Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença
4 – Da doença sagrada
Henrique F. Cairus
A tradução do tratado Da doença sagrada que aqui se apresenta baseou-se no texto estabelecido por Émile Littré, cotejado com o editado por Grensemann. O professor Jacques Jouanna preparou um estabelecimento do texto do tratado que seguramente suplantará o de seus predecessores, mas a obra ainda se encontrava no prelo da Société d'Éditions Les Belles Lettres quando foi realizada a tradução que se segue. A edição de Grensemann tende a um intervencionismo – ao meu ver maior do que o que se poderia crer adequado –, eliminando repetições e, simultaneamente, apresentando uma crítica textual por vezes demasiada. A edição de Jones, excetuando-se o início onde se afilia à de Grensemann, é consideravelmente próxima da de Littré, que ainda traz um aparato crítico onde predomina o bom senso do filólogo aliado ao rigor do cientista.
A numeração de Émile Littré é seguida por Wilamowitz e Grensemann. Contrariamente à opinião de Garcia Gual (1983, p. 400), não me parece haver razão para que se sugira outra numeração; contudo, sendo a edição de Jones muito prestigiada pelos helenistas, julguei conveniente registrar sua opção de partição do texto.
Tradução
1Littré (1Jones). Eis aqui o que há acerca da doença dita sagrada: não me parece ser de forma alguma mais divina nem mais sagrada do que as outras, mas tem a mesma natureza que as outras
enfermidades 69 e a mesma origem. Os homens, por causa da inexperiência e da admiração, acreditaram que sua natureza e sua motivação fossem algo divino, porque ela em nada se parece com as outras doenças. Devido à sua dificuldade de não a conhecer, continuam lhe atribuindo caráter divino, e devido à facilidade do modo de cura pelo qual é curada, engana, pois que curam-na por
meio de purgações e encantamentos 70. Se ela vier a ser considerada sagrada por causa de seu caráter admirável, haverá muitas enfermidades sagradas, e não apenas uma; assim, eu mostrarei outras (doenças) em nada menos admiráveis, nem monstruosas, as quais ninguém acredita serem sagradas. As
febres71 cotidianas, terçãs e quartãs não me parecem ser menos sagradas nem mais engendradas por algum deus do que esta doença, e essas não são admiradas. Por outro lado, vejo homens
enlouquecidos 72 e que deliram sem nenhuma motivação aparente, e praticam muitos atos inoportunos, e sei de muitos que soluçam e gritam no sono, que se sufocam, que dão saltos, correm para fora (de suas casas) e deliram até despertarem; depois estão sãos e conscientes como antes, mas pálidos e débeis, e isso ocorre não uma única vez, mas muitas. Há casos muitos e variados, acerca de cada um dos quais poderia haver muito a ser discutido.
(2Jones) Os primeiros homens a sacralizarem esta enfermidade parecem-me ser os mesmos que agora são magos, purificadores, charlatães e impostores, todos os que se mostram muito pios e plenos de saber. Esses certamente, excusando-se, usam o divino para proteger-se da incapacidade de fazer valer o que ministram, e, para que não se tornem evidentes sabedores de nada, declaram
esta afecção sagrada. Alegando motivos73 convenientes, eles aplicam um tratamento para a segurança deles próprios, ministram purificações e encantamentos, e prescrevem que se afaste de banhos e de vários alimentos inapropriados para homens doentes: proibiram o salmonete, o melanuro, o mugem, a enguia – pois esses
peixes são os mais perniciosos 74 –, dentre os alimentos marítimos; a cabra, o cervo, o leitão, o cachorro – pois estas carnes são muito perturbadoras do ventre, dentre as carnes; o galo, a rola, a abetarda, entre as aves; e ainda tudo o que é considerado vigorante. Dentre os legumes, proibiram a menta, o alho, a cebola – pois o sabor picante em nada convém a um debilitado –; prescreveram não portar vestimenta negra – pois o negro lembra a
morte75–, nem se cobrir ou se vestir com pele de cabra, nem colocar um pé sobre o outro, nem mão sobre mão – pois tudo isso são proibições. Eles impõem tais coisas tendo em vista o aspecto divino, alegando, como grandes sabedores, outras motivações, a fim de que, se o doente se tornar são, a glória e a destreza lhes sejam atribuídas; mas se ele morrer, que suas justificativas sejam
apresentadas de modo seguro, e aleguem76 que os causadores não são eles, mas os deuses; pois não lhes deram remédio algum nem para comer, nem para beber; nem os acalmaram com banhos, de sorte a parecerem ser esses a causa. Parece-me que, entre os
líbios, habitantes do interior da terra77, ninguém goza de saúde, porque eles se cobrem com peles de cabras e se alimentam de carne de cabras, jamais possuem colchões, nem vestimentas, nem calçados que não tenham sua origem na cabra. Pois não têm outro rebanho senão cabras e bois. Se tais coisas utilizadas e ingeridas engendram e aumentam a doença, e não ingeridas curam-na, então
o deus78 não é o causador de nada, nem os purificadores são úteis; mas os alimentos são os que curam e prejudicam, e furta-se o
poder79 do divino.
(3Jones) Assim, parece-me que aqueles que se empenham para curar dessa maneira essas enfermidades não a consideram nem sagrada, nem divina. Quando as doenças são afastadas por meio de tais purgações e desse tratamento, que lhes impede de, por meio de outros artifícios semelhantes, sobrevir e recair sobre os homens? Portanto, não há causa divina, mas humana. Pois quem, procedendo a purgações e magia, é capaz de apartar esta afecção, este, por meio de seus artifícios, poderia atrair outras, e, com esse argumento, está eliminado o aspecto divino. Dizendo e maquinando tais coisas, fingem saber mais e enganam os homens prescrevendo-
lhes purificações e purgações80. Muito do seu argumento não tange
nem ao divino nem ao númico 81. Não me parecem fazer seus discursos sobre a piedade, como eles pensam, mas antes sobre a impiedade, e, como os deuses não existem, o piedoso e o divino,
para eles, é o não-piedoso 82 e o sacrílego, como eu ensinarei. (4Jones) Pois se prometem saber baixar a lua, ocultar o sol, produzir o inverno e o bom tempo, a tempestade e a seca, e tornar o mar estéril e também a terra, e fazer tantas outras coisas semelhantes, os que praticam isso, seja através de ritos, seja através de qualquer outra técnica ou prática, dizem que são capazes de transformar isso tudo; então, a mim, eles parecem ser ímpios, não acreditar existirem deuses, nem, se eles existissem, que eles tivessem algum poder, nem que poderiam impedir nenhum dos atos extremos. E, pradcando tais atos, como não seriam terríveis aos próprios deuses? Pois nem se um homem, utilizando a magia e sacrifícios, fizesse a lua descer, eclipsasse o sol e produzisse o inverno e o bom tempo, eu não acreditaria que algum desses atos fosse divino, senão (somente) humano, se é que o poder do divino está dominado e servilizado pelo conhecimento do homem. Talvez
não seja assim, mas os homens necessitados de subsistência 83 maquinam muitas coisas e de todos os tipos, e transformam-nas em todas as outras e nessa doença, atribuindo a causa de cada tipo de afecção a um deus. Não se referiram a isso uma única vez, mas muitas.
Se imitam uma cabra, se rugem, se têm convulsões para a direita, dizem que a Mãe dos deuses é a causa. Se emitem sons mais agudos e fortes, parecem cavalos, e dizem ser Poseidon a causa. Se também sobrevier algum excremento, o que freqüentemente ocorre aos que sofrem a violência dessa doença, o qualificativo 'Enódia' lhe é acrescentado. Mas se (os sons) são ligeiros e freqüentes, como os dos pássaros, a causa é Apoio Nômio. Se sai
espuma da boca e batem os pés, Ares tem a responsabilidade 84.
Quanto a todos os temores noturnos e medos, aos delírios 85, aos saltos para fora da cama, às (visões) apavorantes e ao fato de darem por si fora de casa, dizem haver incursões de Hécate e
ataques dos heróis. Utilizam purgações86 e encantamentos, e transformam em divino o que há de mais sacrílego e distante do divino, como me parece. De fato, eles purificam aqueles tomados por alguma doença hemorrágica ou por outras desse tipo, como os
que têm algum miasma87, ou os que carregam uma maldição, ou os
enfeitiçados 88 por homens, ou os que cometeram alguma obra sacrílega, e esses deviam empreender práticas inversas: sacrificar,
suplicar e, indo aos templos, rogar aos deuses 89. Agora, já não fazem nada disso, mas somente purgam. E escondem os objetos das purgações com terra, ou os atiram ao mar, ou os levam para as montanhas, onde ninguém os apanhará nem os pisará. Mas levando-os ao deus, deviam ofertar ao deus, se, de fato, um deus é o causador.
Realmente, eu avalio que o corpo do homem não é maculado por algum deus: o mais mortal, pelo mais puro possível; mas, se acaso for maculado ou por outro algo ou se passível de outra coisa, poder-
se-ia esperar ser purgado e purificado 90 por um deus, mais do que ser maculado. Então, o divino é o purgador de nossos maiores erros e sacrilégios, aquilo que os purifica e que se torna nosso detersório. Nós mesmos, fixando os limites dos templos e das regiões sagradas, para que ninguém os ultrapasse se não estiver puro, ao entrarmos neles, procedemos à ablução, não como maculados, mas como para sermos purificados de alguma impureza que tivéssemos antes. E, sobre as purgações, eis o que me parece.
2Littré (5Jones). Essa enfermidade não me parece em nada ser mais divina, mas tem a mesma natureza que as outras doenças, e a motivação da qual cada uma delas provém. Mas, quanto à natureza e ã motivação, parece-me ser esta doença divina pela mesma razão que o são todas as outras, e também ser curável em nada menos do que as outras; a não ser que já esteja fortalecida por sua longa duração, a ponto de ser mais forte do que os remédios ministrados.
Começa, assim como as outras doenças, conforme a estirpe 91. Se,
pois, de um fleumático nasce 92 um fleumático, de um bilioso, um
bilioso, de um tísico, um tísico 93, e de um esplenético, um esplenético, o que impede que algum dos filhos tenha (a doença)
que tinham o pai e a mãe? Pois a semente94 vem de todos os
lugares do corpo: das partes sãs, vem sã; das doentes, doente95.
