Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença
10 – Do médico
Wilson A. Ribeiro Jr.
Não é pequena a intimidade entre o médico e seus pacientes, pois
eles se
colocam nas mãos de seus médicos.
[1]
Os parágrafos desiguais deste curto e heterogêneo texto tratam da importância da postura física e espiritual do médico, de seu comportamento, do arranjo de seu local de trabalho e de diversos temas explicitamente adequados aos médicos iniciantes.
Nenhum dos comentadores antigos menciona o tratado, e a data de composição foi estimada dentro de limites bem amplos: entre a segunda metade do século IV e o fim do século III a.C., o que corresponde a 350-200 a.C., aproximadamente.
O texto pode ser encontrado nos manuscritos V, C, E e no Holkamensis 282; V parece ser o mais privilegiado nas edições. Na Aldina, o tratado começa na página 5-verso e termina na 6-verso; na edição de Littré, ocupa as páginas 198-221 do Volume IX, publicado em 1861.
Tradução
1. O aspecto exterior do médico requer que tenha boa compleição e que seja também robusto, conforme sua própria natureza, pois os que não têm o corpo em boas condições são considerados por muitos incapazes de cuidar bem dos outros; que tenha sobre si coisas apropriadas, como vestimentas de boa qualidade e perfumes de odor agradável e insuspeito, pois essas coisas são agradáveis
aos doentes e é preciso ter isso em conta 293. Quanto às coisas do espírito, (mostrar) sensatez, não apenas em relação ao silêncio, mas também (em relação) a uma vida muito regular, o que importa muito para uma boa reputação. O caráter deve ser honesto e bom e, assim sendo, (deve ser) também sério e cordial em todas as coisas, pois a intromissão e o obséquio são desprezados, ainda que muito úteis. Deve cuidar de sua autoridade, pois essas coisas gozam de
estima junto às mesmas pessoas, que delas têm falta 294. Quanto à aparência, deve ter um rosto compenetrado, mas sem aspereza, o que parece ser presunção e misantropia; aquele que é propenso ao riso e tem ar excessivamente alegre é considerado vulgar. Isso deve ser observado, e não pouco. Deve ser justo em todo relacionamento, pois freqüentemente é necessário zelar pelo senso de justiça. Não é pequena a intimidade entre o médico e seus pacientes, pois eles se colocam nas mãos de seus médicos e o tempo todo se deparam com mulheres, moças e bens de considerável valor. É preciso, portanto, observar todas essas coisas com comedimento e conduzir-se assim, de corpo e alma.
2. E quanto aos preceitos referentes à arte da medicina, através dos quais é possível tornar-se um profissional, desde o começo devem ser vistos em conjunto aqueles pelos quais uma pessoa poderia começar a aprender. As coisas tratadas em consultório estão, certamente, ao alcance dos que estão aprendendo. Primeiramente, é preciso ter um local apropriado; e ele o será se não houver vento que atrapalhe, sol ou claridade que incomode. A luz clara não é incômoda para os que tratam, mas não é assim para os que estão sendo tratados. Esse tipo de claridade deve, sem dúvida, ser evitada; por causa dela os olhos adoecem. Recomenda-se, então, que a luz seja assim. De modo algum (o paciente) deverá ficar com o rosto contra a claridade, pois isso perturba ainda mais a visão enfraquecida, e qualquer motivo suficiente perturbará olhos doentes. É desta maneira, portanto, que se deve utilizar a luz. Os assentos devem ter semelhante altura o quanto possível, de modo que (o
médico) fique diante dos pacientes295. Com exceção dos instrumentos, nunca utilize nada de bronze, pois o uso de tais objetos me parece vulgar rebuscamento. É preciso oferecer água potável e pura aos que estão sendo tratados. Para a limpeza, utilizar coisas limpas e macias, tecidos leves para os olhos e esponjas para os ferimentos; ao que parece, essas coisas ajudam bastante por si mesmas. Todos os instrumentos precisam estar prontos para o uso, conforme o tamanho, peso e delicadeza.
