Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença
11 – Do decoro
Wilson A. Ribeiro Jr.
Um médico amigo da sabedoria é igual aos deuses.
[§; 5]
A tradução do título deste tratado por "Decoro" reflete apenas parcialmente a gama de significados éticos – e, de certo modo,
estéticos – da palavra grega ε σχημoσ νη 313.
Do decoro não era, aparentemente, conhecido dos antigos comentadores: o texto é um dos mais recentes da coleção e sua datação pode ser situada, sem muita precisão, no Período Greco-Romano, entre os séculos I e V d.C. E possível que tenha sido escrito nos séculos I-II d.C. (cf. Bourgey, 1953; López Férez, 1983), mas muitos eruditos evitam esse grau de precisão.
O texto pode ser encontrado em M e em diversos manuscritos parisienses tardios. Na Aldina, começa na página 6-verso e vai até a página 7-verso; na edição de Littré, está nas páginas 222-245 do volume IX, publicado em 1844.
Tradução
1. Não têm sem razão os que argumentam ser a sabedoria útil para muitas coisas, inclusive para a vida. A maioria (delas) parece ter-se tornado inútil; refiro-me a essas que não têm utilidade alguma para as coisas que são discutidas. Parte delas teria valor para isto: "onde não há ociosidade também não há maldade". A ociosidade e a falta do que fazer procuram o mal e são (por ele) arrastadas; assim, estar atento e manter o pensamento em algo é uma dessas coisas que trazem beleza à vida. Deixo de lado essas discussões sem nenhuma utilidade, pois é mais gratificante o que, para outros fins, foi
constituído em arte, e uma arte que visa ao decoro e à reputação 314.
2. Todas as sabedorias não acompanhadas de cupidez e falta de decoro são boas, e qualquer método que haja para elas produz uma arte; caso contrário, tornam-se conhecidas pela impudência. Os
jovens caem sob o domínio desses indivíduos315; na maturidade, ao vê-los voltam(-lhes) as costas e põem-se a suar; na velhice, com amargura, dispõem leis para fazê-los desaparecer das cidades, pois esses que trabalham na ágora, enganam com vulgaridade e voltam pe-rio-di-ca-mente às cidades (são) os mesmos. Qualquer um pode reconhecê-(los) pelas vestimentas e pelo resto de seu aspecto; e se, ao vê-los, estiverem também magnifícamente enfeitados, deve-se ainda mais fugir deles e ter-lhes horror.
3. É preciso observar a (sabedoria) contrária deste modo: para os (que a seguem), nem argumento preparado, nem elaborado; vestimenta decorosa e também simples, não muito elaborada, refletindo, pelo contrário, bom senso, circunspecção e mente disposta para si mesmo e para a marcha. Os que são assim (têm) o seguinte comportamento: concisos, simples, agudos nas controvérsias, convenientes nas réplicas, rigorosos nas oposições, sagazes e afáveis para com as opiniões semelhantes, cordiais com todos; diante de tumultos, silenciosos; diante de silêncios, argumentadores e perseverantes; diante da oportunidade, capazes e hábeis; quanto à alimentação, frugais e independentes; pacientes na espera do momento adequado. Apresentam (com) palavras eficazes toda demonstração, utilizam bons termos, discursam com graça, têm boa reputação em conseqüência dessas coisas, voltam-se para a verdade diante da (sua) demonstração.
4. O que mais se destaca, dentre tudo o que já foi dito, é a predisposição natural. Com efeito, aqueles que se dedicam a artes relacionadas com ela são conduzidos a todas essas coisas já mencionadas, pois o que se refere à sabedoria e também à arte não se ensina. Antes mesmo de (algo) ser ensinado, a predisposição natural (já) se precipitou e está totalmente engajada em assumir o comando; a sabedoria, rumo ao conhecimento, se dispõe sobre as coisas criadas pela própria predisposição natural. Muitos, com efeito, hábeis nesses dois discursos, de modo algum tiraram partido dos dois, ao mesmo tempo, para (uma) demonstração. Se algum deles examinar, portanto, no que concerne à verdade, alguma das coisas colocadas em um discurso, de modo algum fará progresso pela sua própria predisposição natural. Esses, com certeza, são encontrados
em um caminho similar ao percorrido por aqueles 316; eis porque, achando-se despidos, se revestem de toda maldade e desonra. É bom que o argumento resulte de um trabalho ensinado, pois tudo o que foi construído por meio da arte é trazido de volta por meio do argumento; o que é dito através da arte, mas não foi realizado, torna-se indicativo de método desprovido de arte. Ter uma opinião e não efetivá(-la) é sinal de ignorância e ausência de arte. A (simples) opinião, sobretudo em medicina, implica responsabilidade para os que a têm, e ruína para os que (dela) fazem uso. Se eles, tendo persuadido a si mesmos com seus argumentos, pensam conhecer a prática que vem da aprendizagem, mostram a si mesmos exatamente como o ouro ordinário (é) posto em evidência pelo fogo. Tal prognóstico é, na verdade, inexorável. Se a compreensão é da
mesma origem (que a prática)317, o conhecimento demonstra imediatamente a meta. Para alguns, o tempo colocou a arte com o †
vento a favor318†; ou, para os que caem em um caminho parecido, tornou evidentes os pontos de partida.
