Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 5 de 10 · parte 2/4

Páginas do PDF

Tieta do Agreste

Terceiro episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Há algum tempo, no começo das prolongadas negociações para aquisição da casa de dona Zulmira, a cunhada propusera que, realizada a compra, ali fossem morar juntos, os dois casais, o velho e mãe Tonha, ele e Elisa: na residência vasta e confortável cabiam os quatro e sobrava espaço. A idéia não o seduzira, agradando ainda menos a Elisa; Tieta ouvira as razões da recusa e com elas concordara. Diante disso, Astério ficara à espera de uma palavra da caridosa parenta referente à aquisição de casa própria para a mana mais moça, a quem dava mostras de tanta estima. Espera vã, jamais a cunhada voltara a conversar com eles sobre moradia. Somente na véspera Astério descobrira o motivo desse silêncio. Ao voltar do bilhar, à noite, comentando a escritura a ser assinada no dia seguinte, a compra da casa de dona Zulmira finalmente decidida, Astério previra, esperançoso: quem sabe, agora vai chegar a nossa vez. Em resposta, ouvira a espantosa revelação, tomara conhecimento dos alarmantes planos de Elisa. A esposa lhe explicara dever-se a reserva de Antonieta ao desinteresse demonstrado por ela, Elisa, a respeito de casa própria em Agreste. Do meio dos lençóis, a voz fustigara, decidida, insensível, quase agressiva:

— Eu disse a Tieta que não queria ter casa própria aqui, em Agreste. Se ela quiser fazer alguma coisa por nós dois, que nos leve para São Paulo, arranje para você um bom emprego numa das fábricas, nos ceda um quarto em seu apartamento, é um apartamento enorme, duplex. Duplex quer dizer que tem dois andares, um sobrado.

Astério respondera com um gemido: a dor no estômago, ressurgindo, repentina e violenta. As palavras de Elisa soaram-lhe como um cantochão de funeral. Rasgaram-lhe as entranhas. Emprego em São Paulo, no escritório de uma indústria? Monstruosa perspectiva! Sair da vida tranqüila de Agreste para enfrentar a correria da cidade imensa, sentar-se diante de uma escrivaninha a fazer contas ou a anotar relatórios, das oito da manhã às seis da tarde, sem liberdade de ir e vir na hora que bem entendesse, sem amigos, sem o bar de seu Manuel, sem a mesa do bilhar, desgraça maior não podia ameaçá-lo. Em Agreste, a vida do casal decorria na pobreza, é verdade, a loja mal dava para o essencial, quando dava, mas com a ajuda de Antonieta iam atravessando sem problemas, havia o suficiente para a casa, a comida e ainda sobrava para o cinema e para as revistas de Elisa. Ademais, à exceção de meia dúzia de privilegiados, todos na cidade eram remediados ou pobres e a vida transcorria sem percalços, na maciota. Tinha o moleque para ajudá-lo na loja, Elisa tinha a moleca para ajudá-la em casa. Apenas o estômago o aperreava todas as vezes que o movimento comercial decrescia e um título a pagar começava a contar juros mas o médico, na Bahia, lhe garantira não ser câncer e sim nervosismo, não havia por que preocupar-se. Fora disso, vivia satisfeito, na boa companhia dos camaradas, das partilhas no bilhar Brunswick, com as apostas, as disputas, as vitórias, taco de ouro, a prosa agradável, poucos afazeres e a mulher bonita, a mais bonita de Agreste, à espera na cama, à disposição para as noites em que se punha nela, sempre na mesma clássica posição, quase respeitosamente, como devem praticar tais atos esposos que se prezam.

Quando solteiros, fora freguês assíduo da pensão de Zuleika Cinderela, amarrando rabichos, sempre por mulher de traseiro atrevido, de ancas bem torneadas, vistosas. Na cama, não recusava variações; constando inclusive ser por demais chegado a comer bunda de mulher; rapariga que dormisse com ele, se já não sabia, logo ia ficar sabendo dessa sua preferência. Quando ele aparecia na sala da pensão, onde dançavam, corria a voz entre as pequenas: segurem o cu, Astério está na casa. Ao que consta, não se reduzira a subilatórios de mulheres da vida, descadeirando igualmente várias solteironas, tendo merecido em priscas eras o apelido de Consolo do Fiofó das Vitalinas.

Casado, jamais lhe passara pela cachola possuir Elisa senão como conveniente, no buraco próprio e com decência, ele por cima, ela por baixo, papai-e-mamãe, como classificam as putas na pensão, posição de fazer filho, ou seja, própria para esposo e esposa. Tampouco lhe aflorara o pensamento montá-la por detrás, indo-lhe às traseiras magníficas, ancas de égua, sem igual em toda a redondeza. Não que lhe faltasse vontade: fosse ela rapariga ou moleca, roceira ou solteirona, e ele não perderia pitéu assim apetitoso, aquela suntuosa bunda, motivo fundamental da paixão a dominá-lo, levando-o a noivado e casamento. Mas esposa não é para descaração, a mulher da gente deve ser respeitada, posta entre as santas, num altar. Quando muito, uma vez na vida outra na morte, na hora do gozo, elevando-o ao infinito, dando-lhe nova qualidade, Astério corre a mão nas ancas da mulher, em furtivo agrado.

Leitora das revistas de fofocas nas quais são cantados os feitos dos galãs de rádio, televisão, cinema, Elisa ressente-se do aparente desinteresse sexual do esposo, de fornicação escalonada, burocrática — burocrata do sexo, assim a fogosa atriz classificara o ilustre comediante do qual vinha de se desquitar, em sensacionais declarações prestadas à revista Amiga —, da maneira única, repetida, sem as variações tão badaladas. O próprio Astério, de quando em vez, relatando a última de Osnar ou de Aminthas, de Seixas ou de Fidélio, se refere a outras curiosas formas e maneiras, sobre as quais tudo sabe dona Carmosina — ah!, infelizmente apenas na teoria, minha Elisa, quem me dera a prática! Quem lhe dera também a Elisa, talvez por isso injusta com o marido. Desinteresse da parte dele não existe e sim a convicção de que amor de esposo e esposa tem de exercer-se pudico, isento de arroubos, de maus pensamentos e de extravagâncias, respeitoso. Represado, Astério contenta-se em ser proprietário daquele rabo, de espiá-lo quase às escondidas, enquanto Elisa muda a roupa, de sentir-lhe a proximidade na cama. Digno, contido esposo.

Bastavam-lhe Agreste, a vida pacata da cidade, os prazeres, mínimos, a boa companhia, não queria mais. São Paulo? Emprego em escritório, bom ordenado, horário rígido? Quarto em casa da cunhada? Deus o livre e guarde. Noite de discussão áspera e desagradável, Elisa perdera a cabeça e o acusara de indiferente e molengas, de egoísta a pensar unicamente nos próprios interesses, sem ligar aos dela. Para ele, um pamonha, o marasmo de Agreste podia ser o ideal de vida, mas ela, moça e viçosa, tinha ambições maiores: a cidade grande, plena de possibilidades, vida digna de viver-se. Onde, aliás, Astério, se quisesse, poderia progredir, tornar-se alguém, ganhar dinheiro, afirmar-se. Mas ele não a compreendia, não fazia caso dela, tratando-a como se ela fosse um pedaço de pau, um animal sem serventia, um trapo.

