Revisitando o Território Fluminense VI
15. A espetacularização do lazer em Volta Redonda: os investimentos esportivos
A espetacularização do lazer
em Volta Redonda: os
investimentos esportivos1
Fábio Salgado Araújo 2
1. Introdução
Nas duas últimas décadas, a cidade de Volta Redonda passou por
grandes transformações com a privatização da Companhia
Siderúrgica Nacional (CSN), ocorrida em 1993. Com isso, houve o
afastamento definitivo da CSN do fomento de políticas sociais e dos
investimentos em melhorias urbanas, o que levou a prefeitura a
assumir maior responsabilidade em relação aos problemas
vivenciados pelo município, efetuando intervenções mais diretas
sobre o espaço urbano. Portanto, o poder público municipal
estabeleceu um conjunto de políticas e aumentou os investimentos
nas áreas de saúde, educação, esporte e lazer.
O objetivo é dinamizar a economia pós-privatização, por meio de
investimentos na infraestrutura urbana do município e em políticas
sociais. Houve investimentos na construção/recuperação de praças,
viadutos, avenidas, monumentos etc., juntamente com os
investimentos sociais em saúde, educação, cultura, esporte e lazer;
a prefeitura procura descolar a imagem da cidade vinculada à CSN
para uma cidade baseada em qualidade de vida, bem-estar e
cidadania.
Assim, atualmente o Poder Público municipal procura alterar a
imagem da cidade vinculada à empresa (cidade do aço) para a de
uma cidade tida como moderna. Busca, assim – através de uma
gestão considerada inovadora e do city marketing –, criar uma
imagem associada ao bem-estar social e à cidadania, com a realização de investimento em diversas áreas sociais. Entre esses
investimentos sociais, destacam-se aqueles associados ao lazer,
principalmente os esportivos, com a prefeitura ressaltando seus
benefícios para a qualidade de vida da população.
Essa nova orientação da política urbana tem por objetivo
promover a cidade e atrair novos investidores, na tentativa de
fortalecer a centralidade regional na área de comércio e prestação
de serviços. No entanto, os investimentos em lazer, principalmente
aqueles ligados aos esportes, apesar dos benefícios que
apresentam, precisam ser questionados.
Na atualidade, o lazer se inscreve no modelo capitalista de
produção, sendo utilizado pelo poder público municipal, como já
assinalado, para produzir a imagem de uma cidade com boa
qualidade de vida. Desse modo, há um lazer espetacularizado, em
que a população vive em um simulacro cooptado pelo discurso do
poder público municipal.
2. Volta Redonda: uma cidade em
transformação
O município de Volta Redonda (Figura 1), localizado na região de
governo denominada Médio Paraíba, pertence à microrregião do
Vale do Paraíba, pertencente à mesorregião Sul Fluminense. Essa
região é cortada pelo rio Paraíba do Sul, responsável por seu nome,
devido a um acidente geográfico em seu curso.
Figura 1. Mapa com a localização de Volta Redonda (RJ)
Fonte: Elaborado pelo autor (2012).
A história do município começou no século XVIII, com a
colonização do médio Vale do Paraíba fluminense ligado ao ciclo do
café. Entretanto, com a escolha do local para a instalação da
Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) na década de 1940,
grandes mudanças estavam por vir.
A cidade, juntamente com a siderúrgica, foi planejada a partir do
modelo de cidade industrial idealizado pelo arquiteto socialista-
utópico francês Tony Garnier. Esse modelo foi adaptado pelo
também arquiteto Attílio Corrêa Lima, ligado ao autoritarismo
populista de Getulio Vargas. O objetivo era transformar Volta
Redonda numa cidade-modelo, uma experiência exemplar, com um
planejamento residencial que evidenciasse a hegemonia dos mais
graduados na empresa.
De acordo com Lopes (1993), o plano de Volta Redonda deveria
contribuir para exaltar o industrialismo, sublinhar a política social do governo e espacializar, através do desenho e do equipamento da
cidade, o homem novo que estava sendo construído. A elaboração
do plano urbanístico da cidade foi influenciada pelo modelo
urbanístico norte-americano, com o zoneamento indicando
especialização por área e ordenação dos fluxos, inclusive de áreas
e equipamentos destinados ao lazer. Previa-se uma cidade linear,
com um desenho simples e equilibrado, e suas principais funções
bem articuladas. A área central seria ocupada pelo centro comercial,
desenvolvendo-se paralelamente à usina e concentrando toda a
infraestrutura. A CSN seria um modelo autárquico segundo o qual a
empresa utilizaria diversas estratégias para educar, vigiar e controlar
o trabalhador dentro e fora da fábrica. A estrutura da vila operária,
por sua vez, reproduzia a estrutura disciplinar da usina, com um
arranjo espacial que representava essa ordem. Havia, dessa forma,
um duplo controle dos trabalhadores, configurando uma verdadeira
company-town (Calife, 2000; Moreira, 2000; Fontes e Lamarão,
2006; Piquet, 1998).
O não aproveitamento de todos os trabalhadores que construíram
a usina gerou uma desmobilização da mão de obra empregada na
construção e, por conseguinte, um crescimento desordenado e
desvinculado dos interesses imediatos da empresa. Com isso, na
margem esquerda do Rio Paraíba, surgia outra Volta Redonda,
ocupada de forma não planejada por pequenos comerciantes e por
aquela massa de trabalhadores dispensados da CSN. Os dois
núcleos originais de Santo Antônio de Volta Redonda tornaram-se o
eixo de ligação entre os bairros planejados e os novos bairros que
surgiram nesse processo de crescimento.
Assim, Volta Redonda ficaria dividida em duas: à margem direita
do rio, desenvolvia-se o núcleo urbano, a partir do projeto dos
bairros operários – a chamada “Cidade Nova” –, e, à margem
esquerda, a chamada “Cidade Velha”, separada da CSN e sem
dispor dos serviços da parte planejada. Assim, os trabalhadores não
aproveitados pela CSN foram deslocados para a parte “velha” ou
para a periferia da cidade, e os proprietários de algumas fazendas
da região se converteram em loteadores e especuladores. Com
isso, a cidade conheceu uma considerável expansão da malha
urbana (principalmente nas décadas de 1950 e 1960), com a implantação de numerosos loteamentos que deram origem a novos
bairros, principalmente na margem esquerda do rio Paraíba do Sul.
Nesse contexto, o processo de ocupação de Volta Redonda gerou
uma malha urbana descontínua e rarefeita, com grandes vazios e
áreas urbanas enquistadas, subindo os morros e instalando-se em
pequenas áreas de baixada. Não apenas as características físicas
definiram essa ocupação, como também o fato de as melhores
terras estarem nas mãos da CSN e de alguns fazendeiros (Calife,;
Moreira, 2000; Fontes e Lamarão, 2006).
