Tieta do Agreste
Terceiro episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
A lua se desfaz em minguante na noite de destroços, Ricardo desce aos infernos, se consome no ciúme, como pode sofrer tanto? Salta da rede, corre para o mar, o camisolão o atrapalha, ele o arranca e joga longe, atira-se na água, nada até cansar, até o completo esgotamento. Adormece na praia, nu em pêlo.
DA MEDITAÇÃO ESPIRITUAL
AINDA ADORMECIDO, PERCEBEU UM RUMOR DE RISOS
ALEGRES, som de violão e a melodia de um acalanto tão bonito e apaziguante que nele se embalou, encontrando por fim Tieta num extenso e tranqüilo território de campo e praia, morros e dunas; nua, com um bordão de flores retirado do altar de são José, ela conduz irrequietas cabras, leva-as a pastar nas ondas. Os pés alados não tocam a areia, tampouco os de Ricardo. Dão-se as mãos e se encaminham, limpos de corpo e alma, inocentes, para a mão de Deus aberta para recebê-los. Deus contém o mundo em seu regaço: o campo, a praia, o mar, as cabras e os amantes. Soam então as trombetas do Juízo Final, terna cantiga de ninar, e o profeta Jonas, velho pescador de contrabandos, eleva-se das águas, cavalgando um tubarão, e proclama a verdade inconteste do Senhor: nenhum homem, seja rico ou pobre, velho ou moço, forte ou fraco, pode viver sem mulher, nem mulher sem homem, é contra a lei de Deus. Ruem as muralhas do mar, quando Jonas, estendendo o cotoco do braço, ensina que o amor não é pecado, nem mesmo de tia com sobrinho, de viúva com seminarista. Uma menina vem e orna de flores os cabelos de Tieta e os de Ricardo e diz paz e amor, numa voz de passarinho.
Música e canto prosseguem além do sonho e, ao toque dos dedos da criança, Ricardo descerra os olhos. Recorda-se do desvario da noite de ciúme, da desesperada prova de natação, da queda, exausto e nu, sobre a areia onde dormira e ainda se encontra. A menina lhe entrega a última flor, açucena do campo; ele está cercado por uma roda de moças e rapazes, algumas crianças, todos igualmente nus e sorridentes, a cantar para ninar seu sono. Acalanto a aquietar-lhe o coração, uma canção estranha, portadora de paz e alegria, música celeste. O violão que o magricela tange sobre o peito é harpa de anjo. Ricardo senta-se devagar, sorri.
Não se importa de estar completamente nu, nem repara, admirado ou curioso, com malícia ou cobiça, na nudez em torno, olha simplesmente e vê as moças belas, algumas quase meninas de tão jovens, os rapazes barbudos ou imberbes. Cabelos compridos, por vezes rolando sobre os ombros, não eram assim os cabelos de Jesus? Noutros, as crespas cabeleiras desabrocham em grandes flores desfiadas ou em emaranhados ninhos de pássaros. A roda prossegue em canto e dança, ciranda cirandinha vamos todos cirandar. Ricardo põe-se de pé.
Encontra-se completamente livre do medo, da servidão, do pecado. Na barra da manhã, a dança e o canto, o sorriso, a tranqüila face das moças e dos rapazes restituem-lhe a alegria e a paz perdidas.
Libertos do tempo, sem pressa e sem horário, cantam e dançam para ele na atmosfera azul onde nasce o dia. Uma das moças, a mãe da menina resgatada das ondas, na véspera, deixa a roda, se aproxima e o beija na face e sobre os lábios e Ricardo conheceu então a fraternidade, soube-lhe o significado e o gosto. Depois, correram todos para o mar e as crianças, tomando-o pelas mãos, o conduziram.
Tudo era mistério, sonho, fantasia. Sobre as águas serenas a manhã desponta, enquanto moças e rapazes cortam as ondas mansas e as crianças recolhem conchas azuis, vermelhas, brancas, cor-de-rosa. Alguns casais amam-se na madrugada mas Ricardo não procura ver nem saber, estendido entre eles na praia, em silêncio, cercado de conchas que as crianças lhe oferecem.
Depois, tomando das roupas velhas, desbotadas, rotas, poucas e precárias, reunindo a meninada, rapazes e moças se dirigem para as canoas. Não perguntaram o nome de Ricardo, não lhe disseram nada, nada lhe pediram e sim lhe deram alguma coisa grande, antes desconhecida para ele, uma pureza nova, não aquela do seminário dependente do medo e do castigo; agora o pecado já não existe. Nem o demônio, nem a maldade, nem o desespero, varridos da face da terra. Para sempre.
Da fímbria da praia, do começo do mar, gritam em despedida: paz e amor; e vão-se embora. Paz e amor, irmão. Ricardo ficou parado, quieto e redimido.
DA INESPERADA CONFISSÃO
AO SE DIRIGIR À PRAIA PARA TOMAR A CANOA ONDE
JONAS O ESPERA para levá-lo de volta a Mangue Seco, nas mãos os embrulhos com o serrote novo e os quilos de pregos, Ricardo enxerga, sentado numa espreguiçadeira, à sombra de um pé de tamarindo de tronco secular, silhueta muito sua conhecida. Apesar da calça de brim e da camisa esporte, reconhece frei Timóteo e se recorda que os franciscanos de São Cristóvão possuem uma casa de veraneio no Arraial do Saco.
Aproxima-se e lhe pede a bênção. O frade busca reconhecê-lo, onde viu aquele rosto adolescente? Ricardo explica: no seminário, meu pai. Não é seu aluno, ainda está terminando o seminário menor, o curso secundário, somente depois vai realmente começar; contudo, já chegou à fronteira da decisão. E chegou não em tranqüila caminhada mas em desesperada luta com o demônio.
— Meu pai, quando posso vir me confessar?
— Quando quiser, meu filho, quando sentir necessidade.
— Pode ser agora mesmo, meu pai?
— Se deseja, meu filho.
Ricardo fica parado, esperando, certamente frei Timóteo vai vestir a sotaina e levá-lo ao confessionário na capela do arraial. Mas o frade aponta a outra espreguiçadeira:
— Descanse os embrulhos, sente aqui junto de mim, primeiro vamos conversar, depois eu lhe confesso. A tarde está bonita, vamos aproveitá-la, Deus a fez assim gloriosa para que os homens fiquem felizes. A felicidade dos homens é a maior preocupação de Deus. Você está aqui de férias?
— Estou, sim, meu pai. Quer dizer, aqui não, em Mangue Seco.
— Mangue Seco é o lugar mais belo do mundo. Não é verdade que Deus tenha descansado no sétimo dia, como rezam as Escrituras. — O frade riu, como se achasse graça no absurdo que vinha de pronunciar. — No sétimo dia o Padre Eterno estava inspirado, resolveu escrever um poema, fez Mangue Seco. Aliás, até hoje ele continua fazendo Mangue Seco, com a ajuda do vento, não é mesmo? Você está com sua família?
— Só com minha tia mas há três dias estou sozinho, ela foi até Agreste, eu sou de lá. Minha tia mora em São Paulo, veio passear, tinha ido embora há muito tempo. Eu nunca tinha visto ela, antes.
Como o frade não comentasse, prossegue:
— A tia está fazendo uma casa em Mangue Seco, comprou terreno, é rica. Eu estou tomando conta da obra. Vim buscar material. O pedreiro, o carpinteiro, os serventes são daqui.