5. Retomando, portanto, cada uma das coisas ditas anteriormente, é
preciso319 conduzir a sabedoria para a medicina e a medicina para a sabedoria, pois um médico amigo da sabedoria é igual a um deus. Não há muitas diferenças entre as duas coisas, pois todas as coisas relacionadas com a sabedoria estão na medicina: desapego ao dinheiro, modéstia, capacidade de ruborizar, circunspecção, reputação, decisão, tranqüilidade, firmeza diante de oposição, pureza, linguagem sentenciosa, conhecimento das coisas úteis e
necessárias à vida, rejeição à impureza320, capacidade de retribuição, ausência de superstição, superioridade divina. E aquilo
que eles têm, eles321 o têm em oposição ao desregramento, à vulgaridade, à ganância, ao desejo desenfreado, à rapinagem e à
impudência; pois ela322 é o conhecimento das coisas que a atacam e a utilização das coisas que lhe são caras, mais ou menos do mesmo modo que as coisas relacionadas aos filhos e aos bens. Com ela, então, qualquer sabedoria tem algo em comum, porque a maior parte dessas coisas o médico também possui.
6. De fato, o conhecimento das coisas relacionadas aos deuses está,
sobretudo, misturado com ela 323 na mente. Nos outros padecimentos e nos acontecimentos fortuitos a medicina, que se encontra em posição de honra junto aos deuses, é freqüentemente reconhecida. Os médicos dão lugar aos deuses, pois não é fora do comum ela ser sobrepujada. Com efeito, eles cuidam de muitas coisas, mas muitas outras se resolvem por si mesmas, † As coisas que a medicina sobrepuja, portanto, ela terá em seu poder daí em diante, pois que caminhos na sabedoria são assim? Certamente, para eles, aqueles; e, desse modo, não acreditam que estão de acordo, assim, a respeito das coisas que estão próximas do corpo, † As coisas que através de toda essa (aula) foram induzidas, transformadas ou refeitas; as coisas curadas pela cirurgia; as que são aliviadas, tratadas ou submetidas a uma dieta – que isso seja o mais importante em relação ao conhecimento dessas coisas.
7. Considerando, portanto, tudo o que acabei de dizer, é preciso que o médico tenha uma certa disposição para brincar, pois a severidade é falta de afabilidade, tanto para os que estão saudáveis como para os que estão doentes. E preciso, sobretudo, que ele vigie a si mesmo, nem mostrando muito partes de seu corpo, nem conversando muito com os leigos, mas somente o necessário, †
Considere isso, forçosamente 324, um tratamento que leva à intimação judicial, † Não fazer, com certeza, nenhuma dessas coisas com indiscrição e nem com ostentação. Pense antecipadamente em todas essas coisas, para que estejam facilmente à mão, como se deve; de outro modo, necessariamente, estará sempre em apuros em relação ao seu dever.
8. É preciso, na medicina, praticar essas coisas com toda seriedade: na palpação; na unção e na fricção; em relação ao movimento harmonioso das mãos; nas compressas, nas bandagens, nos curativos, nas coisas necessárias às contenções; nos remédios; em ferimentos; em coisas referentes aos olhos e nesses tipos de coisas, para que estejam à mão seus instrumentos de trabalho, apetrechos, instrumentos de ferro e assim por diante. Nessas coisas, o apuro é falta de recurso e dano. E tenha outra bolsa de médico mais simples,
de mão, para as visitas325. A mais prática é a arrumada com método, pois o médico não pode ir atrás de tudo.
9. Mantenha na memória as drogas e suas propriedades, as simples e as que estão formuladas, desde que também estejam na mente o que diz respeito à cura das doenças, seus comportamentos e, de
todas as maneiras, o comportamento que elas326 têm em cada uma
delas 327. Isso, em medicina, constitui princípio, meio e fim.
10. Prepare também, antecipadamente, os tipos de emoluentes para os diferentes usos. Faça poções eficazes, preparadas de acordo com a fórmula e conforme as espécies. Tenha prontas também, com antecedência, as coisas para os remédios necessários às purgações, apanhadas nos locais convenientes e preparadas como convém, conforme as espécies e os tamanhos, para serem utilizadas por longo tempo; coisas frescas (para serem utilizadas) no momento oportuno, e o resto de forma semelhante.
11. Para não ficar embaraçado ao apresentar-se diante do doente, tenha todas essas coisas convenientemente arranjadas, cada uma de acordo com o que será feito, e esteja ciente do que é preciso fazer antes de entrar; pois não é a conjetura e sim os cuidados médicos que são necessários. E preciso explicar antes, com base na experiência, o que vai acontecer: isso dá prestígio e é de fácil entendimento.
12. Na visita, tenha em mente a maneira de sentar e também a circunspecção, o arranjo das vestes, a autoridade, a brevidade da fala, a imperturbabilidade, a atenção constante, a solicitude, a réplica às objeções; o autodomínio nos embaraços inesperados, a severidade diante de tumulto, a presteza nos socorros e, acima dessas coisas, tenha em mente a preparação principal. Caso contrário, † que não haja falha nas recomendações prescritas para atuação imediata †.