Nas décadas de 1960 e 1970, a CSN começou a reduzir seus
encargos com moradias para funcionários, vendendo as casas por
meio da criação de uma imobiliária. Também se desfez de seu
patrimônio público – ruas, praças, serviços urbanos etc. – e dos
encargos decorrentes de sua manutenção, passando-os para a
Prefeitura Municipal. Assim, no dia 1º de janeiro de 1968, a
prefeitura municipal e a CSN assinaram um termo de entrega e
recebimento dos serviços urbanos, dando início ao processo de
unificação do espaço urbano, ao reunir, sob a mesma
administração, a cidade operária e a cidade velha. Essa medida,
contudo, multiplicou os encargos da administração municipal, que
não se encontrava preparada para tanto, passando para a
responsabilidade da prefeitura o fornecimento desses serviços. O
impacto dessa transferência foi significativo, pois até mesmo a água
que abastecia os bairros da cidade planejada era fornecida pela
CSN (Costa, 2004).
A crise na década de 1980 e o acúmulo de dívidas da CSN foram
fatores que contribuíram para a estagnação econômica do
município. As políticas governamentais em nível nacional
empreendidas desde o fim da década de 1980 levaram ao processo
de privatização da usina em 1993, dando origem à maior crise vivida
pelo município em sua história. Com essa privatização, diminuiu a
intervenção da siderúrgica diretamente sobre a cidade, com sua
retirada da dotação de infraestrutura urbana e o encerramento das
políticas sociais empreendidas pela empresa.
A CSN continua a ser importante para o município. No entanto,
para enfrentar os graves problemas sociais, ambientais e
econômicos que culminaram com a privatização, houve um processo de reestruturação de Volta Redonda. Assim, o poder
público municipal tem aumentado a presença e o poder no fomento
de políticas públicas e sociais.
O poder público municipal, principalmente a partir de 1997,
promoveu alterações na estrutura administrativa da cidade, com
novos investimentos procurando desenvolver o setor de comércio e
serviços. Houve a construção/reforma de equipamentos e mobiliário
urbano, principalmente aqueles ligados a saúde, educação, lazer e
esporte. Esses novos investimentos em infraestrutura,
equipamentos e mobiliário foram mais concentrados nos bairros
centrais, que são áreas contíguas à CSN. Assim, reforçou-se a
centralidade de determinados bairros, induzindo o setor privado a
fazer investimentos em determinadas áreas, enquanto deixava
outras desassistidas.
Nesse contexto, no início deste século, Volta Redonda vive um
período de grande transformação, em que o poder público municipal
procura substituir a imagem vinculada à empresa (cidade do aço)
pela imagem de uma cidade moderna, baseada em outros
parâmetros, como, por exemplo, cidadania. Para isso, vem
investindo na construção e reforma de equipamentos urbanos para
criar uma imagem de progresso e construir um consenso junto à
população em torno das intervenções urbanas aplicadas. Procura-
se, assim, sugerir à população uma recuperação econômica após a
crise vivida pelo município depois da privatização. Esse discurso
político tem alto poder de legitimação junto às classes trabalhadoras
órfãs do paternalismo da CSN, outrora presente. Por essa razão,
testemunham-se investimentos em diversas áreas sociais, com
destaque para o lazer, principalmente na área esportiva (Oliveira e
Mascarenhas, 2007; Souto, 2007; Palmeira, 2012).
3. Os novos investimentos em lazer: a
espetacularização dos eventos
esportivos
As mudanças empreendidas pela CSN na década de 1960
também conduziram a uma diminuição de investimentos por parte
da empresa em infraestrutura e investimentos em lazer. Desde o
final da década de 1960 e o início da década de 1970, não foram
mais criados equipamentos de lazer pela empresa. Com o forte
crescimento urbano a partir de 1970, teve início um aumento dos
investimentos da prefeitura em equipamentos e atividades de lazer
para a população da cidade, principalmente para os moradores não
vinculados à siderúrgica.
Entretanto, em Volta Redonda os investimentos em lazer ficaram
estagnados durante toda a década de 1980 e parte dos anos 1990,
sendo retomados apenas no final da última década do século XX.
Nesse momento, então, o lazer aparece, em consonância com a
Constituição Federal de 1988, como uma preocupação do Poder
Público municipal, integrando a Lei Orgânica Municipal (1990), e
posteriormente reafirmado no Plano Diretor (2008). Na Lei Orgânica
(1990), o compromisso do poder municipal é expresso da seguinte
forma:
O município assegurará o exercício ao direito ao lazer, mediante a oferta de
equipamento e de área pública de lazer para fins de recreação, esportes e
execução de programas culturais e turísticos. O município proporcionará
meios de recreação à comunidade mediante reserva de espaços livres e
verdes em forma de parques, bosques e jardins. Os serviços municipais de
esportes e recreação articular-se-ão com atividades culturais do município
(Lei Orgânica Municipal, 1990, p. 76).
Assim, não houve apenas o aumento dos investimentos em
infraestrutura e equipamentos de lazer por parte do município; o
Poder Público municipal também passou a incentivar e fomentar o
lazer de caráter privado, atraindo investimentos como lojas de
departamentos, shopping centers, restaurantes, hotéis e bares,
aliados a eventos e espetáculos, como shows, concertos,
exposições, eventos esportivos, entre outros, direcionando o lazer
para o consumo e o espetáculo.
Para Debord (1997), o espetáculo é uma forma de expressão da
sociedade, em que a vida real é pobre e fragmentada, e os
indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente
as imagens de tudo o que lhes falta na existência real. Nesse sentido, o autor aponta que a sociedade se resume a um acúmulo
de espetáculos em que as situações e as relações sociais formam
uma realidade paralela que serve de objeto de contemplação e
ilusão para as pessoas. Foi nesse contexto que se seguiram os
investimentos em lazer na pós-privatização. Houve um acúmulo de
eventos relacionados ao lazer no município, formando uma
realidade paralela de boa qualidade de vida com cidadania que não
condiz com a realidade socioespacial urbana.
A sociabilidade no espaço urbano do município se caracteriza por
esses eventos, que ocorrem de maneira pontual no tecido urbano e
de forma presenteísta. Portanto, o tempo do não trabalho na cidade
é marcado por eventos em que os moradores da cidade se
identificam cada vez mais com o discurso elaborado pela prefeitura.
Assim, para se compreender o lazer na cidade, é necessário
também compreender o discurso da prefeitura, alardeado, de forma
ostensiva, nos outdoors espalhados pela cidade e veiculado nos
principais meios de comunicação. Os espetáculos apresentam-se
como a própria sociedade. Trata-se de uma relação social, resultado
do mundo da produção em que a informação voltada ao
entretenimento constitui o modelo de vida socialmente dominante. A
prática do lazer, seja no espaço público, seja no privado, ganha uma
dimensão cada vez maior na sociedade atual – e isso é o que
também ocorre no município de Volta Redonda (Debord, 1997).
