Tieta do Agreste
Da egrégia figura
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Minha, com certeza, não é? Fique sabendo que a acusação me honra muito.
— Coitado, é ter uma folga, se toca para Mangue Seco. Agora mesmo está na praia, não está?
— Para assegurar os votos do pessoal de lá. Mas volta logo.
— Pelos votos de Mangue Seco? Não chegam a uma dúzia… Mas Tieta, essa pode desequilibrar a balança, se ficar até o fim… Engraçado: apesar de combater a candidatura de Ascânio, parece que ela não se opõe ao namoro dele com a enteada. Aliás, Carmosina, em matéria de namoro, esse é de se tirar o chapéu…
Dona Carmosina evita o assunto, a vida particular de Ascânio não está em discussão, Leonora é um amor de criatura. Mas, já que o coletor desviou a conversa dos temas políticos para outros, mais amenos, ela gostaria de saber…
— O quê, Carmosina?
— Se é verdade o que andam dizendo por aí… Que Modesto Pires admitiu um sócio…
— No curtume?
— Não, seu Edmundo. Na cama de Carol.
Quem responde é o árabe Chalita, alisando com gosto os bigodões:
— Um só, não. Eu soube de pelo menos dois. — Um clarão perpassa-lhe nos olhos gulosos. — Estou esperando que se transforme em sociedade anônima… Para comprar uma açãozinha.
DA CONVERSA FINAL SOBRE O DESTINO DAS ÁGUAS, DOS PEIXES E DOS HOMENS, QUANDO A BRASTÂNIO ESCOLHE NOVO DIRETOR E, NO REQUINTADO AMBIENTE DO REFÚGIO DOS LORDES, SERVE-SE — HORROR! — UÍSQUE COM GUARANÁ
NA EQUIPE ESCOLHIDA A DEDO DESTACA-SE, PELA
ELEGÂNCIA DO PORTE, uma jovem pernalta e esguia. Mais do que esguia, magricela, modelo em desfiles de haute-couture, bem ao gosto do magnata Ângelo Bardi. Convocada para ele, especialmente; a administração do Refúgio dos Lordes, a par do apetite dos fregueses tradicionais, os sustentáculos da casa, trata de satisfazer-lhes os caprichos. Dr. Mirko Stefano alegra-se ao constatar a presença da ruiva ondulosa e pícara, parecida com Bety; no encontro anterior Sua Excelência a confiscara, deixando o Magnífico vagamente frustrado. O Velho Parlamentar não foi esquecido: uma guria com fisionomia e jeito tão impúberes que em certas ocasiões faziam-na passar por virgem com sucesso. Em atenção ao novato (para quem fora recomendada a maior deferência), a gerente, desconhecendo-lhe os pendores, destacara três garotas, de tipos diferentes mas todas ótimas, il n’aura que l’embarras du choix. Enquanto servem uísque aos poderosos senhores, as seis belas exibem os encantos — a mais vestida usa biquíni, a esgalga agita vaporoso véu a realçar-lhe os ossos. Trajando sóbrio costume bem talhado, a gerente, gordota e baixa, parece diretora de um internato feminino.
Fitando de esguelha a nudez das moças, o cidadão de postura rígida e cabelo buscarré, pela primeira vez em tal ambiente, procura vencer o acanhamento. Na juventude freqüentara prostíbulos, em certa ocasião festiva fora a um randevu, em Botafogo, no Rio de Janeiro; depois casara-se. Não corre perigo de ser identificado, está incógnito e à paisana, anônimo parceiro participando com amigos de programa alegre. Ao ser servido pela ruiva, desviando os olhos encadeados, anuncia:
— Quero o meu uísque com guaraná.
Com guaraná! Faz-se um silêncio de espanto. A magricela, ao lado de Bardi, contém o riso. Uísque daquela marca rara e preciosa, em São Paulo serve-se apenas no Jockey Club e no Refúgio dos Lordes. Na Inglaterra, bebem-no puro, sem gelo. Mas o Velho Parlamentar, um lorde, esclarece com fleuma britânica e impávida adulação:
— Uísque and guaraná, fórmula brasileira, muito em moda. Vou querer também.
Há gosto para tudo, pensa a gerente. Refazendo-se do sacrilégio, vence a repugnância e ordena:
— Guaraná, depressa!
O dr. Ângelo Bardi desvia as atenções, ao pedir notícias de sua querida amiga a quem não vê há bastante tempo:
— Nossa cara madame Antoinette, não volta mais?
— Ainda está na França. Quando ia embarcar, o pai morreu, o general. Do coração, coitado.
— General? — o de cabelo buscarré, olhos de viés nas moças, supera o embaraço, demonstra repentino interesse.
— Madame Antoinette é filha de um general francês com uma nativa da Martinica… — a gerente repete a clássica informação, ar de professora de história, ditando aula.
— Como? — o de cabelo buscarré se espanta.
— Como a imperatriz Josefina, a de Napoleão Bonaparte — ilustra o Magnífico Doutor.
— Ahn! Figura histórica! Muito interessante. — Sente-se mais à vontade e usa o guaraná com abundância.
— Desejam mais alguma coisa? — Diante da resposta negativa, a gerente comanda: — Vamos, meninas! — Marcha à frente do garrido pelotão.
O Velho Parlamentar pousa o copo:
— Pois aqui estamos, vitoriosos. Custou trabalho e muita habilidade, assunto explosivo. Não digo para valorizar mas se não fosse o parecer do amigo aqui presente… O pessoal da linha dura andou torcendo o nariz e as autoridades baianas tinham fincado o pé: em qualquer lugar, menos em Arembepe, e daí não arredavam. Mas, finalmente, cederam, abandonando a posição de intransigência, diante da argumentação apresentada por nosso prestigioso paraninfo.
— O desenvolvimento nacional é prioritário, contra ele não podem prevalecer razões sentimentais, muito menos irrelevantes detalhes de localização. Estive lá, pessoalmente, constatando o absurdo das alegações, meu parecer baseou-se no estudo direto do problema. Em rápido bosquejo, vou colocá-los a par de meus considerandos e de minhas conclusões. — O prestigioso paraninfo aclara a voz com um largo trago de uísque com guaraná.
Não pediu anuência, foi em frente com o rápido bosquejo, em verdade quase uma conferência. Ângelo Bardi ouve de olhos semicerrados, cada palavra vale ouro. O Velho Parlamentar parece beber as frases do conferencista, concorda e aplaude com a cabeça. Atento, o Magnífico Doutor, em atitude de discreta reverência: que pecado cometera para sofrer aquele castigo? Ninguém ousou interromper.
