Revisitando o Território Fluminense VI
1. Rio de Janeiro: trajetória institucional e especificidades do marco de poder
Rio de Janeiro: trajetória
institucional e especificidades
do marco de poder 1
Mauro Osorio 2 3 , Henrique Rabelo Sá Rego, Maria Helena
Versiani4
Introdução
A cidade do Rio de Janeiro, desde a sua fundação, consolidou-se
institucionalmente como espaço de articulação nacional. De início,
derivou seu dinamismo socioeconômico do fato de ser o principal
porto e centro militar brasileiro e, em seguida, de ser a sede da
família real portuguesa, capital do Brasil Imperial, capital da
República e centro cultural, político e econômico do país – como
lócus do poder federal, centro financeiro nacional e sede de
empresas públicas e privadas atuantes no território brasileiro e até
mesmo latino-americano.
Com essa trajetória singular, até o início do século XX a cidade
apresentou o maior produto interno bruto (PIB) do país e constituiu
seu maior parque industrial. Contudo, dados do Censo de 1919
mostram que, naquele ano, o PIB industrial do estado de São Paulo
já superava o carioca, e era o estado paulista que liderava o
processo de crescimento econômico brasileiro. Por outro lado,
apesar de a economia da cidade do Rio de Janeiro apresentar, ao
longo de todo o século XX, progressiva perda de posição relativa,
em comparação a São Paulo, o dinamismo econômico carioca ainda
se manteve próximo ao da média nacional entre 1920 e 1960. Isso
porque, nesse período, a cidade ainda funcionava como sede do
poder federal e também se constituía como o eixo de capitalidade
do país, 5 continuando a atrair e gerar investimentos. Carlos Lessa
(2000, pp. 237-238) pontua essa questão:
As décadas de 1920 a 1960 foram de prosperidade e de acumulação de
prestígio no Rio de Janeiro. A cidade desdobrou-se em novos
comportamentos e dimensões. [...] O Rio urbanizou-se em sintonia com
esses novos tempos. Cabe sublinhar que foi sendo secundarizado, em
termos de produção industrial, em relação a São Paulo. Desde a Primeira
Guerra Mundial, São Paulo lidera a produção industrial e, apesar de crescer,
o Rio vê a distância relativa das respectivas bases industriais ser ampliada,
para não lembrar a espantosa diferença no campo agrícola. Porém, o Rio –
concentrando serviços sofisticados, com o núcleo de comando do sistema
bancário, sediando os escritórios centrais da maioria das grandes empresas,
sendo o portal dos visitantes nacionais e estrangeiros e sendo alimentado por
contínuas e crescentes injeções de gasto público – parecia ter assinado um
pacto com a eterna prosperidade.
Além disso, também o antigo estado do Rio de Janeiro –
considerado por Lysia Bernardes (1964) uma região polarizada do
ponto de vista econômico pela cidade do Rio – era cenário de
importantes investimentos federais, com a instalação da Companhia
Siderúrgica Nacional, da Fábrica Nacional de Motores, da
Companhia Nacional de Álcalis e da Refinaria Duque de Caxias.
Como lembra Carlos Lessa (2000, p. 346), as decisões locacionais
para esses investimentos estiveram relacionadas com a
proximidade da antiga capital federal e também com a existência de
tendência dominante, dentro do governo central, a favor da
realização de um contraponto, no país, ao predomínio econômico
paulista. De fato, indicadores relativos ao PIB dos estados e regiões
do Brasil revelam que, nos anos 1950, o território que abrange a
atual região fluminense apresentava um crescimento médio
percentual de 6,6% ao ano, bastante próximo ao da Região
Sudeste, de 6,7% ao ano, e ao do total do Brasil, de 7,1% ao ano
(Pacheco, 1998, p. 69).
Porém, a partir de 1960, com a transferência da capital federal
para Brasília, a cidade do Rio de Janeiro sofre um processo de
fratura em sua dinâmica institucional, o mesmo ocorrendo com a
Velha Província,6 que deriva sua lógica econômica, pós-ciclo cafeeiro, do dinamismo existente na cidade do Rio de Janeiro e dos
investimentos federais nela realizados até 1960.
A trajetória econômica, política e social da cidade e do estado do
Rio de Janeiro, bem como seus impactos para a constituição do
marco institucional e de poder dominante na região, são analisados
neste artigo. Pretende-se também apontar os desafios para a
superação, no século XXI, do processo de decadência econômica
vivenciado na economia carioca e fluminense no período pós-1960.
2. A transferência da capital federal:
uma fratura na dinâmica institucional
do Rio de Janeiro
Utilizando a conceituação de economistas institucionalistas como
Douglass North (1993), Geoffrey Hodgson (1997) e Thorstein Veblen
(1934), que definem instituições como normas formais (leis e
regulamentos) e informais (história, cultura, hábitos e rotinas), é
possível afirmar que a cidade e o antigo estado do Rio de Janeiro,
com a transferência da capital federal para Brasília em 21 de abril
de 1960, sofreram uma ruptura em seu marco institucional.
Chegamos à mesma afirmação recorrendo à conceituação teórica
de Paul Krugman (Krugman et al., 2002), quando esse autor busca
analisar as diferenças marcantes entre os níveis de
desenvolvimento das diversas regiões que compõem o mapa do
mundo. Krugman aplica o conceito de linkages, proposto por Albert
Hirschman (1958), e propõe que determinadas atividades
econômicas podem gerar efeitos de encadeamento em certos
territórios e, por conseguinte, rendimentos crescentes de escala.
Além disso, incorpora o conceito de causação circular cumulativa,
de Gunnar Myrdall (1968), para construir a ideia de que dada região,
a partir de uma diferenciação inicial – como, por exemplo, a
existência de um porto ou a ocorrência de algum fato histórico,
ainda que fortuito –, pode vir a desenvolver novas diferenciações em
relação às demais.
Tal processo envolveria tensão entre forças centrípetas (que
gerariam dinamismo para a região em foco) e forças centrífugas
(que poderiam estimular a migração de investimentos para outras
regiões). As forças centrípetas seriam, fundamentalmente, os efeitos
de encadeamento que um investimento em determinada atividade
geraria em outras; a formação de um mercado de trabalho com tal
porte que permitisse que empregadores tivessem facilidade para
encontrar trabalhadores – sobretudo trabalhadores com habilidades
especializadas – e vice-versa; e o que o autor denomina de meras
economias externas, ou seja, qualquer tipo de facilidade extra
gerada pela concentração territorial.
Por sua vez, as forças centrífugas estariam relacionadas a
questões como: esgotamento de fatores produtivos, como, por
exemplo, esgotamento de terras; aumento do custo dos aluguéis; a
carência de infraestrutura; e qualquer forma de deseconomia
externa, como poluição, violência etc. Dessa forma, dada região
poderia apresentar um dinamismo econômico próximo ou superior
ao de outras regiões no cenário da economia de um país ou da
economia mundial, e, a partir de certo momento, por efeito da
preponderância das forças centrífugas vis-à-vis as forças
centrípetas, poderia sofrer “bifurcação” ou reversão desse
dinamismo econômico.
