Revisitando o Território Fluminense VI
13. Porto do Açu, entre as forças de conservação e modernidade
Porto do Açu, entre as forças
de conservação e modernidade
Wedson Felipe Cabral Pacheco 1
1. Introdução
O estado do Rio de Janeiro é composto por 92 municípios,
distribuídos em oito regiões de governo: Metropolitana, Noroeste
Fluminense, Norte Fluminense, Serrana, Baixadas Litorâneas,
Médio Paraíba, Centro-Sul Fluminense e Costa Verde.
O território fluminense sempre exerceu forte influência no cenário
econômico, político e social do Brasil, influência essa centrada na
Região Metropolitana e, em especial, na cidade do Rio de Janeiro.
Com as transformações em curso em seu cenário, provocadas pela
crescente importância das regiões do interior, cada vez mais o foco
analítico sobre as condições de crescimento do estado se desloca
para as cidades de porte médio e para a interpretação dos
municípios como agentes das políticas públicas (Marafon apud
Piquet, 2010).
O debate contemporâneo em torno do desenvolvimento
econômico do estado de segundo maior Produto Interno Bruto (PIB)
do país se encontra centrado nos investimentos em transporte e
logística, com grandes empreendimentos, como o Complexo
Portuário do Açu (São João da Barra), a Linha 4 do metrô carioca e
o sistema de Transporte Rápido por Ônibus (BRT), além do Arco
Metropolitano que liga o Porto de Itaguaí ao Complexo Petroquímico
do Rio de Janeiro (Comperj), também localizado no município de
Itaboraí. Esses empreendimentos reforçam a importância logística
do Rio de Janeiro nacional e internacionalmente.
O interior fluminense, notadamente, surgiu como protagonista de
um processo de crescimento em força, com exemplos de impacto: os das atividades da indústria petrolífera; o crescimento urbano nas
Baixadas Litorâneas; o desenvolvimento da indústria automobilística
no Centro-Sul do estado e; também no Norte Fluminense, a
implantação do Complexo Logístico e Industrial do Porto do Açu
(Clipa), que é um empreendimento porto-indústria, o foco deste
trabalho.
Assim, este artigo analisa a construção de um porto privado no
município de São João da Barra, litoral norte do estado do Rio de
Janeiro: o Porto do Açu. Este trabalho está inserido nas pesquisas
do Núcleo de Estudos de Geografia Fluminense (Negef), que estuda
as importantes transformações acerca da realidade socioespacial do
estado do Rio de Janeiro. Sobre a temática, segundo Alvarenga
(2013, p. 3), os abundantes investimentos, as grandes promessas
de desenvolvimento e o clamor de urgência de crescimento
econômico acabaram por ser usados como armas para a
legitimação de tudo o que pudesse estar associado a “progresso”.
Segundo o autor, também não foram poucas as vezes em que
houve ações que poderiam ser consideradas desrespeitosas no que
diz respeito aos direitos das comunidades que viviam nas áreas do
5º Distrito de São João da Barra, que foram desapropriadas pelo
governo do estado do Rio de Janeiro para a construção do Distrito
Industrial de São João da Barra (DISJB).
Os grandes projetos continuam a ser portadores de alto potencial
de organização e transformação dos territórios, bem como de
decompor e compor regiões. Por sua natureza, projetam sobre os
espaços locais e regionais interesses nacionais e quase sempre
globais, o que faz deles eventos globais-locais (Vainer, 2007).
É certo que a implantação de um megaempreendimento provoca
metamorfoses rápidas e radicais na organização do território,
acarretando aumento das desigualdades entre campo-cidade, bem
como mudança na hierarquia urbana regional e no plano
intraurbano. O aparecimento de áreas residenciais e de consumo de
alto padrão social, ao lado da expansão dos bolsões de pobreza
urbana, marca o descompasso entre os espaços dos trabalhadores
inseridos no empreendimento – o que lhes garante emprego
assalariado, renda acima da média, equipamentos e serviços
urbanos de qualidade – e os espaços das populações que nele não conseguem ocupação. Como esses empreendimentos são tidos
como capazes de desencadear “desenvolvimento”, transformam-se
em objeto de disputa entre regiões e/ou municípios e, desse modo,
no lugar da adoção de parâmetros quanto ao seu funcionamento, o
que, em geral, ocorre são concessões do poder público,
enfraquecendo ainda mais os cofres municipais (Marafon apud
Piquet, 2010).
Assim, por não surgirem do processo de desenvolvimento
regional, não expressam as forças políticas, sociais e econômicas
endógenas. Nesse sentido, para Piquet (apud Marafon, 2010),
tendem romper as relações econômicas e sociais que conformam
antigas regionalizações, substituindo-as por outras construídas a
partir deles. Segundo a autora, por ocorrer uma ligação das
atividades-chave da economia do país e/ou internacional, seus
administradores reportam-se diretamente às instâncias supralocais,
deslocando para um plano subalterno as instâncias locais, que
tendem a perder o controle político e administrativo. As pequenas e
médias municipalidades e os próprios governos estaduais têm
limitada capacidade de barganha, pois são parceiros de pequena
monta frente aos grupos empresariais que manejam esses grandes
projetos de investimentos.
