Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença
2 – O Corpus hippocraticum
Henrique F. Cairus
Do que é composta a Coleção hipocrática
As obras recolhidas sob o título de Corpus hippocraticum ou Coleção hipocrática consistem em sessenta e seis tratados sobre temas relacionados ao corpo humano, acrescidos de um juramento que deveria ser prestado pelo médico da escola de Cós, um diminuto livro de Leis (Nómos), em cinco pequenos parágrafos, que nada mais era do que um mínimo esclarecimento àqueles que pretendiam iniciar a aprendizagem da arte médica, e um conjunto de cartas e de discursos.
Sobre a datação dos tratados, melhor deixar dizer Carlos Garcia
Gual23, autor da elucidativa Introdução da obra Tratados hipocráticos:
Os escritos mais significativos, os que constituem o centro
fundamental da coleção, foram compostos entre 420 e 350 a.C,
etapa que podemos considerar definitiva na formação da
doutrina hipocrática. Talvez haja no Corpus hippocraticum
algum escrito um pouco anterior a estas datas, e também
alguns notadamente posteriores (...). Mas o fundamental e a
maior parte dos textos recolhidos no amplo Corpus
hippocraticum é produto da investigação e do ensinamento de
alguns escritores que compuseram suas obras nos decênios
finais do séc. V a.C e nos primeiros do séc. IV a.C. Ou seja, de
médicos contemporâneos a Hipócrates, senão do próprio
Hipócrates e de seus discípulos mais próximos, da geração
imediata.
Assim, a datação dos textos que compõem o Corpus hippocraticum não é exata, nem tampouco são precisas as autorias de alguns tratados que dele fazem parte. A querela sobre a autenticidade dos tratados que formam o Corpus hippocraticum tem motivado vários helenistas, de Littré a Jouanna, que se ocuparam ou ainda se ocupam de temas que envolvem esse conjunto de obras.
Erotiano (I séc. d.C) é o responsável pela mais antiga lista
sobrevivente de obras, conforme lembram Gual e Jouanna24, pretensamente consideradas da autoria de Hipócrates. A relação das obras de Hipócrates feita por Erotiano oferece um seguro panorama do estado dos Tratados do médico de Cós numa época anterior à de Galeno de Pérgamo.
O depoimento de autenticidade de Erotiano despertou grande interesse no séc. XVI, quando se pode encontrá-lo retomado na célebre edição dos tratados hipocráticos de Anutius Foesuius, datada de 1595. Nessa edição, o médico de Metz, baseado em Erotiano, classifica os tratados que considerou autênticos em semióticos, físicos (isto é, relativos à natureza), etiológicos e os que tratam da arte médica, quais sejam, os terapêuticos, os dietéticos, os cirúrgicos e os mistos, que comportam mais de uma habilidade
específica. Vale citar essa ordenação e reproduzi-la 25:
■ OBRAS SEMIÓTICAS: Prognóstico, Prorrético I, Prorrético
II 26, Dos humores.
■ OBRAS ETIOLÓGICAS E FÍSICAS: Dos ventos, Da natureza
do homem, Da doença sagrada, Da natureza da criança,
Lugares e estações [= Ares, águas e lugares].
■ OBRAS TERAPÊUTICAS: 1) Algumas referentes à cirurgia:
Das fraturas, Das articulações, Das chagas, Dos ferimentos e
cortes, Das feridas na cabeça, Oficina do médico, Mochlique [=
Da natureza dos ossos e Instrumentos de redução (lat.
Vectiarius) ], Das hemorróidas e fístulas, 2) referindo-se ao
regime: 27 Enfermidades III, Das semanas (?) e Das afecções
internas; Sobre a tisana [= Da dieta nas doenças agudas], Dos
lugares no homem, Das doença das mulheres I–II, Do alimento,
Das mulheres estéreis, Sobre as águas [= Do uso dos líquidos].
■ TRATADOS MISTOS: Aforismos, Epidemias; VII livros.
■ TRATADOS COM CARACTERÍSTICAS ARTÍSTICAS:
Juramento, Lei e o Epibómios mostram o homem mais como
médico.
Pode-se dizer, então, que Erotiano responde pela paternidade do que hoje se chama Coleção hipocrática ou Corpus hippocraticum, conquanto foi ele o primeiro que reuniu as obras atribuídas à escola médica de Cós e de Cnido sob a lavra de Hipócrates, ultrapassando,
assim, seu antecessor helenístico Bakkheîos28. Este último foi também editor do tratado Epidemias III e comentador de algumas obras hipocráticas, entre as quais os Aforismos e Epidemias IV.
Littré (1839, pp.292-439) divide o Corpus hippocraticum em "classes", pelo critério de autenticidade. Esquematicamente, eis a conclusão última deste filólogo:
■ 1ª CLASSE: escritos de Hipócrates. Da medicina antiga,
Prognóstico, Aforismos, Epidemias I, Epidemias III, Da dieta
nas doenças agudas, Dos ares, águas e lugares, Das
articulações, Das fraturas, Dos instrumentos de redução, Dos
vasos sangüíneos, Das feridas na cabeça, Juramento e Lei.