3. É preciso cuidar de todas as coisas a serem aplicadas, para que sejam úteis, especialmente se vão tocar a parte doente. Essas coisas são as bandagens, os remédios, os tecidos leves para cobrir ferimentos, e os cataplasmas. Eles ficam em contato com as áreas doentes durante muito tempo. Depois disso, sua retirada, o refrescamento, a limpeza e o banho com água levam pouco tempo. E ter observado atentamente onde convém mais e onde convém menos, pois o emprego de ambos é conveniente; não considerá-los faz grande diferença.
4. Há, em medicina, formas apropriadas de colocar bandagens para ajudar a pessoa em tratamento. As duas coisas que mais ajudam são estas, que se deve utilizar: comprimir onde é preciso e enfaixar frouxamente. Quanto à época do ano, considerar se é necessário cobrir ou não, para que não passe desapercebido, por pouco, qual dessas duas coisas se deve usar aqui e ali. Deve-se renunciar às inúteis bandagens graciosas e teatrais; isso é vulgar e inteiramente exibicionista, e muitas vezes causará dano à pessoa em tratamento. O doente não está procurando ostentação e sim ajuda.
5. Em relação às cirurgias, as feitas por corte ou por cauterização, tanto a rapidez como a lentidão são igualmente louváveis, pois as duas têm (sua) utilidade. Nos casos em que a cirurgia é efetuada com um só corte, é preciso fazer a incisão rapidamente, pois quem está recebendo um corte sofre. O incômodo deve durar o menor tempo possível, e isso (só) acontecerá se o corte for rápido. Mas, quando são necessárias várias incisões, deve-se efetuar a cirurgia lentamente, pois fazê-la rápido e sem interrupção causa muito sofrimento; os intervalos, no entanto, interrompem um pouco a tensão de quem está sendo tratado.
6. O mesmo pode-se dizer dos instrumentos. Não recomendamos o uso das pequenas facas de ponta e das de lâmina larga em todos os casos igualmente, pois há algumas partes do corpo que têm um rápido fluxo de sangue e não é fácil contê-lo, como as varizes e algumas outras veias. É preciso que nessas partes o corte seja estreito, pois assim a hemorragia não poderá se tornar excessiva. Fazer uma retirada de sangue dessas partes algumas vezes ajuda. Nos lugares não perigosos e nas áreas em que o sangue não é fino, deve-se utilizar as pequenas facas (de lâmina) mais larga; (assim) o sangue poderá passar; de outro modo, não. É muito vergonhoso não obter, com a cirurgia, o que se quer.
7. Há dois tipos úteis de ventosa. Quando o fluxo está formado longe superfície da carne, sua circunferência deve ser pequena e ela não deve ser bojuda; a parte que fica na mão deve ser alongada e não pesada, pois sendo desse tipo a drenagem se faz em linha reta, e puxa bem os humores distantes em direção às carnes. Se o sofrimento afeta grande extensão da carne, a ventosa deve ser quase igual às outras, mas com grande circunferência, e assim você descobrirá que ela conduz o que está incomodando das mais extensas partes possíveis até o lugar conveniente. Não é possível a circunferência ser grande e não apreender a carne na maior extensão possível; se (a ventosa) for pesada, tende a apreender também os lugares da parte de cima. É preferível a retirada desde baixo, pois muitas vezes o que está doente é deixado para trás. Quando os fluxos ficam parados por muito tempo longe da superfície, as (ventosas) de circunferência larga atraem-nos, freqüentemente, junto com o resto da carne, e acontece de a umidade recolhida alí ficar na frente do humor que está embaixo, e as coisas que incomodam serem deixadas para trás, e as que nenhum sofrimento causam serem retiradas. É preciso ter em vista o tamanho de ventosa útil em relação às partes do corpo onde ela precisaria ser aplicada. Quando fizer uma incisão, prefira o tipo profundo, pois o sangue deve estar visível a partir dos lugares operados. Além disso, não é preciso fazer incisões no círculo da
retirada 296, pois a carne da região comprometida está muito tensa. Use as pequenas facas curvas e de ponta não muito estreita, pois algumas vezes os humores vêm viscosos e espessos: é, portanto, perigoso deixá-los retidos nas incisões, quando elas são estreitas.