Nessa perspectiva, é possível afirmar que os territórios carioca e
fluminense, por derivarem seu dinamismo econômico centralmente
da história da capital e da capitalidade da cidade do Rio de Janeiro,
sofreram, a partir dos anos 1960, um processo de erosão de sua
importância e de seu dinamismo socioeconômico. O entendimento
desse processo, contudo, não ocorreu de imediato pelos próprios
cariocas e fluminenses, mas somente nos anos 1980, com a
inversão do processo de crescimento da economia brasileira e a
crise fiscal que então se instaurou, atingindo particularmente o
estado do Rio de Janeiro, pelo peso que o gasto federal ainda tinha
na região. Assim, até o final da década de 1970, viveu-se a doce
ilusão de que a cidade do Rio de Janeiro teria assinado, nos dizeres
de Carlos Lessa (2000, p. 238), “um pacto eterno com a
prosperidade”.
A demora na percepção do processo de crise em que o Rio de
Janeiro imergiu a partir dos anos 1960 pode ser compreendida com
base em um conjunto de fatores, a começar pela força da cultura de
capitalidade no território carioca, construída a partir da histórica
centralidade política, econômica e social do Rio de Janeiro no
cenário nacional. Como sugere Douglass North (1993), determinada
conformação institucional cria hábitos e rotinas arraigados, em que
as questões de escolha se apresentam como algo regular, repetitivo
e evidente, de tal modo que cerca de 90% de nossas ações em vida
seriam realizadas de forma basicamente automática. É nessa
perspectiva que se pode aferir que a cultura de capitalidade do Rio
de Janeiro acabou por contribuir para que, nessa região, não
ocorresse, de forma imediata, a percepção da quebra da dinâmica
institucional a partir de um fator “exógeno” (a mudança da capital
federal para Brasília, em 1960).
Com a mesma preocupação de observar as variáveis que
impactam a dinâmica institucional de determinada região, Geoffrey
M. Hodgson (1997), a partir de pressupostos teóricos distintos e
incorporando autores como Marx, Keynes e os institucionalistas
americanos do final do século XIX e do início do XX – Veblen,
Commons e Mitchell –,7 chega a conclusões bastante próximas às
construídas por North, conforme se pode deduzir da seguinte
passagem:
[Veblen] observou que as instituições têm uma qualidade de estabilidade e
inércia e que tendem a manter e, portanto, a “transmitir” suas características
importantes ao longo do tempo. As instituições são consideradas frutos e
reforçadores dos processos de pensamento rotinizados, sendo partilhadas
por um conjunto de pessoas numa dada sociedade (Hodgson, 1997, p. 276).
Geoffrey Hodgson também afirma que o institucionalismo
compreende os indivíduos a partir do modo como estão situados e
envolvidos em seu mundo social. Dessa forma, suas funções e
preferências não seriam dadas e fixas, mas sim socialmente
construídas e reconstruídas, em um contínuo processo de
adaptação e mudanças. Novamente citando Veblen, Hodgson
(1997:10) escreve:
Uma linha de ação habitual constitui uma linha habitual de pensamento e dá
o ponto de vista através do qual os fatos e eventos são apreendidos e
reduzidos a um corpo de conhecimento. As instituições criam e reforçam os
hábitos de ação e pensamento: a situação de hoje molda as instituições de
amanhã, através de um processo coercivo e seletivo, através da ação sobre a
visão habitual do homem das coisas e, dessa forma, alterando ou fortificando
um ponto de vista de uma atitude mental trazida do passado. 8
Ou seja, por um lado, conforme identificado por institucionalistas
como Geoffrey Hodgson e Douglass North, determinadas culturas
influenciam a conformação de certas formas de raciocínio e de
percepção do mundo, podendo dificultar a compreensão imediata de
uma mudança gerada a partir de um fator exógeno – no caso em
exame, as consequências, para o Rio de Janeiro, da mudança da
capital federal para Brasília, em 1960.
Por outro lado, o fato de a transferência da capital ter ocorrido de
forma paulatina, acelerando-se somente a partir da década de 1970,
no contexto do dinamismo apresentado pela economia brasileira no
período 1968/1980, mascarou a lógica que se inaugurou com a
mudança da capital, não se tendo a percepção de que, por exemplo,
na década de 1970, o território que hoje abriga a cidade do Rio de
Janeiro apresentava um crescimento industrial de apenas 173%,
contra um crescimento brasileiro em torno de 285% e, em Minas
Gerais, em torno de 342% (Rosa e Osorio, 1995).
Para uma análise da demora na percepção das consequências da
transferência da capital federal, em 1960, para o Rio de Janeiro,
deve-se levar em conta também o modelo institucional adotado para
o Distrito Federal quando da implantação da República no Brasil. Ao
se organizar a capital federal, com o advento da República, buscou-
se constituí-la de forma tecnocrática e conservadora, tomando como
referência a cidade de Washington, 9 capital dos Estados Unidos.
Procurou-se, assim, restringir ao máximo o espaço da política local
no Distrito Federal – opção institucional que, posteriormente, foi
reiterada na Constituição de 1946 e na Lei Orgânica do Distrito
Federal de 1948. Desse modo, ficou definido que o prefeito do
Distrito Federal seria nomeado pelo presidente da República e que,
ao contrário das demais localidades brasileiras, as leis votadas
pelos vereadores da cidade do Rio de Janeiro/Distrito Federal que depois fossem vetadas pelo prefeito não retornariam à Câmara
Municipal, mas seriam analisadas pelo Senado Federal.
O esforço de neutralizar a política local naquele território não era
uma novidade da República. Desde 1834, quando ocorreu a
separação institucional da capital da província fluminense com
vistas à criação do município neutro, já se afirmava que a capital
deveria constituir um espaço politicamente neutralizado, conforme
assinalado por Carlos Lessa (2000, pp. 187-8):
Para a federação sonhada pela República, o Rio como município neutro era
perfeito para a transmutação em Distrito Federal. Desde 1834, a cidade
estava separada da província fluminense. A capital para a República deveria
manter-se politicamente neutralizada. O prefeito, escolhido pelo presidente e
submetido à aprovação pelo Senado, não é o chefe do Poder Executivo,
independente de aprovação local. É um alto funcionário de confiança do
presidente que pode demiti-lo ad nutum. [...] O Rio seria o “fórum asséptico”,
guardião e depositário do pacto oligárquico, o lugar de construção do marco
zero da República e a moldura para dignificar a presidência.
A forma como se organizou a institucionalidade local da cidade do
Rio de Janeiro – ao lado de sua história de capitalidade – influenciou
para que o debate e o jogo político local perdessem força na região,
contribuindo, assim, para a conformação de um particular quadro de
carência no tocante à reflexão local.
Desse modo, constituíram-se com força na cidade do Rio,
conforme analisado por Marly Silva da Motta (2000; 2001), duas
lógicas políticas: a primeira, bastante focada nas questões nacionais
e radicalizada no que se refere à representação da cidade na
Câmara Federal e no Senado – o que pode ser visto, por exemplo,
no fato de disputarem o Senado, pelo Distrito Federal, em 1958,
Afonso Arinos, prócer da UDN nacional e deputado por Minas
Gerais, e Lutero Vargas, simbolizando o getulismo; ou no fato de,
em 1962, haverem participado da disputa pela representação da
Guanabara no Senado Juracy Magalhães, então governador da
Bahia e liderança nacional da UDN, e Aurélio Viana, deputado
federal por Alagoas e líder da esquerda nacionalista na Câmara dos
Deputados.