Na Bahia, àquela hora, Rosalvo Lucena, no gabinete do secretário, recebe a boa notícia: novos estudos, realizados em alto nível, levaram a uma reavaliação do problema. Poderosas razões de ordem econômica, social e política determinam a localização da indústria de dióxido de titânio em Arembepe, o governo estadual dá meia-volta, volver, submete-se e aprova o pedido da Brastânio. No Refúgio dos Lordes, ao calar-se a voz autoritária e metálica, o magnata Bardi aplaude:
— Ainda bem que possuímos estadistas de larga visão, capazes de impor as supremas razões do interesse nacional, esmagando preconceitos, derrotando a subversão. Dou-lhe os parabéns, meu ilustre amigo.
O Velho Parlamentar deixa de lado o copo de uísque com guaraná, mistura horrenda:
— Caro Bardi, um último detalhe antes que nos separemos. Em que data será realizada a assembléia para a ampliação da diretoria da Brastânio?
— Em seguida. Estaremos em Salvador amanhã, faremos publicar imediatamente os editais de convocação. — Volta-se para o autor do relatório que se regala com o uísque and guaraná. — Para nós vai ser um grande prazer incorporar à diretoria da Brastânio o doutor Gildo Veríssimo, de cuja capacidade temos as melhores referências…
— Não é por ser meu genro… — concorda o ilustre amigo — …mas competência é o que lhe sobra. Os senhores estão bem servidos.
— Estamos conversados — conclui o Velho Parlamentar.
Ângelo Bardi agita pequena sineta de prata, a gerente se apresenta comandando as meninas. O de postura rígida e cabelo buscarré, prestigioso paraninfo, ilustre amigo, curva-se para o Magnífico Doutor, pergunta em voz baixa:
— As despesas estão todas pagas?
— É claro…
— Todas? Incluindo…
— Incluindo.
— Então, avise a ela — ordena, apontando a gerente — que eu quero aquela de cabelo de fogo…
Lá se ia a ruiva, perdida pela segunda vez, contingência da profissão de diretor de relações públicas, repleta desses desapontos. Mas também gratificante, reflete Mirko. Saber que Agreste desaparecerá do mapa, que nunca mais terá de atravessar aqueles caminhos de mula e suportar o calor senegalesco, a poeira, a lama, o desconforto, a cerveja quente, sem falar nos bandidos e nos tubarões da costa deserta, misérias e perigos a cercá-lo e ameaçá-lo, pagava qualquer pena — ruiva ou castanha, loira ou trigueira.
Em nenhum momento, enquanto recordou Agreste e Mangue Seco, pensou em Ascânio Trindade. Para o dr. Mirko Stefano, Agreste e sua gente pobre e feia tinham acabado para sempre.
ONDE REAPARECE O AUTOR
QUANDO JÁ NOS IMAGINÁVAMOS
LIVRES DESSE CHATO
ERA MINHA INTENÇÃO NÃO INTERROMPER A
NARRATIVA QUANDO CHEGAMOS ao epílogo deste monumental folhetim (monumental, sim, basta atentar-se no número de páginas). Sendo neutro na contenda travada em Agreste, desejava manter-me à margem, simples espectador. Mas vejo-me obrigado a abandonar meu propósito, para mais uma vez defender-me de críticas assacadas contra a forma e o conteúdo de meu trabalho por Fúlvio d’Alambert, fraterno e acerbo. Chego a supor que sentimento menos digno, qual seja a inveja, dita-lhe as restrições, ao constatar que me aproximo do fim deste cometimento literário. Nunca acreditou que eu conseguisse realizá-lo.
Não penso responder a uma quantidade de reproches menores, de ordem gramatical ou estilística, para não alongar minha intervenção. Desses, para exemplo, citarei apenas um. D’Alambert critica asperamente a forma como empreguei o verbo “contemplar”. Subindo em companhia de Cinira, a escada que leva à torre da igreja, Ricardo vai, “ela na frente, ele atrás, a contemplar”. Contemplar, ensina-me Fúlvio, é verbo transitivo, exige objeto direto: quem contempla, contempla alguma coisa. Segundo ele, escondi dos leitores o alvo da jubilosa contemplação do seminarista.
Defendo-me, perguntando se os leitores necessitam realmente de objeto direto para se darem conta da paisagem contemplada pelo jovem, se outra não existia na estreita e sombria escada além das coxas e dos quadris da donzelona? Além de tudo, tais detalhes da anatomia da beata, se bem excitassem o adolescente, não são de qualidade a merecer o interesse dos leitores.
Acusação mais séria refere-se ao atropelo final da narrativa. Antes, as ações sucediam-se, poucas e lentas, espalhando-se em folhas e folhas de papel, numa falta de pressa, num despropósito de detalhes, em contínua repetição de minúcias, gritante ausência de economia literária, durante cinco longos episódios de enfadonha leitura. Abruptamente, no epílogo, modifica-se o ritmo, rompe-se a medida do tempo e do espaço ficcionais, perdendo-se a unidade da narrativa.
Na opinião de Fúlvio, o autor tomou-se de tal pressa a ponto de deixar os leitores na ignorância de fatos do maior interesse, reduzidos a simples referência casual. Cita o comício da praça da Matriz e a questão dos sócios de Modesto Pires nos afagos de Carol. Sabe-se de Ricardo, quais os outros?
Não sou culpado pela modificação do ritmo da narrativa, se ela existe. Os acontecimentos é que se precipitaram e se atropelaram, à minha revelia. Tantos em tão pouco tempo, para acompanhá-los vou deixando de lado aqueles que não me parecem fundamentais, mesmo se aparatosos ou divertidos.
É o caso do comício. Realizando-se no dia seguinte ao do conflito na feira, atraiu numeroso público. O vate Barbozinha foi o primeiro a ocupar a tribuna, ou seja, a frente do palanque da praça e a elevar a voz (o verbo no caso vale em sentido literal pois, não havendo microfone e alto-falante, os oradores usam a força dos pulmões). O bardo possui seus incondicionais, sobretudo entre as solteironas — adoram vê-lo recitar poemas de amor, o braço estendido, os olhos entornados para o céu, trêmulos na voz ao pronunciar as rimas ricas, desfiando as emoções românticas e sensuais de amores eternos e perjuros. As musas inspiradoras de Barbozinha tinham sido, em grande maioria, raparigas dos castelos de Salvador, xodós dos tempos de boemia. Nos Poemas da maldição, porém, como ele próprio explicou, vibrara as cordas do civismo e da indignação em lira patriótica e acusadora. Obteve aplausos mas, ao final, as fanáticas exigiram, aos gritos, a declamação de uns versos famosos, dezenas de vezes recitados nas festas locais: a “Balada do triste trovador”. Não fosse a enérgica oposição de dona Carmosina — isso aqui é um comício político, homem! —, o poeta estaria até agora no palanque a dizer a “Elegia obscura da rua São Miguel”, o “Poema para os lábios de Luciana”, o “Soneto escrito nos seios de Isadora” e outras peças de resistência.