8. Quanto à veia do braço, é preciso protegê-la através de
compressões297, pois em muitas pessoas a carne que envolve a veia não está bem ajustada a ela. Como a carne é escorregadia, os
cortes em ambos298 não ficam juntos um do outro, pois a veia insuflada fica junto, encoberta, e o fluxo de sangue é impedido. E por causa disso que, em muitas pessoas, o pus é produzido. Parece, realmente, que esse tipo de cirurgia traz dois danos: dor a quem foi cortado e grande descrédito a quem faz o corte. O mesmo (procedimento) deve ser seguido para todas (as veias).
9. Esses, portanto, são os instrumentos necessários ao consultório, e com os quais é preciso que seja hábil aquele que está aprendendo. O boticão e a pinça para tumores de úvula podem ser utilizados por qualquer um, pois o emprego deles parece ser simples.
10. A respeito dos tumores e feridas, que estão entre as maiores doenças, é necessário compreender que o mais eficaz é poder dissolver os tumores e impedir sua associação. Mas, se eles existem, (deve-se) conduzí-los a um lugar visível, o menor possível, e manter a composição do tumor uniforme e contínua, pois se ele estiver irregular, há perigo de romper e se tornar uma ferida de difícil cura. É preciso deixá-lo ficar homogêneo e maduro por igual e não abri-lo antes do tempo, nem permitir que se rompa sozinho. Das coisas capazes de levar uniformemente à maturidade já se falou em outras oportunidades.
11. As feridas parecem ter quatro maneiras de progredir, e a primeira é em profundidade: essas são as (feridas) que têm forma de fístula e são escondidas por uma cicatriz, escavadas no interior. A segunda (maneira) é para cima: as (feridas) que crescem acima da carne. A terceira (maneira) é no sentido da largura: essas
(feridas) são as chamadas rastejantes 299. E há um quarto caminho, que parece ser o único em que o movimento segue de acordo com a
natureza330. São esssas, portanto, as maneiras de ocorrerem feridas na carne; todas têm o mesmo tipo de desenvolvimento. Seus sinais foram mostrados em outros momentos, e também os cuidados que devem ser utilizados e através de que meios o desenvolvimento será interrompido. Quanto aos sinais da (ferida)
que está cheia 301, ou da que está esvaziando, ou da que avançou em extensão, dessas coisas já se falou adequadamente em outras ocasiões.
12. A respeito de cataplasmas, (têm-se) o seguinte: quando parecer
ser adequada, conforme a doença, a aplicação de tecidos leves302, ajuste o tecido leve à ferida, e o cataplasma em seu redor. Esse uso do cataplasma está de acordo com a arte e pode ser útil em numerosos casos. Parece que as propriedades das substâncias colocadas em volta ajuda a ferida, e o tecido a protege. O cataplasma é útil, efetivamente, para o que é externo à lesão. O uso dessas coisas deve ser, portanto, esse.
13. A respeito dos momentos oportunos, quando cada uma dessas coisas deve ser utilizada, e de como se deve aprender as propriedades das coisas que estão escritas, isso foi deixado de lado, uma vez que, em sua maioria, se refere a cuidados avançados em medicina e é apropriado a quem já está adiantado nesta arte.
14. Relacionada a essas coisas é também a cirurgia para a extração de armas de arremesso dos ferimentos que ocorrem em expedições militares. Quem trabalha na cidade faz pouco uso disso, pois raramente há exércitos de cidadãos e coisas de guerra. Tais coisas ocorrem com muita freqüência e continuamente nos exércitos mercenários. Quem pretende, portanto, fazer cirurgias, deve servir como soldado e acompanhar as expedições estrangeiras, pois assim ficará treinado nessas práticas. O que parece estar mais relacionado a essas coisas da arte, vou dizer: procurar os sinais das armas que estão dentro (do corpo) constitui a parte mais importante da arte médica e da cirurgia referente a isso. Tendo começado (o aprendizado) com isso, não será possível deixar de perceber, por ignorância, um homem ferido, quando ele não for operado convenientemente. Somente quem é experiente nesses sinais poderá manusear (essas coisas) com razoabilidade. Tudo isso está escrito em outros tratados.