É por meio de projetos/programas e eventos que a prefeitura
apresenta Volta Redonda como um município com qualidade de vida
e cidadania, em que os moradores têm acesso a saúde, educação,
habitação e lazer – uma tentativa de recuperar a autoestima da
população, afetada pela crise gerada com a privatização. Nesse
sentido, há uma espetacularização das atividades de lazer na
cidade, com ativa participação da população. Assim, cria-se a
imagem de uma cidade com boa qualidade de vida e cidadania, um
espaço em que todos têm acesso a lazer de qualidade. Essa
imagem é uma abstração do real generalizado, consequência de
uma sociedade capitalista em que o espetáculo é a forma mais
desenvolvida.
Assim, essa cidade imaginada e presente apenas no discurso do
poder público municipal não existe de fato; trata-se de um simulacro
(Figura 2), que busca minimizar os problemas sociais e ambientais
que a cidade enfrenta, como, por exemplo, destinação final do lixo,
tratamento de esgoto, ilhas de calor, falta de áreas verdes na
cidade, além de questões relacionadas a trânsito e especulação
imobiliária que geram uma sobrecarga na infraestrutura do
município. Entretanto, esse simulacro é mais atraente para o
cidadão, agora espectador, do que a realidade urbana em si. Os
simulacros representam e ressignificam a simulação, a aparência
externa, copiando e imitando a realidade. Por outro lado, esses
simulacros dão visibilidade às cenas, excluindo a dimensão da
subjetividade e tornando tudo visível e público. Desse modo, a
realidade deixou de existir e passa-se a viver a representação da
realidade fortemente difundida pela prefeitura (Baudrillard, 1981).
Os investimentos em inúmeros projetos/programas destinados ao
lazer (que, além de variados, atendem de crianças a pessoas na
terceira idade), passando por centenas de eventos anuais nas áreas
cultural e esportiva, o tempo vivido e sua linearidade, tudo isso
perde sentido no espaço urbano do município. Um bom exemplo é a
quantidade de eventos culturais realizados anualmente na cidade. A
Tabela 1 mostra a quantidade, os locais e a descrição dos eventos
realizados em 2013.
Figura 2. Outdoor da propaganda institucional da prefeitura
Fonte: Arquivo pessoal, 2015.
Tabela 1. Quantidade, localização e descrição dos eventos
realizados pela Secretaria Municipal de Cultura para o ano 2013
Quantidade Localização Descrição dos eventos
de eventos
30 Memorial Realização de shows
zumbi musicais, teatro e
exposições. Exemplos:
“Freakshow”, “Roda de
Samba”, “Dia da
Consciência Negra”.
200 Eventos nos Duas apresentações
bairros semanais de espetáculos
nos bairros da cidade.
Exemplos: “Arena de Viola”,
“Cinema nos Bairros”, “Baile
Popular”, “Seresta no
Bairro”, “Roda Musical” e
“Palco Sobre Rodas”.
20 Espaço Exposições artísticas
Zélia Arbex relacionadas a fotografia e
artes plásticas, entre outras.
Exemplos: “Salão do
Humor”, “Olhar 180º”.
50 Ilha São Local para realização de
João grandes eventos e
exposições. Exemplos:
“Volta Redonda do Rock”,
“Feira da Primavera”, “Folia
de Reis”, “Feira Regional do
Livro“, “Encontro de Carros
Antigos”.
90 zoológico Apresentações de teatro
Municipal infantil nos fins de semana.
45 “Cultura Apresentação gratuita de
para Todos” shows musicais com
artistas regionais e
nacionais
90 Memorial Realização de eventos
Getulio diversos. Exemplos: “Feira
Vargas de Artesanato”, “Vila
Cultural”, “Grito do Rock”,
“Banda Municipal”.
Fonte: Secretaria Municipal de Cultura, 2013.
Em 2013, esses eventos reuniram cerca de duzentas mil pessoas.
Planeja-se aumentar em 15% o número de eventos até 2017
(passando dos atuais 525 eventos anuais para 605), com uma
previsão de gasto de cerca de R$ 8 milhões. Os eventos esportivos
também aumentaram nos últimos anos, devido à ação da Prefeitura,
que tem procurado atrair e incentivar sua promoção.3 São
promovidos no município torneios esportivos de futebol, basquete e
vôlei, competições de natação, atletismo e ginástica artística e
torneios esportivos estudantis; para a terceira idade, além de
competições para portadores de necessidades especiais, realizam-
se eventos esportivos estaduais e nacionais.4 Os gastos com esses
eventos em 2013 foram de R$ 3,7 milhões; e a previsão é de que
aumente o número de eventos esportivos e o montante de
investimentos, que deverá ser superior a R$ 7 milhões em 2017. 5
Esse aumento dos investimentos na área esportiva refere-se tanto
aos equipamentos como aos programas e projetos. Tais
investimentos estão voltados ao esporte de desempenho, ao
esporte-educação e ao esporte-lazer.6 A maior parte dos
programas/projetos e da construção/reforma de equipamentos
esportivos é desenvolvida pela Secretaria Municipal de Esporte e
Lazer, com recursos da prefeitura e oriundos de convênios com o
governo estadual e o Ministério dos Esportes.
Nos últimos dez anos, Volta Redonda recebeu do Ministério do
Esporte cerca de R$ 30 milhões para a realização de atividades
ligadas ao esporte, sendo R$ 12 milhões apenas nos últimos quatro
anos. Foi o segundo maior número de convênios da prefeitura com
a União, perdendo apenas para o Ministério da Saúde, e o segundo
maior volume, atrás somente do Ministério das Cidades. Na Tabela
2, verificamos a quantidade de verba recebida pela prefeitura e sua
destinação, além da contrapartida realizada pelo poder público
municipal.
Tabela 2. Repasses do Ministério dos Esportes para a prefeitura
(1997-2013)
Nº de Projetos Valor do Valor da
registros Conveniados Convênio Contrapartida
38 Construção e R$ R$
reforma de 8.518.308,42 6.851.607,64
infraestrutura
esportiva
18 Núcleos de R$ R$
esporte e lazer 6.234.985,50 2.834.759,86
10 Programa R$ R$
“Esporte 1.469.321,57 1.264.269.54
Solidário”
15 Esporte R$ R$
paralímpico 2.061.805,05 1.045.328,68
7 Aquisição e R$ R$ 828.488,55
confecção de 6.339.648,24
material
esportivo
4 Programa R$ R$
“Segundo 1.530.685,00 1.081.095,00
Tempo”
3 Projetos R$ R$ 67.900,00
esportivos para 243.903,03
a terceira idade
3 Núcleos R$ R$ 749.878,00
esportivos 3.954.642,00
intermunicipais
Fonte: Sistema Integrado de Administração Financeira do
Governo Federal (Siafi). Disponível em:
http://www.portaltransparencia.gov.br/convenios.
