícola no espaço rural.

Os agricultores familiares buscam outras atividades para

complementar sua renda familiar. É inegável que, nas últimas

décadas, houve inúmeras transformações na unidade de produção

familiar, como a diminuição do tempo destinado à atividade agrícola,

devido à progressiva incorporação das novas tecnologias na produção

e à diminuição da renda auferida. Assim, vai-se delineando o

fenômeno da pluriatividade no estado do Rio de Janeiro, um fenômeno

social e espacialmente desigual, com grande relevância em torno dos

eixos de urbanização emanados pela metrópole carioca. Esse

fenômeno não atinge, de forma significativa, os produtores que

trabalham em áreas mais remotas, que ainda mantêm profunda

dependência da renda agrícola e apresentam profunda dificuldade de

reprodução e sobrevivência.

Embora, no estado do Rio de Janeiro, existam discrepâncias entre a

Região Metropolitana e o interior, ocorre maior dinamização do interior

do estado, com o surgimento de novos eixos de desenvolvimento. Isso

não significa que a metrópole tenha perdido a hegemonia, mas o fato é

que, no interior, desenvolveram-se atividades importantes para a

economia e o crescimento do estado como um todo. Entre essas

atividades, destacam-se aquelas associadas ao turismo rural, como

hotéis-fazenda, fazendas-hotel, agroturismo, turismo de aventura.

Rodrigues (2001) classifica essas atividades em duas categorias:

tradicionais (de origem agrícola, pecuária e colonização) e

contemporâneas (hotéis-fazenda, spas rurais, segunda residência).

Como nosso objetivo é conhecer as características das abordagens

da produção familiar e suas estratégias de sobrevivência, por meio de

empregos agrícolas ou não agrícolas, bem como o papel que o turismo

rural vem desempenhando nesse processo, foi feito um levantamento

dos dados relacionados à estrutura fundiária (tabelas e mapas a

seguir), à condição legal, ao emprego de tecnologia, aos municípios

que desenvolvem atividades de turismo rural e à distribuição da

população (urbana e rural). Esse levantamento sobre a agricultura

familiar e o turismo rural no estado do Rio de Janeiro foi realizado,

fundamentalmente, em bibliotecas de instituições públicas e privadas, além de pesquisas feitas em sítios eletrônicos das prefeituras

municipais do estado do Rio de Janeiro.

Assim, a partir dos dados levantados e das observações de campo,

foi possível constatar que, hoje, define-se rural como um espaço

híbrido em que as relações tradicionais de produção e existência não

são mais suficientes para caracterizá-lo – nesse período que sucede a

Revolução Verde. Elementos tidos como urbanos ou rurais extrapolam

as fronteiras do campo e da cidade, transformando-os em espaços de

interação híbrida.

Nesse sentido, é importante compreender como as novas relações

entre cidade e campo são processadas no espaço em suas escalas

distintas e como são percebidas pelos diversos grupos sociais

envolvidos no processo de ressignificação do rural. Entre as

transformações que marcam esse estreitamento entre os espaços

rural e urbano, encontra-se o desenvolvimento de atividades turísticas

no espaço rural, associadas ao processo de urbanização, culminando

no transbordamento para o campo de formas de ocupação, profissões,

atividades e pensamentos predominantemente urbanos.

Percebe-se que a pluriatividade tem-se intensificado, em função da

queda da renda agrícola, avançando para as áreas próximas aos

grandes centros urbanos, devido ao incremento do fluxo de turistas

para os espaços rurais, com a revalorização da natureza, entre outros

fatores. Nas áreas mais distantes, os produtores familiares continuam

na dependência da renda agrícola e ainda enfrentam inúmeros

problemas para a realização de suas atividades.