A outra lógica, por sua vez, da política local, seria determinada
pela ausência de eleições diretas locais para prefeito e pelo pouco poder dos vereadores eleitos para interferir na vida da cidade. Veja-
se ainda que, no período de 1946 a 1960, as eleições para a
representação federal na cidade do Rio de Janeiro/Distrito Federal
realizaram-se centralmente em torno de poucos partidos e com forte
participação de líderes políticos que simbolizavam o debate
nacional, ao passo que o jogo político local ocorreu de forma
fragmentária e clientelista, num quadro de forte pulverização das
agremiações partidárias. Nos anos 1950, por exemplo, enquanto a
representação federal do Rio limitava-se a quatro partidos com dois
ou mais membros eleitos, a representação local fracionava-se em 11
partidos. Além disso, entre os quatro partidos que disputavam a
representação federal, era grande a centralidade do PTB e da UDN,
enquanto a representação do PSD carioca (maior partido do
Congresso Nacional nos anos 1950, com posição mais centrista)
limitava-se a um único parlamentar. Isso deixava em evidência o
polarizado debate nacional reproduzido com particular força no Rio
de Janeiro, nesse período, liderado, por um lado, por Getulio
Vargas, Leonel Brizola e João Goulart, e, por outro, por Carlos
Lacerda. Já a lógica política local, ao contrário da lógica política
nacional, teria menos peso e importância na cidade do Rio de
Janeiro, ocorrendo de forma marcadamente fragmentária.10
Assim, a forma como se organizou institucionalmente o Distrito
Federal no território carioca também teve relação direta com o fato
de, na segunda metade dos anos 1950, as reflexões e proposições
sobre os rumos e as estratégias para a cidade do Rio de Janeiro,
após a transferência da capital, terem ocorrido de maneira bastante
pobre e com muito pouca sensibilização social a partir de 1960, sem
que se atentasse imediatamente para os impactos e as
consequências desse processo para o Rio de Janeiro.
A esse respeito, cabe destacar que a transferência da capital para
Brasília já estava definida na Constituição desde 1891,
permanecendo durante anos como “letra morta”. Isso fez com que a
proposta lançada por Juscelino Kubitschek, durante sua campanha
presidencial e quando assumiu o governo federal, tenha sido tratada
com desdém por diversos setores da sociedade. Mesmo a UDN,
partido de oposição, votou todas as leis propostas por JK que
autorizavam a criação de Brasília. O objetivo era, posteriormente, desmoralizar JK, afirmando que a UDN havia aprovado todas as
solicitações do presidente para a construção de Brasília, mas que
ele não cumprira a promessa de transferir a capital.11
A descrença quanto à efetivação da mudança da capital também
conduziu a apenas um único debate público sobre os rumos do Rio
de Janeiro após a transferência da capital para Brasília. Organizado
pelo jornal Correio da Manhã, em 1958, esse debate compreendeu
várias entrevistas com líderes comunitários e empresariais,
intelectuais e políticos, em uma série denominada “O que será do
Rio”.12
Assim, na Belacap,13 em função de sua trajetória de cidade-
capital e da forma como, historicamente, foi organizada do ponto de
vista político-institucional, conforme assinalado por Arnaldo Niskier
(1970, p. 15), a vivência dos problemas nacionais reduzia “a pálidos
reflexos os problemas locais. Depois da mudança da capital para o
Planalto, o povo carioca descobriu que só conhecia de si mesmo e
de sua cidade a visão do turista apressado”. Essa questão também
é apontada no depoimento de Villas-Boas Corrêa ao CPDOC
(Ferreira, 1998, p. 55), nos seguintes termos:
Acho que a bancada do Rio de Janeiro, como o Rio era Capital, se dissolvia
muito, não tinha muita identidade. Até porque o prefeito do Rio era nomeado
[...]. A grande verdade é a seguinte: cobria-se mal a política carioca, porque a
política nacional, que era feita aqui no Rio de Janeiro, abafava a política local.
No mesmo sentido que na cidade do Rio de Janeiro, no antigo
estado do Rio a presença da capital se fazia sentir, conforme mostra
Marieta de Moraes Ferreira (1991), ao assinalar a dificuldade de
interlocução entre as elites econômicas escravagistas da Velha
Província e as elites políticas, de viés mais nacional, como Alberto
Torres e Nilo Peçanha. Essa dificuldade de interlocução teria
representado um obstáculo para a implantação de estratégias
econômicas quando da decadência da cafeicultura na região, na
segunda metade do século XIX.
A questão de as elites políticas do antigo estado do Rio
apresentarem um marcante viés nacional apresentará continuidade,
segundo nosso entendimento, até os anos 1950, o que se evidencia
pela presença de personagens como Macedo Soares, Prado Kely, Raul Fernandes e Amaral Peixoto, que migrou da política carioca
para a do antigo estado do Rio, a partir de seu relacionamento com
Getulio Vargas, embora tenha mantido participação e influência na
política carioca. 14
A importância da articulação entre as elites políticas e econômicas
de uma região para a alavancagem do processo de
desenvolvimento econômico é ressaltada em Otávio Dulci (1999),
quando o autor analisa essa relação como elemento-chave para a
estratégia engendrada em Minas Gerais, a partir das décadas de
1940 e 1950, que gerou um articulado arcabouço institucional de
fomento ao desenvolvimento daquele estado. 15 Assim, a dificuldade
de interlocução entre as elites econômicas e políticas na Velha
Província certamente contribuiu para que a lógica econômica na
região, no período pós-ciclo cafeeiro, viesse a depender de
investimentos federais e da capital da República, tanto ou mais do
que a própria cidade do Rio de Janeiro. Contribuiu também para que
a transferência da capital para Brasília representasse, no antigo
estado do Rio de Janeiro, da mesma forma que no território carioca,
um marco na reversão de dinamismo.16
3. Transferência da capital versus
equívocos no fomento ao
desenvolvimento regional
Nos anos 1960, tendo em vista a conjunção de fatores
enunciados, que abrangem a história de capital e de capitalidade da
cidade do Rio de Janeiro, sua trajetória institucional, a radicalização
vigente na política nacional e o fato de o processo de transferência
da capital ter-se consolidado, de forma lenta e gradativa, ao longo
dos anos 1960 e 1970, fez-se então hegemônica a percepção de
que o Rio continuaria a ser a Belacap e a capital de fato. Isso levou,
inclusive, a que os dois primeiros governos da Guanabara – Carlos
Lacerda (1960-1966) e Negrão de Lima (1966-1971) – realizassem
uma política de modernização urbana com base no entendimento de que tal política, per se, garantiria a centralidade do desenvolvimento
carioca.
Do ponto de vista da formulação de uma política explícita de
desenvolvimento econômico – e expressando a falta de massa
crítica sobre a realidade local –, desenvolveu-se, na Guanabara, nos
governos Carlos Lacerda e Negrão de Lima, e com continuidade no
governo Chagas Freitas (1971-1975), uma política de fomento
focada na indústria, especialmente na organização de distritos
industriais, conforme tese defendida pela representação patronal da
indústria da Guanabara. Tal política realizou-se, fundamentalmente,
com base em dados e pressupostos equivocados, sem que
houvesse preocupação com o entendimento rigoroso e embasado
sobre as potencialidades da região, resultando, ao final da década,
em um rotundo fracasso.
