Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença

Henrique F. Cairus · Capítulo 14 de 15

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Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença

12 – Preceitos

 

Wilson A. Ribeiro Jr.

Onde está presente o amor ao homem

está também presente o amor à arte.

[ §; 6 ]

Preceitos, assim como o Do decoro, está mal conservado, é um tanto obscuro e aborda mais de um tema. O autor faz inicialmente um curto comentário sobre a aquisição do conhecimento; depois, apresenta alguns assuntos relacionados com a etiqueta médica e por fim lista algumas notas esparsas, de difícil classificação.

Não se sabe com certeza se Erotiano, Crisipo e Galeno tiveram efetivamente acesso ao texto, como sugerem dois escólios. Ele parece pertencer ao grupo de tratados mais tardios da coleção hipocrática: características de vocabulário e de estilo situam a data da composição, com razoável probabilidade, nos séculos I ou II d.C.

O texto pode ser encontrado em M e em numerosos manuscritos tardios da Biblioteca Nacional de Paris. Na Aldina, ocupa as páginas 7-verso a 8-verso; em Littré, as páginas 246-273 do volume IX, publicado em 1861.

 

Tradução

1. Há tempo quando existe momento oportuno e o momento oportuno existe quando não há muito tempo. Há cura com o tempo e, às vezes, também quando há momento oportuno. E preciso certamente ser um médico atento e que saiba essas coisas – não através de uma reflexão plausível, mas através de uma longa experiência com a razão, pois a reflexão é uma lembrança composta de coisas apreendidas com a percepção. E a percepção que, tendo percebido antes e julgado o que é evidente, envia para a inteligência as coisas que servem de fundamento e, muitas vezes, as admite e guarda de tal maneira que, depositadas em si mesma,

recorda 356. Eu aprovo também a reflexão, se ela constrói o princípio a partir de um incidente e faz metodicamente a dedução a partir de coisas que se mostram, pois, se a reflexão constrói o princípio a partir das coisas evidentes que se realizam, ela encontra o fundamento no poder da inteligência quando admite cada uma dessas coisas junto com as demais. Deve-se, portanto, conceber a natureza estimulada e ensinada por coisas numerosas, de todo tipo, sob a ação de uma força vital. E a inteligência, tendo depreendido por ela mesma, como eu disse, (nos) conduz mais tarde em direção à verdade. Mas, se ela não é acessível (à inteligência) a partir do que é evidente e sim de uma razão imaginada e plausível, muitas vezes leva (o doente) a uma disposição penosa e aflitiva. Os (médicos) que trabalham assim seguem um caminho impraticável. Que mal haveria se aqueles que praticam mal as obras da medicina recebessem recompensas; mas, nessas circunstâncias, (elas recaem) em seus inocentes pacientes, a quem a violência do adoecer não pareceria suficiente se não se juntasse a ela a inexperiência do seu médico. A respeito desses assuntos, portanto, já foi explicado o suficiente.

2. Não se obtém conclusões somente a partir de palavras, mas da demonstração de fatos, pois a força da conversação é inconstante e facilmente vacila. Em conseqüência, é preciso manter-se firme, em geral, quanto às coisas que acontecem e não cuidar dessas coisas com brevidade, se estiver destinado a ter o fácil e irrepreensível hábito que chamamos, efetivamente, de arte médica. Certamente

isso dará grande vantagem sobre doentes e praticantes da cura257. Não hesite em fazer investigações junto aos leigos, se algo parece ter alguma utilidade para a ocasião do tratamento, pois parece ser assim que a arte se mostra na totalidade, através de cada resultado observado e posto em ordem em uma coisa única. É preciso, portanto, estar atento à situação freqüentemente associada à utilidade e à tranqüilidade mais do que a uma promessa e à justificativa que segue o insucesso.

3. E vantajosa a diversidade das coisas oferecidas ao doente e sua prévia determinação, porque somente uma coisa apresentada ajudará; não é preciso força, pois todas as doenças, através de numerosos estados e mudanças, estabilizam-se em um único estado.

4. Aconselho que, dentre as considerações, seja também examinado isto, pois acrescenta alguma coisa ao todo: se começar por tratar dos honorários, você dará a impressão a quem está sofrendo de que, se não houver acordo, irá embora e o abandonará, ou que o negligenciará e não oferecerá algo para a situação presente. Não é preciso, portanto, cuidar da fixação dos honorários, pois consideramos sem utilidade tal preocupação para quem está atormentado, principalmente em caso de doença aguda. Ela não estimula o bom médico a buscar o que é vantajoso: adquirir mais reputação. É melhor, portanto, censurar quem está salvo do que extorquir dinheiro dos que estão em perigo de morte.