13. Faça visitas freqüentemente, examine com muito cuidado as situações enganosas, relacionadas às mudanças que acontecem, pois (assim) você perceberá com facilidade e ao mesmo tempo será mais hábil. São instáveis as coisas dos humores e eles, por isso, são facilmente alterados pela ação da natureza ou do acaso. Não observadas as coisas no momento oportuno de aplicá-las, elas se antecipam, se colocam em movimento e matam: o socorro não seria possível. E difícil quando muitas coisas agem ao mesmo tempo; (lidar com) uma coisa de cada vez, em seqüência, é mais apropriado e mais prudente.
14. É preciso também vigiar as faltas dos pacientes, pelas quais muitas vezes mentem quanto aos "alimentos" levados à boca; e, como não aceitam bebidas desagradáveis, remédios preparados ou tratamentos, morrem. E eles tendem a não admitir o que foi feito: a culpa é atribuída ao médico.
15. É preciso também observar coisas referentes ao leito, dentre as quais as referentes à estação do ano e as referentes aos tipos (de
enfermidades); alguns deles328 (devem ficar) em lugares bem
ventilados; outros, no andar de baixo329 e em lugar coberto. (Quanto) a coisas motivadas por barulhos e odores, especialmente o do vinho – pois este é o pior – (é preciso) evitá-lo e mudar de lugar.
16. Realize todas essas coisas com calma e habilidade e, durante os cuidados, (mantenha) a maioria das coisas escondidas do doente. Dê as recomendações necessárias com jovialidade, serenamente, desviando sua atenção do que ele tem. Reprove com dureza e seriedade e, ao mesmo tempo; reconforte com solicitude e encorajamento; nunca fale abertamente a eles de coisas futuras ou (já) estabelecidas. Muitos, por causa disso, se desviam para as
outras coisas330 , devido ao prognóstico do que se acabou de dizer sobre coisas estabelecidas ou vindouras.
17. Deixe um dos estudantes encarregado, para que as prescrições se cumpram sem acrimônia e para que ele cumpra os cuidados recomendados. Escolha, dentre eles, os já admitidos nas coisas da arte; transmita tudo o que for necessário para que ele se porte com segurança e também para que nos intervalos (das visitas) nada escape a você. Não recorra aos leigos para nada. Isso permite que a censura referente ao malfeito recaia sobre você. Jamais dê instruções ambíguas, que possam se afastar do tratamento prescrito, e a censura nunca recairá em você: o que foi (corretamente)
realizado conduz ao brilho331. Portanto, fale antecipadamente de todas essas coisas, no momento em que estão sendo feitas, para
aqueles (a quem) foi proposto tomar uma decisão332.
18. São essas, portanto, as coisas relacionadas à boa reputação e ao decoro na sabedoria, na medicina e nas demais artes. E preciso que o médico, distinguindo as partes sobre as quais nós acabamos de falar, adote, observe e siga de perto sempre a outra
(sabedoria)333, fazendo(-a) também ser transmitida. Pois os feitos ilustres são cuidadosamente guardados por todos os homens, e os que seguem esse caminho são glorificados por pais e filhos. E, se alguns deles não sabem muitas coisas, pelas próprias ações são levados à compreensão.
Περι ευσχημoσυνησ
Comentários
Este tratado, que tem vários pontos de confluência com outros textos
do 334 Corpus hippocraticum, é um dos mais problemáticos de toda a coleção. Grande parte de suas informações é de difícil compreensão, e outras não parecem fazer qualquer sentido; muitos parágrafos têm frases confusas, de sentido obscuro, e se ligam frouxamente uns aos outros.
A obscuridade do texto não pode ser explicada somente pela má conservação das fontes manuscritas e pela notória dificuldade dos editores no restabelecimento do texto original. Há muitos neologismos, expressões estranhas, muitas orações parecem
incompletas, a sintaxe é deficiente, o estilo, tortuoso335 . A maioria das orações evidencia um conhecimento tão deficiente de gramática que, segundo Jones, o autor só pode ter sido alguém cuja língua materna não era o grego. Essa era, ao menos, sua impressão inicial; ele mesmo considerou, posteriormente, uma obscuridade intencional e justificou-a pela hipotética existência de uma confraria médica equiparável a uma "sociedade secreta" (Jones, 1923, pp. 270 e 333-336). Os membros dessa sociedade teriam transmitido o conhecimento médico de que dispunham de forma elíptica, para que fosse compreendido somente pelos iniciados, pelos membros dessa sociedade.
Não se pode negar que algum tipo de associação médica tenha realmente existido, como se depreende de algumas passagens da coleção hipocrática (cf. Juramento 1b ; Lei, 5). Há, porém, uma grande distância entre os rituais e cerimônias ciosamente guardados por associações como os antigos "cultos de mistérios" (cf. Juramento, p. 156 n.244) e as informações técnicas e conselhos explícitos deste tratado. Os segredos dos cultos de mistérios, de natureza salvacional, foram tão bem conservados que nenhuma informação completa e conclusiva chegou até nossos dias (cf. Burkert, 1991). O autor do tratado Do Decoro, por outro lado, registrou informações e ainda procurou orientar seus leitores. O tratado tem, a despeito de suas dificuldades e deficiências, considerável valor técnico e didático.