Outra grande prova de que esta não é em nada mais divina do
que as outras enfermidades: nos fleumáticos ocorre por
natureza, e jamais sobrevêm aos biliosos. Se realmente fosse
mais divina do que as outras, essa doença necessariamente
acometeria todos da mesma forma, e sem distinguir o bilioso
nem o fleumático.
3Littré (6Jones). 96 Mas, de fato, o cérebro é o causador dessa afecção, assim como das outras doenças gravíssimas; de que maneira ocorre e a partir de qual motivação é o que exporei claramente. O cérebro do homem é duplo, assim como os de todos
os outros animais 97. Uma leve membrana o divide ao meio. Por isso, não se sente dor sempre no mesmo lugar da cabeça, mas em uma das partes, e, por vezes, na cabeça inteira. E as veias se estendem
até ela, vindo de todo o corpo 98, muitas e finas, mas duas grossas: a que vem do fígado e a que vem do baço. A que vem do fígado se comporta assim: uma parte da veia estende-se para baixo, pelo lado direito, ladeando o rim e os músculos lombares, até o interior da coxa, e atinge o pé, e é chamada de veia cava; uma outra se
estende para cima, através dos diafragmas 99 direitos e do pulmão, e se divide e vai ao coração e ao braço direito. O resto se eleva pela clavícula até o lado direito do pescoço, até a própria pele, de sorte a ser visível. Oculta-se perto do ouvido e nele se separa. A parte mais
grossa, maior e mais calibrosa 100 termina no cérebro; outra parte, sendo uma pequena veia fina, vai ao ouvido direito; uma outra vai ao olho direito e uma outra vai à narina. Assim são as veias que vêm do fígado. A veia que vem do baço estende-se até o lado esquerdo, tanto para baixo, quanto para cima, assim como a que vem do fígado, porém mais fina e mais fraca.
4Littré (7Jones). Através dessas veias recolhemos a maior parte do
fôlego 101, pois essas são respiradouros do nosso corpo, atraindo o ar até elas, e o conduzem ao resto do corpo, através de pequenas veias; esfriam e retornam. O fôlego, então, não podendo permanecer parado, move-se, contudo, de cima a baixo. Porque, se permanecer em algum lugar e for retido, a parte onde ele
permanece torna-se impotente 102. Eis a prova: quando se está sentado ou deitado, as veias são pressionadas, de modo a não
passar o fôlego pela veia, em seguida ocorre entorpecimento 103.
É assim que ocorre com as veias 104.
5Littré (8Jones). 105 Contudo, a doença acomete os fleumáticos, mas não nos biliosos. Começa a criar-se no embrião, quando ele ainda está no útero. De fato, também o cérebro, assim como as outras partes, purifica-se e floresce antes mesmo do nascimento. Se, nessa purgação, for devidamente purgado e na medida exata, e caso flua nem mais nem menos do que o devido, tem-se, então,a
cabeça totalmente sã106. Mas, se há fluxo excessivo proveniente de todo o cérebro, e a coliquação se torna abundante, ao crescer, o indivíduo terá a cabeça adoentada e repleta de barulho, e não suportará o sol nem o frio. Se o fluxo provém de somente uma parte, ou do olho, ou do ouvido, ou se alguma veia se resseca, essa parte fica lesada na proporção em que se dá a coliquação. Se, porém, não ocorrer a purgação, mas o fluxo se condensar no cérebro, então o indivíduo será necessariamente fleumático.
Naqueles em que, quando crianças, brotam erupções na cabeça, nas orelhas e em outra parte da pele, e ocorre fluxo salivar e muco nasal, neles, essas coisas vão apresentando melhora com o avançar da idade. Então, é liberado e expurgado o fleuma que deveria ter sido purgado no útero. E a quem for assim purgado, geralmente não ocorre este mal. Aqueles que forem assim
purgados, não são geralmente atingidos107 por essa doença. Mas aqueles que estão purgados, e nenhuma ulceração, nem muco e nenhuma saliva lhes sobrevêm; nem procederam, dentro dos úteros, à purgação; para tais indivíduos, há o risco de serem tomados por essa doença.
6Littré (9Jones). Se, porém, o fluxo tomar o rumo do coração, sobrevêm palpitação e acessos de asma, e o peito fica lesado, e alguns ficam curvados. Quando o fleuma frio desce sobre o pulmão ou sobre o coração, o sangue se esfria; as veias violentamente esfriadas pulsam contra o pulmão e o coração. O coração palpita, de sorte a sobrevirem necessariamente os acessos de asma e a ortopnéia; pois o indivíduo não recebe a quantidade de fôlego que deseja, até que o fluxo do fleuma seja controlado e derramado, aquecido, pelas veias. Em seguida, cessam a palpitação e acesso de asma; mas cessam na medida em que há excesso. Se flui muito, cessa lentamente; se flui pouco, mais rápido. E se os fluxos forem mais freqüentes, mais freqüentes tornam-se os ataques; se não, tornam-se mais raros. Então, eis o que acontece se o fluxo atinge o
pulmão e o coração. Se atinge o ventre108, ocorrem diarréias.
7Littré(10Jones). Se (o fleuma) fica bloqueado nesse trajeto produz-se o fluxo para as veias das quais já falei; o indivíduo torna-se afônico e fica sufocado, e cai-lhe espuma da boca. Os dentes se cerram, as mãos se contraem, os olhos reviram, o indivíduo perde a consciência, e alguns eliminam excremento. Essas coisas ocorrem às vezes pelo lado esquerdo; outras vezes, pelo direito, e outras ainda, por ambos os lados.
Eu explicarei como acontece cada uma dessas coisas. O indivíduo torna-se afônico quando repentinamente o fleuma que foi para as veias bloqueia o ar, e não é recebido pelo cérebro, nem pelas veias cavas, nem pelas cavidades, mas intercepta a respiração; porque quando o homem toma o fôlego pela boca e pelas narinas, este chega primeiramente ao cérebro; em seguida, vai majoritariamente para o ventre, uma parte ainda vai para o pulmão, e outra, para as veias. Dessas partes, o fôlego distribui-se às outras através das veias. O que chega ao ventre, resfria o ventre, e não serve para nenhuma outra coisa. O ar que é lançado ao pulmão e às veias, chegando às cavidades e ao cérebro, torna, dessa forma,
possíveis109 o pensamento e o movimento dos membros; de sorte que, quando as veias são privadas do ar por causa do fleuma, e não o recebem, o homem torna-se afônico e sem consciência. As mãos tornam-se impotentes, e contorcem-se, uma vez que permanece o sangue imóvel e não se distribui, como de costume. Os olhos reviram, posto que as veias não recebem ar e tornam-se túrgidas. Provinda do pulmão, a espuma sai da boca; pois quando o fôlego não entra nele, o indivíduo espuma e ebule, como se estivesse morrendo. O excremento sobrevêm por força do sufocamento, e há sufocamento quando o fígado e o ventre são pressionados para cima, em direção aos diafragmas, e há obstrução na boca do
estômago110. Ocorre pressão, quando o fôlego não entra na boca, como de costume. O indivíduo bate os pés quando o ar é interceptado nos membros e não é capaz de escorrer para fora, devido ao fleuma. (O ar), lançando-se para cima e para baixo através do sangue, produz espasmo e dor; por isso, o indivíduo esperneia. Tudo isso ocorre, quando o fleuma frio flui para o sangue, que é quente, pois o sangue esfria e se estagna. Se o fluxo for abundante e espesso, o indivíduo morre imediatamente. Pois o
fluxo de fleuma supera o sangue através do frio e o coagula111. Mas se esse fluxo for menor, ele controla imediatamente a respiração que está obstruída. Em seguida, depois de algum tempo, quando (o fleugma frio) se espalha pelas veias e se mistura ao sangue abundante e quente, caso seja assim controlado, as veias recebem o ar, e os indivíduos recobram a consciência.
8Littré (11Jones). A maioria das crianças pequenas que são atingidas por ataques dessa doença morre, se o fluxo sobrevier
abundante e soprar o noto112. As pequenas veias, que são delgadas, não podem receber o fleuma, por causa de sua espessura e abundância; mas o sangue se esfria e coagula, e, assim, o indivíduo morre. Se é pouco o fleuma, produz um fluxo por ambas as veias, ou por uma delas, e, assim, o indivíduo sobrevive, embora
marcado 113; pois a boca fica torta, ou o olho, ou o pescoço, ou a mão; no lugar onde a pequena veia, cheia de fleuma, foi controlada e oprimida. Por causa dessa veia, necessariamente, a parte lesada do corpo é mais fraca e mais incompleta. Mas geralmente isso tem alguma utilidade, por um longo tempo; pois o ataque não mais ocorre, se o indivíduo já tiver sido marcado uma vez. Eis por quê: devido a essa necessidade, as veias restantes são prejudicadas e parcialmente contraídas, de sorte a receberem o ar, mas a não fluir mais o fluxo de fleuma como antes. De fato, é razoável os membros estarem mais fracos, se as veias foram prejudicadas. Mas, aqueles que, em caso de vento do Norte, têm fluxos muito parcos e do lado direito, esses sobrevivem sem qualquer marca; contudo, há o perigo de (a doença) formar-se e aumentar, se não forem tratados com os
procedimentos adequados 114. Assim acontece com as crianças, ou algo muito semelhante a isso.
9Littré (12Jones). Aos mais velhos, (a doença) não os mata, quando sobrevêm, nem provoca contorções; pois as veias são calibrosas e cheias de sangue quente, por isso, nem o fleuma pode controlá-las, nem o sangue pode esfriar-se, a ponto de coagular-se, mas ele próprio, o fleuma, é controlado, e se mistura rapidamente com o sangue. Dessa forma, as veias recebem o ar e dá-se a
consciência, e as marcas já referidas ocorrem reduzidamente 115, por causa do vigor do indivíduo. Aos muito velhos, quando lhes sobrevêm essa doença, ela provoca, por essa razão, a morte ou a paralisia, ou seja, porque as veias se esvaziam, e o sangue é parco, rarefato e aquoso. Se, então, há fluxo abundante e for a época de inverno, o indivíduo morre. Pois o fluxo esgana e coagula o sangue, se ele sobrevêm por ambos os lados. Se ele ocorre apenas em um dos lados, torna o indivíduo paralítico, porque o sangue não pode controlar o fleuma, uma vez que está rarefato, frio e parco; mas ele próprio, controlado, se coagula, de sorte a tornarem-se impotentes aquelas partes onde o sangue foi suplantado.
