Revisitando o Território Fluminense VI
5. Sustentabilidade da produção energética no Rio de Janeiro: as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) potencializando regionalmente o território fluminense
Sustentabilidade da produção
energética no Rio de Janeiro:
as Pequenas Centrais
Hidrelétricas (PCH)
potencializando regionalmente
o território fluminense
Augusto César Pinheiro da Silva1 2 , Davi Schulman Miguens,
Mônica Coelho Varejão3
1. Introdução
O planejamento e a gestão do território, a partir do recorte
espacial “bacias hidrográficas”, vêm ganhando força nas discussões
acadêmicas desde o final do século XX. O entendimento dessas
unidades espaciais é de fundamental relevância para o
entendimento dos temas “preservação ambiental”, “geração de
energia” e “captação e distribuição de água”, possibilitando que as
bacias sejam identificadas como aquelas que podem modificar, se
bem estudadas e apropriadas, os ritmos de escassez de água e,
consequentemente, de energia, haja vista que a matriz elétrica
brasileira é majoritariamente abastecida por hidroelétricas.
Em relação ao tema “produção energética”, as bacias
hidrográficas são os depositórios naturais de recursos renováveis
(água), o que as torna focais para as políticas públicas nacionais de
geração de hidroenergia, fonte ainda parcialmente potencializada no
território nacional, apesar da enorme capacidade de produção de
energia das bacias brasileiras.
Os padrões atuais de geração de energia no Brasil se baseiam
em recursos renováveis (inclusive o grande aporte de água das
Unidades Hidroelétricas de Energia [UHEs]), sendo a hidroenergia
detentora da maior parcela de geração elétrica, com 70,6% de
representatividade do total gerado (EPE-BEN, 2014). Todavia, as
UHEs causam grandes problemas socioambientais, deixando
marcas espaciais expressivas (a remoção de ribeirinhos, que
estimula o fluxo demográfico, a inundação de terras agrícolas,
florestas e sítios arqueológicos, a formação de microclimas em
áreas de barragens, entre outras) que são largamente estudadas
por cientistas de diversas áreas, e que buscam alternativas para a
geração de energia por meios menos impactantes.
Assim, outras formas de exploração dos recursos hídricos para a
geração energética estão sendo ampliadas. Entre elas, destacam-se
as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH), cuja potência instalada é
superior a 01 MW e igual ou inferior a 30 MW.4 Tais estruturas
produtivas potencializam o uso dos recursos nas bacias
hidrográficas nacionais, pois apresentam baixo custo de construção
e reduzido impacto ambiental durante a construção e a operação,
em comparação às demais unidades geradoras.
Entre os fatores que tornam as PCH potenciais investimentos no
Brasil, destaca-se a utilização de pequenos reservatórios, que, em
relação às gigantescas obras necessárias para a construção de uma
UHE, tornam menos complexas e barateiam as obras civis, em
virtude do aproveitamento das quedas naturais dos rios. A união dos
aspectos potenciais das PCH explicita seu caráter menos
impactante nos âmbitos socioespacial, ecológico e econômico,
encaixando-se, assim, no fornecimento de energia para centros
urbanos e rurais menores, como se caracteriza a rede urbana
fluminense. Ademais, a aplicação desse modelo de usinagem no
estado do Rio de Janeiro está adequada aos aspectos
hidroenergéticos, socioespaciais e físicos (geomorfológicos,
hidrológicos, edáficos e climáticos) da unidade federativa em
questão.
A pertinência desse artigo se ancora no crescimento da economia
brasileira nas últimas duas décadas (1994-2014) e no Plano
Decenal de Desenvolvimento da Energia (2014-2023), sendo as PCH uma forma de conter, ainda que parcialmente, as
transformações nocivas que tal expansão tende a promover no
espaço “em crescimento”, como injustiça social e violência
ambiental (eliminação de empregos, redução de mão de obra nos
espaços de produção agrícola de pequeno porte, destruição de
biomas ribeirinhos etc.), sendo que a opção pelas PCH pode trazer
sustentabilidades diversas para as populações mais pobres e
vantagens comparativamente mais amplas para os investidores
públicos e privados no território fluminense. Diante disso, deve-se
atentar para a atual abertura, em relação às instituições privadas,
das condições de implantação de PCH, o que pode ser observado
em importantes bacias do estado do Rio de Janeiro e do Brasil.