Segurando a barriga para conter as dores, Astério fugira para a sala. Elisa terminou vindo buscá-lo, ao ouvir-lhe os gemidos pungentes. Encontrou-o esvaído, pálido, cor de cera, numa daquelas violentas crises de estômago. Dera-lhe remédio, pedira desculpas pelas más palavras, da exaltação passou às lágrimas. Não recuara no entanto da disposição de usar de todos os recursos junto à irmã para que ela os levasse a viver em São Paulo. Verde, a boca de fel, ele nada respondera mas entre os engulhos decidira tomar medidas urgentes para impedir a concretização do projeto, sem que Elisa viesse a saber e a responsabilizá-lo pelo fracasso dos monstruosos planos. Enquanto ouve dr. Franklin, medita e resolve.

Discreta, junto a uma estante onde se acumulam papéis, encontra-se a formosa Leonora Cantarelli, enteada da promitente compradora. Um sorriso suave no rosto delicado, talvez, entre todos os presentes, seja ela quem mais deseja possuir casa em Agreste, mesmo modesta, em rua sem calçamento, mas com um pequeno jardim plantado de cravinas e resedás, um coqueiro carregado no quintal, varanda onde estender a rede no calor da tarde. Ninho para ela e seu marido, marido com ou sem papel passado, não impunha exigências desde que fosse Ascânio Trindade. Mãezinha prometera se ocupar do caso, dar jeito em sua vida, madame Antonieta não é mulher de falar em vão. Leonora sente-se confortada, espera; escuta a leitura com paciência, virtude obtida em duro aprendizado.

Do outro lado da barricada, ouvindo a interminável lengalenga da escritura, dona Zulmira, velhíssima, ar de ave de rapina, óculos fora da moda escanchados no nariz adunco, o terço enrolado no punho magérrimo, no pescoço um medalhão com o retrato do finado marido quando jovem e noivo. Sorri contente, a casa, convertida em dinheiro, servirá à salvação de sua alma e à glória da Senhora Sant’Ana, não irá parar nas mãos excomungadas de João Felício, amaldiçoado sobrinho. O coisa-ruim não poderá fazer com suas últimas vontades o que estavam fazendo com o testamento de seu Lito os maus parentes, discutindo-lhe a validade na justiça, tentando roubar a Santa Madre Igreja. Acolitando-a, padre Mariano: o dinheiro resultante da venda da casa destina-se a missas no altar-mor da matriz diante da imagem da padroeira e em benefício da alma da doadora, mas somente após sua morte. Antes, depositado em mãos de Modesto Pires, renderá juros mensais que ajudarão às despesas de dona Zulmira, servirão para médico e remédios, conforme consta de documento anexo à escritura que o dr. Franklin está terminando de ler.

Emboscado no passeio em frente, o sobrinho João Felício espia. Pequeno comerciante de secos e molhados, o rosto semelhante ao da tia, nariz curvo, queixo duro, gavião pronto a atacar a presa. A presa acaba de lhe escapar, levada céu afora pela santa, ídolo e superstição dos católicos romanos. Na casa confortável que esperara ocupar em breve — a Velha não pode durar muito — com a mulher e o filho pequeno, irá viver Zé Esteves, com a presunção, a arrogância e a mulher, pobre infeliz. Também de quem a culpa se ele, João Felício, se casara contra a vontade da tia com moça protestante, filha do pastor da igreja batista de Esplanada? Católica à maneira antiga, desconhecendo as teses ecumênicas, para dona Zulmira protestante é sinônimo de herético, inimigo, raça perdida e condenada, com pés de bode. Os crentes são filhos do demônio aos quais os bons católicos devem negar pão e água, já que infelizmente se acabou a Santa Inquisição.

Terminada a leitura, dr. Franklin convida as partes interessadas, para o ato da assinatura. Como testemunhas, apõem suas firmas Astério e o padre e depois apertam-se as mãos, em mútua felicitação. Dos fundos bolsos da saia negra de gorgorão de seda, Perpétua, depositária provisória, saca rolos e rolos de dinheiro, entregando-os ao dr. Franklin, todos os olhos acompanhando a operação. O tabelião conta nota por nota, antes de passá-las às mãos de dona Zulmira.

Sorridente, Tieta remói uma apreensão: terreno e casa, comprados e pagos, escriturados em nome de Antonieta Esteves Cantarelli, pertencem sem sombra de dúvida e discussão a Antonieta Esteves, simplesmente? O advogado consultado em São Paulo, antes da viagem, garantira que sim, desde que existissem testemunhas de compra e pagamento, tratando-se então de simples engano de nome, facilmente corrigível. Quem o dissera não fora um corrigível qualquer, de porta de xadrez, e sim o procurador-geral do Estado, freguês constante do Refúgio, consultor jurídico de madame Antoinette.

 

DO FIM DA TARDE NO AREÓPAGO

 

TIETA, DEPOIS DE SE DESPEDIR DOS PARENTES E DE TER

CONTRATADO OS SERVIÇOS do mestre-de-obras Liberato, recomendado como excelente por Modesto Pires, consegue chegar sozinha à porta da agência dos Correios para a conversa reservada, conforme prometera na véspera a dona Carmosina. Finalmente as duas amigas irão passar em revista os últimos acontecimentos; as duas interessadas em ouvir e contar, ruminando idéias e planos, escondendo, uma e outra, segundas intenções. Ao ver Tieta subindo o degrau da porta, dona Carmosina larga o jornal e exclama:

— Enfim, sós! — ri, estendendo os braços para acolher a visita ilustre, figura importante. — Salve a minha líder!

Por demais ilustre e importante. Não demoram sem companhia nem por cinco minutos. Ainda ajeitam cadeiras, trocam palavras de afeto, Tieta perguntando como vai passando mãe Milu — costuma dizer que dona Milu é sua segunda mãe —, quando surgem os primeiros conhecidos e na porta do Areópago juntam-se os curiosos. Todos querem ver e saudar a conterrânea donatária da capitania de São Paulo, mandachuva no país. Ficam parados, sorrindo para ela. Pedintes que não a encontraram em casa, de faro aguçado pela necessidade, descobrem-na na agência, cada qual recita história mais triste. Triste e verídica. Com dois deles, Tieta marca encontro para a manhã seguinte, em casa. Dona Carmosina abana a cabeça, assim não dá. Ao mesmo tempo, deixam-na alegre a gentileza e a paciência de Tieta a ouvir e ajudar os pobres, a dialogar com os ociosos que apenas desejam falar com ela, felicitá-la pela luz. Rindo. Antonieta desabafa:

— Essa história da luz já está me enchendo…

— Não fale assim, minha negra. O povo manifesta sua gratidão, é uma gente boa, ainda não está corrompida pela civilização.

Do passeio, a voz do comandante Dário vem liquidar as últimas esperanças de dona Carmosina. Ainda não será desta vez que conversarão a bâtons rompus — de quando em quando Tieta emprega uma expressão francesa; no sul, conquistou, certamente sob influxo do marido, nível de cultura desabitual nos cafundós destes sertões, fez-se realmente uma senhora, não apenas pela elegância e riqueza, também pelo intelecto; dona Carmosina sente-se orgulhosa da amiga e assim devem sentir-se todos os cidadãos de Agreste.