Do Decoro foi, aparentemente, concebido para orientar as atividades dos médicos iniciantes e sua obscuridade não foi intencional. O próprio Jones propôs, no ensaio introdutório à sua tradução, uma explicação para as dificuldades do texto que me parece bem mais razoável: algum médico experiente preparou uma aula para seus discípulos e fez algumas anotações para refrescar a memória durante a apresentação. Sua intenção, provavelmente, nunca foi publicar as notas, tais como estão. Acredito, ainda, que há outra explicação possível: o texto do tratado compreenderia, na realidade, as anotações um tanto incoerentes feitas por um dos jovens médicos durante a aula do mestre. Seria desse discípulo o conhecimento imperfeito da língua grega, fato relativamente comum nos reinos helenísticos durante o Império Romano, época em que jovens abastados oriundos de várias regiões do Império viajavam até as
cidades mais importantes a fim de aprimorar sua educação336.
Outra questão é a diversidade dos temas abordados. Nota-se que o tratado foi estruturado da seguinte forma: nos parágrafos [1-5], tratou-se da utilidade das diversas formas de sabedoria, da "boa sabedoria" e sua relação com a medicina; no parágrafo [6], das relações entre a medicina e o divino; nos parágrafos [7-18], do comportamento adequado do médico durante as visitas aos doentes. O texto que conhecemos foi composto, aparentemente, pela reunião de dois discursos diversos. O primeiro deles, que poderíamos chamar de A sabedoria e a medicina, compreende as frases que se sucedem até o parágrafo [6] e tem um quê de admoestação — de sermão, mesmo. O segundo discurso, que podemos chamar de O decoro médico, se inicia no parágrafo [7] com a frase "considerando, portanto, todas as coisas que acabei de dizer (...)". Imagino que o tema proposto para essa conferência fosse apenas o do segundo discurso; o discurso sobre a sabedoria pode ter sido incluído de última hora, com a finalidade de comentar a recente visita e performance pública de algum notório charlatão. A repercussão desse indesejável personagem entre os jovens discípulos e a oportunidade da conferência podem ter impelido o mestre a reunir um tanto apressadamente os argumentos necessários à sua apresentação.
No primeiro discurso, como bom didata, o autor partiu do geral para o particular: depois de estabelecer os critérios para que qualquer "sabedoria", entendida como um conjunto de conhecimentos que livra as pessoas da ociosidade, seja útil e benéfica [1], assinalou as principais características dos praticantes da "má sabedoria" [2] e, no parágrafo seguinte [3], as características da sabedoria contrária, isto é, da "boa sabedoria". Essas concepções, de cunho essencialmente filosófico, eram típicas do pensamento grego tardio e, em especial, da filosofia helenística e greco-romana. Bensel acreditava que eram reflexos específicos da corrente epicurista; segundo Lara Nava, ensinamentos desse tipo podem ser encontrados tanto entre os epicuristas como entre os estóicos. Predominam, no entanto, reflexos da filosofia estóica, e Lara Nava encontrou diversas semelhanças entre a primeira parte do tratado Do decoro e alguns
fragmentos de Diógenes de Babilônia337. Durante o Período Helenístico esses conceitos estavam bastante vulgarizados entre os homens instruídos e era de se esperar que um médico hipocrático tivesse tais conhecimentos (cf. Bensel, 1922; Jones, 1923; Lara Nava, 1983).
Na Grécia Antiga, a carreira médica não tinha nenhum estatuto
oficial338 e os médicos sérios precisavam competir constantemente com charlatães, curandeiros e mágicos que, assim como eles, viajavam e visitavam constantemente as cidades, oferecendo seus serviços. Os médicos hipocráticos, ciosos de sua arte, de sua capacidade técnica e de sua cultura (cf. Marrou, 1971), faziam questão de assinalar com esmero o contraste entre eles e os charlatães. Essa atitude era vital e não mera questão de orgulho profissional: desde Platão se discutia "a utilidade da sabedoria e, mais especificamente, a utilidade das artes" (cf. Lara Nava, 1983), e os médicos hipocráticos tinham constantemente de demonstrar a existência da medicina como arte e sua diferença das demais (cf. CH: Da arte, Da doença sagrada e Preceitos). Mas, enquanto o autor de Da doença sagrada faz questão de colocar em evidência as diferenças técnicas entre médicos e charlatães (p. 61), nos parágrafos [2,3 e 5] o autor de Do decoro vai bem mais longe, ao mostrar em detalhes as diferenças na atitude, no comportamento, no modo de falar e até mesmo no aspecto exterior de uns e de outros. Para Littré, ele aludia tanto aos charlatães quanto aos sofistas (Littré, 1861), o que parece ser um exagero.