■ 2ª CLASSE: escritos de Pólibo. Da natureza do homem e Da
dieta dos sãos [= Da dieta salutar].
■ 3ª CLASSE: escritos anteriores a Hipócrates. Prenoções de
Cós e Prorréticos I.
■ 4ª CLASSE: escritos da Escola de Cós, de contemporâneos
ou discípulos de Hipócrates. Das úlceras, Das fístulas e das
hemorróidas, Dopneuma, Das regiões no homem [= Dos
lugares no homem], Da arte, Da dieta e Dos sonhos; Das
afecções, Das afecções internas, Das doenças I, Das doenças
II, Das doenças III, Do nasámento no sétimo mês, Da doença
sagrada e Do nascimento no oitavo mês.
■ 5ª CLASSE: simples extratos ou notas. Epidemias II,
Epidemias IV, Epidemias V, Epidemias VI, Epidemias VII, Do
oficio do médico, Dos humores e Do uso dos líquidos.
■ 6ª CLASSE: série particular, pertencente a um só autor. Da
geração, Da natureza da criança, Das doenças IV, Das doenças
das mulheres, Das doenças das virgens e Das mulheres
estéreis.
■ 7ª CLASSE: escrito talvez pertencente a Leóphanes: Da
superfetação.
■ 8ª CLASSE: tratados mais recentes da coleção: Do coração,
Do alimento, Das carnes, Das semanas, Prorrético II,
Dasglandes e um fragmento do tratado Da natureza dos ossos.
■ 9ª CLASSE: escritos não citados pelos críticos antigos. Do
médico, Da conduta honrosa [= Do decoro], Preceitos,
Anatomia, Da dentição, Da natureza da mulher, Da excisão do
feto, Aforismos (8ª seção), Da natureza dos ossos, Das crises,
Dos dias críticos, Da visão e Dos medicamentos purgativos.
■ 10ª CLASSE: escritos perdidos. Das feridas perigosas, Dos
cortes e feridas 29 e Das doenças do recém-nascido.
Apesar de ser fruto de uma investigação criteriosa, esta laboriosa classificação encontrou derradeiro oponente em Jouanna, que exemplifica sua fragilidade com o estudo da autoria do tratado Da medicina antiga.
O dialeto da Coleção hipocrática A língua na qual foram escritos os textos que formam o Corpus hippocraticum é o jônico, apesar de a ilha de Cós, sede da escola hipocrática, ser sabidamente circunscrita pela área dialetal dórica. Para Littré (1839, p.479), Hipócrates e seus seguidores, empenharam-se, nos seus escritos, em reproduzir o falar jônico, então prestigioso notadamente pela literatura filosófica pré-socrática. Para citar as palavras do lexicógrafo francês:
Hipócrates era dórico. Por que escreveu em jônico? A Jônia
habitualmente fornecia escritores e sábios; um ramo da mais
antiga filosofia grega é o chamado "jônico". Naturalmente os
jônicos escreveram neste dialeto que lhes era familiar. Este
hábito perpetuou e quase todos os filósofos, à exceção dos
dórios da Magna Grécia e da Sicília, empregaram o dialeto
jônico. Foi deste dialeto que se serviram Anaxágoras,
Parmênides, Demócrito, Mélissos, Diógenes Apolônio. Não é
preciso buscar outra razão da preferência que o dório
Hipócrates dá ao jônico.
Littré, nesta passagem, parece negligenciar o status quo de que a poesia gozava à época de Hipócrates. Sabendo-se o quão amplamente era difundida a poesia grega arcaica, quase toda em jônico, torna-se difícil não levar em conta que o objetivo de Hipócrates e seus seguidores, ao escreverem em jônico, não pudesse ter sido também o de fazer seus estudos transpassarem as fronteiras de um dialeto que, na literatura, merecia, no máximo, freqüentar as falas dos coros trágicos.
Não há, porém, dorismos flagrantes nos tratados hipocráticos. Nos textos, aliás, são relativamente abundantes as formas áticas, em especial os pronomes. Segundo Galeno (apud Littré, 1839, p. 481), Hipócrates efetivamente se servia, até certo ponto, do dialeto ático.
Valor da Coleção hipocrática
O que os tratados da Coleção hipocrática têm a nos dizer hoje? Por que lê-los?