Mitingueira estreante, dona Carmosina saiu-se bem. Seguidamente aparteada por Ascânio, levara vantagem no debate, língua solta e atrevida. A única interrupção a perturbá-la — por pouco não perde o rebolado — teve mais de comentário que de aparte e não proveio de Ascânio. Partiu de Bafo de Bode, tão bêbado a ponto de não se agüentar de pé. Ao ouvir dona Carmosina declarar que falava “em nome das mães de família preocupadas com o futuro dos filhos e maridos”, o mendigo protestou:
—Ah! Essa não… Solteirona encruada não pode falar em nome de mulher casada, não tem competência de boceta!
O protesto arrancara risos da assistência, composta em boa parte por ouvintes mais interessados na troca de acusações e injúrias do que nos graves assuntos em debate, dados sobre o problema da poluição e o grau de periculosidade dos efluentes do dióxido de titânio, manejados com evidente competência por dona Carmosina. Nem por ela me parecer chegada a chicanas e maquiavelismos, lhe negarei capacidade e ousadia.
Novidade no burgo, onde as eleições prescindiam de agitação e propaganda, bastando a palavra de ordem do coronel Artur de Figueiredo para o esclarecimento do eleitorado, o comício transformou-se numa festa. Tão bem-sucedido que, ali mesmo na praça, Ascânio Trindade decidiu realizar um no sábado seguinte, realizando-o na praça do Mercado — por denominar-se realmente praça Coronel Francisco Trindade, em honra de seu avô, o operoso intendente, e por lhe garantir o apoio dos feirantes. Para comício, faixas, volantes, para enfrentar a campanha do comandante, precisava de dinheiro mas isso não lhe parecia constituir problema sendo, como era, candidato do coronel. O padrinho nunca lhe faltara. Dessa vez, faltou, como já se sabe, obrigando-o a dirigir-se à Brastânio. Fora a Esplanada para de lá telefonar ao Magnífico Doutor.
O comandante encerrou o comício, apresentando sua plalaforma eleitoral. Não permitiu apartes, no receio de perder o fio do improviso — decorado a duras penas. Passara noites em claro, declamando parágrafos, sob a vigilância e o aplauso de dona Laura. Declarou ter abandonado a tranqüilidade e o repouso a que fizera jus após uma vida consagrada à pátria (aplausos) para novamente envergar a farda gloriosa da Marinha de Guerra (repetidos aplausos) e colocar-se a serviço do povo de Agreste (grandes aplausos). Mesmo à paisana na tribuna, estava moralmente fardado, a postos na trincheira de luta (ruidosos aplausos; gritos de “Bravo!”, e “Muito bem!”). Acusavam-no de inimigo do progresso, calúnia vil. Contra o falso progresso, sim, contra aquele que não concorre para o bem da comunidade, o que polui, suja, empesteia e enche os bolsos dos industriais da morte (gritos de “Apoiado!”, e de “Não apoiado! — A Brastânio é a redenção de Agreste!”). Mas saudava com entusiasmo o verdadeiro progresso, aquele que beneficia não apenas meia dúzia de sabidos mas toda a população, progresso simbolizado pelos postes da hidrelétrica do São Francisco (ruidosos aplausos), conquista que o povo deve exclusivamente à nossa benemérita e influente conterrânea, dona Antonieta Esteves Cantarelli, nossa querida Tieta… (aplausos, bravos, vivas, Viva Tieta! Viva! Vivôo!, perdendo-se na ovação as últimas palavras do orador). Uma apoteose.
Quanto aos cochichados sócios de Modesto Pires, sócios de indústria, sem capital, mantendo-se o ricalhaço como único capitalista, comanditário exclusivo — sobre eles pouco tenho a dizer. Pode-se considerar o seminarista Ricardo um sócio, no sentido lato da palavra? Não creio. Abriu o caminho para a liberalização da empresa antes individual, fechada e proibida, terminando aí sua participação. Permanecesse em Agreste, certamente ocuparia lugar importante na firma, ou seja, no leito de Carol. Quem sabe, ao voltar?
Quanto a outros sócios, sei apenas de Fidélio, o atual Taco de Ouro. Sim, não posso negar: a decisão do torneio de bilhar, relevante acontecimento, deixou de ser consignada, no devido tempo, nas páginas tumultuadas deste folhetim. Não há muito a relatar. Fidélio derrotou Astério, na partida final, disputada ponto a ponto, tacada a tacada. Astério retornara aos treinos, vendeu caro a derrota e o título. Como de hábito, numerosa torcida feminina apoiou o rebelde herdeiro do coqueiral, restando apenas a Astério a sustentação de uma Elisa melancólica e quase indiferente ao resultado da disputa. Dona Edna não compareceu, sabe-se lá devido a que ou a quem. Tampouco Leonora. Estando Ascânio eliminado, ela nada tinha a fazer no bar de cochichos e indiretas.
Várias admiradoras de Fidélio esperavam que o novo campeão lhes dedicasse a vitória, tinham razões para tanto. Ele preferiu, no entanto, comemorá-la com Carol. Empurrou a porta defesa mas apenas encostada, pois Modesto Pires continuava em Mangue Seco. Por falta de verba — ah!, a pobreza de Agreste! — o Taco de Ouro não passa de título abstrato, não se concretiza em troféu, sequer em diploma. Carol, porém, com a sabedoria e a malícia das amásias dos ricos nas pequenas cidades, facilmente concretizou a abstração, o Taco de Ouro teve forma, volume e sabor. Entregues a tão meritória tarefa, os encontrou o ricalhaço quando, chamado às pressas devido aos alarmantes boatos sobre a inesperada neutralidade do coronel, se arrancou dos braços amoráveis (e insossos) de dona Aída e veio saber o que de fato estava acontecendo na cidade. Soube, até demais.
Sendo Modesto Pires um dos mais irredutíveis guardiões da moral pública em Agreste e levando-se em conta a natureza enrustida de Fidélio, desconhece-se o teor da conversa da qual nasceu a sociedade. Se começou, como alardeiam, turbulenta e agressiva, terminou em harmonia e acordo, pois Fidélio saiu, segundo várias testemunhas, pela porta da rua, calmo, decentemente vestido, sorrindo. Ao contrário do que pensaram fosse acontecer, Carol não embarcou na marinete de Jairo, devolvida às plagas sergipanas; na tarde daquele mesmo dia esteve fazendo compras nas lojas, desparramando dinheiro. Chifres caros, os de Modesto Pires, cornos de ouro, como compete a cidadão rico e virtuoso. As ações da sociedade andam em alta, são vários os candidatos a integrá-la mas não creio que as esperanças de Chalita possam se realizar. Sociedade limitada, sim. Anônima, com certeza não.