10Littré (13Jones). O fluxo ocorre mais para a direita do que para a esquerda, porque aí as veias são mais calibrosas e numerosas do que no lado esquerdo; pois as veias se estendem a partir do fígado e do baço. O fluxo se precipita e se coliqua principalmente nas crianças, se nelas a cabeça for esquentada ou pelo Sol, ou por fogo,
e repentinamente o cérebro vier a tremer de frio116. A opção por esta tradução denotativa justifica-se principalmente pelo fato de o
mesmo verbo; pois então o fleuma se separa 117. Isso ocorre porque o fleuma se coliqua pelo calor e pela dilatação do cérebro; ele se separa sob a ação do frio e da contração, e assim flui. Em alguns indivíduos, essa é a motivação; em outros, quando o noto repentinamente substitui os ventos boreais, e distende e liberta o
cérebro que estava contraído e é vigoroso118, de sorte a tornar-se demasiadamente abundante o fleuma, e, dessa forma, produz-se o fluxo.
O fluxo se derrama também devido a um medo obscuro119, se o indivíduo teme quando alguém grita, ou ainda se, em meio ao choro, não for capaz de retomar rapidamente o fôlego. Tais coisas ocorrem amiúde com as crianças. Quando ocorre qualquer dessas coisas, imediatamente o corpo treme de frio, e, afônico, o indivíduo não retoma o fôlego, mas o fôlego fica estático; o cérebro se contrai; o sangue estagna-se, e, dessa forma, o fleuma se separa e flui. Nas
crianças, essas são as motivações do ataque120, no que concerne ao seu início. Para os mais velhos, porém, o inverno é muito agressivo. Pois, quando, próximos a um grande fogo, tais indivíduos têm esquentados a cabeça e o cérebro e quando se expõem ao ar
livre 121 e são tomados pelo frio, ou quando forem do ar livre a um abrigo, e se sentarem próximos a um fogo, essas mesmas coisas acontecem, e lhes ocorre o ataque, conforme já foi dito. Outro grande perigo é que sofram tais coisas na primavera, se o sol lhes aquecer a cabeça. Mas, no verão, o perigo é muito menor, posto que não há mudanças repentinas.
Quando se tiver ultrapassado os vinte anos, essa doença não mais atinge, senão a poucos ou mesmo a ninguém, a não ser que ela acompanhe o indivíduo desde a infância. As veias estão cheias de sangue, e o cérebro se condensa e torna-se rígido, de sorte que o fluxo não recai sobre as veias, mas, se recair, não controla o sangue, posto que o sangue é abundante e quente.
11Littré (14Jones). Em quem (a doença) vem crescendo e se desenvolvendo desde criancinha, é habitual ocorrer isso durante as mudanças de vento, na maioria das quais lhe sobrevêm ataques e, sobretudo, quando sopram os notos. E difícil livrar-se desses ataques, porque o cérebro tornou-se mais úmido do que o seu natural, e transborda o fleuma, de sorte que defluxões tornam-se amiudadas, e o fleuma não pode mais separar-se, nem o cérebro tornar-se seco, mas esse pode molhar-se e manter-se úmido. Qualquer um pode tomar conhecimento disto principalmente em alguns animais pastoris que são tomados por ataques devidos a essa doença, e especialmente nas cabras, pois essas os têm com freqüência. Se dissecares a cabeça delas, encontrarás o cérebro úmido, em meio a hidropisia, e cheirando mal. Nessa evidência,
reconhecerás que não é a divindade que corrompe 122 o corpo, mas a doença.
Isso ocorre também com o homem: quando a doença dura muito, torna-se incurável, posto que o cérebro é carcomido pelo fleuma e se coliqua; o que for coliquado torna-se água, que rodeia externamente o cérebro, e banha-o. E, por essa razão, os indivíduos tornam-se mais freqüente e facilmente presas de ataques. Eis por que a doença torna-se duradoura, já que o líquido fluxionário que circunda o cérebro é rarefeito devido a sua abundância, e é imediatamente controlado e aquecido pelo sangue.
12Littré (15Jones). Aqueles que estão habituados perspiram quando estão prestes a ter um ataque e se afastam dos outros, se estiverem perto de casa; se estiverem longe, dirigem-se ao lugar mais isolado, onde esperam que pouquíssimos o vejam cair, e imediatamente se escondem. Fazem isso por vergonha da afecção, e não por medo do nume, como muitos crêem. As crianças, por falta de costume, primeiramente caem onde acaso estejam. Mas quando ocorrerem ataques repetidos, ao pressentirem-nos, fogem para perto de suas mães ou para perto de alguém que conheçam bem, por causa do terror e do medo da afecção; pois, sendo crianças, não conhecem ainda o que seja envergonhar-se.
13Littré (16Jones). Pelas razões que exporei, afirmo ocorrerem
ataques nas mudanças dos ventos123, principalmente nos notos, depois nos bóreas e, em seguida, nos demais; esses são, entre os ventos, os mais fortes, além de contrários aos outros no que tange à direção e à potência.
O bóreas condensa o ar, dissipa a parte turba124 e nebulosa, e a faz límpida e diáfana. Dessa mesma maneira, atua sobre tudo o que tem origem no mar, e nas outras águas; pois dissipa a umidade e a escuridão de todas as coisas, inclusive dos homens, e por isso é o
mais saudável dos ventos125.
O noto, por sua vez, faz o contrário disso. Primeiramente começa a fundir e liquefazer o ar condensado, visto que não sopra forte imediatamente, mas primeiro é tranqüilo, porque não pode, de repente, controlar o ar que antes estava espesso e condensado; todavia dissolve-o com o passar do tempo. Da mesma maneira atua sobre a terra, sobre o mar, sobre os rios, sobre as fontes, as cisternas e sobre tudo o que brota e em tudo o que contém umidade. E ele está em tudo - em algumas coisas mais, em outras,
menos. Todas as coisas sentem 126 esse vento, e passam de claras a turvas, de frias a quentes, de secas a úmidas. Os vasos de barro cheios de vinho ou de qualquer outro líquido que estiverem nas casas ou enterrados, todos eles, sentem o noto, e transmutam sua forma em outra aparência, e, assim, torna o Sol, a Lua e as estrelas muito menos resplandecentes do que a sua natureza. Quando então, sendo essas coisas assim tão grandes e poderosas, (o vento) as controla desta maneira, e faz o corpo sentir e modificar-se, durante as mudanças desses ventos, é forçoso que, com os notos, o
cérebro relaxe e se umedeça 127 e as veias se tornem mais flácidas, e que, com os bóreas, o que há de mais saudável no cérebro se condense, o que for mais doente se separe do que estiver mais
úmido, e que (o fleuma) o banhe 128 por fora, e, assim, as defluxões sobrevenham nessas mudanças desses ventos.
Dessa forma, essa doença nasce e se desenvolve, a partir da agregação e desagregando, e não é de forma alguma mais impossível de ser tratada ou de ser conhecida; nem é mais divina do que as outras.
14Littré (17Jones). É preciso que os homens saibam que nossos prazeres, nossas alegrias, risos e brincadeiras não provêm de coisa alguma senão dali (isto é, do cérebro), assim como os sofrimentos, as aflições, os dissabores e os prantos. E, sobretudo, através dele, pensamos, compreendemos, vemos, ouvimos e reconhecemos o que é feio e o que é belo, o que é ruim e o que é bom, o que é agradável e o que é desagradável, tanto distinguindo as coisas conforme o costume, quanto sentindo-as conforme o que for conveniente – e distinguindo dessa forma os prazeres dos desprazeres; de acordo com a ocasião, as mesmas coisas não nos agradam sempre. E também através dele que enlouquecemos e deliramos, e nos vêm os terrores, os medos, alguns durante a noite, outros durante o dia, e as insônias, os erros inoportunos, as preocupações inconvenientes, a ignorância do estabelecido, a falta
de costume 129 e a inexperiência.
De tudo isso somos passíveis a partir do cérebro, quando este não está saudável, porém torna-se mais quente do que sua natureza, ou mais frio, ou mais úmido, ou mais seco, ou sofre, contra a natureza, outra afecção que lhe é inabitual. Enlouquecemos devido à umidade; pois, quando se está mais úmido do que seu natural, é forçoso que se mova, e, movendo-se, nem permaneça estável a visão, nem a audição. Mas ora ouve-se e vê-se uma coisa, ora outra, e a língua expressa tais coisas como são ouvidas e vistas em cada circunstância. Durante o tempo em que o cérebro ficar estável, o homem estará consciente.
15Littré (18Jones). A corrupção do cérebro é devida ao fleuma e à bile. Conhecerás as duas causas desta maneira: os que enlouquecem devido ao fleuma são pacíficos e não gritam, nem bramem. Mas os que enlouquecem devido à bile costumam berrar, e tornam- se furiosos e inquietos, sempre fazendo algo inoportuno. Se enlouquecem continuamente, essas são suas motivações; mas, se os terrores e medos se lhes afiguram, isso se deve ao
deslocamento 130 do cérebro, que se desloca quando aquecido, e ele se aquece devido à bile, quando se projeta sobre o cérebro através das veias sangüíneas procedentes do corpo. E um medo se mantém até que novamente (a bile) se retire para as veias e do corpo; depois
cessa. O indivíduo se aflige e sente náusea 131 fora de ocasião, enquanto o cérebro se esfria e se contrai além do que lhe é habitual. Tudo isso ocorre devido ao fleuma. Por causa dessa afecção, o indivíduo também perde a memória. Durante as noites, ele grita e berra, quando o cérebro subitamente se esquenta. Os biliosos são passíveis disso, mas os fleumáticos, não. O indivíduo se esquenta quando o sangue abundante chega ao cérebro e ferve; depois, segue abundantemente, através das veias mencionadas, quando então o homem tem um sonho apavorante e mantém-se amedrontado. De sorte que, ao acordar, o rosto põe-se mais ardente e os olhos se envermelhecem, quando ele tem medo, e a inteligência concebe realizar algo ruim, o mesmo lhe ocorrerá no sono. Mas, quando o indivíduo desperta e toma consciência, e o sangue novamente se distribui para as veias mencionadas, isso cessa.