Essas perguntas já tiveram muitas respostas ao longo do tempo. Há séculos o Corpus hippocraticum vem sendo lido por razões muito diversas. Alguns tratados foram lidos até o século XIX como verdadeiros manuais de medicina. Outros foram parcialmente rejeitados desde Galeno (séc. II d.C.), por parecerem "indignos de Hipócrates". Alçados à categoria de vade mecum, os tratados sempre ocuparam um lugar canônico na literatura médica. Mesmo o advento da ciência, no século das luzes, manteve a Coleção nesse posto. Somente o espírito lúcido e positivista de Emile Littré foi capaz de, no século XIX, mudar o lugar do Corpus hippocraticum nas estantes das bibliotecas.
O positivismo trouxe o Corpus hippocraticum para a discussão de idéias, resgatando-o do universo das preleções técnicas, onde não mais cabia.
Charles Daremberg, na primeira edição de seu 30 Hippocrate (1843)
31, endereça-o "aos médicos e aos estudantes que têm pouco tempo para dedicar à literatura médica". Doze anos mais tarde, o
mesmo (e outro) Daremberg32 publica a segunda edição de seu Hippocrate; mas o endereçamento, na Introdução, modifica-se substancialmente:
Continuando fiel ao meu plano primitivo, estendi sobre mais de
um ponto o campo das discussões históricas (....) Eu me
sentiria muito recompensado pelos novos esforços que
empreendi, se a leitura deste volume puder contribuir em
alguma coisa para robustecer ou engendrar em alguns espíritos
o gosto pela filologia médica e pela história da medicina.33
A partir da releitura das obras recolhidas sob o nome de Hipócrates, abriu-se uma nova perspectiva para a história da ciência e, por conseguinte, para a história do pensamento ocidental. Desde Aristóteles, havia sido negligenciada a contribuição do Corpus hippocraticum para o pensamento, que em muito sempre ultrapassou o que dali poderia se valer exclusivamente a medicina.
O caráter fundador dos textos hipocráticos é costumeiramente discutido a partir da negação do título de "pai da medicina" que se atribui a Hipócrates. De fato, a paternidade da medicina, assim como a da história, suscitaram algumas discussões tão infecundas quanto pouco oportunas. A medicina existia já muito antes de Hipócrates. Existem registradas em linear B diversas ocorrências do
termo 34 i-ja-te, que corresponde ao homérico 'ιητ ρ (médico). Na Ilíada, os dois filhos de Asclépio, Podalírio e Macáon, estão à frente dos guerreiros de Ecália. No segundo canto do poema, há uma referência às atribuições curativas dos dois personagens:
(Havia) também os da Ecália, a cidade de Êurito ecálio,
lideravam-nos os dois filhos de Asclépio,
dois bons médicos35 (ιητ ρε), Podalírio e Macáon.
Foram alinhadas por eles trinta côncavas naus.
(Il II, 730-4)
Esses "curadores", os médicos da Ilíada, gozam de um prestígio superior ao dos guerreiros. No canto décimo primeiro lê-se a axiomática sentença proclamada pelo sábio Nestor:
vale por muitos um homem que é médico,
(que sabe) extrair flechas e aplicar medicamentos lenitivos nas
feridas
(Il. XI, 514-5)
Na Odisséia, o médico não vale menos. Na Telemaquia, lê-se como complemento à explicação dos conhecimentos farmacológicos de Helena um comentário acerca do Egito, que muito esclarece sobre o prestígio do médico:
(no Egito) médico é cada um que sabe sobre todos os homens,
pois descendem de Peon.
(Od. IV,231-2)
Do médico homérico 36, rei-sacerdote, não teremos outros registros na cultura grega, mas as referências às curas em Homero não se limitavam às atividades dos médicos. Pátroclo cura Eurípilo (Il.XI,804ss.) e a loura Agamede é-nos apresentada como
conhecedora dos Φ ρµακα de toda a terra 37; na Odisséia, a egípcia Polidamna é decantada como detentora de eficazes Φ ρµακα (Od.IV,229-30), e Helena recebe de Polidamna o saber relativo ao Φ
ρµακoν (Od.IV,219 ss.). Todavia, paralelamente ao uso do Φ
ρµακoν, havia a prática da 'επαoιδ 38, o canto ritualístico de cura.
Pierre Pellegrin, da recente geração francesa de estudiosos do Corpus hippocraticum, afirma de maneira enfática:
É preciso abandonar a idéia de que Hipócrates retirou a
medicina das mãos dos sacerdotes, dos curandeiros
[guérisseurs] e dos charlatães. Uma medicina que se apóia
sobre observações e raciocínios existe paralelamente a uma
medicina mágico-religiosa muito antes de Hipócrates39.
A idéia de que havia uma medicina pré-hipocrática apoiada no raciocínio e na observação, e paralela aos rituais curandeirísticos, opõe o Φ ρµακoν à 'επαιoιδ , além de suscitar uma questão acerca do caráter fundador da medicina hipocrática. Esse é um problema ainda pujante, desde as especulações de Émile Littré até as considerações de Jackie Pigeaud.