Cumprindo dever cívico, Modesto Pires, tendo analisado a conjuntura política, abriu com módica quantia uma subscrição de ajuda à campanha de Ascânio Trindade. Espera recuperar, com juros, a inversão, após o pleito.
Ainda um último detalhe e vou-me embora, disposto a não voltar. Fúlvio d’Alambert, preocupado com a verossimilhança dos personagens, acha que por vezes perco a medida ao amassar o barro na criação dessa humilde gente sertaneja. Como exemplo de irrealismo, aponta a figura do seminarista. A atividade sexual de Ricardo, sua competência física parecem-lhe evidentemente exageradas, a ponto de Bafo de Bode surpreender-se.
A restrição revela desconhecimento do cotidiano das cidadezinhas mortas, da carência e da ânsia das mulheres condenadas ao marasmo e às novelas de rádio, à falta de homens. Por outro lado, não sei qual a capacidade dos caros leitores aos dezoito anos. A mim, não me parecem anormais os feitos do adolescente impetuoso, estuante de vida, invencível guerreiro. Ademais, como certamente perceberam, os levitas participam da natureza gloriosa dos arcanjos.
DA POLUÍDA VIA-SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE — PRIMEIRA ESTAÇÃO: O MENOSPREZO NOS FIOS TELEFÔNICOS
NO CALORÃO DA TARDE, A MARINETE ENCONTRA-SE EM
PANE NA ESTRADA, os passageiros sofrendo na expectativa do motor pegar. Padre Mariano arrasta Ascânio para a sombra do veículo, o suor pingando sob a batina — não adotara a moda moderna de calça e camisa esporte, tão em voga entre os padres da capital:
— Não sei não, meu Ascânio, essa eleição é uma loteria. Se o coronel Artur se empenhasse, ia ser uma peleja de gigantes, ele de um lado, dona Antonieta do outro. Mas até isso a nossa comendadora conseguiu: tirar o coronel do páreo, um verdadeiro milagre — balançou a cabeça, olhar de compaixão, só faltou dizer que a candidatura de Ascânio tinha levado a breca. — Conversando sobre a nova instalação elétrica da matriz, contei ao senhor bispo auxiliar: apareceu uma santa em Agreste, em carne e osso, faz milagres.
Ascânio engole em seco, não pode contestar, trata-se da madrasta de Leonora. Santa? O diabo em pessoa, inimiga jurada de sua candidatura a prefeito e de seus projetos de noivado e casamento. Sempre que ele toca nesse assunto, Leonora desconversa, contorna, escapa reticente. Duvidar do amor da moça, impossível, ela lhe concedera as provas maiores. Que podia ser, senão a discordância categórica da madrasta, desejosa de casamento milionário, digno da enteada? Tieta tornara-se o pesadelo de Ascânio, asa negra, anjo mau a atropelar-lhe os passos a cada instante. Dois dias antes, Vadeco Rosa, dono de algumas dezenas de votos, encabulado, coçando a cabeça, comunicara:
— Para mim, candidato precisa ter avalista de peso, como seja o coronel Artur ou dona Antonieta. Traga o aval do coronel ou o de dona Tieta e leva meus votos.
Inimiga jurada, anjo mau, asa negra, pesadelo de Ascânio; comendadora, santa, aval do comandante. A conversa de padre Mariano aumenta a aflição do candidato. Regressa de Esplanada desanimado e inquieto. Uma vez se sentira assim, maltratado, ferido, objeto de humilhação e pouco-caso: quando fora a Paulo Afonso lutar pela energia da hidrelétrica para o município. Os chefões trataram-no com desprezo, riram dele. Depois, com dois simples telegramas, dona Antonieta resolvera o caso. Sempre ela.
Agora, ainda pior. Volta não apenas cabisbaixo mas temeroso, roído de suspeitas. Nada de concreto, mas não lhe agradara o tratamento dos funcionários da Brastânio ao telefone. Surpreendera-o sobretudo Bety, amável e brincalhona na véspera, quando da primeira chamada. Distante, seca e apressada quando ele voltara a ligar. Ficara com a pulga atrás da orelha.
Quatro vezes comunicara-se com Salvador, buscando falar com o Magnífico para lhe expor a situação, a luta eleitoral, a necessidade de ajuda da Brastânio. Talvez dr. Mirko já estivesse a par, A Tarde noticiara o lançamento da candidatura do comandante. O doutor estava ausente, disseram-lhe na véspera e o puseram em comunicação com Bety. A secretária executiva confirmou a notícia, o Magnífico Doutor fora a São Paulo mas retornará à Bahia naquela mesma noite. Propôs que ele voltasse a chamar no dia seguinte. Gentil, a voz de frete, tratando-o de gostosão, pedindo notícias do lindo — o lindo era Osnar. Até aí, tudo bem.
No dia seguinte, ou seja, naquela manhã, Ascânio telefonou primeiro para o hotel e, tendo se identificado, soube que realmente o dr. Stefano regressara de viagem na noite passada mas saíra cedo para o escritório. Ligou então para a Brastânio — cada pedido de comunicação significava uma absurda mão-de-obra, interminável espera; felizmente a telefonista de Esplanada conhecia Canuto Tavares e teve a maior boa vontade. Ao pedir para falar com dr. Mirko Stefano — sou Ascânio Trindade de Santana do Agreste, estou telefonando de Esplanada —, disseram que iam transferir a ligação para a sala do doutor, um momentinho. O momentinho durou alguns minutos, Ascânio afobado, no receio de que a linha caísse. Por fim voltou a voz anônima, dr. Stefano estava ausente, em viagem, sem data de regresso. Ascânio quis falar com Bety, nova demora antes que a voz anunciasse: a secretária se encontrava ocupada, não podia atender naquele momento. Meia hora depois, Ascânio insistiu e após muito rogo obteve Bety, impaciente e brusca: o dr. Mirko permanecia em São Paulo. No hotel informaram que já chegara, na véspera à noite? No escritório, não sabiam de nada, ali não aparecera nem era esperado. Se valia a pena chamar novamente, mais tarde? Naquele dia, certamente não. Por que não escreve uma carta e envia pelo correio? O assunto é urgente e importante? Ela nada pode fazer e vai desligar, não tem tempo para bater papo. Tenta retê-la: ouça, Bety, por favor… A apressada nem sequer ouviu o fim da frase, depôs o fone. Tudo aquilo lhe parecera estranho, causara-lhe impressão desagradável, sentia-se acabrunhado. Escreveu a carta, pedindo resposta urgente, colocou no correio.