16Littré (19Jones). De acordo com isso, penso que o cérebro (dentre todos os órgãos, é o que) exerce o maior poder no homem. Pois ele, se acaso está são, é nosso intérprete das ocorrências oriundas do ar, e o ar lhe proporciona a consciência. Os olhos, os ouvidos, a língua, as mãos, os pés praticam coisas tais quais o cérebro as percebe; pois a todo o corpo se aplica a consciência na medida em que ele participa do ar. Mas o cérebro é o transmissor da compreensão.
Quando, pois, o homem inspira132, este (isto é, o ar) chega primeiramente ao cérebro, e assim o ar se dispersa pelo resto do corpo, deixando no cérebro sua parte apogística e o que houver de concernente à consciência e possuir de conhecimento. Pois se (o ar) chegasse primeiro ao corpo, e depois ao cérebro, tendo deixado nas carnes e nas veias seu poder de discernimento, iria ao cérebro,
estando quente e maculado; porém, misturado ao humor133 que provém das carnes e do sangue, de sorte a não estar mais totalmente adequado.
17Littré (20Jones). Por isso, afirmo que o cérebro é o interpretador
da inteligência134. Os diafragmas receberam seu nome pelo acaso e
pelo costume135, e não por aquilo que é, nem por causa da natureza. Nem mesmo sei que propriedades têm os diafragmas de sorte a terem consciência e pensarem; a não ser que se refira ao fato de, se, por qualquer razão, o homem inesperadamente se alegrar em demasia ou se aflijir, (os diafragmas), então, saltarem e se agitarem devido a sua parca espessura, e também por estarem mais retesados no corpo e não terem nenhuma cavidade na qual acolheriam o que lhes caísse de bom e de ruim, mas serem perturbados por ambas as coisas devido a sua natureza débil; porque não sentem nada antes das outras partes do corpo, e é sem
fundamento que têm esse nome e (lhes é atribuída) essa função 136, assim como aquelas coisas que, no coração, são chamadas de
aurículas 137em nada contribuem para a audição.
Alguns dizem que temos consciência através do coração, e que
essa é a parte que se aflige e se preocupa 138. Mas não é assim. O coração retrai-se assim como os diafragmas e seguramente devido às mesmas causas; pois estendem-se a ele as veias provenientes de todo o corpo, encerrando-as de modo a sentir se algum esforço ou alguma tensão ocorre no homem. De fato, é forçoso que o corpo afligido estremeça e se tencione, e o mesmo ocorra quando muito agradado, porque o coração e os diafragmas sentem-no mais. Certamente, nenhum dos dois participa da consciência, mas é o
cérebro que é a causa de todas essas coisas139.
Como (o cérebro) é o primeiro dentre aquilo que há no corpo a sentir a consciência proveniente do ar, assim também, se alguma mudança mais forte ocorrer no ar devida às estações, e se o próprio ar tornar-se diferente dele mesmo, o cérebro é o primeiro a senti- lo. Por isso afirmo que recaem sobre ele (isto é, sobre o cérebro) as mais agudas enfermidades, maiores, mais mortais e mais difíceis de serem reconhecidas pelos mais inexperientes.
18Littré (21Jones). Essa doença dita sagrada provém das mesmas motivações que as demais, ou seja, provém de coisas que se aproximam e que se afastam, como o frio, o sol e os ventos que estão em mutação e nunca se estabilizam. Mas isso é divino; de sorte que em nada se distinga essa enfermidade como mais divina do que as outras enfermidades, mas elas todas são divinas e todas elas são humanas. E cada (doença) tem sua natureza e sua propriedade em si mesma, e nenhuma delas é incurável nem
intratável 140. A maioria é curável através dos mesmos fatores dos quais surge, pois uma coisa é alimento para outra, e também dano
para uma terceira. O médico, portanto, deve estar seguro141 sobre isso, a fim de que, reconhecendo o momento oportuno de cada coisa, distribua a uma o alimento e a aumente, e elimine o alimento da outra e a prejudique.
É preciso, então, tanto nesta doença, como em todas as outras, não aumentar as enfermidades, mas apressar-se para exterminá-las, ministrando o que for mais hostil a cada doença, e nunca o que lhe for propício e habitual. Pois o mal prospera e aumenta devido àquilo que lhe é habitual, mas consome-se e se esvanece devido ao que lhe é hostil.
Quem tem certeza sobre tal mudança nos homens e pode tornar o homem úmido e seco, quente e frio, pela dieta, este poderia curar essa doença, caso distinguisse as oportunidades oferecidas pelos meios propícios, sem purificações, sem artifícios mágicos e sem qualquer outra charlatanice deste tipo.
Περι ιερησ νoγσoγ
69. Em alguns tratados hipocráticos, nota-se uma distinção entre
e νóσηµα. O primeiro vocábulo, nos tratados que os
diferenciam, pertence a uma esfera notoriamente mais abstrata do que νóσηµα. O autor do tratado Da natureza do homem, por exemplo, todas as vezes que se refere a uma doença ou a um conjunto de doenças determinado, faz uso do termo νóσηµα, enquanto prefere para expressar a idéia de doença (v. CAIRUS,1994,pp.76-82). No MS, entretanto -malgrado o uso de νóσηµα no plural seja bem mais freqüente do que no singular (ao contrário de ) –, se há essa distinção, ela não se mostra tão
claramente como em outros tratados, mas, ainda assim, marquei, na tradução, a opção lexical do autor, traduzindo por 'doença', e
voaria por enfermidade . Pode-se notar, ainda, uma distinção entre esses dois termos e um terceiro – νóσευηµα que ocorre no Ares, águas e lugares (AAL). Por νóσευηµα, entende-se 'caso específico de enfermidade'.
70. Por encantamento traduziu-se o termo . A prática encantatória é registrada em Homero (Od.XIX, 455) e já desempenhava funções terapêuticas; Heródoto, contudo, explica que os persas entoavam cânticos teogônicos em seus rituais sacrificatórios, e que esses cânticos eram 'επαoιδαí (Her.1,133).
71. A teoria dos quatro graus de febre não é unânime no CH, onde à febre se impõem vários recortes. Por isso, esta passagem aproxima o MS do tratado NH, no qual é exposta e explicada essa tese (15Littré). Segundo o NH, as febres, conforme a influência dos dois tipos de bile, se dividem em cotidianas, contínuas, terçãs e quartãs.
72. µαινoµ νoυς. Essa é única ocorrência no tratado de uma palavra cognata de µανíη (loucura).
73. λóγouς 'επιλ ξαντες : dada a amplitude semântica da palavra λóγoς, traduzi-a conforme o contexto, sem manter-lhe, naturalmente, uma correspondência constante, como, de resto, faço com os vocábulos que julgo portadores de uma significação especialmente relevantes às idéias centrais do tratado.
74. 'επικαιρóτατoι. Littré: "incomodam mais". Gual: "mais mortíferos".
75. θανατ δες. lit.: 'semelhante à morte'
76. πρóΦασιες foi excepcionalmente traduzido aqui por "alegação". Normalmente, adotei para esse termo a tradução 'motivação'; contudo, a extensão semântica desse vocábulo grego não encontra equivalente no vernáculo.
77. A referência ao deserto, sítio ocupado pelos líbios, e aos hábitos desse povo indica, pela primeira vez no texto, a proximidade entre este tratado e o AAL.
78. O sintagma ò θεóς parece ser aqui empregado com o mesmo sentido que lhe davam alguns pensadores pré-socráticos, quando se referiam à natureza divina, e não a um deus antropomorfícamente concebido. As alusões pré-socráticas a um deus redundaram em muitas especulações filosóficas e teológicas, especialmente por parte da literatura patrística, que nelas via um pressentimento da verdade monoteísta. O polêmico fragmento B23 DK de Xenófanes, conservado por Clemente de Alexandria que assim pretendia demonstrar que, para aquele filósofo, Deus é uno e incorporal, afirma que "um só é o deus, maior entre deuses e homens". Mas a contradição em termos deste fragmento – assim como as várias outras ocorrências contraditórias do vocábulo θεóς nos pensadores pré-socráticos, sobretudo nos monistas – dá ensejo a uma gama de discussões das quais o estudo do MS deve participar.
79. A palavra δúναµις foi aqui traduzida por 'poder'.
80. γνεíας τε καì καθαρóτητας
81. τε πoυλùς αùτ σι τ λóγoυ ς τò θ oν καì τò δαιµóνιoν. –
Littré, muito apropriadamente, não vê esta oração introduzida nem por τε (quando) – conforme o testemunho documental por ele privilegiado – , nem por τι (que, porque) – como pretende Dietz; mas simplesmente por τε. Tal opção retira da assertiva o suposto caráter causai ou temporal.
82. O termo "não-piedoso" distingue-se de "ímpio" na tradução. O primeiro tenta traduzir a idéia de , o segundo, a de . Pretendo, com isso, apenas tentar preservar a distinção que o próprio autor parece fazer entre esses dois termos.
83. O termo textual, aqui traduzido por subsistência, é βíoς ('vida'). Contudo, considerando a relevância do emprego desse termo, cabe-me registrá-lo.
84. Para a palavra α'ιτíη, que normalmente traduzi por 'causa', encontrei, desta vez, melhor correspondente no vocábulo 'responsabilidade', uma vez que o autor mesmo rompe com a estrutura frasal que vem mantendo ao atribuir as causas aos outros nomes. A palavra α'ιτíη é empregada da mesma forma em 17Littré, onde foi traduzida por 'função', visto tratar-se de um episódio fisiológico, e não de uma divindade.
85. παρανoíη.