Tomando de uma cadeira e nela escanchando as pernas, o comandante demonstra sua decisão de ali se demorar batendo papo. Deseja saber quando Tieta pretende voltar a Mangue Seco. Ele e dona Laura regressarão no dia seguinte, logo depois do almoço, não quer aproveitar a canoa? Aproveitará, sim. Concluída a compra da casa, assinada a escritura, efetuado o pagamento, nada de especial a prende a Agreste. O velho se encarregará de dirigir a limpeza e a pintura da vivenda, alguns consertos indispensáveis, antes de tudo a construção de banheiro e latrina decentes. Os que existem estão inservíveis. Há muito dona Zulmira toma banho em bacia, faz cocô em penico. O comandante escuta a relação das obras, dos tais pequenos consertos, prevê:

— Um mês de trabalho, daí para mais… Liberato é descansado.

— Não com pai de fiscal, em cima dele… — garante Antonieta. — O velho está doido para mudar-se, seu Liberato vai andar de rédea curta.

— Fez empreitada ou vai pagar pelos dias de trabalho?

— Comandante, pelo amor de Deus, não se esqueça que nasci aqui. Empreitada, é claro.

— Nesse caso, um mês. E Liberato, o que tem de descansado tem de competente. Nesse particular, pode ficar tranqüila.

— Veja como são as coisas, comandante. Considero que fiz uma boa compra, adquirindo a casa de dona Zulmira…

— Cara para os preços daqui…

— Ainda assim. Custou um bocado de dinheiro, é uma casa ótima, vai entrar em obras, mas eu só penso na cabana de Mangue Seco. Minha cabeça está lá. Essa sim, me apaixona. Não quero viajar sem que ela esteja de pé.

— O povo de Mangue Seco ainda é mais descansado do que o daqui. Praia, sabe como é. Com aquele ventinho, não dá mesmo para se trabalhar muito…

— Por isso quero voltar logo, para dar um empurrão. Cardo não é o velho, não é de dar bronca em ninguém… O pobre deve estar pensando que a tia o abandonou e foi embora para São Paulo. Menino de ouro, esse meu sobrinho, comandante.

Os olhos brilham quando ela fala do sobrinho. Dona Carmosina e o marujo concordam com o elogio. Deus fora extremamente generoso com Perpétua: não apenas a retirara do barricão, milagre considerável, dera-lhe bom marido e bons filhos. Exercendo a arte sutil de falar da vida alheia, dona Carmosina e o comandante regalaram-se durante alguns minutos considerando a bondade de Deus na premiação das virtudes eclesiásticas de Perpétua. Eclesiásticas? O adjetivo para as virtudes de Perpétua devia-se a Barbozinha e dona Carmosina o encontra poético e perfeito. Assim, em prosa e riso, corre o tempo. Não adianta Tieta dizer que viera por uma noite e já se encontra há três dias — e ainda, imagine!, não tivera tempo para conversar uns assuntos urgentes com Carmô. Para fazê-lo se encontra ali, na agência, mas amanhã retornará sem falta a Mangue Seco.

O comandante nem parece ouvir a insinuação, explicando que Ricardo, estando onde está, em férias no próprio paraíso terrestre, só tem razões para sentir-se feliz. Enquanto ouve o comandante, empolgado, a perorar sobre seu tema predileto, a beleza da praia de Mangue Seco, Tieta pensa no pequeno Ricardo abandonado no colchão de crina, na imensidão selvagem das dunas sobre o mar. No paraíso, comandante, mas curtindo as penas do inferno! Deve estar plantado no cômoro mais alto, buscando descobrir nas lonjuras do rio sinal de lancha, ouvir ruído de motor. Ela tampouco deseja outra coisa senão descer a correnteza, atravessar a arrebentação da barra, desembarcar em Mangue Seco, correr para os braços de seu menino, sentir-lhe os pêlos arrepiados nas pernas e braços musculosos, no peito adolescente, o calor, a vibração do corpo, a timidez ainda não de todo vencida, o ímpeto, o mastro do saveiro erguido, as velas desatadas. As últimas noites, rolando sozinha no leito da alcova, tinham sido insones e agoniadas. Para acalmar-se, findara por deitar-se na rede, no antigo gabinete do dr. Fulgêncio, onde Ricardo dormira. Buscando a lembrança do sobrinho, encontrou sinais evidentes da batalha travada com o demônio na rede onde ele a desejara contra a própria vontade, onde a tivera nua, em sonho voluptuoso, e não conseguira possuí-la por não saber como agir, pesadelo horrendo. Ali o donzelo seminarista começara a perder a castidade. Tieta espojou-se na rede, tocou a mancha branca, gemeu, cabra em cio.

Outro a aparecer para a prosa regalada, impedindo a conversa íntima e essencial: Ascânio. Chega acompanhado por Aminthas e Seixas. O comandante não perde a ocasião de criticar as iniciativas do patriótico secretário da prefeitura, ameaçadores projetos turísticos, felizmente mirabolantes.

— Mirabolantes, uma conversa — protesta Ascânio. — A qualquer momento, o homem volta…

— Com a boazuda, espero… — corta Aminthas.

— …para definir os planos, tenho certeza.

Comandante Dário eleva as mãos aos céus:

— Para terminar com o sossego da gente. Vou cavar trincheiras em Mangue Seco, armar barricadas. Quando esses nudistas aparecerem lá, recebo à bala, como Floriano ameaçou receber os ingleses.

— Nudistas? — interessou-se Tieta.

— Exatamente, não soube?

— Soube do casal que esteve aqui e foi a Mangue Seco…

— …e lá chegando, tiraram a roupa e bumba! Na água, nuzinhos como Adão e Eva. Correndo praia afora…

Irreprimível frouxo de riso sacode Tieta, não se contém. Pensa em Ricardo já tão violentado, ainda por cima às voltas com nudistas. Era capaz de confundi-los com diabos, vindos dos infernos, para sacrílegas bacanais em Mangue Seco, missas negras, para consumar a definitiva condenação de sua alma. Reduzindo a zero os efeitos da longa pregação da tia, empenhada em acalmar seus temores, restaurando-lhe o ânimo e a confiança.

— Será que Ricardo viu essa gente nua? — pergunta, quando consegue controlar o riso.

Ao imaginar o seminarista em companhia do incrementado casal, todos riem, inclusive Ascânio. Comandante Dário conclui, vitorioso:

— É o que eu digo: Perpétua e os padres, o bispo dom José, você, Tieta, todo mundo cuidando da inocência do menino e os amigos de Ascânio liquidam todo esse esforço numa tarde. De que adianta você zelar pela castidade de seu sobrinho? Ascânio importa a devassidão, entrega Mangue Seco aos proxenetas, nosso destino é o lenocínio…

Ascânio não se comove com o trágico panorama traçado pelo comandante.

— Quando os terrenos valorizarem, a Toca da Sogra valer uma fortuna, o comandante vai me agradecer e a senhora também, dona Tieta. Fez negócio na hora certa, os preços dos terrenos vão subir.