Naquela tarde, a marinete pifou três vezes. Jairo usou o repertório inteiro: os mais ternos apelidos, os palavrões mais grossos. Chegaram a Agreste ao cair da noite, Chalita os recebeu com uma notícia triste, o falecimento do velho Jarde Antunes. Deitara-se após o almoço, fechara os olhos, não os abrira mais:
— Quando se deram conta o corpo já estava frio. A sentinela é lá mesmo, na pensão de Amorzinho.
DA POLUÍDA VIA-SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE — SEGUNDA ESTAÇÃO: O ANEL DE COMPROMISSO E A TAÇA DE FEL
QUER TOMAR UM BANHO, ANTES DE COMPARECER AO
VELÓRIO. Sentada no batente da porta, pitando o cachimbo, Rafa informa:
— Tem gente.
— Em casa? Quem?
— Uma tipa. Foi entrando.
Leonora? Quem pode ser, senão ela?
Há dias, Leonora vem tentando convencê-lo a se encontrarem em casa dele, cansada na certa da imprudente e incômoda incursão noturna aos barrancos do rio. Mas Ascânio deseja que a bem-amada transponha a porta da tradicional residência da família na qualidade de senhora Ascânio Trindade, em pleno dia, vinda do altar, esposa. Naquela cama de jacarandá onde dormiram seus pais, pretende que ela se deite somente quando as leis dos homens e de Deus tiverem consagrado suas relações.
Eis que Leonora o coloca diante do fato consumado. Levantando-se da cama onde se estendera, atira-se em seu pescoço, oferece-lhe a boca para o beijo:
— O ônibus estava demorando, mãezinha foi para o velório, vim te esperar aqui. Se fiz mal, me perdoe. Estava morrendo de saudade, amor.
— Eu também. Não via a hora de voltar. Mas, você não…
— O que é que tem? — interrompe a repreensão com um beijo.
Os beijos se repetem, tornam-se mais longos e ardentes, Ascânio sente o corpo de Leonora estremecer, colado ao seu. Gostaria de tomar um banho, livrar-se da poeira e do enfado da viagem mas ela o puxa para a cama, acaricia-lhe o rosto fatigado.
— Você está triste, meu amor. Não conseguiu acertar o que queria?
Ascânio descansa a cabeça no ombro de Leonora:
— Não consegui falar com doutor Mirko. Não está na Bahia, pelo menos foi o que me disseram. Uma história atrapalhada que me deixou muito cabreiro.
Mais do que cabreiro — ofendido, soturno, de moral baixa. Leonora cobre-lhe a face com beijos, tentando animá-lo. Ascânio toma as mãos da moça:
— Só tenho você no mundo, Nora. Mais ninguém.
Tocando-lhe os dedos, lembra-se do anel de compromisso, oferta da Brastânio naqueles dias alegres de intimidade e confiança entre ele e os diretores da companhia. Ficara no bolso da outra roupa, vai buscá-lo:
— Quero te dar uma coisa…
Pensara oferecê-lo em festiva cerimônia, na presença da madrasta, dos parentes e de alguns amigos, ao pedir a mão de Leonora em casamento. Resolve desistir de solenidade e protocolo. Para ter o direito de entrar naquela casa, Leonora deve ser ao menos sua noiva. Por outro lado, ele bem merece uma alegria que compense o menosprezo dos funcionários da Brastânio.
Coloca o anel no dedo anular da mão direita de Leonora, o dedo certo para anel de noivado. Pela segunda vez executa o mesmo gesto de amor e compromisso. Na primeira, depositara anel e confiança, promessa e coração em mãos de noiva indigna. Pagara caro pelo erro, destroçado pela traição, morto para o amor. Mas um dia acontecera o impossível: da marinete de Jairo desceu a mais bela e pura das mulheres, essa que a partir de agora é sua prometida:
— Trouxe este anel da Bahia para você, um anel de noivado. Para lhe entregar num dia especial, mas não vejo jeito de poder conversar sobre esse assunto com sua madrasta. Me diga, Nora, quer casar comigo?
Os olhos de Leonora presos ao anel, perfeito em seu dedo, jóia antiga. Pobre Ascânio a julgá-la moça de família; quanto não lhe custara a prenda? A voz quebrada, quase um sussurro:
— Não fale nisso…
— Em quê?
— Em noivado, em casamento. Não basta que eu seja tua?
Ascânio empalidece, a mão trêmula desprende-se da mão da moça:
— Não aceita? Eu devia saber. Rica como é, por que havia de querer casar comigo?
— Eu te amo, Ascânio. Você é tudo para mim. Nunca amei ninguém antes. Os outros que conheci foram enganos meus.
— Foi o que eu pensei. Mas então, por que recusa?
— Não posso me casar contigo. Tenho motivos…
— Por ser fraca do peito? No clima daqui, fica curada num instante.
— Não, não sou doente, mas não posso.
— Já sei. Porque ela não consente, não é? Como é que sendo tão importante, vai permitir que a enteada case com um pé-rapado, ainda por cima metido a ter opinião própria…
— Mãezinha não se envolve nisso.
— Então, por quê?
Leonora cobre o rosto com as mãos, prendendo as lágrimas, Ascânio se exalta, o rosto convulso, o coração ferido:
— Um pobre-diabo do sertão, sem eira nem beira… Bom para uma aventura de férias, para mais nada. Para casar, os ricaços de São Paulo.
— Não é nada disso, amor, não seja injusto. Eu te amo, sou doida por ti. Queres que eu seja tua amásia ou tua criada? Isso posso ser. Tua esposa, não.
— Mas, por que diabo?
— Não posso contar, o segredo não é só meu…
Ascânio volta a segurar-lhe a mão, afaga-lhe os cabelos, beija-lhe os olhos úmidos:
— Não tem confiança em mim? Nem isso? Não já provei quanto lhe amo? Quando soube do que lhe aconteceu com o outro…
— Tudo isso é mentira, meu amor. A verdade…
— Diga, confie em mim.
— Não sou rica, nem filha de comendador, nem enteada de mãezinha.
— Hein? Quem é você, então?
Entre soluços, conta tudo. O bairro miserável, o cortiço, a fome, a sordidez, o trotoar, o Refúgio. Ascânio vai se afastando, levanta-se, a máscara de espanto e morte, como pudera ser tão imbecil! Ouve siderado, bebe a taça de fel. Pior do que da primeira vez, quando soube por uma carta. A lama se derrama no quarto, encobre a cama, cresce em vaga imensa, a afogá-lo. Daquela boca que imaginara pura, inocente, escorre pus.