O parágrafo [4], onde são apontadas especificamente as diferenças entre a aprendizagem de uma arte, quando se tem e quando não se tem predisposição natural, questão essa já referida na Lei (p. 170), é
um dos mais difíceis e controversos de toda a coleção hipocrática 339. Transcrevo a seguir as abalizadas opiniões de Littré, Jones e Lara Nava, que dão uma boa noção das dificuldades dessa passagem e cobrem adequadamente as possíveis interpretações:
Passagem obscura, mas que se pode, creio, resumir assim: em
toda sabedoria, em toda arte, há a natureza e a opinião ou, se
quiserem, a realidade e a hipótese. A natureza e a realidade
ocupam o primeiro lugar; a sabedoria existe apenas para
conhecer a realidade, a natureza. Aqueles que têm somente
uma parte, isto é, a opinião, a hipótese, nada conseguem, e
desde então são impelidos para o lado do charlatanismo, do
engano e do ganho vergonhoso. Mas aqueles em quem o
entendimento é homogêneo, isto é, em quem existe a relação
correta entre a realidade e a opinião, estão no bom caminho.
(LITTRÉ, 1861, vol. IX, p. 231)340
Natureza e educação; prática e teoria; fato e raciocínio; ação e
palavra — parecem ser esses os correlativos complementares
em que se insiste neste capítulo. A última frase significa que
uma longa experiência às vezes supre a educação deficiente.
(JONES, 1923, p.286, nl)341
Não podemos deduzir do uso dessa terminologia, contudo, que
ele tente expor doutrinas filosóficas sobre a relação entre
aptidão natural e educação, teoria e prática, natureza e
conhecimento, pois aborda essa temática somente de modo
muito geral. Sua idéia é que a simples teoria é prejudicial,
enquanto que teoria e prática natureza e conhecimento,
combinados, capacitam o homem para o exercício de sua
profissão.
(LARA NAVA, 1983, p.199-200, nl2)342
No parágrafo [5], finalmente, após as generalidades dos primeiros parágrafos, são enumeradas, de forma detalhada, as diferenças entre a profissão médica e charlatanice. A medicina é apontada, entusiasticamente, como o exemplo mais acabado de atividade ligada à sabedoria. Isso devia ter muita importância para o autor, evidentemente cioso do enquadramento da medicina na doutrina estóica. Para os filósofos estóicos, somente os sábios eram capazes de exercer qualquer atividade de forma apropriada, e parece ser essa a explicação da ênfase dada à relação direta entre a sabedoria e a medicina. Lara Nava (1983) notou, efetivamente, que a lista de virtudes apresentada não deixa de ser mais um exemplo dos populares catálogos de virtudes estóicas.
A seguir, no parágrafo [6], deparamo-nos outra vez com uma passagem muito difícil, devido à acentuada corrupção das fontes manuscritas. Acompanho, aqui, a interpretação de Jones:
Considero como sentido geral deste capítulo que os médicos
são os meios e os deuses são a causa das curas em medicina e
em cirurgia. Os deuses conferem essa honra à medicina, e os
médicos devem entender que os deuses são seus mestres.
(1923,p.288, n4) 343
Com essa interpretação um tanto simplificada concordam, em linhas gerais, tanto Littré como Lara Nava, a despeito de algumas diferenças notáveis entre suas respectivas traduções e a de Jones.
O parágrafo [7] marca a transição entre os dois discursos que compõem o tratado: mesclam-se nele a teoria, com a descrição do comportamento sóbrio do médico ideal — bastante associado ao comportamento do sábio estóico —, e a prática, com um alerta atemporal válido para todas as profissões e que se repete em alguns dos parágrafos subseqüentes: prepare tudo com antecedência!
Esse segundo discurso contempla, de forma um pouco desorganizada, diversos princípios da atividade médica que hoje em dia são mais ou menos evidentes para todos nós:
1. a necessidade de o médico dominar efetivamente as técnicas
de tratamento que vão ser utilizadas [8];
2. a necessidade de uma bolsa ou caixa para transportar os
instrumentos de trabalho [8];
3. o conhecimento preciso, o preparo e o uso correto dos
medicamentos [9-10];
4. a necessidade do arranjo prévio e adequado do material a ser
usado [8 e 11];
5. a necessidade de explicar a doença e o que precisa ser feito
ao paciente e aos presentes, e que tipo de informação deve ser
evitada diante do doente [11 e 16-17];
6. o comportamento apropriado do médico durante todas as
suas atividades [12];
7. a necessidade de visitas freqüentes ao doente para o
acompanhamento cuidadoso de sua condição [13];
8. a recomendação da presença de um auxiliar do médico junto
ao doente, devido à necessidade de vigiar o cumprimento das
prescrições [14 e 17];
9. a necessidade de preparar convenientemente o local em que
o doente vai ser insta lado [15];
10. a boa reputação e o reconhecimento obtidos pela correta
aplicação da arte médica [18].
