Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 5 de 10 · parte 4/4

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Tieta do Agreste

Terceiro episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

DA PRIMEIRA CONVERSA ONDE SE

DECIDE DO DESTINO DAS ÁGUAS, DAS

TERRAS, DOS PEIXES E DOS

HOMENS — COM A GENTIL ASSISTÊNCIA PROFISSIONAL DAS COMPETENTES

MENINAS DE MADAME ANTOINETTE

 

O JOVEM PARLAMENTAR FAZ UM GESTO, AS MENINAS

LEVANTAM-SE nuas e obedientes, abandonando os primeiros excitantes toques, sorriem e se afastam. Esperarão na sala ao lado, sabem guardar as conveniências, uma loira e a outra ruiva. O Jovem Parlamentar, ainda não tão rico ou poderoso quanto desejaria, confidenciara ao Magnífico Doutor a possibilidade de trocarem as parceiras após a primeira etapa. Antes de sair, a loira observou a reserva de uísque na garrafa, seria suficiente? Também os dois cavalheiros estão nus, como convém, mas o Magnífico Doutor guarda a negra pasta 007 a seu lado.

Quarentão bem cuidado, o Jovem Parlamentar não possui no entanto a classe do Magnífico Doutor, que é um galã de novela, se quisesse poderia ganhar a vida exibindo-se no vídeo. Certa tendência a engordar, um começo de barriga que a sauna não consegue controlar, nos olhos a cobiça e a manha, o Jovem Parlamentar possui reputação duvidosa, discutida nos bastidores da Câmara Federal. Nos bastidores, jamais em público, quem se atreveria a acusá-lo? Passa por bem-visto nos altos escalões e sobretudo nos reservados círculos que realmente dispõem do poder. Seu nome começa a repontar no noticiário como candidato a elevados cargos; o mandato parlamentar, ultimamente bastante desacreditado, já não basta para conter-lhe o prestígio em ascensão. Obtivera promessa firme de ser incluído na próxima turma a cursar a Escola Superior de Guerra.

O Magnífico Doutor, habituado ao trato com os grandes, em nenhum momento pronunciou-lhe o nome por desnecessário e imprudente. Tampouco durante a conversa citaram quantia ou falaram em pagamento. Apenas, em certo instante, abriu-se um sorriso amplo no rosto calculador do Jovem Parlamentar: nem sempre aparece nos tempos atuais transação assim rendosa. Em termos de legítimo patriotismo, o Jovem Parlamentar desenvolve cauteloso trabalho de contatos e acertos, com reconhecida habilidade. Propina seria palavra escandalosa e indigna para designar a expressiva gratidão daqueles que lhe utilizam os méritos e as relações. Se respeitável bolada lhe advém, trata-se de merecida pecúnia — finalmente a palavra certa! — pois um passo em falso, um erro de pessoa, pode custar mandato e carreira: os da linha-dura são infensos à corrupção e vivem de olho atento, desconfiadíssimos. Tarefa delicada, exige alta recompensa.

É reconfortante vê-los ali, no fim da tarde, estendidos nus e cômodos em amplos divãs em uma das salas à prova de som reservadas por madame Antoinette para ruidosas surubas, mandando as meninas embora, adiando o deleite, sacrificando o tempo de lazer ao trato de superiores interesses, conscientes ambos de seus graves deveres.

— Aqui, estamos a coberto de curiosidade e indiscrição. — Freguês recente e vaidoso, o Jovem Parlamentar louva as virtudes do Refúgio.

Essas salas destinadas antes de tudo à confraternização sexual, em moda desde os banhos romanos, servem igualmente para importantes conversas de negócios entre magnatas desejosos de sossego e reserva. Como bem diz o Jovem Parlamentar, no Refúgio dos Lordes estão a coberto da curiosidade e da indiscrição.

O Magnífico Doutor abre a pasta, retira um estojo de couro, oferece charutos. Conhece hábitos e preferências dos parceiros, estudou, entre divertido e enojado, a biografia do Jovem Parlamentar.

— Cubanos… — esclarece a sorrir pois, sendo Cuba matéria proibida em qualquer setor da vida nacional, a oferta ganha importância.

O Jovem Parlamentar não se contenta com um, empalma três:

— Antes, só fumava cubanos. Agora andam difíceis, culpa da canalha comunista. — Aspira o olor do charuto. — Sublime! Precisamos libertar Cuba das garras de Fidel Castro, varrer do continente essa ameaça vil e constante de subversão. — Um pouco retórico, fala como se estivesse na tribuna da Câmara.

— Mais dia, menos dia, os americanos acabarão com ele. — O Magnífico Doutor estende o isqueiro de ouro, acende o charuto do interlocutor. — Mas, quando quiser charutos cubanos, não faça cerimônia, tenho sempre um bom estoque.

O Jovem Parlamentar não pode esconder o laivo de inveja nos olhos gulosos: esses tipos sabem gozar a vida, nada lhes falta, dão-se a todos os luxos. E esse é apenas um testa-de-ferro, imagine-se os outros, os patrões. Decide fazer o trato mais difícil, aproveitar a oportunidade:

— Obrigado. Mas, vamos ao que importa, não devemos deixar as garotas esperando por muito tempo. Devo lhe dizer que as coisas não se apresentam fáceis, há obstáculos sérios, diria mesmo: quase intransponíveis. O nosso amigo declara que não deseja envolver-se no caso.

— Mas, há poucos dias as notícias eram outras.

— Os jornais ainda não haviam falado no assunto. Leu o que andaram escrevendo?

— Ora, os jornais… Sempre sensacionalistas.

— Dizem que só existem cinco empresas dessas em todo o mundo, que nenhum país autoriza. Poluição, palavra suja, amedrontadora. Tremenda.

— Apenas cinco? Exagero dos jornais — rebate vitorioso. — Posso lhe citar pelo menos seis.

— A diferença não é grande. Temo que… Os argumentos têm de ser de peso, sem o que não conseguiremos mover nosso amigo e, se ele não se mover, não vejo como obter autorização para o registro.

O Magnífico Doutor não é pastor de cabras mas também ele conhece seu rebanho, para tanto é pago e bem pago. Para mercadejar, sabendo, quando indispensável, aumentar a parada e sabendo também até onde ir:

— Compreendo. Todavia não falta peso aos argumentos que já oferecemos à sua compreensão e à de nosso ilustre amigo.

— Insuficientes. Argumentos ridículos, disse-me ele. Ridículos, foi a palavra que ele usou. Mesmo porque, como é do seu conhecimento, não lhe cabe a decisão final, ele próprio deve argumentar, e para isso precisa de argumentos que convençam. — Serve-se de nova dose de uísque. — Apenas cinco, cinco ou seis, no mundo inteiro… Está nos jornais. Apodrece a água, mata os peixes, envenena o ar. Leu o artigo de O Estado de S.Paulo? Na Itália, dá cana. — Lança ao ar a fumaça azul do charuto cubano, subversivo porém inigualável.

O Magnífico Doutor baixa a voz apesar de estarem a sós na sala reservada do Refúgio dos Lordes onde não há perigo de ouvidos indiscretos, tampouco de microfones secretos como acontece nos romances de aventuras sobre petróleo árabe e contrabando de armas com espiões multinacionais e espiãs fabulosamente sexys.

