Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença
1 – Hipócrates de Cós
1 – Hipócrates de Cós1
Wilson A. Ribeiro Jr.
Os grandes homens são verdadeiramente imortais:
eles podem estar mais vivos depois de sua morte do que antes.
George Sarton
O homem e a fama
Não há dúvida: viveu realmente, durante a segunda metade do século V a.C., um médico grego chamado Hipócrates. Nascido na ilha de Cós, membro de uma ilustre família de médicos, produziu impressão profunda e duradoura em seus contemporâneos; sua reputação profissional era a melhor possível. As gerações posteriores consagraram-no como o "pai da medicina", mas nem tudo o que a tradição clássica conservou tem fundamento histórico.
A existência de Hipócrates coincidiu aproximadamente com a
Guerra do Peloponeso 2 e com a efervescência cultural de Atenas.
Na época de sua κμ 3, ou pouco antes, circulavam entre médicos, discípulos e interessados alguns textos de medicina (Xenofonte, Memorabilia, 4,2,9-10) que, hoje, sabemos serem de autoria desconhecida mas, ainda na Antigüidade, foram atribuídos a Hipócrates. Esses textos podem ter formado o que hoje chamamos de "o núcleo mais antigo" da coleção hipocrática. Se alguns deles eram, efetivamente, os textos escritos em dialeto jônico que
conhecemos 4, abordavam a saúde, a doença, a prática da medicina de forma inovadora.
Por volta de 500 a.C., os médicos gregos já haviam começado a dissociar a medicina das práticas mágico-religiosas dos séculos anteriores (Edelstein, 1937; Sarton, 1953; Irwin, 1989). Na época de Hipócrates, sem abandonar o conhecimento empírico herdado de seus antecessores (Sarton, 1953), trouxeram progressivamente à medicina especulações teóricas e procedimentos baseados na observação rigorosa do doente e da doença, na busca incessante de explicações racionais para a doença e de instrumentos eficazes para o tratamento do doente. Grande parte da técnica especulativa e argumentativa por eles empregada, refletida na literatura médica que chegou até nós, fora aprendida dos filósofos pré-socráticos; em contrapartida, muitos filósofos incorporaram conceitos de fisiologia e medicina aos seus sistemas filosóficos, como por exemplo o pitagórico Filolau de Crotona, contemporâneo de Sócrates (Schofield, 1983; Longrigg, 1993). No final do século V a.C., porém, os médicos se empenhavam energicamente em desvincular a medicina da filosofia e em reconhecê-la como uma Τ χνη|, uma "arte", autônoma (CH, Da arte, Irwin, 1989).
E possível que um desses médicos pioneiros tenha sido Hipócrates de Cós. Suas opiniões eram, certamente, inovadoras, e se sua competência se resumiu apenas à divulgação ou transmissão desses conceitos, não se sabe. Ignoramos também se ele chegou a
escrever realmente alguma coisa 5. Mas era tão grande sua fama e tão alta sua reputação que muitos textos médicos, revolucionários ou não, acabaram sendo-lhe atribuídos. Assim se formou, provavelmente, o núcleo inicial do Corpus hippocraticum (CH), a famosa coleção hipocrática.
Com o passar dos séculos, a fama de Hipócrates tornou-se cada vez maior. Surgiram numerosas lendas a seu respeito e muitos textos médicos, escritos com certeza muito depois de sua morte, continuaram sendo-lhe sistematicamente atribuídos. Báquio de Tânagra conhecia, no século III a.C., cerca de vinte e três livros (Jones, 1923); mais tarde, no século X d.C, a coleção já continha quase sessenta tratados, distribuídos em mais de setenta livros.
As muitas vidas de Hipócrates O que se sabe, efetivamente, a respeito de Hipócrates? As informações confiáveis estão de tal forma mescladas a lendas, relatos inverossímeis e falsificações evidentes, que se tornou praticamente impossível, em nossos dias, conhecer com precisão os dados factuais que constituiriam sua biografia.