86. Essa passagem é muito controversa entre as fontes. Littré expõe as divergências em seu aparato crítico, acrescidas da relevante opinião de M. Lobeck, que prefere ler esse período da seguinte forma: καθαíρoυσι τoùς χoµ νoυς νóσω, ιµασι καì τ σι λλoισι τoιoúτoισι µι σασι χoντας λ στoρας πεΦαργµ νoυς etc. [purificam os tomados pela doença, os malditos pelos sangues e por outros miasmas equivalentes, ou enfeitiçados etc.]. Lobeck privilegia os manuscritos FGIJKZ, enquanto Littré e Jones preferem a solução apresentada pelos códices κ ι θ, apenas substituindo o µι σµατι por µíασµ .
87. O termo miasma em nosso idioma – no qual essa palavra significa 'emanação deletéria' – não tem o mesmo significado que no grego, onde designa a mácula moral hereditária ou física (De flatibus,5). O espectro semântico do termo grego µíασµα apresenta uma considerável confluência com a amplitude do vocábulo 'mácula'. Contudo, o termo 'miasma' (e suas leves variantes de acordo com as línguas modernas européias) passou a integrar o jargão neo-hipocrático com o sentido que atualmente lhe é conferido. Assim, adotei, para o termo µíασµα a tradução 'miasma', e para o verbo µιαíνω, do qual µíασµα deriva, a tradução 'macular'.
Laín Entralgo (1970, p.l91), ao escrever acerca da distinção entre λûµα e µíασµα, lembra que ambas as palavras foram usadas primeiramente para significar sem distinção uma mácula física, religiosa e moral. Assim, no primeiro canto da llíada, a palavra relacionada à peste é λûµα, e, em Édipo rei, o termo empregado é µíασµα. Naturalmente, a opção entre os dois termos merece um estudo individualizado de casos, porquanto o que os distingue é precisamente o fato de λûµα, ao contrário de µíασµα, dizer respeito à mácula delével. Ainda segundo Laín Entralgo, a medicina hipocrática, respaldada na fisiologia pré-socrática, especializará semanticamente os termos por via de um novo critério; do que será conseqüencia que λûµα venha a significar a fluxão deletéria interna, e µíασµα, a emanação maléfica de ar, que passa ao sangue e altera a Φúσις do homem. De fato, é com o sentido que nos aponta Laín Entralgo que se vai encontrar λûµα em Das glandes (12Littré), enquanto µíασµα realmente figura com o significado de 'emanação mórbida' em Dos ventos. Contudo, vale lembrar que a datação do tratado Das glandes não consiste em consenso entre os helenistas; portanto, não se exclui a possibilidade de uma concorrência semântica entre os dois termos em um determinado momento da Escola hipocrática.
88. πεΦαραγµ νυς, portanto, lit. 'enfeitiçados por uma poção'. Jones: πεΦαρµακευµ νoυς.
89. O tratado Da dieta, que Joly (1967, p. xx) data de c.400a.C., insiste três vezes (11, 87 e 93Littré) na necessidade de se dirigir preces aos deuses paralelamente ao tratamento dietético. Embora o verbo usado no Da dieta seja εũχoµαι,e não 'ικετεúω, como no MS – onde esse verbo ladeia εũχoµαι –, nota-se o quanto divergem os dois textos.
90. O verbo 'purificar' afigurou-se-me uma solução para refletir a distinção que o autor faz entre καθαιρ ω (purgar) e γνεúω (purificar). A opção de tradução se deve, sobretudo, ao fato de o verbo γνεúω ser cognato de γνóς. Cabe, contudo, lembrar que não se deve deixar de levar em consideração o sentido ritualístico do termo καθαρµóς.
91. A tradução de γ νoς por 'estirpe' não oferece senão uma sombra da idéia que o vocábulo grego representa. Pesa sobre a palavra γ νoς um espectro semântico que o vincula amplamente à idéia de origem. Entende-se, pois, que o raciocínio desenvolvido sobre a idéia que esse termo sintetiza seja acerca da hereditariedade dos fenômenos fisiológicos.
92. A tese consta, como premissa, em AAL, 14Littré:
Εì o ν γíνoνται κ τ ν Φαλακρ ν Φαλακρoì καì κ τ ν γλαυκ ν γλαυκoì καì διεστραµ νων στρεβλoì, ς πì τò καì περì λλης ò αùτòς λóγoς, τí κωλúει καì κ µαρoκεΦ λoυ µακρoκ Φαλoν γíνεσθαι; [se os calvos nascem dos calvos; os cegos, dos cegos, e os estrábicos, daqueles que têm (os olhos) torcidos, como ocorre geralmente, e se o mesmo raciocínio (λóγoς) se aplica às outras compleições, o que impede que nasça um macrocéfalo de um macrocéfalo?]
93. Observe-se que a palavra Φθιν δµς, que traduzi por 'tísico', significa mais precisamente 'aquele que padece de consumpção'. A tradução, de motivação etimológica, baseia-se no uso vernacular mais antigo da palavra 'tísico', no qual esta convergia semanticamente para o termo 'héctica'.
94. A palavra λóγoς significa uma espécie de semente condutora de genotipias. Essa semente provinha tanto do homem quanto da mulher, conforme assevera o Da geração (8Littré): γυναικòς καì τ
νδρóς. A tradução por 'sêmem' é tão comum quanto inadequada.
95. Essa doutrina é exposta exatamente da mesma maneira em AAL, XIV.
96. Tertuliano (De anima, 15,5) parece concluir dessa assertiva que a alma "in cerebro cubat secundum Hippocratem" [está contida no cérebro, segundo Hipócrates]. Naturalmente, não há elemento textuais que sustentem essa conclusão, inclusive porque não ocorre no tratado a palavra ; contudo, é interessante notar como era
feita a leitura do MS no século III d.C, ainda mais se levarmos em consideração que o livro de Tertuliano baseou-se no médico efésio Sorano (cf. QUASTEN, 1984, p.587), que escreveu, entre 210 e 213 AD, uma obra em quatro livros acerca da alma (Περì ). Nesse
escrito, Sorano, seguindo os estóicos que se esforçavam para ver-se de acordo com Hipócrates, e professa a sua fé em que a alma é exclusivamente corporal.
97. O termo λλoισι (outros) coloca o homem entre os animais. Este mesmo raciocínio é desenvolvido em AAL (19Littré), quando o autor demonstra a influência do meio sobre o corpo do homem, através da observação dos animais selvagens. Mesmo no capítulo anterior, o autor sentencia ao descrever a região dos citas: où γ ρ χoυσι [o'ι β
ς] κ ρατα 'υπò τoû ψúχεoς [os bois não tinham chifres por causa do
frio]. A explicação é a mesma encontrada em Heródoto (VI,29): Δoκ ει δ µoι καì τò γ νς τ ν βo ν τò κóλoν δι τ τα où Φúειν κ ρεα αùτóθι (....) òρθ ς ε'ιρηµ νoν, 'εν τ σι θερµ σι ταχù παραγíνεσθαι τ κ ρεα 'εν δ τ σι ìσχυρ σι ψúχεσι où Φúει κ ρεα τ Φúoντα Φúει µóγις. [parece-me ser por isso (i.e., por causa do frio da Cítia) que a raça mocha de bois não cria chifres (....) isso (i.e., o verso de Homero sobre os chifres dos carneiros líbios, Odisséia, IV, 85) está corretamente dito, que, nos (lugares) quentes, os chifres crescem rápido; nos (lugares) muito frios, ou os animais não criam chifres, ou os criam com dificuldade]. Todavia, esse comentário de Heródoto, conquanto consonante ao raciocínio do tratado hipocrático, ao de Aristóteles (História dos animais, VIII, 28, 606a) e ao do tardio Estrabão (VII, 3, 18), não se estende à natureza humana, e, portanto, não consiste em uma reflexão de cunho médico. Nota-se ainda que Heródoto não inclui o homem entre os animais.
98. Esta tese parece ser contrária à defendida no Da natureza do homem, cujo décimo primeiro capítulo (Littré) é uma pormenorizada descrição do percurso que quatro pares de veias fazem a partir da cabeça. Contudo, pode ser essa aparente discordância fruto da indistinção, por parte desses dois tratados, entre veia e artéria, que só serão distinguidas no tratado Das articulações (45Litttré), que Jouanna (1992, p.540) data do final do século V ou do começo do século IV a.C. De qualquer forma, o percurso do sangue num e noutro tratado é muito diferente. Precisamente o décimo primeiro capítulo (Littré) do tratado Da natureza do homem é transcrito por Aristóteles em sua História dos animais (III, 512b12-513a7), onde a obra hipocrática é atribuída a Pólibo, discípulo e genro de Hipócrates.
99. A palavra significa ordinariamente nos tratados hipocráticos
a membrana que separa o coração dos pulmões. Observando-se o emprego do plural (só há uma única ocorrência do singular dessa palavra em todo o CH: Pren., 34, 571) e o percurso descrito, pode-se concluir que se trata dessa membrana, e não do músculo que normalmente designamos por 'diafragma'. O uso da palavra 'diafragma' com o sentido que lhe confere o MS é comum no jargão médico moderno. Convém comentar também que a definição e o registro mais antigo do termo δι Φραγµα ('divisão') que nos foram legados é da lavra de Platão (Timeu, 70a e 84d), para quem o vocábulo designava um atributo do , que, por sua vez, é explicado como "uma espécie de alma mortal": τò θνητòν γ
νoς. Contudo, o tratado Dos ventos (10Littré), sem usar o termo δι Φραγµα, insinua-o na expressão Φραγµòς ò τ ν Φρεν ν.
Os tratados Epidemias V e Epidemias VII apresentam, cada um, uma ocorrência do termo δι Φραγµα (respectivamente, em 95 e 121 Littré). Essas duas ocorrências apresentam o termo grego com o sentido atual da palavra 'diafragma'; todavia, as partes de ambos os tratados em que o termo figura são situadas por Jouanna (1992, p. 532) num lapso entre 358-7a.C., posto que em todos os dois há uma referência ao sitiamento de Datos por Filipe da Macedônia, a propósito de um ferido por catapulta.