— Os meus amigos estão dispostos a reforçar os argumentos. — A voz amaneirada torna-se quase ininteligível: — Quanto?

O Jovem Parlamentar pensa, faz imaginárias contas nos dedos, calca no preço, pede alto. O Magnífico Doutor balança a cabeça negativamente.

— Metade.

— Metade? É muito pouco.

— Nem um centavo a mais. — A voz ainda mais afetada: — Tenho quem faça por menos.

— Vá lá… De acordo. Afinal os jornais mentem tanto e o Estadão com essa mania que o Julinho Mesquita tem de democracia se coloca contra tudo que nos interessa. Vai acabar se dando mal…

Da pasta, o Magnífico Doutor extrai um talão de cheque.

— Ao portador — recomenda o Jovem Parlamentar, revelando inexperiência. O Magnífico Doutor esconde um sorriso de debique.

O Jovem Parlamentar recebe, levanta-se, vai ao armário, guarda o cheque no bolso do paletó. Servem-se de mais uma dose, erguem os copos, num brinde mudo. Marcam novo encontro, em data próxima, ali mesmo, impossível local mais discreto, agradável e apropriado para assuntos de relevante importância para o desenvolvimento nacional. O Jovem Parlamentar bate palmas, a porta se abre, as meninas retornam. Afinal, a vida não se resume a cuidar dos interesses da pátria.

O Magnífico Doutor não aceita a gentil oferta de troca de parceiras. Apressado, reduz-se a coito rápido, deve pegar o avião, tem encontro marcado no Rio. Demora-se o Jovem Parlamentar, satisfeito da vida. Peixes, águas, caranguejos, ostras, algas marinhas… Tudo isso no nordeste, vagamente. Existirá mesmo o nordeste ou se trata de invenção subversiva de literatos e cineastas? A rapariga a seu lado é loira como uma escandinava. No nordeste, uma sub-raça escura. O Jovem Parlamentar sente-se redimido, em paz com a consciência.

Na saída, a gerente vem despedi-lo: satisfeito, deputado? O deputado, cliente novo, ainda não um habituê, agradece e solicita notícias de madame Antoinette. A gerente explica:

— Madame está em Paris, visitando a família. O senhor sabe que madame Antoinette é filha de um general da França? La mère est de la Martinique. Très chic! — Começa a treinar seu francês para um dia suceder a patroa atual na propriedade da casa. Quando Tieta se cansar e resolver se mudar de vez para o sertão de Agreste.

 

A PROPÓSITO DE

MICROFONES E ESPIÕES

 

UMA RÁPIDA PALAVRA, APENAS, UM PEDIDO DE

DESCULPAS. Vem de se ler, nas páginas precedentes: …“não há perigo de ouvidos indiscretos, tampouco de microfones secretos como acontece nos romances de aventuras sobre petróleo árabe e contrabando de armas, com espiões multinacionais e espiãs fabulosamente sexys”. É verdade, nada disso existe no Refúgio dos Lordes, local do encontro secreto do Magnífico Doutor com o Jovem Parlamentar.

Lamentável deficiência, a enfraquecer a trama, diminuindo a intensidade do enredo, limitando grandemente a emoção e o interesse. Mas, que fazer? Tenho de me reduzir ao contexto de modesto folhetim cuja ação transcorre em país subdesenvolvido. Não me cabe culpa se o leitor não encontra na travessia dessas páginas ferozes xeques, românticos beduínos, frios espiões de diversas nacionalidades e ideologias, alguns pertencendo ao mesmo tempo a serviços secretos opostos e inimigos, ingleses loiros e impassíveis, potentes americanos que derrubam seis fêmeas de uma só vez e cobrem todas elas, restando-lhe ainda a esposa a criar filhos no lar texano, russos barbudos mastigando crianças regadas a vodca. Nada disso, uma pena! Devo me contentar com sorridentes testas-de-ferro e alguns corruptos nacionais.

Quanto a árabes, personagens no momento em alta voga nas páginas dos best-sellers, além de Chalita, envelhecido leão do deserto, não me resta nenhum outro já que o mascate morreu de tiro, dignamente, como compete a um bom contrabandista. Mais não posso fazer, peço desculpas.

DO REGRESSO A AGRESTE, CAPÍTULO

 

NOTICIOSO POR EXCELÊNCIA

NO QUAL TIETA CITA O EXEMPLO DO

VELHO ZÉ ESTEVES

 

AO REGRESSAR A AGRESTE PARA A FESTA DA

INAUGURAÇÃO DAS BENFEITORIAS na praça do Curtume, acompanhada pelo sobrinho Ricardo, Tieta quis saber de Leonora notícias de seus amores. A moça sorriu, embaraçada, tomou das mãos da protetora:

— Não sei o que se passou, mãezinha. Ascânio esteve fora durante dois dias, vendo uns trabalhos da prefeitura, voltou diferente. Sempre entusiasmado com a história de turismo, sempre terno, porém menos reservado. Me disse que, com a morte do prefeito, vai ser eleito para o cargo, a situação dele vai mudar. Está exaltado, nem parece o mesmo. Até me beija, sabe? Outro dia, dona Perpétua deu um flagra na gente… Estou tão contente, mãezinha!

— Ainda bem. Pelo jeito, você não demora a estrear a margem do rio. Vai gostar da novidade. Aproveite enquanto é tempo, mais dia menos dia a gente arruma as malas e capa o gato.

— Ai, mãezinha, nesse dia vou morrer.

— Ninguém morre de amor, como é mesmo que Barbozinha diz? De amor a gente vive.

Boa, devotada Carmô! Com todo seu diploma de sabida, deixara-se enrolar pela trama de Tieta e, para impedi-la de apressar a data da partida, revelara a Ascânio a situação de Leonora, deflorada pelo calhorda do noivo. Acontecera exatamente o que Antonieta desejava. Ascânio, a par do acontecido, mudara imediatamente de conduta, tornando-se audacioso e beijoqueiro. Não tardará a perder o resto do acanhamento e a chamar a namorada aos peitos, arquivando os planos de casamento e lar, interessado tão-somente em cama. Na cama tudo se resolve.

Tudo. Basta citar o exemplo do sobrinho Ricardo, quase louco de remorso e medo, apavorado, querendo desistir do seminário, sentindo-se leproso e condenado às penas eternas após ter dormido com a tia no areal de Mangue Seco. Agora, não quer outra ocupação, se pudesse passaria o dia no fuque-fuque, adolescente deslumbrado, força estuante, potência sem limite, desejo infinito, ilimitada, dulcíssima estrovenga. Um temporal, um terremoto, uma festa! A qualquer momento, nas dunas, no banho de mar, onde quer que seja e possa, ele a derruba e monta. Tieta está quebrada, moída, mordida, sugada, satisfeita, trêfega menina em férias, saltitante cabrita. Cabrita? Cabra velha que antes jamais recebera bode novo, de trouxa apenas desatada, insaciável garanhão. Fogoso e exigente, meigo e exultante, Ricardo também mudara. Perdera o medo, enterrara o remorso mantendo, ao mesmo tempo, a vocação sacerdotal. Descobrira a bondade de Deus.