A maior parte dos investimentos foi direcionada a
construção/reforma e aquisição de equipamentos esportivos, soma que ultrapassa R$ 22 milhões. Em seguida, está o direcionamento
dos investimentos para programas e projetos esportivos voltados a
crianças e adolescentes em vulnerabilidade social e para a terceira
idade, totalizando mais de R$ 11 milhões. Em contrapartida aos
repasses recebidos do Ministério do Esporte, a prefeitura gastou
cerca de R$ 15 milhões. Com recursos próprios de seu orçamento,
o município tem aumentado seus investimentos em esportes e lazer.
Na Tabela 3, observa-se a evolução das receitas orçamentárias da
prefeitura e os gastos com esporte e lazer entre os anos de 2007 a
2011.
Tabela 3. Evolução das despesas totais e de esporte e lazer da
prefeitura (2007-2011)
Ano Despesas totais por Despesas de esporte e
função lazer
2007 R$ 426.016.500,00 R$ 7.495.200,00
2008 R$ 500.646.900,00 R$ 13.795.900,00
2009 R$ 582.812.800,00 R$ 18.915.100,00
2010 R$ 656.962.400,00 R$ 17.336.200,00
2011 R$ 776.757.000,00 R$ 25.814.000,00
Fonte: Dados Contábeis dos Municípios Brasileiros. Finanças do
Brasil (Finbra). Disponível em:
http://www3.tesouro.fazenda.gov.br/estados_municipios/index.asp.
Entre os anos de 2007 e 2011, as despesas totais por função no
município aumentaram cerca de 80%, enquanto as despesas em
esporte e lazer aumentaram em 370%. De acordo com os dados da
Prefeitura, para 2012 foram gastos R$ 23 milhões e a previsão para
2013 é de cerca de R$ 25 milhões anuais em esporte e lazer. A
previsão para 2017 é que os gastos atinjam R$ 53,5 milhões, ou
seja, mais que o dobro de 2013. No município, os gastos com
esporte e lazer ocupam a oitava posição, atrás de gastos com
administração direta, assistência social, previdência social, saúde,
educação, saneamento básico, energia e transporte, e ficando à
frente dos gastos com segurança pública, infraestrutura urbana, comunicações, habitação, cultura, trabalho e patrimônio, entre
outros.
Esses investimentos esportivos propiciaram um aumento nos
programas e projetos, bem como no número de equipamentos
esportivos no município, com o intuito de atender não somente o
esporte de desempenho, mas principalmente o esporte-educação e
o esporte-lazer. Atualmente, Volta Redonda conta com diversos
projetos/programas para o atendimento da população. Há
programas como escolinhas de futebol, vôlei, badminton, remo, kart,
hipismo e ginástica artística e de trampolim, com a participação dos
alunos em competições nacionais e internacionais. Todos esses
projetos são desenvolvidos com equipamentos esportivos da
Prefeitura.
Os equipamentos são: 14 ginásios poliesportivos, 254 quadras em
diferentes bairros (sendo cinquenta cobertas), cinquenta campos de
futebol e futebol society. Existem ainda o parque aquático com
piscina semiolímpica, o ginásio municipal de skate, o kartódromo, a
arena de hipismo, a sede náutica de remo e o estádio Raulino de
Oliveira, com capacidade para 25 mil pessoas. Na Tabela 4, podem-
se observar o uso e o local dos principais equipamentos esportivos
de propriedade da prefeitura, enquanto a Figura 3 mostra a
quantidade de equipamentos nos bairros da cidade. Podemos
perceber uma concentração desses espaços junto à curva do rio,
perto de áreas urbanas não consolidadas – importante notar que a
prefeitura não instalou equipamentos esportivos nos bairros
construídos pela CSN.
Assim, com o aumento dos investimentos em esportes nos
últimos anos, o município de Volta Redonda foi classificado em
primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento Esportivo (IDE) criado
pela Secretaria de Esporte e Lazer do estado do Rio de Janeiro
(SEEL), como se observa na Tabela 5. Essa pesquisa foi realizada
pela Superintendência de Desportos do estado (Suderj), que traçou
um diagnóstico dos 92 municípios fluminense a fim de conhecer o
nível de desenvolvimento esportivo. O índice é composto por oito
dimensões: recursos humanos no esporte; articulação institucional;
legislação municipal; recursos públicos; convênios e parcerias;
ações, programas e projetos esportivos; eventos esportivos; instalações e equipamentos. Com 91 projetos esportivos, Volta
Redonda ficou em primeiro lugar, com 3,58 pontos.
Tabela 4. Localização dos equipamentos esportivos e sua
finalidade
Equipamento Localização Utilização
esportivo
Ginásio Rua Jaime Atividades esportivas
Poliesportivo Martins, nº para crianças e
Darcise José 850, Santo adolescentes e para a
de Carvalho Agostinho comunidade em geral.
Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Av. Presidente Atividades esportivas
Poliesportivo Kennedy, nº para crianças e
Vanecina 6.090, adolescentes e para a
Freitas Siderlândia comunidade em geral.
Henrique Atividades específicas
Vicente para a terceira idade.
Ginásio Rua Cap. BL. Atividades esportivas
Poliesportivo Bragança, nº para crianças e
Francisco 888, São adolescentes e para a
Gomes do Geraldo comunidade em geral.
Nascimento Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Av. dos Ex- Atividades esportivas
Poliesportivo combatentes, para crianças e
José Alves s/nº, Santa adolescentes e para a
“Zinho” Cruz comunidade em geral.
Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Rua 43 c/ rua Atividades esportivas
Poliesportivo 35, Vila Rica para crianças e
Carlos (Jd. adolescentes e para a
Augusto Tiradentes) comunidade em geral.
Haasis Filho Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Rua Triestes, Atividades esportivas
Poliesportivo s/nº, Ponte para crianças e
Abraham Alta adolescentes e para a
Medina comunidade em geral.
Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Rua Érika Atividades esportivas
Poliesportivo Berbet, nº 3, para crianças e
Heth Lustoza Vila Rica (Três adolescentes e para a
Bastos Poços) comunidade em geral.
Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Av. Antônio de Atividades esportivas
Poliesportivo Almeida para crianças e
Amaro Inácio Gama, Retiro adolescentes e para a
comunidade em geral.
Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Rua Vereador Atividades esportivas
Poliesportivo Acácio da para crianças e
Nery Miglioly Rocha, nº 82, adolescentes e para a
Açude I comunidade em geral.
Atividades específicas
para a terceira idade.
Ginásio Rua Treinamento profissional
Poliesportivo Alexandre e das categorias de
Gal. Polastri Filho, base do vôlei masculino.
Euclydes nº 761, Ilha Realização de torneios
Figueiredo São João e jogos oficiais.
Ginásio Rua 848, s/n°, Atividades de
Municipal de Jardim treinamento. Atividades
Skate Tiradentes esportivas para crianças
Fernando e adolescentes.