Era costume, na Antigüidade, reunir todas as informações disponíveis sobre determinados personagens em pequenas biografias ou Vitae – "vidas" (Momigliano, 1993). Esses pequenos textos eram registrados pelos copistas em papiros e pergaminhos e, depois de alguns séculos e de muitas repetições, adquiriam estatuto de verdade. Assim ocorreu, por exemplo, com os poetas trágicos Esquilo, Sófocles e Eurípides (Lefkowitz, 1981) e com o filósofo Pitágoras. Hipócrates mereceu, além das habituais lendas e anedotas, cartas que não recebeu, cartas que não escreveu, discursos que não proferiu e honras que na realidade não lhe foram concedidas. Além desse material sabidamente fictício, chegaram até nós os seguintes documentos sobre a vida de Hipócrates: uma nota biográfica nas Chiliades de Ioannes Tzetzes; um verbete da Suda; uma biografia anônima, encontrada em um manuscrito de Bruxelas, o Cod. Bruxell. 1342; e uma Vita atribuída a "Soranus" (Littré, 1839; Benedetto, 1983). Todas essas biografias são tardias, escritas muito tempo após a morte de Hipócrates (Edelstein, 1939). O texto de Tzetzes baseou-se possivelmente nas Vidas dos Médicos, do médico Sorano de Éfeso; mas a Vita nada tem a ver com esse Sorano de Efeso (Littré, 1839), sendo atribuída a um Pseudo-Sorano.
O verbete da Suda, apresentado a seguir, baseou-se quase inteiramente na mais difundida das "Vidas" de Hipócrates que chegaram até nós, a do Pseudo-Sorano. Suas informações ilustram muito bem a amplitude das lendas acerca de Hipócrates, quase quinze séculos depois de sua existência.
A Suda: Hipócrates de Cós
(séc.X d.C)
Hipócrates de Cós, médico, filho de Heraclides. Que ele seja
mencionado também antes do avô, o pai de Heraclides (se ele
era seu homônimo), pois se tomou astro e luz daquela medicina
mais útil à vida. Descendente de um tal Criso e de seu filho
Elafo, médicos eles também, tornou-se primeiramente discípulo
de seu pai; depois disso, de Heródico de Selúmbria e de
Górgias de Leontino, retor e filósofo. Segundo alguns, foi
discípulo de Demócrito de Abdera que, já velho, deu atenção ao
jovem; e, segundo alguns, de Pródico. Esteve algum tempo na
Macedônia e se tornou muito amigo do Rei Pérdicas. Teve dois
filhos, Téssalo e Drácon; morreu depois de cento e quatro anos
de vida e seu funeral foi realizado em Larissa, na Tessália.
Conforme as descrições, ele fazia as perguntas cobrindo e
descobrindo a cabeça com o manto, ou porque esse era um
hábito seu, ou devido ao gosto por viagens, ou por ser
conveniente para a prática profissional. Ele escreveu muitas
coisas e se tornou proeminente em razão de todas elas. Por
esse motivo o rei dos persas, o que era chamado de
Artaxerxes, tendo necessidade da sabedoria do homem,
escreveu para Histanes: "O rei dos reis, o grande Artaxerxes,
saúda Histanes, Governador do Helesponto 6. Rumores sobre a
arte do médico Hipócrates de Cós, da família de Asclépio,
chegaram a mim. Dá-lhe ouro, portanto, o quanto ele quiser; se
isso, mesmo abundante, for insuficiente, envia-o a nós. Ele será
tão honrado quanto os mais nobres dos persas; e se há na
Europa outro homem excelente, coloca-o como amigo da casa
do rei, não lhe poupando agrados, pois encontrar homens
capazes de dar bons conselhos não é fácil. Adeus. 7" Os livros
escritos por Hipócrates são notáveis e contemplam todo o
conhecimento médico. Desse modo eles são acolhidos
afetuosamente, como as palavras saídas da boca de um deus e
não da de um ser humano. Lembraremos somente os mais
importantes dentre eles: o primeiro é o livro do juramento
adotado; o segundo, o que apresenta os prognósticos; o
terceiro, o dos aforismos, que ultrapassa o entendimento
humano. Em quarto lugar, coloque-se o célebre e extraordinário
Livro Sessenta, que contém todo o conhecimento e sabedoria
da medicina.
Dentre as informações referentes à família de Hipócrates poucas são as confiáveis como informação biográfica. O nome do pai era habitual na identificação do homem grego, assim como o nome da cidade de origem. Não é impossível, portanto, que o pai de Hipócrates tenha realmente se chamado Heraclides. E, como era muito comum dar ao filho o nome do avô (cf. Duarte, 2000a, p. 246 n.15), é plausível que Hipócrates tivesse recebido o mesmo nome do avô.
Quanto aos filhos de Hipócrates, não há certeza de que tenham realmente existido. O nome do primeiro, Téssalo, "o tessaliano", pode ser uma alusão à permanência de Hipócrates na Tessália ou à origem mítica da família; o nome do segundo, Drácon, "grande serpente", faz uma alusão à serpente, símbolo da medicina por excelência, e às contribuições de Hipócrates para a medicina. Outros verbetes da Suda fazem referência a outros Hipócrates, filhos de Téssalo, de Drácon e de outros médicos de Cós. Jouanna, jocosamente, alude a tais referências como um verdadeiro caso de "hipocratomania" (Jouanna, 1992). Enfim, como esses dados da Suda não são confirmados por outras fontes, a questão da existência histórica desses filhos e descendentes de Hipócrates permanece indefinida.
