Revisitando o Território Fluminense VI

Glaucio José Marafon · Capítulo 13 de 18

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Revisitando o Território Fluminense VI

12. A flutuação turística na região das Baixadas Litorâneas (RJ): uma análise centrada nos municípios de Armação dos Búzios, Arraial do Cabo e Cabo Frio

A flutuação turística na região

 

das Baixadas Litorâneas (RJ):

 

uma análise centrada nos

 

municípios de Armação dos

 

Búzios, Arraial do Cabo e Cabo

 

Frio1

 

Ulisses Fernandes2

 

1. Introdução

 

O artigo ora apresentado advém de relatório de pesquisa

realizado para atender a apoio institucional a recém-doutores da

Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa – RJ (Faperj). Sua

motivação básica, para além do vínculo com a realidade

socioespacial fluminense, está na possibilidade de se manter

vínculo com uma das temáticas de maior apelo social dos últimos

tempos: a atividade turística contemporânea.

Parte-se da tentativa de entender a abrangência do fenômeno do

turismo em uma das porções do território fluminense cuja atividade

turística tem despontado como uma das de maior transformação da

realidade socioespacial local: a Região das Baixadas Litorâneas. A

prática turística, intensificada a partir dos anos 1970, principalmente

após a construção da rodovia federal BR-101 e da chamada ponte

Rio-Niterói, gerou uma pretensa região turística de forte mobilidade,

mesmo em nível internacional, com grande flutuação da mobilidade

turística entre os municípios da supracitada região.

Por entendimento prévio, a pesquisa arbitrou duas porções

específicas dentro da região indicada: uma relacionada aos

municípios onde, tradicionalmente, há maior presença de turistas de

outras unidades federativas do Brasil e até mesmo de outros países,

sendo abrangida pelos municípios de Armação dos Búzios, Arraial

do Cabo e Cabo Frio; a outra é composta pelos municípios

restantes, onde esse fluxo de turistas “externos” é bem menor e,

muitas vezes, os veranistas se apresentam em número muito

grande.

Neste artigo, trata-se especificamente da primeira porção

territorial destacada. Assim, demonstra-se a ocorrência de uma

flutuação atrelada à mobilidade turística dentro da porção do

território fluminense cujo senso comum reconhece como Região dos

Lagos. Daí deriva o principal questionamento a ser feito: se, de fato,

há uma interação regional notabilizada pela atividade turística,

capaz de estabelecer laços entre os municípios locais quanto à

questão da flutuação-mobilidade turística. Por outro lado, como

questão secundária, torna-se fundamental definir se há adequação

conceitual para tratar o recorte eleito como uma região turística.

Este estudo baseou-se em revisão bibliográfica e pesquisa de

campo, com a aplicação de duzentos questionários. Para além do

trato quantitativo, também foi feita uma abordagem qualitativa na

forma de entrevistas. A redação final, na forma de artigo, pressupõe

a análise teórico-conceitual inicial, bem como posterior interação

com o recorte empírico, principalmente pela utilização das

entrevistas e dos dados coletados em campo.

 

2. Turismo: motivações e mobilidade

 

O turismo é, decididamente, um fenômeno que passa pela esfera

econômica, social, política e cultural, apresentando-se de modo

significativo nas “sociedades ditas pós-industriais” (Rodrigues, 1999,

p. 17). Desse modo, vem ganhando cada vez mais espaço tanto nas

discussões políticas e acadêmicas quanto nas populares. No

entanto, há autores que advogam a necessidade de um estudo

científico do turismo mais apurado, como nos contam Gareth Shaw e Allan Williams, pois, “embora venha crescendo o número de

exceções, o estudo científico do turismo ainda é frequentemente

descritivo, ateórico e caoticamente conceitualizado, por ser extraído

das relações sociais mais amplas” (Shaw e William, 2004, p. 1).