Schimdt Realização de torneios
amadores.
Estádio Rua 539, s/n°, Atividades de
Municipal Jardim treinamento profissional
Raulino de Paraíba de futebol masculino e
Oliveira feminino.
Parque Rua Atividades esportivas
Aquático Alexandre para crianças e
Municipal Polastri Filho, adolescentes.
nº 791, Ilha Atividades recreativas
São João para a comunidade em
geral. Torneiros
amadores de natação.
Kartódromo Av. Ministro Atividades esportivas
Municipal de Salgado Filho, para criança e
Volta s/nº, adolescentes.
Redonda Aeroclube Treinamento e
aperfeiçoamento
profissional de pilotos.
Realização de
campeonatos amadores
e profissionais.
Complexo Av. Ministro Treinamento para as
Esportivo Salgado Filho, categorias de base de
Jornalista s/nº, futebol feminino e
Oscar Aeroclube masculino. Treinamento
Cardoso profissional.
Centro de Rua 539, s/nº, Atividades esportivas
Artes Estádio para crianças e
Marciais Municipal adolescentes.
Mestre Boa Raulino de Treinamento
Viagem Oliveira, semiprofissional.
Jardim Realização de torneios
Paraíba amadores e
profissionais.
Centro Rua 539, s/nº, Atividades esportivas
Municipal de Estádio para crianças e
Ginástica Municipal adolescentes.
Artística Raulino de Realização de torneios
Oliveira, amadores.
Jardim
Paraíba
Miniestádio Rua Atividades esportivas
Edgar de Alexandre para crianças e
Carvalho Polastri Filho, adolescentes.
nº 791, Ilha Treinamento
São João profissional. Realização
de jogos e torneios
profissionais.
Arena Praça Atividades esportivas
Esportiva Independência para crianças e
Professor e Luz II, adolescentes e para a
Paulo Aterrado comunidade em geral.
Camargo de
Melo
Fonte: Secretaria de Esporte e Lazer (SMEL) da Prefeitura
Municipal de Volta Redonda. Disponível em:
http://www.portalvr.com/smel/centrosesportivos.php.
Figura 3. Mapa com a distribuição dos equipamentos esportivos
da Prefeitura Municipal de Volta Redonda-RJ
Fonte: Elaborado pelo Autor, 2013.
Tabela 5. Índice de Desenvolvimento Esportivo (IDE) do estado
do Rio de Janeiro
Class. IDE Município Class. IDE Município
1 3,58 Volta Redonda 11 3,00 Porto Real
2 3,16 Campos dos 12 2,97 Niterói
Goytacazes
3 3,10 Resende 13 2,97 Paty dos
Alferes
4 3,10 Santa Maria 14 2,97 Angra dos
Madalena Reis
5 3,10 Barra Mansa 15 2,97 Mangaratiba
6 3,03 Cardoso Moreira 16 2,90 Conceição
de Macabu
7 3,03 Macaé 17 2,90 São João da
Barra
8 3,03 Macuco 18 2,90 Vassouras
9 3,03 Quissamã 19 2,87 Rio das
Ostras
10 3,03 Rio das Flores 20 2,84 Barra do
Piraí
Fonte: Índice de Desenvolvimento do Esporte. Cartilha Elaborada
pela Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro
(Suderj), 2011. Disponível em: http://www.suderj.rj.gov.br.
Volta Redonda anunciou novos investimentos esportivos para os
próximos anos. Está em construção a Vila Olímpica, que contará
com um espaço de 35 mil m 2 para a prática de atletismo em alto
nível, com pistas destinadas a provas de corrida, salto e arremesso,
certificadas internacionalmente pela Associação Internacional de
Federações de Atletismo (IAAF), em convênio com o governo
estadual, no valor de R$ 12 milhões. Além disso, está prevista a
construção de um ginásio para a prática de ginástica artística no valor de R$ 8 milhões. A seguir, apresentamos dois equipamentos
esportivos de propriedade da prefeitura e seus usos.
4. O estádio Sylvio Raulino de Oliveira
No final dos anos 1940, o general Sylvio Raulino de Oliveira,
então presidente da CSN, financiou, com recursos da empresa, a
construção de um estádio de futebol, que veio a ser inaugurado em
1951. Mais tarde, o estádio ganhou o nome de seu mentor. Com o
crescimento e a popularização do futebol, o objetivo da empresa era
criar um espaço para que os trabalhadores e suas famílias
participassem de jogos e também assistissem às partidas. Em 1959,
Raulino transferiu a administração do estádio para o Guarani
Futebol Clube, por meio de comodato com duração de quatro anos.
Na década de 1960, o então presidente da CSN, Osvaldo Pinto da
Veiga, determinou que se fizesse a iluminação do estádio.
Na década de 1970, houve a ideia de se criar um time próprio da
cidade, e o prefeito à época, Nelson Gonçalves, reformou o estádio,
ampliando sua capacidade, pois o novo time jogaria contra outras
equipes do estado. Porém, o prefeito queria uma garantia de que
efetivamente esse time seria criado. Houve, então, uma reunião
entre a Prefeitura, a CSN e a Confederação Brasileira de Desportos
(atual Confederação Brasileira de Futebol – CBF) para a reforma do
estádio e a criação do time, processo que durou sete meses. Assim,
em 1976, após a fusão dos estados do Rio de Janeiro e da
Guanabara, nasceu o Volta Redonda Futebol Clube, para a disputa
do novo campeonato estadual de futebol.
Em 1976, o prefeito desapropriou o estádio, pois o terreno
pertencia à CSN. 10 O estádio tinha capacidade para 25 mil pessoas,
contava com arquibancadas de madeira com estrutura metálica e
apresentava características simples. De acordo com a Prefeitura,11
em 2001 o prefeito Antônio Francisco Neto acatou a proposta do
jornalista e assessor Oscar Cardoso e iniciou a reforma do estádio.
Com recursos próprios do município, na ordem de R$ 16 milhões,
após três anos de obras, surgiu um novo estádio de arquitetura
moderna (Figura 4). Com capacidade reduzida para vinte mil pessoas, insere-se nas normas do Estatuto do Torcedor – de acordo
com a prefeitura, o novo espaço oferece mais conforto, beleza e
segurança em seu interior.
