Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 9 de 10 · parte 2/4

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Tieta do Agreste

Da egrégia figura

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Leonora acha que Ascânio merece uma parcela dos aplausos e da gratidão pois se batera com desesperada pertinácia, sofrendo inclusive humilhações, para a obtenção daquela vitória. Nada conseguira, é verdade, mas nem por isso seu esforço deve ser esquecido.

Aliás não lhe regateiam aplausos quando ele sucede ao engenheiro, sobre o caixote. Sobretudo ao se referir à atuação de dona Antonieta Esteves Cantarelli, a quem o povo de Agreste será eternamente reconhecido. Ficasse por aí e com certeza compartilharia da gratidão expressa pelos presentes aos responsáveis por fios, postes, lâmpadas e iluminação. O erro de Ascânio foi querer aproveitar a ocasião para fazer propaganda da Brastânio. Num gesto imperativo apontou o chão, perguntando: a quem se deve o asfalto sobre o qual pisamos, cobrindo para sempre a lama secular na entrada da cidade? Quem enviou máquinas, técnicos, operários? A Brastânio, cuja presença no município significa a redenção de Agreste — disse, repetindo o chavão da entrevista. Palmas e bravos, de mistura com apupos e apartes, divididas as opiniões.

— Abaixo a poluição! — brada dona Carmosina.

Ascânio não dá atenção, prossegue entusiasta e eloqüente, mas logo anônima voz em falsete, evidentemente disfarçada, ergue-se na confusão do ajuntamento:

— Cala a boca, pleibói matuto! Tu tá é vendido!

Ascânio engasga no meio da frase, sem conseguir localizar o canalha — se for homem apareça e repita —, perde a segurança e a eloqüência, alinhava o discurso. Ao descer do caixote estrugem aplausos e vivas: dirigidos ao poste que os operários acabam de colocar de pé, maravilha do século. Altíssimo, de concreto, bifurcando-se em braços para as lâmpadas, porreta.

SEGUNDA PARTE DO CAPÍTULO DE

EVENTOS MEMORÁVEIS DURANTE OS

QUAIS ASCÂNIO TRINDADE PERDEU

A ELOQÜÊNCIA E A CARAMBOLA:

O CASO DO BILHAR

 

O INCIDENTE DO BILHAR TEVE POR CENÁRIO O BAR DOS

AÇORES, onde as partidas decisivas do torneio anual por fim se realizaram. Atrasadas, pois o Taco de Ouro deveria ter sido proclamado em dezembro. Em Agreste, ultimamente, anda tudo em descompasso e em discórdia. A rotina e a harmonia cedem lugar ao imprevisto e à contenda. Alastram-se a desconfiança e a irritação, manifesta-se a cada passo evidente espírito belicoso.

A presença da nata social, senhoras e senhoritas, empresta caráter festivo à disputa. Desfile de toaletes caprichadas, como se na mesma ocasião fossem escolhidos o Taco de Ouro e a Rainha da Elegância. As damas comparecem para torcer, respirar a excitante atmosfera do botequim, sobretudo para exibir os trajes, cada qual mais pretensioso. Nos anos anteriores, ostentando vestidos mandados por Tieta, modas do sul, Elisa destacava-se das demais. Tampouco Astério tivera maiores dificuldades para derrotar os parceiros. O casal açambarcava os aplausos: ele, tricampeão, ela, absoluta! As coisas mudaram. Astério, às voltas com a criação de cabras e o plantio de mandioca, descuida-se dos treinos, enquanto Seixas e Fidélio passam horas e horas a carambolar. Quanto a Elisa, encontra rival à altura de sua beleza e elegância: a formosa paulista Leonora Cantarelli, em férias na cidade.

A primeira partida foi ganha por Fidélio, perdida por Seixas. Nos pontos e na torcida. As primas de Seixas haviam recrutado colegas e amigas para engrossar as fileiras das incentivadoras do primo. Fidélio, arredio, não recrutou ninguém, as fãs compareceram de moto próprio, numerosas. Constataram-se inclusive deserções nas hostes de Seixas, em nítida prova da deterioração dos costumes locais. A febre da traição atingiu até uma das primas, a estrábica, a mais linda. Perdendo o controle, a falsa aplaudiu de pé jogada sensacional do adversário. Um vexame.

Dona Edna, cujos campeões, o fiel Terto (nem por manso e cornudo menos bom marido) e o volúvel Leléu, se encontram há muito desclassificados, não consegue esconder o despeito por não poder competir com Elisa e Leonora. Galante e ousada, não lhe faltam graça e porte, gosto no vestir; falta-lhe dinheiro ou irmã generosa. Para compensar, onde quer que esteja, os olhos de frete percorrendo os homens presentes, fala pelos cotovelos alfinetando meio mundo. Língua louvada em mais de uma arte, exímia na arte de malhar a vida alheia, destila veneno, várias vezes o alfinete transforma-se em escalpelo. Se a repreendem, explica: por mais eu corte na pele dos outros, nunca conseguirei cobrar o que falam de mim. Durante o torneio, nem Peto escapa dos olhares doces e da agre malícia de dona Edna. Um Peto metido a rapaz, de calças compridas, sapatos postos, cabelos penteados.

— O que foi que deu em você, Peto? Virou homem…

Olhos dolentes, sedutores, a ponta da língua roçando os lábios, para deixar o menino de pito aceso. Engraçadinho o moleque, pesteando a brilhantina. Mas quem bole com os nervos de dona Edna é o outro, o irmão, padrequinho no ponto exato, papa-missas divino. De Peto, dona Edna passa para Elisa, com quem implica solenemente: a presunçosa agora habita uma das melhores residências da cidade sem pagar aluguel, fazendo ainda mais insuportável o ar dolente e superior que exibe em permanência. Dona Edna veio disposta a aperreá-la e a amofinar, ao mesmo tempo, a outra antipática, a hipócrita lambisgóia, Leonora. Qual das duas, a mais detestável?

— Você permite, Elisa, que eu torça pelo seu rico maridinho? Não tenha medo, não vou tirar nenhum pedaço… — ri, em desafio.

Não importa o motivo a conceder a Astério o privilégio da torcida de dona Edna, a verdade exige que se diga dever-se a ela a vitória do tricampeão quando, considerando-se derrotado, já depositara o taco.

Ao contrário da empolgante disputa entre Fidélio e Seixas, na qual sucederam-se lances brilhantíssimos, a partida entre Ascânio e Astério arrastou-se longa e enfadonha. Equilibrada, é certo, porém nos desacertos e nos erros. Os adversários revelaram falta de treino e extremo nervosismo. Estando fora de forma, decepcionaram o público e os apostadores.

