Revisitando o Território Fluminense VI
3. O relevo do estado do Rio de Janeiro: cenário de beleza e fragilidade ambiental
O relevo do estado do Rio de
Janeiro: cenário de beleza e
fragilidade ambiental
Telma Mendes da Silva1 2 , Simone Lisboa dos Santos da Silva
1. Introdução
O Rio de Janeiro é o menor estado da Região Sudeste do Brasil,
com pouco mais de 43 milhões de km2, mas chama a atenção, tanto
nacional como internacionalmente, por sua beleza cênica conferida
pelos contrastes existentes entre as áreas elevadas e as planícies
costeiras que contornam seu litoral, além de ilhas que enriquecem
localmente a paisagem. No entanto, esse belo relevo contrastante
também se mostra frágil no que concerne à atuação de processos
erosivos e deposicionais que, paulatinamente, foram intensificados
com o uso inadequado de seu solo e a ausência de uma política
adequada de controle ambiental.
Está localizado no extremo leste do denominado Rift Continental
do Sudeste do Brasil (RCSB) (Riccomini, 1989 e 1995), estendendo-
se da região de serras e de depressões interplanálticas, que
corresponde do vale do rio Paraíba do Sul à região dos maciços
litorâneos, colinas e terrenos quaternários das baixadas de
Guanabara, de Jacarepaguá, de Sepetiba, da Região dos Lagos e
da planície costeira de Campos. Caracteriza-se pelo contraste
significativo das formas de relevo, resultante da complexa evolução
geológico-geomorfológica mesozoico-cenozoica do Sudeste
brasileiro e, ainda, do processo acentuado de alteração da
paisagem resultante das condições do regime climático tropical
úmido.
Dentro da complexa história de evolução geológica, corresponde
ao Mesozoico (230 Ma [milhões de anos] a 65 Ma), o início de um
período de instabilidade tectônica (evento sul-atlantiano ou
reativação wealdeniana), relacionado ao mecanismo de separação
das placas tectônicas sul-americana e africana, e consequente
formação do Oceano Atlântico, gerando um episódio de rifteamento
seguido de contração termal. Na fase rift, tem-se a origem das
serras do SE e das bacias da margem continental brasileira, onde
se inserem os terrenos elevados (serras da Mantiqueira e do Mar) e
as depressões tectônicas do SE brasileiro (vale do rio Paraíba do
Sul, Baía de Guanabara, entre outras) (Asmus e Ferrari, 1978;
Riccomoni, 1989; Macedo et al., 1991).
No que se refere à litologia, o território fluminense caracteriza-se
por apresentar áreas de sedimentos terciários e quaternários, além
de áreas de rochas ígneas e metamórficas pré-cambrianas. As
primeiras podem ser observadas de modo mais expressivo na bacia
de Resende e no litoral, onde se encontram o Grupo Barreiras, a
Formação Macacu e as planícies aluvionares e marinhas. Já as
áreas pré-cambrianas, submetidas a intensas deformações, em
função de eventos tectônicos, e à ação de fatores climáticos atuais e
passados, mostram-se distribuídas. Essas diferentes unidades
litológicas foram retrabalhadas em condições de regime tipicamente
tropical, caracterizado, em linhas gerais, por altas temperaturas e
elevados índices pluviométricos, o que representa elevadas taxas
nos processos pedo-geomorfológicos de alteração da paisagem.
A orografia determina uma série de variedades climáticas, tanto
no que se refere à temperatura quanto à precipitação. Por sua
posição geográfica próxima ao litoral e pelos meses de verão de
intensa radiação solar recebida, têm-se, nessa região, elevados
índices de umidade do ar e de temperatura, o que leva à ocorrência
de chuvas frequentes de distribuição diferenciada, devido, ainda, à
existência de inúmeras elevações altimétricas ao longo de sua costa
(serra do Mar e maciços costeiros), que contribuem para eventos
pluviométricos de elevada magnitude. As chuvas são ainda comuns
nos episódios de entradas de frente fria de origem polar, que, ao
encontrarem as altas temperaturas e a umidade, resultam em
eventos pluviométricos de dimensões consideráveis, gerando à população desagradáveis transtornos com a ocorrência de
movimentos gravitacionais de massa e enchentes.
Na região litorânea e nas serras adjacentes, há um
comportamento semelhante com pequenas variações, de acordo
com o posicionamento geográfico: municípios localizados nas
baixadas costeiras, no sopé ou na baixa encosta da serra do Mar e
no reverso da serra do Mar. As amplitudes médias de variação
térmica parecem ser ligeiramente maiores somente nas estações
que se situam no reverso da serra do Mar, ou seja, mais
interioranas, permanecendo com valores bem próximos para áreas
localizadas nas baixadas e sopés de elevações (variando acima de
22ºC, nos meses de verão, a aproximadamente 20ºC nos meses de
inverno). Apenas nas áreas que se encontram em altitudes
relativamente elevadas (Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo) é
que se observa uma queda geral dos valores das normais térmicas
(20ºC nos meses de verão e cerca de 15ºC no inverno).
Em relação à distribuição pluviométrica anual, há também uma
estação seca bem delineada nos meses de inverno. A baixada
caracteriza-se por precipitações médias anuais inferiores a 1.500
mm. No entanto, os municípios localizados no topo da serra do Mar,
como Teresópolis e Nova Friburgo, são os que apresentam totais de
precipitação bem mais elevados durante os meses de verão e os
totais anuais mais elevados: valores médios superiores a 2.000
mm/ano. Ressalta-se, ainda, que os índices pluviométricos mais
elevados, tanto no verão quanto no inverno, recaem sobre as
localidades do sopé ou encosta inferior da serra do Mar,
ultrapassando 60 mm mensais nos meses de inverno.