O estádio é considerado o primeiro do Brasil a abrigar um
complexo de esportes, lazer, saúde e educação, com acesso
gratuito à população. Entretanto, sem contar com um time
profissional que tenha grande torcida e que dispute os principais
campeonatos de futebol do Brasil, fica subutilizado no que concerne
à realização de eventos esportivos, fato que gera críticas por parte
daqueles que o consideram um grande investimento esportivo que
não traz retorno para o município. A prefeitura, contudo, alega que o
movimento proporcionado pelas partidas de futebol no município,
principalmente das grandes equipes da capital, traz diversos
benefícios para a economia da cidade. Em dias de jogos, os
serviços e comércios recebem um grande fluxo de turistas que
chegam para assistir às partidas. Além disso, a imagem da cidade é
divulgada em todo o território nacional e também no exterior, com a
transmissão das partidas pela televisão. Em 2013, o investimento foi
de cerca de R$ 150 mil em melhorias e manutenção do estádio,
como recapeamento, pinturas da pista de acesso ao estádio e nas
dependências, além de reforma nos vestiários. Além disso, a
operacionalização e a manutenção do estádio custam, de acordo
com a prefeitura, cerca de R$ 250 mil.
Figura 4. Foto da entrada principal do estádio municipal Sylvio
Raulino de Oliveira
Fonte: Prefeitura Municipal de Volta Redonda.
http://www.portalvr.com/estadiodacidadania.
Na opinião de Carlos Roberto Parente, o Betinho, administrador
do Estádio da Cidadania, com a organização desses jogos de
futebol, Volta Redonda mostra que tem condições estruturais de
receber grandes eventos esportivos, devido ao “movimento
financeiro que a cidade recebe, com a vinda dos torcedores. Já no
aspecto de divulgação, os jogos ajudam na publicidade de uma
imagem positiva da cidade e do Estádio da Cidadania”. 13 Outro
argumento comum é a escolha do estádio como subsede da Copa
do Mundo de 2014. Em 2012, o local foi alvo de inspeção por parte
da Federação Internacional de Futebol (Fifa), que vistoriou todas as
instalações e selecionou 54 delas que foram aprovadas como
Centros de Treinamento de Seleções (CTS), podendo ser utilizadas
pelas seleções de futebol classificadas para a Copa do Mundo. Com
isso, o Ministério do Esporte, em convênio com a Prefeitura, liberou R$ 800 mil para a realização de obras de reparos gerais e
modernização, além de reformas para melhorar a acessibilidade.
Entretanto, durante a realização da Copa do Mundo, nenhuma das
32 seleções escolheu a cidade como local de preparação para a
competição, não dando o esperado retorno para os investimentos
realizados.
Mesmo assim, quando há jogo, principalmente das grandes
equipes da capital do estado, o que se vê são milhares de visitantes,
o que deixa o trânsito no entorno do estádio bastante complicado.
Muitos ônibus e vans estacionam ao redor de praças e ruas
próximas, tumultuando ainda mais o fluxo de veículos. A maioria
vem de cidades vizinhas e da capital do estado. Assim, os
estabelecimentos comerciais (bares, restaurantes e lojas) ficam
cheios, e as pessoas têm de enfrentar filas e muito tempo de
espera. Mas, apesar desses problemas, a prefeitura defende que a
organização desses jogos e eventos prova que a cidade já está
preparada para a realização de grandes eventos
Gostaria de ressaltar que a divulgação da cidade até para o exterior foi um
dos principais benefícios. Volta Redonda sempre foi considerada a Cidade do
Aço e nos orgulhamos disso. Mas com essa publicidade podemos nos
mostrar como a cidade do esporte, da saúde e da cultura também.14
O administrador do estádio explica que, a cada jogo, o custo
operacional gira em torno de R$ 15 mil – com cerca de duzentos
funcionários terceirizados, entre limpeza, bilheteiro, roleteiro e apoio.
Conforme veiculado no jornal 15 Diário do Vale, para Jessé Holanda,
secretário de Turismo, a vinda de jogos para a região trouxe
visibilidade para Volta Redonda, além de movimentar hotéis, bares e
restaurantes, e isso não só pela vinda de torcedores, mas também
pelas delegações e jornalistas que vêm para cobrir as partidas. Para
o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Volta Redonda,
Antônio Borges, eventos que “promovem o movimento de pessoas e
o aumento da circulação de dinheiro beneficiam o comércio da
cidade”. 16
Por ser um estádio que concentra atividades não somente ligadas
ao esporte, mas também a saúde, lazer e educação para a
população do município, passou a ser chamado pela prefeitura de “Estádio da Cidadania”. Assim, a prefeitura procura apagar a
memória da cidade como ligada à “Cidade do Aço” e reconstruir
uma nova imagem, dotando o município de novos significados,
como, por exemplo, a cidadania. Um dos principais instrumentos
utilizados pela prefeitura nesse sentido é o discurso, cuja dimensão
é muito maior que as ações realizadas em termos de políticas
públicas. Entretanto, a população, que deveria protagonizar o papel
de agente da história do município, muitas vezes se acomoda como
receptora das benesses concedidas pela prefeitura.
A reforma do Estádio da Cidadania é um marco na construção da
cidade após os anos de crise vividos com a privatização da CSN. A
Prefeitura enaltece uma cidadania que é passiva, em que o cidadão
se contenta em ter seus direitos civis e políticos tutelados pela
intervenção do poder público municipal, através de um forte
processo de regulação. Os eventos e espetáculos teoricamente
acessíveis a todos constroem, junto à população, essa ideia de
cidadania. Além disso, essa imagem se baseia nas ideias de um
desenvolvimento sustentado em outras bases que não apenas a
indústria, mas também atraindo investimentos nos setores de
comércios e de serviços, nos quais aparecem como destaque os
eventos esportivos e culturais, visando ao aumento de empregos e
da arrecadação tributária (Oliveira e Mascarenhas, 2007).
4.1. O complexo esportivo da Ilha São João
O complexo da Ilha São João, cujo nome oficial é Complexo de
Atividades Duque de Caxias, foi criado pelo primeiro prefeito
nomeado quando da transformação da cidade em área de
segurança nacional, durante a ditadura militar – o engenheiro
Georges Leonardo, em 1973. Na ocasião, a prefeitura desapropriou
as ilhas do complexo com a intenção de tornar a área um local
voltado à cultura, ao esporte e ao lazer da população da cidade. No
passado, o local pertencera à antiga Fazenda São João Batista.
Com a diminuição dos investimentos em lazer por parte da CSN, a
Prefeitura considerou que havia necessidade de reformar/revitalizar esse equipamento de lazer com atividades culturais e esportivas
para a população.
O complexo é formado por duas ilhas: São João e Pequena. A
área, com cerca de 180 mil m 2, possui ginásio coberto, quadra
aberta e quadra de areia, pista de caminhada, pavilhão de
atividades múltiplas, centro de exposições, miniestádio, escola de
hipismo, minicidade do trânsito, posto médico, sede da Secretaria
Municipal de Lazer, da Guarda Municipal e da Defesa Civil, além de
um espaço do Detran.
Os principais eventos realizados anualmente estão ligados a
esportes, feiras de negócios e exposições culturais e artísticas,
como Expo-VR, Expo Agro, Feira Estadual da Indústria
Metalmecânica, Médio Paraíba Negócios, Feira da Primavera, Festa
do Peão Boiadeiro, carnaval, VR Folia, Encontro de Motoqueiros,
Encontro de Carros Antigos, Encontro Nacional de Evangélicos,
Olimpíadas das Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais,
Jogos Estudantis e Copa Regional Diarinho do Vale.