Περι ιητου
Comentários
Embora não mencionado pelos antigos comentadores, o tratado Do médico é, sem dúvida, parte integrante da coleção hipocrática. O texto, como Petréquin, Daremberg e Littré já haviam apontado (Littré, 1861), tem notáveis paralelos com outros tratados da coleção: Juramento, Do decoro, Do consultório, Dos ferimentos (§; 10 e 23), Da medicina antiga (§; 22), Das articulações (§; 35 e 78), Das fraturas (§; 30), Epidemias III (§; 16), Das doenças (§; 18 e 27), Dos lugares no homem (§; 47), sobretudo.
Bensel encontrou, ainda, muitas semelhanças entre o Do médico e os tratados Do decoro e Preceitos; e chegou mesmo a defender a idéia de que os três são, provavelmente, contemporâneos (Bensel, 1922). Jones concordou com Bensel quanto à semelhança entre assunto e finalidade dos três tratados, mas apontou judiciosamente enormes discrepâncias de vocabulário, sintaxe e estilo entre eles (Jones, 1923). As características da linguagem e do estilo situam Do decoro e Preceitos, efetivamente, em época tardia, talvez entre os séculos II e IV d.C; a relativa simplicidade do texto e outras evidências internas, especialmente a menção aos exércitos mercenários [14], situam o tratado Do médico nos primeiros séculos do Período Helenístico, época das contínuas campanhas militares dos diádocos, sucessores de Alexandre III da Macedônia (Jones, 1923; García Gual, 1983).
O texto pode ser dividido em duas partes. Na primeira, composta unicamente pelo parágrafo [1], o autor dá diversos conselhos a respeito da postura do médico e do seu comportamento adequado; a segunda, bem mais extensa, compreende todos os demais parágrafos. Nos parágrafos [2-9] trata-se inicialmente da organização do consultório médico ( ατρ oν, iatreion) e de algumas técnicas de tratamento; a seguir, o autor discorre a respeito de temas frouxamente interligados, como tumores e feridas [10-11], cataplasmas [12] e cirurgia de traumas de guerra [14]. O parágrafo [13] contém uma breve referência ao "momento oportuno", conceito muito caro aos médicos hipocráticos.
A primeira parte trata quase que inteiramente daquilo que poderíamos chamar de "etiqueta médica". E é apropriado falarmos de "etiqueta" e não de "ética", pois as normas de conduta apresentadas visam especificamente à boa impressão que o médico precisa produzir em seus clientes. Os conselhos são muito detalhados e vão desde a conformação física adequada e ao correto comportamento do médico diante do paciente, passando pelo vestuário e pelos perfumes, até a especificação de sua correta postura fora da profissão. Vários conselhos são sensatos e apropriados a qualquer homem de bem; alguns, por outro lado, refletem um certo calculismo, já que devem ser adotados porque "são agradáveis aos doentes e é preciso ter isso em conta".
São citadas ainda, no final do parágrafo, as grandes tentações a que os médicos estão sujeitos em seu dia-a-dia e que devem ser firmemente combatidas, conforme preceitua o Juramento (p. 151). Há ainda outros pontos confluentes entre o Do médico e o Juramento, como a menção ao voto de silêncio, à justa fama e à boa reputação que o comportamento adequado do médico lhe permite almejar. É legítimo especular se o autor do tratado conhecia em especial o texto do Juramento ou se esses conceitos eram parte, simplesmente, de um conjunto de regras de comportamento adotado por todos os médicos sérios; infelizmente não temos nenhuma resposta para essa questão.
A segunda parte começa com uma descrição das características básicas de um iatreion apropriado. Grande ênfase é dada à ventilação, à luminosidade, à disposição dos assentos, ao arranjo do instrumental e à higiene. Nos parágrafos [3] e [4] fala-se da técnica de curativos e de colocação de bandagens; nos parágrafos [5] e [6], da técnica de incisões cirúrgicas.
A preocupação do autor com a dignidade resultante da postura física e espiritual do médico hipocrático, detalhada na primeira parte do tratado, é retomada em dois trechos notáveis: o que se refere à
desnecessária ostentação de caros objetos de metal 303 [2] e o que repele as inúteis e prejudiciais bandagens "graciosas e teatrais" [4]. O autor preceitua incisivamente e de forma lapidar que "o doente não está procurando ostentação, e sim ajuda" [4]. A repulsa à ostentação dos médicos era preconizada tanto por Galeno, que era médico (XIV, 600), como pelo escritor Luciano, que não o era (O Ignorante, 29).