Durante o desenrolar da monótona competição, Elisa finge não entender as provocações de dona Edna — críticas às elegantes de segunda mão, palavras carinhosas de incentivo a Astério como se ele fosse seu marido ou amante. Para não ouvi-la, concentra-se nos lances da partida. Não entende grande coisa de bilhar mas, ainda assim, dá-se conta da péssima atuação de Astério. Se por acaso conseguir ganhar de Ascânio, igualmente ruim, perderá com certeza para Fidélio cuja exibição despertara entusiasmo geral. Engraçado como os homens são surpreendentes. Fidélio vivera até então retraído em seu canto, não se ouvia referência a seu nome. De repente, devido ao assunto do coqueiral, transformara-se numa das pessoas mais badaladas da cidade. Segundo dizem, sua casmurrice não passa de sabedoria e sonsidão; um devasso enrustido. Sim, os homens são imprevisíveis: não houvesse dona Carmosina lhe contado tantas histórias de Fidélio, Elisa jamais acreditaria fosse ele um dom-juan. E o que dizer então de Astério, de seus gostos e preferências? Pelo visto, a vagabunda da Edna, com aquela bunda chulada, está perdendo tempo, nunca terá vez.

Num gesto brusco, Osnar atira longe o cigarro de palha, ao ver Astério, em quem apostara forte, botar fora a última chance de vitória. A última porque a partida chegara ao fim, faltando a Astério três pontos e a Ascânio apenas um. A diferença, para um tricampeão, recordista de carambolas, significava pouco pois lhe cabia jogar. Mas Astério afobara-se, perdera a tacada, deixando a bola na medida para Ascânio: bastaria calcular com precisão a força da tacada para marcar o ponto do triunfo. Astério encosta o taco, nada mais pode fazer, dia negro. Sente uma contorção no estômago, a primeira após a compra das terras de Jarde; pensava-se curado.

Ascânio contempla a mesa do bilhar, sorri vitorioso para Leonora, passa giz no taco, aproxima-se sem pressa, considera a partida ganha. Faz-se silêncio na sala, rompido pela voz de dona Edna, estridente:

— Osnar, você que é o presidente do Clube da Bacia de Catarina, me diga se é verdade o que anda correndo por aí…

Debruça-se Ascânio sobre a borda do brunswick, coloca o taco, recua o braço, pronto para fazer a carambola.

— … que a beira do rio nunca andou tão freqüentada, só se vê cara nova, cara de forasteira… que a forasteira não perde nem uma noite…

O taco espirra, apenas move a bola, ajeitando-a para Astério. No eco da voz de dona Edna, Ascânio perde a carambola e a partida.

 

DA PRIMEIRA VITÓRIA DO CANDIDATO

ECOLÓGICO, CONCEDENDO-SE AO

LEITOR A REGALIA DE VER O

COMANDANTE DÁRIO DE QUELUZ

ENVERGANDO FARDA DE GALA

 

— MEU DEUS, O QUE TERIA SUCEDIDO? OLHE PARA ELE,

CARDO… — Tieta aponta o comandante Dário de Queluz, sentado na proa da embarcação embicada na areia, enfiando meias e sapatos brancos, antes de pisar na praia.

— Nem que hoje fosse 7 de setembro… — comenta o seminarista, não menos assombrado.

Uma vez por ano, no dia 7 de setembro, em homenagem à festa da Independência, comandante Dário retira a farda do armário e da naftalina, mete-se nela e engalanado comparece à solenidade comemorativa, no grupo escolar. Durante o resto do ano, gasta calça e camisa esporte na cidade, short e camiseta na praia. Por que cargas-d’água aparece de uniforme, reluzindo ao sol de Mangue Seco? Jamais Tieta o vira assim trajado. Fica diferente, sobranceiro e austero, parece outro, impõe respeito. Deve ter sucedido algo muito grave para o comandante envergar a túnica de gala e ostentar a medalha do mérito naval. Tieta e Ricardo acorrem a seu encontro:

— Cadê Laura? Ela está bem? — pergunta Tieta, preocupada.

— Está bem, mandou lembranças. Ficou em Agreste, eu volto em seguida. Vim aqui só para conversar com você, Tieta. — A voz severa. — Assunto sério e reservado.

Inquieto, Ricardo olha para a tia: terá a conversa a ver com eles? Vai-se afastando, o comandante o retém:

— Não precisa ir embora, Ricardo, você já não é um menino. Mas fique avisado: nada do que for dito aqui pode transpirar. Conversa sigilosa.

A farda estabelece compostura e distância, firmeza de maneiras, pose quase arrogante. Chegam ao Curral, onde Tieta serve água-de-coco — uma das preferências do comandante: não existe diurético igual, cara amiga! —, põe a chaleira no fogo para passar um cafezinho.

— A data da eleição foi marcada, Tieta.

— Já se esperava, não? Carmô me disse que os jornais estavam falando…

Comandante Dário relata a visita do dr. Hélio Colombo, professor de direito, advogado famosíssimo, um cérebro, uma capacidade, enviado a Agreste pela Brastânio. Sabem para quê? — pergunta, os olhos fuzilando de indignação, a voz funérea, como se denunciasse conspiração monstruosa, trama sinistra. Aliás, é o que está fazendo: tentando desmascarar e derrotar torva maquinação, abominável cabala. Ricardo escuta atento, olhos arregalados, indignado e solidário; Tieta ainda não entende o motivo da farda e da ênfase, da atitude heróica e dramática do comandante.

— Sabe, minha amiga, qual será o primeiro ato de Ascânio após a posse? Não sabe? Vou lhe dizer: será desapropriar a área do coqueiral e em seguida cedê-la à Brastânio. Por isso estou aqui, Tieta, vim lhe buscar.

Ainda embatucada, Tieta força o riso:

— Se fardou para isso? Ou vai me levar presa?…

O militar não a acompanha no riso e na pilhéria:

— Não brinque com coisa séria, Tieta. A única maneira de prevenir a catástrofe, de salvar Agreste, é impedir a eleição de Ascânio.

— Impedir? De que jeito?

— Elegendo outro candidato.

— Qual? — repentina suspeita altera-lhe a voz. — Não venha me dizer que você e a maluca da Carmo me escolheram…

— Essa seria a solução ideal se você não vivesse em São Paulo. — O comandante retira o boné, limpa o suor, coça a cabeça. — Você me conhece, Tieta, sabe que não sou homem de mentiras. Deixei a Marinha e voltei para Agreste porque desejo viver em paz o resto de minha vida, tranqüilo ao lado de minha mulher, neste pedaço de paraíso. Você sabe que não tenho outras ambições, sou feliz assim. — Era como se houvesse despido a farda, novamente simples e cordial, despretensioso.