O caso em análise não foge a esses condicionantes, e os efeitos
não se limitam e/ou limitarão ao município de São João da Barra. A
título de exemplo, no território sanjoanense o rápido processo de
licenciamento ambiental para a instalação das diferentes unidades
que deveriam compor o Clipa, bem como a disponibilização de
forças policiais para cumprir os mandados de desapropriação de
terras, foram possibilitados pela promulgação de quatro decretos
pelo governo do Rio de Janeiro, no sentido de viabilizar a
construção do DISJB e do denominado Corredor Logístico do Açu
(CLA).
Em função da combinação de flexibilização da legislação com uso
de força policial contra centenas de famílias de agricultores
familiares, houve um inevitável aumento de tensões e conflitos, que
passaram a inspirar uma série de questionamentos sobre qual
modelo de desenvolvimento o Clipa representa e quais
consequências sua construção pode gerar para as comunidades por ele impactadas. Nesse contexto, o Porto do Açu, além de ser um
agente da reestruturação espacial, é responsável pela
reorganização territorial do município de São João da Barra. As
perspectivas de uma explosão demográfica acarretarão um
irreversível processo de expansão urbana (Carvalho et al., 2010).
A metodologia adotada neste trabalho apresenta níveis
exploratório e descritivo.
Enquadra-se no nível exploratório porque visa proporcionar maior
familiaridade com o problema proposto, por meio do aprimoramento
de ideias e descoberta de intuições, apresentando um planejamento
bastante flexível, de modo a possibilitar que diversos aspectos
relativos ao fato proposto sejam levados em consideração.
É descritiva porque envolve a descrição das características de um
fenômeno em processo de construção, recorrendo à coleta de
dados e ao trabalho de campo, bem como relacionando as diversas
variáveis identificadas. Ainda de acordo com Gil (2002, p. 10), “as
pesquisas descritivas são, juntamente com as exploratórias, as que
habitualmente realizam os pesquisadores sociais preocupados com
a atuação prática”.
O objetivo central que norteia este estudo é verificar como, na
prática, se desdobra a relação entre o discurso oficial em torno
desse megaempreendimento – que o apresenta como solução para
os problemas de estagnação econômica da região Norte
Fluminense – e a execução dos mecanismos de desapropriação e
reassentamento utilizados pelo governo do estado do Rio de
Janeiro.
Diante dessas expectativas e da metamorfose territorial ocorrida
em São João da Barra, formulam-se as seguintes questões: como
controlar o comportamento de uma grandiosa corporação com
altíssimo poder econômico? O que levou São João da Barra a ser
escolhido para locação desse empreendimento? Os mecanismos
adotados pelo Estado para reparar o impacto sobre a população
que, tradicionalmente, habita o 5º Distrito de São João da Barra
levam em conta o ponto de vista e a necessidade dos atingidos?
2. O território de São João da Barra:
passado e presente no contexto do
Norte Fluminense
São João da Barra é um município localizado na Região Norte do
estado do Rio de Janeiro (Figura 1). Tem uma área de 455,04 km² e
uma população de 32.747 habitantes, segundo dados do Censo
2010 (IBGE, 2010). Suas principais atividades econômicas são:
turismo, agropecuária, olericultura, fruticultura ativa, artesanato e
pesca, porém boa parte da arrecadação municipal provém do
repasse de royalties do petróleo (Souza, 2010).
Figura 1. Cartograma com a localização do município de São
João da Barra-RJ
Fonte: Elaborado pelo autor.
Implantado pela holding EBX (do grupo de Eike Batista), o
Complexo Logístico Industrial do Porto do Açu (Clipa) é considerado
um porto concentrador de cargas, tendo sido projetado dentro da nova tipologia portuária denominada MIDAs (Maritime Industrial
Development Areas), pois, na área contígua ao porto, estará um
distrito industrial. Quando o complexo portuário foi divulgado, visava
construir um terminal portuário de uso misto, composto por berços
de atracação de navios, embarcações de apoio à exploração de
petróleo e píer off-shore.
No distrito industrial, há previsão para a instalação de um
complexo siderúrgico, usina termelétrica, polo metalmecânico,
plantas de pelotização de minério, áreas para armazenamento de
granéis líquidos e processamento de petróleo, além de uma unidade
de construção naval (Coutinho, 2009).
O estudo dessa temática se justifica pela polêmica instaurada
com o início da construção do Complexo Logístico Industrial do
Porto do Açu (Clipa) no município de São João da Barra/RJ, desde
o seu processo de licenciamento. Outrora marcada pela
agroindústria açucareira, o território sanjoanense viu-se diante de
uma nova oportunidade para alavancar seu crescimento. Assim,
embasado nas mudanças mundiais, no surgimento de novas
demandas por commodities e na favorável conjuntura político-
econômica nacional, o governo do estado do Rio de Janeiro realizou
os investimentos necessários para viabilizar o porto no Açu. Os
entes privados (as empresas) e os públicos (o governo local e
estadual) agiram juntos e de forma coesa para a implantação desse
empreendimento.
Atualmente, a construção do complexo exerce forte pressão sobre
os serviços ambientais e a população local, provocando modificação
e impacto significativo no entorno. Compreender as expectativas
dos agentes locais nesse contexto requer o devido
acompanhamento a ser realizado pelos pesquisadores, o que
justifica a presente pesquisa.