5. Alguns doentes efetivamente apreciam o que tem um ar estranho e preferem o que é obscuro; são certamente dignos de indiferença, mas não de punição. E por isso que você naturalmente se oporá a eles, que estão atravessando uma transformação rumo à

perplexidade358. E quem, por Zeus, em tudo irmanado a um médico, pratica a medicina com tal crueza que, examinando inicialmente a doença por inteiro, não prescreve coisa alguma que ajuda o tratamento, socorre o doente e não olha o pagamento, longe do

desejo que dispõe ao aprendizado 359?

6. Recomendo não levar a apantropia longe demais, considerar os recursos (do paciente) e seu meio de vida e, às vezes, (trabalhar) gratuitamente, trazendo à lembrança um benefício anterior ou a boa

reputação 360 presente. E, havendo oportunidade de tratar quem é estrangeiro e está sem meios de subsistência, dê assistência, sobretudo aos que estão em tal condição. Onde está presente o amor ao homem está também presente o amor à arte. Alguns doentes, percebendo por si mesmos que sua doença não está estabilizada, contentes pela bondade do médico, mudam em direção à saúde. E bom manter os doentes sob vigilância, tendo em vista sua saúde; preocupar-se com os que têm boa saúde, tendo em vista a ausência de doenças; e preocupar-se também consigo mesmo,

tendo em vista o decoro 361.

7. Aqueles que estão na mais profunda ignorância da arte não são capazes de perceber o que acabou de ser dito. Deles, que não são médicos, pode-se dizer que foram elevados acima de sua capacidade, com a necessária ajuda do acaso. Pelo fato de algumas pessoas ricas obterem um curto alívio, conseguem ter renome por

meio dessas duas coisas 362. Quando erram o alvo, o que é pior, mostram-se insolentes e desdenham as irrepreensíveis coisas da arte, nas quais um bom médico, que acusam de exercer a mesma profissão, mostraria sua melhor forma. Ele, que realiza facilmente curas irrepreensíveis, não transgrediria nada disso por falta de capacidade; pois não é indigno de fé, como no caso de erro. Em

comparação, eles363 não procedem ao tratamento quando observam estados de saúde alarmantes e evitam recorrer a outros médicos, pois detestam ajuda. Os doentes, aflitos, se vêem mergulhados em duas incapacidades, por não se terem confiado, até o fim, ao tratamento mais longo por meio da arte. A diminuição de qualquer doença para quem sofre traz um grande alívio; eis porque, necessitando de boa saúde, eles não querem aceitar

sempre os mesmos tratamentos 364, concordando com as variações do médico. Os doentes ficam em apuros, pois a despesa é †

extravagante †, prosternam-se diante da incompetência365 e são ingratos ao encontrá-la. Quando têm recursos, esgotam-se com pequenos pagamentos, querendo na verdade estar saudáveis por causa.....frutos do trabalho ou da sua terra, não se preocupando com qual deles contratar.

8. A respeito desse tipo de indicação é o bastante. O alívio e a piora do doente dependem da assistência médica. Não é inconveniente um médico, em dificuldade durante o atendimento de algum doente e inseguro devido à inexperiência, solicitar que venham outros para investigar os problemas do doente através do diálogo, e se tornem colaboradores no sentido de uma assistência com mais recursos.

No acompanhamento de uma condição em que o sofrimento está aumentando, pela perplexidade do momento, a maioria das coisas se desvia. Nessas ocasiões é, portanto, obrigatório ser resoluto. Eu jamais fixarei esse limite, para que a arte seja condenada quanto a

isso. E eles 366 nunca devem discutir ou recorrer a insultos, direi sob juramento, e nenhuma argumentação de um médico deveria despertar ciúmes de outro, pois seria demonstrar fraqueza. São certamente os vizinhos que, negociando na praça, fazem essas coisas sem dificuldade. Fica isso, portanto, compreendido sem equívoco, pois em todo percurso há percalço.

9. Com tudo isso, seria forte evidência para a existência da arte se qualquer um, ao praticar adequadamente a medicina, não se abstivesse de tais coisas, exortando os doentes a não ter nenhuma perturbação em mente, na ânsia de chegar ao momento da cura. Nós damos as orientações necessárias para atingir a saúde e (o doente), obedecendo, por certo não cometerá erros graves. Eles, os doentes, deixados a si mesmos em seu estado doloroso .... abandonam a vida. Se aquele que, tendo tomado o doente em suas mãos, demonstra as descobertas da arte, preservando a natureza

sem alterá-la, afastará o <amargor>367 presente ou a desconfiança imediata. A boa compleição do homem é uma natureza que,

naturalmente, produz um movimento não de forma anormal368, mas (sim), muito harmoniosamente, pela respiração, pelo calor e pela produção dos humores e, de todo modo, por toda a dieta e por essas coisas combinadas, se não houver alguma deficiência de

nascença ou desde cedo 369 370 . Se houver alguma, estando ele se enfraquecendo, tente atenuá-la deixando-o próximo de sua natureza

essencial371, pois aquilo que desgasta, por algum tempo, é contrário à natureza.