"Criso", um dos nomes dos pretensos ancestrais de Hipócrates, é mencionado em uma série de cartas que, segundo a tradição, foram trocadas entre o rei da Pérsia, Artaxerxes, Hipócrates e alguns intermediários. Essa correspondência, normalmente colocada no final de alguns manuscritos da coleção hipocrática "não merece confiança alguma, é apócrifa e obra de falsificadores" (Littré, 1839). As cartas ilustram o quanto a vida de Hipócrates se tornou lendária, pouco tempo depois de sua morte. E, embora desprovidas de valor biográfico, possuem valor literário e constituem o primeiro romance epistolar da história da literatura ocidental (Ayache, 1992).
A carta que menciona os ancestrais de Hipócrates é a segunda, e sustenta que ele era dotado de natureza divina, pois era o décimo-oitavo da linhagem de Asclépio, por parte de pai; e mais: descendente de Héracles por parte de mãe. O reverente autor da carta, que trata Hipócrates de "salvador", "aquele que acalma a dor", "o que domina o conhecimento digno de um deus", baseou-se possivelmente em Tzetzes, que cita todos os membros da genealogia desde Podalírio, um dos filhos de Asclépio (Littré, 1839). A descendência a partir de Héracles é explicada, ao que parece, pelo significado do nome Heraclides, "descendente de Héracles"; mas a menção a Asclépio, por outro lado, é muito mais significativa.
Asclépio foi o herói-deus da medicina mais cultuado de toda a Grécia (Kerényi, 1948; Farnell, 1920). Desde o século VI a.C. foram erguidos numerosos santuários e templos em sua honra, para onde acorriam numerosos fiéis, em busca de cura para as suas doenças
8 . Em Trica, cidade que a tradição aponta como local de seu nascimento (Estrabão, XIV, I, 36), possivelmente estava localizado o mais antigo desses santuários (Kerényi, 1948). Para Homero, Asclépio era apenas um βασιλεúς, um rei, dotado de conhecimentos médicos que viveu na Tessália; e seus dois filhos, Podalírio e Macáon, guerreiros e também médicos, lutaram na guerra de Tróia ao lado de Odisseu, Aquiles, Agamêmnon, Ájax, Diomedes e outros heróis (Ilíada, II, 729-733). Por volta de 500 a.C., data aproximada
da construção do grande 9 Asklepieion de Epidauro, Asclépio já figura completamente divinizado (Burkert, 1993). Não há espaço, aqui, para uma discussão pormenorizada desses mitos; a hipótese mais mais provável é que Asclépio represente uma antiga divindade ctônica da Tessália a quem eram atribuídos poderes de cura, e que foi progressivamente humanizada e incorporada ao panteão grego (Farnell, 1920). A serpente, animal associado diretamente às
divindades ctônicas, acabou por se tornar o símbolo da medicina10 (Kérenyi, 1948; Méndez, 1996).
O caráter divino de Asclépio se estendeu, aparentemente, aos seus descendentes diretos. Pausànias informa que "na Gerênia há uma tumba para Macáon, filho de Asclépio, e um santuário sagrado; e no santuário de Macáon os homens podem encontrar a cura de suas doenças" (Descrição da Grécia III, 26, 9). Muito antes disso, no século VI a.C., o poeta Teógnis já associava aos descendentes de Asclépio, os asclepíades, a capacidade de cura (w. 432-434). Sabe-se, a partir do corpus de inscrições do santuário de Apoio em Delfos (6687, 8131 e 2475), que na primeira metade do século IV a.C. existia em Cós e Cnidos, no litoral da Ásia Menor, uma comunidade de "descendentes de Asclépio" (Vitrac, 1989). O fato de serem mencionadas em conjunto sugere uma origem comum, mas bem cedo os asclepíades de Cós e de Cnidos adotariam diferentes posturas no que tange à arte médica (Jouanna, 1974) e constituiriam o que os eruditos denominam atualmente, por simplificação, "escolas" de medicina. Havia, sem dúvida, médicos em diversos outros lugares da Grécia; os de Cós e Cnidos, porém, são os mais importantes para o estudo dos tratados hipocráticos e para a história da Medicina.