— O povo de Mangue Seco não exerce esses ofícios, quem nasce ali só sabe lidar com o mar e não é pouco. Raça forte, meu filho.
— Meu pai, um dia no seminário ouvi o senhor falando dos hippies para os reverendos padres, dizendo bem deles, dizendo que não são ruins.
— Não me lembro desse dia especialmente mas só digo bem dos hippies, são pássaros do jardim de Deus, todos eles, os místicos e os ateus.
— Os místicos e os ateus, como pode ser isso, meu pai? Não cabe em meu entendimento.
— Não é o rótulo que dá qualidade à bebida, meu filho. Para Deus o que conta é o homem e não o rótulo. Você está com vontade de deixar o seminário e seguir com os hippies?
— Não, meu pai. Não sei se tenho vontade ou não de ir com eles, nunca pensei nisso. Mas, se tivesse, acho que não ia porque minha mãe era capaz de morrer. Para ela, os hippies são demônios, encontrou alguns em Aracaju, ficou horrorizada. Tem medo que meu irmão, se deparar com eles, vá atrás. Meu irmão menor, Peto. Ainda não fez treze anos e não gosta de estudar.
— Por isso você quis saber dos hippies, por causa de seu irmão?
— Não, meu pai. É que, ontem, eu estava de coração pesado, na certeza de ter ofendido a Deus e posto fim à minha vocação, estava cheio de raiva e de ciúme, como um amaldiçoado; só consegui dormir na praia, depois de nadar muito. Quando acordei, os hippies me cercavam e cantavam para mim. Eles sossegaram meu coração, me deram a paz que eu procurava.
— Paz e amor, são palavras de Deus as que eles usam. Pássaros do jardim celeste, eu não lhe disse? Você sente vocação para o sacerdócio ou foi mandado para o seminário?
Ricardo medita, se interroga, antes de responder:
— Mãe tinha feito uma promessa, acho que pela saúde de meu pai. Mas quando ela me contou, eu mesmo quis ir, desde pequeno mãe me ensinou a temer a Deus.
— A temer ou a amar?
— E se pode amar a Deus sem ter medo dele? Não sei separar as duas coisas, meu pai.
— Pois deve separá-las. Nada do que faça por medo é virtude. Nada do que faça por amor é pecado. Deus não preza o medo nem os medrosos. Você deseja mesmo ser padre?
— Desejo, sim, meu pai, mas não posso mais.
— E por que não pode, se deseja?
— Não mereço. Pequei, violei a lei de Deus, desfiz o trato, rompi o voto.
— Deus não é homem de negócios, meu filho, não faz tratos de toma e dá e quando um filho seu viola a lei, tem o remédio à mão, a confissão. Você pecou contra a castidade, não foi?
— Foi, meu pai.
— Com mulher?
— Sim, meu pai. Com…
— Não lhe perguntei com quem, isso não muda a qualidade da culpa.
— Pensei, meu pai.
— Diga-me apenas uma coisa: apesar do medo do castigo, você detestou o pecado ou acha que valeu a pena, mesmo tendo de pagar no inferno?
— Apesar do medo, não me arrependi, meu pai. Não vou mentir.
Sorriu o frade com ternura e disse:
— Agora se ajoelhe para receber a penitência e a absolvição.
— Mas, meu pai, como vou receber a absolvição se não me confessei ainda?
— O que você vem de fazer, senão se confessar? Reze três padre-nossos e cinco ave-marias e, se pecar de novo, não fuja de Deus com medo como se ele fosse um carrasco. Se confesse, a um padre ou a Deus diretamente.
Ajoelhou-se Ricardo, recebeu bênção e absolvição mas ainda quer saber se deve ou não continuar no seminário, alcançar o seminário maior preparando-se para a santa missão de levar a palavra de Deus aos homens.
— Meu pai, depois do que eu fiz ainda posso aspirar ao sacerdócio? Ainda sou digno?
— Por que não? Há quem diga que os padres devem casar, há quem diga que não, essa é uma discussão difícil que não cabe aqui. Eu não sei lhe dizer qual o melhor padre: se aquele que castiga o corpo, deixando-o amargar-se no desejo, aquele que se oprime para assim servir a Deus, macerando a própria carne, violentando-se, ou o que sofre por ter pecado, aquele que não resiste ao apelo, se entrega e se levanta para cair de novo. Um se martiriza, inimigo do próprio corpo, é forte, se santifica talvez. O outro peca, é fraco, mas ao pecar se humaniza, abranda o coração, não vive em luta com o próprio corpo. Qual deles pode melhor servir a Deus e aos homens? Não posso lhe dizer, sabe por quê?
Ricardo fita o velho sacerdote, frágil carcaça, olhos de água, luminosos, a mão ossuda que o abençoara e absolvera do pecado:
— Por que, meu pai?
A voz de frei Timóteo é cálida e paterna:
— Quando eu me ordenei já era um velho. Velho e viúvo. Fui casado, sou pai de quatro filhos, tenho o corpo em paz. Procure servir a Deus, servindo aos homens, não sinta medo nem de Deus nem da vida; agindo assim será um bom pastor.
— E o demônio, meu pai?
— O demônio existe e se revela no ódio e na opressão. Antes de ter medo do pecado, meu filho, tenha medo da virtude, quando ela for triste e quiser limitar o homem. A virtude é o oposto da tristeza, o pecado é o oposto da alegria. Deus fez o homem livre, o demônio o quer vencido pelo medo. O demônio é a guerra, Deus é a paz e o amor. Vá em paz, meu filho, volte todas as vezes que quiser e, sobretudo, não tenha medo.
Ricardo beija a mão de frei Timóteo, recolhe os embrulhos:
— Obrigado, meu pai, vou em paz. Agora, eu sei.
Da canoa se volta, para novamente ver na tarde luminosa o frade tão frágil e tão forte. Ainda em vida e já em odor de santidade.
ONDE O AUTOR, ESSE CALHORDA, METE-SE COM ASSUNTOS QUE NÃO SÃO DE SUA CONTA E DOS QUAIS NADA ENTENDE
AINDA EM VIDA E JÁ EM ODOR DE SANTIDADE —
RETOMO O PENSAMENTO do seminarista Ricardo, ao voltar à presença dos leitores para alguns rápidos e indispensáveis comentários com os quais busco fornecer base ideológica e conseqüência aos fatos e às reações dos personagens. Assim evito que me acusem de não estar engajado, de não ser participante, de fugir a comprometimento.
Não podem os senhores me culpar por metido, importuno e maçador: a quantas páginas já andamos no terceiro episódio desse arrastado relato, sem que eu haja interrompido a narrativa? Afinal, cabe-me o direito de fazê-lo, sou o autor e não posso permitir que os personagens se dêem ao luxo de conduzir sozinhos os acontecimentos, ao sabor de emoções e ponto de vista nem sempre os mais convenientes à mensagem desejada.
Desta vez, quem me faz tomar da máquina de escrever é frei Timóteo, frade franciscano, ao que tudo indica um desses muitos sacerdotes progressistas que estão tentando reformar a Igreja, partindo de teorias ditas ecumênicas. Reclamam, exigem um cristianismo militante, situado ao lado dos explorados contra os exploradores, da justiça contra a iniqüidade, da liberdade contra a tirania. Querem limpar a Igreja de antiga incriminação: a de servir aos interesses das classes dominantes, dos aristocratas e dos burgueses, sendo ópio do povo, quando não é Santa Inquisição em caça às bruxas.