10. Deve-se evitar o luxo das bandagens de cabeça para obter a cura e de perfume elaborado; pois com muita coisa não usual você terá obtido uma calúnia; com pouca, o decoro. Com efeito, dor em uma parte (do corpo) é pouco; em todo, muito. Eu não afasto a amabilidade, pois é digna do comportamento de um médico.

11. E tenha presente na memória a aplicação de instrumentos, a explicação dos sinais significantes e assuntos desse teor.

12. E se desejar fazer uma conferência em benefício de uma multidão reunida, não anseie por muita glória e, ao menos, não recorra ao testemunho dos poetas, pois isso mostra falta de

diligência372. Rejeito, portanto, para a citação, outro tipo de diligência que não a pesquisada com esforço, porque só nela se tem uma seleção agradável; e você evitará, desse modo, a vã atividade de um zangão no meio do cortejo.

13. Uma disposição livre do aprendizado tardio é também desejável: que não resolve nenhuma das coisas presentes e tem somente uma lembrança sofrível das ausentes. Surge, conseqüentemente, uma incompetência preparada para qualquer coisa, acompanhada de impulsividade juvenil, sem nenhum cuidado com a boa aparência, definições, promessas, juramentos realmente grandes em nome dos deuses, da parte do médico encarregado da doença, enquanto leigos confusos se perdem em admiração pela linguagem florida utilizada em exposições e instruções contínuas, já reunidas antes

mesmo de eles estarem comprometidos por uma doença373. E nos lugares em que estou encarregado de tais casos, não teria a confiança de pedir a tais homens uma reunião para ajudar no

tratamento, pois neles é disperso 374 o entendimento do que se aprende pela investigação conveniente. Como eles são, portanto, incapazes de compreensão por necessidade, recomendo a

experiência como útil: a investigação de opiniões vem depois 375.

Quem tem o desejo de querer376 investigar genuinamente várias opiniões divergentes, em detrimento da segurança da mão

experiente?377 Aconselho-os, por isso, a ficarem atentos ao que eles dizem, mas a se oporem ao que eles fazem.

14. Nas dietas restritas 378, não † reprima † durante muito tempo um

desejo constante do doente 379 380 . Em doenças de longa duração, a

indulgência também faz (o doente) se levantar da cama, se alguém

der a atenção devida ao cego 381. Um grande medo deve ser evitado, assim como a alegria intensa. Um distúrbio súbito de ar também deve ser evitado. No auge da idade todas as coisas são fáceis; no declínio, o contrário. A afasia ocorre ou por causa de uma

doença, ou por causa dos ouvidos382, de uma das primeiras coisas reveladas do que eles têm para dizer, ou de uma coisa que pretendem dizer daquilo que têm em mente. Isso realmente é dito, sem doença visível, quando se está em harmonia e se gosta da

arte383 384 . O vigor da juventude, quando é pequena a parte afetada

pela doença385 386 , é às vezes muito grande. A irregularidade da doença indica sua (longa) duração. A crise é a resolução da doença.

Um problema de curta duração 387 tem cura, a menos que ele afete um lugar vital. Como a simpatia na doença causa transtornos,

algumas pessoas os sofrem quando simpatizam 388 com outras. Falar alto é prejudicial. Para um intenso amor ao trabalho, uma

escusa 389 390 . Um lugar † cercado de bosques † é vantajoso.

 

Πapaγγeλιaι

Comentários

Devido a sua considerável extensão, diversas passagens do tratado são de difícil entendimento, impedindo muitas vezes a compreensão total do texto, jones comentou, atônito, que editores do calibre de

Ermerins391 deixaram parágrafos inteiros sem tradução, e reconheceu, ademais, que o estabelecimento do texto ainda não é satisfatório, dadas as deficiências dos manuscritos sobreviventes (Jones, 1923, p.305). A grande quantidade de expressões truncadas

e de palavras estranhas e raras 392 também levaram Littré a afirmar, décadas antes, que o sentido indeterminado de muitas passagens fazia de Preceitos "o tratado mais difícil de compreender de toda a coleção" (Littré, 1861).