A tese defendida pela representação patronal da indústria da
Guanabara sugeria que, naquela região, da mesma forma que então
ocorria na cidade de São Paulo e em outras metrópoles mundiais,
estaria ocorrendo um derramamento do processo de
industrialização, de seu núcleo central para a periferia – tendo em
vista o crescimento do porte das indústrias, no auge da segunda
Revolução Industrial –, sendo, portanto, de fundamental importância
para a nascente cidade-estado da Guanabara a organização de
uma política de oferta de terrenos e de infraestrutura que retivesse a
indústria instalada dentro do território carioca.
Apresentou-se, como argumento, o fato de, nos anos 1940, 1950
e início dos 1960, a indústria do antigo estado do Rio de Janeiro
haver crescido acima da média nacional. Porém, não se levou em
consideração que, especificamente na Velha Província, isso não
ocorria fundamentalmente pela transferência de plantas industriais
privadas da cidade do Rio para o antigo estado do Rio de Janeiro,
mas, sim, pela criação, naquela região, de empresas estatais, pelo
governo federal.17
Outro pressuposto equivocado que instruiu as políticas
implementadas pelos governos da Guanabara foi o de que Brasília
não se consolidaria como capital e, por esse motivo, com a
modernização da Belacap, o setor de serviços tenderia a se manter
na Cidade Maravilhosa, não demandando políticas específicas de
fomento.18 Tal pressuposto e o foco econômico dos três governos
da Guanabara, entre 1960 e 1975, no setor industrial e em uma
política de distritos industriais – inclusive constituindo-se, para tanto,
no início do governo Lacerda, uma empresa de fomento
denominada Companhia Progresso da Guanabara (Copeg) –,
estavam em consonância com os interesses da representação
industrial carioca (uma das poucas instituições a se inserir, de forma
organizada e com forte hegemonia, no rarefeito debate local), mas,
de forma objetiva, não deram conta da problemática de reinserção
estratégica dessa unidade federativa no cenário da economia
brasileira.
De fato, a política focada em distritos industriais organizada para
a Guanabara fracassou. No curso do governo Lacerda, só ocorreu a
ocupação, por indústrias, de 1% da área inicialmente prevista para o
total dos distritos industriais, então criados na Avenida das
Bandeiras e em Santa Cruz (Guanabara, 1970, p. 46). No governo
Negrão de Lima, a política de distritos industriais também não
alcançou resultado significativo, seja pela não ocupação do novo
distrito por ele criado, a Fazenda Botafogo, seja porque o distrito
industrial de Santa Cruz continuava praticamente desocupado.
Da mesma forma, essa política não apresentou, no período
Chagas Freitas, resultados expressivos, embora, do ponto de vista
da estratégia governamental, tenha ocorrido a amplificação de seu
foco. Isso é o que mostra, por exemplo, o depoimento de José
Augusto Assumpção Brito (apud Osorio, 2005, Conclusão), segundo
o qual a consolidação dos investimentos de infraestrutura que
permitiram que o Distrito Industrial de Santa Cruz viesse a funcionar
de fato só ocorreria no final do governo Chagas Freitas. Além disso,
de acordo com Assumpção Brito, a política de distritos industriais
não teria grande importância no crescimento industrial carioca
ocorrido nos anos 1970, que, segundo ele, teria derivado
centralmente do 19 milagre econômico . Por outro lado, a partir da
análise dos documentos Economia Industrial do Novo Estado do Rio
de Janeiro (Barros, 1975) e Tendências de crescimento da
Guanabara (Ideg, 1974), é possível chegar à mesma conclusão. De
acordo com Barros, por exemplo, em 1973 existiriam, para todo o
bairro de Santa Cruz, apenas 15 indústrias, o que representava uma participação de 0,6% no total do número de estabelecimentos
industriais existentes na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, o
autor analisa que o bairro de Jacarepaguá, onde Chagas Freitas
estabeleceu um novo distrito industrial, possuiria, em 1973, apenas
1,83% do total de estabelecimentos industriais da cidade (Barros,
1975, p. 156). Dessa forma, nenhum dos três governos da
Guanabara conseguiu articular uma reversão do processo de
“bifurcação” – utilizando a conceituação de Paul Krugman (2002) –,
que, no território carioca, ocorreu em 1960.
Por sua vez, após a fusão da Guanabara com o antigo estado do
Rio, em 1975, os governos persistiram em, por um lado, apresentar
uma visão equivocada sobre quais deveriam ser as estratégias de
desenvolvimento econômico para a região – no governo Faria Lima,
por exemplo, a preocupação centrou-se no setor agrícola, apesar da
diminuta participação desse setor no PIB carioca. Por outro lado,
adotaram um foco pontual, sem estudos setoriais ou uma adequada
estratégia e coordenação de políticas. Ou, ainda, simplesmente
dispensaram a formulação de quaisquer políticas de
desenvolvimento econômico.
Para a análise da carência de uma adequada estratégia de
desenvolvimento econômico para a cidade do Rio de Janeiro, e
posteriormente, após a fusão, para o estado do Rio de Janeiro, é
interessante citar a seguinte consideração de Raphael de Almeida
Magalhães, vice-governador do primeiro governo da Guanabara e
coordenador do Programa de Ações Federais no Rio de Janeiro,
durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso:
A criação do estado da Guanabara em si mesma não poderia dar conta das
causas que determinaram a decadência da cidade. Teve, entretanto, o mérito
de permitir a autonomia política da cidade, cujo governo pôde, com
verdadeiro empenho, tentar, ao menos, recuperar a qualidade dos serviços
básicos, enfrentando, com êxito parcial, alguns dos mais agudos problemas
de infraestrutura herdados da época da dominação federal.
A verdade é que a simples autonomia política não bastava para a viabilização
de um projeto de restauração substitutiva da base produtiva da cidade e da
sua região, afetada com a perda irreversível da condição de metrópole
nacional. [...] Redescobrir funções reorganizadoras das atividades
econômicas continua sendo, assim, desde a década dos 1950, o verdadeiro
desafio para a cidade e sua região. Identificá-las, agora, se inscreve, além do
mais, no complexo contexto de nosso tempo, que deve considerar a
globalização da economia e a necessidade vital de nova forma de articulação
do Brasil com os centros decisórios internacionais (Magalhães, 2001, pp. 4-
5).
4. Um golpe que favoreceu o
clientelismo e a degradação
econômico-social do Rio de Janeiro
Entendemos que a trajetória econômica pós-1960 do Rio de
Janeiro foi decisivamente influenciada pela transferência da capital
para Brasília; pela história de capitalidade da cidade do Rio; pela
constituição de seu desenho político-institucional local; e pela
consequente carência de reflexão e pelos equívocos nas estratégias
regionais. Além disso, a cidade e o estado do Rio de Janeiro
sofreram profunda degradação em sua lógica política a partir do
golpe de 1964 e das cassações, que atingiram, com particular
gravidade, a cidade do Rio.
De fato, pela centralidade política do Rio de Janeiro no cenário
brasileiro, sua representação federal foi fortemente atingida no
processo de cassações. A polarização existente no debate político
nacional e o papel central do Rio nesse debate, principalmente nos
anos 1950 e na primeira metade dos anos 1960, redundaram em
que a representação federal da cidade apresentasse a marca da
radicalização e se circunscrevesse a poucos partidos, basicamente
o PTB e a UDN.