— E quem não sabe? Também eu, certos dias, em São Paulo, tenho vontade de largar tudo e vir de vez para Agreste. Por isso comprei casa e terreno. Um dia vou fazer o mesmo que você.

— Com uma fábrica de dióxido de titânio funcionando aqui, nem vale a pena pensar nisso, nosso paraíso vai virar uma lata de lixo, como aconteceu na Itália. Enfrentamos uma situação excepcional, Tieta. — Formaliza-se, a voz composta, o gesto firme, o olhar beligerante. — Tão excepcional que me dispus a aceitar minha candidatura, proposta por um grupo de amigos. De patriotas. Para que essa candidatura deixe de ser apenas um gesto, para que tenha possibilidade de vitória, é necessário que você se disponha a tomar a frente da campanha. Todos são de opinião que o povo apoiará seu candidato. Tudo depende de você. Vim lhe convocar, em nome do futuro de Agreste, para lutar por uma causa sagrada.

Tieta escuta, os olhos postos na face crispada do amigo. Pobre comandante a comandar uma batalha perdida. Fanático pelo clima de Agreste, pela selvagem beleza de Mangue Seco, largara a carreira, despira a farda para ali esperar a morte, desfrutando por muitos e longos anos vida sadia e tranqüila. Tudo isso terminou, comandante. Não adianta retirar a farda do guarda-roupa, colocar a medalha na túnica.

— Você acredita que nós, de Agreste, podemos influir para que a fábrica não se instale aqui? Eu não creio. Sei como essas coisas se passam. São decididas à revelia do zé-povinho, não pedem a opinião da gente. Você vai sair dos seus cômodos, vai…

— Vou cumprir o meu dever. É nossa obrigação, a minha, a sua, dos que sabem o que significa essa indústria. Mesmo se tivesse de ficar brigando sozinho… Eu lhe disse, se lembra, que farei tudo para evitar a poluição de Agreste.

— Me lembro…

Ricardo intervém, a voz em borbotões:

— Me desculpe, tia, mas o comandante tem razão. Frei Timóteo falou que a gente deve agir sem perguntar pelo resultado. Pedro também pensa assim.

Tieta revê a figura magra do frade, a fisionomia franca e simpática do engenheiro, volta a ouvir a branda e fervorosa voz do religioso, o acento vibrante e apaixonado do ateu, um e outro referindo-se a crime e obrigação, perturbando-lhe o dolce far niente, fazendo-a sentir-se a última das ociosas, das inúteis, das imprestáveis. Agora aparece o comandante, fardado, solene, exigindo o cumprimento do dever. Para se viver bem, repetia Felipe, homem sábio, é necessário antes de tudo abolir a consciência. A merda é que nem sempre se consegue.

Ferve a chaleira, Tieta passa o café, coloca xícaras na mesa. Ali Ascânio Trindade estendera o colorido desenho de Rufo, a deslumbrante visão do futuro. Escurecem novamente os olhos de Tieta recordando o asfalto derramado, soterrando o mangue, as vivendas erguidas sobre os escombros da povoação. Choupanas, caranguejos, pescadores, sonhos adolescentes, dias de paixão, enterrados na podridão do dióxido de titânio. Nenhuma pastora de cabras voltará a subir os cômoros, nunca mais.

DE COMO PERPÉTUA, MÃE DEVOTADA, ENGOLE SAPOS E FAZ DAS TRIPAS

 

CORAÇÃO

 

O INESPERADO REGRESSO DE TIETA, LEVADA PELOS

DEVERES CÍVICOS a interromper a paradisíaca temporada na praia — acontece cada coisa nesse mundo que até Deus duvida —, foi saudado com vivo entusiasmo e farta bajulação por Perpétua, já disposta a ir a Mangue Seco para uma conversa decisiva com a irmã sobre o futuro dos filhos, Cardo e Peto, na qual concretizasse amadurecidos planos, colocando os pontos nos ii, o preto no branco. De preferência no cartório, com firma reconhecida.

Acolhe o filho e a irmã num exagero de efusão, estranho à sua natureza:

— Deus te abençoe, meu filho, e te mantenha no bom caminho para continuar a merecer a proteção de tua tia. — Ah!, quem a viu e quem a vê: antes seca e distante, agora abrindo os braços para Tieta, calorosa, quase servil. — Graças a Deus que você voltou, mana. Não agüentava de saudade. Peto também, ele lhe adora, vive com seu nome na boca, pergunte a Leonora.

— É sim. Peto é um amor… — confirma Leonora, ainda surpresa com a reviravolta nos planos de Tieta.

— Temos muito que conversar antes de sua viagem, mana. Nem quero pensar nesse dia. Vou sentir demais a falta de vocês… — Faz das tripas coração, estende a adulação à enteada da irmã: — A tua também, Nora.

— Não lembre coisas tristes, dona Perpétua.

Ao ouvir o lamento da despudorada, Perpétua, em novo esforço, balança a cabeça num gesto de lástima, a voz sibilando afetuosa repreensão:

— Imagine, Tieta, que essa boba está caidinha por Ascânio… Bonita e rica como ela é, podendo escolher em São Paulo o noivo que quiser, perde tempo namorando um pé-rapado daqui. Não digo que seja mau rapaz mas não tem onde cair morto. Não é partido para ela, já avisei mil vezes.

Vibrante de interesse pela felicidade de Leonora. Das tripas coração — Perpétua abafa o desejo de bradar contra a falta de vergonha da sirigaita, a chegar fora de horas todas as noites, afogueada, o vestido amarfanhado, vinda sabe Deus de onde. Ora, de onde: da descaração na beira do rio, noite após noite; todo mundo comenta. Perpétua engole indignação e nojo, o futuro dos filhos exige elogios, sorrisos, silêncio, ela paga o preço. Na hora da prestação de contas, o Senhor Todo-Poderoso, com quem estabeleceu um trato, lançará a seu crédito os sapos engolidos, as muitas vezes que fez das tripas coração. Como agora, ao receber o filho e a irmã, vindos de Mangue Seco, queimados de sol, cheirando a maresia, respirando saúde e satisfação.

— Feliz da moça que casar com Ascânio, dona Perpétua. Ele é um homem maravilhoso.

— Um pobretão, te esconjuro.

— Ainda bem, Perpétua, que te encontro nessa disposição, pois estou pensando em prolongar um pouco mais minha demora… Ia no dia seguinte ao da festa, talvez fique ainda uns dias…

Tieta vai para a alcova, arrumar seus teréns, Leonora a acompanha. Perpétua volta-se para o filho, antes de agir deve conversar com ele, saber se a tia falara novamente em levá-lo para São Paulo, se lhe fizera promessas, quais e quando, se insinuara por acaso adotá-lo. Por que, já estando de data marcada para viajar, decidira demorar-se? Mas Ricardo, apressado, deposita o embrulho com roupas e livros, ganha a rua, a pretexto de pedir a bênção ao padre e se apresentar ao comandante.