Contra tais avançados sacerdotes que estão rompendo preconceitos e reformulando teses, quem sabe reconduzindo a fé cristã às suas origens, levanta-se grita violenta e agressiva, formulam-se libelos provocadores, acusações perigosas, são tachados de subversivos e, por vezes, vítimas de processo e de cadeia — padres na cadeia por subversivos, onde já se viu tal coisa depois de Nero e de Calígula?
Na discussão de dogmas não me envolvo, por não ser causa minha, se bem em princípio a polêmica travada contenha interesse geral. Em matéria de religião mantenho-me neutro por não possuir nenhuma, a todas respeitando. Reportando-me, porém, a conceitos expressos pelo frade e a casos narrados pelo canoeiro Jonas, quero dar meu testemunho sobre o problema em causa: as relações entre castidade e santidade, tão discutidas, e o faço com o espírito livre de prejuízo de qualquer ordem, apenas no interesse gratuito de concorrer para completo esclarecimento do assunto.
Durante séculos e séculos, a castidade constituiu elemento indispensável, ou quase, à produção de um santo ou de uma santa. Quanto mais flagelada a carne, maior a possibilidade de beatificação. Assim consta, ao que parece, do direito canônico.
Não aprovo o profeta Jonas, duvidoso profeta de contrabando surgindo sobre o dorso de vorazes tubarões em lugar de sair do ventre da bíblica baleia, quando afirma, em frase chula, eivada de palavrões, que padre se não cheira a vagina, cheira a ânus, tentando sem dúvida estabelecer discutível conotação entre o celibato clerical e a pederastia. Ora, isso nem sempre acontece, a conotação é imprópria e forçada. Sobra razão, não obstante, ao rude marujo ao garantir a Ricardo que o pecado contra a castidade não impede o sacerdote de atingir a bem-aventurança e o milagre.
Não me proponho analisar teses morais, preceitos religiosos, quem sou eu? Apenas desejo constatar a evidência acima enunciada, citando exemplos e apresentando provas. Posso começar pelo próprio frei Timóteo, em odor de santidade ainda em vida, pois foi casado e é pai de filhos, provou do fruto e isso não impede que entendidos e leigos o considerem um eleito de Deus, e como tal o proclamem e venerem. Casamento e filhos aconteceram antes da ordenação? É certo, não discuto. Não serve o exemplo, portanto? Eu o retiro, não preciso dele, existem muitos, passo a outro.
Passo ao padre Inocêncio, falecido há pouco mais de um decênio, na avançada idade de noventa e seis janeiros, ainda lúcido, capaz de distinguir uns dos outros seus tataranetos. Vigário por mais de cinqüenta anos na cidade de Laranjeiras, enterrou, com devoção e lágrimas, três concubinas, que lhe deram um total de dezenove filhos. Cinco, Deus levou na primeira infância, padre Inocêncio criou e educou catorze, oito varões, todos direitos, e seis moças, todas bem casadas — exceto Mariquinha, muito dada a homens a ponto de Rubião perder a paciência e requerer o desquite. Essa saiu a mim, disse o bom padre na ocasião, inocentando-a, tomando a si as culpas da filha: para quem já tinha tanto pecado, uns quantos a mais não aumentariam a pena. Na casa espaçosa cresceram netos e bisnetos, todos portando o honrado sobrenome do reverendo, Maltez, todos por Deus abençoados. Já avô de vários netos ainda fazia filhos, e quando lhe trouxeram o primeiro tataraneto, para que ele lhe deitasse a bênção e o batizasse, deu graças ao Senhor e louvou seu santo nome, não o fazendo em vão.
Certa feita um missionário, desses que vão de cidade em cidade pelo interior do norte e do nordeste, assustando o povo, e que não era outro senão o nosso conhecido d. Alfonso de Narbona y Rodomon, cuja pronúncia da língua portuguesa já era prenúncio de condenação, ao vê-lo, patriarca no recesso do lar, em companhia da terceira e derradeira amásia, a mais linda das três, jovem de vinte e poucos anos — curimã digna de um rei, no verso do violeiro Claudionor das Virgens, que rimou sua face de romã com a luz da manhã —, ao vê-lo rodeado de filhos e netos, apontou-lhe um dedo acusador e apostrofou:
— Não tem vergonha, padre, de levar vida assim licenciosa, e, não contente de pecar, exibir publicamente as provas do pecado, escandalizando os fiéis?
— Deus disse: crescei e multiplicai-vos — respondeu padre Inocêncio Maltez, a voz pacata e o sorriso ameno. — Eu cumpro a lei de Deus. Não vi, em parte nenhuma, notícia de que Deus houvesse dito que padre não pode ter mulher nem fazer filho. Muito depois é que inventaram essa lorota, obra de algum capado como Vossa Reverendíssima.
Quanto ao escândalo dos fiéis, para mortificação do missionário, ele próprio constatou não existir. Ao contrário, o que havia era certo gáudio, dir-se-ia mesmo certo orgulho do vigor do santo varão, aos oitenta anos se gabando de ainda cumprir as obrigações inerentes ao seu estado de mancebia. Não sendo padre Inocêncio homem de mentiras, os fiéis viram na potente façanha por ele revelada aspecto milagroso, evidente sinal da graça divina.
Aliás, ao que parece, os primeiros milagres o padre Inocêncio os realizou ainda em vida, antes de Deus o chamar ao paraíso onde o esperavam as três mulheres e nove filhos, os cinco mortos cedo, quatro adultos e alguns netos e bisnetos, um pequeno clã. Não foram, no entanto, grandiosas essas primeiras provas de santidade: pequenas curas, feitas à base de simples aplicação de água benta, de moléstias de pouca gravidade. Fez chover por duas vezes quando a seca ameaçou o povo de Sergipe.
Apenas faleceu, porém, e já no mesmo dia do funeral, acompanhado por toda a população da cidade e das vizinhanças, começou a safra dos prodígios, cada qual mais impressionante. Logo depois que o corpo do padre baixou à terra, ali mesmo junto ao jazigo perpétuo onde repousa ao lado dos restos mortais das três saudosas, uma paralítica invocou seu nome, largou as muletas e saiu andando com passo firme. A notícia se espalhou.
Depois desse espetacular começo, nunca mais se deteve o padre-mestre e até hoje as curas se sucedem, cada vez mais numerosas e extraordinárias. Laranjeiras, cidade da maior beleza, esperara durante anos, inutilmente, igual a Agreste, os turistas que não vieram admirar-lhe o casario deslumbrante antes da completa destruição, obra do tempo e do descaso. Em troca, com os milagres do padre Inocêncio, há uma romaria permanente de enfermos e aflitos a acender velas na igreja e no cemitério, junto à campa onde atende o boníssimo e viril pastor de almas. Para mulher estéril, basta rezar um terço e fazer o pedido, é tiro e queda; se forçar a reza, nascem gêmeos.