Os asclepíades constituíam um γ νoς, uma "família" de médicos que alegava descender do próprio Asclépio e de seus filhos (Longrigg, 1998). O termo γ νoς, usado para designar uma "ascendência comum, família", deve ser aqui considerado em sua acepção mais ampla. Platão afirma que Hipócrates era um "asclepíade" de Cós (Protágoras, 311b); o médico Erixímaco, um dos interlocutores do banquete de Platão, filho de outro médico (Fedro, 268a), não tinha laços de parentesco com Hipócrates e declarava ser Asclépio seu ancestral (Banquete, 186e). Seu pai era Acúmeno, famoso médico da época, e ambos eram atenienses (Fedro, 227b). Pólibo, provável autor do tratado hipocrático Da natureza do homem (cf.Aristóteles, História dos animais, III, 512b, 12), discípulo e genro de Hipócrates, segundo a tradição, era um asclepíade sem parentesco direto com ele.
Eram "asclepíades", portanto, não só os membros consangüíneos da família, mas também aqueles que se ligavam a ela pelo casamento ou ainda através da relação mestre- discípulo (CH, Juramento; Rihll, 1999, p.121). Talvez seja acertado referir os asclepíades não como γ νoς, mas sim como κoινóν, "comunidade", termo esse empregado pelo autor das inscrições délfícas citadas há pouco. Os antigos médicos gregos não eram, naturalmente, todos aparentados; mas a medicina, embora não praticada de forma idêntica, sem dúvida os unia, estabelecendo um elo comum, miticamente atribuído a Asclépio. O título "asclepíade" invocava, em certa medida, uma espécie de sanção divina similar à que os antigos aristocratas e reis buscavam ao alegar uma ascendência divina. Uma expressão similar, "homéridas" (cf. Platão, Ion, 530d), designava uma associação de poetas-cantores da ilha de Quios, conhecida pelo menos desde 650-600 a.C. Eles alegavam descender do poeta Homero e conservavam a tradição da épica oral (Pòrtulas, 1998). Com o tempo, o termo "asclepíade" adquiriu a conotação de "praticante da medicina" (Longrigg, 1998).
Hipócrates deve ter adquirido os conhecimentos básicos de medicina com o pai, conforme o costume grego (cf. Platão, Leis, 720b). Não é verossímil a crença que se difundiu de que ele aprendeu ou aperfeiçoou sua arte consultando as iamata, relatos das curas obtidas no templo de Asclépio em Cós (cf. Plínio, História Natural, 29,2; Estrabão, Geografia 14,2, 19), pois o asklepieion de Cós começou a ser construído na metade do século IV a.C., muitos anos após sua morte. Será verossímil, então, que ele tenha sido discípulo de Heródico de Selúmbria, Górgias de Leontino, Demócrito de Abdera e Pródico? Os atenienses esclarecidos assistiam, sempre que podiam, a conferências, preleções e leituras de figuras ilustres que visitavam a cidade (há numerosos testemunhos em Platão); em outras cidades, certamente, o mesmo devia ocorrer. É razoável imaginar que Hipócrates tenha assistido a conferências, preleções, e até participado de simpósios, como os descritos por Platão em alguns de seus Diálogos. Ele pode mesmo ter conhecido as figuras acima referidas; mas acreditar que se tenha tornado discípulo de todos eles – ou mesmo de alguns – é bem mais difícil. Algumas sucessões de mestres e discípulos eram cronologicamente viáveis, como a dos filósofos Sócrates, Platão, Aristóteles e Teofrasto; mas a que o autor do verbete da Suda associou ao nome de Hipócrates, não. Se a data atribuída ao nascimento de Hipócrates está mais ou menos correta (c. 460 a.C.), ele teria praticamente a mesma idade que seus "mestres" Heródico, Górgias, Demócrito e Pródico.
Segundo o verbete da Suda, Hipócrates morreu com 104 anos. O que provavelmente constitui um exagero do autor: outras fontes falam de 85 ou 90 anos (Littré, 1835). Mesmo se levarmos em consideração a idade mais baixa, 85 anos, Hipócrates teria vivido mais tempo do que a maioria de seus contemporâneos. Pode-se argumentar que o poeta Píndaro viveu cerca de 80 anos e Górgias de Leontino, 108 anos, mas suas datas de nascimento e morte são um tanto controversas. Vejamos, por outro lado, o tempo de vida de alguns gregos citados neste capítulo cujas datas de nascimento e morte não são tão controvertidas: Sócrates viveu 70 anos; Platão, 81; Aristóteles, 62; Aristófanes, 61; Eurípides, 79. A média é de, mais ou menos, 70 anos, o que situaria a morte de Hipócrates na primeira ou segunda década do século IV a.C. Ultrapassar os 50 anos de idade não era muito comum naquela época. Escavações arqueológicas em Metaponto, rica cidade grega do extremo sul da Península Itálica, descobriram ossadas de 272 pessoas que ali viveram entre 600 e 250 a.C. O estudo dos esqueletos revelou que a expectativa média de vida dos adultos era de 42 anos para os homens e de 39 para as mulheres; o esqueleto mais antigo tinha pouco mais de 50 anos (Brown, 1998). Assim, acredita-se que Hipócrates no momento de sua morte tivesse entre 60 e 70 anos no máximo.