100. κoιλóτατoς – superlativo do adjetivo que designa a veia cava; pela inadequação vernacular da expressão 'mais cava', adotei a tradução 'mais calibrosa' (que figura no jargão médico da língua portuguesa), com algum prejuízo da esmerada precisão vocabular peculiar deste tratado. Todavia, vale lembrar que, com o adjetivo κ ληo, o autor refere-se ao calibre do vaso sangüíneo, como fica claro nos inícios dos capítulos 9 e 10Littré deste tratado. O termo 'veia cava' adquiriu seu sentido atual por meio da tradução latina da obra de Galeno, onde κoíλη Φλ ψ; já apresentava o significado requerido pela anatomia nossa contemporânea. Durling (1993, p. 206) refere-se a 16 ocorrências dessa expressão na obra de Galeno, sempre com o sentido do que é atualmente designado por veia cava', e acusa a existência de outras várias ocorrências com o mesmo significado. Onde o vernáculo permitiu, mantive a tradução 'cavo' para este adjetivo, posto que, malgrado a lanhura ao jargão médico em vigor, o vocábulo se preserva no seio de nossa língua, e seu significado seja adequado à idéia do autor.
101. Embora Littré, Gual e Mandhilaras traduzam πν µα por 'ar', preferi traduzir o termo por 'fôlego', para diferenciá-lo de (át. ). Jones parece-me melhor sucedido em sua escolha pelo termo inglês 'vents' que nào encontra correspondente exato em nosso idioma, mas que se enquadra com precisão no aspecto semântico que o termo vai adquirir em 13Littré, onde, de fato, o autor faz uso da palavra πν µα para expressar também a idéia de 'vento'.
102. O termo , aqui traduzido por 'impotente', conforme o sentido apreendido através do aforismo VII,40(LITTRÉ, IV,588; JONES, IV, 202): γλ σσα ξαíΦνης γ νηται, πóπληκτó τι τ σ µατoς µελαγχoλικòν τò τoι o γíνεται [se subitamente a língua se torna impotente ( ) ou uma parte do corpo fica paralisada (
πoπληκτóν), eis um sinal de atrabílis]. A relação entre a impotência das partes do corpo e da paralisia com a bile negra está presente em Das doenças 1 (2Littré) e Das Doenças 1 (2Littré). Jouanna (1983, p. 220) disserta sobre a diferença entre πoπληκτóν ε ,
e conclui que, mesmo tendo esses termos um significado próximo e se aplicando à idéia de impotência, é preciso reconhecer que o primeiro vocábulo designa uma paralisia súbita. Em uma nota à sua edição e tradução do tratado Ares, águas e lugares (5Litttré), Jouanna (p.214, n.2) defende a tradução de por 'impotente',
alegando que a tradução usual 'sem força' tem uma intensidade menor do que o original.
103. O capítulo 14Littré do tratado Dos ventos é dedicado às causas da 'doença dita sagrada'. Porém, as causas apresentadas pelo tratado Dos ventos diferem consideravelmente das causas alegadas pelo MS. Para o autor do Dos ventos, a causa da 'doença sagrada' é a obstrução, provocada pelo ar, da passagem do sangue; enquanto o MS considera que a 'doença sagrada' provém do bloqueio que o fleuma impõe à circulação do ar. Malgrado as divergências entre os dois textos, é notável como esta passagem atribui ao ar as mesmas propriedades que o referido capítulo do tratado Dos ventos.
[Quando então o ar abundante chega às veias espessas e que
contêm muito sangue, exerce uma pressão e continua
exercendo essa pressão, e o sangue fica impedido de passar
(...) Tornando-se irregular o andamento do sangue pelo corpo,
ocorrem irregularidades de todo o tipo: o corpo todo é tomado
por todos os lados, e as partes do corpo se agitam, submissas
ao bulício e ao rumor do sangue].
104. Gual e Jones privilegiam o ms. θ e omitem καì τ ν λoιπ ν [e o resto]. Esta tradução, desunindo-se excepcionalmente do estabelecimento de Littré, adotou a opção de Jones.
105. Seguindo Littré, Gual e Jones (e também Jouanna, em AAL 10Littré), esta tradução também não reconhece qualquer distinção entre Φλεγµατíης e Φλεγµατ δης. Assim, o termo Φλεγµατíης é aqui traduzido por 'fleumático',como o fora o vocábulo Φλεγµατ δης (2Littré).
106. A teoria da purgação do cérebro é a mesma que se nota no tratado Ares, águas e lugares (10Littré). Da palavra δυσεντερíη,que figura neste trecho do AAL (o termo aparece cinco vezes no tratado), não há nenhuma ocorrência no MS; entretanto, a comparação dos dois tratados revela claramente a convergência de idéias acerca da purgação do cérebro nos fleumáticos. O AAL acrescenta ainda algumas informações sobre o destino dos coléricos, que, segundo o tratado, não sofrem da doença, mas morrem subitamente, quando o inverno é austral, chuvoso e brando, mas a primavera é boreal, seca e invernal (v. infra p. 101).
107. πíληπτα. Essa é a primeira ocorrência, no tratado, de um termo cognato de 'epilepsia'. Tanto neste, quanto em Af. III, 16Littré (aparentemente a ocorrência mais antiga do termo no CH), o adjetivo se refere a um tipo de manifestação mórbida, e não a uma doença. Mas, no referido aforismo, o termo parecia referir-se a um completo quadro sintomático, enquanto este tratado utiliza o vocábulo para aludir à intensidade do ataque. No capítulo seguinte do tratado, notar-se-á uma ocorrência do verbo 'επιλαβ νω, do qual o adjetivo πíληπτoς deriva.
108. A palavra que o autor utiliza para designar 'ventre' é κoιλíη. Também no AAL, há o emprego da palavra κoιλíη (com 22 ocorrências), mas há também a palavra , que ocorre 7 vezes
em todo o tratado. A variação entre os dois temos não é, contudo, livre. Observando-se os tratados Epidemias VII (15Littré), Das doenças I (15Littré), Da natureza do homem(11 Littré), pode-se notar que designava topografícamente o ventre, enquanto
κoιλíη, talvez por sua cognação com o adjetivo κ λoς bastante empregado no MS, indica o ventre do ponto de vista fisiológico, o que naturalmente está muito mais associado seu interior côncavo.
109. Em LITTRÉ, o verbo παρ χω é traduzido por "produire"; em GUAL, por "procurar", e, em JONES, por "to cause". Contudo, não considero que o autor tivesse o objetivo de estabelecer uma relação direta de causa-efeito entre a chegada do ar ao cérebro e a Φρóνησις (pensamento) e a κíνησις (movimento).
110. Esta é a única ocorrência, no CH, da expressão στóµαχoς κoιλíης. No CH, não há um termo específico para designar 'estômago', que ora recebe o nome de , ora de κoιλíη. Alguns
tratados, especialmente aqueles considerados da lavra de Hipócrates e de seus epígonos diretos, parecem manter uma coerência interna na nomenclatura relativa a esse órgão. O termo στóµαχoς é empregado no AAL (9Littré – 3), acompanhado do genitivo κú στις, para expressar o orifício da vesícula. Esse vocábulo é também encontrado em várias outras passagens do CH com o mesmo significado de oríficio de um determinado órgão. Compreende-se, portanto, que o termo é ainda empregado pelo autor do MS com o significado extensivo a partir daquele com o qual é encontrado na Ilíada (III, 292), onde a locução στóµαι ρν ν significa 'gargantas dos cordeiros' que Agamemnon cortou, imolando-os como selo do pacto firmado entre ele e Príamo. Em Galeno (e também em Plutarco), o vocábulo στóµαχoς significa tanto 'boca do estômago', alternando livremente com a expressão στóµα γαστρóς; quanto o próprio 'estômago' (cf. DURLING, 1993, p. 300). Littré, em sua tradução, refere-se à cárdia; contudo, a implicação da consciência do esôfago-referido nominalmente pelo Lexicógrafo francês – parece-me um passo vetado à mera tradução. Todavia, Littré, em Das doenças das mulheres (171), traduz στóµαχoς por 'esôfago', na passagem em que o autor do tratado explica, entre outros sintomas da metrite, a recusa de alimento por parte do ventre. O tratado Dos lugares no homem, datado do VI século a.C., apresenta uma ocorrência do vocábulo oìσóΦαγoς (20Littré). A datação do tratado Dos lugares no homem poderia ainda recuar, não fosse a ponderação de Jouanna de que o uso justamente do termo oìσóΦαγoς não poderia ser muito anterior àquele século, posto que o vocábulo somente voltará a ser empregado, no CH (há uma ocorrência desse vocábulo em Aristóteles, Das partes dos animais, II, 3, 9), no curto tratado Da anatomia, que Jouanna (1992, p.530) data do período helenístico ou da fase romana.
111. . O verbo é traduzido, nesta passagem, como 'congelar' por Littré, Gual e Jones, consoante ao significado do termo em Ésquilo (Or Persas, 495), onde se lê: θεòς (....) δ
π ν γνoû Στρυµóνoς [ um deus (....) congela toda a correnteza do sagrado Estrimão]. Contudo, em que pese o pouco prestígio que a metáfora e a metonímia gozam no CH, penso ser mais apropriada a tradução de Mandhilaras, que prefere traduzir este verbo por ['coagular', mas também 'congelar']; mas não se
pode abstrair a relação entre a idéia de congelamento e o sintoma do calafrio.