Na data aniversária de sua morte, a romaria cresce em santa missão e os peditórios somam milhares, a cidade ganha movimento, comércio e alegria. Para acolher os peregrinos, além dos descendentes do reverendo, encontram-se gratos miraculados, à frente dos quais a hoje beata Marcolina, a que largou as muletas no dia do enterro do padre Inocêncio, a primeira agraciada.
Cito um exemplo, poderia citar vários, deixo de fazê-lo por não querer tomar mais tempo aos senhores. Antes de despedir-me, lastimo apenas que não exista em Agreste padre assim perfeito como o reverendo Inocêncio Maltez, o santo de Laranjeiras, para promover o turismo religioso na cidade. Padre Mariano não dá asa a falatórios, por incorruptível ou discreto, não sei. Não pretendo me imiscuir em sua vida, não o acompanho quando vai à capital, resolver assuntos da diocese, certamente; para dar vazão à natureza, segundo a má língua de Osnar e de outros debochados. Pelo menos escândalos não provoca, capazes de desencadear a ira de missionários em busca de pecados; em Agreste jamais deu o que falar. As beatas, a começar por Perpétua, estão de olho em cima dele, permanentemente, não afrouxam a vigilância.
Fugindo à tal vigilância, me despeço. Preparo-me para ir a Laranjeiras, muito em breve. A idade está chegando, sabem como é. Dizem que, com um óbolo para os pobres de padre Inocêncio, se obtêm surpreendentes resultados, tanto mais rígidos e duradouros quanto maior o óbolo. Assim seja.
DA SEGUNDA APARIÇÃO DOS SUPER-HERÓIS, DESTA VEZ VINDOS DO MAR,
CAPÍTULO RECHEADO DE PERSPECTIVAS E PROJETOS, ENVOLVENDO DIVERSOS
CIDADÃOS: DO MAGNÍFICO DOUTOR A OSNAR, DE PETO A ASCÂNIO TRINDADE
QUANDO OS SERES LUMINOSOS ANUNCIADOS NA
PROFECIA DO BEATO POSSIDÔNIO surgiram novamente em Agreste, vindos do oceano Atlântico em potente lancha a motor, moderníssima, aumentados em número e em sexo pois aconteceram machos, fêmeas e andróginos, já se haviam extinguido os ecos do escândalo provocado pela minissaia de Leonora. A formosa paulista, com a compostura demonstrada no correr do tempo, silenciara os comentários e caíra nas boas graças das devotas. Elisa desistira de desobedecer ao marido, guardando o seu polêmico saiote para usá-lo em São Paulo, em breve, se Deus quisesse. Não se atrevera a afrontar o deboche e a condenação de Agreste. Com a segunda aparição dos seres extraterrenos, porém, a minissaia tornou-se objeto familiar aos olhos de toda a população da cidade.
Desabalado, Peto chega da beira do rio, a notícia empolga o bar: está desembarcando um batalhão de gringas. Mal acaba de falar e a praça se enche de marcianos. Ascânio Trindade despenca-se da prefeitura. Todas as fêmeas vestem minissaias de tecido xadrez — escocês graúdo, reconhece dona Carmosina —, blusa amarela, de malha, altas botas de pelica negra. Nem que fosse de propósito, com o objetivo de redimir Leonora por completo, a cidade é invadida por aquele desparrame de coxas e ancas expostas à brisa e aos olhares ávidos da multidão que acorre de todos os lados.
Idênticas no uniforme, devem ser parte de um exército ou de uma seita religiosa. Verdadeiramente lastimável a ausência do beato Possidônio, perde farta matéria para indignação e pragas, seria um pagode. Voltara para Rocinha onde medita e cura.
Veterana, pois vinha pela segunda vez, pernalta e flexível, comandante do batalhão ou sacerdotisa, assistente do guru, a ruiva acena com a mão e retira os óculos, oferecendo à admiração geral os olhos de rímel. Minissaia de boneca a revelar tudo, constata Osnar:
— Não mede um palmo dos meus…
E avança para saudar a viandante do espaço, para reatar antigo conhecimento:
— Por aqui, de novo? Uma honra para o condado de Santana do Agreste.
— Vá, lindo, me ofereça um guaraná, uma Coca-Cola, vá. Morro de sede. Eu e todo o staff aqui presente.
Os demais membros do staff aproximam-se álacres, efervescentes. Nos machos poucos reparam, os olhos não bastam para as fêmeas. Alguns seres deixam em dúvida atroz os tabacudos cidadãos, confundidos, sem saber o que pensar: aquele ali será macho ou fêmea, mulher ou homem? E aquela figura estranha, será hermafrodita?
Abre-se a janela da casa do prefeito, aparece o rosto aflito, a barba de três dias do dentista Mauritônio. O sucesso da minissaia de Leonora na feira provocara assovio, gargalhada, troça e trova; tantas minissaias reunidas na praça provocam pasmo e silêncio. Entupida a calçada em frente ao bar, esvaziam-se as lojas e os armazéns.
— No bar já tem água-de-coco — anuncia Ascânio Trindade convidando o Ente Excelso e seus companheiros. Seu Manuel curva-se para recebê-la.
— Que eficiência! — Miss Espaço eleva a voz, consulta os demais. — Quem gosta de água-de-coco?
— Só com uísque, filha — responde Afrodite, a longa cabeleira batendo no rego da bunda, calça bem colada, blusão hindu, uma cascata de colares.
— Por que ela não está de minissaia? — pergunta Osnar, sentindo-se lesado por não poder admirar coxas e ancas tão prometedoras.
— Porque não é ela, lindo. É ele… Quer dizer… mais ou menos… É Rufo, nosso decorador. Tem um sucesso!…
— Negativo. O lindo aqui não aprecia, que se há de fazer?
Demoram pouco, estão de passagem, vindos de Mangue Seco onde outros ficaram, engenheiros e técnicos, conforme revela a nova Barbarella. Os que estão curtindo as paisagens são publicitários, assistentes, secretárias, relações-públicas, contatos: competentíssima equipe. Desalteram-se no bar antes de voltar à lancha e seguir rio acima no rumo de Sergipe.
— O queima-rodinha é Rufo, e vós, princesa, quem sois e donde vindes? Por acaso polaca?
— Elisabeth Valadares, Bety para os amigos, Bebé para os íntimos. Carioca da gema, garota de Ipanema. Morou na rima?
Sorri com inúmeros dentes, alvíssimos, bem tratados, boca de anúncio de pasta dentifrícia:
— Trago um recado para você, amor. — Amor é Ascânio Trindade para desaponto de Osnar. — Do Magnífico Doutor.
— De quem? — Ascânio, num pé e noutro. — Repita, por favor.
— Do doutor Mirko Stefano, darling, não sabe? Tratam ele de Magnífico Doutor e é mesmo. Você vai se dar conta sozinho, amor. É aquele pão doce que veio comigo da outra vez, se lembra? Sou secretária dele, secretária executiva, sabe? Mandou dizer a você que não pôde vir hoje, teve de ir a São Paulo para uma entrevista importante, mas dentro de poucos dias aparecerá para conversar com você e acertar tudo.
— Tudo?
— Tudo, sim, honey. Tudinho.
— Mas tudo o quê?
— Ah!, isso não sei, quem sabe é o Magnífico, é assunto dele e seu, não me meto. Discrição é o meu lema. Agora, adeusinho, sonhe comigo, petit amour. Adeus para você também, lindo. — Lindo é Osnar, ele se regala: se pego essa boa no escuro, vai sair faísca, Bebé vai saber o valor do pau de um sertanejo.
