Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 9 de 10 · parte 3/4

Páginas do PDF

Tieta do Agreste

Da egrégia figura

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Após o jantar, como de hábito, Ascânio veio buscar Leonora na porta da casa de Perpétua. Rodaram na praça enquanto durou a cansada iluminação do motor, antes de tomarem os desvios para o escuro dos chorões. Contou a Leonora a difícil conversa. Ela já sabia, mãezinha lhe falara.

— Você também vai pedir para eu mudar meu pensamento, entregar os pontos? Depois de meu padrinho e de dona Antonieta, só falta você… — o acento amargo.

— Só peço que me ames, nada mais. — Beijou-lhe a mão naquele gesto submisso, de ternura e devotamento. — Mãezinha me disse: tu não é daqui, não se meta nessa briga. Pode ser egoísmo meu, Ascânio, mas até fiquei contente porque, com essa encrenca, mãezinha adiou a viagem para São Paulo. Tinha marcado para o dia seguinte ao da festa, agora vai se demorar para ajudar o comandante. Minha avó sempre dizia que tudo no mundo tem seu lado bom.

Não deixa de ser verdade, reflete Ascânio. Se a conversa com dona Antonieta deixara-o estomagado, o encontro com o padrinho o assustara. O coronel estimava o afilhado, pensara dar-lhe a filha em casamento, fizera-o secretário da prefeitura, proclamara-o candidato quando da morte do dr. Enoch. Não lhe retirara o apoio, apesar da intriga de Carmosina, mas tampouco ficara convencido das benemerências da Brastânio. A candidatura do comandante vai irritar o coronel, fazendo-o esquecer exigências sem sentido e jogar todo o peso de seu prestígio na eleição de Ascânio. O coronel Artur da Tapitanga não está acostumado a suportar oposição, inexistente no município há muitos e muitos anos.

Ainda bem, porque senão Ascânio seria obrigado a recorrer à Brastânio para enfrentar as despesas da campanha, pequenas mas obrigatórias; ele não tem um tostão furado. Não deseja pedir auxílio aos industriais nessa oportunidade, está em jogo seu orgulho. Dissera a dr. Mirko: não preciso, estou eleito. Mais tarde, porém, quem sabe? Nos dias de amanhã, após o pleito, a posse, a desapropriação, quando o complexo fabril erguido em Mangue Seco estiver produzindo riqueza e prestígio para Agreste, todos compreenderão, fazendo justiça ao líder forjado na luta e na adversidade. Até mesmo dona Carmosina e dona Antonieta. Comprovada a justeza da sua atitude, estará à vontade para aceitar qualquer oferta de ajuda a ser proposta pela Brastânio por ocasião das eleições legislativas. O marido de Leonora Cantarelli não pode reduzir suas aspirações ao cargo de prefeito municipal e o prestígio do coronel Artur de Figueiredo, mesmo que o cacique viva até lá, não é suficiente para eleger um deputado.

 

DE COMO O VELHO CAUDILHO ARTUR DA TAPITANGA FICOU SEM CANDIDATO

 

SENTADO NO BANCO DE MADEIRA, NA VARANDA DA

CASA-GRANDE, SOZINHO, o coronel Artur de Figueiredo calenta sol. Cabras pastam nas imediações, mais adiante fica o curral. Voz forte de mulher, pedindo licença na cancela, corta-lhe a madorna. Coisa ruim a velhice: fraquejam as pernas, na boca insossa a comida perde o sabor, à orelha dura os sons chegam fracos e distantes, na visão embaçada pessoas e coisas movem-se em meio a um nevoeiro. Tem dificuldade em reconhecer a visita que se aproxima, atravessando por entre galinhas, conquéns e patos.

— Quem vem lá ?

— É de paz, coronel.

A voz soa-lhe familiar. Põe-se de pé, apoiado na bengala, aperta a vista:

— É você, Tieta? Louvado seja Deus! Estive para lhe mandar um recado mas soube que você andava em Mangue Seco.

— Voltei, coronel, e vim logo lhe ver. Não esqueci a promessa.

Acercando-se, Tieta constata quanto decaíra o octogenário em pouco mais de quinze dias. Ao visitá-la na noite de Ano-Novo, por ocasião da morte de Zé Esteves, era um velho disposto e alegre, desfilando recordações; saliente, malicioso, exigindo sua ida à fazenda para conhecer o bode Ferro-em-Brasa, pai de rebanho, sem rival na história. Transformara-se em esquálido ancião, curvo sobre a bengala, voz arrastada, olhos sem brilho, pele e ossos.

Parece conservar, no entanto, a força de caráter, hábitos antigos e determinados interesses — públicos e privados. Ao abraçar Tieta, apalpa-lhe com as mãos trêmulas a carnação farta, ai seu tempo!

— Vamos sentar, minha filha, quero que você me explique o que está acontecendo em Agreste.

A rir, brincalhona, Tieta comenta o vacilante manuseio:

— O tempo passa, a mão do coronel não perde o tato.

Menina, pastora de cabras, fugia ao enxergá-lo no caminho. Se ele a alcançava, corria-lhe a mão pelos peitos e pelas pernas.

— Já perdi o gosto de quase tudo, só não perdi o vício de mulher. Sou como um bode velho, que já não serve pra nada mas ainda vai cheirar o rabo das cabras. — Bate com a bengala no chão, chama: — Merência!