Pensar o turismo implica, entre outras coisas, debater a

mobilidade que ocorre durante o fenômeno. É necessário, contudo,

atentar para o fato de que a mobilidade turística está interligada a

várias formas de mobilidade, “tais como a migração de trabalho ou

conhecimento e transferência de capital” (idem, ibidem). A

mobilidade de pessoas, no âmbito internacional, foi efetivamente

afetada com a globalização. O fluxo turístico, em determinados

espaços e lugares, é moldado pelo processo de globalização,

requerendo entendimento do turismo como um fenômeno que está

estritamente ligado ao cotidiano, à constituição de comunidades e

ao funcionamento do sistema social e natural, e não como um

fenômeno social independente.

Nosso desafio, na qualidade de pesquisadores do turismo, é

buscar entender como o turismo molda e é moldado pelos

processos sociais. Para tanto, faz-se necessária uma perspectiva de

mudança e, nesse sentido, baseamo-nos no conceito de vias e

fluxos, entendido como “rede de máquinas, tecnologia,

organizações, textos e atores que constituem vários nós

interconectados, ao longo do qual o fluxo pode ser retransmitido”

(Urry, 2000, p. 35). Urry, em verdade, propõe uma paisagem do

turismo que seria composta por vias e fluxos. Segundo ele, o

espaço do turismo é fortemente estruturado por vias – autoestradas,

rotas de voo, aeroportos – que facilitam e canalizam o movimento.

Assim,

 

as vias mais distorcem do que afirmam ou reforçam as fronteiras, é verdade

que muitas viagens ocorrem fora destas, mas são fundamentais para

entender o volume dos fluxos do turismo [...]. Essas vias são mais do que

apenas rotas de transporte, estas são também compostas pelos

investimentos materiais em hotéis, restaurantes e outros serviços que

facilitam a viagem (Urry apud Shaw e Williams, 2004, p. 3).

 

O turismo de massa – que, atualmente, encontramos no Brasil,

em cidades como Salvador (BA) durante o carnaval e em Cabo Frio (RJ) na alta temporada do verão, quando os turistas, em geral da

classe média, dirigem-se a essas localidades para usufruir de um

turismo sazonal e de mais baixo custo, em comparação ao turismo

elitista – é particularmente influenciado por essa estrutura

constituída por vias que, destarte, vão facilitar o fluxo turístico. Mas

não só esse tipo de turismo é constituído por vias e fluxos; existem

outros também, como o ecoturismo e o turismo esportivo.

A importância das vias, pois, reside no fato de contribuírem para a

predominância da localização relativa sobre a localização absoluta.

Na dita pós-modernidade, a distância direta entre o ponto de origem

e o ponto de destino perde importância, caracterizando, lato sensu,

o modo de vida do homem moderno, que, no contexto na

globalização do turismo, interconecta-se com o mundo de modo ágil

e efêmero, o que incide, muitas vezes, na própria flutuação turística.

As vias se caracterizam pela inércia, resultando da tecnologia, do

capital investido e do conhecimento embutido nelas. No entanto,

podem sofrer mudanças que variam de acordo com os interesses do

capital. Por isso, as vias estão em constante mutação, sendo

(re)construídas e revistas no espaço da globalização do turismo.

Como já assinalado, o turismo de massa é constituído por vias e

fluxos que permitem maior mobilidade dos turistas no espaço. No

entanto, cabe indagar: a existência dessas vias e fluxos funcionaria

também como motivação turística? E essa pretensa facilidade de

mobilidade justificaria a flutuação turística, ou seja, o ir e vir entre

localidades distintas dentro de uma mesma área? E, se assim

funcionarem, são hermeticamente a única motivação para que uma

pessoa se desloque? De fato, as vias e os fluxos se encaixam na

categoria de motivação turística, mas não estão isoladas; pelo

contrário, há muitas outras motivações que, neste artigo, serão

englobadas em categorias gerais, apenas para fins didáticos.

Em primeiro lugar, é preciso clarificar o que se entende por

motivação. O conceito de motivação sugere que os indivíduos

constantemente visam alcançar um estado de estabilidade

(Gossens apud Shaw e Williams, 2004). Além disso, “tal equilíbrio é

interrompido quando o individuo percebe que necessita de algo. Isso

levou à criação das necessidades básicas na experiência dos turistas, tais como: novidades, satisfação sexual, estimulação,

relaxamento e a autoexpressão” (Shaw e Williams, 2004, p. 140).