— Ao comandante? — espanta-se Perpétua.

— Vou trabalhar para o comandante no resto das férias.

— Que história é essa?

— A tia depois explica, mãe. Agora não posso, não tenho tempo.

Escapa porta afora, sem pedir licença. Perpétua, atônita, reconhece o tom de voz, o olhar, o riso, o atrevimento; de há muito lhe são familiares. Tom de voz, olhar, riso, atrevimento — era ver Tieta meninota, da idade de Ricardo, alheia às ordens do pai, à violência, aos gritos e castigos, à taca e ao bordão. Rebelde, dona de sua vontade.

— Valha-me Deus! — geme Perpétua, a mão no bolso da saia negra, tocando as contas do terço.

DOS URUBUS EM

 

DESCOMPASSADO BALÉ

 

ADVOGADOS E HERDEIROS TROTAM NAS RUAS DE

AGRESTE, POUCAS E ERMAS, em reuniões e cochichos, acordos e desacordos, descompassado balé. Da pensão de dona Amorzinho para o cartório, do cartório para o gabinete de Modesto Pires, no curtume, dali para a prefeitura. Ora juntos, solidária curriola, combatentes da mesma incerta causa, aliados na decisão de obter o máximo pelos terrenos do coqueiral, herdados de um vago tataravô. Ora cada um de per si, às escondidas, tentando engabelar os demais, guerrilheiros em barganhas e futricas, na ânsia de abocanhar o melhor bocado. Bando de urubus em torno da carniça, na definição de Modesto Pires.

Dr. Marcolino Pitombo não se assemelha a um urubu, muito ao contrário. Impecável no terno branco, chapéu-panamá, bengala, sorriso bem-humorado, não demonstra irritação ou espanto quando Josafá, esbravejando, exibe o exemplar de A Tarde com a notícia da presença do professor Colombo e do conchavo com Ascânio para a desapropriação do coqueiral. A controversa solução deixara os herdeiros perplexos e aflitos. Dr. Marcolino não perde a fleuma.

— Golpe magistral, exatamente o que eu faria se fosse advogado da empresa. Tiro meu chapéu a mestre Colombo, foi direto ao alvo. Não lhe disse, Josafá, que esse moço, candidato a prefeito, é um pau-mandado da Brastânio? Ainda por cima, tolo. — Revela com certa satisfação: — Eu já estava a par dessas notícias.

— Já sabia? Como?

— Soube no mesmo dia. Pelo nosso insuperável Bonaparte. Andei soltando uns trocados para ele, recorda-se? Dinheiro bem empregado.

Durante aqueles dias analisara o problema, traçando novo esquema de ação, e o propõe a seus constituintes. Em verdade, apenas a um deles, Josafá. O velho Jarde, encerrado na pensão, não se interessa por nada deste mundo. Josafá escuta, de orelha murcha. Anda estomagado com a marcha da questão: a ação de posse eterniza-se em mão do juiz de Esplanada. O dinheiro obtido com a venda da roça se esvai, Josafá teme que a indenização a ser paga pela prefeitura não chegue para cobrir a quantia já despendida. Sonhara multiplicar aquele dinheiro numa jogada espetacular, será feliz se no final não sair com prejuízo.

— Devemos ser realistas. A manobra de mestre Colombo nos deixa reduzidos a pequena área de manobra…

Dr. Marcolino enxerga uma única escapatória, capaz de proporcionar melhor preço pelos terrenos, evitando ao mesmo tempo novas despesas: buscar um acordo direto com a Brastânio para ceder imediatamente à companhia os direitos à herança do legendário Manuel Bezerra Antunes. Transferidos os direitos, caberá à Brastânio levar adiante a ação de posse. Para isso os herdeiros deviam agir unidos. Diante da ameaça de desapropriação, a própria intransigência do jovem Fidélio perde a razão de ser.

Josafá aprova a idéia, seduzido sobretudo pela perspectiva de liquidar a questão quanto antes, encerrando o capítulo dos gastos, incluindo os honorários e as despesas de estada do dr. Marcolino. Faz-lhe justiça: caxixeiro competente e honrado. Fosse outro, trataria de prolongar ao máximo essas férias bem pagas, deixando a causa se arrastar no fórum enquanto sobrasse dinheiro a Jarde e Josafá.

Sim, dias adoráveis, inolvidável temporada! Em Agreste, dr. Marcolino ganhou cores, engordou, livrou-se das cãibras nas mãos e nos braços, que tanto o assustam, estabeleceu amáveis relações com os habitantes da cidade. No bar, conversa com Osnar e Aminthas, joga gamão com Chalita; na agência dos Correios, lê jornais, troca idéias com dona Carmosina, pessoa de muita instrução, a quem não esconde sua opinião sobre a indústria de dióxido de titânio; no átrio da matriz discute religião com padre Mariano, revela-se franco-maçom; freqüenta a pensão de Zuleika Cinderela, onde costuma aparecer nos fins de tarde — o clima de Agreste, como se sabe de sobejo, realiza prodígios.

Enquanto explica, dr. Marcolino toma-se de compaixão e raiva — maldita fábrica, vai acabar com o clima miraculoso e com a doçura da vida:

— Seu Josafá, eu lhe digo que estamos sendo todos nós cúmplices de um crime. Profissão mais desgraçada, esta minha…

 

DAS RAZÕES DIFÍCEIS DE

EXPLICAR E DE ENTENDER

 

NA ALCOVA, A SÓS COM TIETA, LEONORA NARRA

ALEGRIAS E TRISTEZAS, EXALTADA:

— Mãezinha, não sei como lhe agradecer por me ter trazido. Tem sido tão bom… É verdade que vamos demorar mais uns tempos? — Toma a mão de Tieta, beija-a, nela encosta o rosto, grata e terna.

— É bem capaz, mais umas semanas, ainda não sei quanto. Mas, cabrita, deixe para pensar na separação quando estiver na marinete. Até lá, aproveite o mais que puder, esqueça que tem de ir embora…

— Se eu pudesse…

— Deixa pra lá, já te disse. E a beira do rio? Me conta…

— Tu nem imagina, mãezinha, como foi difícil convencer Ascânio. Não queria nem tocar no assunto, foi arrastado por mim. Tem medo de ver meu nome na boca do povo, que eu vire moça falada… Pobrezinho, fico até com remorso. Outro dia, no bilhar, perdeu a partida para Astério porque achou que dona Edna estava se referindo a mim, numa conversa com Osnar.

— Vai ver, estava mesmo, a puta descarada.