— Não há preço que pague minha paz! — conclui, insensível, o comandante. Volta-se para Tieta. — Então, amanhã logo depois do almoço, aí por volta de uma da tarde, de acordo? Vamos aproveitar esses últimos dias, antes que Ascânio transforme Mangue Seco em Sodoma e Gomorra.

— Vai amanhã, dona Antonieta? — pergunta o acusado secretário da prefeitura. — Não esqueça que no outro sábado é a inauguração da praça e a senhora é a madrinha da festa.

— Não esqueço, não. Pode contar, não faltarei. Volto a tempo.

Se não voltar, irão buscá-la à força, anuncia Aminthas. Ele e Seixas ali presente, com Astério, Osnar e o grumete Peto estão armando uma expedição punitiva para raptá-la na praia, trazê-la de volta. Mangue Seco é aquela maravilha, ninguém pode negar a evidência, praia ótima para passeios, piqueniques, uiquiendes, o banho de mar, a barra, as dunas, a vista, mas daí a demorar-se lá semanas inteiras quem vem a Agreste com tempo medido, isso seus concidadãos não podem tolerar. Dona Carmosina concorda e aplaude a idéia: uma expedição, quem sabe, no próximo domingo? Que diz a isso, Seixas?

— Bom, muito bom. Vou e levo minhas primas — aprova Seixas, opinando pela primeira vez na discussão.

A conversa reservada fica para a noite. Dona Carmosina suspira: mas, sem falta, heim! Se houver outro adiamento ela vai espocar, está inflada de assuntos, graves e excitantes. Não lhe passa pela cabeça, porém, que a maior interessada na conversa é Tieta, apenas não demonstra.

 

DA CONVERSA NO CAMINHO DO RIO

 

TIETA PASSEIA OS OLHOS PELO CÉU, CONVERTERA-SE

EM MINGUANTE a lua cheia que iluminara o areal de Mangue Seco mas faíscam estrelas aos milhares, inumeráveis, ela não se cansa de contemplá-las, de admirar esse firmamento como já não existe nas cidades do sul. Na cidade de São Paulo, onde vive e labuta, encoberto pela fumaça da poluição, é negrume o firmamento.

— Estou fartando a vista no céu de Agreste, Carmô. Lá, não tem nada disso. Lá o céu acabou.

Para conversarem a sós, o único jeito foi fugir da casa repleta enquanto Barbozinha, invencível, atravessava o pantanal de Mato Grosso à frente de um regimento da Coluna Prestes, após haver sido um dos Dezoito do Forte, o único a escapar miraculosamente: um a mais, um a menos não aumenta o número, continuarão dezoito, essa a grandeza das legendas. Aminthas advertiu o bardo heróico:

— Cuidado com a língua, meu poeta. Que você seja o décimo nono ou o vigésimo terceiro dos dezoito, não vejo mal além dos arranhões na verdade histórica. Mas, ao se meter na Coluna Prestes, passa a correr perigo de cadeia. Por muito menos, andaram encanando gente em Esplanada.

Quando dona Carmosina chegou para a conversa reservada, encontrou a sala de visitas cheia de amigos, a varanda ocupada por Leonora e Ascânio, sobrando apenas o recurso da fuga. Aproveitando a deixa de dona Carmosina: aqui a gente não vai poder conversar, tenho muita coisa a lhe falar mas não na vista desse povaréu, como se há de fazer?, Tieta propôs a retirada. Haviam escapado pelos fundos da casa, sem que ninguém se desse conta. Agora, andam no caminho do rio:

— Só que lá, Carmô, se ganha dinheiro. Quem quiser trabalhar, tiver disposição, pode fazer seu pé-de-meia. Aqui, a pobreza é demais, eu já tinha me esquecido do tamanho.

Tieta toma o braço de dona Carmosina, as duas amigas marcham em direção ao ancoradouro, ouve-se na sombra o rumorejar ainda distante da correnteza do rio. A brisa da noite as envolve, chegada do mar, das bandas de Mangue Seco onde Ricardo espera, certamente postado no alto das dunas, buscando enxergar sinal de luz na distância, crucificado em medo e desejo, em pecado e saudade, dilacerado.

— Aqui a pobreza é por demais, a começar por minha gente. Vivem tão apertados…

— Perpétua até que não… — retifica dona Carmosina. — Todo mês coloca dinheiro na Caixa, em Aracaju, não é nenhuma tola.

— Não pense que não sei, Carmô, não nasci ontem, conheço as cabras de meu rebanho e a que mais conheço é Perpétua. Sei que Ricardo estuda de graça, o padre arranjou com dom José, sei que Peto está no grupo escolar, não paga nada, sei mais do que ela e você podem imaginar. Mas, nem por isso, nego minha ajuda. Afinal, o que ela tem é tão pouco, só é alguma coisa em comparação com a pobreza dos outros, mas para o futuro dos meninos não é nada. Os meninos são uns amores, Ricardo é estudioso, compenetrado, sério, vestido de batina fica tão engraçado, parece um anjo torto. — Fita a velha amiga. — Mandei abrir uma caderneta de poupança em São Paulo em nome dele, como aliás você sabe…

— Eu sei? Que história é essa? Não sei de nada, você não me falou, como havia de saber? — dona Carmosina reage nervosa, quase insultada com a indireta.

Tieta enche o caminho com uma risada alegre, divertida, aperta o braço da companheira, afetuosamente:

— Sabe porque leu a carta que eu escrevi à gerente do meu negócio mandando ela ir ao banco, abrir a caderneta, fazer o depósito. Não me diga que não leu, Carmô, porque eu não acredito. Se eu fosse você, também lia.

A princípio confusa, sem resposta, dona Carmosina termina contagiada pelo riso da amiga, reclama:

— Também nunca vi cartas mais discretas, mais reservadas que as suas. Não contam nada, nem as que você escrevia para a família nem as que escreve para São Paulo. Nunca vi tanta avareza de palavras: faça isso, faça aquilo, como vão as coisas, a clientela, firme? E as meninas, como se comportam? Até agora não descobri que espécie de negócio você tem, além das fábricas. Dessas todos sabem.

— Não há segredo, Carmô, apenas sou ruim de escrita, quanto menos escrevo menos erro. Além disso, não gosto que meus assuntos andem na boca do povo, ninguém precisa saber dos ganhos da gente; eu acredito em mau-olhado. Mas a você, não tenho por que esconder. O que eu possuo em São Paulo é uma butique de luxo, com preços muito caros, para gente da alta sociedade, a clientela é de primeira ordem, rende um bom dinheiro. As meninas são as vendedoras, bonitas, elegantes, ganham bem. Por isso mesmo, por causa da freguesia tão chique, não quero gente de Agreste aparecendo por lá. Imagine só, Carmô, a loja cheia, aquela nata de São Paulo, tudo podre de rico, e me aparece o pessoal daqui… Por isso nunca mandei endereço. Nas fábricas não me importo que falem, que inventem o que quiserem, sabe por quê? Porque nas fábricas nada tenho, nem participação. Quando Felipe morreu, eu fiquei com os apartamentos, os imóveis e a butique que, aliás, já era minha, estava em meu nome. — No caminho mal iluminado, busca enxergar na fisionomia da amiga se a explicação fora convincente ou não.