Em segundo lugar, as abordagens concernentes à motivação do

turismo apontam para similaridades que emergiram de diferentes

autores. Nesse caso, comungamos da mesma metodologia

empregada pelos autores supracitados, que defendem que “essas

diferentes abordagens podem ser categorizadas em três

perspectivas; reducionista, estruturalista e funcionalista” (Shaw e

Williams, 2004, p. 140). Deve ficar claro, pois, que essas três

perspectivas propostas pelos autores não são as únicas que tentam

generalizar as categorias de motivação turística, mas aquelas que

sistematizam as abordagens dessa temática de modo mais

abrangente.

A perspectiva reducionista, segundo Cohen (apud Shaw e

Williams, 2004), entende a motivação do turismo como uma tensão

entre a busca por novas experiências e a exigência de algum grau

de familiaridade. O turista, de acordo com essa visão, teria como

principal motivação a busca por novidades e pela identificação com

o lugar.

A perspectiva estruturalista, por sua vez, concentra-se em

identificar uma série de variáveis motivacionais que seriam

determinadas por fatores de repulsão e atração. Nos trabalhos que

se baseiam nessa perspectiva, dá-se mais ênfase ao fator repulsão,

porque seria o condicionante para a decisão do turista de viajar.

Nesse sentido, observa-se “motivos mais duradouros, problemas

internos ou fatores de repulsão que resultam na vontade do turista

de procurar por objetos, eventos e situações” (Gnoth apud Shaw e

Williams, 2004, p. 141). Gossens (apud Shaw e Williams, 2004)

argumenta que o conceito de emoção é o fator psicológico que

conecta os fatores de atração-repulsão da motivação. Nesse

sentido, “os turistas são expulsos pelas suas necessidades

emocionais e atraídos pelos benefícios emocionais do local de

destino” (p. 141). Motivação, para Gossens, tem relação com o

consumo hedônico, em que o processo se daria em três estágios: o

primeiro seria a fase do envolvimento do turista com o espaço,

podendo levar a dois caminhos, a excitação e a consequente

atração ou o estresse e a consequente repulsão; o segundo seria o momento em que, após o sentimento inicial, o turista processa as

informações; e o terceiro seria o chamado estágio hedônico, que

leva ao próprio consumo.

A terceira grande abordagem das motivações turísticas

compreende o funcionalismo, proposta por Fodness (1994), que

argumenta que tomamos certas atitudes em virtude de

necessidades psicológicas importantes. Na perspectiva

funcionalista, essas necessidades podem criar certas tensões de

natureza psicológica ou física. Tais tensões, como dizem Shaw e

Williams (2004), são liberadas por ações que, às vezes, envolvem

sair de férias.

Dessas três abordagens, emergem dois problemas-chave: o

primeiro seria o fato de essas abordagens não constituírem modelo

para uma teoria sólida da motivação turística, tal como defendem

Pearce e Butler (1994); o segundo está relacionado à profunda

dificuldade em sistematizar as motivações do turismo. No entanto,

essa complexidade que reveste a sistematização das motivações

turísticas não elimina a proeminente importância das motivações no

processo decisório do turista. De fato, as motivações constituem

ponto crucial quando se analisa o fenômeno da mobilidade de uma

população dentro da lógica turística. Por outro lado, o movimento de

população sobre o espaço tem-se tornado cada vez mais importante

na determinação das análises socioeconômicas em função dos tipos

de mobilidade que estão se configurando.

Alguns autores enfocam a questão da mobilidade como parte

importante da investigação em busca de entender a sociedade

contemporânea. Nesse sentido, tem-se o exemplo do turismo como

forma de lazer (Guimarães, 2001), que pode, por sua vez, ser

inserido na categoria mobilidade, fenômeno genérico que pressupõe

várias formas de transporte, deslocamento diário entre comunidades

– como aqueles relativos ao trajeto casa-trabalho e vice-versa – e

outras formas de viagens, assim como suas diversas inter-relações

por meio de várias formas de comunicação (Lash e Urry, 1994).