A literatura utilizada para a elaboração deste artigo conta, entre
outros autores, com Iglori (2001), Corò (2003), Castro [et al.] (2009)
e Silva (2007, 2014), além de se recorrer a dados oficiais de órgãos
e instituições ligados a setores como a Agência Nacional de Energia
Elétrica (ANEEL) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
2. A importância das Pequenas
Centrais Hidrelétricas no setor
elétrico nacional e no estado do Rio
de Janeiro
Conforme apontado por Gleick (1993), o Brasil apresenta uma das
maiores reservas de água doce do mundo, em torno de 8%, sendo
parte desse total utilizado como carro-chefe para a geração de
energia hidrelétrica. Soma-se a essa condição o aumento
significativo do consumo de energia (e de água) no país, com a
estabilização e o crescimento da economia, em muitas escalas, nas
duas últimas décadas, o que impulsiona as esferas do planejamento
e da gestão públicos a buscarem estratégias de geração de energia
por múltiplas matrizes, frente às situações conjunturais na
sociedade brasileira na atualidade.
De acordo com Castro et al. (2009), por apresentar um expressivo
parque gerador de energia hidráulica, o Brasil tem uma oferta de
eletricidade competitiva e com reduzida emissão de gases do efeito
estufa. Seguindo um movimento contrário em relação à boa parte
dos países emergentes e centrais,5 os fatores favoráveis apontados
desestimulariam políticas nacionais de fontes alternativas e
renováveis; todavia, a legislação ambiental mais rígida e impositiva
vigente no Brasil (frente aos enormes impactos socioambientais
provenientes dos grandes empreendimentos hidrelétricos) 6 faz com
que tais fontes, como a bioeletricidade, a energia eólica e as PCH,
ganhem espaço no cenário nacional. Ainda segundo Castro et al.
(2009), “a expansão da capacidade instalada via usinas hidrelétricas
terá como condição de base do sistema elétrico brasileiro uma
contrapartida obrigatória e necessária, a complementação por
outras fontes de energia” (p. 3). Por apresentar uma sazonalidade
bem definida, as fontes alternativas atuariam complementando a
carga nacional em períodos de seca.
No caso das fontes alternativas e renováveis e, especificamente,
das PCH (que aumentou sua demanda, na segunda metade da
primeira década do século XXI, entre 4% e 5% ao ano, EPE-BEN,
2014), as externalidades socioambientais positivas vão além de
considerá-las uma fonte limpa, pois o uso de pequenos
reservatórios (inferiores a 3 km²) diminui as possibilidades de
desapropriação e de outros impactos associados às grandes
barragens, com a utilização de quedas naturais e o modelo de
engenharia “fio d’água”.7 Esse modelo, de acordo com a Figura 1,
permite o uso de pequenos reservatórios que permanecem em
níveis constantes, não havendo armazenamento para suprir o
escoamento sazonal. Vale ressaltar que projetos recentes de UHE
vêm adotando esse modelo, contemplando-se a estratégia de
modernização de seus idealizadores: a de atender a legislação no
que diz respeito aos impactos socioambientais.
Figura 1. Exemplo de modelo padrão de fio d’ água da PCH
Chave do Vaz, instalada no rio Negro, Cantagalo, RJ
Fonte: Governo do Estado do Rio de Janeiro, 2007.
Outro atrativo das PCH é o menor tempo para sua construção,
fato que permite a rápida expansão da geração de energia elétrica
de maneira descentralizada. Essa característica permite que a
energia gerada possa ser utilizada em escala local nos pontos em
que não há ligação com a rede transmissora, diminuindo-se as
perdas ao longo de seu transporte para outros espaços de
consumo. Nesse sentido, competitivamente, as PCH, assim como
os projetos hídricos de forma genérica, são unidades de geração de
energia que se caracterizam pelo capital intensivo, com reduzido
custo marginal. Tal condição reforça a atratividade econômica de um
empreendimento que apresenta vida útil longa. O esquema padrão
de uma PCH pode ser visto na Figura 1 (PCH Chave do Vaz,
Cantagalo, Rio de Janeiro), para que se tenha a dimensão espacial
do empreendimento, assim como a dos elementos que a compõem
e fazem funcionar.