A história mundial comprova que os portos são elementos cruciais
para o sistema econômico-comercial das nações, e seu
desenvolvimento está intimamente ligado ao próprio
desenvolvimento humano, sendo seus efeitos multiplicadores
disseminados por todos os demais setores da economia (Santana
Neto, 2005). As últimas décadas do século XX e o início do presente
século foram marcados por profundas mudanças no processo produtivo. O processo de globalização traz consigo novas
exigências logísticas e organizacionais, razão pela qual também a
atividade portuária adquire nova importância no cenário global. E, no
que diz respeito ao Complexo Logístico e Industrial do Porto do Açu,
quais são os impactos positivos e negativos decorrentes dessa
implantação portuária?
Barra do Açu, Vila do Açu ou, simplesmente, Açu já sofre grande
pressão devido à proximidade com as atividades diretas do Clipa, e
está geograficamente inserida em um território conflituoso, entre a
zona industrial, a zona rural e a zona de proteção ambiental. Com
aproximadamente 1.500 habitantes, localiza-se no litoral do
município de São João da Barra e está a aproximadamente
cinquenta quilômetros da sede de Campos dos Goytacazes.
Nosso foco de estudo é a influência do Porto do Açu nas
metamorfoses ocorridas no uso da terra, bem como as mudanças
territoriais havidas no município de São João da Barra. Discutem-se
as peculiaridades do modelo de desenvolvimento ensejado pela
instalação do Clipa em relação às suas consequências para as
populações que mais recebem seus ônus, ressaltando-se a relação
entre os diferentes interesses envolvidos em sua construção e os
indivíduos e comunidades que foram desalojados.
Não há como escapar da discussão sobre as relações de poder
no território sanjoanense. No entanto, diante dos fortes
encadeamentos que os investimentos previstos provocarão em São
João da Barra e na Região Norte Fluminense em geral, levando a
um elevado número de empregos diretos e indiretos e de receitas
aos cofres públicos, o local tem muito a ganhar.
O município de São João da Barra está inserido numa região
caracterizada por uma economia pauperizada, resultante de sua
base de economia agropecuária pouco produtiva e de uma indústria
agroaçucareira em crise constante. Recentemente, tornou-se
dependente do repasse dos royalties do petróleo, que chegaram a
contribuir com mais de 50% de toda a receita do município. Até os
anos 1970, no Norte Fluminense predominava a agroindústria do
açúcar. Com a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) –
política adotada pelo governo brasileiro para fazer frente à alta
brusca dos preços internacionais do petróleo em 1973, conhecida como primeiro choque do petróleo –, essa região perdeu a posição
de grande produtora, por não acompanhar as mudanças
tecnológicas modernizadoras nacionalmente adotadas pelos
principais empresários do setor.
Nesse período, graças aos generosos financiamentos concedidos
pelo governo federal, o parque industrial do setor de açúcar e álcool
foi quase totalmente modernizado e reestruturado, passando uma
boa parte das usinas do Norte Fluminense para as mãos de
empresários externos à região, mais interessados na aquisição das
cotas de produção dessas usinas que em suas instalações
industriais – a maioria, inclusive, já ultrapassada do ponto de vista
tecnológico. Uma vez que o setor era regulado pelo Estado
nacional, a entrada de novos produtores estava sob seu controle, e
cada indústria podia produzir apenas dentro dos limites de sua cota
estabelecida. Os empresários paulistas, desejosos de ampliar a
própria produção, passaram a adotar a estratégia de adquirir cotas
de outras empresas para, em seguida, fechá-las e levar o “direito de
produzir” para suas usinas. Nesse contexto, a Região Norte
Fluminense, vista, desde o século XVII, como grande produtora de
açúcar e álcool, foi deslocada de forma gradual porém inexorável do
setor.
Esse Norte Fluminense histórico, que tem a cidade de Campos
dos Goytacazes como principal polo, passou a apresentar
problemas que iam de estagnação e queda dos índices de
produtividade de seu principal produto a um elevado nível de
desemprego, o que, consequentemente, levou a um processo de
pauperização, desenraizamento e deslocamento do trabalhador
rural para a periferia das cidades da região. No entanto, nesse
momento, a Petrobras, que, desde a década de 1960, vinha
desenvolvendo pesquisas na plataforma continental marítima,
finalmente viu um de seus esforços resultar em sucesso: em 1974, o
poço pioneiro 1-RJS-9A, situado a uma profundidade de cem
metros, passou a produzir em vazão comercial e a se constituir em
ponto de descobrimento de petróleo na Bacia de Campos (Caetano
Filho, 2003, p. 52). Segundo Caetano Filho (2003, p. 47), o
procedimento de se nomear uma bacia com o nome de uma cidade próxima ou acidente geográfico é internacionalmente regido pelo
Código de Nomenclatura Estratigráfica.
Nesse contexto, a Bacia de Campos recebeu essa denominação
em função de as descobertas marítimas terem ocorrido no litoral
norte do estado do Rio, cuja principal cidade é Campos dos
Goytacazes. A área estratigráfica dessa bacia tem cerca de 100.000
km², estendendo-se do Espírito Santo até Cabo Frio. É necessário
assinalar que a notícia da descoberta de petróleo na Bacia de
Campos em um momento de plena crise mundial do petróleo, no
auge do regime ditatorial brasileiro, parecia anunciar um novo tempo
para a região.
O início da produção petrolífera colocava na ordem do dia a
montagem de uma base operacional da Petrobras naquela área, e
todos esperavam que isso ocorresse na cidade de Campos. No
entanto, em 1978, a Petrobras, por questões logísticas, elegeu a
cidade de Macaé, 100 km mais próxima da capital do estado, como
sua base de atividades de prospecção e de produção. Inaugurou-se,
então, um novo período econômico regional, dessa vez baseado,
direta e indiretamente, nos recursos oriundos da exploração
petrolífera. A elite açucareira, que, anos antes, propugnava as
políticas para a região em nome dos próprios interesses, assistiu ao
declínio de seu prestígio.