Quanto ao fato de Hipócrates ter escrito diversos tratados médicos, não é improvável que o tenha feito; mas, conforme já foi dito, nenhum texto da coleção hipocrática pôde até hoje ser-lhe atribuído, com algum grau de certeza (Lloyd, 1991; López Férez, 1998; Longrigg, 1998).
Os testemunhos contemporâneos
As mais antigas evidências sobre Hipócrates sem qualquer relação direta com a coleção hipocrática e as "vidas" podem ser encontradas em As Tesmoforiantes de Aristófanes; no Protágoras e no Fedro, de Platão; e na Política de Aristóteles. Vejamos, primeiramente, o testemunho mais problemático:
As Tesmoforiantes
(411 a.C.)
MNESÍLOCO
Ah, não, por Apolo, não enquanto você não me jurar...
EURÍPIDES
O quê ?
MNESÍLOCO
... que me salvará
por meio de todas as artes, se alguma coisa má me suceder.
EURÍPIDES
Eu juro pelo éter, morada de Zeus.
MNESÍLOCO
Por que não (juras) antes pela comunidade de Hipócrates?
EURÍPIDES
Juro, então, pela água de todos os deuses.
(vv. 269-272)11
A identificação do Hipócrates de Aristófanes com Hipócrates de Cós ainda é problemática. Littré, após defendê-la num primeiro momento (1839, p. 51), recuou, com base na informação dada por um dos escoliastas de Aristófanes. Segundo essa antiga autoridade, o homem citado nessa passagem e também na comédia aristofânica
As nuvens 12 (v. 1001) era um cidadão ateniense e não o médico de Cós:
Hipócrates nasceu em Atenas e tinha três filhos; foi acusado,
juntamente
com eles, de ser apedeuta.
Escoliasta das 13 Tesmosforiantes, v.280
Henderson informa, certamente de acordo com o escoliasta, que esse Hipócrates era sobrinho de Péricles e que seus três filhos eram pessoas tediosas e mal-educadas (Henderson, 1992). Todos eles
tinham a cabeça com um formato estranho14, sendo por isso também constantemente ridicularizados pelos comediógrafos (Starzynski, 1967). Sommerstein, um dos mais recentes editores de Aristófanes, opinou que "esse Hipócrates não é identificável, mas deve ter sido um homem rico, pois era proprietário de um bloco de casas" (Sommerstein, 1994). Em sua edição, Sommerstein traduziu a palavra ξυνoiκíα pela expressão "bloco de casas". Essa é, sem dúvida, uma tradução correta, inspirada certamente pela palavra o κoς ("casa, residência") mas, a meu ver, negligencia outra leitura possível. A tradução para "comunidade", que reflete melhor o sentido de "habitação ou vida em comum", parece mais apropriada ao sentido geral do texto aristofânico.
Não creio que o argumento final de Littré e a interpretação de Sommerstein expliquem de modo satisfatório a passagem; parece-me que Aristófanes estava mesmo se referindo ao médico de Cós e à comunidade dos asclepíades. Note-se que, pouco antes de se referir a Hipócrates, Mnesíloco mencionou a palavra τ χνη, "arte"; ou seja, em seu espírito – e no dos espectadores – a associação entre "arte" e "Hipócrates" era natural para o poeta e para a audiência. O nome "Hipócrates" era bastante comum entre os gregos, o que evidentemente se presta a uma certa confusão; mas era justamente por isso que se recorria ao nome do pai, do demo de residência ou da cidade de origem para discriminar os cidadãos de mesmo nome. Mas, nesses versos, Aristófanes não teve necessidade de recorrer a nada: a simples associação entre "Hipócrates" e "juramento" lhe pareceu suficiente. Do mesmo modo, em As nuvens, é feita uma rápida menção à cabeça dos filhos do Hipócrates ateniense (v. 1003); nenhuma outra informação era necessária para que a audiência soubesse de quem se tratava.