Após esta breve contextualização do estado, neste capítulo
procuramos discutir os principais fatos históricos que envolveram a
formação e a evolução das formas de relevo, assim como aqueles
ligados à ocupação de seus terrenos e que, de uma forma ou de
outra, facilitam (ou facilitaram) ou apresentam (ou apresentaram)
restrições em função dos recursos naturais existentes e que, por
outro lado, podem estar associados a problemas ambientais –
alguns deles prolongados ou implicados com questões ainda
presentes na atualidade.
2. Origem dos contrastes das feições
de relevo no estado do Rio de Janeiro
O estado do Rio de Janeiro, portanto, caracteriza-se pela
presença de extensas planícies flúvio-marinhas, também
conhecidas como baixadas, que bordejam a costa e se situam
pouco acima do nível do mar, apresentando-se, em grande parte,
embrejadas e entremeadas por lagoas, além da ocorrência de
feições arredondadas e convexas correspondentes a colinas suaves
isoladas e morros, que chegam a atingir 200 m de altitude (Figura
1). À medida que nos aproximamos dos contrafortes da serra do
Mar, esses morros se tornam cada vez mais numerosos, com vales
mais estreitos entre eles, o que demonstra o intenso processo de
dissecação da escarpa serrana (Figura 2).
Figura 1. Mapa das feições de relevo do Rio de Janeiro. 1 –
Paraty; 2 – Angra dos Reis; 3 – Itatiaia; 4 – Barra Mansa; 5 – Volta
Redonda; 6 – Nova Iguaçu; 7 – Niterói; 8 – Maricá; 9 – Itaboraí; 10 –
Araruama; 11 – Três Rios; 12 – Petrópolis; 13 – Cachoeiras de
Macacu; 14 – Miracema; 15 – Campos de Goytacazes; 16 – Santa
Maria Madalena; 17 – Conceição de Macabu; 18 – Macaé; 19 – Rio
de Janeiro.
Fonte: Modificado de Silva (2002).
Figura 2. Imagem demonstrando as feições morfológicas típicas
do entorno do estado do Rio de Janeiro: em primeiro plano, as
planícies flúvio-marinhas da bacia do rio Guapi-Macacu e as feições
de colinas e morros que vão se intensificando à medida que se
aproximam da serra do Mar.
Foto: T. M. Silva (agosto de 2010).
Ainda ao longo da costa, encontram-se os maciços costeiros,
correspondentes a elevações isoladas e paralelas, com altitudes
entre 500 e 1.000 m. No segmento a leste da Baía de Guanabara,
estão as serras da Tiririca, com elevações entre 200 e 410 m, e do
Sambé, com altitude máxima de 610 m; no segmento a oeste,
encontram-se os maciços de dimensões e formas mais imponentes
conhecidos como Gericinó-Mendanha (974 m), Pedra Branca (1.024
m) e Tijuca (1.021 m), estes últimos mais próximos à costa (Figura
3).
Figura 3. Mapa com maciços costeiros e baixadas nos arredores
da Baía de Guanabara. Maciços Costeiros: Tijuca; 2) Pedra Branca;
3) Suruí; 4) Região dos Lagos. Maciços Alcalinos: 5) Mendanha; 6)
Tinguá; 7) Itaúna; 8) Tanguá-Rio Bonito. A) Forte de São João; B)
Forte de Santa Cruz.
Fonte: Modificado de Silva (2002).
Alguns morros menores isolados são encontrados na região
metropolitana do Rio de Janeiro e representam um grande atrativo
para a atividade turística, como os morros do Leme, Urubus,
Babilônia, Cara de Cão, Viúva, Outeiro da Glória, Pão de Açúcar,
entre outros, que moldam o relevo no entorno das águas da Baía de
Guanabara e tanto contribuem para a beleza cênica da cidade.
Muitos desses morros mergulham diretamente no mar, formando
costões abruptos interrompidos por fraturas e diáclases, que são
continuamente retrabalhadas pela ação das ondas e fornecem um
aspecto ímpar à cidade, conhecida como maravilhosa, devido ao cenário geomorfológico esculpido por milhares de anos (Fernandes
et al., 2010).
Figura 4. Fotografia panorâmica que destaca a Baía de
Guanabara e as feições de morros e maciços no entorno.
Foto: T. M. Silva (outubro de 2006).
A majestosa feição da serra do Mar, que isola a baixada flúvio-
marinha do planalto interior (Figura 1), atinge altitude de 2.316 m, e
tem como seu ponto culminante o Pico Maior dos Três Picos,
localizado na divisa dos municípios de Teresópolis e Nova Friburgo.
Essa escarpa serrana é cortada por uma notável rede de drenagem,
que desce torrencialmente pelas encostas rochosas, onde se
formam corredeiras e cachoeiras cercadas por uma mata densa e
exuberante e que tanto encantam os visitantes.