Ao longo dos anos, confirmou-se que as maiores reservas
brasileiras de petróleo e gás se encontravam nessa bacia, que se
tornou a produtora de cerca de 80% do petróleo e 40% do gás
produzidos no país. Desde então, a Região Norte Fluminense
passou por mudanças positivas no volume do PIB, na morfologia do
tecido empresarial, na oferta de postos de trabalho, na demografia –
com a chegada de trabalhadores qualificados e também de pessoas
que buscavam alguma oportunidade –, na infraestrutura urbana, na
educação e na saúde, e, principalmente, no aumento dos
orçamentos municipais, em função dos generosos repasses
garantidos pelo petróleo.
Tratando-se de uma aglomeração industrial baseada na extração
de um bem natural não renovável, as empresas estão ali localizadas
para explorar os recursos da região. Como as províncias de petróleo
e gás apresentam um ciclo de vida – nascimento, crescimento, maturidade e declínio –, quando ambos os produtos se exaurem, as
empresas líderes do setor dirigem-se para áreas com perspectivas
de novas jazidas. Em situações tais, às empresas de pequeno e
médio portes, fornecedoras de produtos ou serviços de alta
competência tecnológica, resta a alternativa de se tornarem
fornecedoras globais para a indústria de petróleo, associando-se a
grandes companhias multinacionais em novas províncias minerais.
No entanto, para aquelas que atuam nos setores não intensivos,
resta-lhes encerrar as atividades ou migrar para uma indústria
correlata. Por essas razõse, foram frequentes os debates acerca do
futuro econômico da região na era “pós-petróleo”. Quis o destino
que outras perspectivas surgissem no setor petrolífero: novas
reservas de óleo e gás foram descobertas na camada de pré-sal e,
em 2007, teve início a obra do Complexo Logístico-Industrial do
Porto do Açu, no município de São João da Barra.
3. Entendendo a economia e o
processo de instalação do Porto do
Açu
No início dos anos 2000, mais precisamente a partir de 2003,
após décadas de estagnação econômica, o Brasil deu início a um
processo de retomada do crescimento, baseado numa mudança da
conjuntura econômica mundial em que a China e os chamados
Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan)
passaram a ser grandes consumidores de commodities como
minério de ferro, soja e insumos agrícolas. Ao mesmo tempo que a
economia dos países do hemisfério Norte começava a apresentar
traços de estagnação, que culminaram com a crise do sistema
financeiro americano em 2008, o Brasil e os demais BRICS
(abreviatura para o grupo de países composto por Brasil, Rússia,
Índia, China e África do Sul) alavancaram um novo ciclo de
crescimento da economia e das exportações.
No âmbito das políticas internas, o Brasil adotou políticas
keynesianas como forma de distribuição de riqueza e justiça social,
apostando na exportação de commodities a fim de manter o
superávit da balança comercial. Pessanha et al. (2013) exemplificam
a decisão de retomar os investimentos com o Porto de Suape, em
Pernambuco, e com programas sociais como o Bolsa Família. Tais
exemplos são uma nítida intenção de prover o país de uma nova e
diversificada base de desenvolvimento, melhorando a renda das
camadas mais pobres da população.
O processo de retomada econômica, contudo, trouxe à tona
conhecidos problemas de infraestrutura, como os gargalos no
sistema logístico-portuário nacional, típicos dos ciclos de
crescimento da economia brasileira que ocorrem desde a segunda
metade do século XIX, em que a infraestrutura só é reorganizada e
ampliada após seu colapso. Nessa conjuntura de aumento das
exportações de commodities e da necessidade de se contruírem
novos terminais portuários, tem início a construção do Clipa no
município de São João da Barra.
Em 1999, a Secretaria Estadual de Energia, Indústria Naval e
Petróleo começou os estudos para a construção de um terminal
portuário e de apoio offshore para a Petrobras no Norte Fluminense,
junto à Bacia de Campos. Segundo Victer (2010), a ideia inicial de
um porto estruturado para os granéis líquidos e de apoio offshore foi
aperfeiçoada para também agregar a movimentação de granéis
sólidos e contêineres. Após a realização de estudos de batimetria no
litoral Norte Fluminense, chegou-se à conclusão que a região do
Açu apresentava grande potencial para a viabilização desse
empreendimento, sendo necessária apenas a construção de um
extenso píer em direção ao oceano, aproveitando o elevado calado
para a movimentação de grandes navios.
Com a escolha do local, o então governador, Anthony Garotinho,
assinou o Decreto nº 25.455, de 28 de junho de 1999, declarando,
como de utilidade pública, para fins de desapropriação, quatro áreas
desmembradas do imóvel rural denominado Fazenda Saco D’Antas,
em São João da Barra. Victer (2010) ainda registra a aprovação de
uma lei que delegava ao estado do Rio de Janeiro o investimento de 33% do valor do projeto, como forma de alavancar a construção do
porto.
Em 1º de setembro de 2000, em reunião pública realizada na
Associação Comercial e Industrial de Campos (ACIC), foram
divulgados os resultados dos primeiros estudos técnicos de
engenharia, que apontavam a viabilidade de se construir o porto no
Açu. Os relatórios, que custaram US$ 500 mil ao governo estadual,
também confirmaram a localização do terminal portuário em frente à
Fazenda Saco D’Antas, conforme previsto no decreto de 1999
(Pessanha et al., 2013).