No sábado, no fim da tarde, quando os operários regressaram ao Arraial do Saco, Ricardo os acompanhou na canoa de Jonas. De volta, irradiava serenidade no rosto juvenil e, encontrando Tieta na praia, oferecida no maiô a mostrá-la mais que a vesti-la, desviando os olhos, informara:

— Hoje vou dormir em Agreste, Jonas me leva na canoa.

— Hoje, por quê? Daqui a mais uns dias, a gente vai para ficar. O principal está feito, do resto o comandante se ocupa, basta a gente vir uma vez ou outra, passar um dia e uma noite. Hoje, por quê? Já se fartou de mim?

— Não diga isso nem por brincadeira. É que hoje me confessei, amanhã vou comungar, e se dormir aqui… Volto amanhã mesmo. Me dê licença, me deixe ir.

Pedido, súplica, queixume, a voz trêmula do menino dividido entre ela e Deus, cabrito no pasto de Tieta, levita do santuário. Bastaria uma palavra, um gesto, um olhar para retê-lo a seu lado, para impedir igreja e sacramento. Um menino, um levita, eleito e pecador, casto e lascivo, forte e frágil. Um menino de Deus. Dela, o Deus Menino.

— Vá e rogue a Deus por mim. Vou me roer de saudade, na tua ausência. Te quero aqui amanhã.

Falta e ausência iria sentir, a roê-la por dentro, quando embarcasse na marinete para São Paulo; com certeza não bastariam algumas lágrimas nem lavar a xoxota bem lavada. Ai, meu menino, levita de Deus! Ensinara-lhe o amor, o gosto de mulher, as delícias, os sabores requintados, fizera-o homem. Quando ela for embora, Ricardo buscará noutros braços, noutro colo, noutro regaço as sensações, a exaltação e a alegria aprendidas em Mangue Seco. Tieta sente uma raiva súbita, decide em definitivo demorar em Agreste até pelo menos a inauguração da luz. Para gozar durante mais umas semanas esse desperdício de prazer, esse mar revolto, essa ventania desvairada. Depois, ela o deixará para Deus, livre do medo e dos perigos da castidade que conduz à tristeza e ao mal, quem bem sabe é Tieta, vítima da conspiração das beatas, bruxas fedendo a donzelice encruada. Frustradas e amargas, as solteironas odeiam o próximo. Assim era Perpétua antes de casar-se, antes do major.

No domingo pela manhã, a exposição punitiva descera da lancha de Elieser, enchendo de risos a praia de Mangue Seco. Juntaram-se todos diante das erguidas paredes da biboca de Tieta, as ripas para o telhado começavam a ser colocadas, num tronco de coqueiro o habilidoso comandante Dário gravara o nome escolhido: curral do bode inácio. Fizeram coro ao merecido elogio do ausente seminarista, pronunciado pelo comandante: Tieta devia a Ricardo a rapidez do andamento da obra.

Mais tarde, andando para os cômoros, Antonieta ouvira o relato de dona Carmosina.

— Falei com Ascânio sobre o que você me contou a respeito de Leonora… Essa história de noivado no sul, as viagens, a pílula, você sabe…

Tieta afetara surpresa e inquietação:

— Você disse a ele que Leonora não é virgem? Meu Deus, Carmô! — mas logo concordara. — Pensando bem, acho que assim é melhor, que ele saiba a verdade. Eu te agradeço, Carmô. Deve ter sido desagradável.

— Se foi… Mas estou contente: pensei que ele ia romper com Leonora, desistir, não querer mais ver a cara dela, mas Ascânio superou o preconceito, Tieta. Um cara direito. Não quer que ela saiba que eu contei, é um cavalheiro.

Tieta aprovara com a cabeça, rindo por dentro. O que o cavalheiro deseja, ela sabe demais: sem cabaço a contê-lo, Ascânio vai tratar de dormir com Nora, passar-lhe a vara, exatamente como Tieta previra. Se antes, apaixonado, sonhara noivado e casamento, desistiu ao saber da verdade, nenhum homem de Agreste casa com moça deflorada. Mas nem por isso é tolo a ponto de largá-la de mão quando nada o impede de levá-la aos esconsos do rio, sob os chorões em noite sem lua. Com o que estariam resolvidos os problemas de Leonora. Depois, lavar o xibiu, derramar algumas lágrimas na partida. Por que diabo Ricardo demora tanto a voltar, ela se perguntara olhando o rio do alto das dunas sem descobrir sinal da canoa de Jonas. Na igreja, na missa das oito, talvez o coroinha houvesse se dado conta dos olhares lúbricos, da boca aberta, ávida a exibir a ponta da língua, de dona Edna, putíssima e vulgar. Audaciosa.

— Está aborrecida, Tieta? Se fiz mal em contar, me diga.

— Fez muito bem, Carmô. Estava pensando no cachorro do noivo. E com Elisa, você falou também?

Não, com Elisa dona Carmosina não conversara, tentando tirar-lhe da cabeça a louca idéia de partir com Tieta para São Paulo, levando Astério na bagagem. Depois do difícil diálogo com Ascânio, ainda não tomara fôlego, não reunira coragem suficiente para vibrar novo golpe. A decepção de Elisa ia ser terrível, ela não tinha a fibra de Ascânio, provado pela doença do pai e pela traição de Astrud. Tieta devia pacientar um pouco, dona Carmosina falaria quando se apresentasse a ocasião, quando a própria Elisa puxasse o assunto. Deixasse a pobre conservar por mais uns dias suas ilusões paulistas.

Quem primeiro tocou nesse assunto, porém, foi Astério, e o fez com Tieta quando ela voltou a Agreste. Ficou de tocaia no bar, sonsando, até Perpétua dirigir-se para a igreja em companhia do filho seminarista, na hora da bênção. Aproveitou a folga:

— Queria falar com você, cunhada. Um assunto de meu interesse, meu e de Elisa. Mas, antes, me prometa guardar reserva dessa nossa conversa.

— Toque em frente, cunhado, sou boa de segredo, nem imagina quantos guardo no meu peito, por isso é que tenho esse ubre grande. — Ri alegremente, anda satisfeita.

— É a propósito de uma idéia de Elisa. Ela, se ainda não lhe falou, vai lhe falar para pedir que você leve a gente para São Paulo. Que me arranje um emprego e ceda um cômodo para nós em seu apartamento.

— Falar, ela ainda não falou mas já insinuou. Você quer ir?

— Deus me livre! — Arrepia carreira, não vá Tieta se ofender: — Quer dizer: eu teria muito prazer em morar em sua companhia, você é mais que uma irmã, tem sido nossa providência. Mas, eu não quero viver em São Paulo, não vou me dar bem. Elisa tem vontade de ir embora daqui para que a gente melhore de vida mas eu sei que não vai dar certo. É pior ser pobre lá do que aqui.

— Você tem razão, cunhado, é isso mesmo. Mas pode ficar descansado, não vou levar vocês comigo. Você ia se dar mal e lugar de mulher é ao lado do marido. Se Elisa me falar, tiro essa idéia da cabeça dela.

— Não sei como lhe agradecer, cunhada.

— Não agradeça. Elisa é minha irmã, tenho obrigação de cuidar dela, de ajudar vocês no que puder. Mas aqui, lá não.