Essas características gerais do relevo fluminense são fruto de
uma história geológica peculiar, pois, apesar de sabermos que nas
áreas de choque entre as placas tectônicas é que encontramos as
grandes cadeias de montanhas, como a Cadeia Andina, a Cadeia do Himalaia, entre outras, a ocorrência da serra do Mar e dos
maciços litorâneos no estado do Rio de Janeiro (fora de uma área
previsível para formação montanhosa) provoca a curiosidade de
pesquisadores e visitantes, principalmente entre os geólogos
(Ferrari, 2012). Além disso, as formas do estado do Rio de Janeiro
correspondem a um relevo relativamente jovem, modelado em um
terreno geológico muito antigo, ou seja, as rochas que sustentam
esse relevo são quase quinhentos milhões de anos (Ma) mais
antigas do que as formas de relevo impressas na paisagem,
demonstrando que há episódios geológicos distintos que explicam
essa morfologia.
A Figura 5 se refere a um mapa simplificado dos dois domínios
geológicos que predominam no estado do Rio de Janeiro: o das
rochas cristalinas, que cobrem cerca de 80% de seu território, e o
dos sedimentos que preenchem as áreas deprimidas das bacias de
drenagem e/ou sedimentos litorâneos distribuídos ao longo de toda
a costa. As rochas cristalinas são, predominantemente, compostas
por gnaisses e granitos gerados entre 790 a 480 Ma, em processos
colisionais das placas litosféricas durante a formação do
supercontinente Gondwana, de idade entre o Neoproterozoico e o
Paleozoico Inferior (Heilbron et al., 2008; Tupinambá et al., 2012).
Figura 5. Os grandes domínios geológicos do estado do Rio de
Janeiro: o domínio de rochas cristalinas corresponde aos terrenos
pré-cambrianos, enquanto o domínio dos sedimentos é
representado pelos terrenos terciários e quaternários.
Fonte: Modificado de DRM, 2006.
Outro episódio geológico importante diz respeito à intrusão no
embasamento cristalino por um enxame de diques básicos que
precederam a quebra do Gondwana e a abertura do Oceano
Atlântico Sul durante o Cretáceo Inferior (127 a 130 Ma). No
Paleógeno, por sua vez, um regime distensivo desenvolveu
importante falhamento em blocos, os quais, associados ao
magmatismo alcalino, de idade entre 70 e 50 Ma e caráter raso,
estão registrados nos corpos subvulcânicos e intrusivos que se
destacam na paisagem, como os maciços do Mendanha, Tinguá,
Itaúna e Tanguá-Rio Bonito. Esse regime distensivo também deu
origem à feição tectono-estrutural do Gráben da Guanabara, que
pode ser identificada pela orientação ENE-WSW da baía, e aos depósitos cenozoicos, que correspondem às feições de planícies
flúvio-marinhas mapeadas na Figura 1.
Asmus e Ferrari (1978) interpretam a estruturação do relevo na
região que compreende uma estreita faixa, de 50 a 100 km de
largura e com cerca de 1.000 km de comprimento, entre a cidade de
Florianópolis (SC) e o médio vale do rio Paraíba do Sul, como
resultado de falhamentos normais, com até 3.000 m de rejeito
vertical, ao longo de linhas de fraqueza pré-cambrianas, as quais,
entre o Paleoceno e o Plioceno, deram lugar ao deslizamento
gravitacional de blocos, atualmente expressos por escarpas de linha
de falha (serra do Mar, serra da Mantiqueira e maciço Carioca) e,
entre estas, por semigrábens (vale do rio Paraíba do Sul e Baixada
Fluminense) (Figura 6).
Figura 6. Perfil geológico esquemático, sem escala, transversal à
área afetada pelo tectonismo cenozoico, ressaltando o caráter
escalonado dos falhamentos e o basculamento dos blocos de relevo
resultantes da serra da Mantiqueira aos maciços litorâneos (A – A’).
Fonte: Asmus e Ferrari (1978). K – sedimentos cretáceos, T –
sedimentos terciários.
Macedo et al. (1991) assinalam que a Região Sudeste foi – e
talvez ainda seja – palco de intensa atividade tectônica durante o
cenozoico. A disposição de falhas reativadas profundas, bacias,
montanhas, vulcanismo e sismos recentes sugere um complexo de
falhas normais/transcorrentes, seguindo subparalelamente à linha
de costa do estado do Rio de Janeiro. Todos os autores consultados
concordam que o tectonismo cenozoico no Sudeste do Brasil,
embora residual, foi e continua a ser fundamental para o
entendimento da evolução da paisagem no que diz respeito às
mudanças na topografia e nos sistemas de drenagem, divergindo
apenas quanto à intensidade dessas mudanças.
Os contrastes litológicos presentes condicionam uma intensa
erosão diferencial, com as escarpas mais expressivas sendo
suportadas por rochas granitoides, gnáissicas e quartzíticas. Os
exemplos mais notáveis seriam as escarpas da Mantiqueira, dos
Órgãos e da Bocaina; as intrusões alcalinas também são
responsáveis por acentuados desníveis, como os de Itatiaia, Passa
Quatro, Tinguá e Rio Bonito.
Nesse contexto, tanto o meio geológico quanto o geomorfológico
estão associados a fontes de riquezas minerais, das águas, dos
solos férteis, dando origem também a relevos de altitudes distintas e
vales. Representam, assim, a base da cultura humana, atuando
como suporte físico (substrato) para o desenvolvimento e
fornecendo material para sua subsistência (Schmitt et al., 2004).
Dessa forma, no próximo tópico, exemplificamos de que forma
essas características físico-ambientais do Rio de Janeiro
permearam a formação e a organização das atividades
socioeconômicas desenvolvidas.