Nesse contexto, as novas condições de mobilidade apontariam

para a configuração de um “pós-turismo” associado à presença

difusa de signos em todos os lugares (Urry, 1996). Harvey (1996),

ao situar as principais tendências do capitalismo, também destaca a importância dos signos, afirmando que vivemos numa dimensão da

compressão de tempo/espaço em que se consomem mais símbolos

e imagens do que propriamente coisas ao assimilarmos a

publicidade e a mídia, dimensões especiais nesse cenário. Para

Hannam, Sheller & Urry (2006), novos lugares e tecnologias, ao

mesmo tempo que aumentam a mobilidade de algumas pessoas e

lugares, também aumentam a imobilidade de outras – como, por

exemplo, pessoas que buscam cruzar fronteiras –, o que envolve

estruturas de poder e posição de raça, gênero, classe etc. Dessa

forma, tornam-se claros os efeitos da globalização sobre a

mobilidade de população, uma vez que, para algumas pessoas,

praticar a mobilidade, no caso a turística, consiste em uma atividade

comum, enquanto, para outras, essa prática não faz parte de sua

dimensão social.

Nesse contexto, parte-se para a análise de um recorte específico,

o da Região das Baixadas Litorâneas no estado do Rio de Janeiro,

como forma de verificar o que até então se advogou. O recorte em si

guarda interconexão com o turismo de escala global, sendo objeto

de consumo turístico de frequentadores oriundos de diversas

porções do planeta, para além da própria escala local-nacional de

atração turística. Por outro lado, guarda dimensões do que pode ser

chamado de região turística, ou área turística, onde a mobilidade

relativamente fácil e a coproximidade de centros turísticos incidem

numa flutuação turística dentro de seus limites.

As questões previamente apresentadas remetem à necessidade

de se compreender se essa mobilidade ocorre de forma homogênea

dentro de toda a região ou área turística ou se há outras motivações

que determinam um uso turístico mais heterogêneo, com

segregação turística, em que o fluxo seria mais ou menos intenso

conforme a prévia avaliação dos centros turísticos existentes. Para

tanto, torna-se necessário categorizar região ou área turística, bem

como avaliar sua pretensa configuração, tomando-se por base o

recorte espacial eleieto nesta pesquisa.

3. O turismo na região das Baixadas

 

Litorâneas do Rio de Janeiro

 

Como indica o Caderno de turismo do estado do Rio de Janeiro, a

atividade turística no território fluminense “é influenciada pela

enorme diversidade de paisagens e características topográficas e

climáticas, além das peculiaridades culturais existentes” (Gomes,

2010, p. 50). Decerto, como também preconiza o estudo, essa

atividade tornou-se fundamental para o desenvolvimento de

algumas porções do estado. Em muitos municípios fluminenses,

inclusive, o turismo é a atividade polarizadora do desenvolvimento

social e econômico. De fato, como sustenta Miguel Angelo Ribeiro

(2003), “o estado do Rio de Janeiro é uma das unidades federadas

que apresenta importância para a promoção do turismo brasileiro,

atividade esta que merece destaque no contexto do

desenvolvimento econômico de nosso estado” (p. 80). Ribeiro

também destaca que

 

a atividade turística não pode ser pensada sem as bases geográficas e, neste

contexto, podemos distinguir três condicionantes que influenciam o

desenvolvimento da atividade do turismo em território fluminense. Tais

condicionantes estão intimamente relacionados. São eles: (a) o elemento

físico ou natural; (b) o elemento histórico e as atividades econômicas; e (c) o

papel dos transportes (p. 81).

 

No estudo organizado por Gomes (2010), partindo da apreciação

de Ribeiro (2003) quanto à importância da base geográfica, são

apontadas áreas turísticas específicas nas quais os condicionantes

naturais e históricos ganham destaque: áreas de ecoturismo, de

praia e ecoturismo, de praia e rural, de praia, de serra e mar, de

serra, serrana da Mantiqueira, Baixada Fluminense, diversificada e o

Vale do Café.