— Vamos, patota! — comanda a mítica secretária.
— Não tem mais nada para se ver aqui? — pergunta o nervoso Rufo, abanando a cabeleira de Mona Lisa.
— Nada.
— Que saco!
Decorador enfadado mas atento, o esteta Rufo passa em frente a Osnar sem o notar sequer. Mede, porém, o garoto Peto e o aprova mordendo o lábio, lânguido. Osnar acompanha-lhe olhar e gesto: xibungo sem-vergonha, bicha louca, não respeita nem mesmo uma criança. Criança? O corneta cresceu, espichou, certamente de tanto bater bronha, está chegando a hora de Osnar cumprir a promessa feita e levá-lo à pensão de Zuleika.
— Com quantos anos você está, sargento Peto?
— Vou fazer treze no dia 8 do mês que vem.
— Oito de janeiro! Muito que bem.
Treze anos, a idade exata, Osnar vai combinar a festa com Zuleika e Aminthas, com Seixas e Fidélio. Na surdina, escondido de Astério, senão ele conta a dona Elisa e dona Perpétua acaba por tomar conhecimento, o mundo vira abaixo. Osnar sorri consigo mesmo, vai ser uma pândega, um rebucetê.
Ao cair da noite, chegando de Mangue Seco na canoa a motor, comandante Dário disse ter sido vista uma escuna ancorada na barra, dela haviam baixado ao mar duas lanchas, uma das quais a que subira o rio, escalando em Agreste; a outra desembarcara indivíduos e instrumentos na praia. Andaram fazendo perguntas aos pescadores, internaram-se, depois, no coqueiral. Ao comandante todo esse movimento parece suspeito.
Ascânio Trindade, agora inteiramente certo de que se trata do estabelecimento de uma empresa turística na região, promete ao comandante notícias concretas nos próximos dias. O mandachuva enviou a secretária executiva com recado, virá em breve para conversar, na certa para anunciar os projetos e obter apoio da prefeitura. Apoio que não faltará, comandante. Com o turismo reerguendo Agreste, Ascânio, timoneiro a comandar o progresso do município, poderá ter esperanças de transformar o sonho em realidade. Depois de tantos anos, pela primeira vez Ascânio Trindade sente-se mordido pela ambição, pelo desejo de ser alguém. Alguém com possibilidades de lutar por Leonora Cantarelli, bela e rica. Antes completamente inacessível, uma quimera. Agora conquista a ser realizada, meta a ser cumprida por um batalhador com os pés na terra, ideal de quem provou, em transe difícil, em duro desafio, coragem e competência capazes de superar os obstáculos e ir em frente, aspiração de um jovem temerário e lúcido a vencer as provações. A mais difícil, a que o virara pelo avesso, a essa Ascânio já vencera, falta-lhe tão-somente melhorar de vida, ser alguém, para poder aspirar à mão de Leonora, pedi-la em casamento. Ela rica, ele pobre. Não importa mais. Porque, se ele não tem fortuna a oferecer-lhe, em compensação ela já não possui o bem mais precioso que a noiva deve trazer para ofertar ao noivo na noite do matrimônio, o sangue da virgindade. Na face de Ascânio espelha-se a vitória mas não a paz, constata o comandante Dário.
DO SUICÍDIO DO PREFEITO MAURITÔNIO DANTAS E DOS CONSELHOS DO CORONEL ARTUR DA TAPITANGA
IMPOSSÍVEL NEGAR-SE LIGAÇÃO IMEDIATA ENTRE A
PRESENÇA EM AGRESTE dos pioneiros comandados por Elisabeth Valadares, a última verdadeira Garota de Ipanema, e o suicídio do cirurgião-dentista Mauritônio Dantas, prefeito de Agreste, a horas tardias daquela mesma noite encontrado morto, a língua de fora, nu e feio. Usara o pijama para enforcar-se no banheiro.
Quando os desbravadores atingiram o bar e desfalcaram os estoques de Coca-Cola, guaraná e cerveja do honrado português, o dramático prefeito foi visto na janela de sua casa, brechando as exibidas coxas marcianas e cariocas, rosnando nomes, bastante agitado. Mirinha, irmã e enfermeira, não conseguiu levá-lo para o quarto onde, durante dia e noite, entregava-se, ansioso e eficiente, ao exercício da masturbação. Naquela tarde, comprovando haver chegado finalmente a safra de mulheres solicitada, de há muito, ao bom Deus, exercitara-se à janela, à vista daquele mar de coxas, prova da magnanimidade divina.
Na opinião geral, dr. Mauritônio Dantas começara a ficar tantã quando a esposa, Amélia, na intimidade Mel, juntou os trapos e foi encontrar-se com Aristeu Regis em Esplanada, dali tomando o casal rumo ignorado. Aristeu Regis visitara Agreste na qualidade de enviado da Secretaria da Agricultura para estudar problemas ligados ao cultivo da mandioca. Amélia não agüentava mais viver ali, nem mesmo ostentando o título de primeira-dama do município, título e merda sendo a mesma coisa, segundo ela. Aristeu ofereceu-lhe o braço e o desconforto, ela não vacilou. Algumas senhoras, amigas de Mel, confidentes de seus desgostos, afirmam ter o delírio do prefeito começado muito antes pois sujeitava a esposa a desregramentos e abusos insuportáveis, sendo esse o motivo real da fuga. Fosse assim ou assado, o processo de esclerose acentuou-se visivelmente após a partida da infiel. No dizer de Aminthas, nosso prezado governador civil administrara os chifres com perfeita honorabilidade e discrição enquanto Amélia derramou o mel de sua graça ali no município. Quando preferiu fazê-lo longe das vistas e das atenções do cônjuge, o digníssimo chefe da municipalidade não resistira a tanta ingratidão: jamais se opusera às folganças da esposa, por que ela o abandonara?
A demonstração inicial da demência deu-se poucos dias após a deserção de Mel: o prefeito decidiu, no sábado, atender os solicitantes, vindos das roças e povoados com reclamações e pedidos, em estado de completa nudez e, para tal fim, despiu-se, retirando inclusive os sapatos. Manteve-se de meias, no entanto, para não pisar descalço o frio assoalho da sala. Qualquer cochilo de Mirinha e o dentista vinha para a rua ou a praça, de cuecas ou sem, a masturbar-se em público para júbilo dos moleques. Durou meses essa penosa situação comentada aos cochichos.
Quando, da janela, dr. Mauritônio Dantas constatou o movimento de retirada das celestes minissaias, não se conformou. Atendendo à contínua e fervorosa solicitação, Deus as enviara para consolo de seu sofrido servo, como ousavam partir? Interrompendo a solitária e deleitosa prática, saiu porta afora, aos gritos, tentando apoderar-se de pelo menos meia dúzia, necessitando delas para esquentar-lhe o leito gélido com a ausência de Mel, suavizar as perfurantes molas do gasto colchão em que rolava insone. Molas e chifres, segundo o implacável Aminthas.
Seminu e atrasado, decadente campeão, chegou ao bar quando o onírico batalhão já se desvanecia no caminho do rio. Seu Manuel Português, Astério e Seixas sujeitaram o prefeito, o mais delicadamente possível, e o restituíram à irmã em pranto.