3. Os condicionantes do relevo e o
histórico de uso e ocupação do Rio
de Janeiro
O reconhecimento das características do relevo permite identificar
os fatores favoráveis ou desfavoráveis à ocupação, as limitações e
as possibilidades de uso dos solos, bem como a suscetibilidade
potencial à erosão, revelando-se, portanto, essencial para a
definição das áreas de preservação e de indicação de uso restrito e
de ocupação urbana e/ou agrícola (Silva, 2009). Dessa forma, a
paisagem do estado do Rio de Janeiro não pode ser considerada
estática, representando personagem ativa e testemunhal de
acontecimentos e intervenções ocorridos ao longo dos séculos de
ocupação (Pinheiro, 2005).
No breve histórico acerca da ocupação e do uso dos recursos
naturais do estado do Rio de Janeiro, debatemos a importância das características geológico-morfológicas em seu desenvolvimento,
bem como nos entraves resultantes do uso inadequado dos
recursos existentes.
Quando as naus comandadas por Américo Vespúcio cruzaram a
barra do Rio de Janeiro, em 1º. de janeiro de 1502, desvendaram ao
mundo um dos mais belos cenários da face da Terra, a Baía de
Guanabara, envolto por pontais, enseadas, praias e uma exuberante
mata tropical (Amador, 2012). No entanto, essa área já apresentava
vestígios mais remotos da ocupação humana. A partir da
investigação sobre os sambaquis, foram encontrados, ao longo da
faixa litorânea, em pontos estratégicos do antigo estuário, bem
como nas proximidades das lagunas, canais fluviais, manguezais,
restingas e florestas, locais em que havia disponibilidade de água
potável. Essa forma de ocupação está associada a uma fase de
modificações ambientais com crescimento expressivo dos recursos
marinhos, chamada de “ótimo climático”, ocorrido entre 6.000 e
5.000 anos A.P. (Antes do Presente), quando se registrou
a elevação da temperatura e do nível do mar. Por sua vez, por
volta de 3.000 anos A.P., a diminuição dos recursos marinhos típicos
da formação dos sambaquis foi compensada na dieta alimentar pela
coleta de vegetais, caça a pequenos animais e pesca (Amador,
1992).
Esses assentamentos litorâneos datados até cerca de 1.000 anos
A.P. representam importantes marcadores das variações do nível do
mar em tempos pretéritos, pois alguns sambaquis foram
encontrados até cerca de 5 km da linha de costa da baía da
Guanabara, atribuindo-se a mudança da localização a eventos de
transgressão marinha, em que faixas ecológicas foram empurradas
terra adentro e os afloramentos rochosos tornaram-se ilhas, com a
ocupação humana refugiando-se nesses pontos topograficamente
mais elevados. Durante os eventos de regressão marinha
quaternária, os indígenas reocuparam antigos habitats,
recolonizando mangues secos ou dunas fixas (Prous, 1992). Assim,
fazendo nossas as palavras de Serra e Serra (2012), é possível
considerar que essa população pré-histórica manteve relação de
uso bastante harmônica com os terrenos e os recursos naturais
existentes.
Já com o início da ocupação portuguesa, em 1565, houve as
primeiras intervenções locais, com a criação de um núcleo urbano
que buscou favorecer a definição dos direitos de propriedade da
terra e dos recursos naturais encontrados, bem como garantir a
segurança da colônia em relação a possíveis invasores. A escolha
pelo Rio de Janeiro vinculou-se à importância da conformação de
seu sítio para a proteção de ataques inimigos e à possibilidade de
estabelecer fortificações em locais como a entrada da baía e ao
longo dos rios.
Durante o período colonial, morros e costões rochosos
ofereceram, portanto, um frente bastante eficiente de defesa natural
para esquadras que se abrigavam das tempestades, funcionando
também como proteção para eventuais inimigos no interior da baía
(Pinheiro, 2005). Algumas dessas fortificações ainda podem ser
encontradas nos arredores da Baía de Guanabara, como as
apresentadas na Figura 7.
Figura 7. A. Forte da Laje e parte do Forte de São João ao fundo,
localizado no bairro da Urca; B. Detalhe do forte da Laje.
Fotos: T. M. Silva, jun. 2010.
Nos anos seguintes, houve intervenção direta dos portugueses
sobre a cobertura florestal do Rio, com a extração praticamente total
da Mata Atlântica, em função do escambo de pau-brasil com os
indígenas. Essa atividade extrativa se prolongou até o século XIX,
destruindo vastas extensões florestais e, dessa forma, levando à
erosão dos solos e à perda de mananciais de água, principalmente aquelas existentes nos maciços litorâneos que abasteciam a
população na época colonial.
O século XVII foi marcado pelas experiências agrícolas vinculadas
à produção de cana-de-açúcar e a seus engenhos, que marcaram
principalmente a região do Norte fluminense, onde foram
aproveitados os terrenos suaves (que caracterizam o topo das
feições de tabuleiros costeiros desenvolvidos em sedimentos da
Idade Terciária – Formação Barreiras), local com um regime
climático de estações bem demarcadas. Esses aspectos físico-
ambientais são os mais adequados a esse cultivo extremamente
rigoroso, que demanda terrenos planos ou ligeiramente inclinados,
solos férteis e não sujeitos a encharcamentos, e que apresente um
período seco que esteja diretamente relacionado à maturação ideal
do cultivo. Nessa área do estado, é possível ainda encontrar
representantes das fazendas dos antigos barões do açúcar e de
algumas usinas. Já na área metropolitana do Rio de Janeiro, a
cana-de-açúcar também foi introduzida nas áreas das baixadas de
Sepetiba (por exemplo, bairro de Santa Cruz) e da Baía de
Guanabara (por exemplo, bairro de Bangu), onde houve grandes
transformações nesse período. No entanto, atualmente, poucos são
os vestígios encontrados nesses terrenos que correspondem à área
urbanizada do extremo oeste da RMRJ.