No entanto, mesmo com os investimentos iniciais prometidos, o
projeto do porto não foi aceito pela Petrobras nem pelas empresas
da iniciativa privada que se haviam mostrado interessadas. Desse
momento em diante, já no ano de 2004, houve o redirecionamento
do projeto para o setor de granéis sólidos, em especial o minério de
ferro. As negociações, então, foram feitas com a Vale, que também
não se mostrou interessada no projeto (Victer, 2010). Assim, após
as recusas pela Petrobras e pela Vale, o então secretário de
Energia, Petróleo e Indústria Naval, Wagner Victer, autorizado pela
governadora Rosinha Garotinho, entregou o projeto ao empresário
Eike Batista. Essa transferência do projeto para um novo investidor
contou com a interferência de Eliezer Batista, ex-presidente da
Companhia Vale do Rio Doce, pai do empresário Eike Batista e
também membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e
Social do Rio de Janeiro (CDES-RJ), órgão consultivo que
acompanhou, desde o início, os estudos de implantação do porto.
Assim, em 27 de dezembro de 2006, foi colocada a pedra
fundamental para a construção do porto, embora, efetivamente, as
obras só tenham iniciado em março de 2007 (Pessanha et al.,
2013). A partir de então, sob a coordenação do Grupo EBX, o
projeto do porto passou por uma nova reformulação, adequando-se
à nova realidade de se agregarem atividades industriais a atividades
portuárias. Essa nova concepção, denominada MIDAs (Maritime
Industrial Development Areas), encontrou no Porto do Açu o
ambiente ideal para sua implantação. No entanto, sabe-se que,
dentro das estruturas portuárias do tipo MIDAs, são necessárias
extensas retroáreas para a construção dos distritos industriais e dos terminais de contêineres, algo quase impossível de se encontrar no
litoral sudeste brasileiro. Diante disso, Quinto Jr. et al. (2011)
ressaltam outro aspecto importante na escolha do município de São
João da Barra para a instalação do complexo portuário industrial: a
questão fundiária.
4. As transformações no uso da terra:
mudanças territoriais em São João da
Barra
Fernandes (2008) argumenta que o ponto de partida para a
análise do território consiste em se compreender o que é espaço,
local onde a vida humana se materializa.
No espaço, natureza e sociedade estariam unidos de forma
indissociável, pois as relações sociais no espaço transformam a
natureza, e esse mesmo espaço é transformador das relações
sociais. Nesse movimento cíclico e ininterrupto é que se formam os
territórios, ou seja, o território é construído a partir do espaço, pois,
diante da necessidade de garantir sua existência, os homens
fragmentam o espaço e criam seus territórios.
Fernandes propõe a criação de duas categorias para distinguir os
territórios: materiais e imateriais, em que os primeiros dizem
respeito aos territórios formados no espaço físico, enquanto os
segundos são formados no espaço social. Essas duas categorias
seriam indissociáveis e dependentes, uma vez que o território
formado no espaço físico deveria ser sustentado pelo território
material em forma de conhecimento, ideologia e teoria. De forma
análoga, Corrêa (1998) argumenta que o território está submetido à
organização espacial, ou seja, ao espaço. O território, portanto,
seria o espaço revestido de dimensão política e/ou afetiva. Corrêa
também sugere que é na ação dos agentes sociais (por exemplo,
Estado, grupos sociais e corporações econômicas), com vistas à
garantia da apropriação e da permanência em dado território, que se
constitui a territorialidade.
Para Fernandes e Corrêa, o território seria, portanto, uma
totalidade e, dentro dessa totalidade, estariam as dimensões
política, social, natural, cultural e econômica. Assim, cada sujeito ou
grupo, ao se apropriar do espaço, construiria seu território,
decidindo explorar uma ou mais de suas dimensões, e, assim, outro
grupo que também se apropriasse desse mesmo espaço poderia
explorar as dimensões de seu próprio interesse. Assim, as ações
tomadas que levam em conta o território como espaço de
governança teriam de considerar esse território propriedade
individual e vice-versa (Fernandes, 2008; Corrêa, 1998). Por outro
lado, Haesbaert (2005) chama a atenção para o caráter duplo do
território, que, como já vimos, seria composto pelas dimensões
simbólica e material, ambas ligadas à busca pelo poder. A primeira
delas seria a apropriação e a dominação da terra, e a segunda, uma
consequência desta, a inspiração de terror sobre os que foram
dominados, vendo-se forçados a abandonar dado território ou
impedidos de entrar e/ou permanecer nele.
Em todas as proposições apresentadas, fica clara a importância
do conflito na construção e desconstrução do território. Fernandes
(2008), por exemplo, é categórico ao considerar a conflitualidade
como parte integrante do processo de formação e desenvolvimento
da disputa territorial. Haesbaert (2005), por sua vez, sugere que a
busca por influenciar pessoas, fenômenos e relacionamentos é o
que mobiliza a tentativa de controle do espaço. Assim, para
Haesbaert, a territorialidade não se restringe ao domínio de um
lugar físico e à sua dimensão política; ela também representa a
capacidade de, através desse lugar, experimentar o mundo e
produzir significados, envolvendo, portanto, as dimensões cultural e
econômica.