No cemitério, Ascânio Trindade, herdeiro certo do posto, fez o elogio póstumo do “saudoso chefe e amigo”. Se bem-nascido na capital, Mauritônio Dantas, nos dezoito anos de residência em Agreste, tornara-se estimado de todos e prestara reais serviços à coletividade, profissional competente e administrador dedicado. Além dos benefícios devidos à diligente atuação de Amélia, que tantos eleitores conquistara para o marido antes de desertar da política, como murmurou Aminthas a dona Carmosina, em fúnebre aparte. Padre Mariano aspergiu o caixão com água benta, terminando de vez com a principal diversão dos moleques de Agreste.
De conformidade com a lei, o presidente da câmara municipal, coronel Artur de Figueiredo, assumiu o posto. Mas o senhor de Tapitanga, marchando com passo firme para os noventa anos, assumiu apenas para constar. Ninguém mais indicado do que Ascânio Trindade para dirigir os destinos, gloriosos e decadentes, de Santana do Agreste.
— Ascânio, meu filho, confio em você. No próximo pleito, a gente lhe elege de uma vez, acabou-se. Enquanto isso, vá conduzindo o barco que eu já estou mais para lá do que para cá, só sirvo para cuidar de minhas cabras e assuntar a lavoura de minhas roças.
Com a bengala aponta para fora da janela:
— Agreste foi terra de muito cabedal e muito fausto. Teve até mulher-dama francesa fazendo a vida nessas bandas. Mais de uma. Tudo se consumiu na fumaça do trem, até o contrabando e as gringas. Só ficou a medicina das águas, o clima salubre, sem falar na boniteza.
Encarou Ascânio com afeto:
— Você é meu afilhado e podia ter sido meu filho se, em vez de se meter com uma lambisgóia na Bahia, tivesse casado com Célia.
Referia-se à filha mais moça, nascida quando o coronel já comemorara sessenta e cinco anos e seis netos. Dos dois casamentos tivera quinze filhos, na rua não sabe quantos.
— Não quis e por isso tenho de sustentar um vagabundo que passa o dia tocando bumbo, esse tal marido de Célia…
— Bumbo, não, coronel. Bateria. Xisto Bom de Som é considerado um dos melhores bateristas de Salvador…
— Isso é lá profissão de homem…
Por um momento pensou na filha, tinha-lhe apego e a quisera na fazenda. Terminara sozinho com as cabras, esparramados pelo mundo os onze filhos vivos.
— Você vai ser o prefeito de Agreste, seu avô foi intendente, eu fui intendente e prefeito. Só lhe recomendo uma coisa: mantenha a cidade limpa. Essa terra sempre primou pela limpeza e pelo clima, desde os tempos de antanho, de dinheiro sobrando e muita animação. Conserve Agreste assim, já que não se pode trazer de volta a animação.
Engano do coronel da Tapitanga: a animação ia voltar inesperadamente, ameaçando saúde, limpeza e clima.
DO HÍMEN NA GARUPA DO CAVALO
POR UMA PORTA SAÍA DAS PROFUNDAS DOS INFERNOS O
SEMINARISTA RICARDO, por outra nelas penetrava, atravessando as chamas eternas, desvairado, Ascânio Trindade, secretário da prefeitura do município de Santana do Agreste, amoroso votado à decepção. Liberto de condenação e pena, ressuscitado no canto dos hippies, na aura da santidade do frade, na força dos remos de Jonas, o seminarista cedeu sua vaga nos infernos ao amargurado sofredor, reincidente vítima dos descabaçadores profissionais.
Para quem fora mais difícil a conversa? Para ele, sobre cuja cabeça ruiu o mundo pela segunda vez, ou para dona Carmosina, aplicada e atenta estudiosa das reações dos seres humanos, mas não fria, insensível analista. Sofrera com a dor do amigo, dilacerando-se ao dilacerá-lo, prendendo as lágrimas nos olhos úmidos ao revelar a verdade sobre as conseqüências físicas do infeliz noivado de Leonora. Desejara ser sutil e delicada, escolher as palavras, explodiu brusca e aflita:
— Seja homem!
Foi tudo quanto disse num arroubo infeliz. Explicação difícil, mesmo para dona Carmosina, de verbo fácil e eloqüente. Quando Ascânio a viu cheia de dedos, vacilante, gaguejando, sem rumo para a confidência, pedira numa voz de condenado à morte:
— Diga de uma vez, seja o que for.
Pensava saber do que se tratava desde a tarde, quando dona Carmosina lhe avisara, em segredo, no Areópago:
— Tenho um assunto a falar com você. Passe lá em casa hoje à noite. Aqui, não pode ser.
Certamente, ante as visitas diárias, as conversas na varanda da casa de dona Perpétua, a presença imposta a qualquer pretexto, as flores, o pássaro sofrê, o casal de noivos montado num burro, evidente insinuação em barro cozido, a noiva em branco, o noivo em azul, dona Antonieta ou a própria requestada tinha mandado dona Carmosina chamar sua atenção para a desagradável inutilidade de tamanha insistência. Não se dava conta do abismo a separá-lo da moça paulista? Um pobretão de Agreste, reduzido a ínfimo salário de servidor municipal de prefeitura sem rendas, não tem direito a aspirar à mão de herdeira milionária, cobiçada por potentados e lordes do sul. Não podia ser outro o tema da conversa.
Restava-lhe saber de quem a iniciativa. De dona Antonieta? De Leonora? Idêntica na terrível conseqüência, a punhalada causaria maior ou menor sofrimento, dependendo no entanto de quem a vibrasse. Ascânio esperava partisse o recado de dona Antonieta, madrasta preocupada com o futuro da enteada, adotada e amada como filha nascida de seu próprio ventre. Não nega razões ao amor materno: ele as compreende e agirá como homem de bem, afastando-se; antes de tudo, a felicidade de Leonora.
Talvez ela também sofresse com a drástica medida e esse sofrimento da bem-amada ajudá-lo-ia a suportar a provação, a cumprir o sacrifício. Podia acontecer também — e por que não? — que Leonora se revoltasse contra a madrasta dinheirista e resolvesse lutar ao lado dele pela continuação do idílio. Caber-lhe-ia então mostrar dignidade e desprendimento, renunciando, imolando-se, já que nada pode oferecer a quem tanto tem a dar. Exaltantes pensamentos a consolá-lo durante a desassossegada tarde de espera.
Apesar do corajoso apelo para desembuchar tudo de uma vez, fosse o que fosse, dona Carmosina continuou buscando forças, reunindo coragem, um nó na garganta. Não suportando mais tanta demora, Ascânio resolveu colocar as cartas na mesa, a voz lúgubre:
— Dona Antonieta mandou pedir que eu deixe Nora em paz, não foi?
Antes fosse tarefa assim tão fácil: junto com o recado, dona Carmosina daria opinião, conselho para que continuasse a luta, não abandonasse o campo de batalha. Vendo-a ainda calada, Ascânio adiantou a pior hipótese:
— Então, foi Leonora mesmo quem mandou dizer… — voz de condenado à morte após a denegação do pedido de graça.
Dona Carmosina tenta falar, emite apenas um som gutural, Ascânio entra em pânico:
— Pelo amor de Deus, fale alguma coisa, Carmosina. Ela é doente? Pulmão? Já pensei nisso, não tem importância. Tuberculose, hoje, não mete medo a ninguém…
Dona Carmosina faz das fraquezas força:
— Nora foi noiva, você sabe.