A frase "a retirada de sangue dessas partes algumas vezes ajuda" [6] refere-se a um dos princípios fundamentais da terapêutica hipocrática, a necessidade da evacuação do humor nocivo acumulado em local indevido (v. Da natureza do homem, p. 43). Note-se ainda que pouco antes o autor mencionou a palavra Φλέψ, "veia", e voltou a empregá-la no parágrafo [8]. Convém lembrar que, na Antigüidade, essa palavra não tinha ainda o mesmo significado que adquiriu na ciência moderna. Na coleção hipocrática, "veia" designava, simplesmente, a estrutura tubular que conduzia os diversos humores (sangue, bile, fleuma, ar, água e o χώρ, um humor seroso); era empregada, um tanto indiscriminadamente, em relação aos órgãos que sabemos atualmente serem artérias e
veias304. A palavra ρτηρíα "artéria", já existia e designava notadamente a traquéia e os grandes vasos sangüíneos que mantinham os órgãos suspensos. Em alguns tratados hipocráticos, no entanto, a palavra Φλέψ já aparecia em oposição a ρτηρíα(Das articulações, por exemplo, que deve ter sido escrito aproximadamente em 425-375 a.C.).
A ventosa, cujos princípios de utilização são descritos com certa minúcia no parágrafo [7], foi um dos mais emblemáticos instrumentos empregados pelos médicos antigos. Era, habitualmente, de metal; o formato lembra uma taça ou um copo bojudo com um pescoço e uma "boca" mais estreitos que o
corpo 305. O esboço abaixo (A), desenhado a partir de um conjunto de instrumentos médicos do Período Helenístico, conservados no British Museum de Londres (Levi, 1984), mostra o aspecto geral do instrumento; o desenho (B) oferece uma idéia aproximada da representação das ventosas em vasos e relevos. Aplicava-se a ventosa diretamente sobre a pele, muitas vezes após algumas incisões leves e superficiais no local escolhido. Ao aquecê-la previamente, produzia-se uma rarefação do ar em seu interior que fazia elevar-se a pele do local delimitado pela "boca". A finalidade de seu emprego, consistente com a fisiopatologia hipocrática, era atrair o "humor doente" ou o sangue para a superfície, evitando-se assim sua acumulação em local indevido.
Nesse mesmo parágrafo, e também no parágrafo [8], onde o autor assinala os cuidados necessários às incisões próximas das "veias", surge a palavra σ ρξ, habitualmente traduzida por "carne". Note-se que, enquanto a ciência moderna utiliza essa palavra para designar especificamente os músculos, para um médico hipocrático "carne" era aquilo que se opunha a "sangue", "ossos" e "vísceras". A linguagem comum conservou algumas dessas antigas oposições em expressões como "de carne e osso", "sentir na carne", "a carne é fraca" e outras mais.
Uma das numerosas explicações da coleção hipocrática para a
formação do pus306 é rapidamente mencionada no parágrafo [8]. De acordo com o pensamento da época, centrado na teoria dos
humores307, quando um dos humores se separava dos demais – "apócrise"( πόκρισις) — e se depositava em um local à parte, formava-se o pus em decorrência do processo de "putrefação" ou sepse (σ πόΨις) que visava, em última instância, delimitar os humores inadequadamente misturados e possibilitar sua evacuação natural. No caso de um abscesso, por exemplo, o processo culminaria no rompimento espontâneo do mesmo e, conseqüentemente, na eliminação da secreção purulenta.
O parágrafo [9] nos coloca em contato com dois antigos instrumentos médicos, o òδοντάγρα, literalmente "caça-dente", e o ταΦυλάγρα, "caça-tumor de úvula". Ao primeiro corresponde, aproximadamente, o famoso boticão dos dentistas; o segundo, possivelmente bem parecido com o primeiro, não tem
correspondência específica no moderno instrumental cirúrgico 308. A atividade dos médicos hipocráticos englobava, naturalmente, as diversas doenças da boca e da garganta, pertencentes hoje em dia à medicina, assim como as doenças tratadas atualmente pela odontologia. No tratado Das articulações, por exemplo, problemas com os dentes são mencionados em relação à luxação da mandíbula; no tratado Das doenças fala-se especificamente da dor de dente e da necessidade da extração de dentes cariados (Das doenças, 4); e o tratado Da dentição aborda conjuntamente o desenvolvimento dos dentes e certas doenças da garganta.