Com relação à sua limitada capacidade de geração de energia, as
PCH apresentam maior adequação para ofertar sua produção em
um Ambiente de Contratação Livre (ACL), mais conhecido como
Mercado Livre. O ACL envolve diferentes agentes do setor elétrico,
como geradores, consumidores livres, comercializadores e
importadores/exportadores, segmentos do mercado no qual se
realizam as operações de compra e venda de energia elétrica, a
partir de contratos bilaterais livremente negociados, conforme regras
e procedimentos de comercialização específicos (EPE-BEN, 2014).
2.1. Panorama atual das PCH na matriz elétrica
nacional
Com um potencial hidráulico inventariado em cerca de 260 GW, o
Brasil ainda possui 60% de seu potencial a ser explorado, sendo
que apenas um terço de sua capacidade total está em operação ou
construção (Castro et al., 2009). Segundo o Balanço Energético
Nacional de 2014, que apresenta dados relativos ao ano base de
2013 (Gráfico 1), a capacidade instalada da fonte hidrelétrica para 2013 foi de 86 GW. A potencialidade do setor já é um dos pontos
centrais das políticas públicas de energia do país, sendo que o
parque gerador vem apresentando ritmo constante em sua
expansão, como, por exemplo, de 2012 para 2013 a capacidade
instalada da fonte hidrelétrica cresceu 2% (EPE-BEN, 2014).
Entretanto, aumentaram os problemas referentes ao consumo
exponencial de energia, concomitantemente à escassez de água
nos reservatórios do país, nos últimos cinco anos – com
agravamentos ampliados entre 2013 e 2015 –, o que afeta o
abastecimento doméstico e industrial de água nos grandes centros
metropolitanos do país e os custos da energia elétrica, em múltiplas
escalas de produção e consumo.
Vale destacar o aumento da participação das fontes alternativas e
renováveis no período compreendido entre 2003 e 2014. Conforme
o Gráfico 1, em 2003 apenas 4% da composição total de energia do
país vinha desses tipos de fonte. Já em 2010, esse número
aumentou para 11%, com merecido destaque para a biomassa, e
em 2014 subiu para mais de 15%. 8
Gráfico 1. Evolução decenal da composição das fontes geradoras
de energia elétrica no Brasil (%)
Fontes: EPE-BEN, 2014; ANEEL, 2014.
De acordo com o Banco de Informações de Geração (BIG) da
ANEEL, o Brasil, em 2014, apresentava 463 empreendimentos do
tipo PCH em operação, totalizando 4,6 GW de potência instalada.
Em escala nacional, esse valor era equivalente a 4,08% do total do
parque gerador de energia elétrica naquele ano. Vale ressaltar ainda
que, em maio de 2014, existiam 176 empreendimentos em fase de
construção (30) e outorgados (146), o que equivaleria a 2,326 MW a
serem acrescidos ao parque gerador nacional (BIG-ANEEL, 2015).
Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia 2023 da EPE,
a expansão da fonte PCH já contratada e em construção, com
previsão de entrada em operação comercial para os anos de 2014 a
2018, é apresentada conforme Tabela 1. Cabe ressaltar que o
acréscimo da potência instalada para cada ano, disposta nessa
tabela, refere-se à capacidade contratada nos leilões de energia de
reserva.
Tabela 1. Expansão da PCH contratada de 2014 a 2018
Tipo Região 2014 2015 2016 2017 2018
PCH Potência (MW)
Sudeste/Centro- 169 71 0 0 286
Oeste
Sul 40 30 18 0 113
Nordeste 0 0 0 0 6
Norte 21 32 12 3 0
Total 230 133 30 3 405
Fonte: Adaptado do PDE 2023, 2014.
Em relação à distribuição das PCH pelo território nacional, as
unidades federadas das macrorregiões Sudeste e Sul do país
apresentam maior concentração de empreendimentos (323 PCHs) e
maior capacidade instalada (28,4 GW). O estado de Minas Gerais é
o carro-chefe nacional desse tipo de empreendimento, por
apresentar a maior potência em megawatts (742 MW ou 7,42 GW) e
um total de PCH 4,2 vezes maior do que o do total do estado do Rio
de Janeiro – 97 PCH mineiras contra apenas 23 delas no território
fluminense (BIG-ANEEL, 2013).