— De um canalha, sei. Queria avançar no dinheiro dela mas dona Antonieta o desmascarou, você me contou. Mas eu não quero dinheiro de ninguém, só lastimo que ela seja rica. Tem muita gente que casa com separação de bens.
— Também tem homens que casam com viúva…
— Com viúva? A que vem isso? Não entendo.
Tendo começado, dona Carmosina foi em frente:
— Namoro em São Paulo, Ascânio, não é como aqui, noivado, muito menos — recordava as palavras de Tieta e as repetia. — Lá os noivos vão a festas sozinhos, a boates, voltam pela madrugada, até viajam juntos. No sul, moça para casar não precisa ser virgem. O preconceito da virgindade, porque é simples preconceito… É como se ela fosse viúva…
— Leonora? O tal do noivo? Não é mais…
Leu a resposta nos olhos mínimos de dona Carmosina. Cobriu o rosto com as mãos, de súbito esvaziado e inerme. Um desejo único o assaltou: matar o canalha que conspurcara a pureza de Nora e, que ao fazê-lo, destruíra o mais belo dos sonhos. Dona Milu vinha da cozinha com uma bandeja, cafezinho acabado de coar, bolos de milho e puba. Ascânio levantou-se e partiu, sem uma palavra.
Sabê-la deflorada foi dura prova. Atravessou os quintos do inferno e não pôde conter as lágrimas por mais se acreditasse macho, infenso ao choro. Quando recebera a carta de Astrud, rompendo o noivado e comunicando o próximo casamento, e logo depois a soube grávida do outro, sofrera como um cão danado mas nem assim chorara. Na noite indormida porém, após a notícia pungente, o ardor dos olhos fixos dissolveu-se em pranto. Noite de pesadelo, de lágrimas e meditação, de luta consigo mesmo. Antes de ouvir a sentença de morte da boca de dona Carmosina, Ascânio deixara Leonora na porta, a acenar adeus da casa de Perpétua, íntegra, pura, perfeita. Imagem para sempre perdida, jamais a reverá assim completa. Agora, manchada, penetrada, rota, desonrada, nem por inocente vítima menos deflorada. Noite em que o amor foi medido, pesado, confrontado, sujeito a todas as provas de uma vez, noite da batalha inicial contra o preconceito. Preconceito, simples preconceito, dissera dona Carmosina e tinha razão. Muitas vezes, na faculdade, Ascânio participara de discussões sobre o candente tema: virgindade e casamento. Teoricamente, tudo simples e fácil: mero preconceito feudal.
Citando o exemplo dos Estados Unidos e dos países mais adiantados da Europa: França, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Noruega, sem falar nos países socialistas onde, segundo os reacionários, campeava o amor livre, os estudantes progressistas, entre os quais Ascânio, defendiam o direito da mulher à vida sexual antes do matrimônio. Por que apenas o homem tem esse direito? Preconceito patriarcal, machismo, opressão do homem sobre a mulher, atraso social, os argumentos sucediam-se esmagadores mas, ainda assim, a maioria se mantinha apegada à exigência secular: a mulher deve chegar virgem ao leito conjugal, deixar sobre o alvo lençol as gotas de sangue, dote do marido. Não adiantavam sequer as perguntas irônicas dos mais exaltados e cáusticos, querendo saber a diferença entre a cópula e as desenfreadas sacanagens de todo tipo empreendidas por namorados e noivos, a bolinação levada aos últimos extremos, dedo e língua, pau nas coxas, na bunda e etecetera e tal. Que adianta respeitar o hímen e conspurcar o resto? Argumentos todos eles irrespondíveis mas nem por isso convincentes para a maior parte dos universitários. Exaltadas e inconseqüentes, as discussões terminavam descambando para o relato de anedotas frascárias sem que chegassem a acordo.
Ao rememorar na noite interminável de amargura e indagação os debates com os colegas, Ascânio lembrou-se da surpreendente declaração de Máximo Lima, tanto mais inesperada por ser o colega líder inconteste da esquerda estudantil, celebrada pelo radicalismo de suas posições ideológicas, expostas em inflamados discursos contra a economia e a moral burguesas. Amigos fraternos desde os tempos de ginásio, Ascânio via em Máximo a expressão mais alta e sincera do revolucionário, liberto de abusões e convencionalismos, lúcido e consciente. Ele próprio, Ascânio, se bem solidário com as reivindicações do movimento estudantil, não se comprometera com nenhuma organização ou grupo político, nem sequer apoiava todas as posições de Máximo, contentando-se em admirá-lo e defendê-lo quando a direita atacava, acusando-o de inimigo de Deus, da pátria e da família.
Haviam saído juntos de acalorado debate sobre divórcio, virgindade, direitos da mulher, Máximo ainda exibia nos olhos um resto da exaltação com que defendera a igualdade dos sexos em todos os domínios humanos.
Rindo, em tom de pilhéria, para divertir-se, Ascânio lhe perguntara:
— Me diga a verdade, mano velho. Se um dia você viesse a saber que Aparecida — Aparecida era a noiva de Máximo, colega de faculdade e de ideário político — não era virgem, tivera um caso antes, assim mesmo você casava com ela?
— Se casaria com ela, sabendo que não era virgem? É claro que sim. — Respondera sem vacilar. Em seguida, porém, deixando cair os braços e a exaltação, honradamente confessou. — Para falar a verdade, não sei. Nunca pensei no assunto em termos pessoais. Uma coisa é certa, Ascânio: o preconceito vive dentro da gente. Você pensa uma coisa, defende seu pensamento, ele é correto, você sabe disso, mas na hora de aplicá-lo… Casaria mas, antes, teria de esmagar o preconceito…
— E conseguiria?
— Não sei, não posso te dizer. Só poderia tirar a limpo se a coisa acontecesse e eu tivesse de resolver, de enfrentar o problema.
Acontecera com ele, Ascânio, tantos anos depois, quando não tem Máximo a seu lado para o debate, a conversa, o conselho. Formados, Aparecida e Máximo já não são os radicais de ontem, se bem não houvessem renegado os dias da juventude; ele se acomodara na justiça do trabalho, advogado de sindicatos e de operários, ela pendurara o diploma para dedicar-se ao marido e aos filhos. Sozinho, Ascânio deve enfrentar e resolver o problema.
Na noite sem descanso, em nenhum momento culpou Leonora, a seu ver incauta vítima do canalha. Não a julgando culpada ou indigna, sofria tão-somente pelo fato de sabê-la deflorada, incompleta. Dilacerado pela dúvida: prosseguir desejando-a como esposa, sonhando noivado e casamento ou desaparecer para sempre de sua frente? Terá forças para fitá-la, sabendo que ela foi possuída por outro, desonrada?
Nesse dilema debateu-se noite afora, o coração opresso, as lágrimas impondo-se sobre o orgulho masculino, vacilando entre a força do preconceito e a força do amor. Uma única solução não lhe ocorreu em momento algum, exatamente a desejada por Tieta: transformar o idílio casto em agradável aventura casual, trocar o sonho do casamento pela possibilidade de dormir com Leonora enquanto ela permanecesse em Agreste, aproveitando-se do conhecimento de seu estado, encerrando o caso na porta da marinete, num rápido ou prolongado beijo de despedida.