Littré, discípulo dissidente de Auguste Comte, dedicou alguns anos à elaboração de sua edição do Corpus hippocraticum. São dez laboriosos volumes que saíram do prelo entre 1839 e 1861. Com essa obra, Littré não desejava somente reverenciar os primórdios da ciência, mas, à maneira de um pré-socrático, procurou em Hipócrates uma ρχ do que considerava a mais elevada forma do saber:
Quando se pesquisa a história da medicina e os primórdios da
ciência, o primeiro corpo de doutrina que se encontra é a
coleção de escritos conhecida sob o nome de obras de
Hipócrates. A ciência remonta diretamente a essa origem, e aí
mesmo permanece.40
Ao referir-se à ciência que tem seu início e seu último estágio em Hipócrates, Littré indica que os fundamentos do que ele concebia como ciência se encontravam no Corpus hippocraticum; mas, ainda assim, não se afastava da concepção positivista de progresso. De fato, a medicina do século XIX precisou reler suas fontes para beneficiar-se da primazia entre as ciências. A valiosa contribuição de Littré para o estudo do Corpus hippocraticum intentou também assinalar que, desde Hipócrates, o Φ ρµακoν e a 'επαιoδ são, além de diversos, antagônicos.
A ciência da "infância da humanidade"41 que tinha por patronos e expoentes Aristóteles e Hipócrates foi representada em uma célebre pintura no teto do anfiteatro do Collège de France. Foi ali que, em 1871, Claude Bernard proferiu sua conferência intitulada Leçons de pathologie expérimentale, na qual declarou a seus ouvintes:
Aqui mesmo, nas pinturas que ornam o teto deste anfiteatro,
vedes Aristóteles e Hipócrates curvados sob os pés dos anos e
da ciência. Se é um emblema da ciência o que se quis
representar, seria preciso tomar o sentido oposto, e, no lugar de
velhos, pintar crianças que estavam em suas primeiras
balbuciações.
(Apud CANGUILHEM, 1994, p.411)
Canguilhem, que cita esse excerto da conferência de Bernard, termina a sua própria conferência intitulada Puissance et limites de la rationalité en médecine, proferida em 1978 em Estrasburgo – precisamente cem anos depois da morte de Bernard –, com a seguinte reflexão: "Sem dúvida, o discurso científico começou pelas balbuciações infantis, mas que adulto dedicado a racionalizar esse discurso poderia se vangloriar de haver atingido um estágio de articulação sintática das frases?" (ibidem)
Canguilhem encerra definitivamente a era de certezas acerca do conhecimento científico, e o faz a partir da análise das tentativas de racionalização da doença empreendidas desde o final do século XIX. O Corpus hippocraticum deixa definitivamente de ser tratado como um retrato da infância da humanidade, no momento em que teria despontado a perspectiva científica.
No lapso entre as opiniões de Littré e Pellegrin, Robertjoly, em 1966, reivindica para o Corpus hippocraticum o tratamento de fonte para a história da ciência. Joly condena os médicos improvisados historiadores que são tomados por "um transe respeitoso diante da evocação do Pai [sic] da medicina, e esquecem a essência de seu espírito crítico" (1966:10).
Francis Macdonald Cornford, no primeiro quartel do século XX, reivindica outra paternidade para o Corpus hippocraticum, a do empirismo. Em seu antológico capítulo Teoria empírica do conhecimento, Cornford é categórico quanto à atribuição dos primórdios da experiência aos médicos hipocráticos:
É na Medicina que encontramos os começos de um método
genuinamente experimental. A experimentação começa com a
aplicação deste ou daquele remédio a um determinado doente,
para ver se dará ou não resultado. E uma arma prática,
indispensável ao médico, mas sem nenhuma aplicação, no
condicionalismo antigo, aos problemas dos primeiros filósofos
naturais. Os médicos foram os primeiros a interrogar a natureza
com o espírito aberto e na disposição de aceitarem a sua
resposta e de modificarem os seus métodos de acordo com ela.