Em toda sua vida, poucas vezes Tieta vira pessoa tão contente quanto Astério ao fim da conversa. Fitou o cunhado com afeto:

— Ouça, Astério, você precisa não deixar Elisa fazer tudo que deseja. Se ela lhe falar em São Paulo, diga que você não quer ir, que daqui vocês não saem. Ponha rédea curta em sua mulher.

— Se eu disser isso, só vou é botar ela contra mim. Vai bater o pé, chorar, falar nisso o dia inteiro, até me obrigar. Como é que posso convencer ela?

— Pergunte ao velho Zé Esteves e ele lhe explica. Pergunte como é que ele ensinou a mãe de Elisa a obedecer. Quem sabe, ele lhe empresta o bordão. A receita é boa, cunhado. Bem aplicada, basta uma vez. Nunca mais mãe Tonha levantou a voz para o velho. Quanto a essa história de São Paulo, deixe comigo.

De noite, Tieta teve Ricardo na rede conforme planejara. Ali, onde em sonhos o rapazola a desejara e não soubera possuí-la, ela o cavalgou e por ele foi montada, cruzando a noite no rumo da aurora. Contendo a respiração, sufocando os ais de amor enquanto juntos praticavam o ipsilone. Ah!, o ipsilone!

 

DE COMO, PREMIDO PELAS

CIRCUNSTÂNCIAS, O IMPOLUTO ASCÂNIO TRINDADE, APÓS SECRETA ENTREVISTA COM O MAGNÍFICO DOUTOR, INICIA A

PRÁTICA DA MENTIRA E, NA AURORA

DOS NOVOS TEMPOS, ENTREGA-SE À

SOBERBA, INCORRENDO DE UMA SÓ VEZ EM DOIS PECADOS CAPITAIS

 

AO TÉRMINO DA CONFERÊNCIA COM O DR. MIRKO

STEFANO, Ascânio Trindade sente-se outro homem. Uma hora de conversa bastara ao carismático relações-públicas para conquistar a confiança e a admiração do probo funcionário municipal. Probo e sonhador. O Magnífico exibira plantas e desenhos devidos a competentes e imaginosos arquitetos, engenheiros e urbanistas; citara números e fórmulas esotéricas; empregara termos mágicos: organograma, know-how, insumos, mercado de trabalho, marketing, status — a prefeitura de Santana do Agreste terá status de município industrial. Ascânio deslumbrou-se.

Na porta do velho sobradão colonial, sede da municipalidade, despedindo o visitante, Ascânio Trindade assume nova condição, a de empresário. O termo é falso, correto será dizer-se estadista. Administrador de comuna destinada a glorioso futuro de riqueza e progresso — futuro ou presente? Por ora, apenas secretário da prefeitura com plenos poderes. Em breve, prefeito: os plenos poderes confirmados pelo voto do povo, unânime segundo tudo indica.

Em determinado ponto da conversa pareceu-lhe perceber, nas discretas e sibilinas palavras do enviado da diretoria, insinuação suspeita, referência a pagamento de serviços prestados. Não entendera bem mas, por via das dúvidas, foi logo esclarecendo que seu apoio ao grandioso projeto se devia exclusivamente aos superiores interesses do município e da pátria. Verdade cristalina: nenhum baixo sentimento, nenhuma pretensão pouco louvável na sua maneira de agir. Apenas o amor à terra natal, a seu desenvolvimento, fizera-o vibrar de entusiasmo durante a exposição do dr. Mirko Stefano, técnico, poliglota e convincente. Valia a pena ouvi-lo.

Conhecedor da natureza humana, hábil negociador, o Magnífico recuou. Sabia recuar, há tempo e ocasião para cada coisa. Por favor, caro senhor prefeito, please, não me entenda mal. Referia-se a formas de pagamento da empresa ao município, diretas e indiretas, considerando serviços remuneráveis a colaboração da prefeitura ao sucesso do projeto, ao conceder a necessária autorização para que num de seus distritos, o de Mangue Seco, se instalasse o complexo industrial, duas grandes fábricas interligadas.

Além dos benefícios diretos, arrecadação de consideráveis impostos, crescimento da renda bruta per capita, empregos para naturais do lugar, a empresa tomaria a seu cargo providenciar melhoramentos necessários e urgentes: asfaltamento da estrada, por exemplo. A empresa pressionará o governo do estado, o ministério competente, se necessário, não falta prestígio aos diretores, digo-lhe em confiança, senhor prefeito. Construção de hotel, estabelecimento de linha de ônibus, serviço de lanchas no rio. Sem falar na área de Mangue Seco, onde se ergueriam as fábricas dando nascimento à moderna cidade operária, dezenas de residências destinadas aos trabalhadores, técnicos e funcionários. Para todo esse mundo de progresso a empresa concorrerá, graciosamente. Antes de visar lucros, os dignos diretores desejam contribuir para a construção de um Brasil poderoso, à altura de sua gloriosa missão no mundo. E viva!

Preso aos lábios do dr. Stefano, Ascânio enxergou Agreste reerguido da decadência, colocado na vanguarda dos municípios do interior baiano. Nos céus, a visão da fumaça das chaminés, pagando com juros o atraso devido à ausência da fumaça do trem de ferro, trazia ao mesmo tempo a riqueza para Agreste e um laivo de soberba a instalar-se no coração de Ascânio: à frente do progresso, a comandá-lo, o jovem prefeito, incansável batalhador.

Ao final da conversa com o enviado da diretoria provisória, quando, em nome da prefeitura, autorizou a sociedade a examinar as possibilidades de estabelecer suas indústrias em terras do município, Ascânio sentiu reviver aquela antiga ambição do estudante de direito, do noivo de Astrud, planos de triunfo. Interesse pessoal somando-se a elevado sentimento cívico. Pessoal, não mesquinho ou desonesto.

Vislumbrou a possibilidade de construir, à base do novo progresso de Agreste, carreira de administrador e político, a levá-lo e a elevá-lo até Leonora. Carreira vitoriosa, dando-lhe as credenciais exigidas a quem deseje candidatar-se a marido de herdeira paulista, grã-fina e milionária.

Até então, julgara-a inatingível, vivendo no pavor do anúncio de data de partida, do fim do acanhado idílio de silêncios e expectativas, de meias palavras e gestos imprecisos. Agora, tinha um horizonte, campo de luta, já não se sentia mísero funcionário de um burgo nas vascas da agonia pois, como afirmara poeticamente o Magnífico Doutor, raiava sobre Agreste a aurora de grandes eventos, a manhã do progresso.

Pena não poder contar o milagre a Leonora, nem a ela nem a pessoa alguma. O dr. Mirko Stefano exigira a máxima discrição, segredo absoluto até nova ordem. Somente após a conclusão dos estudos preliminares, apenas iniciados, poderia a empresa dar publicidade à notícia auspiciosa. Uma palavra dita antes do momento exato pode botar tudo a perder.

Se bem, à primeira vista, a região de Santana do Agreste, nas proximidades de Mangue Seco, parecesse o local ideal para a instalação das fábricas, os relatórios conclusivos dependiam ainda de um levantamento completo de possibilidades e vantagens, de análises diversas, indo da profundidade do mar na barra do rio Real ao apoio da administração. Novos técnicos desembarcariam logo após o Natal. Para o complicado trabalho que iriam realizar o dr. Stefano solicitou reserva e boa vontade ao senhor prefeito, além da necessária autorização. Eram propriedade da prefeitura as terras à margem do rio? A quem pertenciam? A discrição impunha-se inclusive para evitar uma alta exagerada nos preços dos terrenos, tornando antieconômica a utilização da área. Por ora, silêncio; depois, os foguetes.