Assim, logo após o golpe de 1964, por um lado, o PTB e a
esquerda como um todo sofreram pesadamente o processo de
cassações, sendo que, no caso da cidade do Rio, entre os dez
deputados federais eleitos pelo PTB, em 1962, oito foram cassados.
Por outro lado, pelo fato de Carlos Lacerda romper com o regime
militar ao longo da década de 1960, a UDN carioca também foi
fortemente atingida pelas cassações, provocando-se, no conjunto,
desarticulação da lógica nacional nessa região e abrindo-se espaço
para que Chagas Freitas e sua política de clientela articulada à lógica local conquistassem particular hegemonia, primeiro na cidade
e posteriormente no estado do Rio. 20 Essa lógica fez história ao
longo dos anos, conforme se verifica na declaração da governadora
Rosinha Garotinho (2003-2006), publicada no jornal O Globo, de 10
de outubro de 2003, em que ela analisa que, na região fluminense,
após o chaguismo e o brizolismo, “por que não o garotismo?”. Ou
seja, na cidade do Rio de Janeiro e, posteriormente, no novo estado
do Rio, viria a ocorrer, através dos processos históricos de
permanências e mudanças, a coexistência entre uma lógica
nacional cada vez mais inorgânica e uma lógica clientelista e
fragmentária crescentemente hegemônica no plano estadual. Tal
realidade gera um marco institucional que desestrutura, com
particularidade, o poder público na região, dificultando a
organização consistente de estratégias e políticas regionais.
Assim, a transferência da capital para Brasília, em 1960, e a
consolidação dessa transferência no correr da década de 1970,
junto com a carência de reflexão regional e de adequadas
estratégias regionais de fomento ao desenvolvimento, bem como a
particular degradação política que a cidade e o estado do Rio
sofreram em consequência do golpe de 1964, todos esses são
fatores absolutamente centrais no processo de degradação
econômico-social do atual estado do Rio de Janeiro no cenário
brasileiro.
Do ponto de vista econômico, esse processo de degradação pode
ser verificado a partir de um conjunto de indicadores. Através das
Contas Regionais do Brasil, divulgadas pelo IBGE, por exemplo,
entre 1970 e 2013, o PIB do atual estado do Rio de Janeiro passou
de uma participação no PIB nacional de 16,7% para uma
participação de 11,8%, a maior perda entre todas as unidades
federativas brasileiras. 21
Na mesma linha, de acordo com dados do Ministério do Trabalho
(RAIS/MTE), o estado do Rio de Janeiro apresentou, entre 1985 e
2014 (a série mais longa disponível com a mesma metodologia), um
crescimento do emprego formal de 73,6%, contra um crescimento
no total do país de 141,9%, o menor índice entre todas as unidades
federativas brasileiras.
A particular estagnação do conjunto da economia carioca e
fluminense evidencia-se também no fato de que o estado do Rio de
Janeiro, que apresentava, em 1985, a segunda posição, entre todas
as unidades federativas brasileiras, no que tange ao número de
empregos formais gerados no conjunto das atividades públicas e
privadas, estando atrás apenas de São Paulo, tenha sido, desde
1999, ultrapassado por Minas Gerais, caindo para a terceira posição
no ranking das unidades federativas.
No que se refere, especificamente, ao emprego na indústria de
transformação, a perda revelou-se ainda mais acentuada. O Rio de
Janeiro passou da segunda posição, em 1985, para a sexta posição,
em 2014, sendo ultrapassado por Minas Gerais, Rio Grande do Sul,
Paraná e Santa Catarina. Igualmente expressivo é o fato de Minas
Gerais haver ultrapassado, em 2004, o estado do Rio de Janeiro no
que diz respeito à receita gerada pelo imposto estadual de ICMS,
ampliando, assim, a dependência do estado do Rio de Janeiro em
relação às receitas de royalties do petróleo. 22
Nesse processo, o estado do Rio de Janeiro ficou com ralo
adensamento produtivo e grande concentração em refino de
petróleo e siderurgia. Essa rala densidade produtiva pode ser vista
principalmente na periferia metropolitana e no interior fluminense. 23
No ano de 2014, através de dados da Rais/MTE, verificamos que,
no Brasil e na Região Sudeste, os empregos formais públicos
representavam, respectivamente, 20,05% e 15,41% do total de
empregos formais. Já entre os 91 municípios do interior fluminense
e da metrópole (excluindo-se a cidade do Rio de Janeiro),
encontravam-se 56 municípios com o peso do emprego público
superior ao encontrado para o Brasil, sendo que 43 deles
apresentavam percentual acima de 30%; 19 municípios exibia
percentual acima de 40%; e, em dez municípios, o peso do emprego
privado no total do emprego formal municipal não chegou a
representar 50%.
Deve-se destacar que a cidade do Rio de Janeiro, apesar de ter
sido capital federal por quase duzentos anos e da forte presença em
seu território do serviço público federal – como, por exemplo, das
forças armadas e de universidades públicas federais –, apresentava, em 2014, um peso do emprego no setor público no total de
empregos formais de 18,65%.
Com relação aos indicadores sociais e de infraestrutura, também
verificamos particular degradação da região fluminense no cenário
federativo. Dados do Censo do IBGE de 2010 mostram, por
exemplo, uma situação particularmente grave do ponto de vista
habitacional. Organizando-se um ranking, por estado brasileiro, do
percentual de pessoas moradoras de favelas, em relação ao total de
habitantes, verifica-se que o estado do Rio apresentou, em 2010,
um percentual de 12,7%, o terceiro maior entre todas as unidades
federativas, melhor apenas do que o Pará e o Amapá, que
apresentaram o primeiro e o segundo maiores percentuais,
respectivamente. Esse percentual era de 6,62% no estado de São
Paulo e de apenas 3,07% em Minas Gerais.
Outro exemplo, também com base nos dados do Censo de 2010
do IBGE, é o expressivo percentual de jovens entre 18 e 24 anos
que não estudam nem trabalham na cidade do Rio e principalmente
nas áreas periféricas. Na zona Suburbana, esse percentual, em
2010, chegava a ser de 38,8% na área do Jacarezinho; de 32,9% no
Complexo do Alemão; de 32,5% na Penha; de 30,1% em Anchieta;
de 30,0% na Pavuna; e de 29,5% na Maré. Na zona Oeste, atingia
38,4% em Santa Cruz, 35,1% em Bangu e 33,0% em Guaratiba.
Além disso, enquanto na Região Sudeste o percentual de nem-nens
entre os jovens com 18 a 24 anos era, em 2010, de 24,2%, entre os
21 municípios da RMRJ, 16 apresentavam percentual superior a
30%, sendo que, em oito municípios da metrópole carioca, o número
de jovens sem estudar ou trabalhar era igual ou superior a um terço
dos jovens. No interior fluminense, 62 dos 71 municípios da região
apresentavam percentual de nem-nens superior ao verificado para o
conjunto da Região Sudeste.