O processo de urbanização do território fluminense pode ser

caracterizado pelos eixos de urbanização (Figura 1) – em que se

verificam a prática do turismo rural e a disseminação de empregos não

agrícolas – em relação, preferencialmente, às áreas rurais mais

distantes desses eixos: o eixo em direção à região da Costa Verde

(com destaque para Angra dos Reis e Paraty), saindo da RMRJ, tendo

em seus territórios áreas de proteção ambiental (reservas, APAs e

parques), as quais, logicamente, restringem as práticas agrícolas.

O turismo ganhou destaque nessa região a partir da década de

1970, com a construção da Rodovia Rio–Santos (BR-101), o que

possibilitou um grande fluxo de investimentos, por meio da

implantação de hotéis, pousadas e condomínios, verificando-se, então,

o aumento da especulação imobiliária e a expulsão dos produtores familiares de suas terras. Restaram-lhes, portanto, o exercício de

atividades não agrícolas (ocupações em hotéis e condomínios) e a

prática de uma agricultura extrativista, como, por exemplo, a

exploração de banana e palmito.

Esse destaque no turismo se estende ao eixo que segue da RMRJ

em direção a Cabo Frio, Búzios e Macaé, a região das Baixadas

Litorâneas (Costa do Sol). Aqui, a intensa urbanização e a proliferação

de segundas residências levaram ao fracionamento da terra e à

expulsão das atividades agropecuárias, com vistas à criação de

loteamentos e condomínios.

Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis também configuram um eixo

de urbanização marcado pela produção de hortigranjeiros e flores que

abastecem a RMRJ. A produção agrícola se baseia na mão de obra

familiar, centralizada em pequenos estabelecimentos com baixa

tecnificação, em que a comercialização é realizada, em grande parte,

pelos atravessadores. A RJ-130, que liga Teresópolis a Nova Friburgo,

além de se ter transformado em importante eixo de circulação e

escoamento da produção, é palco de um circuito turístico (Circuito

Tere–FRI) que contribui para inúmeras manifestações urbanas que

transformam a dinâmica desse espaço rural e nos fazem refletir como

o capitalismo modifica e particulariza o rural fluminense, adaptando-o

para melhor responder às exigências referentes a esse processo.

Os produtores familiares das regiões do Médio Vale do Paraíba e do

Centro-Sul Fluminense buscam a complementação de renda nas

indústrias da região, as quais concentram um grande número de

empresas do setor metalmecânico. Suas paisagens são marcadas

pela atividade cafeeira, com a presença de fazendas que passam por

um intenso processo de refuncionalização, transformando-se, por

exemplo, em pousadas. Esse processo, contudo, não ocorre de

maneira homogênea nesses territórios, pois é preciso levar em conta a

falta de recursos econômicos por parte de alguns proprietários e a

ineficiência ou falta de iniciativa do poder público, entre outros fatores

determinantes.

As regiões Norte e Noroeste Fluminense, em função do

distanciamento da RMRJ, apresentam fortes características rurais,

com a produção de leite, cana-de-açúcar, café e frutas. No entanto,

esse quadro tem sido alterado pela presença da Petrobras e de seus royalties, que também têm gerado emprego para os agricultores

dessas regiões.

 

Sobre a prática de atividades turísticas nesses eixos de

urbanização, a partir das informações adquiridas nos sítios das

prefeituras municipais, é possível tecer algumas considerações:

Nem todas as prefeituras dispunham de informações sobre essa

atividade em seus endereços eletrônicos, o que nos leva a refletir

sobre a relevância do turismo e, particularmente, do turismo rural

em seus territórios.

Boa parte dos sítios pesquisados fornecia informações de caráter

“atrativo”, e não explicativo, acerca dessa prática, o que nos induz

a pensar nas políticas ali existentes.

Há poucas referências sobre serviços de assistência ao produtor

rural, como promoção de cursos, projetos e incentivos, no que

tange ao seu direcionamento para a atividade turística nas áreas

rurais, cabendo, portanto, alguns questionamentos sobre a forma

como esses produtores estão inseridos no processo.