A Ilha Pequena conta com uma área de 25 mil m2, onde se situam
as instalações da Escola Municipal de Remo e do Parque Aquático,
ambos administrados pela prefeitura, por meio da Secretaria
Municipal de Esporte e Lazer. A Escola Municipal de Remo foi
inaugurada em 2011, com as raias de treinamento e competição
localizadas no rio Paraíba do Sul, junto à Defesa Civil. A escola
promove atividades de iniciação à modalidade esportiva de remo e
atividades educacionais sobre meio ambiente e recursos hídricos,
tendo, como público-alvo, jovens em idade escolar e matriculados
regularmente na rede pública de ensino. O parque aquático foi
construído em 1981, com o objetivo de incluir as faixas sociais
carentes no lazer e desenvolvimento do esporte aquático no
município. Cinco anos depois, em 1986, foi desativado e, em 1997,
foi reformado e reativado, embora só tenha passado a funcionar
plenamente em 2001. A Figura 5 mostra a festa de comemoração
dos dez anos de funcionamento do parque.
O local conta com uma estrutura física de 11.300m², distribuídos
entre três piscinas (uma de tamanho olímpico destinada a esportes
aquáticos, uma infantil e outra para recreação), cantinas, vestiários,
secretaria, sala de professores e uma arquibancada para quinhentos espectadores. De acordo com a prefeitura, são oferecidos
gratuitamente à população de Volta Redonda cursos de natação,
hidroginástica e polo aquático. Uma das exigências para ter acesso
ao parque aquático e aos cursos é comprovar residência na cidade.
Assim, são atendidas diariamente cerca de três mil pessoas em
atividades recreativas. O local tem um total 5.480 alunos
matriculados em seus cursos e conta com 11 professores e seis
estagiários. No total, o espaço tem sessenta mil associados.
Os investimentos da prefeitura direcionados à manutenção e à
operacionalização do parque aquático para 2013 eram estimados
em R$ 1,5 milhão. Com a escolha do local para a aclimatação das
delegações para as Olimpíadas, a Prefeitura tencionava investir
anualmente R$ 1,5 milhão, por meio de convênios com o Ministério
de Esportes, para a recuperação e a revitalização do local, a fim de
se adequar às exigências do Comitê Olímpico Internacional (COI).
Além desses interesses, o parque aquático é apresentado pela
prefeitura como um local que preza pela melhor qualidade de vida
dos cidadãos de Volta Redonda.
Figura 5. Foto de comemoração de 10 anos de funcionamento do
parque aquático
Fonte: Jornal Diário do Vale, 2011.
O Parque Aquático Municipal proporciona gratuitamente à população de Volta
Redonda esporte e lazer, através da prática de atividades aquáticas. Com
espaço físico privilegiado por sua estrutura e beleza natural, o Parque
Aquático Municipal de Volta Redonda oferece uma excelente opção de lazer,
recreação e convívio social, buscando, com isso, melhor qualidade de vida
aos cidadãos do município.17
O ginásio coberto poliesportivo General Euclydes Figueiredo,
inaugurado em 1982, tem capacidade para seis mil pessoas. O
local, além de promover a prática de atividades esportivas, por meio
de programas/projetos voltados à população, tem como
característica principal a realização de eventos esportivos
profissionais de alto nível. Na Figura 6, vê-se a infraestrutura do
ginásio. O local ainda conta com uma pista de caminhada de 800 m
de extensão e um centro esportivo – o Oscar de Carvalho,
inaugurado em 2004 –, que possui uma quadra de futebol society,
uma sala de administração, quatro cantinas, quatro vestiários, tribuna de honra e arquibancada para cinco mil pessoas. No local,
também existe a escola municipal de hipismo, criada em 2003 para
ensinar crianças com até 14 anos, com todas as despesas
custeadas pela Prefeitura. A imagem das duas ilhas e de toda a sua
infraestrutura pode ser observada na Figura 7.
Figura 6. Fotografia da parte interna do ginásio mostrando a
quadra e parte da arquibancada
Fonte: Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, 2013.
Figura 7. Vista aérea do complexo com a Ilha São João e Ilha
Pequena
Fonte: Google Earth, 2013.
5. Considerações finais
Constatamos que a reestruturação produtiva e territorial por que
passa Volta Redonda promoveu alteração nos equipamentos e
atividades de lazer, com inúmeras consequências para a dinâmica
urbana. O aumento da atuação do poder público municipal pode ser
comprovado pelo elevado número de eventos esportivos e culturais
realizados anualmente na cidade.
O lazer insere-se no conjunto de políticas do poder público
municipal, com a tentativa de desvincular a imagem da cidade em
relação à siderúrgica. Entretanto, os elementos simbólicos ligados à
“Cidade do Aço” ainda se mostram muito presentes, como a
toponímia das ruas e praças e os equipamentos urbanos da cidade,
carregados pelo contexto do aço.
O conjunto de ações que visam à transformação da imagem do
município é relativamente recente, pois parte das famílias tem suas
histórias de vida relacionadas, direta ou indiretamente, à usina ou ao
contexto de sua criação, ou seja, à cidade siderúrgica. Por meio de
seu discurso, dos investimentos e da recuperação/criação de novos
símbolos na cidade (como o Estádio da Cidadania e o Complexo da
Ilha São João), o Poder Público municipal procura alterar o
paradigma do município para uma cidade de qualidade de vida
baseada na cidadania. Nesse sentido, emprega recursos materiais
(como estruturas e equipamentos) e imateriais (como serviços,
sobretudo os discursos utilizados) para realçar suas novas virtudes,
por meio de símbolos elaborados para produzir uma nova imagem
para o lugar e utilizá-la para atrair novos investimentos. Essa
questão é discutida por Milton Santos (2004), segundo o qual essa
busca dos lugares para se diferenciar com o objetivo de atrair novos
investimentos é chamada “guerra dos lugares”.
Sem dúvida, esses investimentos em lazer trazem benefícios para
a população, mas precisam ser questionados, pois o lazer da cidade
se inscreve no modelo capitalista, com a produção da imagem de
cidade com boa qualidade de vida e cidadania, um discurso que,
paulatinamente, vai ganhando legitimidade junto à população, assim
como a crença de que a prefeitura é responsável por todos os
problemas existentes no município. A população, portanto, vive
naquilo que Baudrillad (1981) chama de “simulacro”, em que tudo
parece estar em perfeita harmonia com o retorno do orgulho de uma
cidade como exemplo para o país: se antes era por ser uma cidade
moderna e industrial, por causa da CSN, atualmente é por ser uma
cidade que promove cidadania para toda a sua população.