Há ainda outras razões para discordar de Littré e Sommerstein. Primeiro, a informação dos escoliastas, embora extremamente útil, não é de todo confiável (Pickard-Cambridge 1953, p. 17 n.5); segundo, a passagem acima apresenta semelhanças com a
primeira linha do juramento hipocrático15 terceiro, seria demasiada coincidência existir em Atenas, na mesma época em que Hipócrates de Cós impressionava os atenienses, outra "família" conhecida por
seus juramentos especiais 16. Não consigo realmente imaginar uma razão para que pessoas que moravam lado a lado, em um bloco de casas, tivessem o hábito de fazer um juramento solene e tão diferente que acabaria se tornando assunto para os poetas cômicos contemporâneos.
É plausível, portanto, que o juramento dos médicos (CH, Juramento) fosse de conhecimento geral em 411 a.C., data da primeira representação da comédia de Aristófanes; que sua existência estivesse relacionada a Hipócrates de Cós; que os atenienses o conhecessem pelo menos de fama; e que os médicos que pronunciavam o juramento estivessem unidos em uma confraria ou comunidade.
Vejamos, agora, o testemunho de Platão:
Protágoras
(c. 399-387 a.C.)
SÓCRATES
e, [311b] para testar a força de Hipócrates, eu o examinava e o
questionava. "Dize-me, Hipócrates", falei, "tentarás agora ir
para junto de Protágoras dando-lhe remuneração em teu
interesse. Para que te aproximas de alguém e o que esperas
tornar- te? E se pretendesses, indo para junto do teu
homônimo, Hipócrates de Cós, descendente de Asclépio, dar-
lhe remuneração em teu interesse, e alguém te perguntasse:
'Dize-me, Hipócrates, o que pretendes conseguir dando uma
remuneração a Hipócrates [311c], sendo ele o quê?' O que
responderias? 'Eu responderia', disse ele, 'que por ser médico'.
E o que esperas te tornar? 'Um médico', disse ele."
Fedro
(c. 387-367 a.C.)
SÓCRATES
E a natureza da alma, então, crês que é possível compreendê-
la adequadamente sem (compreender) a natureza do todo?
FEDRO
Se devemos efetivamente acreditar em Hipócrates, da família
dos asclepíades, nada (se compreende) a respeito do corpo
sem esse método17.
SÓCRATES
E ele, meu amigo, tem razão. É necessário, porém, em relação
a Hipócrates, examinar (nosso) argumento de perto e observar
se ele está de acordo.
FEDRO
Eu acho que sim.
SÓCRATES
Observa, portanto, o que dizem sobre a natureza Hipócrates e
também o argumento verdadeiro. Não é desse modo que se
deve pensar a respeito da natureza de qualquer coisa?
Primeiro, é simples ou complexa a arte que pretenderemos
praticar e que (pretendemos) tornar outras pessoas capazes
(de praticar)? Depois, se ela for simples, verificar qual a sua
força, para quais ações ela foi criada ou que coisas atuarão
nela e, se ela tiver muitos aspectos, tendo-os contado, observar
para cada um deles o que (se observa) para um único – para
qual ação ele foi criado ou o que atuará nele? (270c-d)
Platão conhecia, portanto, um asclepíade chamado Hipócrates, natural de Cós e que praticou a medicina em Atenas pelo menos durante algum tempo. E possível, naturalmente, que Platão tenha apenas ouvido falar dele; mas também pode tê-lo conhecido pessoalmente. E bastante plausível, portanto, que Hipócrates de Cós tenha sido contemporâneo de Sócrates. Sabe-se que os diálogos socráticos de Platão, embora considerados posteriores à
morte de Sócrates18, aludem a acontecimentos ocorridos, notadamente, nos dez anos anteriores. A última década do século V a.C. é, conseqüentemente, um período razoável para situarmos o floruit ou os primeiros anos da velhice de Hipócrates.
Hipócrates se dispunha, de acordo com as fontes, a aceitar discípulos em troca de pagamento, como os sofistas mais famosos. Essa passagem corrobora, portanto, a informação do Juramento hipocrático de que o ensino da medicina não era gratuito.