(CORNFORD, 1981, p.60)
Para Cornford, a medicina hipocrática introduz a perspectiva generalizante no pensamento vigente, de tendência particularizante. Nesse ponto, segundo o classicista de Cambridge, a medicina entrou em conflito com a filosofia natural, que "chegava às suas conclusões sobre a natureza do homem partindo da direção oposta, de cima para baixo" (ibidem, p.60- 1). A oposição, admitirá Cornford no final do citado capítulo, dá-se entre o empirismo e o dogmatismo
pré-socrático. A 'experiência' pré-socrática42 não era senão uma demonstração de um conceito já assentado. São, nas palavras de Cornford, "exemplificações de conclusões já previstas" (idem,p.69). Werner Jaeger, que dedica um longo capítulo de sua Paidéia (pp.687-725) ao Corpus hippocraticum, tal qual Littré, oferece a Hipócrates a paternidade da ciência. Contudo, ao contrário de Cornford e da maioria dos próprios autores hipocráticos, não privilegia a diferença entre a filosofia e a medicina hipocrática. Jaeger sublinha em vários momentos daquele volumoso capítulo o débito das idéias da medicina hipocrática aos filósofos. De fato, a contribuição de Alcméon de Crotona para a teoria humoral é notada
muito claramente a partir do fragmento 4DK43:
Alcméon disse ser a constituição da saúde o equilíbrio das
propriedades: o úmido, o seco, o frio, o quente, o amargo, o
doce, etc., e a produção da doença é a prevalência nas
pessoas de uma delas; pois a destruição consiste na
prevalência [µoναρχíα] de uma delas. Assim a doença
sobrevêm de uma parte quando causada pelo excesso de calor
ou de frio, ou de outra, quando devida à abundância ou à
carência de um alimento, o que ocorre em partes como o
sangue, a medula ou o cérebro. Essas partes podem ser
também afetadas por causas externas, como certas qualidades
de águas, certos climas44, pela fadiga ou por experimentar-se
uma necessidade ou devido ao que lhes estiver perto. Mas
ainda quanto à saúde, ela é a justa medida da mistura das
qualidades.
Grmek (1995, pp.215-7) lembra que a versão compilada e traduzida acima, a estabelecida por Diels e Kranz, é uma reconstituição do testemunho de Aécio, que, por sua vez, é baseado em duas fontes distintas, um texto de Estobeu e uma passagem de Plutarco reconstituída a partir de manuscritos que divergem consideravelmente no fragmento em questão. Grmek atribui às interpolações a busca de um sentido outro, diverso do intencionado pelo Pré-socrático. Para Grmek, a disposição dos conceitos em pares, que inclui a glosa segundo a qual "a destruição consiste na prevalência de uma delas" e a conclusão de que a saúde é "a justa medida da mistura das qualidades", é um complemento organizador. De qualquer forma, o texto de Alcméon suscita, de fato, muitas questões, mormente pela forma com que a tradição no-lo legou. Mas, se, por um lado, sua origem fraccionada o torna objeto de especulações como as de Grmek, por outro, não é possível deixar de lhe notar as feições pitagóricas, o que Grmek acaba por admitir em suas ponderações. A idéia de que o mal é uma desarmonia, um desnível, é projetada por Alcméon na percepção da doença. Ao Alcméon médico, representante de uma nova τ χνη, cabe conservar e reestabelecer a justa medida no corpo e no seu relacionamento com o meio.
A contribuição de Alcméon de Crotona para o pensamento médico hipocrático não se limita, portanto, aos tratados humorais, onde, de fato, a justa medida adquire valor assaz explícito; mas atinge sobretudo toda a medicina hipocrática. E curioso notar, nesse fragmento, a inversão da concepção da pólis como um corpo, que
viria a ser um 45 tópos da historiografia de Tucídides . A utilização do termo µoναρχíα, característico e mesmo exclusivo do vocabulário político, traz para o cenário da filosofia médica o universo políade. No Corpus hippocraticum, como ver-se-á alhures, haverá lugar para outras incidências dessa permuta vocabular.
O tratado 46 Da natureza do homem , da lavra de Pólibo , genro e discípulo direto do próprio Hipócrates, ao apresentar a conhecida teoria dos quatro humores, é categórico ao afirmar:
(O homem) tem saúde precisamente quando estes humores
são harmônicos em proporção, em propriedade e em
quantidade, sobretudo quando são misturados. O homem
adoece quando há falta ou excesso de um desses humores, ou
quando ele se separa no corpo e não se une aos demais.
(NH, 4Littré)
No século XVII, o médico inglês William Harvey, que se tornou conhecido como o descobridor do sistema circulatório, não resgatou apenas a descrição de Pólibo (NH, 11 Littré), mas principalmente o princípio de Alcméon. Georges Canguilhem (1966, pp.22 & ss.) lembra como a análise de Sigerist (1932) aponta para um retorno das idéias médicas ao princípio de Alcméon. Segundo Canguilhem, o resultado dessa tendência do pensamento médico traduz-se na adoção da teoria segundo a qual os fenômenos patológicos são apenas "variações quantitativas, para mais ou para menos, dos fenômenos fisiológicos correspondentes" (ibidem). O estado patológico passou a ser designado a partir do normal, através dos lexicogênicos hiper-e hipo-, enquanto os prefixos a-e dis-restringiram-se à esfera da sintomatologia.
Canguilhem não faz referências ao resgate do pensamento autenticamente hipocrático que se nota em Harvey, bem como em Haller. Contudo, nos séculos V e IV a.C., o princípio de Alcméon, tradução fisiológica do µηδ ν γαν, do "nada em excesso", ganhou vulto através dos textos das escolas médicas de Cnido e de Cós. Platão refere-se a esse princípio no Banquete (186c), no discurso do médico Erixímaco: "pois a medicina, para dizê-lo resumidamente, é um conhecimento do que há de erótico no corpo, em relação à repleção e à vacuidade".