Na área de educação, é possível verificar o péssimo
posicionamento do estado do Rio de Janeiro no cenário federativo;
da cidade do Rio de Janeiro comparativamente às demais capitais
brasileiras; e dos municípios fluminenses em face à situação nos
municípios da Região Sudeste e do Brasil, no ano de 2013, por
exemplo, com base nos resultados do Índice de Oportunidades da
Educação Brasileira-Ioeb, organizado pelo Centro de Liderança Pública-CLP, com o apoio das Fundações Lemann e Roberto
Marinho.24 Organizando-se um ranking dos resultados do Ioeb para
as unidades federativas em 2013, vemos que o estado do Rio de
Janeiro encontrava-se apenas na décima quinta posição. Na mesma
direção, em um ranking das capitais, a cidade do Rio encontrava-se
na décima primeira posição.
Com base nesse mesmo índice, o município fluminense mais bem
colocado entre os 1.620 municípios da Região Sudeste é
Comendador Levy Gasparian (região Centro-Sul Fluminense), na
500ª posição. Em segundo lugar, aparecem os municípios de Santo
Antônio de Pádua, na 713ª posição, e Aperibé, na 993ª posição
(ambos da Região Noroeste Fluminense).25 Todos os demais 89
municípios fluminenses encontravam-se além da 1.000ª posição,
sendo que 61 deles encontravam-se atrás da 1.500ª posição. Por
último, entre os vinte municípios que ocupam as últimas posições no
ranking dos 1.620 municípios pesquisados da Região Sudeste,
infelizmente 18 são do estado do Rio de Janeiro.
A trajetória do estado do Rio de Janeiro no pós-1960 também
conduziu a uma situação particularmente grave no que tange à
questão da segurança pública, com a constituição de “estados
paralelos” na metrópole carioca, em um nível de institucionalização
inexistente em outras metrópoles brasileiras e mesmo da América
Latina, sendo consequência da particular desestruturação ocorrida
na polícia fluminense, com a instauração do marco institucional que
passa a existir no Rio após o golpe de 1964. A respeito disso, vale
citar dois artigos analíticos: o de Mauro Osorio, intitulado “Estado do
Rio de Janeiro: estagnação de longo curso e possibilidades de
reversão”, publicado no Jornal dos Economistas, do Corecon/RJ, em
2008, e o do jornalista Xico Vargas, intitulado “O caminho de ouro”,
publicado no site No Mínimo, em 2006.
No primeiro, destaca-se o fato de policiais de outros estados
brasileiros – incluindo estados muito violentos, como, por exemplo,
Pernambuco – que vieram para o Rio de Janeiro compor a Força
Nacional, por ocasião do Pan-Americano em 2007, terem, de acordo
com os jornais da época, ficado estupefatos com o nível de
armamento apurado nas áreas dominadas pelo tráfico no Rio e também com o elevado grau de rejeição dos moradores de favelas
em relação às forças policiais estaduais.
No segundo artigo, Xico Vargas aponta o alarmante nível de
institucionalização da corrupção então verificada na estrutura de
segurança pública estadual. Em suas palavras: “De qualquer
maneira, para policiais (os da banda boa) não há dúvida de que
todas as delegacias têm dono e quotas de arrecadação”.
5. O Rio no século XXI:
potencialidades, dilemas e desafios
No início do século XXI, a economia do estado do Rio de Janeiro
volta a apresentar, após várias décadas, aproximação com a
trajetória da economia brasileira. Isso tem relação com a atração de
investimentos para a região, que tem início em meados dos anos
1990 e começa a impactar os indicadores econômicos,
principalmente a partir do final da primeira década do século XXI.
Entre os grandes investimentos que têm lugar no estado do Rio de
Janeiro, destacam-se, por exemplo, a chegada de montadoras de
automóveis à região do Médio Paraíba; a implantação da Rio
Polímeros, em Duque de Caxias, com vistas à criação, na região, de
um polo de gás-químico; 26 a reativação da indústria naval; a
ampliação de investimentos pela Petrobras até o ano de 2014; a
instalação, na cidade do Rio de Janeiro, de novas empresas
petrolíferas; a consolidação do parque tecnológico da UFRJ, em
torno do complexo de petróleo e gás; a instalação de uma planta
siderúrgica no distrito industrial de Santa Cruz; investimentos na
Fiocruz e no Instituto Vital Brazil; além dos investimentos derivados
da política de atração de megaeventos.
A aproximação do estado do Rio de Janeiro com a trajetória
econômica brasileira pode ser verificada, por exemplo, pelo
crescimento em 25,0%, entre 2008 e 2014, do emprego formal,
enquanto na Região Sudeste e no Brasil os índices foram,
respectivamente, de 21,6% e 25,7%. No entanto, o conjunto dos
indicadores apontados mostra a continuidade de uma grave situação socioeconômica no estado do Rio de Janeiro, que é
reforçada pela crise a partir de 2015, atingindo particularmente esse
estado, não só pela herança ainda existente da trajetória pós-1960,
como também pela forte queda do preço internacional do petróleo e
por seu impacto para as receitas públicas de royalties no âmbito do
estado do Rio de Janeiro e de seus municípios, em especial as
regiões norte e das Baixadas Litorâneas.
Para a superação definitiva dessa condição de precariedade e a
constituição de um círculo virtuoso no estado do Rio de Janeiro,
deve-se levar em conta que é necessário mobilizar mais a academia
no que diz respeito às reflexões sobre o estado e seus municípios.
De fato, a tradição no estado do Rio, até os dias atuais, de se ter
especial preocupação com os temas nacionais vis-à-vis os temas
locais, é confirmada, por exemplo, no fato de que inexistem, em
quaisquer dos programas de mestrado e doutorado em Economia
das universidades instaladas no estado, linhas permanentes de
pesquisa em Economia Regional.
A carência de reflexão dificulta o debate na sociedade sobre uma
real agenda que permitiria a constituição de um círculo virtuoso no
Rio de Janeiro e a diminuição das desigualdades sociais e
territoriais. Além disso, possibilita particular liberdade para a atuação
de lobbies e grupos de interesse, como ocorreu nos anos 1960 e na
primeira metade dos anos 1970, quando os governos Lacerda,
Negrão e Chagas incorporaram a tese equivocada de que a
indústria guanabarina estaria migrando para o antigo estado do Rio
e a prioridade da política econômica local seria estabelecer
condições que permitissem retê-la no território carioca. Em período
mais recente, um bom exemplo é o forte lobby dos grupos
Multiterminais e Libra, proprietários dos terminais de contêineres
localizados no Porto do Rio, o que dificulta uma política de apoio ao
crescimento do terminal de contêiner localizado em Itaguaí e que
pode ser uma peça-chave para atrair atividades produtivas para a
periferia metropolitana, fazendo, assim, com que a região deixe de
ser dormitório.
Do ponto de vista setorial, no que diz respeito ao adensamento
produtivo, é importante examinar e aprofundar as pesquisas e os
debates acerca das atividades e dos complexos produtivos com maior potencialidade no estado do Rio de Janeiro. Em primeiro
lugar, é fundamental ampliar a discussão sobre o papel que o setor
do petróleo e o que podemos denominar de complexo do petróleo e
gás – extração de petróleo; partes, peças e equipamentos; indústria
naval; inovação; projetos de engenharia; convenções, eventos e
turismo de negócios em geral; serviços de apoio etc. – podem
significar para o desenvolvimento socioeconômico do estado do Rio
de Janeiro nas próximas décadas. É óbvio que a prioridade absoluta
deve ser a busca de energias renováveis e o estímulo às atividades
econômicas, como, por exemplo, o desenvolvimento de carros
elétricos. No entanto, o que afirmam alguns especialistas, como, por
exemplo, o professor Adilson Oliveira, da UFRJ, é que o mundo
ainda continuará dependente do petróleo nas próximas décadas.