Assim, a disputa permanente seria parte integrante do território,
que se deve, principalmente, à impossibilidade de realização de
uma classe ou grupo social em um território que já esteja sob o
controle de outrem. As diferentes e até mesmo divergentes formas
de organização, relações sociais, planos de desenvolvimento e
finalidades de cada classe para o território impossibilitariam tal
realização. Essas diferentes formas de se apropriar, simbólica e
materialmente, do ambiente, as quais revelam diversos modos de produção de seu espaço, são o que Laschefski (2011) caracteriza
como territorialidade.
De forma semelhante, para Neves (1988), a territorialidade seria
dada pelo conjunto formado por ação e poder dentro do espaço.
Nessa perspectiva, o poder é entendido como a capacidade de
decidir, a qual pode ser exercida sobre os lugares quando se é
adaptável a circunstâncias espaçotemporais contraditórias. Neves
também postula que a eficácia e a amplitude desse poder são
definidas pela densidade dos fragmentos e pelas obstrução e
construção de canais das múltiplas redes vinculadas às condições
históricas dadas.
Nesse contexto, as redes são construídas ou desconstruídas
sempre por ações políticas, numa disputa entre os locais, mesmo
que apresentadas como lutas a favor da democracia e contrárias à
opressão. Essas lutas também são travadas pela construção do
território, uma vez que o que está em jogo é a soberania sobre o
espaço. Assim, o exercício de poder sobre o espaço é o que o
transforma em território. Não se trata, contudo, apenas do poder
como dimensão econômica; trata-se também do poder exercido pela
força cultural do grupo, capaz de unificar os fragmentos de um
território (Neves, 1988).
Além disso, Corrêa (1988) ressalta que, embora esteja
relacionado à ligação de um grupo ao espaço, um mesmo espaço
pode apresentar diferentes territorialidades, visto que pode ser
apropriado e vivenciado de modo diverso pelos diferentes grupos.
Em suma, em um mesmo espaço, haveria vários territórios com
múltiplas possibilidades de arranjo. Entretanto, quando há perda
desse território apropriado e vivido, o que ocorre, segundo Corrêa,
seria a desterritorialidade, fomentada pelas contradições capazes de
desfazer um território. A desterritorialidade, por sua vez, pode não
ser seguida pela desterritorialização, que viria a ser o deslocamento
espacial dos grupos derrotados de seus territórios.
A partir dessas diferentes formulações sobre território,
desterritorialidade e desterritorialização, Fernandes (2008) aponta a
necessidade de se pensar em políticas territoriais que levem em
conta a multiescalaridade e a multidimensionalidade do território. No
entanto, contra essa sugestão pesa o fato de a prática comum entender o território como um espaço de governança, anulando
seus atributos e considerando-o uma entidade única. O fato é que,
quando as múltiplas dimensões e a totalidade do território são
reduzidas, determinado território tem de ser privilegiado para se
aplicarem políticas de desenvolvimento.
Assim, considerando as diferentes disputas e relações de poder
existentes em dada sociedade, os grupos de maior poder político
são os privilegiados. Essa opção está em sintonia com os interesses
de reprodução capitalista e com o processo de dominação
pretendido pelas classes dominantes. Essa exploração-dominação é
ainda pior quando se verifica o uso de um discurso que,
contraditoriamente, defende formas de empoderamento a esses
grupos socialmente marginalizados quando, na realidade, o que
ocorre é o fortalecimento dos interesses das classes detentoras de
capital. Por fim, Haesbaert (2005) afirma que, devido à hegemonia
da lógica capitalista, a reapropriação é inibida, pois o espaço é
considerado único, sendo fadado, portanto, ao domínio pelo aparato
empresarial e pelo Estado.
De 2007 a 2014, da construção até a atualidade, o Complexo
Logístico e Industrial do Porto do Açu passou por muitas mudanças,
com o Grupo EBX, do empresário Eike Batista, investindo, de forma
significativa, nesse empreendimento. Anos mais tarde, foi
necessário reestruturar o Grupo EBX, em função da falência da
OGX, que acabou repercutindo nas outras empresas da holding e
na diminuição do valor das commodities no mercado internacional,
provocando uma nova reestruturação no projeto.
4.1. O Complexo Logístico e Industrial do Açu:
uma nova territorialidade produtiva na Região
Norte Fluminense (2007-2014)
Cobrindo uma área de 90 km² e localizado estrategicamente no
norte do estado do Rio de Janeiro, o Porto do Açu está a cerca de
150 km da Bacia de Campos, onde quase 80% do petróleo brasileiro
é produzido. Sua construção teve início em outubro de 2007.
Atualmente em operação, o porto conta com 17 km de cais e até 23 m de profundidade, com capacidade para receber até 47
embarcações simultaneamente, incluindo navios de grande porte,
como Capesize e Very Large Crude Carrier (VLCCs), que
transportam até 320 mil toneladas de carga.
Segundo os conceitos mais modernos de porto-indústria, o Porto
do Açu contará com um distrito industrial e uma retroárea para
armazenamento e movimentação de carga. Essas áreas, em
conjunto com o porto, formarão o Complexo Industrial do Porto do
Açu, onde serão instaladas indústrias offshore, polo metalmecânico,
base de estocagem para granéis líquidos, estaleiros, base para
tratamento de petróleo, termelétricas, pátio logístico, terminal de
reparo naval, entre outros.