Os parágrafos [10] e [11] tratam dos tumores e das feridas em geral. A palavra Φ μα designava "coisas que crescem", isto é, tumores (o autor se refere, a julgar pela descrição, a tumores inflamatórios, como os abscessos); ao grego έλκος, "ferida", corresponde o latim ulcus, origem da palavra portuguesa "úlcera". Observe-se que da palavra ρπης, derivada do verbo ρπω, "arrastar-se penosamente, mover-se lentamente" derivou o vocábulo "herpes", nome de uma doença da pele caracterizada pela presença de vesículas dolorosas que aparecem em uma pequena área e depois se alastram. Observa-se ainda, pela minuciosa exposição do autor, que aguardar a adequada maturação de um abscesso, antes de proceder à drenagem, faz parte da conduta médica há bem mais de 2000 anos.
Nesses dois parágrafos e também no [13] são mencionados dois outros importantes conceitos da terapêutica hipocrática, a "crise" (κρíσις) e o "momento oportuno" (καιρός). Acreditava-se então que as doenças atingiam, ao longo de seu desenvolvimento, momentos críticos oportunos para a intervenção médica (CH: Prognóstico, Epidemias, Da dieta nas doenças agudas). Era parte essencial do trabalho do médico, ao acompanhar a evolução das doenças, reconhecer os sinais que permitiam a identificação da "crise". A importância desses conceitos foi admiravelmente sintetizada pelo anônimo autor dos Aforismos, um dos mais importantes e famosos livros da coleção hipocrática:
A vida é breve, a arte longa, a oportunidade fugaz, a
experiência incerta, a
crise difícil309.
Aforismos (I,1)
Quanto aos cataplasmas [12], eles eram uma espécie de papa medicamentosa, envolvida em panos, aplicada em locais dolorosos ou inflamados. As "propriedades das coisas que estão escritas", mencionadas rapidamente no parágrafo [13], eram certamente as fórmulas registradas das diversas preparações à base de plantas que os médicos hipocráticos utilizavam (Do decoro, 9-10). No parágrafo [14], que trata dos ferimentos produzidos por traumas de guerra, o autor aconselha simplesmente o acompanhamento das expedições militares ao estrangeiro, oportunidade única para adquirir experiência nessa área.
Analisada de forma geral, essa segunda e última parte do tratado traz uma significativa contribuição aos nossos conhecimentos sobre
o aprendizado médico na Grécia Antiga 310. Sem dúvida, o autor deve ter sido um médico experiente, competente, sensato e dotado de enorme capacidade didática. Sua intenção foi, certamente, fazer um apanhado de vários temas adequados à instrução dos que estavam aprendendo os rudimentos da arte médica; e foi bem sucedido: todos os procedimentos assinalados parecem, efetivamente, estar ao alcance dos iniciantes. As breves menções à necessidade de estudos mais avançados e a assuntos relacionados com os temas discutidos em outros tratados ou preleções reforçam essa suposição. Um dado interessante que se depreende das informações do tratado é que procedimentos cirúrgicos simples, curativos e bandagens eram considerados da alçada do aprendiz; aquilo que chamaríamos atualmente de tratamentos clínico, por outro lado, era reservado aos estudantes mais adiantados [13].
Aparentemente, a julgar pela viva descrição dos procedimentos médicos básicos efetuados no iatrêion, o local de trabalho dos médicos hipocráticos era mais parecido com as modernas "clínicas" do que com os "consultórios médicos" onde apenas consultas são realizadas. Essa impressão é reforçada pelas detalhadas instruções fornecidas pelo autor de outro tratado, Do consultório, quanto ao material e aos arranjos necessários para tratamentos cirúrgicos no
iatrêion. 311 A decoração de um arybalo s ático de figuras vermelhas atribuído ao Pintor da Clínica, datado de 480-470 a.C. e encontrado em Paris, no Museu do Louvre, apresenta uma cena típica do
iatrêion312: um jovem médico, sentado, sustenta firmemente o antebraço direito de um homem maduro e aproxima dele uma pequena faca – para efetuar uma incisão, provavelmente. Pode se tratar também de uma sangria, uma vez que o antebraço do paciente não mostra nenhuma lesão (como, por exemplo, um abscesso). À frente dos dois vê-se um vaso de bronze largo e achatado para recolher, possivelmente, o que vai sair. À direita, outros cinco clientes aguardam a vez, conversando; um deles, o quarto, é um anão de idade madura.