Para os próximos anos, o parque gerador de energia nacional
continuará a ser consideravelmente diversificado. Vale destacar que
essa diversificação possibilitará o crescimento das fontes
renováveis, reforçando-se o caráter “limpo” das políticas ambientais
no país, como preveem os planos diretores e as políticas
interescalares das instâncias de gestão pública do federalismo
brasileiro, que ampliaram o poder das esferas locais na geração de
recursos sustentáveis para o desenvolvimento nacional (Silva,
2014). Até 2023, 42,5% da oferta interna de energia será renovável,
sendo a maior parte proveniente de derivados de cana-de-açúcar e
de energia hidráulica (EPE-PDE 2023, 2014).
Sob essa perspectiva, até 2023 as PCH acrescerão à sua
potência instalada mais 2,01 GW. Vale destacar o aumento da
participação da energia eólica no parque gerador para os próximos
anos, tendo em vista que o potencial estimado para essa fonte gira
em torno de 22,44 GW, equivalente a 75% do mercado atual de energia elétrica para as fontes de energia eólica, biomassa, solar e
as próprias PCH (PDE 2023, 2014).
Diante dessa potencial capacidade de expansão das fontes
renováveis, cabe destacar como se comportarão as PCH no
contexto analítico em foco, além de compreender como tal
investimento tem condições de potencializar ainda mais o estado do
Rio de Janeiro para os investimentos presentes e futuros.
2.2. Panorama do setor hidrelétrico no estado do
Rio de Janeiro: potencialidades
A macrorregião Sudeste é a maior consumidora de energia
elétrica do país, necessitando de aproximadamente 34% de toda a
produção nacional para suprir sua carga (EPE-BEN, 2014). Como é
a maior produtora, a malha dos serviços de transmissão é bastante
complexa, o que torna a macrorregião (que ainda é a mais
industrializada e povoada do país) uma fonte de pesquisas
necessárias para que sejam identificadas as potencialidades dos
projetos de desenvolvimento local/estadual/regional baseadas em
fontes renováveis e alternativas, como, por exemplo, a PCH.
Das quatro unidades federadas da macrorregião, o estado do Rio
de Janeiro apresenta-se como um dos maiores produtores de
energia elétrica do país, apesar de suas reduzidas dimensões
territoriais em relação às outras unidades. Mesmo sendo um
importante produtor no conjunto dos estados brasileiros, o Rio de
Janeiro não produz energia suficiente para suprir a carga estadual
de consumo, o que o torna, portanto, um importador de energia
elétrica (EPE-PDE 2023, 2014).
Atualmente, o estado do Rio de Janeiro apresenta 8,7 GW de
potência instalada, dos quais 86% são usinas termelétricas
(nucleares e de gás e óleo). O total de PCH em operação no estado
é de 23 empreendimentos, somando 305 MW de potência. De
acordo com o relatório de acompanhamento da expansão da oferta
de geração de energia elétrica das PCH, o qual fornece informações
acerca das usinas já outorgadas e em fase de implantação, o estado
do Rio de Janeiro apresenta, nessa situação, cinco usinas: uma se encontra em estágio de obra paralisada, duas em andamento e
duas não iniciadas. No Gráfico 2, observa-se a importância das PCH
no estado em relação à sua situação por operação, à quantidade de
empreendimentos e à respectiva potência.
É importante destacar o potencial apresentado pelo território
fluminense para ser explorado. As PCH em projeto básico
representam um total de 19 empreendimentos que somam 206 MW,
sendo que 18 já tiveram seus projetos básicos elaborados e um
apresenta projeto básico em fase de elaboração. Cinco usinas ainda
não entraram em operação comercial e se encontram outorgadas,
sendo que três delas apresentam problemas com a licença
ambiental. Também é grande o número de pequenos
empreendimentos no estado que se enquadram como CGH e estão
desativados. São mais de cinquenta empreendimentos que, juntos,
apresentam uma potência superior a 15 MW. Da mesma forma que
as PCH, essas CGH podem elevar substancialmente sua potência a
partir de estudos que ampliem a perspectiva de sua vazão e da
altura de sua queda (ANEEL, 2015).