Dona Carmosina bebera-lhe as palavras, uma a uma. Assídua leitora de romances policiais, admiradora de Agatha Christie, sentia-se a própria miss Marple perdida em Santana do Agreste. De dedução em dedução, espremendo as células cinzentas, partindo de pistas mínimas, tinha chegado à verdade: nada do que Tieta agora lhe contara constituíra surpresa para a presidenta do Areópago:

— Exatamente o que eu imaginava, butique de alto luxo, preços de arrancar o couro e a fidalguia toda de São Paulo deixando o dinheirinho lá. Você faz muito bem em guardar reserva sobre seus negócios e sua vida. Creio que, se Elisa soubesse de seu endereço em São Paulo, teria arranjado maneira de se tocar para lá. Não sonha outra coisa, a pobrezinha.

Tieta riu:

— Você já pensou a parentada toda de Agreste, a começar pelo velho Zé Esteves, de cajado, cuspindo fumo, em minha porta em São Paulo, invadindo a butique? Até que ia ser engraçado, só que estragava meu negócio para sempre.

Não fez referência a Elisa, como se não houvesse escutado o nome da irmã, mas dona Carmosina insiste, volta à carga:

— Você pensa levar Elisa para São Paulo, ela e Astério? É tudo o que ela deseja na vida, e me parece que…

Tema do desagrado de Tieta. Interrompeu a amiga antes que tomasse a peito a defesa da causa de Elisa:

— Levar, para quê? Aqui, eles vivem direitinho com a renda da loja e a ajuda que eu dou. Sem que eu lhe perguntasse nada, outro dia ela me disse que não quer ter casa própria em Agreste. Vive falando em São Paulo, insinuando um convite, não tem outro assunto. Posso até aumentar a ajuda que dou a eles, mas levá-los para São Paulo, isso não.

— Posso perguntar por quê? Gosto de Elisa e queria vê-la feliz.

— Eu também desejo que ela seja feliz, também gosto dela, é minha irmã e sei que ela gosta de mim, não é hipócrita como Perpétua. Mas eu gosto dela e gosto também de Astério, Carmô. Aqui Astério vive contente, para ele São Paulo ia ser um degredo. Adoro ver pessoas felizes, é tão raro no mundo. Sei o que é ser infeliz, roí beira de penico quando fui embora. Tive sorte, encontrei um homem bom, o meu marido. Família sortuda, Carmô: Perpétua, com aquela cara, arranjou marido, milagre considerável, não foi o que o comandante disse ontem? Milagre maior aconteceu comigo: eu era uma reles empregadinha no escritório de Felipe, acabei de aliança no dedo. — Exibe a aliança de ouro, diferente, trabalhada peça digna de antiquário. — Também Elisa deu sorte, casou, Astério é um bom rapaz, gosto dele. Em São Paulo, Astério ia ser mais infeliz do que Elisa é aqui.

— Será?

— Tenho certeza. Aqui, ele tem amigos, de quem iria ser amigo em São Paulo? Não é homem para aquela correria, aquele deus-nos-acuda. E ela, ia ser feliz em São Paulo, tua amiga Elisa? Tu conhece ela melhor do que eu, tu viu ela nascer, nós duas vimos, se lembra? Tu acha que Elisa, em São Paulo, vai agüentar o marido ganhando ordenadinho pequeno, que grande coisa ele não sabe fazer, vida modesta, com a estampa de rainha que ela tem? Me diga, Carmô. Com aquela beleza? Sabe onde ela ia terminar? Num randevu, fazendo a vida. Será essa, a felicidade que ela procura?

Dona Carmosina estremece, as palavras de Tieta ressoam-lhe no crânio, marteladas na cabeça. Desiste de lutar pela protegida. Prometera fazê-lo quando Elisa, quase chorando, lhe suplicara: fale com Tieta, Carmosina, diga que eu quero ir com ela, peça um emprego na fábrica para Astério, um cantinho no duplex para nós.

— Você tem razão, não dá pé. Ia terminar mal. Como não pensei nisso, meu Deus? Você é ainda melhor irmã do que parece.

— Conheço minhas cabras. Foi bom você ter me falado nisso, eu estava mesmo querendo lhe pedir para tirar essas idéias da cabeça de Elisa, ela lhe ouve muito. Aqui, ela e Astério podem contar comigo. Fora daqui, nada.

— Vou falar com ela, não vai ser fácil. Mas você tem toda razão, não se pode arriscar. Já pensou? Ai, meu Deus!

— A vida é uma confusão, não dá para se entender. Elisa só pensa em ir para São Paulo, Leonora, agora, deu para falar que quer viver em Agreste, não quer sair daqui, nunca mais.

Um sorriso aparece, clareando o rosto anuviado de dona Carmosina, aquele era um tema exaltante. Aproximou-se do rio, cresce o rumor da correnteza sobre as pedras, rolam estrelas do céu, desfazem-se nas sombras.

— É verdade, ela me disse que já decidiu não ir mais embora. Conversamos muito, Nora e eu, nesses dias que você passou em Mangue Seco. Ela está gamada, morta de paixão. Coisa mais linda, Tieta. Dois desiludidos, dois… — busca na memória a palavra moderna, lida há poucos dias no artigo da revista — … carentes que se encontram, dão-se as mãos e se completam. Está disposta a ficar aqui.

— E você pensa que ela vai se acostumar nesses confins? Por ora, está feliz porque no namoro com Ascânio esquece o que sofreu e ela sofreu como cabrito desmamado. Mas, depois? Eu nasci aqui e aqui quero terminar meus dias mas só voltarei de vez quando estiver velha, coroca. Antes, só a passeio. Para quem chega de cidade grande, acostumar em Agreste não é fácil. Mesmo quem nunca arredou os pés daqui se queixa da pasmaceira, veja Elisa. Se eu imaginasse o que ia acontecer, não teria trazido Nora. É uma tolona, sentimental, acaba perdendo a cabeça, afeiçoando-se a Ascânio, vai dar problema.

— Eu sei. — Dona Carmosina suspira, dramática que nem autor de folhetim em cena culminante, de novela de rádio em fim de capítulo. — Ela é milionária, ele é pobre! Mas…

— Não é por isso, Carmô, todos os dias a gente assiste a casamento de rico com pobre. Você pensa que eu ia me preocupar se o problema fosse esse? Já estaria cuidando do enxoval.

— Qual é, então?

Tieta detém-se na beira do caminho para dar maior ênfase à confidência, persiste o clima de melodrama, o suspense. Dona Carmosina espera, tensa, incapaz de esconder a impaciência:

— O quê?