Leonora silencia, afinal. Eleva os olhos súplices para Ascânio, pronta para novamente se oferecer de amásia, de criada. Mas um urro lancinante, de animal ferido de morte, escapa da boca de Ascânio. Leonora compreende que tudo terminou, na face do amante enxerga apenas ódio e nojo. O dedo aponta para a rua:
— Fora daqui, sua puta! Lugar de pegar macho é na rua.
Mesmo sem nada ter ouvido do conversado lá dentro, quando Leonora passa, desvairada, em pranto, e se perde na noite, Rafa cospe, negra saliva:
— Tipa imunda.
DA POLUÍDA VIA-SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE — TERCEIRA ESTAÇÃO:
A SANTA DESPOJADA DA TÚNICA E DO
RESPLENDOR
MUITA GENTE NA SENTINELA DE JARDE MAS FALTA A
ANIMAÇÃO HABITUAL DOS bons velórios. Apesar da qualidade dos salgados e doces preparados por dona Amorzinho, da quantidade de cachaça e cerveja mandadas vir do bar por Josafá, o ambiente é morno. Nos grupos, reunidos na sala de frente, onde repousa o corpo, e na calçada, não espocam risos. Temas graves dominam as desenxabidas conversas. Tieta palestra com padre Mariano, que pede notícias de Ricardo. Em São Cristóvão, no convento dos franciscanos, a convite de frei Timóteo? Esse seu sobrinho, minha caríssima dona Antonieta, vai ser um luminar da Igreja. Com a ajuda de Deus, o exemplo materno, os ensinamentos de frei Timóteo e a generosidade da tia. O reverendo aproveita para insensar a benemérita, colocando-lhe na graciosa cabeça um resplendor de santa: figura de proa, pilar da Igreja, símbolo de preclaras virtudes. Tieta, coberta com a túnica de louvores, arvora um sorriso modesto. Ah!, se o padre soubesse quais os exemplos dados pela mãe, as virtudes inculcadas pela tia! Ainda bem que restam a ajuda de Deus e os ensinamentos de frei Timóteo.
Osnar esforça-se para degelar a vigília, honrando a memória do defunto como devido. Narra para o dr. Marcolino Pitombo e para o gordo Bonaparte a manjadíssima história da polaca. Inédita para o advogado, amiúde repetida para Bonaparte, que não se cansa de escutá-la, cada versão apresenta novos detalhes, o escrevente se regala.
No caixão, o corpo magro de Jarde, a face de cera. Numa cadeira ao lado, Josafá recebe os pêsames. Lauro Branco, capataz da fazenda de Osnar, vizinho da Vista Alegre, íntimo do falecido, veio da roça despedir-se do amigo.
— Vim por mim e pelas cabras — diz a Josafá. — Tomara que ele encontre um rebanho grande no céu, para cuidar. Era só do que gostava.
Escutam-se as nove badaladas do sino, apaga-se a luz dos postes, silencia o descompassado ruído do motor. Termina o dia das famílias, começa a noite dos perdidos. Dona Amorzinho acende as placas. Da escuridão surge um vulto, está bêbado, doente ou louco?
Mesmo na obscuridade, todos se dão imediata conta do estado de confusão e desordem de Ascânio Trindade. Osnar interrompe a narrativa:
— O que é que há, capitão Ascânio?
O capitão da aurora do poema de Barbozinha entra na sala, desfigurado, olhos de demente. Localiza Tieta junto ao padre, estica o braço para apontá-la, grita as palavras arrancadas com esforço, numa voz rouca, terrível, tumular:
— Sabem o que é que ela é? Pensam que é viúva, dona de fábricas, mãe de família? Não passa de uma caftina, tem casa de raparigas em São Paulo, vive disso. Quem me contou foi a outra. Pedi a mão dela em casamento, me respondeu: não posso, sou mulher-dama. Faz a vida no randevu dessa nojenta que está aí, passando por santa. Duas vagabundas e um palhaço.
DA POLUÍDA VIA-SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE — QUARTA ESTAÇÃO: A
CONDENADA À VIDA
NA LANCHA DE ELIESER, TIETA RECLAMA PRESSA. O
LUAR REFLETE-SE NAS ÁGUAS do rio, o corpo de Tieta atirado para a frente como se assim pudesse emprestar maior velocidade ao barco.
Peto, na praça, indicara o rumo de Leonora. Quase sem poder falar, desfeita em lágrimas, a prima o enviara à procura de Pirica, partira no bote a motor, devia estar chegando em Mangue Seco.
Elieser chama a atenção para uma luz no rio, um barulho distante, é o bote de volta. A um sinal de Tieta, Pirica maneira o motor, as duas embarcações balouçam na água, lado a lado.
— Cadê Leonora?
— Ficou lá. Perguntei se queria que eu esperasse, disse que não, que ia demorar uns dias. O que foi que houve com ela? Não pára de chorar, é de cortar o coração.
Em Mangue Seco, Elieser encalha a lancha na areia, acompanha Tieta que desembarca às pressas. Na luz do luar, percebem o grupo no extremo da praia, junto aos cômoros imensos. A noite é infinitamente doce e bela, as águas mansas. Tieta corre, seguida por Elieser.
Jonas levanta a cabeça, fala:
— Se jogou dos combros, subiu sem ninguém ver. A sorte dela é que Daniel e Budião tinham saído pra pescar. Ouviram o baque do corpo, Budião trouxe ela pra canoa.
Estirada na areia, segura por duas mulheres, debatendo-se, Leonora suplica que a deixem morrer. Tieta curva-se sobre ela:
— Idiota!
Ao reconhecer a voz, Leonora volta a cabeça:
— Me perdoe, mãezinha. Diga a elas que me soltem, quero morrer, ninguém pode me impedir.
Tieta ajoelha-se, suspende o busto de Leonora e a esbofeteia. A mão cai, pesada, com raiva, numa e noutra face da moça, os pescadores não intervêm, deixam-na fazer. Tampouco Leonora reage. Pela praia, aproxima-se correndo o comandante Dário, a quem acabam de avisar. Tieta suspende o castigo, procura levantar a protegida:
— Vamos embora.
— O que foi, Tieta? O que aconteceu? — o comandante ajuda a pôr a moça em pé.
— Nora brigou com Ascânio, tentou se afogar — estende a mão em despedida. — Diga adeus a dona Laura, comandante.
— Adeus? Por quê?
— Volto amanhã para São Paulo.
— E a campanha, Tieta? Vai nos abandonar?
— Já não posso lhe ser de utilidade, comandante. Mas toque o barco pra frente, salve os caranguejos, se puder.
Na lancha, Tieta avisa a Leonora:
— Se falar outra vez em morrer, eu lhe rebento de pancada.
Mangue Seco vai se perdendo na distância, águas e areias envoltas em luar. Tieta contempla, os olhos secos.