No século XVII, também houve penetração agropastoril, que
exigia vastas extensões de terra e levou ao desmatamento e às
queimadas das áreas de baixadas pela mão de obra escrava de
negros ou indígenas, gerando, consequentemente, acentuada perda
da biodiversidade local, além de haver redução do número e do
volume dos cursos fluviais, erosão e perda de fertilidade dos solos,
bem como assoreamento das lâminas d’água (rios, lagoas e brejos)
(Serra e Serra, 2012). Mas, com a descoberta das reservas
auríferas das Minas Gerais, houve uma reorganização do
povoamento fluminense, e a exploração de ouro influenciou, de
forma indireta, a ocupação do território. O escoamento da produção,
que descia do planalto das Minas Gerais (em lombos de burros),
rumava até Paraty, pelo então denominado “Caminho Velho”, e daí
pelo mar até o porto do Rio de Janeiro. Desse período em diante, o Rio de Janeiro tornou-se o principal porto e a cidade mais ativa do
país.
A atividade aurífera contribuiu para o surgimento de vilas que
serviam de passagem pelo interior, em localidades nas quais os
vales fluviais se abriam, com a formação de alvéolos que permitiam
a ocupação, como ocorreu com a fundação e o crescimento dos
municípios de Vassouras, Paraíba do Sul e Paty do Alferes, entre
outros. Toda essa gama de atividades levou a Coroa a valorizar os
terrenos do estado do Rio de Janeiro, o que culminou com a
transferência da sede do governo colonial de Salvador para o Rio de
Janeiro em 1763. Isso a transformou na cidade mais importante da
colônia, e seu porto, no mais dinâmico de todos os existentes no
litoral. Assim, a área correspondente ao que hoje se chama Região
Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) desempenhou papel de
destaque, por ser a sede da capital do Brasil entre 1763 a 1960,
sendo a mais populosa do país por quase todo esse período (Abreu,
2006).
No entanto, em fins do século XVIII, com a redução da produção
aurífera, boa parte da população que vivia na cidade se viu
praticamente obrigada a buscar alternativas para sua sobrevivência,
sendo a atividade agropastoril reafirmada como aquela que oferecia
melhores e maiores condições para o desenvolvimento do Rio de
Janeiro. Mas, à medida que o Império se consolidava, surgia um
novo produto-rei na economia fluminense: o café. Essa nova cultura
de base exportadora iniciou seu trajeto na cidade do Rio de Janeiro,
mais precisamente no maciço Carioca, nas encostas íngremes das
vertentes voltadas para Jacarepaguá, além de ser introduzida nos
maciços da Pedra Branca e do Gericinó-Mendanha. Nas encostas
íngremes do maciço da Tijuca, esse cultivo acabou por quase
destruir os mananciais hídricos que abasteciam a cidade, razão pela
qual o governo imperial desapropriou sítios e fazendas para
reflorestar a região. Essa área corresponde, na atualidade, à maior
floresta urbana do mundo, o Parque Nacional da Tijuca.
Desse modo, com a restrição de plantio na capital federal, o café
se expandiu para os terrenos do planalto, em diferentes municípios
do território fluminense. Nesse período, houve uma das maiores
expressões cafeeiras da antiga província, com o café atingindo “São João Marcos” (parte do atual município de Rio Claro), Piraí e
Resende, até alcançar o vale do Paraíba, em seu trecho médio.
Assim, no Médio Paraíba fluminense, o café teve seu plantio
expandido em várias direções e foi cultivado desde o norte, em
Entre Rios (atual município de Três Rios), seguindo por Nova
Friburgo e Cantagalo, na Região Serrana, até Itaocara e São Fidélis.
No entanto, no estado do Rio de Janeiro, a produtividade do café
não obteve o resultado esperado, mais uma vez devido à elevada
declividade dos terrenos e dos solos, mineralogicamente pobres,
levando a intensos processos de erosão e perda do solo. Além
disso, também o regime climático impróprio foi decisido, pois,
dependendo da espécie de cultivo, o café só se desenvolve bem em
áreas que apresentem uma média de temperatura entre 18ºC e 24
ºC. Temperaturas muito baixas, mesmo que por poucos dias por
ano, não são aceitáveis. E o regime de chuvas ideal é aquele com
chuvas bem distribuídas durante todo o ano e com uma precipitação
total entre 600 mm e 1.500 mm/ano – características que não são
encontradas no território fluminense. No entanto, mesmo com todos
esses empecilhos naturais, as áreas de cafezais viveram um
período áureo de produtividade e grande riqueza, com imponentes
sedes das fazendas e instalações de beneficiamento do produto
ocupando os segmentos dos fundos dos vales. Muitas dessas
instalações, principalmente aquelas do Médio Paraíba, foram
resgatadas pela atividade turística nas últimas décadas, procurando-
se manter vivo esse período econômico áureo do estado.