Isto posto, é inevitável a comparação entre os tratados Preceitos e Do decoro. Bensel reconheceu grandes similaridades entre Do médico, Do decoro e Preceitos (Bensel, 1922); mas os autores desses textos, a julgar pelo estilo, eram pessoas completamente distintas (cf.Jones, 1923; Fleischer, 1939). Os autores dos dois últimos tratados, no entanto, devem ter sido médicos de alguma projeção e cercados de discípulos que precisavam ser treinados e orientados. O estilo do autor de Preceitos, notadamente, se caracteriza pela brevidade aforística, pelo gosto por expressões pouco usuais e por uma linguagem alusiva e metafórica que lembra um pouco os poetas líricos (cf.Jones, 1923). Jones sugeriu também que, além de ser um imperfeito conhecedor do grego, o autor de Preceitos pode ter sido um médico romano que decidiu escrever em grego – e até identificou certas passagens nos parágrafos [4], [5] e [13] que corresponderiam à transposição de expressões latinas para o grego (Jones, 1923). O estado do texto, infelizmente, não nos permite concordar com essa interessante tese, ou dela discordar.

Enquanto Do decoro tem problemas textuais pontuais, Preceitos apresenta dificuldades de interpretação em quase todos os parágrafos, muitas delas insuperáveis, conforme reconheceu Littré (Littré, 1861). Mesmo assim, as informações que o tratado nos fornece a respeito da prática médica na Antigüidade são importantes, não só para a história da medicina, mas também para a história da ciência. O tom do texto, professoral e argumentativo, corresponde provavelmente a uma aula ou conferência que um médico experiente preparou para apresentar a estudantes ou a médicos mais jovens. A obscuridade do estilo, infelizmente, prejudica uma análise mais criteriosa da argumentação e das recomendações apresentadas.

Pode-se dividir o tratado em três seções: a primeira compreendendo os parágrafos [1] e [2], que tratam da natureza do conhecimento adquirido e sua aplicação à medicina; a segunda, os parágrafos [3-13], dedicados à ética médica; o parágrafo [14], que forma sozinho a terceira parte, contém apenas frases sem relação aparente entre si ou entre os temas tratados nos parágrafos precedentes. Devido à frouxa conexão entre todos os assuntos abordados e entre algumas frases da segunda parte, não se pode afastar a possibilidade de que Preceitos seja uma coletânea de textos de autores diversos; Jones, todavia, reconheceu que há alguma unidade de estilo entre os quatorze parágrafos (Jones, 1923, p.307).

A primeira frase do parágrafo [1] é um exemplo da brevidade aforística do autor. A julgar por uma glosa descoberta no Urbinas Graecus 68 393 , manuscrito do século XIV, a passagem despertou a atenção dos críticos antigos. Para Littré, o autor da glosa teria sido o médico Galeno de Pérgamo que relata, inicialmente, que o filósofo Crisipo teria interpretado a passagem de forma alegórica (Littré, 1861). Ele afirmava que χpóvoς ("tempo") exprimia a teoria, adquirida pelo tempo, e καιpóς ("momento oportuno"), a experiência; aqueles que se dedicam à medicina deveriam, portanto, confiar na experiência e não apenas na teoria. O médico Arquígenes opinara que χpóνoς era a duração total da doença, enquanto καιpóς corresponderia a cada uma de suas quatro etapas: começo, agravamento , ápice e declínio. A cura se daria no καιpóς, antes do declínio, e é por isso que o médico não deve confiar apenas na teoria: segundo a teoria, as doenças se definem durante o declínio. Galeno, a seguir, menciona brevemente outras interpretações, sem nomear os autores e, por fim, nos dá a sua leitura: "o tempo (χpóvoς) da arte é aquele em que o καιpóς muda e modifica o corpo; a mudança é a fase onde o poder da arte é curto e obscuro. A cura se dá pela arte, mas também se dá às vezes

espontaneamente, por uma modificação favorável do corpo"394. A glosa data, ao que parece, da época de Galeno; Diller propôs uma data mais tardia, no século VI ou VII (Diller, 1933); Fleischer considerou-a espúria (Fleischer, 1939).

Creio, independentemente da plausibilidade dessa interessante glosa, que a intenção precípua do autor foi tão-somente chamar a atenção para a importante diferença entre o conhecimento obtido pela elucubração teórica e o conhecimento decorrente da aplicação do raciocínio em fatos adequadamente observados. Depois de iniciar o tema com uma frase de impacto, apresentando os conceitos envolvidos de forma gnômica, traça largamente uma teoria do conhecimento (López Férez, 1983). O tipo mais adequado para a prática médica seria, certamente, o último, pois médicos que agem de outro modo "seguem um caminho impraticável"; isso é inadmissível, pois as conseqüências não recaem sobre eles, e sim "em seus inocentes pacientes". A terminologia se baseia, naturalmente, nos conceitos da época a respeito das doenças em geral. Segundo a coleção hipocrática, as doenças evoluem de forma silenciosa durante um certo tempo (CH: Da arte, Da dieta) e, posteriormente, se localizam em uma parte do corpo (cf. Ayache, 1992). O momento crucial da evolução seria a κpíσις, "crise", momento em que a doença se define rumo à cura, ou não: cabe ao bom médico identificar o "momento oportuno" (καιpóς) da sua intervenção (Rey, 1946; Ayache, 1992). O momento oportuno não

dura muito tempo (CH, 395 Aforismos , I, l); conseqüentemente, não há tempo a perder.