François Hartog (1996, p. 103) também trata do tema da justa medida, lembrando que ele estava presente em várias atividades do homem grego do V século:
Mistura, medida, meio, partilha igualitária: têm-se aí a
interpretação dos vocabulários climático, médico, geométrico e
político, conduzindo a uma valorização do centro como produto
de uma mistura equilibrada. Mais exatamente, um mesmo
conceito imaginado opera em campos do saber que ainda não
estão claramente separados.
A face política do discurso que apologiza o meio termo e a justa medida tem sua mais ilustre expressão em Sólon, mas a palavra de Sólon era também a do poeta e pertencia a um universo cultural onde o poeta, como lembra Detienne, detinha a memória-verdade. Não se deve olvidar que o µηδ ν γαν era sobretudo uma inscrição depositada no oráculo de Delfos. Essa circunstância aferia mais valor a esse princípio do que poderia conferir- lhe a empiria que se
apoderará do discurso 47 grego a partir do V século. Neste ponto, seria muito difícil discordar de Cornford (1981), que em seu texto sobre o conhecimento empírico considera que a grande contribuição do Corpus hippocraticum para o pensamento ocidental foi a introdução do empirismo. A eficácia da justa medida comprovada pela observação sistemática e comparativa poderia comparar-se às verdades de Tirésias e dos τεκ ρια em Edipo Rei. O meio-termo como um valor comprovável inaugura também a época dos valores suscetíveis de comprovação, na medida em que seu caráter político vai se firmando na cultura grega. O discurso de Nícias, no sexto livro da Guerra do Peloponeso, tem por característica a apologia da temperança. Nícias tenta dissuadir os atenienses do projeto de atacar a Sicília. O debate é empolgante. De um lado, o destemor de Alcibíades, motivado pela vaidade pessoal e motivador de um ufanismo ateniense; do outro, o apelo modulante à máxima délfica. Esse confronto, representante de um verdadeiro tópos da historiografia grega, tem paralelo em Heródoto (I, 29 & ss.), onde um Sólon redivivo pela força de sua própria memória, na corte de Creso, incorpora o discurso que Atenas abraçara, onde a adoção das leis do Legislador tornara-se o emblema dessa memória. Todavia, Sólon era ateniense, e a aurea mediocritas lhe condizia em um diálogo com um governante bárbaro; mas o que dizer de um debate entre dois líderes gregos que, segundo Tucídides, eram στρατηγoì α'υτoκ τoρες, "estrategos plenipotenciários" (VI, 8,2) ad hoc?
Alguns estudos já mostraram como Tucídides utilizava o instrumental da medicina (MOLLO, 1994 passim). O historiador dispõe em função de seu objeto as idéias preconizadas pela medicina. Assim, a sociedade é concebida como um corpo político, homólogo ao corpo humano. A descrição da peste de Atenas, no segundo livro da Guerra do Peloponeso, revela claramente a analogia entre o corpo e a cidade. Os atenienses, ouvintes de Nícias ou leitores de Tucídides, conheciam bem o caráter do saber médico. O médico era o elemento moderador do indivíduo e devia, portanto, ser o modelo do líder, especialmente em épocas politicamente conturbadas. O discurso de Nícias tem desfecho axiomático:
E tu, ó prítane, se crês que te compete preocupar-te com o que
for da cidade, e se queres tornar-te um bom cidadão, submete
ao sufrágio e provoque nos Atenienses novamente uma
deliberação. Acaso temes uma nova votação, acreditando que
violar as leis diante de tantos testemunhos não implicaria em
uma responsabilidade, mas tornar-te-ias um médico da cidade
que deliberou mal, e nisto consiste a ação de um bom arconte,
que serve o melhor possível à sua pátria [πατρíς] ou que, pelo
menos, não a prejudica propositalmente.
(Tuc., VI, 14)
A equiparação entre o 'ιατρóς e o bom arconte não ilustra somente a
percepção da pólis como um 48 sôma, mas sobretudo traz para este contexto a figura do médico como o mais característico ator do ideal da razoabilidade fundada exclusivamente sobre o µ τρoν, a medida.
Os tratados do Corpus hippocraticum que apresentam uma parte polêmica – ou seja, o Da medicina antiga, o Da doença sagrada, o Da natureza do homem e o Da arte – são especialmente interessantes para os que se dedicam ao estudo da relação entre a medicina grega e mundo no qual ela estava inserida. Não é possível, por exemplo, negligenciar-se os primeiros parágrafos do tratado Da natureza do homem, quando se pretende averiguar a esfera de influência dos pensadores pré-socráticos, muito particularmente dos monistas.