— Para dizer a verdade, não sei. A gente toma muito cuidado, Ascânio é por demais cauteloso. Sabe, mãezinha, do que eu tinha vontade? De dormir uma noite inteira com ele, pelo menos uma, antes de ir embora. Numa cama de verdade, em cima de um colchão, os dois pelados, sem pressa, sem sustos, sem ter de falar baixo. Só que não vejo onde.

— Tu não vê? E a casa dele? Ao que sei, mora sozinho.

— Sozinho, não. Tem Rafa…

— A criada? Não é uma velha broca, surda, quase cega? Então, cabrita? Não sei como tu ia se arranjar se não fosse eu…

— Será que ele topa? É tão escrupuloso! Ai, mãezinha, não me conformo quando penso que tenho de ir embora. Vou morrer de saudades.

— Saudade é igual a amor, Nora. Não mata, ajuda a viver.

Leonora não se limita ao relato do namoro, fugas noturnas para os esconsos do rio, sussurrando poemas, suspiros contidos. Refere também desagradáveis episódios; com essa história da desapropriação do coqueiral, Ascânio não tem um minuto de sossego. De tudo, o mais triste fora a ruptura das relações pessoais com Carmosina. Ascânio tentara o possível e o impossível para evitar aquele desfecho, deixando inclusive de aparecer na agência dos Correios para não ouvir provocações e dichotes. Mas, ao saber da visita da fofoqueira à Fazenda Tapitanga, onde fora com o objetivo de intrigá-lo com o padrinho e protetor, Ascânio não mais se conteve. A pérfida assacara cobras e lagartos contra a Brastânio, lera recortes de jornais, criticara o apoio da prefeitura aos planos da companhia, referira-se a abuso de confiança. O coronel, baratinado, mandara chamar o afilhado, exigira explicações, o que fora fazer na Bahia, que história era essa de desapropriação? Ascânio, indignado e ferido, sem atender aos rogos de Leonora, dirigira uma carta — carta comovente, mãezinha, até chorei quando ele leu para mim — à intrigante, rompendo relações, pondo fim a uma amizade “que eu pensava ao abrigo das divergências”. Epistológrafa não menos competente, dona Carmosina revidara as acusações de aleive e insídia, em missiva de estilo e conteúdo igualmente dramáticos: “você atirou minha amizade, provada em momentos cruciais, na lata de lixo da Brastânio”.

— Que horror essa briga, mãezinha. Antes, antes eram todos tão unidos. Gosto muito de Carmosina, morro de pena.

Tieta acarinha a fulva cabeleira da moça:

— Tu não sabe ainda por que voltei de Mangue Seco.

— Me admirei. Pensava que mãezinha só ia vir no dia da festa.

— Era essa a minha intenção. Se tu está contente aqui, muito mais estava eu em Mangue Seco. Gozando as delícias do paraíso, cuidada por meu arcanjo. Pois bem, larguei tudo e vim.

— E por que, mãezinha?

— Porque não pude me impedir. Fiz tudo para não vir, acabei vindo. O pior é que eu sei que, no fim, não vai adiantar de nada. Não foi mãezinha quem veio, Nora. Foi Tieta, aquela menina das cabras que brigava com a polícia ao lado dos pescadores. Não sei explicar mas, se eu não viesse, acho que nunca mais teria coragem de pôr os pés aqui.

Tampouco Leonora tem certeza de entender. Tieta levanta-se, chega à janela, olha o beco, pobre Leonora!

— Vim acabar com a candidatura de Ascânio. Por bem ou por mal.

— Ai, mãezinha! O que vai ser de mim?

— Isso não tem nada a ver com teu xodó. Não se meta em nossa briga, tu não é daqui, está de passagem, esse assunto só interessa a quem é de Agreste. Trata de amparar teu homem, se tu gosta tanto quanto diz. Ele vai precisar.

 

ONDE A CARNIÇA

COMEÇA A FEDER

 

APOPLÉTICO, MODESTO PIRES GRITA, FORA DE SI:

— Bando de urubus!

Canuto Tavares (duas vezes Antunes) ergue-se diante do dono do curtume:

— E o urubu mais porco de todos é o senhor! Usurário, agiota!

Os drs. Baltazar Moreira e Gustavo Galvão, quase sempre de comum acordo, trocam desaforos:

— Desleal! Hipócrita! Salafrário!

— Ignorante! Primário! Analfabeto!

Dr. Franklin, em cujo cartório acontece a baderna, tenta apaziguá-los:

— Meus senhores, meus caros senhores, calma…

Teme que passem dos insultos aos tabefes. Dona Carlota, diretora de colégio, habituada ao respeito, inicia um chilique. Dr. Marcolino vale-se do faniquito da histérica solteirona para obter calma e silêncio:

— Vamos ouvir o que o doutor Baltazar tem a nos dizer. Já que ele tomou a iniciativa de procurar a Brastânio…

— Tomei e não preciso pedir licença a ninguém para agir em defesa dos interesses de meus constituintes… Se querem ouvir, darei a informação, se bem não seja obrigado a fazê-lo…

O bafafá começou quando, reunidos no cartório a pedido do dr. Marcolino, em meio à explanação feita por ele, o dr. Baltazar o interrompeu, anunciando:

— A medida que o colega propõe eu já a tomei, por conta própria. Não vale a pena perder tempo repetindo a mesma diligência.

Por conta própria ou seja por conta de dona Carlota e de Modesto Pires, à revelia dos demais, pelas costas, traição, punhalada vil. A assembléia tornou-se tumultuosa. Mas dr. Marcolino, sempre sorridente, consegue acalmá-los, decepcionando o jovem Bonaparte, chegado a filmes de pancadaria: tivera fundadas esperanças de assistir a uma cena de pugilato entre Canuto e Modesto Pires, o cotidiano de Agreste torna-se excitante. Dr. Marcolino propõe que os epítetos sejam retirados, de lado a lado; dona Carlota, atendida pelo tabelião, volta a si, ainda trêmula.