Levando-se em consideração tal potencial de investimentos em
PCH no estado, é certo que podem favorecer a manutenção e/ou
atração de população para as várias regiões do estado
subpovoadas em relação à sua área core, a megarregião
metropolitana do Rio de Janeiro (Figura 2). Frente à grande
concentração demográfica de população fluminense na faixa
metropolitana da cidade carioca (quase 80% da população total do
estado na RMRJ), os investimentos em PCH poderiam tornar as
outras sete regiões de governo, além da metropolitana, capazes de
agregar empreendimentos médios e/ou pequenos que
alavancassem negócios específicos, diferenciados e pautados nas
potencialidades regionais não metropolitanas. As PCH se
apresentariam como pequenos grandes investimentos dos setores
público e privado, os quais estimulariam negócios diversos e novas
fontes de arrecadação de impostos pelos poderes municipais.
Figura 2. Distribuição da população carioca, metropolitana e total
no estado do Rio de Janeiro: superpovoamento relativo na Região
Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ).
Fonte: Adaptado de Ceperj, 2013, e IBGE, 2010.
A maior parcela do potencial das bacias hidrográficas do estado
do Rio de Janeiro, no que diz respeito à capacidade hidráulica,
encontra-se em inventário ou projeto básico, sendo que as bacias
potencializáveis estão situadas em regiões montanhosas do estado
(na faixa de altitude que varia dos trezentos aos oitocentos metros),
locais em que é possível utilizar as variações altimétricas na
concepção das PCH.
Deve-se destacar que os rios Macaé e Negro (bacia do Rio Dois
Rios) estão com seus inventários em fase de análise pela ANEEL
(2013), fato que representa um futuro complemento ao potencial
atualmente apresentado. Outro ponto que merece menção é o fato
de que os inventários realizados até o presente momento levam em
consideração os principais rios da rede de drenagem das bacias do
estado. Isso faz com que rios de menor expressão não sejam contemplados nesses estudos, mantendo-se seus potenciais
desconhecidos.
Tais dados permitem avaliar a atual organização dos
investimentos produtivos no território do estado do Rio de Janeiro. O
grande potencial em PCH inventariado seria um importante
dinamizador da Região Serrana, possibilitando o direcionamento
dos capitais industriais e agrícolas, assim como o fortalecimento dos
serviços urbanos, tanto para a referida região como para seu
entorno. Isso se observa pelos grandes aportes de investimentos
industriais e de serviços nas regiões Metropolitana e das Baixadas
Litorâneas, no litoral central do estado. Esses investimentos
industriais e logísticos vêm causando grandes transformações na
dinâmica territorial fluminense.
De acordo com Coró (2003), deve-se considerar que uma base
tecnológica instalada possibilita novas redes sociais, produtivas e
geográficas. Portanto, o gerenciamento desses novos vínculos entre
as infraestruturas logísticas, capital privado e seus territórios cria um
enorme desafio para os gestores locais, em que falhas no
planejamento e na gestão produzirão profundas externalidades
negativas, tendo a população e o território como principais vítimas.
O grande potencial em PCH inventariado no estado do Rio de
Janeiro, principalmente na Região Serrana, pode ser entendido
como elemento catalisador da modernização socioespacial em
curso no território fluminense desde meados dos anos 1990. Silva
(2007) reforça a perspectiva de potencialização não materializada
como uma possibilidade para estímulos materiais, humanos e
políticos nos espaços com demanda reprimida. A aplicação desses
estímulos de maneira correta por agentes de gestão e sua
apropriação pelos atores locais resultariam no desenvolvimento de
potencialidades espaciais que abririam caminho para a
sustentabilidade socioespacial, que estaria baseada em múltiplas
visões e perspectivas, para além da visão técnico-produtiva dos
territórios. Essas possibilidades serão examinadas a seguir.
3. As PCH como potencialidades para
o desenvolvimento local: algumas
reflexões iniciais sobre sua gestão
Figura 3. Faixa no território fluminense com grande concentração
de PCH.
Fonte: Adaptado de SEA/INEA, 2010.