Desde a Antigüidade se discute, com base nesta passagem do Fedro, qual teria sido a natureza exata das idéias de Hipócrates. Jouanna (1992, p.89) questiona: "O que entendia (Platão) por todo? Os eruditos se dividem. Trata-se do universo, como pensa a maioria, ou do todo que forma o objeto considerado, como estima a minoria?". Há muitos séculos, tentou-se exaustivamente identificar em que tratados da coleção hipocrática idéias e conceitos semelhantes são mencionados. O médico Galeno de Pérgamo, um dos mais importantes comentadores de Hipócrates, julgava que era o tratado Da natureza do homem; Littré opinava que era o tratado Da mediana antiga (Littré, 1835). A idéia de que, ao analisar qualquer elemento, se deve considerar o todo de que ele faz parte,
preceito aplicável tanto na medicina como na filosofia19, pode ser da autoria de Hipócrates, sem dúvida. Mas se há passagens da coleção hipocrática que refletem esse pensamento, é necessário considerar que Platão pode simplesmente ter chegado a tal
conclusão pela leitura dos textos desta coleção20. É evidente que Platão conhecia profundamente a coleção hipocrática (cf. Mársico, 1998); compare-se, por exemplo, certos trechos dos diálogos platônicos (República, 404a e Timeu 84e, entre outros) com alguns Aforismos da coleção hipocrática.
Vejamos agora uma passagem de Aristóteles21:
Política
(335-323 a.C.)
Pois existe algo que é também função da cidade e, portanto,
aquela forte o bastante para realizar isso deve ser considerada
a maior, assim como Hipócrates deve ser declarado um grande
médico e não um homem grande, se alguém o ultrapassar no
tamanho do corpo. (1326a, 105)
Aristóteles se refere a Hipócrates como "o grande Hipócrates" em um contexto que faz pensar que o médico de Cós era de pequena estatura. Ou será que Aristóteles quis apenas ilustrar um argumento? Não há elementos conclusivos sobre nenhuma dessas hipóteses.
Já que foi mencionado o aspecto físico de Hipócrates, convém esclarecer que não será discutida aqui a iconografia que tematiza Hipócrates; é preciso, no entanto, fazer dois breves comentários. Primeiro: a mesma idealização presente nas "Vidas" domina todos os bustos antigos até hoje identificados com ele. Segundo: a cabeça de mármore que se encontra atualmente no Museu Britânico, em Londres, cópia de um original grego do século III a.C. utilizada nos últimos anos para ilustrar textos sobre o médico de Cós e a coleção hipocrática, representa na realidade o filósofo estóico Crisipo.
Nenhum testemunho contemporâneo assinala a data de nascimento de Hipócrates. O Pseudo-Sorano menciona que Histômaco e Sorano de Cós, personagens quase totalmente desconhecidos para nós e que viveram certamente muitos séculos depois de Hipócrates, situaram seu nascimento no primeiro ano da octagésima olimpíada (460 a.C.). O que faria dele um contemporâneo um pouco mais jovem de Sócrates, concordando assim com os textos de Aristófanes e de Platão. Convém, no entanto, manter alguma reticência em relação a informações biográficas não respaldadas por documentos da época. A crítica moderna tem encarado com ceticismo crescente a maior parte das afirmações dos biógrafos antigos (Lefkowitz, 1981; Momigliano, 1993), calcadas em geral nas alusões mais ou menos obscuras de obras literárias e nos comentários nem sempre impecáveis dos escoliastas (Pickard-Cambridge, 1953) e comentadores antigos. Se aceitarmos as datas das "vidas", Hipócrates teria morrido em idade muito avançada, entre 380 ou 360 a.C.; mas, conforme argumentei há pouco, essa estimativa não é plausível. A única referência temporal confiável para todo o tempo de vida de Hipócrates, como se viu, é a última década do século V a.C. As datas de seu nascimento e morte são quase que inteiramente conjeturais.
Hipócrates - uma biografia cética
Sigerist escreveu, certa vez, que "tudo o que sabemos com certeza sobre Hipócrates é que ele viveu" (Sigerist, 1961). Pode-se concluir, no entanto, a partir da análise precedente, que Hipócrates, filho de Heraclides, nasceu em Cós e que uma parte importante de sua vida transcorreu nas últimas décadas do século V a.C.; que ele era um "asclepíade", membro de uma espécie de corporação de médicos ligados por laços familiares ou profissionais; que aprendeu os rudimentos da profissão com o pai; que atuou em vários lugares, ensinou medicina mediante pagamento, criou, desenvolveu ou divulgou conceitos inovadores a respeito da arte médica; que escreveu a respeito de assuntos médicos; que desfrutou, em vida, de grande renome; que morreu, possivelmente, durante uma de suas viagens, nas primeiras décadas do século IV a.C., e que pode ter sido enterrado em Larissa, na Tessália.
Sabemos, efetivamente, muito pouco a respeito do Hipócrates factual; mas isso não nos impede de admirar seu pretenso epitáfio, conservado em epigrama:
O tessaliano Hipócrates, de família de Cós, descansa aqui.