Jones notou que a linguagem empregada nesse parágrafo tem amplos paralelos com a filosofia, especialmente com as doutrinas de Epicuro. Há, efetivamente, algumas semelhanças entre a linguagem do autor e a Carta a Heródoto, de Epicuro, conservada por Diógenes Laércio (1Vida e doutrina dos filósofos ilustres X, 35-83). López Ferez, por outro lado, encontrou muitas idéias que "eram patrimônio geral e comum de todas as escolas filosóficas helenísticas" e observou que o autor, do ponto de vista doutrinário, era mais propriamente um eclético (López Férez, 1983). Desse modo, como todo erudito que viveu na época do Império Romano, o autor de Preceitos era um bom conhecedor das principais correntes

filosóficas da época396.

No parágrafo [2], após desmerecer informações obtidas através da mera conversação, o autor reitera seu argumento de que a arte médica depende, obrigatoriamente, de fatos observados e organizados com cuidado. Seria esta uma crítica velada a conclusões baseadas unicamente nos sintomas relatados por doentes e familiares? Como esse é o único método empregado por curandeiros, a possibilidade é deveras atraente.

O parágrafo [3] é bastante confuso e parece ser apenas uma transição entre a primeira e a segunda parte do tratado. Depois de mencionar que o tratamento dos doentes requer providências variadas, o autor passa a tratar diretamente de temas ligados à ética médica.

O primeiro tema, que se desenvolve com um certo detalhamento nos parágrafos [4-6], é o dos honorários médicos. A recomendação do autor à sua audiência, sintetizada na última frase do parágrafo [4] – "é melhor, portanto, censurar quem está salvo do que extorquir dinheiro dos que estão em perigo de morte" –, atravessou os séculos e se mantém em quase todos os modernos códigos de ética médica. Veja-se, por exemplo, o seguinte trecho do atual código brasileiro:

É vedado ao médico:

(...)

Art. 89 - Deixar de se conduzir com moderação na fixação de

seus honorários, devendo considerar as limitações econômicas

do paciente, as circunstâncias do atendimento e a prática local.

O código de ética português também contempla esse tema:

ARTIGO 81.º

(Princípio geral)

1. Na fixação de honorários deve o Médico proceder com justo

critério, atendendo à importância do serviço prestado, à

gravidade da doença, ao tempo dispendido, às posses dos

interessados e aos usos e costumes da terra.

E necessário, conseqüentemente, observar a capacidade financeira do doente e, se for o caso, renunciar à remuneração: o médico deve ter amor pela humanidade, tanto quanto tem amor pela arte [6]. A postura, admirável sem dúvida, reflete de forma tocante o humanismo dos médicos hipocráticos. Convém, todavia, dimensionar mais detalhadamente o significado desse tipo de renúncia para um grego da Antigüidade.

A noção da justa retribuição a qualquer serviço prestado, mesmo um simples favor, estava fortemente enraizada na cultura grega. Isso pode causar estranheza a nós, modernos, impregnados que estamos por vinte séculos de doutrina católica, de caridade cristã e de apologia da ajuda desinteressada a carentes e excluídos. Entre os gregos antigos, todavia, o pagamento apropriado era sempre devido pelo beneficiário de qualquer serviço prestado, humano ou divino. Certa vez, os deuses Apoio e Posseidon, depois de construírem as muralhas de Tróia, lançaram um terrível monstro contra a cidade porque o rei Laomedonte recusou-lhes o μισθóς, o pagamento (Ilíada, XXI, 435-460). Até mesmo o relacionamento entre as divindades e seus adoradores implicava em alguma forma de retribuição. O tebano Mantiklos mandou gravar em uma estatueta de bronze dedicada a Apolo, por volta de 700 a.C, os seguintes versos hexâmetros: "Mantiklos me oferece a Apolo do arco de prata; agora tu, Febo, dá-me em troca algo prazeroso" (Boardman,

1991)397. Todos, portanto, esperavam receber um pagamento pelo seu trabalho, desde o mais importante dos deuses até o mais anônimo dos médicos que praticavam sua arte (Xenofonte, Memorabilia, 1,2,54). Mesmo o legendário Hipócrates aceitava discípulos mediante pagamento (Platão, Protágoras, 311b-c). Note-se que a renúncia ao recebimento de honorários em dinheiro não tornava a retribuição inteiramente desnecessária. Em nosso caso, o autor explica que a renúncia de dinheiro seria compensada pelo reconhecimento e valorização da arte médica e pelo aumento da

reputação, um dos bens mais valorizados por todos os gregos 398. Mas, independentemente de qualquer tipo de interesse, o autor reconhece que, quando o paciente está contente com o médico, muitas vezes "muda em direção à saúde". O romano Celso, ao postular que uma relação amigável entre médico e paciente favorece a cura (Mudry, 1980), levou o argumento ainda mais longe do que o nosso autor.

