Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença

Henrique F. Cairus · Capítulo 1 de 15

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Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença

Apresentação

 

Este livro apresenta ao leitor de língua portuguesa, pela primeira vez e na íntegra, alguns dos mais importantes tratados recolhidos sob o nome de Hipócrates na coleção de textos gregos a que chamamos Corpus hippocraticum. Traços e marcas importantes de conceitos e preceitos desenvolvidos há mais de dois milênios pelos autores dos textos têm presença, até hoje, na prática médica ocidental. Os tratados escolhidos durante a organização deste livro, em especial, apresentam uma quantidade considerável de conceitos relevantes.

A parte inicial do livro contém uma apresentação do Corpus hippocraticum, com uma breve discussão sobre seu conteúdo e os diversos problemas que o envolvem, e uma biografia crítica de Hipócrates de Cós, o pai da medicina, a quem os antigos atribuíram a autoria de todos os tratados do Corpus. Em seguida, o leitor encontrará os tratados selecionados em tradução e no original, divididos em dois grupos.

O primeiro grupo contém três textos que consideramos fundamentais para a compreensão da importância da medicina hipocrática como referência para várias áreas do saber, especialmente para a história, para a filosofia e para a antropologia. Esta parte do volume é integrada pelos seguintes tratados: Da doença sagrada, estudo sobre a etiologia mórbida imanente aplicado a doenças convulsivas; Ares, águas e lugares, texto acerca da relação entre o meio e a saúde, e entre cultura e natureza; e Da natureza do homem, texto que disserta sobre a teoria dos quatro humores.

O segundo grupo contém os tratados deontológicos, que estabeleceram os alicerces práticos da ética médica: o famoso Juramento de Hipócrates, com uma análise contextualizadora, a Lei, Do médico, Do decoro e Preceitos. Esses tratados testemunham o comportamento dos médicos antigos segundo uma ética cujos ecos ainda reverberam intensamente. Não se trata, naturalmente, da ética cristã, nem tampouco da ética aristotélica; os comportamentos dos médicos gregos eram sobretudo harmônicos com o entorno cultural onde a arte médica floresceu com inigualável pujança e delegou à téκhne, de forma definitiva, a interferência da cultura sobre a natureza, com o fim específico de harmonizar essas duas dimensões da vida humana. A mediação da téκhne é a marca da medicina, é sua maior fortuna e, como disse Littré, a "ciência remonta a essa origem, e permanece nela". A segunda parte do livro convida também o leitor para um mergulho no universo da prática médica antiga. Â medida que as questões dos procedimentos técnicos, da formação médica, das relações humanas são expostas pelos tratadistas, desvelam-se aspectos inusitados - e cheios de contradições internas - dos primórdios do pensamento e da deontologia da medicina.

Para as traduções, utilizamos o texto grego estabelecido pelas edições indicadas na bibliografia, sempre em cotejo. Julgamos, todavia, que a tradução do tratado Da doença sagrada merecia alguns esclarecimentos, fornecidos em nota preliminar. As notas explicativas, relativamente abundantes, destinam-se sobretudo ao esclarecimento de hábitos, costumes e eventos da Antigüidade que poderiam dificultar o entendimento do texto. Um glossário contém, ademais, informações sucintas a respeito da vida e da obra dos mais importantes personagens míticos e históricos mencionados no decorrer do livro.

Esperamos ter contribuído, com o presente volume, para a crescente bibliografia vernácula e, com isso, ter ajudado a desvendar um pouco mais o complexo manancial de reflexões tradicionalmente considerado o berço do Ocidente.

Desejamos, finalmente, externar nossos profundos agradecimentos a todas as pessoas que direta ou indiretamente contribuíram para a edição deste livro. Agradecemos, em especial: à Helena Mollo, pela contribuição de seus estudos do Corpus hippocraticum à preparação dos tratados do primeiro grupo; à Adriane da Silva Duarte, pela leitura crítica da biografia de Hipócrates e pelas relevantes sugestões efetuadas; à Maria Celeste Consolin Dezotti pela orientação, estímulo e inestimável ajuda na revisão das traduções iniciais dos tratados do segundo grupo; a Wilson Alves Ribeiro, que revisou com diligência e rigor o vernáculo das apresentações e comentários aos tratados deontológicos; e a Sílvia Helena Manfio, que digitou o texto grego desses tratados.

Os textos originais que seguem cada tradução compreendem a Vida de Hipócrates e os tratados do Corpus hippocraticum traduzidos e comentados. Foram aqui utilizadas as edições mencionadas na Bibliografia, acrescidas de pequenas modificações, adotadas pelos tradutores em conformidade com a leitura e/ou interpretação divergente de outras autoridades textuais. Essas modificações dos textos básicos adotados foram assinaladas nas notas à tradução e nos comentários de cada tratado.

Os autores