Colaboração, toda a que se fizer necessária. Silêncio, mais difícil. O povo da terra é perguntador, o que não sabe, inventa. Se Ascânio nada disser sobre a entrevista, o fuxico vai crescer, será pior. Não pode fazer referência a um projeto de turismo? As cogitações são nesse sentido; ele próprio, Ascânio, assim imaginara.

A idéia pareceu extremamente divertida ao Magnífico Doutor, não conteve o riso. Os olhos postos nas ruas pacatas de Agreste, através das janelas do primeiro andar da prefeitura, concordou, jovial:

— Turismo… Boa bola. Bem achado, senhor prefeito. C’est drôle.

Ascânio não perguntou o motivo do riso, do ar zombeteiro do ilustre visitante, do mote em francês. Ajudou-o a enrolar plantas e projetos, a colocá-los num tubo longo, de metal, a reunir os papéis, a fechar a elegante pasta negra, de executivo. Na porta da saída, dr. Mirko Stefano confiou pasta e tubo ao peso pesado postado de sentinela; notava-se-lhe o volume do revólver no cinto. Um segundo campeão, de idêntico peso, medida e carantonha, chegou correndo do bar, onde degustava uma bramota em companhia do chofer, o paletó aberto, a arma exposta.

O doutor viera desta vez acompanhado apenas de chofer e do par de alagoanos. Para desolação de Osnar e Fidélio, presentes ao desembarque, nem uma só marciana ou garota de Ipanema descera da Rural, apenas o grande chefe espacial, o motorista e os dois pistoleiros. Não deixara de ser, no entretanto, matéria para assombro e comentário pois há anos não se via em exibição nas ruas de Agreste outras armas além dos facões dos roceiros na feira do sábado, e das maldições e pragas do profeta Possidônio, sendo os primeiros simples instrumentos de trabalho e servindo as últimas apenas contra o demônio e a impiedade.

Além de armados, de pouca conversa. O que veio desalterar-se no bar não despregou os olhos da porta da prefeitura onde deixara o colega. Osnar não se atrevera a pedir notícias de Bety, Bebé para os íntimos. Reagiu, indignado, à sugestão de Fidélio, gozador:

— Por que você não bate um papo com ele? Conte a história da polaca, conquiste-lhe as graças, descubra o que veio fazer. Mostre que é o tal.

— Vá à merda.

A mal-encarada dupla embarcou na Rural, no banco traseiro, guardando os documentos. O Magnífico Doutor apertou a mão de Ascânio, abriu-se num sorriso de velho amigo:

— Até breve, caro prefeito. Merry Christmas! Aliás, se me permite mandarei uns brindes para o Natal das crianças pobres.

Partiu a Rural, o pequeno grupo de basbaques ainda demorou-se a olhar para Ascânio, ele também ali parado, meditando em tudo que lhe fora dito e a Agreste prometido. Brindes de Natal para as crianças pobres, um festivo começo. Osnar se aproximou:

— Então, capitão, a que veio o Astronauta?

Avesso a embustes, considerado por todos um cidadão íntegro, de rígidos princípios, Ascânio viu-se de repente obrigado a mentir, a abandonar sua maneira de ser. Seja tudo pelo bem de Agreste! Embaraçado e sem jeito, respondeu:

— Que pode ser, senão turismo? — Adianta detalhe que não lhe parece matéria secreta: — Está interessado em comprar terras em Mangue Seco. O coqueiral…

— Terras do coqueiral? Puta merda, capitão Ascânio. Vai dar uma confusão dos diabos. Até hoje não se tirou a limpo quais são os donos…

Atrapalhado, Ascânio avista Leonora na porta da casa de Perpétua, os olhos na prefeitura. Ficara de ir buscá-la, a ela e a Tieta, para o banho na bacia de Catarina, está na hora. Despede-se às pressas.

Osnar estranha as maneiras do secretário da prefeitura: Ascânio está escondendo leite. Empresa de turismo, muito dinheiro, novidades às pencas. E se esses caras comprarem o coqueiral e a praia de Mangue Seco? Se fundarem um clube exclusivo, reservado para os sócios? Não, não podem fazê-lo, é impossível, as praias são propriedade do povo, inalienáveis, não é? Talvez comprem terrenos, construam hotéis, lojas, armazéns modernos… Quem sabe, Bebé virá passar uns tempos no coqueiral para estudar na prática o interesse turístico das dunas e dirigir a publicidade: aproveitem nossa oferta e venham praticar o coito carnal nas alvas areias de Mangue Seco, pagando depois em módicas prestações mensais. Mesmo não sendo polaca, Bety parece-lhe capaz de audazes cometimentos.

DA INAUGURAÇÃO DA PRAÇA

COM DISCURSOS E DANÇAS,

CAPÍTULO EUFÓRICO

 

EXCETUANDO-SE PARTE DA MENINADA AINDA NA

MATINÊ, NO CINE TEATRO Tupy, praticamente todo o resto da população da cidade reuniu-se, às cinco da tarde do último domingo antes do Natal, na antiga praça do Curtume, de agora em diante praça Modesto Pires. O jardim, o passeio que o circunda, o obelisco ao centro, o calçamento de pedras, benfeitorias devidas à ação de Ascânio Trindade na prefeitura, merecem o elogio geral.

— Esse Ascânio é um retado.

— Imagine quando ele for prefeito de verdade.

— Agreste vai virar um jardim.

Um estrado de madeira, armado para a cerimônia e para a exibição dos ternos-de-reis e do bumba-meu-boi; no obelisco, a placa de concreto, coberta com a bandeira brasileira. Na esquina, na parede da casa de Laerte Curte Couro, de propriedade de Perpétua, placa de metal igualmente coberta. Pena a Lira Dois de Julho ter-se dissolvido havia cerca de trinta anos, com a morte do obstinado maestro Jocafi que a dirigiu e regeu durante mais de meio século. Ascânio sonha com a reorganização da Lira cuja fama repercutira em todo o sertão da Bahia e de Sergipe. Difícil é encontrar quem empunhe a batuta, no município não há quem possa fazê-lo.

Madrinha da inauguração, cercada pela família e pelos amigos mais próximos, majestosa e sorridente, verdadeira rainha ou melhor, plagiando o vate Barbozinha, madona transportada da Renascença para os oiteiros de Agreste, dona Antonieta Esteves Cantarelli, pelo braço do coronel Artur da Tapitanga, seguida por Ascânio Trindade, Modesto Pires, dona Aída, a filha Marta e o genro, engenheiro da Petrobras, avança em direção ao singelo monumento. Silêncio e atenção, pescoços esticados. Dona Antonieta estende a mão, puxa a fita verde e amarela descerrando a placa de concreto onde se lê a data festiva e o nome do benemérito coronel Artur de Figueiredo, prefeito em exercício. Cerimônia simples, saudada por palmas, emocionante, no entanto, pois Perpétua saca de negro lenço do bolso da saia negra e enxuga uma lágrima — lágrima negra, de luto, segundo sussurra ao ouvido de dona Carmosina o irreverente Aminthas, em dia de humor igualmente negro.