É importante descobrir o efetivo papel do setor público no

desenvolvimento das atividades turísticas, pois, nitidamente,

percebe-se a preocupação em atrair turistas, mas não em

esclarecer a maneira como as atividades se desenvolvem ou suas

fragilidades, realçando-se apenas suas potencialidades.

Há destaque para os atrativos naturais e históricos, omitindo-se

quanto aos assuntos relacionados à sustentabilidade

socioambiental.

 

Em face dessas considerações, conclui-se que o interior fluminense,

embora tenha pouca expressão em termos demográficos,

desempenha papel fundamental na dinâmica territorial do estado,

principalmente por causa das variadas iniciativas em curso nas áreas

rurais que estão marcadas pelo intenso processo de urbanização.

Essas inovações transformadoras ressignificam o rural e modificam as

estratégias de sobrevivência e reprodução do modo de produção

familiar, com o desenvolvimento de atividades tipicamente urbanas

que proporcionam complementaridade da renda familiar no campo.

A atividade turística no estado do Rio de Janeiro segue influenciada

pela acentuada diversidade de paisagens, por suas características

topográficas e climáticas, além da grande variedade cultural presente no território fluminense. Além disso, observa-se que essa atividade,

nas últimas décadas, tem-se mostrado fundamental para o

desenvolvimento econômico de alguns municípios e até mesmo do

estado, demandando, portanto, avaliação e planejamento pautado nas

inúmeras possibilidades das práticas turísticas. Essas práticas surgem

de suas potencialidades, que, com frequência, estão escondidas em

características advindas de influências culturais e/ou naturais.

Ressalte-se que o estado do Rio de Janeiro é formado por uma

diversidade significativa nas formas de relevo, apresentando

ambientes de serra, colinosos e de baixadas fluviais e marinhas, o que

também dificulta o processo de ocupação e uso do solo.

O estado do Rio de Janeiro se destaca nacionalmente em relação

ao desenvolvimento do turismo, recebendo uma grande quantidade de

turistas. É, sem dúvida, uma das portas de entrada para quem chega

do exterior e também para aqueles que vêm de outras partes do país.

Ribeiro (2003) destaca três condicionantes que influenciam o

desenvolvimento da atividade turística no território fluminense: a) suas

características físicas ou naturais; b) os elementos históricos de

formação cultural e as atividades econômicas; e c) o papel dos

transportes.

Alguns autores ligados ao turismo, bem como os agentes

propulsores dessa atividade (Embratur, TurisRio, entre outros), ao

trabalharem as modalidades desenvolvidas no estado pensaram em

tipologias (Ribeiro, 2003) ou caracterizações regionais para os

municípios. Em pesquisas recentes e estudos desenvolvidos pelo

Núcleo de Estudos de Geografia Fluminense (Negef), foi elaborada

uma classificação que define as áreas turísticas no território

fluminense. Assim, o estado do Rio de Janeiro estaria subdividido nas

seguintes áreas turísticas:

 

Ecoturismo: ligado ao desenvolvimento de práticas ecoturísticas

no noroeste do estado;

Praia e ecoturismo: destacam-se os municípios de Angra dos Reis

e Paraty;

Praia e rural: nessas áreas, destacam-se as práticas turísticas

relacionadas à praia. Estão incluídos os municípios que reúnem

elementos históricos e/ou rurais que permitem o desenvolvimento

de atividades relacionadas a esses elementos;

Praia: desenvolvem-se atividades de praia, sendo marcante a

presença de imóveis de segunda residência;

Serra e mar: encontram-se algumas atividades relacionadas a

atividade rural e praia;

Serra: dividida em serra de turismo consolidado e não

consolidado, essa área engloba os municípios serranos,

caracterizados pela existência de atividades históricas, pela

presença de museus, igrejas e fazendas, além dos espaços rurais

que são usados como hotéis-fazenda e pesque-pague, bem como

para a prática de atividades voltadas à vida rural;