Ressalta-se ainda que esse sítio, como, por exemplo, o da RMRJ,
que tanto favoreceu a instalação de fortalezas que protegiam o
território brasileiro, viria a ser um grande balizador para o
desenvolvimento urbano da cidade. Segundo Abreu (2006), essa
mesma característica que confere à cidade uma paisagem bela e
única também causou diversos problemas, não somente pela falta
de espaço, mas também pela ocupação de áreas impróprias, como
encostas de morros e fundos de vale alagadiços, gerando a
constante necessidade de gerenciamento para não desencadear
eventuais processos de degradação ambiental.
Dessa forma, houve necessidade de aterrar extensas áreas nesse
trecho do estado, levando-se em conta a inexistência de terrenos para a expansão do sítio urbano. A abertura de espaços revelou-se
de primordial importância para o desenvolvimento da cidade,
efetuando-se, assim, várias modificações na paisagem natural, ou
seja, alterações diretas sobre o relevo da cidade, como, por
exemplo, o desmonte de morros e o aterro de diversas áreas, com
vistas ao crescimento urbano.
As modificações urbanas ocorridas na cidade do Rio de Janeiro
tiveram, em sua maior parte, origem nas reformas urbanas. Um dos
melhores exemplos foi o desmonte do morro do Castelo, que teve
grande significado histórico, pois foi a área escolhida pelos
portugueses, logo após a expulsão definitiva dos franceses, que
dominavam a Guanabara, para a construção das primeiras casas e
fortificações definitivas da cidade (Figura 7). No entanto, com o
passar do tempo, os bairros do Castelo e da Misericórdia, situados
na área do morro, tornaram-se sinônimo de insalubridade e doença,
e esses foram os principais motivos de sua destruição.
Tal modificação da paisagem urbana pode ser vista ainda como
uma das mais significativas, decorrente dos ideais sanitaristas que
alteraram a feição urbana da cidade desde a reforma Pereira
Passos, embora tenha ocorrido de fato durante a reforma Carlos
Sampaio. Isso porque as reformas empreendidas pela
administração do prefeito Carlos Sampaio no Rio de Janeiro (1920-
1922) estavam ligadas não somente à sanitarização da cidade, mas
também à tentativa de embelezá-la para os festejos de
comemoração dos cem anos de independência do Brasil (Abreu,
2006).
Figura 8. Morro do Castelo ainda com sua ocupação original, em
1914.
Fonte: http://zrak7.ifrance.com/castello-morro.jpg.
Assim, com o desmonte do Morro do Castelo, pretendia-se dar
uma nova funcionalidade à sua área central, que, nesse período, já
apresentava significativa importância na política e na economia
nacional, de modo que representasse a paisagem-símbolo de uma
nação emergente e contemporânea. Em novembro de 1920, então,
teve início o desmonte do morro do Castelo, e parte do rejeito foi
aproveitada para o aterro da Praça Mauá, do Cais do Porto e da
avenida Rodrigues Alves. Além disso, nesse mesmo período, a
cidade ainda era a capital do Brasil e, para um país que queria
mostrar ao mundo seu crescimento econômico, uma paisagem
caracterizada como um centro velho e insalubre não era desejável;
ao contrário, requeria-se a abertura de áreas para a instalação de
largas avenidas e prédios mais novos, sendo, portanto, necessária a
mudança na conformação da paisagem do centro da cidade.
Desse modo, com o desmonte do morro (Figuras 9A e 9B),
tornou-se possível a construção da avenida Presidente Antônio
Carlos (Figura 9C), evento necessário ao desenvolvimento do
transport urbano na cidade, e, com o material do desmonte, foi possível ainda aterrar outras áreas da cidade, inclusive partes da
Lagoa Rodrigo de Freitas.
Figuras 9A e 9B. Desmonte do morro do Castelo, iniciado em
1921. Figura 9C. Avenida Presidente Antônio Carlos e urbanização
da Esplanada do Castelo em 1944.
Fonte: Disponível em
http://www.rioquepassou.com.br/2009/10/16/av-pres-antonio-carlos-
e-ministerios-circa-1944/).
Na área do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, também havia
uma ocupação desordenada em forma de casebres (Figura 10), em
uma área que se encontrava ainda muito pantanosa e insalubre. À
época, os olhos das classes mais favorecidas se voltavam para a
zona Sul da cidade e, como os outros bairros já estavam
basicamente ocupados, sobrou, como áreas livres, esse local onde
a insalubridade era gerada pela existência do pântano. Assim, com o aterro da Lagoa, houve a retirada da população menos favorecida
e o loteamento para a construção de moradias de elevado padrão.
Figura 10. Fotografia da ocupação da Lagoa Rodrigo de Freitas
na década de 1940 e o aspecto pantanoso e insalubre do local.
Fonte: Disponível em http://spiritosanto.wordpress.com/page/9/?
archives-list=1.
A Lagoa Rodrigo de Freitas estava localizada em uma área vista
como importante para a cidade e, nesse caso, diferentemente da
área do morro do Castelo, a importância da paisagem estava
associada à moradia, enquanto a área do morro do Castelo tinha
importância mais ligada à centralidade, aos negócios, ou seja, à
economia nacional. Assim, a paisagem da zona Sul como um todo
passou a ter significado diferenciado, ligado à proximidade do
oceano, que passou a ser visto como um “renovador para a alma”
(Abreu, 2006). Dessa forma, as intervenções antrópicas que
modificaram essas paisagens urbanas, com a atribuição de novos
significados culturais, ocorreram sob duas lógicas parecidas, porém
distintas, no morro. A lógica no morro consistia em adaptar a paisagem às novas funções exigidas pela cidade, enquanto, na
Lagoa, era a criação de uma paisagem com significado positivo,
construindo, assim, uma nova área urbana valorizada.