No início do parágrafo [5], ao mencionar o gosto dos pacientes por "coisas obscuras", o autor faz provavelmente referência às formas alternativas de medicina daquela época e aos seus praticantes (CH: Da doença sagrada, Do decoro). No final do parágrafo [6] ele menciona, de passagem, outra importante obrigação do médico: a medicina preventiva. E preciso se preocupar não apenas com os já afetados por uma doença, mas inclusive com os que ainda estão sãos, para que não adoeçam. O médico precisa, também, manter a própria saúde, pois o aspecto saudável faz parte da etiqueta médica (CH, Do médico). Finalmente, o verbo ("ser irmão de, ser

parecido com") do parágrafo [5], segundo Jones e López Férez, reforça a idéia da existência de uma irmandade de médicos (Jones,

1923; López Férez, 1983)399.

Grande parte do parágrafo [7] é de difícil compreensão, talvez devido a lacunas nos manuscritos originais (Jones, 1923). A questão dos médicos e dos falsos médicos (CH: Da doença sagrada, Do decoro) é mais uma vez abordada e lamenta-se, também, a constante mudança de médicos por parte de alguns pacientes. Incidentalmente, observa-se que os médicos mal preparados "evitam recorrer a outros médicos"; a seguir, no parágrafo [8], o tema é tratado com mais detalhes. O bom médico, quando necessário, deve recorrer à ajuda de outros médicos. Reunidos, os médicos devem se abster de discutir diante do doente e devem, além disso, tratar uns aos outros com urbanidade e consideração. Essa recomendação era aparentemente necessária, a julgar pelo testemunho de um médico romano do século IV-V d.C:

Quando o doente corre grande perigo, acorre uma multidão de

médicos de nossa corporação; não temos, então, piedade de

quem está morrendo mas, como nos Jogos Olímpicos,

buscamos glórias vãs: uns, pela eloqüência; outro, na

discussão; outro, na demonstração; um outro, na refutação.

(Theodorus Priscianus, 400 Logicus 2)

A reunião de médicos para discutir o diagnóstico ou o tratamento dos casos mais complicados, conhecida em tempos modernos por "junta" médica no Brasil e por "conferência" médica em Portugal, foi postulada pelo autor de Preceitos, há cerca de mil e oitocentos anos. Tanto a conferência como o relacionamento adequado entre os médicos conferentes ocupam posições de destaque nos códigos de ética dos dois países. Eis um trecho do código brasileiro:

Art. 18.º - As relações do médico com os demais profissionais

em exercício na área de saúde devem basear-se no respeito

mútuo, na liberdade e independência profissional de cada um,

buscando sempre o interesse e o bem-estar do paciente.

Art. 19º - O médico deve ter, para com os colegas, respeito,

consideração e solidariedade, sem, todavia, eximir-se de

denunciar atos que contrariem os postulados éticos à Comissão

de Ética da instituição em que exerce seu trabalho profissional

e, se necessário, ao Conselho Regional de Medicina.

(...)

E vedado ao médico:

(...)

Art. 64.º - Opor-se à realização de conferência médica

solicitada pelo paciente ou seu responsável legal.

O código de ética médica português se refere à mesma questão de forma bem mais detalhada:

ARTIGO 107.º

(Correcção e lealdade)

1. Nas suas relações, devem os Médicos proceder com

correcção e lealdade, abstendo-se de qualquer alusão

depreciativa, sem prejuízo do disposto no Artigo 95.º

ARTIGO 114.º

(Convocação)

1. Uma conferência médica pode ser proposta quer pelo Médico

assistente, quando as circunstâncias o exijam, quer pelo

doente, seus familiares ou representante Legal, indicando o

Médico assistente, sempre que solicitado, Colegas qualificados

tomando para o efeito em consideração os desejos do doente

ou seus representantes.

2. O Médico não deve recusar reunir-se com qualquer Colega,

em conferência, salvo ocorrência de razões justificativas.

ARTIGO 119.º

(Dever de correcção)

O Médico assistente e o Médico conferente, no decurso ou em

acto seguido à conferência, devem evitar causar dúvidas ou

apreensões injustificadas ao doente e seus familiares,

abstendo-se nomeadamente de referências depreciativas à

actuação dos Colegas.