Sabe-se que a maioria dos médicos gregos praticava de forma itinerante (cf. CH: Aguas, ares e lugares; Lei; Do decoro; Edelstein, 1967); é possível, portanto, que a arquitetura de um iatrêion variasse desde a o κíα, "casa", quando o médico era abastado e permanecia vários meses na mesma cidade, até o simples ργαστ ριον, "local de trabalho" (cf. Ésquines, Contra Timarco, 124), talvez uma humilde tenda disposta na ágora ao lado das tendas dos mercadores.
Outras traduções deste tratado para línguas modernas estão indicadas na Bibliografia: Littré, 1861; Bensel, 1922; Fleischer, 1939; Garcia Gual, 1983; Potter, 1995.
293. νοσέοτας, δε δέ τ το σκοπέειν. Neste pequeno trecho, a partir de "doentes", adotei a pontuação preconizada por Bensel (1922) e adotada por Potter (1995).
294. Trecho obscuro, que apresenta diferentes interpretações por parte de editores e tradutores; provável corrupção dos manuscritos.
295. Trecho obscuro, interpretado de formas diversas por editores e tradutores.
296. Trata-se, aparentemente, da marca circular que a ventosa deixa na pele após sua aplicação.
297. Littré, Potter e Garcia Gual (op.cit.) traduzem o termo κατάληψις por "ligadura". Em ambiente cirúrgico, no entanto, esse termo é aplicado especificamente ao ato de fechar ou ocluir um vaso sangrante através de fios ou algum outro meio. Optei, portanto, pela palavra "compressão", a meu ver mais condizente com a intenção do autor.
298. Isto é, na veia e na carne.
299. Littré traduziu a palavra έρπηστικά por "serpiginosas" (Littré, 1861).
330. Littré e Garcia Gual (op.cit.) especificam que se trata da cicatrização; no texto grego, porém, não há nenhuma referência explícita a isso.
301. Isto é, que acabou de evoluir.
302. Seria, provavelmente, o que atualmente é chamado de "curativo". Essa palavra pode ser usada, também, para nomear tecidos especiais colocados sobre uma lesão.
303. Nas casas gregas, o mobiliário e os utensílios eram, de modo geral, de madeira, tecido e cerâmica. Os objetos de metal, muito caros, limitavam-se quase que ao estritamente necessário, como por exemplo caldeirões e facas (cf.Maffre, 1989).
304. Era usavada até mesmo em relação aos ureteres (Ayache, 1992).
305. A iconografia da arte médica em numerosas obras da Antigüidade Greco-Romana compreendia tipicamente o cajado dos viajantes, uma serpente única enrolada em um bastão ( símbolo do deus Asclépio) e a ventosa.
306. Sabemos, atualmente, que o pus é um fluido de origem inflamatória constituído de micróbios, células teciduais e glóbulos brancos multinucleados ativos e degenerados que se forma em decorrência da presença de micróbios em certos locais do organismo.
307. Ver Da natureza do homem, p. 43.
308. Segundo Garcia Gual (op.cit.) esse instrumento é mencionado apenas neste texto e em uma das obras de Paulo Egineta (VI, 25). A úvula, popularmente chamada de "campainha", é uma proeminência ovalóide situada na região posterior do palato mole.
309. O βíoς βραχύς, δέ τέχνη μακρ , δέ καιρ ς ξύς, δέ κρìσις χαλεπ .
310. No Juramento e no tratado Do decoro essa questão é delineada com brevidade.
311. Pequeno frasco esférico de cerâmica decorada utilizado pelos homens para guardar óleo destinado à higiente corporal.
312. Ver Boardman (1975, p. 195).