112. O tratado AAL (7Littré) faz referência à má influência do noto nas águas: ταûτα ['úδατα] τ σι µ ν νoτíoισι π νυ πoνηρ , τ σι δ βoρε
σιν µεíνω [Essas (águas são), de fato, ruins por causa do noto, e
melhores por causa do bóreas]. Havia, no entanto, no AAL, a umidade como outra variável influente nos malefícios do noto. O autor de AAL (10, 12 e 15Littré), afinado com Af. (III, 11, 12 e 13Littré), lembra que o bóreas seco é tão danoso quanto o noto úmido, e que os dois juntos causam vários males: δ τò θ ρoς αùχµηρòν καì βóρειoν γ νηται, τò δ Φθινóπωρoν πoµβρoν καì ναì νóτιoν, κεΦαλαλγíαι ς τòν χειµ ναι, καì καì βρ-γχoι καì κoρúξαι
'ενíoισι καì Φθíσιες [se o verão é seco e com o bóreas, e o outono é chuvoso e com o noto, então, no inverno, ocorre cefalalgia, rouquidão, coriza e, em alguns, a tísica] (Af. 111,13). Outra variável, presente tanto em AAL, quanto nos aforismos referidos, é a constituição do indivíduo, sendo a umidade corpórea um agravante das mazelas apresentadas em Af. 111,13. Contudo, ainda em AAL (15Littré), numa passagem em que o autor comenta o clima de uma região da Ásia, pode-se notar a relevância do vento austral em sua nosologia, mesmo quando considerado isoladamente de outros fatores.
113. πíσηµα é o termo grego que designa o sinal distintivo. É com essa acepção que o encontramos nos trágicos (por exemplo, em Ésquilo, Sete contra Tebas, 659). No tratado, trata-se de uma seqüela imunizante. A relação entre seqüela e imunidade é um traço empírico do tratado que denota uma admirável postura observadora.
114. As traduções de Littré, Gual e Jones subentendem, nesta passagem, a idéia de 'remédio'. Mesmo que se considere que o termo 'remédio' é semanticamente mais abrangente do que a palavra 'medicamento', a proximidade, em nosso vernáculo, entre esses vocábulos, leva-me a considerar a ênfase no fato de se tratar de um procedimento terapêutico em sua íntegra, e não somente na aplicação de um medicamento.
115. O adjetivo , que nesta passagem adquire valor adverbial,
pode ter tanto o significado quantitativo, quanto o qualitativo. Por essa razão, esse advérbio ad hoc foi traduzido por uma expressão que transparecesse essa ambivalência semântica.
116. A opção por esta tradução denotativa justifica-se principalmente pelo fato de o mesmo verbo Φρíσσω ser empregado logo abaixo (ainda neste capítulo do tratado) com o sentido denotativo de 'tremer de frio'. Assim, diverge esta tradução das de Littré, Jones e Gual. Um outro argumento para tal opção é a similitude entre o tremor provocado pelo frio e o provocado pela convulsão.
Os manuscritos apresentam esta passagem da seguinte forma: σιν
ν τε ùπò , τε 'υπò πυρóς, καì τε
'εξαπíνης 'o 'εγκ Φαλoς. Todavia, Littré suprime a última ocorrência de τε, justificando-se em longa nota com o argumento de que o esfriamento do cérebro é um fato seqüente ao seu aquecimento, e não de um simultâneo. De fato, o aquecimento aglutinador e o frio dissolvente são os fatores que permitirão o fluxo. Littré lembra ainda que a repetição dos termos TE conduz facilmente a esse equívoco. A partir de Littré, os estabelecedores preferiram esta opção, e mesmo Jones, cujo texto diverge consideravelmente do de Littré, segue-lhe aqui, lembrando que Reinhold, naturalmente para fortalecer a tese de Littré, acrescenta ainda a expressão επειτα antes de ξαπíνης (JONES, 1992, p.165, n.2).
117. O verbo πoκρíνω, nesta passagem na qual é empregado em sua forma média, serve-se de seu amplo espectro semântico para implicar nas idéias de 'diluir' e 'desprender'.
118. Littré opta pelo termo εùσθεν oντα, apoiado apenas no manuscrito H. Os demais manuscritos apresentam ora a forma ùσθεν oντα, ora a locução σθεν α ντα, o que resultaria num significado oposto ao da opção de Littré, e, por conseguinte, contrário ao raciocínio do próprio autor. Os estabelecedores seguintes a Littré adotam a sua medida, e a edição de Jones esclarece, em nota, a sua opção.
119. πικαταρρ ει δ καì ξ Φóβoυ γινµ νoυ, .... – Littré acrescenta uma vírgula depois de , o que resulta na seguinte tradução: "O fluxo se derrama por uma causa obscura, por um medo, ....". Contudo, a opção dos demais editores do tratado é a de manter esta passagem sem a vírgula que lhe acrescentou Littré. A objeção de Jones, expressa em nota, à virgula de Littré consiste em argumentar que os exemplos apresentados pelo autor do tratado não são δηλα.
120. Esta é a única ocorrência da palavra πíληψις no tratado.
121. Littré traduz ψûχoς por 'ar livre', e, assim, o opõe a λ η, que vem sendo interpretado como 'abrigo, lugar coberto'.Contudo, cabe assinalar que há dois vocábulos homógrafos ( λ η). Um dos quais é derivado de , e designa ocalor emanado do Sol; o outro provém
de λεúω (proteger). Littré opta pelo segundo, vendo em ψûχoς seu contraposto. Tal opção opõe-se às de Gual e Jones, que preferem traduzir ψûχoς por 'frio', não vendo, assim, qualquer antítese direta entre os dois termos. A favor da opção por 'abrigo' na tradução do termo λ η, têm-se as duas ocorrências do vocábulo em AAL (8 e 19Littré). A primeira dessas é uma oposição irrefutável a αìθρíη ('ar livre'), numa experiência argumentativa na qual uma certa medida de água deveria ficar ao ar livre (αìθρíη) durante o inverno, até que congelasse, e depois ser recolhida a um lugar fechado ( λ η), para que se descongelasse e se lhe notasse a diminuição de volume.
122. O verbo λυµαíνoµαι, que vai traduzido por 'corromper', figura no tratado Da dieta 1,14Littré glosado como 'purificar'. Pierre Chantraine, em seu Dictionnaire étymologique de la langue grecque (assim como em sua revisão do Dictionnaire de Anatole Bailly) registra os dois significados do verbo λυµαíνoµαι, atribuindo-lhe, dessa forma, uma polissemia considerável, mas com muitos paralelos na língua grega. O Lexicon Liddell-Scott-Jones, contudo, apresenta duas entradas para esse verbo, concebendo-o como formas coincidentes de origens diversas. Assim, naquele dicionário, o primeiro λυµαíνoµαι (o que se encontra no tratado Da dieta I, 14) é associado etimologicamente a λûµα ('água usada em uma lavagem', 'sujeira removida por lavagem'), e o segundo, a λúµη ('tratamento cruel', 'ultraje'). Cabe ainda assinalar que o tratado Da dieta, do ponto de vista de suas idéias, figura marginalmente no CH, porquanto apresenta uma concepção muito particular da natureza humana (que, segundo o tratado, deriva de uma mistura de água e fogo), e recorre aos deuses em preces suplicantes. O longo tratado Da dieta, para o qual se adotou a divisão em quatro livros (apesar da preferência de Galeno por seccioná-lo em três partes), é instado por Jouanna (1992, p. 557) como pertencente ao fim do V ou começo do IV século a.C. Se, por um lado, a data o aproxima do MS, por outro prisma, a sua relação com os deuses o distancia consideravelmente desse tratado. Portanto, não deve haver aqui uma preocupação com um certo idioleto que notoriamente se vê partilhado pelos tratados MS e AAL.
123. A palavra empregada nesta passagem com o significado de 'vento' é πν µα. Até aqui, tenho traduzido πν µα por 'fôlego', posto que o termo se referia ao hálito humano.
124. E notável a semelhança entre os termos empregados nessa passagem e naquela que se encontra em AAL (8Littré),especialmente o verbo 'εκκρíνω regendo o termo θoλεóν, e a antítese entre este termo e λαµπρóν (v. infra p. 100).
Não creio ser casualmente que as convergências vocabulares se acentuem quando o tema são os ventos, precisamente um dos temas de AAL. A tese sobre tal assunto também parece ser compartilhada pelos dois tratados. Em AAL, não poderia constar um axioma apologético do bóreas, visto que o tratado acrescenta outras variáveis à ação salutar do ambiente, sem estabelecer – ao contrário de MS – relações aglutinantes entre essas variáveis. Contudo, o AAL refuta as vantagens do bóreas sobre o noto. Em 19Littré, lê-se que o bóreas provém da região situada abaixo da Ursa, onde a neve esfria o vento contínuo; mas é em 5Littré que se nota o quanto o bóreas é desprestigiado no AAL, e que se percebe que o nome βoρ ης já é suficiente para significar um conjunto de características climáticas que não se restringe ã direção e à temperatura. Nessa referida passagem, o autor observa que as cidades voltadas para o bóreas têm habitantes melhores quanto ao caráter e à inteligência ( τε καì ξúνεσιν βελτíoυς).
125. Primeira ocorrência da palavra νεµoς neste tratado. Neste mesmo capítulo haverá mais uma, que será a última. E curioso notar que, em AAL, só há uma única ocorrência do termo νεµoς (8Littré), em oposição às 29 da palavra πν µα, esta última sempre com o significado de 'vento'. No tratado AAL, o termo πν µα (não ostenta o significado de 'fôlego', como acontece ordinariamente em MS.
126. Apesar de o verbo 'sentir' normalmente abnuir sujeito inanimado, preferi, nesta e na frase seguinte, conservar a estrutura igualmente incomum do texto grego, onde o verbo equivalente é α'ισθ νoµαι, cujo significado é 'perceber pelos sentidos', e, portanto, também renuente de sujeitos inanimados. Assim procedendo, afasto-me da tradução de Littré, que prefere traduzir α'ισθ νoµαι por 'éprouver' (para o qual o sujeito inanimado é pertinente em quaisquer condições), e aproximo-me das opções de Gual e Jones, que traduzem o verbo grego, respectivamente, por 'percilur' e 'to feel'.
127. Este é o terceiro étimo no texto ligado à idéia de 'umidade'. A raiz mais usada no texto para expressar esse campo semântico é a de úγρóς mas em 13Littré (início) o termo , que, de resto, designa
o 'ar', é empregado em seu sentido menos usual – não obstante muito antigo, posto que atestado desde Homero (Il., XVII, 649) –, que, nos termos do dicionário de Anatole Bailly, muito se aproxima da idéia de òµíχλη.