A seqüência um tanto irregular dos assuntos, as indas e vindas na exposição dos tópicos e algumas repetições reforçam a impressão de que o texto é, efetivamente, o registro escrito, um tanto deficiente, de uma exposição oral mais bem elaborada. De qualquer modo, as informações deste tratado são valiosas para a história da ciência e algumas delas podem ser encontradas somente nele (cf. Jones, 1923). As reiteradas menções ao comportamento adequado — "etiqueta médica" — e à boa reputação já foram comentadas nos capítulos precedentes. Quatro outros assuntos, porém, requerem comentários adicionais: a terapêutica hipocrática, a "retórica médica", a ciência farmacêutica e a enfermagem na Antigüidade.
Sabe-se que os médicos gregos dispunham de numerosos recursos para o tratamento das doenças, e que a terapêutica hipocrática atuava, de modo geral, em dois níveis: o do restabelecimento do equilíbrio dos humores, e o da remoção da causa da doença, quando possível. Mais que tudo, porém, o médico devia, "em relação às doenças, exercitar-se em duas coisas: ajudar ou, pelo menos, não causar dano" (cf. CH, Epidemias I, 11). Segue, para facilitar a compreensão dessa parte do texto, um brevíssimo sumário da terapêutica hipocrática e suas bases.
Um dos procedimentos mais utilizados era a purgação (κάθαροις, literalmente "purificação"), a eliminação dos humores nocivos, obtida através da administração de alimentos e de medicamentos laxantes, eméticos, expectorantes e esternutatórios, e de clisteres, insuflações, supositórios, sangrias, incisões para a drenagem de pus e até mesmo trepanações cranianas. O recurso habitual aos clisteres se tornou tão emblemático da prática médica que a palavra "catártico" passou a designar um grupo de medicamentos que estimulam as evoluções e são largamente empregados até hoje. Além disso, nos primeiros séculos de nossa era, os poetas satíricos greco-romanos valiam-se constantemente desse tema em seus epigramas:
Cinco, ao mesmo tempo, o médico Aléxis aliviou; cinco, ele
purgou;
cinco <doentes> enfraquecidos ele viu, cinco ele puncionou 344
de novo.
Para todos eles uma noite, um remédio, um fabricante de
caixões,
um enterro, uma entrada no Hades, um lamento.
Nicarco345. Antologia Palatina XI, 122:
Os humores nocivos acumulados tinham que ser mobilizados346, o que era obtido pela aplicação de ventosas, fomentações, fumigações (inaladas ou por via vaginal) e cauterizações. Preconizava-se invariavelmente uma dieta (δíαιτα), que compreendia alterações em
todo o estilo de vida347. Recomendações que envolviam o relacionamento do paciente com o meio exterior não eram esquecidas: o lugar da casa em que ficava o doente, banhos quentes e frios, exposição ao sol e ao vento, viagens, etc. Para a restauração da integridade do corpo em caso de ferimentos, fraturas, tumores e pólipos, o médico não hesitava em recorrer a procedimentos cirúrgicos, tais como incisões, debridamentos, drenagens, redução de fraturas e luxações e até mesmo amputações. Curativos, emplastros, bandagens e imobilizações eram aplicados, quando
necessário, com cuidado e parcimônia348.
A julgar por vários tratados hipocráticos (Da arte, Da medicina antiga, Da dieta nas doenças agudas, Preceitos e o parágrafo [3] deste tratado, entre outros), o médico precisava ter um bom domínio das
técnicas de argumentação e persuasão349. Ele se encontrava freqüentemente na presença de amigos e familiares do doente, de outros médicos e mesmo de visitantes ocasionais (cf. Luciano, O Mentiroso), sem contar as pessoas que o procuravam no iatrêion. Na Grécia antiga, o médico era considerado um artesão como os demais e precisava provar a todo momento que conhecia bem seu ofício. Lembremos mais uma vez que a profissão médica não dependia nem de estudo formal nem de sanção pelas autoridades constituídas, e que os médicos concorriam o tempo todo com charlatães e milagreiros de toda espécie. Na casa dos pacientes, no iatrêion, em reuniões sociais e até mesmo em simples conversas na ágora da cidade em que se encontrava no momento, o médico grego precisava responder a perguntas sobre a saúde e a doença, tirar dúvidas, argumentar e convencer a todos que conhecia muito bem a doença e os modos apropriados de expurgá-la do corpo (cf. Edelstein, 1967). Nem sempre era bem sucedido, é claro, conforme se depreende de uma contundente carta de Catão, o Censor, a seu
filho Marco (cf. Plínio, 350 História natural 29 , 6-7).