Nesta pesquisa, relacionando-se motivação e mobilidade nas

práticas turísticas em uma porção específica do território fluminense,

a das Baixadas Litorâneas, identifica-se área turística de praia como

aquela em que o recorte empírico melhor se dimensiona. A área em

si se notabiliza pelas práticas turísticas dimensionadas pela orla litorânea aprazível, cuja paisagem, raiz da motivação turística, é

capaz de atrair um quantitativo expressivo de visitantes e o produto

turístico passa a ser acessível quando a estrutura – e também a

superestrutura – turística é mobilizada nesse sentido (Boullón,

2002). Para esse autor, a paisagem como elemento da apreciação

turística é preestabelecida na relação entre um objeto estético, que

é a praia, com o observador sensível, que é o turista. Define-se,

portanto, a paisagem como

 

uma qualidade estética que os diferentes elementos de um determinado

espaço físico adquirem apenas quando o homem surge como observador

animado de uma atitude contemplativa dirigida a captar suas propriedades

externas, seu aspecto, seu caráter e outras particularidades que permitem

apreciar sua beleza ou feiúra (Boullón, 2002, p. 120).

 

Definindo, pois, a importância da dimensão da paisagem praiana

para a caracterização de uma área turística, parte-se para o

apontamento das outras atividades turísticas que podem ser

correlacionadas ao turismo de praia. No caso específico do recorte

espacial deste trabalho, observa-se, ainda em acordo com Gomes

(2010), a existência de práticas turísticas classificadas como turismo

histórico, turismo de aventura e turismo ecológico.

De fato, na praia incidem outras possibilidades de uso turístico. A

orla oceânica, por exemplo, está associada à antiga colonização

desse fragmento do território brasileiro, o que, atualmente,

possibilita a existência de rugosidades cujo caráter histórico-cultural

também mobiliza visitantes em cidades como Cabo Frio, por

exemplo. Esse mesmo mar, associado à praia, explica a ocorrência

das práticas de mergulho para exploração submarina, como se

verifica junto ao litoral do município de Arraial do Cabo. É a praia,

enfim, que possibilita a prática de esportes náuticos, como visto, de

modo geral, nos municípios supracitados e também em Armação

dos Búzios.

O 3 Mapa 1 identifica os municípios abrangidos por essa área

turística. São eles: Araruama, Armação dos Búzios, Arraial do Cabo,

Cabo Frio, Iguaba Grande, Maricá, Rio das Ostras, São Pedro da

Aldeia e Saquarema. Como o Caderno de turismo do estado do Rio

de Janeiro destaca, “seu ambiente litorâneo é o principal atrativo turístico, tanto que a região de governo que envolve esta área é

conhecida como Costa do Sol” (Gomes, 2010). Observa-se que, no

Plano Diretor de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, os

municípios indicados fazem parte da Região Turística da Costa do

Sol, onde estão presentes, para além dos municípios já citados,

Casimiro de Abreu, Macaé, Carapebus e Quissamã (Mapa 2).

A Secretaria de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, através do

Plano Diretor de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, reconhece

12 regiões turísticas no estado, das quais seis são consideradas

estratégicas: Costa Verde, Agulhas Negras, Vale do Café, Rio de

Janeiro e Niterói, Serra Verde Imperial e aquela que representa o

objeto deste artigo, a Costa do Sol. Registre-se que o referido plano

aponta para regiões turísticas com características homogêneas, o

que difere da proposta organizada por Gomes (2010). Em

consonância com o plano diretor,

 

o mapeamento turístico no estado resultou na aglutinação de um determinado

número de municípios, conferindo praticidade à operação conjunta de ações

propostas para o desenvolvimento do setor, sem perder de vista a necessária

integração das diversas regiões na realização e promoção do produto

turístico de todo o estado. As regiões turísticas foram identificadas de modo a

guardarem, internamente, um sentido de homogeneidade e

complementaridade traduzidas pela identidade geográfica, paisagística,

territorial e da oferta de infraestrutura e serviços.4

 