Insultos, ameaças, desmaio, como se dr. Baltazar houvesse abiscoitado para dona Carlota a dinheirama da Brastânio. No entanto, conforme explica o advogado, os resultados de seu contato com a diretoria da empresa haviam sido negativos. Para começar, ao sabê-lo patrono de herdeiro do coqueiral, mandaram-no dirigir-se ao escritório do dr. Colombo, o que ele fez. Não falou da longa e humilhante espera na ante-sala, ao contrário, ressaltou a cortesia com que o mestre o tratara. Cordial porém categórico. Segundo disse, o interesse da Brastânio por Agreste até aquele momento era puramente teórico, pois o governo do estado ainda não se pronunciara sobre a localização da indústria. Havia, é certo, possibilidades de a fábrica ser instalada em Agreste, mas antes de uma decisão das autoridades competentes, a Brastânio sentia-se impedida de estabelecer acordos, discutir preços, adquirir terrenos. Ali ou alhures, onde fosse. Como passar por cima do governo, adiantando-se a uma decisão oficial, ainda em estudos? Ademais, como tratar com pessoas faltas de qualquer condição jurídica, pseudo-herdeiros, sem direitos assegurados? Antes de propor acordos, devem procurar o reconhecimento de suas pretensões, pois a companhia, se for o caso de conversação e acerto, tratará somente com herdeiros proclamados como tais pela justiça. Quanto à alardeada desapropriação, sobre ela, declarou nada saber, não deve passar de especulação da imprensa:

— Mas, se o prefeito pensa em desapropriar a área visando futura valorização, isso é problema dele e não meu…

Com essa afirmação, evidentemente falsa, mestre Colombo despedira o prezado colega. Dr. Baltazar termina a narrativa afirmando, conciliatório, ter sido sempre sua intenção relatar essas démarches aos demais herdeiros. Segue-se um silêncio de meditação, logo interrompido por Canuto Tavares:

— Pelo visto estamos no mato sem cachorro…

Não é essa a opinião do dr. Marcolino, que reclama a reconciliação geral tendo em vista uma ação coletiva junto ao futuro prefeito. Bem conduzida, a desapropriação poderá revelar-se solução aceitável. Não adianta tentar impedi-la, por ser medida legítima; devem torná-la proveitosa. Que acham os caros colegas?

No calor da tarde, lá se vão eles, trotando nas ruas de Agreste. No cartório, dr. Franklin aperta as narinas com os dedos, murmurando:

— Está cheirando mal…

Bonaparte lastima:

— Pensei que Canuto fosse meter o braço em seu Modesto. Ia ser sensacional… Já pensou, pai?

— Nem quero pensar.

 

ONDE O LEITOR TOMA CONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA DE UM COMITÊ ELEITORAL AINDA CLANDESTINO

 

PAU PARA TODA OBRA, RICARDO TRANSFORMA-SE EM

IMPORTANTE peça da esforçada equipe que trabalha em segredo no quintal do chalé do comandante, transformado em sede de comitê eleitoral. Por ora clandestino, pois a candidatura permanece secreta, conhecida apenas de alguns conspiradores. O comandante concordara com um pedido de Tieta: não bote o andor na rua antes que eu tenha conversado com Ascânio e com o coronel Artur.

Ricardo ajuda nos trabalhos de carpintaria e de pintura, vai comprar pano na loja do tio Astério, serve de elemento de ligação dos conjurados, circulando entre a agência dos Correios, o bar, a casa de dona Milu, sem esquecer as sagradas obrigações para com a Igreja. Na igreja reencontra Cinira, estudando para beata, galgam os degraus da torre, ela na frente, ele atrás a contemplar. Em correria pela cidade, certamente na intenção de cortar caminho, penetra em becos e desvios, resvala nos braços de Maria Imaculada, toda ela em dengue e queixa: pensei que tu nunca mais ia aparecer, bem. À noite, participa da conferência do estado-maior — dona Carmosina, Aminthas, o comandante —, vibra com os planos da campanha, antes de recolher-se aos seios de Tieta. Na fúria dos dezessete anos, devotado e incansável, cumpre com brilho os deveres de cidadão e de homem. Pau para toda obra.

Portador de uma peça de algodãozinho, no quintal deserto na hora da sesta, Ricardo ouve um discreto psiu a chamá-lo, não vê ninguém. Mais forte o apelo se repete, proveniente do outro lado da cerca.

O quintal do chalé limita com o quintal da casa onde vive, submissa mas não resignada, a defesa e cobiçada Carol. Garantia de tranqüilidade para Modesto Pires, a quem uma sina injusta e o poder do dinheiro concedera direitos exclusivos sobre a beldade em cativeiro; impossível melhor vizinhança. A incurável monogamia do comandante é pública e notória; o próprio Osnar perdeu a esperança de um dia conduzi-lo à alegre convivência da pensão de Zuleika. Acresce o sentimento de gratidão, profundo em Carol, fazendo-a devota de dona Laura. As senhoras de Agreste evitam qualquer contato com a amásia do ricalhaço. Todas, à exceção de dona Laura de Queluz, nascida e criada no sul, liberal. Também dona Milu não conta: por viúva, provecta e parteira, está acima dos cânones locais, além do bem e do mal.

Florida cerca de arame no qual se enramam trepadeiras azuis e amarelas separa os dois quintais. Pelas fendas da cerca, acontece Carol espiar o quintal vizinho, quase sempre silencioso e tranqüilo, mesmo quando os donos da casa estão na cidade. Por vezes Gripa, a empregada, vem colher limões. De manhã cedo, o comandante dedica-se à ginástica que, somada ao mar de Mangue Seco, ajuda-o a manter a forma atlética. Admirá-lo é prazer platônico, inconseqüente, pelas razões expostas. A integridade do comandante e a gratidão da manceba reduzem o espetáculo a pura emoção estética.

Assim sendo, imagine-se a surpresa de Carol ao constatar desabitual movimento do lado de lá da cerca. Colocando-se à espreita, notou a existência de estranho material de trabalho, tábuas, ripas, pano, cartolina, tintas, à disposição de sensacional trupe. Dela participam os galantes moços do bar — Aminthas, que lhe pisca o olho e acena adeus, Seixas, o dos longos suspiros ao passar sob sua janela, Fidélio, dos quatro o mais bonito, reservado e esperto, aguardando um ensejo propício, e o descarado Osnar. De repente, acompanhados por dona Carmosina, invadiam o quintal, desenrolavam pano e cartolina, batiam martelos, misturavam tintas. O comandante ditava ordens. Seu Modesto, em noite recente, disse que o povo de Agreste anda de cabeça virada.

A excitação da opípara e proibida Carol chega ao cúmulo quando percebe, através as folhas das enredadeiras, o vulto inesperado e angélico do adolescente Ricardo, de pé maneiro e perna cabeluda. Adormece com ele nas noites de agonia e desamparo, acarinhando o travesseiro. Agora o tem ali, ao alcance da mão. Seu Modesto sabe o que diz, Agreste ganha repentino encanto.

Repete o psiu, Ricardo se adianta, coloca o rosto na fresta, uma coroa de flores na cabeça.