Pelas frestas das janelas, na praça, há quem observe as duas mulheres, vindas do ancoradouro. Dona Edna, por exemplo. Mas, na casa de Perpétua, portas e janelas estão trancadas. No passeio, atiradas, as malas, bolsas e sacolas de Tieta e Leonora.
DA POLUÍDA VIA-SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE — QUINTA ESTAÇÃO: ENTRE A CRUZ E A DILIGÊNCIA
DONA MILU E DONA CARMOSINA OCUPAM-SE DE
LEONORA, trocam-lhe a roupa, obrigam-na a deitar-se. Na casa da velha parteira, cresce um rebuliço de tisanas e remédios — chá de erva-cidreira para acalmar os nervos, gemada para esquentar o corpo e refazer as forças. Sabino chega trazendo bolsas e maletas, a bagagem maior fora levada para a marinete, na garagem.
Tieta avisa:
— Vou ali, já volto.
Dona Milu se preocupa:
— Ali, onde? Fazer o quê?
— Não tenha medo, mãe Milu, não vou agredir ninguém.
Nas casas aparentemente adormecidas, os moradores estão despertos, atentos. Feixes de luz escapam pelas frinchas das portas, pelas vigias. Chega à rua uma ou outra palavra, dita em voz mais alta. Até a sentinela de Jarde ganhou animação. Discussões no bar repleto. Acento amargo na voz de Osnar:
— A porra dessa fábrica ainda nem começou e já apodreceu tudo.
Janelas se entreabrem ao passo de Tieta. Cruza a cidade, entra nos becos, vai até os barrancos do rio, não leva pressa, talvez se despedindo. Despedindo-se e recrutando, não anda ao acaso. Madame Antoinette, voilà!, tem destino e objetivo.
DA POLUÍDA VIA-SACRA NA
LONGA NOITE DE AGRESTE — SEXTA
ESTAÇÃO: O JEJUM E A ALELUIA
— ESTÃO DIZENDO QUE O NEGÓCIO DELA É PENSÃO DE
RAPARIGA. — Astério chega do bar, fora de horas, desarvorado.
Elisa se alça no leito, os seios saltando da camisola curta e transparente, herdada de Tieta, meia bunda à vista. Astério desvia os olhos. Noite de novidades medonhas, própria para aflição e opróbrio, nela não cabem os honestos deveres matrimoniais, muito menos depravados pensamentos.
— Mentira! Pensão de rapariga?
— Isso mesmo: castelo, randevu.
— O que é mais que tu soube?
— Elas estão em casa de Carmosina. Vão embora amanhã para São Paulo.
— O quê? Tieta vai amanhã para São Paulo?
Salta do leito, enfia um penhoar também herdado, calça as sandálias, dirige-se resoluta para a porta. Astério primeiro se perturba, depois se comove: Elisa quer despedir-se da irmã, passando por cima de tudo; muito lhe devem, os linguarudos que se danem. Também ele deseja dizer adeus a Tieta. Nem por ser o que é deixa de ser boa irmã, generosa parenta.
— Tu vai ver ela? Também vou.
Elisa volta-se da porta:
— Eu vou é embora com ela.
— Embora com ela? Para São Paulo? — não compreende.
Elisa nem responde, desaparece, a casa de dona Milu fica próxima. Quando percebe Astério a segui-la, apura os passos, acelera a marcha. Corre, ao avistar Tieta chegando da rua, grita:
— Tieta! Mana!
Tieta aguarda na porta, imóvel, o rosto carrancudo, o olhar frio, hierática. Elisa estende os braços, suplica:
— Me leve com você, mana, não me abandone aqui…
— Já lhe disse…
— Eu quero ser puta em São Paulo. Não me importo.
Astério escuta, perplexo, uma pontada no estômago, a dor aguda. Tieta desvia os olhos da irmã para o cunhado, simpatiza com ele, o bobalhão:
— Cuida da tua mulher, Astério, bota ela na linha, ensina a te respeitar. Uma vez, já lhe disse o que tinha que fazer. Por que não fez?
— Mana, pelo amor de Deus, não me deixe aqui. — Elisa se ajoelha no chão, diante de Tieta.
— Leve ela embora e faça como eu lhe disse, Astério. É agora ou nunca. — Por um momento pousa os olhos na irmã e sente pena. — A casa fica com vocês. Se precisarem de alguma coisa é só mandar dizer.
Elisa perde por completo o pundonor e a contenção:
— Me leve, mãezinha, me bote em sua casa de raparigas.
Tieta olha para o cunhado: e então? Astério liberta-se da perplexidade, da dor de estômago, do preconceito, arranca a venda dos olhos, puxa a esposa pelo braço:
— Levanta! Vamos!
— Me solta!
— Levanta! Não ouviu?
Vibra-lhe a mão na cara. Tieta aprova com a cabeça.
— Obrigado, cunhada, por tudo. Até mais ver.
Empurra Elisa, siderada, em direção à casa, uma das melhores residências da cidade, adquirida por Tieta para nela um dia vir esperar a morte, devagar, agora posta à disposição da irmã e do cunhado, em usufruto.
De empurrão em empurrão, chegam ao quarto de dormir. Elisa tenta escapar:
— Não toque em mim.
O bofetão derruba-a na cama. A camisola enrola-se no pescoço, crescem os quadris na vista turva de Astério.
— Quer ser puta, não é? Pois vai ser é agora mesmo — estende a mão, arranca-lhe o trapo de náilon, a bunda inteira exposta, tanto tempo de jejum. — Pra começar, vou te comer o rabo!
Um estremeção percorre o corpo de Elisa. Arregala os olhos. Repulsa, medo, espanto, curiosidade, expectativa? Heroína de novela de rádio, agitada por emoções contraditórias.
Ai, pelo amor de Deus! Esposa submissa, sobe de costas o abrupto passo, dobra os ombros sob o peso do lenho — entranhas de fogo e mel, vergalho desabrochando em flor, Elisa rompe a aleluia na noite de Agreste. Ai, o Taco de Ouro!
DA POLUÍDA VIA-SACRA NA LONGA NOITE
DE AGRESTE — SÉTIMA ESTAÇÃO: O
CIRENEU BARBOZINHA SE OFERECE EM HOLOCAUSTO
ACABA TIETA DE DEITAR-SE QUANDO, ESPAVORIDO, o
vate Barbozinha bate na porta da casa de dona Milu e anuncia:
— É de paz.
De paz e de amizade. Tieta vem do quarto de hóspedes onde Leonora adormecera à força de calmantes. Barbozinha prende-lhe a mão e a leva aos lábios. Está patético. A voz, marcada pela embolia, mais engrolada do que nunca:
— Soube que você pensa ir embora. É verdade?