Nesse sentido, ao propor um estudo da mobilidade turística na

região das Baixadas Litorâneas, decerto haveria uma premissa, a de

destacar o conceito de região. Entretanto, considerando-se a análise

de uso turístico, como aponta Boullón (2002), esse não é o conceito

mais adequado. Boullón entende que os atrativos turísticos

presentes em determinado espaço são relativamente pouco

significativos e, portanto, só excepcionalmente se tocam. Essa

condição impediria a conformação de uma região turística em si:

 

visto que o espaço turístico é entrecortado, não se pode recorrer a técnicas

de regionalização para proceder a sua delimitação porque, de acordo com

elas, seria preciso abranger toda a superfície do país ou da região em estudo

e, caso isso fosse feito, grandes superfícies que não são turísticas figurariam

como turísticas, cometendo-se um erro. Isso significa que regiões turísticas

não existem (Boullón, 2002, p. 79).

Mapa 1. Áreas turísticas no estado do Rio de Janeiro

 

Fonte: Gomes, 2010.

Mapa 2. As regiões turísticas do estado do Rio de Janeiro

 

Fonte: Plano Diretor de Turismo do Estado do Rio de Janeiro.

TurisRio/Companhia de Turismo do Estado do Rio de Janeiro.

 

Nesse contexto, a proposta de tratamento da espacialização

turística fluminense estaria mais próxima daquela organizada por

Gomes (2010) no Caderno de turismo do estado do Rio de Janeiro.

Esse é o entendimento de Boullón (2002), que justifica o

desenvolvimento da ideia de espaço turístico. A concentração de

atrativos turísticos no território, segundo a lógica desse autor, indica

a existência de múltiplos agrupamentos e concentrações em que é

possível destacar zonas, áreas, complexos e centros turísticos.

Essa proposta permite avançar no sentido de compreender, dentro

da chamada região das Baixadas Litorâneas, no estado do Rio de

Janeiro, as atividades e o aparato turísticos concentrados em três

municípios: Cabo Frio, Arraial do Cabo e Armação dos Búzios.

Na verdade, o Plano Diretor de Turismo do Estado do Rio de

Janeiro atende a uma necessidade própria do Poder Público

fluminense de considerar a regionalização da atividade turística. O

Estado, conforme disposto por Marafon et al. (2012), como uma

proposta de política pública, dimensiona o espaço fluminense em

regiões de governo. O foco da proposta, então, consiste em

direcionar as ações públicas voltadas ao desenvolvimento de acordo com as especificidades geográficas, em sua visão mais abrangente,

de cada região fluminense. Seria, portanto, plenamente cabível que

o agente público promovesse uma leitura regional para o

desenvolvimento turístico do estado. Assim, o entendimento de uma

região turística, embora não desmerecido como um todo, deixa de

atender aos objetivos desta pesquisa. Por um lado, a pertinência da

região das Baixadas Litorâneas como indicativo de uma proposta de

política pública de desenvolvimento é determinante para se

estabelecer o recorte do presente estudo. Por outro, do ponto de

vista teórico-conceitual, não cabe empreender uma leitura da

mobilidade turística em dada porção do espaço fluminense

considerando o conceito de região. Nesse sentido, considerando-se

sobretudo as ideias de Boullón (2002), busca-se compreender a

dinâmica turística presente no recorte espacial eleito.

 

4. A flutuação: mobilidade turística na

 

região das Baixadas Litorâneas (RJ)

 

A flutuação-mobilidade turística está atrelada à própria

significação turística de dado recorte espacial. O espaço turístico

depende, portanto, para além dos próprios atrativos turísticos, do

empreendimento turístico em si e da infraestrutura turística

disponibilizada. A mobilidade é indicativo daquilo que Boullón (2002)

chama de área turística, pois envolve a existência de dois ou mais

centros turísticos, conforme observa o próprio autor, pois

 

as áreas turísticas devem estar dotadas de atrativos turísticos contíguos [...] e

necessitam, da mesma forma, de uma infraestrutura de transporte e

comunicação que possa funcionar como um subsistema, requerem a

presença mínima de um centro turístico e, se sua infraestrutura e recursos de

equipamentos e serviços são insuficientes, devem ser registrados como

potenciais (p. 83).