Serra da Mantiqueira: o turismo adentra a área serrana da

Mantiqueira, pautando-se na questão ecológica. O município de

Itatiaia, único constituinte dessa área, guarda estreita relação com

a Serra da Mantiqueira, fazendo com que seu clima seja

permeado de amenidades advindas da altitude, o que favorece,

sobremaneira, a atividade turística;

Baixada Fluminense: embora não tenha uma prática turística

consolidada, essa área apresenta grande potencial de turismo

pautado na história e na cultura dos municípios;

Diversificado: incorporadora dos municípios do Rio de Janeiro e

de Niterói, essa área de turismo diversificado configura-se como

um território de intenso apelo e interesse turístico;

Vale do Café: destacam-se as atividades de resgate da memória

do período cafeeiro no Brasil. As práticas turísticas estão

relacionadas à visitação de fazendas e casarios históricos, ao

consumo de produtos de época e produtos rurais, entre outros.

 

O desenvolvimento do turismo no estado do Rio de Janeiro,

portanto, tem forte ligação com suas bases geográficas. O fenômeno

turístico é entendido como próprio da modernidade e da sociedade de

consumo, a qual, cada vez mais, se apropria dos lugares, em suas

diferentes vertentes, para vender momentos, lugares e práticas. Hoje,

entendemos a necessidade de se buscar a valorização de áreas

interioranas e de promover o turismo como um fator importante e de

suporte à economia dos municípios. Mas, para tanto, é necessário

pensar em políticas públicas que deem suporte a essa atividade.

A espacialização dessas marcas turísticas nos aponta para algumas

áreas em que o turismo se caracteriza pela hibridez. São municípios classificados como áreas turísticas distintas, embora a prática das

atividades relacionadas ao turismo ocorra de maneira semelhante. Os

espaços híbridos, portanto, se caracterizam, sobremaneira, como

espaços em que coexistem características, no caso vertente, de tipos

diferentes. Nesses espaços, pode predominar uma característica

sobre a outra, porém negligenciar a presença de aspectos

relacionados a uma marca diferente significa amputar de nossa análise

uma parte importante componente do real. Exemplifica-se com o

município de Itatiaia, que apresenta características, principalmente em

seu aspecto natural, muito peculiares, que se relacionam às

amenidades da Serra da Mantiqueira. Porém, seu processo de

formação histórica não está desvinculado dos demais municípios do

Vale do Café.

O certo é que o estado do Rio de Janeiro apresenta uma grande

variedade de possibilidades para o desenvolvimento da atividade

turística, seja pela valorização das paisagens naturais, seja pelo

patrimônio histórico cultural ou ainda pelas modalidades de turismo

mais recentes, como o ecoturismo e o turismo de aventura. No

entanto, o turismo ainda não está consolidado em boa parte do estado.

Em uma parcela considerável dos municípios, as diversas

possibilidades de atrativos são subaproveitadas ou até mesmo não

exploradas, por falta de infraestrutura de transporte, hospedagem e

lazer.

Nesse contexto, a atividade turística tem sido considerada um fator

relevante para o crescimento econômico do estado, por sua

capacidade de atrair investimentos, fluxo de capitais e recursos

financeiros, bem como de gerar empregos e renda e de transformar

seus espaços. Ribeiro (2003) afirma que essas transformações são

influenciadas por três condicionantes: o físico ou natural; o histórico e

as atividades econômicas; e o papel dos transportes. Acrescenta que

as rodovias são fundamentais para a expansão do turismo no estado,

principalmente a partir da década de 1970, com a construção de

algumas vias (por exemplo, a ponte Presidente Costa e Silva e a

rodovia Rio–Santos) e a duplicação de outras (rodovias Presidente

Dutra e Washington Luís).