O tratado Da doença sagrada, que postulo ser do mesmo autor que
o 49 Ares, águas e lugares, apresenta um prólogo dedicado aos que interpretam fenômenos somáticos através de elementos ligados ao âmbito divino. A reação positiva entre os que acreditavam nos curadores vituperados pelo tratado foi uma argumentação fundamentada nos princípios teorizados especialmente pelos tratados Da natureza do homem e Da medicina antiga. O axioma do
equilíbrio recebe com o tratado 50 Da doença sagrada sua apologia mais pragmática, seu formato mais incisivo.
Canguilhem lembra que "definir o anormal por meio do que é de mais ou de menos é reconhecer o caráter normativo do estado dito 'normal'" (1966, p.36). Se por um lado, na medicina hipocrática, o
que se visa não é propriamente ao normal51, mas apenas ao saudável; por outro, seus tratados adotam muito claramente o verbo uyiaíveiv por princípio normatizador, estabelecendo, dessa forma, um padrão de normalidade. Tal qual o Da medicina antiga, os tratados humorais, oferecem copiosos subsídios para o estabelecimento definitivo de um vínculo antitético entre o desequilíbrio e o νóµoς, em seu sentido mais clássico, o de "costume".
A historiografia da medicina ocidental percebe o Corpus hippocraticum como um momento precioso de um percurso onde perdas e ganhos resultaram no que hoje reconhecemos como a medicina de nossos tempos. A partir do século XIX, a medicina, por sua associação com a tecnologia material, passou a ser a área do saber humano que guarda uma relação muito notória com o seu tempo. Contudo, foi justamente a notoriedade dessa relação que impulsionou a incorporação do Corpus hippocraticum na memória da medicina.
Finalmente, cabe dizer que o fascínio que o Corpus hippocraticum exerce em todos os que o lêem deve-se à riqueza de temas que ele entrega à reflexão e aos laços que ele mantém com o classicismo grego. Todavia, esse fascínio pode ocultar uma armadilha. As idéias presentes na medicina atual, sobretudo as mais pragmáticas, cujas origens remotas são atribuídas costumeiramente ao Corpus hippocraticum, foram muito freqüentemente filtradas pela mente romana de Galeno e pelas mãos sistematizadoras de outros pensadores, como, por exemplo, de Avicena. Assim, devemos entender o Corpus hippocraticum como o momento inaugural de uma nova forma de pensar o corpo, a natureza e mesmo a relação entre homens e deuses.
23. GUAL et alii (1983) v.I, p. 10
24. JOUANNA (1992), p.94 e GUAL et alii (1983), p.18
25. Apud JOUANNA, 1992, p.96.
26. Sabe-se, porém, já com segurança, que este, bem como outros tratados desta lista, não é de Hipócrates.
27. O texto grego deste tratado está perdido; o tratado, porém, chegou aos dias de hoje por duas traduções latinas que Littré editou: a primeira, muito lacunosa, no tomo VIII e a segunda, mais plena, no tomo IX.
28. Tem-se notícias de dois glossários das obras hipocráticas anteriores a Erotiano, nenhum dos quais nos chegou: o de Xenócrito de Cós e o de Bakcheios (Báquio), que JOUANNA (1992, p.95) considera "o primeiro grande glossarista de Hipócrates".
29. Apud LITTRÉ (1939), p.292-439.
30. Trata-se de uma edição de quatorze livros do CH: Juramento, A lei, Da arte, Do médico, Prorréticos (I), Prognóstico, Prenoções de Cós, Ares, águas e lugares, Epidemias 1 e III, Do regime nas doenças agudas, Aforismos e fragmentos de muitos outros tratados.
31. Portanto, seis anos antes da edição de Littré.
32. A hipótese de uma influência de Littré nessa transformação de Daremberg não me parece nada inverossímil. Duas cartas de Petrequin a Daremberg (a primeira de 14 de setembro de 1862 e a segunda de 25 de outubro de 1872), embora posteriores à data de publicação do último tomo da obra de Littré, reforçam a crença nessa possibilidade. As cartas continuam inéditas, e Danielle Gourevitch (1994) publicou-as parcialmente.
33. Apud GOUREVITCH, 1994, pp.65-6. Na segunda edição de Daremberg, a escolha dos textos modificou-se muitopouco, tendo sido acrescido apenas mais um tratado.
34. Il. Il,732. Há também inscrições cipriotas que registram essa forma (Hoffman, O. Die griechisschen Dialekte, Götingen, vol.1,1891. p.135).
35. Creio que seria ideal estabelecer uma distinção entre o "médico" de Homero e o médico hipocrático; contudo, não se pode negligenciar que Paul Mazon, nessa passagem, traduz o termo grego por "guérisseur", promovendo assim uma outra distinção, entre o 'ιητρóς e o 'ιητ ρ. O helenista francês parece preferir "guérisseur" para traduzir ir)Tr]p, e "médecin" para ií]Tpos. Tal opção torna-se clara na sua tradução dos versos 514-8 do décimo primeiro canto, onde os dois termos gregos se sucedem.