— Você sabe que ela foi noiva de um vigarista que só queria o dinheiro dela. Botou máscara de engenheiro, fachada não lhe faltava mas era tudo. Ela, cega de paixão, querendo financiar uns projetos do tipo, só não largou o dinheiro porque eu manjei a coisa e manerei. Foi quando a polícia apareceu atrás dele e se ficou sabendo da ficha completa do patife. A pobre caiu de cama, quase morreu. A mim não me surpreenderam as revelações da polícia, não me engano com as pessoas, bato os olhos num fulano e já sei o que vale, a qualidade do caráter e o tamanho do cacete…

Dona Carmosina, descontraindo-se, explode numa gargalhada:

— Mulher mais maluca, nem depois de morta vai tomar jeito. Inventa cada uma: a qualidade do caráter, o tamanho do cacete… Essa é boa! — perdida em riso, refaz-se aos poucos, volta ao amor de Nora e Ascânio. — Disso tudo eu já sabia, você mesma tinha me contado. E é por isso que eu digo: dois feridos que convalescem, dois carentes — Dona Carmosina aproveita para repetir a palavra recém-aprendida — que se completam. Se o problema da diferença de fortuna não atrapalha, então…

— Acontece que ela foi noiva desse tipo uns bons seis meses, Carmô. Noivado em São Paulo não é como em Agreste. Lá, namorados e noivos têm muita liberdade, saem sozinhos para festas, para boates, fazem passeios que duram dias e dias… noites e noites… As moças andam com a pílula na bolsa, junto do batom.

— Estou entendendo…

— Pois é. Esse negócio de moça casar virgem, já era, como dizem os cabeludos. Só vigora em Agreste. O fato dele ser pobre não tem nenhuma importância, Nora não liga a mais mínima para isso. Nem ela, nem eu. Mas você acha que nosso amigo Ascânio… — uma pausa. — É por isso que estou preocupada, Carmô.

— Agora, quem fica ainda mais preocupada, sou eu. Preocupadíssima. Por que a vida é tão complicada, Tieta?

— Sei lá! E podia ser tudo tão fácil, não é? Porca miséria!, como dizem meus patrícios, os italianos de São Paulo.

Voltam a andar, dona Carmosina digerindo a incômoda revelação, ai, meu Deus, o que fazer? Tieta completa, antes que alcancem as margens do rio:

— Agora que comprei a casa, mandei arrumar e pintar, instalo os velhos, deixo dinheiro com Ricardo para acabar de construir o barraco em Mangue Seco, pego Leonora e vou embora.

— Você não pode ir embora antes da inauguração da luz, já lhe disse. De jeito nenhum.

— Tinha pensado em ficar mas não posso. Não é tanto por mim, se bem não deva me retardar demais, deixei em São Paulo tudo que é meu na mão dos outros…

— Na mão de gente de confiança…

— Mesmo assim. Quem engorda o porco é o olho do dono. Eu ficaria para a festa, se não fosse por Nora. Preciso tirar ela daqui enquanto é tempo. Ela não agüenta outro baque, pode até morrer…

— Não se precipite. Espere uns dias, quando você voltar de Mangue Seco eu lhe direi alguma coisa.

— Sobre?

— Ascânio e Leonora…

— A vida pode ser tão fácil, a gente mesmo é quem complica tudo.

Atingem a beira do rio, as canoas descansam no ancoradouro. Um pouco além, na bacia de Catarina, os pés de chorão debruçam-se sobre os penedos, aumentam a escuridão. A brisa traz um leve gemido, vem daquelas bandas. As amigas avançam uns passos com pés de lã. Vultos nos esconsos; sussurros, ais, sob os chorões. A vida pode ser tão fácil, repete Tieta. Sorriem as duas comadres, a bonita e a feia, a que conhece o gosto e a carente (para usar a palavra da moda, tão de agrado de dona Carmosina). Tieta anuncia:

— Já escolhi o nome para minha cabana em Mangue Seco.

— E qual é?

— Curral do Bode Inácio. Era o garanhão do rebanho do velho, um bode que mais parecia um jegue de tão grande. O saco arrastava no chão. Com ele aprendi a querer e a conseguir.

Multiplicam-se os ais de amor na ribanceira. Apressadas, as duas amigas retomam o caminho da casa cheia em cuja sala de visitas o vate Barbozinha, em encarnação anterior, à frente do povo de Paris, assalta e conquista a Bastilha, liberta milhares de patriotas aprisionados. Magnífico episódio, com espadas e arcabuzes, fidalgos, tribunos, a carmanhola e sem perigo de cadeia.

 

ONDE O LEITOR REENCONTRA O

SEMINARISTA RICARDO, ANJO DECAÍDO, SOBRE O QUAL HÁ BASTANTE TEMPO

SÃO FEITAS APENAS VAGAS REFERÊNCIAS (QUASE SEMPRE ELOGIOS NA BOCA

LASCIVA DA TIA) E DE COMO ELE SE ATIRA AO MAR

 

DO ALTO DOS CÔMOROS, RICARDO OBSERVA O RIO NA

IMPACIÊNCIA de assinalar a lancha de Elieser ou o barco de Pirica, talvez a canoa a motor do comandante, e vislumbrar o vulto de Tieta. Como prosseguir ali sem ela, tendo o pecado por única companhia? Assim os viu desembarcar de uma canoa que eles próprios manobravam. Não estavam todos os que haviam acampado nas proximidades do Arraial do Saco, apenas dois casais e uma criança pequena, de dois anos quando muito.

Curioso, Ricardo acompanha cada movimento. O rapaz escuro, de cabelo esgrouvinhado, levanta a improvisada âncora, pedra disforme, amarrada a uma corda, atira-a ao mar, prendendo a canoa. Toma a criança ao colo. O outro, magro e alto, segura um violão. Das duas moças, uma exibe longos cabelos doirados escorridos sobre as costas, provavelmente a mãe da menina pois desce junto com o rapaz que leva a criança; a outra, com flores nos cabelos, é miúda e ágil, atravessa correndo entre as casas dos pescadores, perseguida pelo moço do violão. O som do riso sobe os cômoros e chega até Ricardo. Estão descalços os cinco e andam para a parte mais bela da praia, a que fica exatamente embaixo da duna mais elevada, de onde Ricardo espia. A mais bela e a mais perigosa, a arrebentação violenta impedindo o banho de mar. Somente quem nasceu e se criou em Mangue Seco atreve-se a nadar naquele trecho de mar erguido em fúria contra as montanhas de areia.

Nas férias anuais em Mangue Seco, quando o major era vivo, Ricardo acompanhara algumas vezes os filhos de pescadores, aventurando-se entre os vagalhões, mas o pai, tendo-o pegado em flagrante, proibira tal loucura, sob ameaça de castigo severo. Mais de um banhista ali deixara a vida por ignorância ou por desejo de exibir-se, derrubado e arrastado pela violência das ondas, massacrado de encontro aos cômoros. Bravio mar de tubarões, sombras cor de chumbo em meio à água revolta. Inesperados e soberbos, alçam-se em meio às vagas, rondam a praia, esfomeados, multiplicando o perigo. Pouco antes, Ricardo enxergara os vultos de um bando ameaçador, saltando na tormenta. Foram-se mar afora, já não se distinguem as manchas de chumbo e morte.

Do alto, Ricardo vê os dois casais e a menina correndo pela praia, brincando. Sentam-se depois na areia e logo ressoa o som do violão, trazido pelo vento. Trechos rotos de melodia, parece música religiosa, lembra cantochão ouvido no convento dos franciscanos em São Cristóvão. Na véspera, tendo ido ao Arraial do Saco tratar de compra e transporte de material para a construção, Ricardo soubera do acampamento dos hippies. Um grupo de mais de vinte moças, rapazes e crianças, novidade recente e provocante.