O parágrafo [9] é também um pouco confuso e as recomendações se sucedem de forma irregular e desconexa. Deve-se evitar, em suma, que o paciente tenha a mente perturbada, cuidar para que as descobertas da medicina referentes ao tratamento da doença sejam enfatizadas e manter o equilíbrio do paciente da forma mais próxima possível de sua natureza normal. A conservação da saúde pela ação harmoniosa do "ar da respiração, pelo calor e pela produção dos humores" são conceitos mencionados em muitos tratados da

coleção hipocrática401. O calor interno inato, por exemplo, diferencia o corpo vivo do cadáver e, em caso de doença, produz a cocção dos humores nocivos, muda sua natureza e prepara sua eliminação (Rey, 1946). As "deficiências de nascença" mencionadas são um dos aspectos nosológicos mais característicos da coleção: a doença depende tanto da natureza do indivíduo (θúσις) como de seus hábitos de vida, das variações climáticas e de outros fatores externos (CH: Da doença sagrada, Da medicina antiga, Águas; ares e lugares). O princípio do tratamento, seguir a natureza, é também um dos princípios da moral estóica (cf. Rey, 1946).

Os parágrafos [10] e [11] abordam, sem muitos detalhes, temas já discutidos anteriormente nos tratados Do médico e Do decoro. O autor de Do decoro, aliás, listou, em uma passagem, várias características que permitiam o reconhecimento do médico competente e ético; caracterizou-o como "conciso, simples, argumentador, capaz de utilizar belas palavras e de discursar com graça (CH, Do decoro, 3). No parágrafo [12] o autor de Preceitos trata de um aspecto do comportamento médico que complementa, de certa forma, essas competências: nas apresentações diante de uma "multidão", isto é, diante de leigos, citações poéticas devem ser evitadas. As frases seguintes são um tanto estranhas mas parecem recomendar que, nessas situações, o bom médico deve recorrer apenas a citações fundamentadas na própria arte médica.

No parágrafo [13] nos deparamos de novo com um texto em parte confuso, que contém aparentemente uma lista de argumentos contra médicos que aprenderam tardiamente a profissão, isto é, em idade mais avançada. O aprendizado tardio (oψιμαθíα) se opõe, no caso da medicina, à recomendação de que a arte deve ser

aprendida desde a mais tenra infância402. Sabemos que grande Galeno de Pérgamo iniciou seus estudos aos dezesseis anos; os médicos Oribásio e Sorano de Éfeso recomendavam, por sua vez, a idade de quatorze ou quinze anos, respectivamente, como limites máximos para o início dos estudos (Galeno, XIX, 59; Oribásio, Syn. 5, 14). Esse tema parece ter tido certa importância na Antigüidade, pois foi tratado de forma sarcástica por Teofrasto (Caracteres, 27) e,

um século antes, por Aristófanes. Na comédia 403 As nuvens, o personagem Estrepsíades, rústico e idoso, tenta aprender os argumentos necessários para fugir de dívidas que não pode pagar. O coro saúda, em um primeiro momento, sua iniciativa:

Que o homem tenha sorte

porque, ao chegar

a tão alta idade,

com novidades

dá cor à sua natureza

e cultiva a sabedoria.

(vv. 512-517)404

Mais tarde, porém, Estrepsíades se dá mal – de forma extremamente cômica, é claro.

Quanto ao caso da medicina, o autor de Preceitos dá a entender, um tanto acidamente, que quem sai prejudicado é o paciente, impressionado e enganado pela linguagem florida, pelos "grandes juramentos em nome dos deuses" e pelas instruções infindáveis desses médicos. Segundo Ducatillon, essas "vocações" tardias, relativamente comuns em Roma, a partir da segunda metade do século I a.C., eram guiadas tão-somente pelo interesse financeiro (Ducatillon, 1980).

Littré sustenta que Preceitos termina no final do parágrafo [13] e que as notas do parágrafo [14], sem nenhuma conexão com o resto do tratado, foram incluídas pelo copista do manuscrito para aproveitar espaço e não perder algum fragmento solto que tinha em mãos (Littré, 1861). Sarton, que aparentemente acreditava na unidade do tratado, considerou essas frases esparsas simples notas que o autor não teve oportunidade de desenvolver (Sarton, 1953). Parece-me que a opinião de Sarton, embora puramente intuitiva, é a mais plausível.

Farei apenas um breve comentário sobre a frase do parágrafo [14] que menciona os "súbitos distúrbios de ar": essa pode ser a mais antiga referência à crença popular ainda vigente entre os leigos de que os "golpes de vento" – e não os micróbios – causam as infecções respiratórias.

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Outras traduções deste tratado para línguas modernas estão indicadas na Bibliografia: Littré, 1861; Jones, 1923; Fleischer, 1939; López Férez, 1983.