Outros aterros foram realizados na Região Metropolitana do Rio
de Janeiro e modificaram, de forma significativa, a paisagem natural
da cidade, como foi o caso do Aterro do Flamengo e dos atuais
bairros da Gamboa e da Saúde. O aterro junto aos bairros da
Gamboa e da Saúde revelou-se de grande importância para a
construção do cais do porto do Rio de Janeiro. E, embora a cidade,
durante séculos, tenha tido boa parte de sua morfologia alterada
pelos processos de ocupação e desenvolvimento, ainda hoje o
contraste morfológico, as praias, alguns manguezais e ilhas, que
ainda resistem a todo esse processo de degradação, são atrativos
naturais que continuam a encantar brasileiros e estrangeiros.
4. Fragilidade ambiental
contemporânea no estado do Rio de
Janeiro
Falar de intervenções mais modernas que ocorreram no território
fluminense, como, por exemplo, a rodovia Mário Covas (BR-101), e
de todo padrão de intervenção que altera, principalmente, as
condições hidrológicas sub e superficiais, é fundamental para se
compreenderem a organização espacial e as questões ambientais
contemporâneas. E, para nos aprofundarmos na discussão dessas
intervenções, é necessário trazer para o debate o conceito de
fragilidade ambiental.
Para nós, esse conceito diz respeito à suscetibilidade que o
ambiente apresenta a qualquer tipo de intervenção que gere alguma
forma de dano, que, por suas características de sensibilidade aos
impactos socioambientais adversos, possui baixa resiliência e
pequena capacidade de recuperação. Como exemplo, temos as
intervenções em áreas ambientalmente frágeis, como lagos,
lagunas, encostas de forte declive, restingas e manguezais (Diccionario de la Naturaleza, 1987). Essas intervenções devem ser
muito bem avaliadas quando se pretende aplicá-las em políticas
públicas de planejamento e/ou manejo territorial.
O estado do Rio de Janeiro apresenta características físicas de
extrema fragilidade, quer sejam as relacionadas a seu sítio (ora
terrenos de fortes declives, como as faixas serranas, ora terrenos de
baixíssima declividade, como todas as áreas de baixadas
quaternárias), quer estejam associadas a questões de dinâmica
atmosférica, pois se encontra posicionado em setores de influência
de fatores climáticos extremamentes dinâmicos. Toma-se como
exemplo a forte influência das frentes frias provenientes do Polo Sul
e/ou a influência da faixa de nebulosidade orientada no sentido
noroeste-sudeste, que se estende do sul da Amazônia ao Atlântico
Sul-Central e caracteriza a zona de Convergência do Atlântico Sul
(zCAS), influências que estão diretamente relacionadas aos
inúmeros eventos de enchentes e/ou de movimentos gravitacionais
de massa em diversos setores espaciais do estado.
Trazemos, aqui, alguns exemplos de mecanismos de uso dos
solos, que, somados às características ambientais peculiares do
estado, acabam gerando graves problemas à população.
Temos o exemplo do município de Angra dos Reis, situado em
área litorânea no sul do estado, com uma beleza cênica reconhecida
tanto nacional como internacionalmente. Esse município, contudo,
passou por um processo de ocupação em um sítio com poucas
áreas de baixo declive, avançando rumo às escarpas da serra da
Bocaina (Figura 11). Observa-se que a inexistência de políticas
adequadas à expansão urbana deixou a ocupação fora de controle,
fazendo com que avançasse para áreas impróprias, pressionando
e/ou degradando, dessa forma, a reserva de Mata Atlântica,
característica dessa área. Esse processo ocupacional, ocorrido
entre os anos 1970 e os anos 2000, foi provocado por diversos
fatores, como a presença de estaleiros, da Petrobras, da usina
nuclear, além da atração turística local, que corresponde a
oportunidades de trabalho e, portanto, levou a uma significativa
ocupação populacional, inclusive em áreas de difícil acesso e que
apresentavam sérias questões de fragilidade ambiental. Como
resultado disso, é comum encontrar, no local, canais fluviais que sofrem com o assoreamento de seus leitos, derivado de processos
erosivos nas altas encostas desmatadas, o que, somado a períodos
de estiagem pluviométrica, conduz a problemas de abastecimento
de água, além de degradação causada pela atividade de mineração
ilegal (Figura 12).
Figura 11. Fotografia panorâmica do centro urbano do município
de Angra dos Reis, localizado no sul fluminense.
Foto: S. L. S. Silva (dezembro de 2010).
Figura 12. Fotografia do baixo curso do rio Japuíba, que ilustra
aporte acentuado de carga sedimentar, com a redução significativa
de seu leito fluvial. Observa-se ainda a atividade de extração ilegal
de areia do leito fluvial pela presença de um caminhão coletor desse
recurso mineral na parte inferior da foto.
Foto: S. L. S. Silva (dezembro de 2010).