Os meninos do grupo escolar atacam o hino. Vivas ao coronel que acena com a mão, agradecendo. Todo satisfeito, de braço com Tieta: a cabrita montês virou cabra de qualidade, úberes fartos e expostos. Ah!, seus tempos!

Zé Esteves, no cúmulo da satisfação com a proximidade da mudança para a nova residência, suspende o bordão e a voz:

— E viva minha filha, a senhora dona Antonieta Esteves Cantarelli!

Entusiasmo geral, nova lágrima de Perpétua, Elisa aberta em sorriso de vedete, desperdiçando beleza, Leonora, a mais animada, comandando as palmas. Por que não dão vivas a Ascânio Trindade?

Aplausos para dona Aída: a ela coube descobrir a placa na parede da esquina com o nome do logradouro reformado: praça Modesto Pires (cidadão eminente).

— Viva Modesto Pires! — grita Laerte Curte Couro, da porta da casa, ao lado da mulher e dos filhos, puxando o saco do patrão.

Dona Preciosa e dona Auta Rosa, diretora e secretária do grupo escolar, tentam conter a indisciplinada e incompleta turma, recrutada à força. Devido às férias fora difícil reunir mesmo aquele punhado de alunos, mais difícil ainda mantê-los em ordem. Vamos, o hino, seus rebeldes! A professora Auta Rosa, loira, nervosa e bonita, conta com admiradores fanáticos entre os discípulos. Dona Preciosa impõe-se a muque, a berruga no nariz, a voz de cabo de esquadra:

— Um, dois, três, agora!

Cresce o hino sobre a praça e o casario na voz das crianças e dos populares. Se ninguém der um viva a Ascânio, eu perco a vergonha e dou! — ameaça Leonora em pensamento, revoltada com tanta ingratidão.

Chega a vez de padre Mariano, acolitado por Ricardo em vermelho e branco, galante e piedoso. Bendito seja Deus!, suspira dona Edna, ao lado de Terto, seu marido (não parece mas é). Os olhos de Cinira pregados no coroinha, nas partes aquela comichão. Também Tieta contemplou o sobrinho e sorriu. Não teme as rivais, seu único rival é Deus e entraram em acordo, para Deus a alma, o corpo, para a piedosa tia.

Padre Mariano benze o jardim, o obelisco, a praça, todos os presentes. Reserva bênçãos especiais para o nosso ínclito chefe, o coronel Artur de Figueiredo, para o benemérito munícipe Modesto Pires, para a generosa, exemplar ovelha de nossa paróquia, dona Antonieta Esteves Cantarelli, e para sua gentil enteada. Que não lhes falte jamais a graça do Senhor, amém. Ricardo, na mão a caldeirinha de água benta, estende o aspersório ao reverendo. Gotas sagradas sobre as cabeças mais próximas, adianta-se Perpétua para merecê-las.

O engenheiro da Petrobras, dr. Pedro Palmeira, usa da palavra para agradecer, em nome do sogro. Refere-se à paz e à beleza de Agreste: que jamais sejam conturbadas pelos horrores de um mundo de violência, poluição e guerras. A barba negra, os cabelos longos, na moda, também ele provoca olhares, apetites e frustrações. Ao lado, de sentinela, a esposa, filha do lugar, conhecedora.

Por fim, discursa Ascânio Trindade, em representação do coronel Artur da Tapitanga, cuja voz não mais alcança as alturas indispensáveis aos tropos oratórios. Inflamado, buscando inspiração nos olhos de Leonora, prevê dias de glória, grandiosos e iminentes, para Santana do Agreste. Os prezados concidadãos podem se alegrar, está próximo o fim do marasmo e da pobreza, das dificuldades, da pasmaceira. É possível que se localize em Agreste a sede de um novo pólo industrial a ser implantado no estado da Bahia, a competir com o Centro Industrial de Aratu, nas proximidades da capital. Volverão os tempos de fartura e movimento, novamente teremos motivos de orgulho, nosso rincão bem-amado resplandecerá, luminosa estrela no mapa do Brasil.

— Que diabo o capitão Ascânio está arquitetando? — pergunta Osnar. — Ele está escondendo leite.

— Escondendo? Bem, Ascânio ainda não quer divulgar os planos da empresa de turismo, parece que são formidáveis — retruca dona Carmosina.

— Ele se referiu a pólo industrial.

— Força de expressão. Você não vai negar que o turismo hoje é uma indústria da maior importância. — Dona Carmosina explica: — O que acontece é que Ascânio está apaixonado.

— Baratinado… — concorda Aminthas.

Com um brado vibrante: Salve Santana do Agreste!, Ascânio encerra a fogosa e confusa oração. Do fundo da praça Modesto Pires, chega a voz de cachaça de Bafo de Bode no tardio viva:

— Viva Ascânio Trindade e viva sua namorada! Quando é o casório, Ascânio?

Leonora enrubesce em meio aos risos de Elisa e dona Carmosina. Livres dos discursos, moças e rapazes aos pares, de mãos entrelaçadas, circulam no passeio, inaugurando-o de fato. Leonora fita Ascânio, estende-lhe a mão, mais um par de amorosos a contornar a praça. Dona Carmosina suspira, comovida. Da casa de Laerte Curte Couro saem improvisadas garçonetes, funcionárias do curtume, com bandejas de pastéis, empadinhas e cálices de licor. Servem aos convidados de honra, oferta de Modesto Pires. O coronel Artur da Tapitanga senta-se num dos bancos verdes, de ferro, confidencia a Antonieta, enquanto lhe alisa a mão e examina os anéis — serão verdadeiros ou falsos os brilhantes? Se verdadeiros, valem uma fortuna:

— Meu afilhado Ascânio vai acabar maluco com essa história de turismo. Imagine que apareceu lá em casa, na fazenda, para dizer que vão montar fábricas aqui, construir uma cidade em Mangue Seco. Anda de juízo mole, acho que é devido à sua enteada. — Muda de assunto: — Você ainda não foi me visitar na fazenda, ver minhas cabras; o rebanho dá gosto a gente olhar. Vá e leve a moça. Tenho um bode inteiro que é um portento, paguei um dinheirão por ele; se chama Ferro-em-Brasa.

À noite, os ternos-de-reis e o bumba-meu-boi exibem-se no estrado. Os ternos, em número de três, dois da cidade, o terceiro vindo de Rocinha, o mais bonito, o Sol do Oriente. Uma dúzia de pastoras, enfeitadas de papel de seda, conduzindo lanternas vermelhas e azuis, as vozes soltas, os pés na dança:

Somos pastoras

Das estrelas do céu

Chegamos do Oriente

Para saudar o Deus menino

Neste dia diferente.

Tieta acompanha o canto do reisado, tomada de emoção. Menina de pés descalços, fugindo de casa para acompanhar os ternos nas ruas de Agreste. Tanto sonhara empunhar uma lanterna, pastorear estrelas! Somente cabras e cabritas lhe couberam, vida afora. Valera a pena voltar para ver e ouvir.

Somos as pastoras

Da lua e do sol

Somos as pastoras

Do arrebol.