— Amanhã, para São Paulo.
— Por causa do que estão falando por aí? Vai, se quiser. Se quiser ficar e me dar a honra…
— Que honra, Barbozinha?
— De ser a senhora Gregório Eustáquio de Matos Barbosa…
— Está me oferecendo casamento? Para me tirar da lama?
— Sei que não sou mais o rapaz daquele tempo, a carcaça anda meio arruinada, mas, tenho um nome honrado…
— … e ainda dança um tango como ninguém…
Tieta ri, um riso bom, alegre, de puro contentamento, um riso que lhe enche os olhos de água.
— Agora não dá, meu poeta. Eu te prezo muito e não quero te ver chifrudo, não ias gostar. Quando eu estiver velhota, volto de vez e a gente casa. Até lá, cuide da carcaça e escreva mais versos para mim.
Beija-o nas faces e deixa que as lágrimas finalmente corram.
DA NOTÍCIA E DA RESPIRAÇÃO
— APARELHO PORRETA! — GABA O ÁRABE CHALITA. —
Os anos passam e ele não nega fogo.
Refere-se ao rádio russo na manhã apenas despertada. Em frente ao cinema, com o auxílio de Sabino, Jairo ajusta o motor da marinete, enquanto aguarda os passageiros: o horário da saída é estrito. Ufano com os elogios, bota banca:
— Já me ofereceram troca por um novo, japonês. Recusei.
O locutor do Grande Jornal da Manhã, de popular emissora da capital, pede atenção aos ouvintes para importante notícia que será divulgada após os comerciais. Transmissão límpida, sem estática, ratificando as alabanças de Chalita. Toalha ao ombro, dr. Franklin Lins junta-se ao grupo. Diariamente àquela hora, antes da partida da marinete, o tabelião vai ao banho de rio.
A voz empostada do radialista reafirma o suspense: “Atenção para esta notícia! Na tarde de ontem foi oficialmente concedida autorização governamental à Companhia Brasileira de Titânio S. A., a Brastânio, para estabelecer em Arembepe duas fábricas interligadas que produzirão dióxido de titânio. Objetivando o funcionamento dentro do prazo mais breve possível do grande e discutido projeto industrial, as obras para a sua concretizaçao serão iniciadas imediatamente, em vasta área adquirida com anterioridade pela companhia”. Uma série de violentas descargas saúda a notícia. Levando em conta as origens do venerando aparelho, dir-se-ia tratar-se de um protesto.
— Vocês ouviram o que eu ouvi? — pergunta o dr. Franklin.
— É a tal fábrica que Ascânio queria trazer para Mangue Seco, não é? — acende-se o olho do árabe. Como se não bastassem os acontecidos da véspera, ainda por cima essa novidade. O dia prenuncia-se exaltante.
— Quer dizer que a tal fábrica não vai ser mais aqui? — Jairo suspende o exame do motor da marinete.
— Vai ser em Arembepe, juntinho da capital, não escutou? Era um dos lugares falados — explica o tabelião.
— Porra!
Dr. Franklin Lins toma fôlego, ajeita a toalha no ombro:
— Agora podemos respirar de novo… — acende o cigarro de palha, encaminha-se para o rio, um ar de beatitude.
ONDE TIETA ACENA
UM ADEUS
DIA FRACO, POUCOS PASSAGEIROS. Tieta despede-se de dona
Carmosina:
— Desculpe o mau jeito, Carmô.
A cabeça baixa, lenço na mão, molhado de lágrimas, Leonora se esconde no interior da marinete, arriada num banco. Vindo da praça da Matriz, em correria, aparece Peto, traz o bordão do velho Zé Esteves, herança de Tieta:
— Esqueceu o cajado, tia. — Baixa a voz, acrescenta: — Vou sentir saudades.
Vai perder a grata visão de seios e coxas. Sobe para falar com Leonora, provoca abafados soluços. Adeus, prima.
Peto sai em disparada para casa, deixando a inesquecível lembrança da singela gentileza e o cheiro marcante da brilhantina de lata.
Empunhando o bordão, pastora de cabras, Tieta senta-se ao lado de Leonora. Deixa-a chorar, ainda é cedo para puxar conversa. Jairo cobra o preço dos bilhetes, de passageiro em passageiro. Tieta paga três:
— Nós duas e aquela cabrita lá atrás.
Aponta Maria Imaculada, num banco dos fundos, segurando o baú de flandres. Jairo toma assento ao volante, coloca a chave do motor, ainda faltam quatro minutos para o horário exato. Tieta dá-lhe pressa:
— Mete o pé na tábua, Jairo, vamos ver se esta geringonça é capaz de levar a gente até Esplanada.
Jairo consulta o relógio:
— Se quiser, podemos ir direto até São Paulo, para a Imperatriz dos Caminhos não existem distâncias. E ainda por cima, ouvindo música…
Sintoniza o rádio russo. Tieta acena um adeus para dona Carmosina de pé na calçada. A marinete avança tão na maciota que mais parece uma aeronave. Liberta de pedras, tocos e buracos, eleva-se sobre o caminho de mulas, cruza o céu de Agreste.
E aqui termina a história da volta da filha pródiga à terra onde nasceu e dos sucessos ali ocorridos durante sua curta estada.
DAS PLACAS,
LEMBRETE DO AUTOR
AÍ ESTÁ. MAL OU BEM, CHEGUEI AO TÉRMINO, ESCREVO
A PALAVRA “FIM”. Nos folhetins de sucesso, cobra-me Fúlvio d’Alambert, o autor costuma fornecer notícia dos diversos personagens, do que lhes sucedeu depois. Não penso fazê-lo. Deixo à imaginação e à consciência dos leitores o destino posterior dos personagens e a moral da história.
Em todo caso, para atender à crítica e na esperança de conquistar-lhe a boa vontade, acrescentarei que Agreste convalesce lentamente. Tendo despido a farda de candidato, o comandante Dário de Queluz aproveita cada minuto do verão em Mangue Seco para compensar os dias perdidos na poluição da política. Quanto a Ascânio Trindade, viram-no chorando no ombro de dona Carmosina.
A inauguração da luz proveniente da Usina de Paulo Afonso foi uma festança. Deram ao antigo Caminho da Lama, na entrada da cidade, o nome do então diretor-presidente da hidrelétrica do São Francisco. As autoridades presentes descerraram esmaltada placa azul, feita a capricho apesar da pressa, em oficina da capital: rua deputado… Como era mesmo o nome?
Durou pouco a placa azul, sumiu durante a noite. Em lugar dela pregaram uma de madeira, confeccionada por mão artesanal e anônima: rua da luz de tieta.
Mão artesanal e anônima. Mão do povo.
Bahia, Londres, Bahia, 1976-7
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