 

DO BANZO, DIAGNOSTICADO POR OSNAR

 

NA PENSÃO DE DONA AMORZINHO, DEFINHA O VELHO

Jarde Antunes, outrora agricultor laborioso, jovial criador de cabras. Passa a maior parte do dia estendido na cama, morrinhento, nada no mundo o interessa. Josafá, vez por outra, tenta reanimá-lo:

— Daqui a mais uns dias, pai, logo se venda o terreno e embolse os cobres, a gente se toca para Itabuna. Vosmicê vai ver o que é terra fértil, gado gordo, cada rês de encher os olhos, vai conhecer roça de cacau. Aquilo, sim, vale a pena, não são esses tabuleiros daqui, secos, esturricados. Tenha um pouco de paciência.

Os olhos do velho persistem fixos nos caibros do teto, Josafá se agasta:

— Está se sentindo doente, pai? Quer que chame o médico?

— Precisa não. Tenho nada, não.

Bom filho, Josafá perde tempo contando-lhe detalhes sobre a marcha da demanda, idas e vindas dos advogados, matreirices de Modesto Pires, dúvidas sobre Ascânio, quando não descreve as opulências do sul do estado, a grandeza do cacau. Não tem sequer certeza se o velho o escuta.

— Está ouvindo, pai?

— Tou, sim, meu filho.

No calor da tarde, a leseira aumenta, Jarde cerra os olhos, indiferente a tudo. Ou a quase tudo, pois lhe acontece, de raro em raro, calçar as alpargatas, sair do quarto e da pensão, atravessando a rua em direção à loja de Astério. Em busca de notícias da Vista Alegre, das cabras e de Seu Mé. As notícias são boas, Jarde cobra alento ao ouvi-las, chega a sorrir. Discorre, com Astério e Osnar, sobre os costumes das cabras; não existe animal, doméstico ou selvagem, que com elas se possa comparar. Quanto a Seu Mé, nem o coronel Artur da Tapitanga possui macho de tanta competência e sobranceria. Bodastro retado, confirma Osnar.

Ao despedir-se, o velho recai no desalento, na melancolia. Põe-se de pé, lívido, trôpego, cabisbaixo, pele e osso. Astério, penalizado, convida-o a acompanhá-lo na caminhada matinal à roça. Jarde recusa, um gesto esmorecido, um fio de voz:

— Pra quê? Pra ver o que não me pertence mais? Só peço que o senhor cuide direito dos bichinhos.

Arrasta-se, cruzando a rua. Osnar diagnostica:

— Está com banzo.

— Banzo? — duvida Astério. — Nunca ouvi falar de ninguém atacado de banzo por aqui. Banzo era doença de escravo.

— Pois é, tinha acabado com o Treze de Maio. Voltou com a fábrica. É capaz de virar epidemia.

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DOS ÚLTIMOS RETOQUES NA FORMAÇÃO DE UM LÍDER OU DE COMO ASCÂNIO

FICA DE SACO CHEIO

 

FORJA-SE UM LÍDER NO FRAGOR DA BATALHA,

VENCENDO ADVERSIDADES — lera Ascânio Trindade no volume A trajetória dos líderes, de Tiradentes a Vargas. Comprova pessoalmente a verdade da afirmação. No fragor da batalha, em meio a agravos e decepções, insolências e ameaças, Ascânio se modifica, amadurece, reformula sua escala de valores, cresce em ambição (“um homem sem ambição jamais será um vitorioso”, ensinara o vitorioso Rosalvo Lucena), torna-se um forte. Convicto do acerto de suas atitudes, disposto a ir até o fim. Segundo o autor dos esboços biográficos, quase sempre uma força misteriosa sustenta o líder no combate, uma estrela guia-lhe os passos, um sol ilumina seu caminho. Correto. No caso do jovem líder de Agreste, essa misteriosa força provém de Leonora Cantarelli, estrela e sol, inspiração e desiderato.

Nela se alimenta de coragem e disposição. Muito deve suportar um líder, se deseja vencer e comandar. Não fosse aquele alento de amor, cada noite renovado, como tolerar e confundir advogados e herdeiros? Juntos ou cada qual por si, sobem e descem as escadas da prefeitura, a aporrinhá-lo. Aporrinhar, verbo cru e grosseiro, jamais o utilizara antes o educado Ascânio, pouco afeito a expressões chulas. Mas agora, de saco cheio, escapam-lhe palavrões a torto e a direito.

Sozinho ou em grupo, terminam sempre na sala de despachos, infernam a vida do candidato, esgotam-lhe a paciência. Exigem definições, promessas, garantias. Vai desapropriar ou não? A área inteira ou apenas uma parte? Em que bases será fixada a indenização? Peritos? Quais? Apesar de ter abandonado a faculdade de direito no segundo ano, Ascânio enfrenta os argumentos dos advogados, a pressão dos herdeiros. De nada vale irritar-se. Não pode mandá-los à puta que os pariu como tanto deseja fazê-lo. Deve consideração a Modesto Pires, a dona Carlota, é amigo de Canuto Tavares e deles necessita sobretudo agora, pois a eleição pode deixar de ser um simples referendum da vontade comum do coronel Artur da Tapitanga e do povo.

Aparentando não perceber insinuações, meias palavras, advertências, consegue apaziguá-los sem se comprometer. Tão rígido antes, aprende a ser maleável. Diante da intransigência de Fidélio, não existe outra solução para o problema dos terrenos, além da desapropriação. Se existe, gostaria de conhecê-la, quem sabe os senhores advogados… A desapropriação, por conseqüência, beneficia os herdeiros. A prefeitura não deseja prejudicar ninguém, a instalação da fábrica deve ser motivo de riqueza para os cidadãos do município, esse o seu pensamento. Por que não tratam de legalizar seus direitos? Assim, no momento preciso, se Fidélio não voltar atrás, poderão acertar com a prefeitura os detalhes da desapropriação. Navega entre herdeiros e advogados, evitando entrar em choque com paredros de sua candidatura. Apesar disso, atritou-se com o dr. Marcolino Pitombo, logo com quem!

— Mais uma palavra, doutor, e eu o convido a retirar-se da sala. — Um líder deve saber se impor, quando necessário e útil.

Na presença de Josafá, o causídico, em meio a uma conversa enrolada, de repente se refere a “compensações no caso que…”. Insultado, Ascânio não lhe permite terminar a frase, vagam no ar indefinidas intenções. Tentativa de suborno? Diante da indignada reação, dr. Marcolino não perde a calma nem o sorriso: o caro amigo anda com a susceptibilidade à flor da pele; somente assim se explica que empreste malévolo sentido a palavras inocentes — acalme-se, por favor. As explicações foram aceitas, ficou o dito por não dito.

Na saída, Josafá recordou ao impulsivo patrono conversa anterior:

— Não lhe avisei, doutor, que Ascânio é homem direito? O senhor se trumbicou…

— Confesso que me enganei, sim, mas ao afirmar que o rapaz é tolo. Nem tolo nem honesto. Pode ter sido, antes de lhe aparecer uma boca dessas. Meu caro Josafá, já lhe disse que toda honestidade tem seu preço. O nosso é baixo, não paga a pena, não se compara com o da Brastânio. Não se esqueça que mestre Colombo passou aqui antes de mim.