Além disso, algumas análises, não só da academia, mas também de
empresas do setor petróleo, como a Shell, que mantêm como
prioritários seus investimentos no Brasil, apontam que a
produtividade na extração do petróleo no pré-sal tem crescido muito,
e que essa extração permanece absolutamente viável. Sobre a
competitividade e a produtividade do pré-sal, vale a pena reproduzir
um trecho da entrevista concedida por Guilherme Estrella, ex-diretor
de Exploração e Produção da Petrobras, e chefe, entre 2003 e
2012, da equipe que descobriu o pré-sal. A entrevista foi publicada
no jornal Estado de S. Paulo, de 2 de março de 2016:
A Petrobras produz 2 milhões de barris por dia nas Bacias de Santos e
Campos, na frente do mercado consumidor. Nós produzimos a US$ 8 o barril
no pré-sal, por usar a infraestrutura vizinha da Bacia de Santos. É uma
vantagem competitiva. As grandes empresas mundiais produzem 4 milhões
de barris por dia em campos espalhados no mundo, com operação caríssima.
Assim, deve-se identificar cuidadosamente qual é a real presença
do complexo de petróleo e gás no Rio de Janeiro, definindo-se a
política que deve ser aprimorada/buscada, com vistas a atrair novas
empresas, emprego e renda para a região com o desenvolvimento
do pré-sal. Entendemos que, com frequência, o debate sobre
petróleo no estado do Rio de Janeiro é desfocado. O problema é ter
o complexo de petróleo e gás ou ter apenas a extração de petróleo
em alto-mar, os royalties, sedes administrativas de empresas vinculadas ao complexo e a uma parte da indústria naval? Ou seja,
talvez estejamos, no estado do Rio de Janeiro, em situação mais
próxima à da Venezuela, que extrai e vende petróleo bruto, do que à
situação de algumas regiões como a Noruega, em que o complexo
de petróleo e gás é adequadamente aproveitado e responsável por
um em cada nove empregos existentes naquele país.
É claro que parte das demandas do pré-sal será atendida pela
indústria já instalada em São Paulo. No entanto, conforme
pesquisas realizadas quando da organização do Plano Diretor do
Arco Metropolitano, 27 a exploração do pré-sal e sua nova escala
permitirão a presença, no Brasil, de novas atividades produtivas
para atender às demandas desse complexo. Podemos, então,
desenhar uma política que permita identificar as novas
oportunidades e atraí-las para o Rio de Janeiro, preferencialmente
para a periferia metropolitana, quando se tratar de atividades
industriais.
A crise política e econômica que se instaurou no Brasil em 2015
teve como um de seus eixos centrais a Petrobras e o conjunto do
complexo, impactados pela queda do preço internacional do
petróleo e também pelas investigações de corrupção do Ministério
Público e da Polícia Federal. O Rio de Janeiro vem apresentando
um desempenho, na crise, pior do que o Brasil no que diz respeito à
questão fiscal, principalmente pela forte queda das receitas de
royalties. No entanto, no que tange ao conjunto dos indicadores
econômicos, como, por exemplo, evolução do comércio, da indústria
e do emprego, não se verifica, em 2015, uma situação do estado do
Rio de Janeiro pior que a do Brasil. Não seria uma pista de que
importante parte do complexo de petróleo e gás não se encontra no
território fluminense?
Outro bloco econômico importante no território fluminense, que
ainda pode ser muito potencializado e que apresenta sinergia entre
suas atividades, é aquele vinculado às atividades de turismo,
entretenimento, cultura, multimídia, esporte e lazer.28 Isso porque a
cidade e o estado do Rio de Janeiro têm clara potencialidade para o
turismo, em virtude de suas belezas de mar e montanha; pela
presença, no estado, de três entre os quatro parques nacionais mais
importantes do país: Parque da Tijuca; Serra dos Órgãos e Itatiaia; pela importância histórica de regiões como a cidade do Rio; pela
região do Médio Paraíba, com suas fazendas de café e a cidade
imperial de Petrópolis; e pela potencialidade do que podemos
denominar de turismo de convivência – aquele que se faz para
conhecer a cultura, o estilo de vida e as especificidades de uma
região.
A carência de planejamento no estado do Rio torna o turismo
ainda pouco aproveitado. Na cidade do Rio, o total de empregos em
hotéis e pousadas representa apenas cerca de 1% do total de
empregos formais da cidade (MTE/Rais, 2014).29 Além disso,
algumas pesquisas que fizemos apontam para o fato de que a
atividade turística nas demais 91 cidades fluminenses só é
significativa para a economia municipal em Armação dos Búzios,
Parati e Itatiaia.
A história do Rio também leva à importante presença de
atividades culturais e das áreas de cinema e vídeo na região. Além
disso, as áreas de cinema e vídeo têm apresentado forte
crescimento, por causa da política de conteúdo nacional e fomento
ao setor implantada pelo governo federal no início do século XXI,
com a aprovação de uma legislação específica à criação da Ancine
e de um fundo a ela vinculado. No entanto, no que diz respeito às
atividades de entretenimento, esporte e lazer, deve-se buscar um
adequado aproveitamento dos complexos esportivos criados ou
aprimorados no Rio de Janeiro, tendo em vista os megaeventos.
Nesse aspecto, uma das possibilidades consiste em buscar uma
política que transforme a cidade do Rio na capital do esporte da
América Latina.
Outra posibilidade é que, atualmente, os complexos esportivos
não funcionam apenas como palco para competições, atendendo
também a outras atividades de entretenimento e lazer. Deve-se ter
em conta ainda que a cidade do Rio de Janeiro, além de receber
bem seus visitantes, desde a Eco 92, já tem importante experiência
na organização de megaeventos, o que, com a realização das
Olimpíadas de 2016, permitirá a geração de uma imagem
internacional positiva para a cidade e contribuirá para a
alavancagem do turismo. 30
Outra área em que se pode definir uma política de adensamento
produtivo no estado do Rio de Janeiro está vinculada ao que
podemos denominar de complexo da economia da saúde. O
Sistema Único de Saúde brasileiro é o maior comprador público,
entre todos os países do mundo, de insumos para atendimento na
área de saúde. Assim, a partir de 2004, o governo federal iniciou o
desenho de uma política de criação ou atração para o país de novas
atividades produtivas desse setor, com base no poder de compra do
governo.
O Rio de Janeiro é um espaço privilegiado para atrair essas novas
atividades. O estado abriga significativa indústria farmacêutica e há
uma importante área de pesquisa nesse setor. Além disso, tem o
privilégio de sediar a Fiocruz, instituição-chave nessa nova política,
inclusive do ponto de vista de absorção de novas tecnologias.31
Também conta com presença importante na área de cirurgia
plástica, atraindo moradores de outras regiões brasileiras e do
exterior. Registre-se que a vinda de pessoas do exterior para o Rio
de Janeiro, a fim de aproveitar a expertise em cirurgia plástica, pode
ser ampliada, a partir de 2016, se for mantido o fim da
sobrevalorização cambial.