 

Para assistir o bumba-meu-boi de Valdemar Cotó, com o boi e a caapora, o vaqueiro em seu cavalo, dançando no tablado, espalhando a meninada pela praça. Uma única perna, um único braço, esvoaçante, branco lençol, agilíssimo, alegre fantasma, a caapora vem pedir a bênção a dona Antonieta, é o moleque Sabino. Depois, o bumba-meu-boi e os ternos-de-reis descem a rua principal, param de porta em porta, saudando os moradores, pedindo permissão para entrar. Dançam e cantam na sala em louvor dos donos da casa. Cálices de licor, copos de cerveja, goles de cachaça são servidos ao vaqueiro, ao boi, à caapora, às pastoras do arrebol.

Improvisada orquestra, paga pela prefeitura, composta da harmônica de Claudionor das Virgens, do cavaquinho de Natalino Preciosidade, da viola de Lírio Santiago, toma lugar no estrado, ocupando cadeiras emprestadas por Laerte, ataca músicas de dança, variadas, para todos os gostos, logo surgem os pares.

— Olhem quem está dançando! — Astério aponta Osnar que comprime nos braços de macaco uma cabocla esfogueada, novinha, a saia no joelho, as pernas grossas.

— Sujeito mais sem-vergonha — rosna dona Carmosina, furiosa por não ser ela a felizarda comprimida contra o peito do debochado, ai!

O assustado se anima, vários pares rodopiam no estrado. O cavaquinho chora num convite. Leonora olha para Ascânio, ele sorri, ela murmura, a voz rompendo cristais:

— Vamos…

Sobem ao tablado, a harmônica ataca a marchinha carnavalesca, Leonora desliza, os olhos semicerrados. Ascânio conduz o corpo leve da moça preso ao seu, os cabelos soltos tocam-lhe o rosto, sente-lhe o hálito cálido, noite gloriosa. A dança conquista a praça, generaliza-se. O engenheiro da Petrobras, dr. Pedro, e dona Marta, a esposa, incorporam-se aos dançarinos. Dona Edna aceita o convite de Seixas com o consentimento de Terto — e ele que se fizesse de besta e não consentisse! Dona Edna exige do marido compreensão e cortesia. Seixas a enlaça, ela adianta a coxa, mais audaciosa a cada rodopio. Quem acha, encaixa, diz Osnar e Seixas executa.

Cerimonioso e grave, o vate Barbozinha estende a ponta dos dedos a Tieta, solicitando o prazer da contradança. Diante do que, Elisa consegue decidir Astério e dona Carmosina exige de Aminthas o sacrifício:

— Me tire para dançar, seu mal-educado.

— Vamos, Elizabeth Taylor, mas tenha piedade de meus pés.

— Cretino!

Os ternos-de-reis voltam à praça, dissolvem-se no estrado, Fidélio dança com a porta-bandeira do Sol do Oriente em busca do arrebol. O vaqueiro em seu cavalo zaino, o boi, a caapora, correm atrás do bando de meninos chefiado por Peto. Ricardo ficou em casa, fazendo companhia à mãe. Depois do rosário, na rede, esperará a volta da tia.

Esgotadas as possibilidades de cachaça, Bafo de Bode retira-se da praça cada vez mais animada, a dança pegando fogo!

— Eta-ferro! Hoje vai ter movimento na beira do rio… — equilibra-se para aconselhar: — Mete os peitos, Ascânio, seja homem!

Desaparece no beco mas ainda se lhe escuta a voz podre e moralista:

— Toma cuidado, Terto, para não arrancar os fios da luz com os chifres…

Para o que diz Bafo de Bode, ninguém liga, advertência e sugestões perdem-se na música da harmônica, do cavaquinho e da viola, no júbilo da festa, na paz da noite de Agreste.

 

DAS CHAMAS MORAIS ÀS CHAMAS

VERDADEIRAS, CAPÍTULO EMOCIONANTE NO QUAL TIETA EXIBE UM RESPLENDOR DO FOGO

 

LIBERTO DAS PENAS DO INFERNO, NAS CHAMAS DO

CIÚME SE CONSOME o seminarista Ricardo, na noite da festa. Às nove horas em ponto, a luz do motor se apagou dando por findas as danças no tablado armado na praça do Curtume (perdoem: praça Modesto Pires) mas dona Carmosina inventou um passeio até o rio, espécie de piquenique noturno. No bar de seu Manuel abasteceram-se de cerveja e guaraná, de bolinhos de bacalhau, especialidade do lusitano.

Da rede onde se recolhera à espera, o seminarista ouve o grupo na calçada, reconhece vozes, a de Leonora, a de Aminthas, a de Barbozinha em galanteio, esse velho ridículo não se assunta!, o riso de Tieta. Pensou que iam se despedir na porta mas os passos prosseguem pela praça e se perdem, ninguém entra em casa. Ricardo salta da rede, penetra na alcova, abre a janela sobre o beco, avista o grupo álacre no escuro da esquina, a caminho do rio. Sente-se enganado, traído, miserável.

Outra coisa não deseja Tieta senão voltar para casa, cansada do dia festivo, iniciado com a missa das oito e longo sermão do padre Mariano. Quando enxerga a magnânima ovelha na igreja, entre os fiéis, o grato reverendo supera-se, estende a prédica, servindo latim e citações da Bíblia. Tieta anseia reencontrar a ternura e a violência de seu menino, apenas entrevisto à tarde na hora da cerimônia, deslumbrante nas vestes de coroinha, a oferecer ao padre o aspersório. Indiferente às exibições folclóricas, tendo de rezar o rosário cotidiano, egoísta, Perpétua retivera o filho em casa para lhe fazer companhia. Rodopiando nos braços de Barbozinha, de Osnar, de Fidélio — todos disputando a honra de dançar com ela — o pensamento de Tieta estava em Ricardo, ajoelhado diante do oratório a debulhar o terço com Perpétua. Insensata imagem, sonhara-se enlaçada pelo sobrinho vestido de batina; deslizavam no tablado, romântico e apaixonado par. Assim como estavam Leonora e Ascânio: a moça de olhos semicerrados, descansando a cabeça no ombro do rapaz.

Tieta aprovara a idéia de dona Carmosina e acompanhara o grupo na esperança de rapidamente desviar a quadrilha para outros rumos, deixando a sós Leonora e Ascânio, livres para os beijos e as juras de amor. Na bacia de Catarina, sob o negrume dos chorões, o namoro poderia desenvolver-se como devido, ao gosto de mãezinha: ardente xodó e nada mais.

Sentam-se sobre as pedras, Osnar empunha um abridor de garrafas, dona Carmosina desfaz o embrulho de bolinhos de bacalhau, comem e conversam. De mãos dadas, Ascânio e Leonora permanecem alheios ao mundo em redor, sorriem abobados. Tieta se impacienta, levanta-se:

— Estou caindo de sono. Proponho…

Não chegou a propor deixarem ali o casal de namorados, tomando o rumo de suas casas os dispostos a dormir, mergulhando na escuridão dos becos os caçadores noturnos, porque Barbozinha, a seu lado, aponta para a cidade e pergunta:

— Que é aquela luz ali? Parece fogo.

Não parece, é um fogaréu. Elevam-se labaredas, um clarão se abre no negrume.

— Incêndio! — anuncia Aminthas.

— Onde será?

Também Ascânio se põe de pé, tem o mapa da cidade na cabeça:

— É no Buraco Fundo.