Quando a madrugada nasceu sobre o rio, o amor vencera a primeira batalha: Ascânio não conseguira arrancar Leonora do coração, nem a ela nem ao propósito de tê-la como esposa, senhora de seu lar. Não obstante, a ferida estava aberta, sangrando, e ele temeu encontrá-la imediatamente. Talvez não conseguisse esconder o sofrimento; sobretudo, não desejava que ela o soubesse a par da verdade. Não era homem de dissimular seus sentimentos, não sabia usar máscara, tudo que ia por dentro dele se refletia no rosto. Não estando certo de poder controlar face e coração, guardando ainda nos olhos lágrimas por chorar, decidiu ir fiscalizar algumas obras da prefeitura em Rocinha, pontilhões e mata-burros. Acordou o moleque Sabino que dormia na sala do cinema, numa cama de vento, deixou com ele um recado para Leonora: chamado urgente obrigava-o a afastar-se da cidade por um ou dois dias; partindo ao romper do sol, não pudera despedir-se. Apenas voltasse, iria vê-la.
Iria vê-la ou não, tudo dependendo da reflexão e da decisão dela decorrente. Selou o cavalo — dádiva do coronel Artur da Tapitanga à prefeitura — e tocou-se para os matos, levando na garupa o hímen roto de Leonora. Ia com ele, no passo lento do cansado animal, levantando detalhes, dúvidas, indagações.
Uma única vez ou muitas vezes? Muitas não teriam sido pois o embusteiro fora desmascarado e expulso; talvez algumas poucas, mais de uma, porém. Que importa quantas vezes? O terrível é ter ela se dado a outro, não se haver conservado íntegra e pura.
Fizera-o todavia antes de conhecer Ascânio, nada a assemelhava à traidora Astrud, a escrever-lhe cartas de amor enquanto se rebolava com outro e dele engravidava. Leonora apenas se entregara em momento de desvario, quando a paixão falou mais alto que a decência.
Teria apenas se deixado possuir, enganada pela lábia do miserável ou, no prosseguimento dos embates, conhecera a violência e a doçura do prazer, desmanchando-se em gozo?
No dorso do cavalo, no meio das plantações de mandioca ou do verde milharal, ouvindo queixas e pedidos dos roceiros, as indagações o perseguiram e revolveram, o hímen de Leonora atado à garupa do cavalo, mil vezes deflorado na viagem lenta, no combate longo.
Do dilacerado hímen o amor cresceu vitorioso. Ascânio, aos poucos, sem a ajuda de hippies, de padres progressistas e de proféticos canoeiros, acalmou o coração, reteve as lágrimas e enterrou o preconceito. Passou a imaginá-la viúva, uma jovem, formosa e infeliz viúva. Imbatível dona Carmosina, cabe-lhe sempre a derradeira palavra. A uma viúva não se reclama virgindade, apenas decoro e amor. Decidiu prosseguir no sonho — de tão difícil consecução — de um dia pedir a mão de Leonora em casamento. Sabê-la enganada e violada fez com que a sentisse ainda mais próxima e querida, mais amada.
De regresso a Agreste, foi em seguida visitá-la em casa de Perpétua. Leonora achou-o abatido, sem dúvida cansado da viagem, tantas léguas a cavalo, sob o sol ardente, cuidando dos interesses do município. Passou-lhe a mão na face, brandamente, em inocente agrado. Violada, sim, porém perfeita de candura e de pureza, casta mais que qualquer virgem.
Depois, com o recado do magnata do turismo e o suicídio do prefeito, a certeza da eleição próxima para o cargo, as novas perspectivas abertas para o município e para ele próprio, Ascânio sentiu-se com esperanças válidas. O fato de Leonora não ser mais virgem facilitava, inclusive, a boa solução. No mercado do matrimônio, o valor da jovem… Meu Deus, como pensar em termos de mercado quando se trata de amor, tão forte amor a ponto de matar e enterrar o mais antigo e arraigado preconceito?
Vitorioso, sim, mas não em paz, tinha razão o comandante. Ainda não, pois a película do novo hímen na chaga aberta no peito de Ascânio renasce pouco a pouco, lentamente.
ONDE O AUTOR PROCURA E NÃO
ENCONTRA TERMO JUSTO PARA
DESIGNAR O REFÚGIO DOS LORDES
NÃO, NÃO DEVEREI USAR NENHUMA DAS PALAVRAS
CLÁSSICAS: PROSTÍBULO, lupanar, bordel, serralho, alcoice, conventilho, pensão de mulheres, casa de putas, nem mesmo randevu, para classificar o Refúgio dos Lordes, na capital do glorioso estado de São Paulo, abrigo luxuoso, discreto, fechadíssimo. Maison de repos, talvez, não fosse o termo servir também para designar sanatório destinado a malucos endinheirados e enrustidos. Enrustidos, os selecionados fregueses do Refúgio, mas dificilmente fracos da cabeça, quase sempre cérebros privilegiados, de elevadíssimo qi, sagazes financistas quando não prudentes e esclarecidos pais da pátria. Funcionasse na Bahia, seria castelo, a designação soa bem, recorda nobreza e fausto. Em São Paulo, o Refúgio dos Lordes participa da medicina e da bolsa de valores, não se reduzindo a satisfazer as necessidades sexuais dos ricos e dos poderosos — dos mais ricos e dos mais poderosos — pois atende e trata com terapêutica própria melindrosos complexos, atende a graciosas taras, indo da massagem sueca ou nipônica ao divã de irresistíveis psicanalistas com escola completa, faculdades nacionais e por vezes estrangeiras, ditas bbc: boca, boceta e cu. Serve também, quando necessário, como local de encontro o mais conveniente pela discrição, para o trato e a conclusão de assuntos reservados, referentes à economia, às finanças e à política. Ali discutem-se superiores interesses, fundam-se bancos, erguem-se indústrias, escolhem-se candidatos a governador.
Ao abandonar a simplicidade de Agreste, onde a casa de Zuleika Cinderela é apenas puteiro e nada mais, para envolver-me com os grandes do sul, com a intelectualidade dos tecnocratas, empresários, homens de Estado, altas patentes, os dirigentes dos destinos pátrios, sinto-me acanhado, faltam-me conhecimento e inspiração à altura do nobre tema. Como designar o pequeno império dirigido em francês com competência, dedicação e toute la délicatesse por madame Antoinette?
Perdoem-me se não encontro a palavra justa, sinto-me embaraçado, temo cometer imperdoável erro, rude narrador habituado a chão árido e a vidas modestas, de dinheiro parco e duro trabalho. Aliás, para que classificar esse aprazível local de relax, onde os grandes do mundo distendem os nervos e recuperam as forças? Nesse bendito recanto, segundo consta, figurões já de todo impotentes se reerguem pururucas e obtêm satisfação nas mãos sábias e belas das meninas, quando não nos lábios de carmim. Ah!, quanto custa ser pobre e inédito. Digo inédito pois sei que as portas do Refúgio dos Lordes excepcionalmente se abrem para aqueles escribas de fama e glória, uns poucos privilegiados. Um dia lá chegarei, quem sabe, se a sorte ajudar. Poderei então encontrar a designação exata. Por ora, não.