Ainda nesse município, encontramos ações indevidas do uso
contemporâneo dos recursos naturais, como, por exemplo,
cicatrizes representativas do uso indiscriminado de áreas de
extração de material para construção civil, as quais são
abandonadas sem nenhuma proposta de recuperação ambiental,
como podemos observar na Figura 13A, que apresenta cicatrizes da
área de extração mineral e uma voçoroca de grande extensão em
sua base, bem próxima à rodovia Rio–Santos. Existe ainda outro
exemplo de incoerência de uso, correspondente à construção de um lixão em área de colinas e morros com Mata Atlântica, ao lado de
um canal fluvial (Figura 13B).
Figura 13. A. Área de extração de saibro (produto de alteração de
rochas quartzo-feldspáticas, como granitos e gnaisses) em feição
colinosa nos arredores da rodovia Rio–Santos (município de Angra
dos Reis, RJ); B. Corte em feição de morro para a construção de um
lixão a céu aberto pela prefeitura de Angra dos Reis na bacia do rio
Ariró.
Foto: S. L. S. Silva (dezembro de 2010).
Além desses exemplos, é comum, em episódios de alta
pluviosidade no município, assim como em tantos outros do estado,
haver graves problemas com o desencadeamento de deslizamentos
de encostas e enchentes. Angra dos Reis tem um triste histórico de
inúmeros deslizamentos e quedas de blocos que causaram mortes e
deixaram muitas pessoas desabrigadas, afetando diretamente a
população e a economia local, como, por exemplo, nos eventos de
2002 (129,3 mm) e da virada do ano de 2009 para 2010 (142,9 mm).
No entanto, sempre houve – e sempre haverá – eventos dessa
magnitude em Angra e nas áreas serranas do estado. E os terrenos,
que são naturalmente suscetíveis, por serem extremamente rasos,
em razão do forte declive, somado aos elevados índices
pluviométricos, são fatores primordiais na geração de tais processos
geomorfológicos. No entanto, políticas adequadas e de controle e
manejo do uso do solo poderiam amenizar tais catástrofes.
Em janeiro de 2011, a população da Região Serrana do Rio,
constituída pelos municípios de Itaipava, Petrópolis, Teresópolis e
Nova Friburgo, teve um dos maiores desastres ambientais já
vivenciados, com uma série de eventos de deslizamentos, corridas
de detritos e enchentes. Tudo isso arrasou, quase por completo,
alguns vilarejos, como podemos observar na Figura 14, em que a
imagem nos revela a força do agente de transporte, que foi capaz
de movimentar blocos rochosos de diversos tamanhos, destruindo o
que encontrava pela frente por onde passava, ao longo do eixo do
córrego da Posse, em Petrópolis. Esses eventos, contudo, são
recorrentes, pois ainda é possível observar in situ, nos barrancos
que foram escavados ao longo do antigo leito fluvial, depósitos de
blocos de diversos diâmetros acamados em uma matriz areno-
argilosa, demonstrando que, nessa área, assim como em quase
todas as áreas serranas do estado, esses processos representam
mecanismos naturais de evolução da paisagem.
Os elevados índices pluviométricos, que ocorrem, principalmente,
nos meses de verão, revelam-se o input de energia. No entanto,
dirigentes de órgãos públicos devem estar atentos aos demais
fatores ambientais, como, por exemplo, tipo de solo, conformação
geomorfológica, direção preferencial dos fluxos d’água, entre outras
características do terreno, no momento de colocar em prática as
políticas de uso e manejo, buscando sempre evitar, ou pelo menos
amenizar, as proporções das catástrofes já anunciadas em um sítio
extremamente sensível às fragilidades ambientais.
Figura 14. Imagem da corrida de detritos no vale do córrego da
Posse, município de Petrópolis (RJ), em janeiro de 2011.
Foto: T. M. Silva (maio de 2011).
5. Considerações finais AMADOR, Elmo da Silva. “Baía de Guanabara: um balanço
Por representar uma das mais importantes referências naturais e
culturais do Brasil, o estado do Rio de Janeiro sempre terá
relevância no país, devendo-se sempre manter sua riqueza físico-
ambiental e o bem-estar e a qualidade de vida de seus habitantes
(Silva et al., 2015). Embora, na última década, tenha havido um
prenúncio de recuperação econômica do estado, em função de sua
base industrial expressiva, com a instalação de refinarias de
petróleo, estaleiros, indústrias siderúrgicas, metalúrgicas,
petroquímicas, entre outras, no último ano uma nova crise
econômica se instalou, trazendo muita preocupação no que tange
também aos mecanismos de degradação e poluição ambiental.
Deve-se, contudo, buscar mecanismos capazes de manter a
integridade de uma das áreas mais importantes do país, que
desempenha papel fundamental na externalização de uma imagem
positiva do Brasil no exterior.
Com a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e das
Olimpíadas de 2016 no estado, os olhos do mundo se voltaram para
nosso país e, dessa forma, há grande interesse em seu
desenvolvimento e crescimento sustentável, com vistas a melhorar
uma imagem degradada por longos quinhentos anos de mau uso e
ausência de manejo adequado. Acredita-se, dessa forma, que, se
houver políticas públicas adequadas às condições físico-naturais
peculiares dos terrenos fluminenses e, em consequência, dos
processos erosivo-deposicionais advindos da relação entre tais
características e a entrada de energia no sistema ambiental – que,
em geral, está atrelada aos elevados índices pluviométricos –, será
possível retomar um crescimento econômico que respeite o belo
cenário natural do estado do Rio de Janeiro.
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