O Porto do Açu foi idealizado para fazer parte de uma gama de
projetos interligados e mutuamente viabilizados, e será o maior
empreendimento desse conjunto, pois tem a responsabilidade de
atrair as principais empresas para São João da Barra, além de
viabilizar a exportação do minério extraído pela MMX Minas-Rio
Mineração, em parceria com a Anglo Ferrous Minas-Rio Mineração
S.A, em Conceição do Mato Dentro/MG (Rima, 2010). O mineroduto
é o projeto mais adiantado, iniciado em 2007 com a construção de
um píer para a ligação terminal de cargas ao continente (Figura 2).
Essa construção já vem provocando impacto em uma das principais
atividades econômicas da população local, a pesca.
Figura 2. Traçado do mineroduto Minas-Rio desde a serra (MG)
até São João da Barra.
Fonte: AGB, 2011.
O projeto do Clipa ainda prevê a construção de uma usina
termelétrica no condomínio industrial na área de retaguarda do
porto, que, pela facilidade de formação de energia elétrica e de
saída para exportação, atrairá usinas siderúrgicas e montadoras
para a área (AGB, 2011). Além dessas facilidades, o mineroduto
levará minério de ferro do interior de Minas Gerais ao Norte
Fluminense a baixo custo, por fazer seu beneficiamento no próprio
porto, nas siderúrgicas ou nas unidades de pelotização, o que
também poderá beneficiar as siderúrgicas, ao agregar valor ao
produto e possibilitar maiores ganhos com a exportação de ligas de
metal de baixo custo, e não do material bruto.
4.2. A desterritorialização em São João da Barra
Com a finalidade de construir o Distrito Industrial de São João da
Barra (RJ), os decretos estaduais 42.584 e 41.585, de 05/12/2008,
41.915 e 41.916, de 19/06/2009, e 41.998, de 19/08/2009,
desapropriaram, com fins de utilidade pública, a cargo da
Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de
Janeiro (Codin), os imóveis destinados a abrigar o DISJB, numa
área total de 7.200 hectares. Segundo dados apurados por
pesquisadores da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB,
2011), a área desapropriada era ocupada, basicamente, por
pequenos agricultores. Assim, como aponta Haesbaert, ocorreu uma
desterritorialização. Durante o processo de audiência pública,
promovido pelo Inea e pela Codin, questões sobre a desapropriação
das famílias e informações sobre as garantias previstas no
“reassentamento” teriam sido pautas ocultas e pouco
esclarecedoras.
Nesse sentido, em parceria com empreendedores privados, a
Codin desenvolveu um assentamento rural na área da antiga
Fazenda Palacete, localizada no V Distrito de São João da Barra.
Essa propriedade passou a ser chamada de Vila da Terra, com a
finalidade de abrigar as famílias que atendessem a critérios
estabelecidos pela Codin, conforme resultado do cadastro
socioeconômico realizado na região. Assim, entre os critérios
estabelecidos pela Codin para participação no reassentamento,
estavam: 1) Ser proprietário/posseiro e residente no imóvel rural
contido no polígono decretado de utilidade pública, com propriedade
inferior a 10 ha: 2) Pertencer a famílias em condição de
hipossuficiência social atingidas pela implantação do Distrito
Industrial de São João da Barra: 3) Ter sido cadastrado na pesquisa
socioeconômica aplicada em 2009, atualizada entre janeiro e março
de 2011.
Desse modo, construída a partir de uma parceria entre a Codin, a
Prefeitura Municipal de São João da Barra e a LLX, a Vila da Terra
foi planejada para alocar cerca de noventa famílias numa área que,
além das casas, contaria com uma quadra poliesportiva e um centro
comercial. A Vila da Terra tem sido apresentada como um modelo
inédito de reassentamento rural e, vendida como dentro dos padrões estabelecidos pelo Banco Mundial, referência internacional
em reassentamento, contará com cerca de mil hectares.
Segundo informações divulgadas no site e em vídeos
promocionais do empreendimento pelo Grupo EBX, na época inicial
de implantação do porto, a Vila da Terra foi planejada com ruas
pavimentadas, quadra poliesportiva, centro comunitário, iluminação
pública, rede de água e esgoto e centro comercial. Os lotes, cujo
tamanho variaria entre 2 e 10 ha, apresentariam três diferentes
tipologias, com dois, três ou quatro quartos, e áreas de construção
entre 68 e 109 m 2. No caso dos produtores rurais que possuíssem
residência anterior com área superior a 109 m², a casa seria
construída no tamanho da metragem original. Os proprietários com
terrenos maiores que 10 ha receberiam os valores correspondentes
à desapropriação.
Inaugurada em outubro de 2011, a Vila da Terra, no momento em
que esta pesquisa foi realizada, abrigava vinte famílias, de acordo
com dados dos próprios moradores, estando ainda prevista a
transferência de um número indeterminado para aquele local, de
acordo com o andamento do conturbado processo de
desapropriação.
Analisando, em trabalho de campo, as características da Vila da
Terra , foi possível perceber sua importância para esses moradores.
Em primeiro lugar, por ser seu local de moradia e existência, uma
vez que nasceram e constituíram suas famílias ali. Em segundo
lugar, a importância daquele chão está no papel que desempenha
como fornecedor dos meios de trabalho e condição de subsistência
(agricultura).