356. Isto é, a inteligência recorda.

257. O texto original traz a palavra δηµιουργóς, que designa os profissionais em geral e, na coleção hipocrática, os que se dedicam às práticas da cura e não são médicos (lembram os modernos "curandeiros").

358. No original: . Traduzi aqui cf. o sentido do termo em Galeno (IX, 816).

359. Passagem obscura, interpretada de forma diversa por editores e tradutores.

360. , cf. manuscritos. Jones: .

361. Ver a apresentação de Do Decoro.

362. Isto é, em razão do acaso e da melhora dos doentes ricos.

363. Os que não são médicos.

364. A palavra χρησιν se refere, segundo o dicionário de Bailly, aos diversos tipos de relações entre duas pessoas. Com essa tradução procurei exprimir a complexa relação entre o médico e o doente.

365. "Maldade", literalmente. Segui a lição de Jones, mais afinada com o texto.

366. Os médicos que estão tratando o doente.

367.πικρíην cf. Littré. Jones: .

368. , no original. Minha tradução segue o sentido do termo

em Sorano de Éfeso (2, 5) e Galeno (14, 780).

369. Provavelmente algum problema surgido nos primeiros anos de vida.

370. O homem, ou o doente.

371. Frase de sentido um tanto obscuro; significa, provavelmente, que se deve tentar deixar o doente o mais perto possível da saúde anterior. A tradução apresentada inspirou-se, em parte, na de Littré.

372. φιλοπονíα: lit. amor ao trabalho. O autor se refere, aparentemente, ao trabalho de procurar citações, daí a tradução para "diligência".

373. A interpretação dessa longa frase é bastante incerta; na segunda parte, em especial (enquanto leigos...), segui de perto a tradução de Jones.

374. διεσπαρμενη cf. manuscritos. Jones: .

375. μεθ' cf. manuscritos. Jones: . O sentido segue, provavelmente, o do substantivo .

376. cf. manuscritos. Jones: .

377. Frase um pouco confusa; recorri, mais uma vez, à interpretação de Jones.

378. Em Sorano de Efeso (2, 15) o verbo tem o sentido de

"privar de toda água e comida".

379. A coerência deste trecho é bastante discutível. Segui, basicamente, a leitura de López Férez.

380. χpονíη aqui, eqüivale provavelmente ao que chamamos hoje de "doenças crônicas".

381. Isto é, o paciente não sabe o que é bom para ele (cf. Jones, n. 2, p. 331).

382. Isto é, de um problema de audição.

383. Aqui, aparentemente, o autor se refere a qualquer arte, e não apenas à arte médica.

384. " . ," cf. a pontuação de Littré. Jones:

, , ...

385. Trecho controvertido por causa da palavra πoκειμ νoυ. Minha tradução, um pouco diferente das de Jones, Littré e López Ferez, acompanhou o sentido geral do verbo π κειμαι em Políbio 1,81,6.

386. Cf. o sentido da palavra ταξíη no tratado hipocrático Prenoções cóicas, 211 (ed. Littré).

387. A versão de αíτíα (motivo, causa) para "problema" e de para "curta", embora um tanto afastada da interpretação tradicional, procura complementar o sentido da frase anterior, que menciona explicitamente a duração da doença.

388. συμπαθ ω, "ter sua parte, compartilhar do sofrimento de", conserva nesta frase seu sentido primitivo.

389. Passagem incerta nos manuscritos; a restauração é muito aproximada. A palavra πoπαραíτησις deriva, possivelmente, do verbo παραιτ oμαι, "pedir / obter através de preces". Na tradução, segui López Férez.

390. λσ δης cf. Foes. Jones: † λυ δης †.

391. Hippocratis et aliorum medicorum veterum reliquiae. Edidit Franciscus Zacharias Ermerins. Trajecti ad Rhenum, 3 vols., 1859-1864.

392. Jones, na apresentação de sua edição, fez uma lista das vinte palavras mais complicadas

1. Atualmente na Biblioteca do Vaticano.

394. Cf. Dahremberg (apud Littré, 1861, pp. 250-251).

395. Ver Do Médico.

396. Ver os comentários ao tratado Do decoro.

397.

398. Ver os comentários ao tratado Do decoro.

399. Ver os comentários aos tratados Juramento e Lei.

400. Apud André, 1987, p. 79.

401. Essas noções provêm, na realidade, das idéias dos filósofos pré-socráticos. A harmonia entre os constituintes do corpo como conceito de saúde já aparece, por exemplo, nos fragmentos de Alcméon de Crotona e de Empédocles de Acragás (Longrigg, 1998).

402. Ver os comentários ao tratado Lei.

403. Comédia representada em Atenas, pela primeira vez, no ano de 423 a.C.

404. Tradução de A.S. Duarte (2000 b, p. 264):