— Ai, meu Deus! — geme dona Carmosina.

No Buraco Fundo moram os mais pobres entre os pobres, os que nada possuem, os mendigos, bêbados sem ocupação, velhos que se arrastam para esmolar um pedaço de pão nas ruas do centro.

— Vamos lá. — Ascânio ajuda Leonora a levantar-se.

Tieta já partira, sem esperar convite. Quando mocinha, estando certa noite nos esconsos da bacia de Catarina com um caixeiro-viajante, ouvira gritos e percebera a claridade das labaredas. Quando chegaram, porém, ao lugar do incêndio, as chamas terminavam de devorar a casa de dona Paulina, vitimando três dos cinco filhos da viúva, os menores. Incêndio em Agreste é raridade mas quando acontece deixa sempre um saldo de mortes, por falta de qualquer recurso para extinguir o fogo.

Dissolve-se o piquenique, o grupo sai no encalço de Tieta mas ela se distancia, o passo rápido em seguida se transformara em correria. Surgem pessoas nas esquinas, atraídas pelo clarão nos céus.

Tieta é dos primeiros a chegar ao Buraco Fundo, as chamas envolvem uma das casas, por sorte isolada das demais. Alguns populares, moradores do local, cercam uma rapariga gorda que grita e arranca os cabelos:

— Ela vai morrer, ai minha avozinha!

Bafo de Bode, a voz pastosa, as pernas trôpegas, explica que Marina Grossa Tripa, lavadeira de profissão e, se encontra freguês, meretriz de baixo preço, acordada pelo fogo em sua casa, fugira porta afora, esquecendo no quarto dos fundos a velha Miquelina, sua avó. Com a violência do fogo na madeira velha, nas palhas de coqueiro do teto, a anciã, praticamente incapaz de andar, a essas horas deve ter virado torresmo.

Uma vintena de vizinhos e curiosos assiste ao espetáculo da neta aos gritos suplicando que, por caridade, pelo amor de Deus, lhe salvem a avó, sua única parenta. Ninguém se oferece: se a própria Grossa Tripa, a quem cabe obrigação de neta, não é tão louca a ponto de enfrentar o fogo, de penetrar naquele inferno, não serão estranhos que irão fazê-lo. Consolam-na recordando a longa existência da avó Miquelina, de cuja idade se perdera memória. Vivera tempo suficiente para o bom e o ruim, vamos deixá-la descansar. Não paga a pena correr perigo mortal para tentar prolongar-lhe a vida por uns meses, umas semanas, uns dias.

Sem esperar o fim da explicação de Bafo de Bode, indiferente aos argumentos dos vizinhos, Tieta se atira em direção ao fogaréu, não atende a gritos e conselhos. Quando Osnar e Aminthas despontam no imundo canto de rua, ela acaba de desaparecer nas chamas. De toda parte, apressados, afluem homens, mulheres, meninos, pois o sino da igreja está badalando, fúnebres sons de desgraça e morte.

Aumenta o burburinho quando Leonora aparece amparada por Ascânio, seguidos por dona Carmosina que põe a alma pela boca.

— Dona Antonieta está lá dentro…

Ao saber que Tieta invadira o incêndio, Leonora solta-se da mão do namorado, tentando segui-la, mas Aminthas a sustém a tempo. Ascânio, pálido, vem e a toma nos braços.

Rui o telhado, cresce imensa labareda, espalham-se milhares de faíscas crepitantes. Ricardo, descalço e de batina, atravessa o povo a tempo de ver Tieta surgir das chamas, trazendo nos braços o corpo mínimo da velha Miquelina, viva, incólume e furiosa, a praguejar contra a neta desalmada que a abandonara na hora do perigo, te arrenego, maldita! O fogo respeitara o catre onde jazia, esperou que a viessem recolher para, de uma lambida, reduzi-lo a cinzas. Sobem chamas pelo vestido de Tieta e os anelados cabelos exibem uma auréola de fogo, um halo, um resplendor.

Tais foram o espanto e a comoção que os assistentes emudeceram, ficaram parados. Somente Bafo de Bode teve raciocínio e ação. Surgiu com uma lata cheia de água e a despejou sobre Tieta.

 

DA TROVA POPULAR E DA

POESIA ERUDITA

 

AO VÊ-LA ESTENDIDA SOBRE O LENÇOL, AS FEIAS

QUEIMADURAS, pernas e braços em carne viva, os cabelos chamuscados, Ricardo engoliu o soluço mas não pôde impedir a lágrima. No sal da lágrima havia sabor de orgulho. Quando, obedecendo às ordens do dr. Caio Vilasboas, todos se retiraram para que Tieta pudesse repousar, o sobrinho ficou de sentinela. Ela lhe disse:

— Venha e me dê um beijo.

Se o assunto da luz da hidrelétrica, cujos fios e postes se aproximavam velozmente da cidade, fizera de Antonieta Esteves Cantarelli cidadã benemérita, figura ímpar entre os filhos de Agreste, o salvamento da velha Miquelina, abandonada no fogo pela neta e lá deixada à espera da morte pelos curiosos aglomerados diante do incêndio, elevara-a à categoria de santa. Entronizada no altar-mor da matriz, ao lado da Senhora Sant’Ana como previra Modesto Pires, um dos primeiros a visitá-la no dia seguinte.

Os poetas acertam sempre, deles é o dom divinatório. Gregório Eustáquio de Matos Barbosa, o vate De Matos Barbosa, versejador elogiado nas colunas dos jornais da Bahia, reconhecido nos cafés de literatos da capital, apaixonado antigo de Tieta, compôs uma ode em seu louvor, exaltando-lhe a beleza e a coragem, beleza deslumbrante, indômita coragem; em versos de rigor clássico e rimas ricas a comparou àquela guerreira e santa que um dia tomou das armas, salvou a França e enfrentou as chamas da fogueira com um sorriso nos lábios. Joana d’Arc do sertão, assim escreveu, impávida vencedora das trevas e do fogo, desafiando a morte, resgatando a vida.

Por coincidência, também o trovador Claudionor das Virgens, ao inspirar-se no incêndio para compor versos de cordel, canonizara-a em rimas pobres:

Da neta escutou o rogo

Trouxe a velhinha nos braços.

Vinha vestida de fogo:

Pelos dons do coração

Pela beleza dos traços

Santa Tieta do sertão.

Durante o dia inteiro, na porta, uma romaria de viventes querendo notícias, mandando recados, abraços, amizade. À cabeceira da cama, ao lado de Leonora, o poeta Barbozinha, o ex-boa-pinta, murcho e reumático mas fiel à paixão da mocidade, declamando a ode consagradora. Aos pés do leito, junto a Elisa, o sobrinho Ricardo, robusto e terno, ansiando beijar cada queimadura, pedir perdão dos maus pensamentos, tê-la nos braços. Peto trouxera-lhe uma flor colhida nos matos.

Na cama de casal do dr. Fulgêncio e de dona Eufrosina, na lembrança imperecível de Lucas, ouvindo o rumor do povo na praça a lhe pronunciar o nome, entre o gasto poeta e o ardente seminarista, Tieta, santa pelos dons do coração e pela beleza dos traços, impávida Joana d’Arc do sertão, navega em mar de amor.

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