Ascânio não soube desse diálogo mas tomou conhecimento de variadas opiniões sobre os motivos determinantes de sua posição. Seu caráter e sua honra são discutidos apaixonadamente — como sempre acontece com os líderes. Jamais imaginara que a redenção de Agreste (“A presença da Brastânio significa a redenção de Agreste” — proclama a manchete do jornal mural) lhe custasse tanto vexame, tanta consumição. Apesar das escusas do dr. Marcolino, persistem em seus ouvidos as frases capciosas, a palavra “compensações” junto com o aparte insultante, cuspido em sua cara no improvisado meeting do primeiro poste: Pau-mandado da Brastânio! Vendido! De nada adiantara ter recusado a ajuda oferecida pelo dr. Mirko para a eleição, exatamente para ficar a coberto de qualquer suspeita: acusam-no da mesma maneira.

No decorrer desses dias agitados, vai-se habituando a equívocas situações que de início lhe pareceram intoleráveis. Ao ouvir o aparte, ficara como louco, desafiara o covarde a mostrar-se e a repetir a injúria. Perdera a cabeça, no bar, durante o torneio do Taco de Ouro, ao ouvir dona Edna aludir à bacia de Catarina. Terminara por não ligar importância ao disse-que-disse, um líder deve colocar-se acima de tais mesquinhezas. Sobretudo quando acontecem fatos realmente graves, junto aos quais o aparte anônimo, a frase incompleta do advogado, as torpezas de dona Edna nada significam.

Dona Carmosina, amiga fraterna, em cujo seio encontrara lenitivo na hora fatal da traição de Astrud, madrinha do namoro com Leonora, comportara-se de maneira insólita, para não dizer indigna. Tentara intrigá-lo com o coronel Artur, a quem Ascânio devia emprego e candidatura. Obtendo resultados, o que é pior.

Envenenado contra a Brastânio, o fazendeiro mandara chamá-lo. Não quero imundície em Agreste, dissera. Ascânio rebatera as afirmações e os argumentos da agente dos Correios, cuja posição apaixonada devia-se à amizade que a ligava a Giovanni Guimarães. Repetira frases e conceitos de Mirko Stefano e Rosalvo Lucena, bradara contra os inimigos do progresso da pátria brasileira. O coronel, os olhos semicerrados, a face cansada, ouviu seu arrazoado mas não se deu por satisfeito, atirou-lhe com artigos publicados em O Estado de S.Paulo, a sentença do juiz italiano; O Estado de S.Paulo não mente nem se engana. Levantou os olhos para o afilhado:

— Fui eu quem levantou sua candidatura quando Enoch morreu. Mas por aí estão dizendo que você é candidato dessa tal fábrica.

— O que sou, devo ao senhor, meu padrinho. Mas não me importo que me apontem como candidato da Brastânio, não é uma desonra. Ao contrário, pois temos o mesmo ideal: o progresso de Agreste. Digam o que disserem, façam o que fizerem, não me dobram. Vou até o fim. Agradeço tudo o que o senhor tem feito por mim, mas não me peça, padrinho, para mudar de opinião. — Um líder se forja no fragor da luta.

Mal se refizera da entrevista, difícil e dolorosa pois o padrinho definhava a olhos vistos, recebeu outro golpe, o pior de todos. Voltando de Mangue Seco, a madrasta de Leonora, a cidadã benemérita, a Joana d’Arc do sertão, dona Antonieta Esteves Cantarelli o convida para uma conversa. Nós dois e mais ninguém, dissera. Ficara apavorado, na certa Tieta soubera do que está acontecendo entre ele e Leonora, na beira do rio; chegaram a seus ouvidos as murmurações da cidade. Não negará; aproveitando a deixa, confessará seu amor profundo e honesto, quer casar-se. Pobre, porém ambicioso e capaz, saberá conquistar um lugar ao sol. Assim resolverá de uma vez a situação. No bolso o anel de compromisso. Seja qual for a reação de dona Antonieta, não pensa desistir de Leonora. Prepara-se para o encontro.

O nome de Leonora não foi sequer pronunciado durante a conversa, não houve referência ao namoro. Dona Antonieta lhe informou haver regressado a Agreste devido ao assunto da Brastânio. Ela e alguns amigos tinham opinião negativa sobre a instalação da Brastânio no município, como era do conhecimento de Ascânio, e estavam dispostos a lutar para impedi-la. Não queriam agir, porém, antes de ouvi-lo, para isso ela solicitara aquele encontro. Estimava-o, acreditava-o honrado. Honrado porém ingênuo, deixando-se envolver por empresários sem entranhas, ela conhecia bem essa raça. Para Tieta e seus amigos, o ideal seria dar completo apoio à candidatura de Ascânio. Para tanto fazia-se necessário que ele mudasse de posição, opondo-se à indústria de dióxido de titânio, mortalmente poluidora. Se assim agisse, tudo em paz. Cabe a Ascânio decidir, entre eles e a Brastânio. Não pede uma resposta imediata mas a deseja em prazo curto, o tempo urge.

— Agradeço à senhora por ter vindo falar comigo, antes de fazer qualquer coisa. Mas não agradeço aos outros. Na cidade, todo mundo já sabe que o comandante quer ser candidato. Sobre Carmosina…

— Basta que você me diga sim e eu e todos os demais estaremos a seu lado. Vim conversar com você em nome de todos. Pense, depois me responda.

— Não tenho mais o que pensar, dona Antonieta. A última coisa que eu desejava era desgostar a senhora. Me peça o que quiser, eu farei correndo. Mas não me peça para virar a casaca. Mesmo que eu fique sozinho lutando pelo progresso de Agreste, mesmo que a senhora nunca me perdoe e se torne minha inimiga…

— Epa! Calma! Quem falou em inimizade? Não tenho nada a lhe perdoar ou não perdoar. Você pensa de uma maneira, eu penso de outra, vamos decidir na eleição mas não somos inimigos. Você ainda é muito novo, se afoga em pouca água. Felipe era o maior adversário do doutor Ademar mas se dava muito bem com ele. Não confunda alhos com bugalhos.

Separaram-se em meio a expressões de amizade, mas Ascânio sentia ressentimento e azedume. Esperara que Tieta não se metesse no assunto, mantendo-se distante da contenda, demorando-se em Mangue Seco, como anunciara, até o dia da festa. Nem lhe falara na homenagem, receoso de que ela o levasse a mal, vendo na placa da rua uma forma de suborno. Suborno, palavra terrível, andava no ar.

Continuar: parte 3 de 4