Essa caracterização rural, marcada pela relação com a terra,
chama a atenção para os impactos que a construção do Cipa está
causando na região, uma vez que as rupturas com os espaços
tradicionais que, historicamente, têm condicionado as formas sociais
nas localidades, provocadas pela instalação de grandes
empreendimentos, serão mais relevantes quanto mais as
estratégias de trabalho e condições de existência estiverem
associadas ao meio biótico natural (Acserald e Silva, 2011).
4.3. O Porto do Açu no cenário atual
Segundo Moreno (2014), em junho de 2012 teve início a queda do
empresário Eike Batista e, em consequência, de muitos de seus
projetos. No mesmo mês, a holding do empresário recebeu um
comunicado de que a produção de petróleo da OGX Petróleo e Gás
Ltda. (OGX) estava 50% abaixo das previsões estimadas, o que
prejudicou toda a avaliação da companhia por parte do mercado.
Nesse contexto, os investidores passaram a ter um olhar cético
sobre o grupo, pois os problemas iam se sucedendo e as empresas
mudavam de acionistas ou entravam em recuperação judicial por
causa das vultosas dívidas. Em setembro de 2013, a LLX Logística,
que geria o porto do Açu, teve o controle acionário repassado para o
Grupo EIG, após a assinatura de um contrato de investimentos no
valor de R$ 1,3 bilhão. Em dezembro do mesmo ano, a LLX
Logística passou a se chamar Prumo Logística Global.
Atualmente, a empresa mantém seus investimentos na
construção do porto do Açu. Em 25 de outubro de 2014, realizou-se
o primeiro carregamento de minério de ferro. Um total de 80 mil
toneladas do produto foi embarcado para a China. O carregamento
desse primeiro navio é um marco para a história do porto e da
região, pois concretiza os investimentos e as especulações ali
realizados nos últimos 15 anos (1999 a 2014), tornando irreversíveis
as mudanças em curso no entorno do Clipa.
A reestruturação do Grupo EBX, em função da falência da OGX,
que acabou por repercutir nas outras empresas da holding, e a
diminuição do valor das commodities no mercado internacional
provocaram uma nova reestruturação do projeto. As indústrias
siderúrgicas e cimenteiras foram abortadas, porém as empresas que
estão se instalando no complexo retomam a concepção original
desenhada no final da década de 1990, que era de um porto de
apoio às atividades offshore na Bacia de Campos. Nesse contexto,
as áreas destinadas à Codin e ao DISJB deverão ser ocupadas em
longo prazo.
Quanto às famílias que passaram pela desapropriação, muitas
ainda não receberam da empresa as respectivas indenizações,
gerando, no contexto atual, um grande conflito entre o porto e a população. As obras de implantação estão em andamento, com
previsão de término para final de 2016. As forças conservadoras,
que representam a população diretamente atingida pela instalação
portuária, ainda lutam por seus direitos, enquanto as forças que
defendem a modernidade, movidas pela globalização, seguem, sem
pensar nas necessidades dos atingidos, mas tão somente no lucro a
ser gerado para a empresa.
5. Considerações finais
Na construção do Porto do Açu, os principais atingidos são os
pescadores e agricultores familiares, que estão passando por um
período de insegurança e insatisfação, decorrente do processo de
desapropriação de suas terras, que ignorou os mecanismos legais
estabelecidos pela própria Constituição Estadual. A falta de
obediência aos ditames legais por parte do governo do Rio de
Janeiro nas desapropriações realizadas também se verificou na
emissão das licenças ambientais relacionadas à instalação do Clipa.
Em outro sentido, levando-se em conta as condições que
cercaram as desapropriações e a (falta de) negociação com as
comunidades e os indivíduos atingidos, afirma-se que o Estado
atuou como parceiro dos empreendedores privados, provendo
investimentos diretos, melhora nas estradas de acesso e condições
para seu pleno estabelecimento. No entanto, não se observou o
mesmo tratamento em relação aos agricultores e pescadores. Esse
tratamento desigual contribuiu para o surgimento de conflitos que,
em última instância, conduziram a atrasos e pendências, com efeito
negativo para a própria construção do Clipa.
Certamente, o Complexo Logístico do Açu pode ser relacionado a
impactos socioambientais e à precarização das condições de
trabalho e de reprodução social das comunidades que moravam no
5º Distrito. Esse fato corrobora assertivas constantes na literatura de
que o modelo neodesenvolvimentista se baseia no uso intensivo dos
recursos naturais, ignorando uma avaliação mais profunda do
respectivo impacto socioambiental e a falta de alternativa para aqueles que são política e economicamente marginalizados com
sua adoção.
Para concluir, assinala-se que, no processo de implantação
autoritária de megaempreendimentos, como no caso do Porto do
Açu, o que se materializa é a disputa entre duas racionalidades em
relação a qual modelo de desenvolvimento e progresso seria mais
apropriado. Outro aspecto importante é a persistência da força que
a ideologia do desenvolvimento possui até entre aqueles que mais
têm a perder, na medida em que os atingidos não querem ser vistos
como obstáculos ao progresso, embora sejam os principais
prejudicados nas novas relações de poder estabelecidas em seus
próprios territórios.
Os resultados desta pesquisa também colocam em xeque a
noção de desenvolvimento como um mero processo de crescimento
econômico. Esse processo, para ser alcançado em sua plenitude,
requer a adoção de medidas que ampliem os mecanismos de
participação nos processos decisórios, que sirvam para criar
mecanismos de participação efetiva, de modo que os habitantes dos
territórios que passam por transformação possam ser ouvidos, em
vez de ser tratados como símbolos de formas sociais atrasadas.
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