Os dois filhos do dono da cerâmica onde adquirira os tijolos — o pedreiro errara no cálculo, levando a tia a comprar quantidade bem menor que a necessária —, rapazolas mais ou menos de sua idade, convidaram-no a ir espiar, ele aceitou.

No seminário e em Agreste escutara muita coisa sobre os hippies, opiniões as mais contraditórias, a maioria de virulenta crítica. Ascético e feroz, Cosme, comentando notícias dos jornais, condenara os hábitos indecentes, perniciosos, desses inimigos da moral, entregues à libertinagem e à droga, refugando a lei e os princípios sacrossantos, monstros da pior espécie. Dias depois, por acaso, quando no pátio buscava entender a Imitação de Cristo, preparando-se para a meditação espiritual da manhã seguinte, Ricardo surpreendera singular conversa, as vozes em discussão se elevando na roda próxima, formada por alguns padres, entre os quais o próprio reitor, o reverendo ecônomo, o padre Alfonso — o reverendo Alfonso de Narbona y Rodomon — e frei Timóteo, frade franciscano, vindo de São Cristóvão, para dar a aula semanal de teologia moral no seminário maior, cuja sapiência e santidade corriam mundo. Parecendo um caniço de tão magro, os cabelos revoltos, a barba rala, os olhos de água pura e a voz mansa, defendera os hippies dos ataques de d. Alfonso de Narbona y Rodomon, a vociferar em dura mescla de espanhol e português. Nobre castelhano, guarda-costas de Deus e da pureza da fé, leão-de-chácara dos bons costumes, vigário da catedral de Aracaju e professor de teodicéia no seminário menor, d. Alfonso era conhecido entre os fiéis pela alcunha de Labareda Eterna devido à virulência dos sermões repletos de ameaças aos pecadores.

Indiferente à veemência da condenação total aos hippies, enunciada em rude portunhol pelo fidalgo de Castela, d. Timóteo os considerou não apenas filhos de Deus, como nós todos, mas os promoveu a filhos bem-amados pois renegam a hipocrisia, refugam a mentira, levantam-se, pacíficos, contra a falsidade, contra o cinismo anti-humano da sociedade atual, enfrentam a impiedade e a corrupção do mundo, suas armas são flores e canções, sua bandeira a de Cristo: paz e amor. Condenável a maneira como agem? Que desejava d. Alfonso? Que eles tomem das armas, das bombas, das metralhadoras? Vão pelo mundo dando o bom exemplo da alegria de viver. Perseguidos como sempre o foram todos os reformadores, os rebeldes, os contestatários da ordem vigente e podre. Os padres ouviram sem vontade ou sem coragem de contestar; o renome de frei Timóteo, sábio e santo, fazia-o carismático, os reverendos curvavam-se à sua passagem e o bispo d. José o tratava de meu pai. Opiniões contraditórias, polêmica desatada, mas nos ouvidos de Ricardo ficara ressoando a voz serena do franciscano a repetir as palavras paz e amor, divisa de Cristo, saudação dos hippies.

Demorou-se com os dois companheiros espiando de longe o acampamento, onde rapazes e moças pareciam indiferentes ao tempo, sentados em grupo a conversar. Alguns trabalhavam metal e couro, um magricela tocava violão, outro descansava a cabeça no colo de uma jovenzinha, todos vestidos com aquelas roupas malcuidadas, com rasgões e remendos, colares nos pescoços, multicores, símbolos místicos. Alguns descalços, sobretudo entre as mulheres. Ricardo viu de longe e pouco; quando um dos rapazes propôs chegarem até lá, recusou, necessitando voltar a Mangue Seco onde os operários esperavam material para as paredes da casa de veraneio da ingrata.

Agora, do alto dos cômoros, ele observa os dois casais e a menina. Reconhece o magricela que dedilha o violão, vira-o na véspera. Deitaram-se na areia os quatro, a criança recolhe conchas, vem trazê-las para a mãe.

Os olhos de Ricardo voltam-se para a lonjura do rio nas primeiras sombras do crepúsculo. Que faz a tia, por que não volta? Por que o deixa ali, sozinho, sem a presença, a voz, os confusos argumentos ainda assim consoladores, a mão, os lábios, o seio acolhedor, o ventre em febre onde todos os problemas se resolvem, as dúvidas se desfazem, a aflição e o tormento transformam-se em alegria e exaltação? Estaria ausente apenas uma noite, uma, tão-somente, garantira. Duas já ele atravessara, insone e desolado.

Talvez porque a música houvesse cessado, Ricardo retorna o olhar vazio de esperança e fita a praia. Os casais despiram-se, o jovem do violão e a rapariga risonha trocam um longo beijo, estreito abraço. O rapaz escuro e a moça loira, com a menina, adiantam-se para o mar, quem sabe na intenção de banhar-se. Os cabelos da mulher rolam pelas espáduas, tocam-lhe as ancas. Ricardo põe-se de pé, grita, avisando do perigo. Para enfrentar as vagas que retornam enfurecidas da luta contra as dunas e se preparam para novo embate, é necessário ter nascido e crescido em Mangue Seco, na selvagem violência do oceano e do vento desatados. O perigo é mortal, sem falar na sombra fatídica dos tubarões.

O grito perde-se na ventania, não alcança a praia, pai, mãe e filha adentram-se no mar, Ricardo dispara cômoro abaixo, nem repara no outro casal a fazer amor, joga-se na água exatamente quando o vagalhão descomunal encobre os banhistas, derruba o rapaz e a moça, arranca a menina da mão da mãe e a arrasta para longe. Uns minutos mais e o pequenino corpo será lançado pelo mar contra a montanha de areia transformada em pedra.

Ricardo mergulha, desaparece sob as ondas, quando surge mais adiante traz a criança presa contra o peito. Utiliza apenas o braço livre para nadar. Recordando conhecimentos adquiridos na infância, submerge outra vez para aproveitar a força da vaga no retorno. Durante um instante infinito, da praia enxergam-lhe apenas o braço erguido, sustentando a menina fora da água. E se não conseguir retornar, se perder a força e arriar o braço? Só respiram quando ele se alça em meio à espuma, liberto das vagas.

A mãe atraca-se com a filha, buscando sentir-lhe a respiração, treme da cabeça aos pés. O pai tenta dizer alguma coisa, não consegue, a voz estrangulada. O outro casal já não faz amor; estão os quatro de pé, unidos na angústia e no alívio; nus, de corpo e alma.

Ricardo apenas os enxerga. Ouve por fim o choro da criança, sorri e sai correndo enquanto a noite tomba de vez, sem prévio anúncio, noite de quarto minguante, dunas fantasmagóricas. Nas trevas da noite acorrem os demônios.

OceanofPDF.com

DO VERDADEIRO INFERNO

 

NAS TREVAS DA NOITE ACORREM OS DEMÔNIOS.