Assim, a reforma/construção de equipamentos urbanos
modernos, inclusive daqueles destinados ao lazer, é apresentada
por inúmeras propagandas, que os tornam mais atraentes ao agora
cidadão do que o próprio objeto em sua realidade. Por meio de uma
série de atividades e eventos de lazer, com destaque para os
esportivos, o município passa a se configurar como exemplo de
sociedade espetacularizada, o que, para Débord (1998), leva os
indivíduos a contemplarem e a consumirem passivamente essas imagens, que, nesse caso, estão fortemente vinculadas à prefeitura,
perdendo-se o sentido da vivência no espaço urbano.
Com isso, é possível afirmar que as mudanças do lazer na cidade
impactaram a dinâmica urbana do município, com a alteração no
fomento da prática de lazer. Enquanto a empresa visava ao lazer em
um contexto fordista, atualmente, com o fomento pela prefeitura,
esse lazer apresenta aspectos diferenciados, associados ao
contexto atual da cidade pós-fordista. Entretanto, as mudanças mais
acentuadas não ocorreram nas práticas das atividades de lazer,
pois, se antes os principais eventos e atividades eram os
socioculturais e esportivos, atualmente ainda apresentam grande
relevância. A mudança mais significativa foi na função do lazer, pois,
se antes a principal característica era o aspecto funcionalista e
utilitarista por parte da empresa para seus funcionários, hoje se
apresenta como um simulacro, espetacularizado por parte da
Prefeitura para os cidadãos.
Referências
BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simulações. Lisboa: Relógio
D’Água, 1981. 202 p. (Coleção Antropos).
CALIFE, Magali Nogueira da Silva. A relação entre capital-trabalho
na gênese da CSN (dissertação). Universidade Severino Sombra,
2000.
COSTA, Alkindar. Volta Redonda, ontem e hoje. 3 ed. Volta
Redonda-RJ: Masiero’s, 1992. DEBORD, Guy. A sociedade do
espetáculo. 2 ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. 240p.
DIÁRIO DO VALE. “Comemoração aos 10 anos de Funcionamento
do Parque Aquático Municipal de Volta Redonda”, jornal Diário
Regional, Volta Redonda, 2011. Disponível em:
http://diariodovale.uol.com.br/noticias/0,37608,Parque%20Aquatico
%20da%20Ilha%20Sao%20Joao%20completa%2010%20anos.html
#axzz2aOOXTJnY Acesso em: 10 maio 2013.
_____. “Aprovação da Fifa rende R$ 800 mil a Volta Redonda”,
jornal Diário Regional, Volta Redonda, 2013. Disponível em:
http://diariodovale.uol.com.br/noticias/6,71529,Aprovacao-da-Fifa-
rende-R$-800-mil-a-Volta-Redonda.html#ixzz2Ylj1lwxu. Acesso em:
10 maio 2013.
_____. “Jogos em Volta Redonda trazem visibilidade”, Diário
Regional, Volta Redonda, 2013. Disponível em:
http://diariodovale.uol.com.br/noticias/1,72947,Jogos-em-VR-
trazemvisibilidade. html#ixzz2Ylg7XnQF. Acesso em: 10 maio 2013.
FONTES, Ângela Maria Mesquita e LAMARÃO, Sérgio Tadeu
Niemeyer. “Volta Redonda: história de uma cidade ou de uma
usina”. Revista Rio de Janeiro, Niterói, n. 18-9, jan.-dez. 2006, pp.
241-53.
GOVERNO FEDERAL. Portal da Transparência. [Consulta ao Setor
de Convênios]. Disponível em:
http://www.portaltransparencia.gov.br/convenios. Acesso em: 10
dez. 2011.
JORNAL AQUI. “Não é mais o mesmo”. Diário Local, Volta
Redonda-RJ. Disponível em:
http://www.jornalaqui.com.br/arquivo/2011/744/paginas/csn3.htm.
Acesso em: 15 jan. 2013.
LOPES, Alberto da Costa. A aventura da cidade industrial de Tony
Garnier em Volta Redonda (dissertação). UFRJ, 1993.
MOREIRA, Regina da Luz. CSN: um sonho feito de aço e ousadia. 1
ed. Rio de Janeiro: Fundação CSN/ CPDOC/Fundação Getulio
Vargas/Iarte, 2000. 191p.
OLIVEIRA, Leandro Dias de e MASCARENHAS, Gilmar. “A criação
do Estádio da Cidadania em Volta Redonda-RJ: uma reflexão sobre
simbolismo e ideologia na paisagem urbana”. Colóquio Nacional do
Núcleo de Estudos em espaço e representações (NEER). Anais...
Salvador, 2007.
PALMEIRA, André Franklin. A nova face da Cidade do Aço: crise do
capital, trabalho e hegemonia em Volta Redonda (1992-2008)
(dissertação). UFF, 2012.
PIQUET, Rosélia. Cidade-empresa: presença na paisagem urbana
brasileira. Rio de Janeiro: Jorge zahar, 1998. 166p.
RIO DE JANEIRO. Secretaria de Esporte e Lazer. Índice de
Desenvolvimento do Esporte (IDE). Rio de Janeiro: Suderj, 2011.
Disponível em: http://www.suderj.rj.gov.br. Acesso em: 08 dez. 2011.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo. Razão e
emoção. 4 ed. São Paulo: EDUSP, 2002. 384p.
SOUTO, Baiena Feijolo. “Volta Redonda hoje: novos movimentos
migratórios, primeiras aproximações”. Encontro Nacional sobre
Migração, 5. Anais... Campinas, 2007. 22p.
TESOURO NACIONAL. Dados contábeis dos municípios brasileiros,
2010. Finanças do Brasil (Finbra). Disponível em:
http://www.stn.fazenda.gov.br/estados_municipios/index.asp. Acesso
em: 01 dez. 2011.
_____. Sistema Integrado de Administração Financeira (SIAFI)
[Consulta execução orçamentária, financeira e patrimonial do
Governo Federal]. Disponível em:
http://www.tesouro.fazenda.gov.br/siafi. Acesso em: 05 dez. 2011.
TUBINO, Manoel. O que é esporte? 3 ed. São Paulo: Brasiliense,
2006. 55p. (Coleção Primeiros Passos) VOLTA REDONDA.
Prefeitura Municipal. Lei Orgânica Municipal. Volta Redonda, 1992.
103p.
_____. Cidade do esporte. Secretaria Municipal de Esporte e Lazer.
Volta Redonda, v. 1, 2013. 10p.
_____. Estádio da Cidadania. Secretaria Municipal de Esporte e
Lazer. Disponível em: http://www.portalvr.com/estadiodacidadania. Acesso em: 10 abr. 2013.
_____. Parque Aquático. Secretaria Municipal de Esporte e Lazer.
Volta Redonda, 2013. Disponível em:
http://www.portalvr.com/smel/parqueaquatico.php. Acesso em: 10
abr. 2013.