Considerado um setor de base na economia, a geração de
energia hidrelétrica no Brasil deve ser profundamente discutida e
questionada, notadamente o modelo PCH, pelo fato de poder ser
realizado pelas esferas do poder federativo de menor abrangência
territorial (estados e municípios), o que o tornará um manancial de
formas e estratégias de planejamento e gestão sobre
desenvolvimentos sustentáveis e oportunos. Com a implantação das
PCH como projetos de sustentabilidade local, surgirão possibilidades de melhorias socioeconômicas e ambientais em
relação a padrões ecológicos diversos. De acordo com Somekh e
Campos (2002), essa condição incrementaria os quadros produtivos
locais pela diversificação e a dinamização de economias, a partir da
geração de emprego e renda. Para atingir a esfera social, deve-se
considerar a inclusão de diferentes setores, notadamente aqueles
ligados à economia popular, como a pequena produção agrícola, a
agroindústria artesanal e o microcomércio de bairro, atividades que
movimentam diversos produtos da cadeia produtiva. Além disso,
vale lembrar que os programas socioambientais implementados
para cumprimento da legislação ambiental, como hoje exigem os
municípios submetidos a planos diretores e zoneamentos
socioeconômicos e ecológicos, trarão benefícios para os meios
social, físico e biótico das áreas de influência dos empreendimentos.
Todo empreendimento do tipo PCH possui fortes vínculos com o
território e influi positiva e negativamente em seus meios ambientais
constitutivos. As transformações geradas pela implantação de
empreendimentos hidroenergéticos que afetam, direta e
indiretamente, o meio ambiente, a população em seu modo de vida,
a dinâmica de trabalho, os hábitos e costumes têm sido pauta
constante nos fóruns da sociedade civil organizada e do Poder
Público em seus diversos órgãos e escalas. Inevitavelmente, a
gestão ineficaz das transformações e da relação com os atores
estratégicos envolvidos gera passivos para o território e seus atores.
A falta de um conhecimento mais profundo acerca das variáveis
envolvidas nessa dinâmica usualmente contribui para que sejam
criados planos parciais e/ou paliativos e, consequentemente, ações
pouco eficazes. O direcionamento incorreto ou ineficiente de
recursos para a efetiva solução das transformações pode aumentar,
de modo significativo, os gastos inicialmente previstos para a
implantação de um empreendimento, seja ele hidroenergético ou de
qualquer outra natureza.
Como identificado por diversos relatórios oficiais da ANEEL, a
dinamicidade do parque gerador hidrelétrico nacional causou um
movimento de constante reformulação da legislação ambiental.
Atualmente, diversos empreendimentos estão sujeitos ao
licenciamento ambiental, e as PCH estão inseridas nesse grupo. E, para que elas alcancem a fase de operação, devem cumprir uma
série de exigências provenientes das agências reguladoras de
setores dos órgãos ambientais responsáveis. Portanto, a seguir,
abordam-se as principais atribuições das empresas para atingirem
as licenças ambientais.
Os estudos ambientais provenientes de exigências dos órgãos
ambientais podem ser vistos como instrumentos que podem ser
utilizados com diversas finalidades. Com a promulgação da
Resolução Conama nº 001/1986, a elaboração do Estudo de
Impacto Ambiental/Relatório de Impactos sobre o Meio Ambiente
(EIA/RIMA) passou a ser uma exigência em boa parte dos
empreendimentos hidrelétricos para obtenção da licença prévia,
representando benefícios em diversos aspectos. Além disso, levam-
se em conta as características de engenharia para que seja possível
propor medidas mitigadoras e compensatórias diante das
externalidades sempre presentes. Vale lembrar que o conteúdo do
EIA/ RIMA está em consonância com o termo de referência dos
órgãos ambientais responsáveis. Outro aspecto importante é o
caráter público do RIMA, o que dá à população interessada acesso
às informações do empreendimento, bem como a possibilidade de
participação ativa nas audiências públicas realizadas para
aprovação do processo de licenciamento ambiental.
Mais um importante instrumento de avaliação para o
licenciamento ambiental de empreendimentos hidrelétricos é o
Relatório Ambiental Simplificado (RAS), referente à Resolução
Conama nº 279/2001. Como o RAS surgiu em um período de crise
energética nacional e abertura para o investimento do capital
privado em PCH, o instrumento contempla os mesmos aspectos do
EIA, mas de maneira simplificada, a fim de agilizar o processo de
licenciamento. Vale lembrar que esse estudo de avaliação ambiental
é voltado somente aos empreendimentos causadores de baixo
impacto.
Além dos estudos citados, chama-se a atenção também para o
Plano Básico Ambiental (PBA). Segundo a Resolução Conama nº.