DURANTE O DIA, atendendo e ajudando os operários, trabalhando como se fosse um deles, serrando troncos de coqueiros, revolvendo a massa de barro, areia e cimento, transportando tijolos na canoa do velho Jonas, na qual atravessa a arrebentação da barra para ir ao Arraial do Saco, Ricardo esquece a chaga exposta no peito, o pecado e a condenação. Chega a conceber esperança de perdão como se nada de grave houvesse sucedido.

Na canoa, durante a breve travessia, ao fitar a face plácida de Jonas, ouvindo-lhe a voz monocórdia, de imutável diapasão, acontece-lhe por vezes sentir repentino interesse pela vida. Pitando o cachimbo de barro, dominando a embarcação, mantendo-lhe o rumo, Jonas desenrola o novelo das histórias por ali acontecidas, casos de tubarões, aventuras de pesca e contrabando, atrapalhados, equívocos amores de Claudionor das Virgens. Sempre que o trovador aparece por aquelas bandas, pode-se apostar sem medo de perder: vai acabar em arrelia e confusão, mulherengo como ele não há outro. Jonas puxa fumaça do cachimbo, compara:

— Femeeiro que nem padre-cura…

Que nem um padre-cura? E por quê? Jonas ri, um riso descansado, ao recordar a condição de Ricardo, aprendiz de padre, fornece explicação e conselho, envelheceu no mar, perdeu o braço esquerdo pescando cações, recolhendo contrabando, nada da vida lhe é estranho e indiferente:

— Tu vai ser padre, pois fique logo sabendo que padre sem catinga de mulher não presta. Como há de entender o povo se não sabe fazer menino? Andou um desses no arraial, de nome Abdias, não se deu com ninguém, as mulheres tinham medo dele, a igreja ficou vazia. Já no tempo do padre Felisberto, que viveu no Saco uns cinco anos, por causa do reumatismo, um padre direito com comadre e sete filhos, a devoção era grande, até nós, de Mangue Seco, vinha pra missa, para ouvir ele falar, cada sermão mais desenvolvido, contando como o céu é bonito, com música e festa todos os dias. Não era como o outro que, por desconhecer mulher, vivia no inferno, só sabia da maldade. Padre que não cheira a xibiu, cheira a cu, não presta.

Sem se importar com o escândalo a refletir-se no rosto de Ricardo, Jonas manobra a canoa e conclui sua filosofia:

— Nenhum homem pode viver sem mulher, é contra a lei de Deus. Para que Deus fez Adão e Eva senão para isso? Me responda, se puder.

O moço não responde mas da mesma maneira que a labuta na construção da casa, a tosca visão de Jonas lhe dá ânimo e esperança de desatar o nó do desespero.

Desatá-lo ou cortá-lo com o fio agudo do desejo quando ela, a tia, alegre e aloucada, rompe as comportas do medo e da contenção em que ele se afoga. Na presença de Tieta, esquece a chaga aberta no peito, o pecado, o voto rompido, a condenação, mesmo sendo noite e estando os demônios soltos. A presença, o riso, a voz morna, o amplexo, a boca, as mãos, as coxas, o ventre aceso valem lepra, estigma e inferno.

Na ausência da tia, porém, permanece leproso, marcado com o ferrete dos malditos, em danação, sem instância de saúde, pois ela não estando, os demônios se apossam dele e o revestem inteiro de pecado, exibindo-o indigno e perdido.

Na rede, Ricardo a procura, por que ela demora tanto? Abandonara o colchão de crina da cama do comandante e de dona Laura, como deitar-se ali sem a ingrata? Em Agreste, quando ainda lutava para conservar a castidade, nas noites de tentação, na rede pendurada no gabinete do dr. Fulgêncio, na insônia ou no sonho, ele a enxergava e sentia nua, a perturbá-lo até que aflito se esvaísse na tentativa de possuí-la sem saber como. Durante todas aquelas noites, a tivera a seu lado, não adiantando prece e promessa, nem o decidido propósito de repelir a visão satânica a torná-lo possesso. Agora, no entanto, quando conhece a rota e o porto, nem em sonho ela aparece e se ele tenta imaginá-la na rede estendida, nua, vê apenas Satanás e o fogaréu.

Que faz a desalmada em Agreste que não vem em seu socorro, libertá-lo? Quase o ofende sabê-la na cidade, longe dele. Lá, todos os homens vivem de olhos postos nela; se atravessa a rua, as miradas e os comentários seguem-lhe o rastro das ancas em balouço. Cercada por um halo de desejo reprimido, ciranda de fogo da qual todos participam: de Osnar, com boca suja e a língua solta, a Barbozinha, cujos versos descrevem-na nua e impudica na espuma das ondas; do árabe Chalita, que a conheceu mocinha, a Seixas, que a prefere às primas; de Aminthas, metido a engraçado, a Bafo de Bode, em destempero e afronta. Ricardo, acompanhando a tia, vestido de batina, ouvira, ao passar, a frase infame do mendigo: ai, quem me dera morrer na sombra desse copado buceteiro! Em lugar de zangar-se, Tieta sorrira enquanto o seminarista virava o rosto para esconder a confusão. Aprisionada nesse círculo de desejo, distante de seus braços, quem sabe se, leviana, não sorrira para algum outro? Qual? Ricardo não personaliza, todos lhe parecendo indignos dela, não merecendo sequer fitá-la, quanto mais recolher sorriso, olhar, gesto de interesse e atendimento.

Quem mais indigno, todavia, do que ele próprio, Ricardo, por menino, sobrinho e seminarista, com votos jurados e ignorância completa? Não obstante, ela atentara em sua presença, sentira-se perturbada com a ânsia a devorá-lo, correspondera-lhe ao desejo. É verdade que, nesse estranho caso, Satanás encontrava-se envolvido, diretamente interessado na conquista de duas almas puras: a dele e a da tia. Os outros, eram todos uns perdidos, do bêbado imundo a Peto, com treze anos incompletos e desregrados.

Com qual deles? De repente, na noite aflita, de demônios soltos, Ricardo esquece o pecado, o medo do castigo, o temor de Deus, o sentimento de culpa, preso a um pensamento apenas, único e terrível, que se apossa dele e o mortifica, aperta-lhe o coração, sufoca-lhe o peito: imaginar que ela, Tieta, sua Tieta, sua mulher, sua amante, possa estar gemendo em outros braços, beijando outra boca, resvalando a mão por outro peito, enrolando as coxas noutras coxas. Com outro a enxerga, a suspirar e rir; será Ascânio, tio Astério, o comandante, quem?

Ricardo não suporta pensar nisso, fecha os olhos para não ver. Não existe lepra, estigma, fogo do inferno que se compare a esse sentimento a afogá-lo em raiva, destroçando-lhe as entranhas, pondo gosto de fel na saliva entre seus dentes, uma dor aguda a lhe atravessar os ovos. Em cama ou rede, em chão de terra ou de areia, com outro a desfalecer, a nascer e a morrer, ah, não! Se tal desgraça acontecesse, aos crimes contra a castidade ele acrescentaria crime de morte, de assassinato e suicídio. Somente Deus que dá a vida, pode dar a morte, Ricardo sabe. Mas se levantaria contra Deus, preferindo vê-la defunta do que em desmaio noutros braços e, sem ela, não deseja a vida e sim a morte.

Continuar: parte 3 de 4