 

O centro turístico, por sua vez, guarda especificidades

dimensionadas pelo quantitativo de atrativos capazes de motivar o

uso turístico de determinado espaço. Ainda segundo Boullón (2002),

observa-se que o centro turístico “é todo o conglomerado urbano que conta em seu próprio território ou dentro de seu raio de

influência com atrativos turísticos de tipo e hierarquia suficientes

para motivar uma viagem turística” (p. 84).

Nesse sentido, dentro da região de governo das Baixadas

Litorâneas, entre os municípios nela encontrados, apenas três

guardam atributos suficientes para ser considerados centros

turísticos: Arraial do Cabo, Cabo Frio e Armação dos Búzios. Para

além do entendimento dos atributos indicados por Boullón (2002),

essa assertiva deriva da própria pesquisa empírica realizada.

Metodologicamente, houve uma predefinição dos três municípios

para a coleta de dados quanto à mobilidade turística. Obviamente,

partiu-se das orientações de Boullón (2002) quanto ao fato de que

os centros turísticos necessitariam de certos atributos para ser

considerados como tal, ou seja, a predefinição dos municípios

eleitos não foi aleatória. No entanto, a coleta de dados mostrou que,

de fato, esses três municípios guardavam a condição previamente

entendida. Na verdade, o atendimento ao objetivo básico da

pesquisa envolve demonstrar se há de fato uma flutuação-

mobilidade turística entre os municípios da região de governo

indicada. Se, por um lado, os dados apontam para uma forte

mobilidade entre os três municípios em destaque, por outro,

demonstram que os demais municípios da região de governo têm

muito pouca interação entre si (Gráficos 2, 5 e 6). Isso, por si só, já

é indicativo da análise antes feita, ou seja, de que não era possível

tratar o recorte como região turística, mas tão somente como área

turística. Em parte, porque os municípios que se destacam no trato

turístico são apenas três e, em parte, porque o fragmento de espaço

e alocação dos objetos turísticos, de infraestrutura de comunicação

e dos empreendimentos encontra-se concentrado na franja litorânea

da região de governo.

Coletaram-se dados nos três municípios, com a aplicação de

duzentos questionários. Para as demandas específicas desta

pesquisa, destacam-se os dados relativos aos municípios visitados

pelos turistas entrevistados. Elegeram-se atrativos turísticos

significativos desses três centros turísticos: a Praia do Forte, em

Cabo Frio; a Prainha, em Arraial do Cabo; e a Praia de Geribá, em

Armação dos Búzios. Essas praias são as mais conhecidas e frequentadas pelos turistas nos respectivos municípios. A coleta,

portanto, objetivava saber se seria possível identificar nesses

atrativos de maior expoente turistas hospedados de outros

municípios da região de governo. Também objetivava saber se os

turistas ali presentes se deslocavam para as atrações turísticas de

outros municípios da região.

Dos turistas entrevistados em Arraial do Cabo, apenas 2% dos

entrevistados não estavam hospedados em um dos três municípios

em foco (Gráfico 4), ou seja, Arraial do Cabo, Cabo Frio e Armação

dos Búzios. Também se revelou significativa a informação de que

cerca de dois terços dos entrevistados em Arraial do Cabo não

estavam hospedados no município, como atesta o mesmo Gráfico 4.

Para além disso, observa-se, conforme atesta o Gráfico 6, que a

maioria dos entrevistados em Arraial do Cabo passa a maior parte

do tempo nos outros dois municípios, Armação dos Búzios e Cabo

Frio. A posição geográfica de Arraial do Cabo e as atividades de

excelência desenvolvidas no turismo local, como pesca submarina e

mergulho de apreciação da paisagem submarina, explicam, em

grande parte, o fato de a maior parte dos entrevistados não estar

hospedada naquele município. Há um intenso afluxo para o

município por essas duas razões. Por outro lado, não se despreza o

fato de que os municípios de Armação dos Búzios e Cabo Frio

possuírem serviços muito mais diversificados do que aqueles

presentes em Arraial do Cabo, razão maior para os dois primeiros

terem primazia no quesito hospedagem.