Os parágrafos [9-10] nos ensinam que os médicos hipocráticos utilizavam medicamentos "simples", derivados provavelmente de uma só planta, e "compostos", misturados de acordo com fórmulas escritas. Uns e outros, após a preparação, mantinham seus efeitos durante um certo tempo e podiam então ser conservados. O tratado Φαρμα τις ("Livro de medicamentos"), que se perdeu, mencionado no tratado Das doenças (9,15,18,23,28,40), continha provavelmente uma extensa lista das plantas e de outros tipos de medicamentos utilizados pelos médicos hipocráticos. As informações obtidas nos demais textos da coleção infelizmente são escassas e não compensam a perda; indicam, no entanto, que nos tratamentos hipocráticos predominava o princípio da alopatia (cf. Grmek,
1994)351. Parece que havia, nas cidades, plantas medicinais à venda no mercado (cf. Littré, 1844, p. 622). O autor do presente tratado, no entanto, preconizava que os ingredientes necessários para suas fórmulas fossem "apanhados nos locais convenientes e preparados como convém" (§;[10]). Se não era o próprio médico quem coletava diretamente os medicamentos que utilizava, ao menos a preparação das fórmulas dependia dele. O autor do tratado Das doenças das mulheres II, por exemplo, no qual numerosas fórmulas são mencionadas, especificou claramente "prepare e aplique" nas instruções do parágrafo [148]. Isso significa que o médico era, a um
só tempo, médico e farmacêutico352 do paciente. Para tanto eram necessários, é claro, bons conhecimentos de botânica. É difícil fazer afirmações relativas ao médico médio daquela época; pelo menos os médicos que escreveram os tratados ginecológicos da coleção
hipocrática devem ter sido botânicos notáveis, pois esses tratados 353 fazem referência a muitos medicamentos vegetais e muitas fórmulas. Também o tratado De matéria medica, que relaciona cerca de 600 plantas e mais ou menos 100 produtos animais e minerais de acordo com suas propriedades medicinais, embora não faça parte da coleção, foi escrito por um médico grego chamado Dioscorides e marcou a história da Medicina, da Farmácia e da Botânica.
A questão da enfermagem na Antigüidade é um dos pontos mais obscuros em nosso conhecimento da medicina antiga. Não me refiro
aqui ao tratamento hospitalar 354, e sim à efetivação dos cuidados médicos prescritos aos doentes em suas próprias casas. Nossas melhores fontes, os tratados da coleção hipocrática, não fazem menção direta ao assunto. Mesmo livros modernos sobre a história da medicina antiga, como o de Laín Entralgo (1970), ignoram totalmente essa questão; as únicas exceções notáveis são um curto ensaio de Jones, no volume II de suas edições da coleção hipocrática (Jones,1923, pp. xxx-xxxii) e um breve tópico no livro de André a respeito da medicina romana (André, 1987). A figura da enfermeira profissional iria surgir na segunda metade do século XIX de nossa era; é provável, no entanto, que desde muito cedo os médicos tenham tido necessidade do auxílio de outras pessoas para prestar os devidos cuidados aos doentes. Sabe-se que, em Roma, os cirurgiões recorriam ocasionalmente a assistentes para segurar o paciente durante cirurgias (cf. Celso, Da medicina VII, 7, 4b e 14c). Nada se sabe, no entanto, a respeito da qualificação dessas pessoas. No caso da Grécia Antiga, Jones assinala que as duas únicas evidências disponíveis são indiretas e vêm das histórias clínicas detalhadas, descritas nos livros do tratado Epidemias, de algumas curtas instruções no tratado Da dieta nas doenças agudas e do parágrafo [17] do tratado Do decoro. Segundo Jones, é pouco provável, a partir de Epidemias, que um médico tenha conseguido obter, sozinho, informações tão detalhadas sobre a evolução dos doentes, ao longo de tantos dias de acompanhamento; é provável que um auxiliar, sempre presente, tenha-se desincumbido da tarefa. Esse auxiliar, conforme o parágrafo [17] deste tratado, teria sido um dos alunos do médico; e note-se que, segundo o texto, esse aluno precisaria já ter sido "admitido nas coisas da arte", isto é, teria que já estar suficientemente preparado para a tarefa. Isso certamente esclarece algumas situações, mas não todas. E quanto aos médicos que não tinham alunos ou que acabaram de chegar a uma cidade?
Segundo o tratado Aforismos, o médico contava com a ajuda de outras pessoas para os tratamentos, aparentemente não ligadas a ele: "é preciso não somente (o médico) fazer o necessário, mas também o doente, os que o atendem e as circunstâncias exteriores"
( 355 Aforismos , I, 1). Será que esse dito se refere às pessoas capazes de entender e seguir as instruções médicas? Ou a expressão τούς παρέοντας, "os que estão presentes", se refere simplesmente à necessidade da colaboração das pessoas da casa? Jones acredita que os ajudantes do médico podem ter sido as mulheres que moravam com o doente, livres ou escravas, o que explicaria a falta de menção a elas — decorrência, certamente, do lugar ocupado pelas mulheres na sociedade grega (cf. Xenofonte, Econômico). A visão de Jones, no entanto, pode ser apenas um viés arcaizante, decorrente do fato de que, desde o final do século XIX até há poucas décadas, a enfermagem esteve relacionada, implicitamente, ao sexo feminino.
Finalmente, contra todas essas possibilidades, o parágrafo [17] do tratado Do decoro afirma categoricamente: "não recorrer aos leigos para nada". A questão permanece, então, irresoluta.
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Outras traduções deste tratado para línguas modernas estão indicadas na Bibliografia: Littré, 1861; Jones, 1923; Fleischer, 1939; Lara Nava, 1983.