Nascido do tronco imortal de Febo,
ergueu muitos troféus contra as doenças, com as armas de
Higéia,
tendo obtido imensa glória não por acaso, mas por sua arte.
Antologia Palatina, VII, 135, 4 22.
1. Uma versão consideravelmente reduzida deste capítulo foi apresentada na forma de tema livre durante o VII Congresso Brasileiro de História da Medicina, em Ribeirão Preto, SP, 2002.
2. 431-404 a.C.
3. Ver comentário a respeito de κμ e floruit na p. 229 deste volume.
4. Os únicos textos médicos anteriores à coleção hipocrática que nos chegaram são os do médico-filósofo Alcméon de Crotona. Desses textos conservaram-se apenas fragmentos.
5. Willamovitz-Moellendorf referia-se a Hipócrates como "um nome sem escritos" (Apud Sarton, 1953).
6. Nome grego do atual estreito de Dardanelos, que separa a Turquia asiática da Turquia européia. Na época de Hipócrates, designava também o litoral da Ásia Menor em contato com o estreito.
7. ρρωσo , do verbo ννυμι, "ser forte", significa literalmente "que estejas com toda tua força" e se tornou, com o tempo, fórmula padrão de encerramento de cartas.
8. Aristófanes faz, em sua comédia Pluto (c. 388 a.C.), uma hilariante descrição do processo de cura operado nesses santuários (vv. 653-741).
9. Templo dedicado a Asclépio.
10 O símbolo de Asclépio e, conseqüentemente, o da medicina, é uma serpente única enroscada em um bastão, sem asas de qualquer espécie. Este símbolo pode ser visto em moedas de arte antigas, e não deve ser confundido com o kerykeion ("caduceu") de Hermes, deus dos viajantes, do comércio e dos ladrões, formado por duas serpentes enlaçadas em um bastão encimado por duas asas.
11.
12. Representada em Atenas pela primeira no ano de 423a.C.
13. Schol. Thesmosph., 280:
'Ιππoκρ της 'εγ νετo' Αθηναîoς, ôς (addidit Dindorf) ε χεν úioùς
** (omissum epithetum, vel) τρεîς ex schol. Nub. 997 Dind.): διιβ
λλετo (sic) δ σúν αúν αùτoîς ς παíδεuτoς.
(apud Littré, 1840, Adenda et corrigenda, pág. xlviii).
14. Dois fragmentos de uma comédia de Cratino intitulada Péricles de cabeça de cebola com o Odeon sobre o crânio chegaram até nós (cf. Lesky, 1995, p. 450).
15. "juro... por todos os deuses e deusas"... (ver p. 151).
16. O filósofo Sócrates costumava fazer um juramento insólito: "pelo cão", dizia ele (Platão, Apologia, 21 e; Cármides, 172e, entre outros), referindo-se aparentemente a Anúbis, deus egípcio com cabeça de chacal (Platão, Górgias, 482b). Não consta que era seguido nesse estranho hábito por qualquer pessoa de sua família ou de suas relações.
17. A palavra grega µ θ0δoς, usualmente traduzida por "método", se refere formalmente a um "conjunto de procedimentos empregados para se atingir um fim". Embora presente em textos filosóficos desde Platão, a palavra iria adquirir o sentido pleno de "caminho racional utilizado pelo espírito para chegar ao conhecimento ou à demonstração da verdade" somente no século XVII, a partir dos estudos desenvolvidos por René Descartes (Discurso do Método, 1637).
18. Sócrates foi executado em 399 a.C.
19. Platão recorria com freqüência à medicina para ilustrar argumentos filosóficos (República 405c-d, 406a-c, 406d, 407a, 407d, 407c-408b, 408d-e, 564b-e, entre outras passagens). Ver também Frias, 2001.
20. Confusão semelhante se vê no pergaminho conhecido por Anonymus Londinensis, datado do século II d.C, que traz longos trechos de uma "história da medicina" compilada por Mênon, discípulo de Aristóteles, durante a segunda metade do século IV a.C. Em uma interessante passagem (IV, 20 a VI, 45), ele informa: "Hipócrates diz, segundo a nota que lhe consagrou Aristóteles, que os ventos são a causa das doenças". Aparentemente, a fonte da informação não foi Aristóteles, mas o tratado hipocrático Dos ares, escrito possivelmente por um sofista inspirado nas idéias do filósofo Diógenes de Apolônia.
21. É interessante assinalar que o mais famoso discípulo de Platão era filho de um médico, Nicômaco, "neto de Asclépio", ligado à escola de Cnidos (cf. Diógenes Laércio, Vida e Doutrina dos Filósofos Ilustres, V, 1).
22.