Gráficos. Dados colhidos em Armação dos Búzios

 

Gráficos. Dados colhidos em Arraial do Cabo

Gráficos. Dados colhidos em Cabo Frio

Em Cabo Frio, os entrevistados, em sua grande maioria, estavam

hospedados na própria cidade. Nesse município, observou-se,

conforme apresentado no Gráfico 7, que raríssimos eram aqueles

não hospedados, para além da localidade analisada, fosse em

Armação dos Búzios ou em Arraial do Cabo. De acordo com o

Gráfico 8, a flutuação-mobilidade identificada diz respeito àquela

encontrada em Arraial do Cabo, ou seja, os três centros turísticos se

completam em termos de mobilidade, porém os demais dessa

região de governo não interagem nesse quesito. Observa-se que os

turistas entrevistados em Cabo Frio são aqueles que mais tempo

permanecem no município, como apontam os Gráficos 3, 6 e 9.

Em Armação dos Búzios, cerca de três quartos dos entrevistados

se encontravam hospedados na própria cidade (Gráfico 1), número

tão significativo quanto aquele encontrado em Cabo Frio. Entretanto,

quando se considera a mobilidade dentro do conjunto de municípios

da região das Baixadas Litorâneas, também em Armação dos

Búzios destaca-se a mobilidade interna, que volta a apresentar

padrão similar ao dos demais municípios analisados, com

ocorrência do fenômeno praticamente limitado a essa trinca de

cidades, conforme se constata no Gráfico 2.

É certo que a motivação turística incide, predominantemente,

sobre os resultados obtidos. Mas o que leva determinado turista a

considerar suas predileções de uso turístico resulta de um conjunto

de considerações que passam pelos atributos naturais e histórico-

culturais identificados em Ribeiro (2003) e Gomes (2010), pelas

análises de Boulón (2002) sobre paisagem, estrutura e

superestrutura turística, pela questão da mobilidade proposta por

Urry (2000) e pelas motivações turísticas propostas por Shaw e

Williams (2004). Corroborando essa ideia e levando em conta todos

os turistas entrevistados, raros foram os que não consideraram os

municípios de Cabo Frio, Armação dos Búzios e Arraial do Cabo

aqueles com as atividades turísticas mais desenvolvidas. De fato, a

mobilidade existe, mas apenas na área turística que congrega os

três centros turísticos, o que nos leva a verificar que, para além da

mobilidade, também existe uma flutuação entre esses municípios,

pois a rede viária permite esse tipo de deslocamento e a maior das

atrações turísticas é a praia.

5. Considerações finais

 

A análise dos dados coletados à luz da base teórica apresentada

no estudo organizado por Gomes (2010) e na obra de Boullón

(2002) nos conduz a duas considerações fundamentais: a área

turística em foco não concorre com a região de governo das

Baixadas Litorâneas, pois é mínima a mobilidade turística que

envolve os municípios não destacados; a área turística realmente se

concentra nos municípios destacados, pois a mobilidade é

imperceptível para além deles.

Os atrativos turísticos presentes tanto em Arraial do Cabo como

em Cabo Frio e Armação dos Búzios dimensionam uma qualificação

turística para dada porção da região de governo das Baixadas

Litorâneas. É certo que os dados demonstram laços por demais

significativos entre os três centros turísticos, como também é certo

afirmar que ocorre uma interação mínima entre os demais

municípios da região de governo. Por outro lado, o avanço nesta

pesquisa pressupõe a coleta de dados nos municípios não

contemplados nesta primeira análise. Se a escolha preestabelecida

dos municípios guarda posicionamento metodológico prévio,

também é producente verificar que tipo de mobilidade – se é que

realmente existe – ocorre entre os demais municípios da região de

governo.

Acreditamos que algumas condições preexistentes e alguns

atributos da paisagem natural condicionaram a maior intensificação

do uso turístico nos municípios de Cabo Frio, Arraial do Cabo e

Armação dos Búzios. A imaginação analítica permite avaliar que as

propostas de ação pública vinculadas aos demais municípios da

região devem levar em conta que a maior qualificação das

atividades de cunho turístico permitiria maior inter-relação entre

eles.

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