313. Ver "Os tratados deontológicos", p. 147.
314. O texto está muito corrompido: há pelo menos 11 variações entre os melhores manuscritos (cf.Jones, 1923).
315. O pronome traz dificuldades à tradução, uma vez que
se refere a um substantivo masculino não localizado no texto. É provável, a julgar por ο τοι ("eles") do parágrafo seguinte, que o pronome se refira a pessoas ainda não mencionadas, porém conhecidas de todos — os adeptos do tipo de arte em questão, provavelmente.
316. "Esses" são os que, sem predisposição natural, se dedicam a uma arte; "aqueles", provavelmente, os charlatães do parágrafo [2] (cf. Lara-Nava, 1983, p. 200).
317. Trecho pouco claro nos manuscritos.
318. εύαδέα, palavra obscura, inexistente nos dicionários; os manuscritos estão, evidentemente, corrompidos neste trecho. Segui a interpretação de Lara Nava, que a relaciona com a palavra εύα ς ("com vento favorável").
319. δε , cf. Littré. Jones: δή.
320. (Littré e Heiberg); καθάρσιος (Jones). Em M se lê
καθαρσíης, o que não faz sentido.
321. Os médicos.
322. A medicina.
323. Com a medicina, da qual se falará mais logo depois.
324. βíη, cf. Littré. Jones: βíη
325. , cf. M. Jones:
326. As drogas.
327. As doenças.
328. A palavra "deles" se refere, certamente, aos doentes.
329. A casa das pessoas com recursos tinha, com freqüência, dois andares (cf. Bizos, 1967, p 22, n. 9).
330. As sabedorias contrárias da medicina, cf. parágrafo[3].
331. Frase um tanto obscura; a julgar pelo contexto, parece se referir à glória que um tratamento bem sucedido pode trazer ao médico.
332. O sentido da frase, aparentemente, é o seguinte: o aluno encarregado, que precisa eventualmente tomar alguma decisão na ausência do mestre, deve ter pleno conhecimento dos princípios envolvidos naquele tratamento.
333. "A outra sabedoria": seguramente o segundo tipo, mencionado no parágrafo [3].
334. Ver comentários ao Do médico.
335. "A linguagem em muitos lugares é positivamente grotesca" (Jones, 1923).
336. Consta que o famoso Galeno de Pérgamo, por exemplo, estudou medicina em Pérgamo, Esmirna, Corinto, Alexandria e Roma (André, 1987).
337. Notadamente os fragmentos B 86, B 88 e B 95 DK (cf. Lara Nava, 1983).
338. Ver comentários ao tratado da Lei, p. 172
339.Quiçá, segundo Jones, de toda a literatura grega (Jones, 1923).
340. "Passage obscur, mais qui peut, je crois, se résumer ainsi: en toute sagesse, en tout art, il y a la nature et 1'opinion, ou, si vous voulez, la réalité et 1'hypothèse. La nature, la réalité ont le premier rang; la sagesse n'est faite que pour connaitre la réalité, la nature. Ceux qui n'ont qu'une partie, c'est-à-dire 1'opinion, 1'hypothèse, n'aboutissent pas, et dès lors sont rejetés vers le côté du charlatanisme, de la tromperie et du gain honteux. Mais ceux chez qui 1'intelligence est homogène, c'est-à-dire, chez qui existe le juste rapport entre la réalité et 1'opinion, sont dans la bonne voie."
341. "Nature and education; practice and theory; fact and reasoning; deed and word — such seem to be the complementary correlatives insisted upon in this chapter. The last sentence means that long experience sometimes makes up for deficient education."
342. "Sin embargo, dei uso de esta terminologia no podemos deducir que intente exponer doctrinas filosóficas sobre la relación entre aptitud natural y educación, teoria y práxis, naturaleza y conocimiento, pues sólo aborda esta temática de modo muy general. Su idea es que la mera teoria es perjudicial, mientras que teoria y práxis, naturaleza y conocimiento, aunados, capacitan al hombre para el ejercicio de su profesión,"
343. "I take the general sense of this chapter to be that: though physicians may be the means, the gods are the cause of cures in medicine and surgery. The gods confer this honour on medicine, and medicai men must realize that the gods are their masters."
344. Além de "untar", o verbo έγχρíω pode significar também "picar, furar": tanto as fricções com óleo como as sangrias eram procedimentos comuns entre os médicos da Antigüidade.
345. Antologia Palatina XI, 122:
346. Ver Do médico, p. 181 e Da natureza do homem, p. 43.
347. Ver juramento, p. 152.
348. Ver Do médico, 4.
349. Ver Preceitos, p.212.
350. Ver Prado, 1999.
351. Contraria contrariis, isto é, usava-se o medicamento cujo efeito se opunha às alterações produzidas pela doença. Por exemplo: "às pessoas melancólicas, remédios que (purgam) a bile negra; aos hidrópicos (isto é, que acumulam líquidos), remédios que (purgam) a água" (cf. Das doenças, 36).
352. A nítida separação entre Medicina e Farmácia, vigente em nossos dias, efetivou-se muito recentemente, do século XVII em diante.
353. Das doenças das mulheres; Das mulheres estéreis, Das doenças das virgens; Da concepção antes do parto; Da excisão do feto; Da natureza da mulher.
354. Ver Do médico, p. 180.
355.