06/1987, o PBA é o estudo desenvolvido para o cumprimento das
condicionantes, com vistas à obtenção da licença de instalação de
uma PCH. Esse documento apresenta todas as medidas de controle e os programas socioambientais propostos no EIA, possibilitando a
definição das ações e dos programas a serem desenvolvidos em
todas as etapas do projeto, desde o início das obras até a etapa de
operação do empreendimento e seu monitoramento.
Para que seja possível um melhor entendimento da aplicabilidade
desses instrumentos na gestão pública, foi realizada uma visita às
obras de instalação da PCH Santo Antônio, no rio Grande, 9
município de Bom Jardim, bacia do rio Dois Rios, Rio de Janeiro.
Assim, a partir de entrevista realizada com uma analista ambiental
da empresa, foi possível ter acesso ao PBA da PCH Santo Antônio
e obter informações sobre os outros empreendimentos nesse
mesmo rio.
Figura 4. Localização das PCH visitadas em trabalho de campo
(outubro de 2013).
Fonte: Disponível em
http://www.grupoenergisa.com.br/Geracao/usinasemconstrucao/pch
sriogrande.aspx. Acesso em 7 out. 2013 (adaptado).
Dessa forma, foi possível identificar os programas de cunho
socioambiental, seus objetivos e os respectivos resultados para as
áreas direta ou indiretamente afetadas pela PCH:
a. Programa de Gestão Ambiental: promover os programas
ambientais de maneira articulada, atender aos requisitos legais
e exigências técnicas do órgão ambiental e funcionar como
ouvidoria para a população;
b. Programa Ambiental de Construção: estabelecer critérios e
requisitos para orientar os construtores em relação ao cuidado
com as questões ambientais no período de construção;
c. Programa de Contratação e Desmobilização de Mão de Obra:
priorizar a contratação de mão de obra local (Bom Jardim) para
internalizar os efeitos positivos da geração de empregos
relacionados ao empreendimento;
d. Programa de Comunicação Social: constituir canais de diálogo
entre empreendedor e sociedade, principalmente para a
população diretamente afetada pelo empreendimento, de forma
a motivar sua participação nas diferentes etapas de
implantação;
e. Programa de Educação Ambiental: desenvolver ações
educativas formuladas em processo participativo, visando
capacitar/habilitar os setores sociais para a efetiva melhoria da
qualidade ambiental e de vida na região.
f. Programa de Apoio às Unidades de Conservação: aplicar 0,5%
do custo do empreendimento em Unidades de Conservação na
área de influência da PCH;
g. Programa de Indenização de Terras e Benfeitorias: recompor o
patrimônio e a economia dos proprietários de terras afetadas,
de acordo com as condições encontradas;
h. Programa de Remanejamento da População: garantir que o
processo de remanejamento da população atingida ocorra em
consonância com as expectativas e demandas dos atingidos,
preservando sua qualidade de vida;
i. Programa sobre Patrimônio Cultural: proteger os bens culturais
ameaçados de destruição pelo empreendimento;
j. Programa de Monitoramento das Comunidades Aquáticas:
complementar o inventário da ictiofauna do rio Grande e
reestruturar as comunidades de peixes na área de influência da
PCH;
k. Programa de Gerenciamento de Resíduos e Efluentes:
monitorar a qualidade da água antes e depois da construção,
promovendo medidas para controlar e equilibrar as
comunidades faunísticas e aquáticas na área de influência da
PCH;
l. Programa de Limpeza da Bacia de Acumulação: mensurar e
retirar toda a vegetação da área a ser inundada;
m. Programa de Reflorestamento das Margens do Reservatório:
promover a recomposição e a manutenção das matas ciliares
do rio Grande;
n. Programa de Controle de Processos Erosivos: mapear e conter
os processos erosivos a montante e a jusante do
empreendimento a partir do reflorestamento com espécies
nativas;
o. Programa de Hidrossedimentologia: monitorar o comportamento
hidrossedimentológico antes e depois do enchimento do
reservatório.