De forma geral, o turismo se desenvolve no estado apoiado na

conjunção desses três elementos, permeados por fatores econômicos,

sociais, culturais e políticos. Em cada município, esse inter-relacionamento configura realidades distintas, passíveis de uma

compreensão mais sólida, se considerados os contextos em que são

construídas, em múltiplas escalas. A presença da produção familiar se

insere como mais um elemento atrativo para as práticas de turismo e

os espaços rurais no território fluminense.

 

4. Considerações finais

 

No espaço rural, observam-se inúmeras atividades: as agrícolas,

com a produção de matérias-primas para a indústria e a produção de

alimentos, com assentamentos e acampamentos de trabalhadores

rurais; e as não agrícolas, como a instalação de indústrias e a procura

por áreas que têm a natureza preservada para a construção de

residências, hotéis e pousadas, gerando a necessidade de mão de

obra e proporcionando aos produtores rurais residentes empregos e

consequente aumento da renda familiar. O aumento dessas atividades

não agrícolas, contudo, ainda está associado à implementação, pelo

poder público, de infraestrutura de transporte e comunicação, o que,

nitidamente, possibilita a circulação de pessoas, mercadorias,

informações e capital.

A maior parte das mudanças corresponde ao espaço rural não

incorporado à produção dos complexos agroindustriais e que, em sua

maior parte, corresponde à produção familiar nas pequenas

propriedades. É nesse espaço não incorporado ao modelo

hegemônico que ocorrem as maiores transformações, pois a procura

por áreas que têm a natureza preservada e que podem ser

transformadas em áreas de lazer, com a construção de sítios para

veraneio, hotéis e pousadas, atrai a população das áreas urbanas e

proporciona emprego aos pequenos produtores rurais, facultando-lhes

exercer outras atividades que não apenas as agrícolas. É nesses

espaços que também há incentivo às práticas agroecológicas e

alternativas, em detrimento da forma de produção tradicional nas

médias e grandes propriedades. Esses locais correspondem ao

espaço rural revalorizado em decorrência da natureza mais

preservada, tornando-se uma mercadoria a ser consumida pelas

populações, sobretudo aquelas de origem urbana.

Alteram-se, assim, as relações entre campo e cidade, com a

subordinação do primeiro à segunda, ambos integrados como espaço

de consumo. Os espaços da produção de base familiar se alteram

também com a presença de inúmeros elementos (indústrias, serviços,

pessoas oriundas da cidade, seja para lazer, seja como segunda

residência) que associam atividades agrícolas e não agrícolas. Ao

pequeno produtor descapitalizado, resta a alternativa de buscar outras

fontes de renda nas atividades não agrícolas.

Esse processo está bastante presente no território fluminense, que

se encontra marcado por um intenso processo de urbanização, o qual

tem provocado profunda transformação socioespacial, como, por

exemplo, o turismo rural contemporâneo, com a proliferação de hotéis-

fazenda, spas, pousadas e imóveis de segunda residência. Também

se verificam a manutenção e até mesmo o aumento da produção

familiar, com o estado do Rio de Janeiro apresentando participação

expressiva na comercialização agrícola a partir do Ceasa-RJ,

especialmente em relação à venda de hortaliças, cuja produção tem

aumentado nos últimos anos, especialmente na Região Serrana

fluminense.

Certamente, a proliferação dessas atividades possibilitou aos

produtores familiares a inserção em atividades não agrícolas e o

consequente aumento da renda familiar. No entanto, esse processo

tem lugar, principalmente, nas áreas dos eixos de urbanização

próximas à RMRJ. Nas áreas mais distantes, os produtores familiares

continuam a depender da renda agrícola, enfrentando inúmeros

problemas para a realização de suas atividades. Nesse sentido, o

espaço rural se transforma em decorrência da valorização de seus

aspectos naturais, e a manutenção da produção agrícola familiar se

torna importante para a disseminação da imagem desse espaço

natural vendido ao turista.

 

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