36. Contudo, é sempre conveniente lembrar que não são exatamente esses "homens que valem por muitos" e "sábios em relação a todos os outros homens" os mesmos médicos que constituirão as escolas médicas geradoras do Corpus hippocraticum.
37. τóσα Φ ρµακα δη ŏσα τρ Φει εùρ α χθ ν [conhecia todos os medicamentos que a vasta terra oferece]. Il XI, 741.
38. Essa prática é atestada, por exemplo, em Od. XIX, 455-8, em uma passagem na qual Odisseu é acometido por uma hemorragia proveniente do ferimento provocado pelo javali, estancada através desse processo encantatório. E contra essa prática que o tratado MS parece voltar-se em 2Littré.
39. Introduction: Médecine hippocratique et philosophie. In: PELLEGRIN. Art médical. 1994. p. 20. A introdução de Danielle Gourevitch, Pellegrin e Grmek a essa antologia de textos hipocráticos é um estudo acerca da medicina do século V que reflete algumas das tendências mais recentes dos estudos hipocráticos. Os três autores são oriundos respectivamente das áreas de letras, filosofia e medicina, e todos eles doutores em letras.
40. Escrevo entre aspas distanciadoras essa expressão cunhada no seio da filosofia e da historiografia positivista.
41. A força da expressão exige a citação do original: Larsqu'on recherche 1'histoire de la médecine et les commencements de la Science, le premier corps de doctrine que l'on rencontre est la collection d'écrits connue sous le nom de l'oeuvre d'Hippocrate. La Science remonte directement à cette origine et s'y arrête.
42. Cornford cita a aparente experiência de Empédocles e Anaxágoras com a clepsidra.
43. Este fragmento é gravemente corrompido. Compreendê-lo é uma tarefa assaz difícil; ofereço, não obstante, uma leitura relativamente distinta da conhecida interpretação da Professo ra Timpanaro Cardini, que consta de sua obra Pitagorici, testemonianze e frammenti, vol. I, p.151, n.4 (1958), seguida por Daniel Delattre, em sua tradução publicada pela Bibliothèque de la Pléiade (1988). Cabe-me contudo admitir a perspicácia da helenista italiana ao considerar a perspectiva pitagórica de dualidade na sua interpretação. A tese da interpolação, sustentada inclusive por Grmek, está resumidamente exposta adiante.
44. Lit. "certas regiões".
45. Sobre esse tema, v. CAIRUS (1999)
46. Há muito ocorre um entusiasmado debate acerca da autoria desse tratado. Prefiro, não obstante, considerá-lo uno e, assim, consoante aos testemunhos de Aristóteles (Hist.an.III,512b-513a) e do Anônimo de Londres, considerar Pólibo seu autor. Sobre esse tema, v. CAIRUS (1994, pp.28-30).
47. A superação da voz oracular pela empiria é ilustrada de forma muito clara, em Edipo rei, pelo contraste entre a palavra de Tirésias e as τεκ ρια, "provas", que o convenceram da verdade sobre si próprio.
48. O segundo livro da Guerra do Peloponeso é, nesse ponto, muito mais claro. Como exemplo muito ilustrativo, cito a sentença inicial do trecho onde se torna consideravelmente clara essa analogia (Tuc. II, 53, 1):
ντων. [De maneira geral, a doença principiou, na pólis, uma
anomia. Pois qualquer um ousava mais facilmente desfrutar do
que antes escondia; vendo as súbitas inversões de sorte dos
afortunados, que morriam repentinamente, e dos que nada
possuíam antes, e que passam a ter instantaneamente o que
era dos outros]. Sobre o tema da relação de Tucídides com o
sagrado, v. CAIRUS (1999, cap. IV)
49. Jacques Jouanna (1992, p.549) indica o autor do MS como provavelmente o mesmo de AAL. Não há como superar todos os níveis da dúvida, e nem pretendo fazê-lo. Contudo, apresento, ao longo da tradução, diversos indícios de ser o mesmo o autor dos dois tratados.
50. Considero a datação de Jouanna a mais fundamentada até então. Segundo Jouanna (1992 passim), os três tratados referidos datam da segunda metade do século V. Em relação ao AAL, a datação se baseia nos fatos por ele referidos; quanto ao MS, a datação é devida à idéia de seu autor ser o mesmo do AAL. O NH tem sua data muito discutida, mas há consenso em situá-lo entre 410 e 400 a.C.
51. Vale lembrar que o grego possui um adjetivo que expressa a idéia do vernáculo 'normal': νóµιµoς; contudo, esse adjetivo não ocorre nos tratados Da doença sagrada e Ares, águas e lugares. O adjetivo κóινóς parece só atingir um significado mais aproximado do de 'normal' com Denis de Halicarnasso (Antigüidades romanas, 4,23), no primeiro século antes de Cristo.