Por último, é importante aprofundar os benefícios econômicos que
podem advir da presença das Forças Armadas no Rio de Janeiro,
não só pelos recursos que essa instituição injeta na economia, por
meio do pagamentos de salários e das compras de insumos que
realiza para a manutenção de suas atividades, mas também pelas
atividades de ensino, pesquisa e produção que empreende em
nosso território, como, por exemplo, com o estaleiro nuclear da
Marinha, que está sendo instalado no município de Itaguaí.
No que diz respeito ainda ao adensamento produtivo no estado do
Rio de Janeiro, é importante desenhar uma estratégia de fomento
territorializada, com vistas a aumentar a endogenia da economia
fluminense. De acordo com essa estratégia, deve-se pensar a
cidade do Rio de Janeiro como um espaço de coordenação da
economia regional. Entre as oito regiões de governo, os desafios
mais complexos estão na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e
em sua periferia. Não só pelo fato de a RMRJ concentrar 74,3% da
população fluminense; 77,4% dos empregos formais do estado; e 64,7% do PIB do estado, mas também por ser a região, no território
fluminense, que apresenta os maiores desafios do ponto de vista
socioeconômico e de desigualdade social (IBGE e MTE).
Em primeiro lugar, a periferia metropolitana ainda é basicamente
dormitório, o que gera diversos problemas, como, por exemplo, a
existência, na quase totalidade de seus municípios, de uma diminuta
base produtiva para a arrecadação de receita pública municipal. Por
exemplo, enquanto o município de São Caetano do Sul, da periferia
da RMSP, que apresenta forte densidade produtiva, apresentava,
em 2014, uma receita pública per capita de R$ 6.832,86, o
município de Duque de Caxias (RMRJ), muitas vezes percebido no
imaginário popular como um município rico, apresentava uma
receita pública 32 per capita de apenas R$ 2.012,51. Isso porque,
embora a refinaria Duque de Caxias e outras poucas grandes
empresas estejam em seu território, o conjunto de sua estrutura
produtiva é extremamente ralo (Finbra/STN/MF).
Da mesma forma, ao analisarmos os indicadores sociais na RMRJ
e principalmente em sua periferia, vemos resultados bastante
preocupantes, sejam em comparação com os municípios
fluminenses das outras sete regiões do governo, sejam em
comparação com o total dos municípios da Região Sudeste
brasileira, ou ainda nos rankings dos municípios com mais de
cinquenta mil habitantes das periferias das RMRJ, RMSP e RMBH.
Entre os exemplos para o ranking dos resultados na educação
através do Índice de Oportunidades da Educação Brasileira-Ioeb
(2013), verificamos que os piores resultados pertencem aos 18
municípios da periferia da RMRJ com mais de cinquenta mil
habitantes.
No quesito segurança, novamente comparando-se os municípios
das periferias das RMRJ, RMSP e RMBH com cinquenta mil
habitantes ou mais, têm-se São Caetano do Sul e São Bernardo,
ambos da RMSP, como os municípios com os dois melhores
resultados, apresentando, em 2013, taxas de homicídios por cem
mil habitantes de 4,48 e 6,20, respectivamente. Por outro lado,
vários municípios da RMRJ apresentavam elevadas taxas de
homicídios, superiores a quarenta por cem mil habitantes: Japeri, 41,67; Itaguaí, 51,06; Belford Roxo, 54,23; Duque de Caxias, 60,30;
e Nova Iguaçu, 63,62 (Datasus).
A precarização da periferia metropolitana também pode ser
observada pelo ranking dos 59 municípios com mais de cinquenta
mil habitantes das periferias das metrópoles do Rio de Janeiro, São
Paulo e Belo Horizonte em relação ao percentual de domicílios
atendidos por rede de água, em 2010. Entre os 18 piores resultados,
estão 14 municípios da periferia da RMRJ. Além disso, os dados
revelam que a qualidade e a periodicidade da chegada de água aos
domicílios não são boas (IBGE, 2010).
Uma estratégia e uma agenda que permitam o início de um
círculo virtuoso para a RMRJ e, principalmente, para a periferia
devem pensar, de forma integrada, políticas sociais, de
infraestrutura e de atração de investimentos. Essa estratégia e essa
agenda devem levar em conta a questão da melhoria da educação e
da formação profissional, bem como das políticas públicas de
saúde; a criação de recursos de amenidades, como parques
públicos, hoje inexistentes na periferia metropolitana, exceto em
Niterói; a organização do zoneamento urbano e a regularização de
terrenos para a instalação de empresas; e melhoria da logística e da
infraestrutura de telecomunicações, energia elétrica e saneamento.
E tudo isso deve ser pensado tanto para os cidadãos quanto para as
empresas.
Um primeiro exemplo da necessidade de se pensar, de forma
integrada, a questão da qualidade de vida na RMRJ e na periferia
metropolitana está evidente em alguns depoimentos de gestores
públicos, no sentido de que empresários que visitam o Rio de
Janeiro, quando da avaliação da viabilidade de instalarem atividades
produtivas no estado, ficam impressionados com a falta de cidades
organizadas na periferia metropolitana em que seus funcionários
possam trabalhar e viver bem. Outro bom exemplo é o depoimento
de um empresário que produz materiais de construção e possui três
plantas industriais – duas em São Paulo e uma na Baixada
Fluminense. Esse empresário afirma que, embora o Arco
Metropolitano tenha melhorado a logística, ele ainda pensa em
transferir a planta que possui na Baixada para São Paulo, levando
em conta que, com frequência, a energia cai na região e, assim, não só a produção fica paralisada, como se perde o que estava em
produção. Além disso, quando chove, o sinal de internet cai e não
se pode sequer emitir uma nota fiscal eletrônica.
O último exemplo paradigmático das dificuldades na atração de
empresas, encadeamentos e adensamento produtivo na RMRJ,
excluindo-se a cidade do Rio de Janeiro e Niterói, é o fato de que a
instalação da indústria Rio Polímeros em Campos Elíseos, no
município de Duque de Caxias, não atraiu praticamente nenhuma
nova indústria de plástico. Ocorre que a criação da Rio Polímeros,
planta petroquímica de primeira e segunda gerações, foi desenhada
com vistas a funcionar como âncora de um polo de gás químico que
também incorporaria a terceira geração petroquímica, ou seja, a
indústria de plásticos. Sem dúvida, a terceira geração petroquímica
é fundamental, pois não só é intensiva em mão de obra, como
também é composta, de forma hegemônica, por pequenas e médias
empresas. A não atração de indústrias de plástico para a periferia
metropolitana deveu-se fundamentalmente à não existência de
áreas com infraestrutura adequada à sua instalação.
Se a RMRJ é a região de governo do estado do Rio de Janeiro
que apresenta os maiores desafios em políticas sociais,
infraestrutura e adensamento produtivo, as outras sete regiões
estão longe de apresentar um quadro confortável quando se
compara sua situação socioeconômica com a da maioria dos
municípios das regiões Sudeste e Sul brasileiras. Nesse sentido, é
imperioso ampliar a reflexão sobre o estado do Rio de Janeiro e
suas especificidades territoriais, de forma sistemática, com vistas ao
devido conhecimento e à socialização das informações sobre a atual
realidade fluminense, definindo-se qual agenda possibilitará a
superação das precariedades estruturais e da crise atual, com o
início de um círculo virtuoso no conjunto do estado.
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