128. O verbo περικλúω, aqui traduzido literalmente, refere-se ao fleuma. Vale dizer, entretanto, que essa não é a opinião de Gual e de Jones, que, a julgar pela sintaxe das respectivas traduções, parecem crer que o sujeito desse verbo seja o bóreas. Littré, por sua vez, não se exime de expressar o sujeito ideal 'o humor', que me parece muito adequado, uma vez que precisamente esse verbo com o mesmo objeto ('cérebro') figura na etiologia fisiológica dos ataques, em 11 Littré.
129. Littré e Jones privilegiam, nesta passagem, os ms. q e V, que ostentam o termo ηθíη ('falta de costume'); contudo, Littré, não retira o termo πειρíη ('inexperiência'), que não consta naquelas fontes. Por outro lado, Grensemanne Willamowitz, além de omitirem o termo πειρíη, preferem o substantivo ('esquecimento', mas
que Gual prefere traduzir por 'estranhezas') ao vocábulo . Esta
tradução seguiu, também aqui, o texto estabelecido por Littré, mas não se pode deixar de observar que a opção de Grensemann e de Willamowitz parece aqui estar muito mais afinada com o conjunto do tratado. É esperado que o médico tratadista pense que o esquecimento provém do cérebro, mas o mesmo não se pode dizer acerca da falta de hábito ou da inexperiência.
130. Gual, Littré e Jones preferiram traduzir, nesta passagem, o termo µετ στασις por "mudança", sem que a idéia de movimento fosse necessariamente considerada. Contudo, Vitorio di Benedetto e Mandhilaras (que apenas mantém o termo que, em seu idioma, possui um significado consideravelmente mais específico do que o do grego do tratado), com os quais aqui concordo, propõem que este vocábulo conserve sua postura semântica mais etimológica, traduzindo esta palavra por deslocamento' (respectivamente, spostamento e µετ σταση).
131. Minha tradução da forma verbal σ ται divorcia-se das traduções de Littré, Gual, Mandhilaras e di Benedetto, preferindo a sugestão do dicionário Liddell-Scott-Jones, em cujo respectivo verbete, tem-se por definição de σ oµαι 'fell loadthing or nausea e, como exemplo de emprego desse verbo com esse significado, o referido dicionário cita precisamente a passagem em questão. A favor de minha opção, poder-se-ia argumentar que Galeno emprega nove vezes este verbo, e todas com o claro sentido de 'sentir náusea', cinco dessas ocorrências já constam do CMG (vol.V: Galeni in Hippocratis de natura hominis commentario, 182.28; 312.15 e 23; Galeni in Hippocratis prorrheticum commentario, 339.18; Galeni in Hippocratis epidemiarum librum VI commentario, 80.25; Galeni in Hippocratis epidemiarum librum III commentario, 133.1); em apenas uma das ocorrências o verbo se encontra em sua forma ativa (numa citação de Andromachus Junior – XI, 352.12 – à obra de Galeno).
No CH, há cinco ocorrências do termo ση, que, segundo o Dictionnaire Etymologique de Chantraine, dá origem ao verbo σ ω. Em todas essas ocorrências o significado 'náusea' é claramente notado. Como exemplo e ilustração desses empregos, cito o Af. 5,61, onde o autor se refere à náusea como sintoma de gravidez; para tanto, o termo empregado é ση γυναικì α'ικαθ ρσιες πoρεúωνται Φρíκης, πυρετoû πιγινoµ νoυ, σαι δ πρoσπíπτωσι, λoγíξoυ ταúτην 'εν γαστρì χειν [se, em uma mulher, a menorréia (lit.: as purificações) não ocorre, sem que haja nem calafrios, nem febres, mas se lhe sobrevier náusea, considere que ela traz uma (criança) no ventre].
132. 'oκóταν σπ ση τò πν µα ς 'εωτóν: lit., quando atira sobre si o fôlego.
133. 'Ικµ ς Laín Entralgo (1987, p. 146-7), ao enumerar os diversos termos empregados no CH para designar 'humor', lembra que o vocábulo 'ικµ ς é característico dos tratados de Cnido. De fato, essa palavra figura no tratado Da natureza da criança, e é recorrente em Das doenças IV. Galeno pretere ìκµ ς, preferindo o vocábulo de Cós χυµóς. No AAL há igualmente apenas uma única corrência de ìκµ ς (8Littré), e, tal qual no MS, nenhuma do termo χυµóς. O tratado Da natureza do homem, um texto humoral de Cós por excelência, não emprega o vocábulo ìκµ ς, mas, por outro lado, o termo χυµóς figura apenas uma vez no tratado. É inevitável tentar explicar essas duas ocorrências da palavra ìκµ ς através de sua afinidade com a geofísica do AAL, conquanto esse vocábulo refere-se comumente à umidade, como por exemplo em Heródoto IV, 185, onde se encontra a oração ìκµ δoς στì ν oùδ ν [não há nada de umidade] a descrever o clima da Líbia.
134. Littré (e Mandhilaras) e Jones (e Gual) fazem esta frase constar deste capítulo; Grensemann (e di Benedetto) prefere incluí-la no capítulo anterior.
A tradução de ξúνεσις por 'inteligência' procura nessa palavra o que nela há de mais próximo do significadode 'compreensão', acrescentando a este último a idéia do 'conteúdo compreendido'. É necessário lembrar aqui que Pigeaud (1987, pp. 58 e ss.) traduz esse termo grego por 'connaissance'.
135. O autor se refere ao fato de a palavra Φρ νς [diafragmas] provir do verbo Φρν ω [inteligir, ter consciência]. Há muitas passagens na literatura grega nas quais o é apresentado como a sede do θυµóς (cujo significado muito peculiar à cultura grega conduz os tradutores às mais diversas soluções, como, por exemplo, 'ânimo', 'coração', 'coragem', 'índole', 'alma', ...). Dumotier (1975. pp. 8 e 10) oferece um completo inventário das ocorrências do termo com o
sentido de 'sede dos sentimentos' ou na acepção de 'sentimentos' (quando no plural).
136. A palavra αìτíη é traduzida qui por 'função', visto tratar-se de um episódio fisiológico, e não de uma divindade; contexto no qual é traduzida por 'responsabilidade'.
137. A palavra o ς – aqui em seu plural τα – é empregada no CH tanto para indicar as orelhas, como as aurículas cardíacas. Quando se tratava do segundo sentido, as quatro ocorrências do termo no CH (Do coração, 8Littré bis; Da natureza dos ossos, 19Littré, e esta) indicam-no com alguma referência explícita ao coração. Galeno parece ainda ter sentido necessidade de precisar o termo através de adjuntos, sem, entretanto, propriamente discuti-lo; assim, em CMG V 9,1, 169.25-26, lê-se: τò δεξιòν o ξ καρδíας [a aurícula direita do coração]. Através de Galeno e da tradição neo-hipocrática, herdamos o traço metafórico (aurícula é, de fato, o diminutivo de auris, 'orelha', em latim), que, não obstante, esvaneceu-se imerso no preciosismo latinista e desgastado por seu ingresso no jargão médico. Todavia, nota-se que o termo ainda não havia sido assimilado pelo vocabulário médico, em plena formação à época da composição do MS. Prova-o o fato de o autor haver sentido a necessidade de usar o mesmo expediente do qual se serviu para isentar-se da nomenclatura relativa à doença sagrada: o emprego da forma verbal καλ εται ('é denominado').
138. Empédocles é uma referência comum no CH. O tratado hipocrático Da medicina antiga (20Littré) cita nomeadamente o filósofo de Agrigento, e o tratado Da natureza do homem mostra-se muito influenciado por ele. Galeno (Hippocratis De natura hominis Commentarium, 15,49) reconhece essa influência na teoria dos quatro humores, expressa no tratado Da natureza do homem, e, em função dessa influência, escreveu:
Hipócratres foi o primeiro, pelo que sabemos, a dizer que os elementos são misturados. (...) Nisso difere de Empédocles. De fato, este afirma que fomos engendrados a partir dos mesmos elementos dos quais nos falou Hipócrates, nós assim como tudo o que há sobre a terra; engendrados contudo, não como um mistura total e recíproca, mas por justaposição parcial e por contato.
A idéia de que o coração é a sede da consciência é muito recorrente na poesia e, de modo particular, na tragédia de Ésquilo. Na expressão poética, o coração concorre com o fígado nessa função. Contudo, parece ter sido Empédocles o primeiro a tentar justificar fisiologicamente essa atribuição cardíaca. No fragmento BI3 DK de Empédocles, lê-se: α υα γ ρ νθρ πoις περικ ρδιóν 'εστι νóηµα [pois o sangue que envolve o coração do homem é o pensamento]. Todavia, o CH não é unânime ao negar que o coração seja o cerne do entendimento, pois, no tratado Da doença das virgens (que Jouanna situa no século IV a.C.), fala-se do enlouquecimento das virgens com a chegada do sangue ao coração.
139. Mais uma vez a polêmica se instaura contra uma tese de Empédocles. O Pensador de Agrigento defende que a sensação e o pensamento constiuem uma unidade. Eis o que se lê na Metafísica de Aristóteles (IV, 5, 1009b – fr.31 B106 DK):
[Empédocles afirma que aqueles que mudam seu estado
(físico) mudam também a consciência (Φρóνσις): "pois o poder
de compreensão aumenta diante do lhe é presente" e, noutro
lugar, diz que "tanto (os homens) tornam-se mais diferentes,
quanto engendram pensamentos (παρíστατo Φρoν ν) sobre
coisas diversas"].
140. oùδ ν πoρóν oùδ . Os termos dessa expressão referem-se respectivamente aos limites naturais e humanos da τ χνη, os quais o autor parece, nesse momento, negar.
141. O verbo aqui traduzido por 'estar seguro de' é πíσταµαι. Esse verbo é geralmente traduzido por 'saber'; contudo, sua intensidade alética, que o opõe a γιγν σακω (que preferi traduzir por 'conhecer', consoante à semântica indicada pelo contexto e pela etimologia) e a o δα (traduzido passim por 'saber'), exige uma distinção no texto vernáculo. Em 1 Littré (2 e 4Jones), o verbo πíσταµαι é traduzido por 'saber', mas o contexto supre a propriedade que lhe distingue tanto de γιγν σακω quanto de o δα.