(Entrevista e consulta realizadas em 18 de outubro de 2013)
Ainda de acordo com a entrevistada, as outras duas PCH
receberam os mesmos programas citados, o que possibilitou a
obtenção da Licença de Operação pelo INEA. A partir da figura
anterior, constata-se a abrangência da atuação da empresa, na
bacia do Rio Grande, atingindo os municípios de Bom Jardim, Santa
Maria Madalena e São Sebastião do Alto. Os programas dos três
empreendimentos são voltados aos meios físico, biótico e social, e
estão correlacionados entre si. Devido ao elevado número de
programas, destacam-se os resultados mais expressivos obtidos na
PCH Santo Antônio.
Inicialmente, cabe destacar o programa de reflorestamento das
margens do rio dentro da área de influência do empreendimento.
Para a implantação dessa PCH, foi necessária a supressão de 20
hectares de florestas. Em contrapartida, realizou-se o reflorestamento de 300 hectares com mudas nativas provenientes
de viveiro construído no local, e parte das mudas virá de sementes
catadas das espécies nativas, evitando-se a mudança da carga
genética do local. Dessa forma, foram reflorestadas áreas
degradadas e improdutivas no entorno do empreendimento, do rio e
entre fragmentos florestais, fato que possibilita a formação de
corredores ecológicos. Assim, uma nova via foi criada para que
houvesse maior fluxo gênico entre as espécies animais e vegetais.
O reflorestamento foi correlacionado com as medidas do
programa de controle de processos erosivos, levando-se em conta
que a reconstituição da cobertura vegetal trará benefícios, como a
minimização de processos intempéricos, erosivos e,
consequentemente, de assoreamento do rio Grande. Além disso, o
programa de apoio às Unidades de Conservação (UC) vem
permitindo investimentos em UC já existentes ou na criação de
novas UC (o grupo econômico já criou duas UC classificadas como
Reservas Particulares do Patrimônio Natural em dois
empreendimentos no estado de Minas Gerais). De acordo com o
PBA e a entrevistada, o programa de educação ambiental está em
desenvolvimento nas instalações da PCH, na rede de ensino público
e na comunidade local. Esse programa busca disseminar novas
posturas, hábitos e costumes junto à comunidade de Bom Jardim e,
para isso, foi realizada a capacitação de agentes multiplicadores da
rede pública de ensino municipal e estadual, bem como da
secretaria de saúde do município, para a realização de palestras,
oficinas, videodebates e alguns eventos, como o plantio de mudas
nativas e oficinas para conhecimento da fauna, da flora e dos
recursos naturais da região. Além disso, atividades relacionadas à
gestão de resíduos e saneamento básico para diminuir a incidência
de doenças de veiculação hídrica estão sendo desenvolvidas nas
mesmas oficinas.
O programa de comunicação social apresenta-se como uma
ferramenta de aproximação dos três setores produtivos do município
de Bom Jardim. Com esse programa, todos os impactos positivos e
negativos são comunicados com o intuito de criar um
relacionamento construtivo entre o grupo e a sociedade civil, o que
faz com que o primeiro passe a ser reconhecido pelo segundo como um novo agente local e regional, com responsabilidades junto aos
vizinhos e ao território no qual está alocado.
Para finalizar, vale destacar que a contratação de 95% da mão de
obra da construção foi proveniente do município de Bom Jardim,
atingindo mais de trezentos funcionários no pico da obra (2012).
Acrescenta-se que a prefeitura do município passou a receber
impostos como ISS e ICMS da PCH Santo Antônio.
Com os exemplos citados, percebe-se que as medidas adotadas
para fins de licenciamento ambiental são permanentes, pois vão
perdurar após o início da operação das PCH. A interrupção dos
programas contidos no PBA pode acarretar a não renovação da
licença de operação das PCH. Portanto, constata-se que o
cumprimento dos dispositivos legais do processo de licenciamento
ambiental apresenta caráter positivo para o território. O primeiro
fator que comprova esse fato é a possibilidade de acesso da
população aos estudos desenvolvidos pelo empreendedor,
disponibilizando um conteúdo pouco conhecido e enriquecedor para
a população local, como, por exemplo, a composição de fauna, flora
e elementos naturais de seu território. Outro fator importante é a
inclusão da população na política socioambiental da empresa, por
meio dos programas do PBA, mostrando uma nova perspectiva, que
passa pela consideração dos moradores como interlocutores diretos
no território. Além disso, esses estudos podem ser utilizados como
subsídios para políticas públicas e estudos de futuros projetos, uma
vez que identificam as potencialidades e as vulnerabilidades locais e
regionais.
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