A criada, ser informe, corcunda, sem idade, carapinha branca, espia da porta aguardando ordens, reconhece Tieta:

— Tu é Tieta, não é? Tu ficou loira ou deu pra usar chinó?

— Sou eu mesma, Merência. Depois vou lá dentro falar com você.

— Passe um café para a gente. Não fique aí parada, mulher.

— Que idade Merência tem, coronel?

— Se não passou dos cem, deve estar beirando. Quando eu nasci, já era moleca fogosa. Agora, Tieta, me esclareça, me diga o que está ocorrendo. Nunca ouvi tanta maluquice em minha vida.

— O que assim, coronel?

— Ascânio, meu afilhado, meu braço direito na prefeitura, nem parece o mesmo rapaz sensato, anda às voltas com uma tal de indústria que pretende se instalar em Agreste, para os lados de Mangue Seco, segundo me diz. Ascânio acha que com isso o município vai prosperar outra vez, o dinheiro vai correr. Esteve na capital, conversando com os capitalistas, jura por eles. Quando me falou a primeira vez, achei a esmola grande demais, mas calei minha boca porque esse tempo moderno é mesmo esquisito, acontecem coisas que nem o diabo explica… — faz uma pausa, muda de assunto. — Como é que tu conseguiu botar luz de Paulo Afonso em Agreste? Até aqui já levantaram poste. Nem o diabo pode explicar… — Um resto de malícia nos olhos baços, na voz de catarro. — Pra tu mandar tanto nesses políticos de São Paulo, não sei não…

Tieta ri, bota lenha na fogueira do ancião:

— Tenho meus recursos, coronel, minhas armas secretas…

— Disso eu sei. Tu não é gente, desde novinha. — Os olhos descem do busto de Tieta para os quadris. — Bem servida de leiteria e padaria. Que Deus conserve as prendas que te deu. Teu finado devia ser homem acomodado, bom de gênio… Era conde, não era?

— Comendador, coronel.

— É tudo a mesma coisa. Esses monarquistas, são todos mansos. Raça de cabrões. Mas, voltando atrás: me aparece por aqui dona Carmosina, outra pessoa direita, carregada de jornais, as gazetas que eu assino e ela é quem lê, toca a me recitar artigos de O Estado de S.Paulo e de A Tarde, dois jornais sérios, dizendo que a tal fábrica é uma desgraça, que só vem para Agreste porque ninguém quer em lugar nenhum do mundo, acaba com tudo. Comecei a pensar se não estão enrolando Ascânio, ele ainda é novinho, fácil de intrujar. Mandei chamar ele aqui, falei dos artigos, da imundície, dessa história de poluição. Quando Enoch morreu, eu recomendei a Ascânio: mantenha a cidade limpa, já que não pode trazer de volta a animação. Então, que conversa é essa, agora, de botar aqui uma fábrica que ninguém quer em lugar nenhum? Me respondeu que com a fábrica a animação vai voltar, Agreste vai conhecer de novo a prosperidade. Que essa história de poluição não passa de invencionice de uns sujeitos que não querem que o Brasil vá para a frente, são contra o governo, mandados pela Rússia, como aquele rapaz Giovanni, que andou por aqui e ficou muito amigo de Carmosina. Mas eu lhe fiz ver que também O Estado de S.Paulo baixava o pau nessa indústria e eu nunca soube que O Estado de S.Paulo tivesse a ver com a Rússia, o Estado não é jornal de inventar coisas. Ele embatucou mas pediu que eu não tivesse receio, que só deseja o benefício de Agreste. Isso eu acredito, Ascânio é um menino bom. Mas pode estar sendo enrolado. Tu é que sabe a verdade e vai me dizer.

Tieta ouve sem interromper. O velho fala devagar, cortando as frases ao meio, a respiração curta. Apenas provou o café trazido por Merência. De quando em quando uma cabra dispara no terreiro, o coronel levanta a vista.

— Para ver o senhor e conversar dessas coisas é que vim, coronel. Também gosto de Ascânio, penso que é um rapaz direito. Vive sonhando com os tempos passados, do avô dele e do senhor, pensa que a Brastânio vai fazer voltar aquele movimento e aí ele se engana. Se fosse uma fábrica de tecidos, de sapatos, todo mundo estava de acordo. Mas a Brastânio vai fabricar dióxido de titânio…

— E que demônio é esse tal de dióxido de titânio?… Carmosina me explicou mas ela é letrada demais para meu entendimento…

— O que é, no duro, eu mesma não sei, coronel, não vou lhe mentir. Mas sei que é a indústria pior do mundo para poluir. Vai destruir o nosso clima que é tão bom, empestear a água do rio e do mar, terminar com os pescadores.

— É verdade que envenena os peixes?

— Envenena tudo, coronel, até as cabras.

— As cabras também?

— Por isso, coronel, é que estou aqui para lhe dizer que, se Ascânio continuar a apoiar a instalação da Brastânio, nós vamos lançar a candidatura do comandante Dário a prefeito.

O coronel Artur da Tapitanga estremece, tomado de indignação, como se Tieta o houvesse esbofeteado. Um lampejo de cólera nos olhos; a voz, num esforço supremo, se afirma violenta:

— Nós, quem? Como se atreve a falar em candidatura sem me consultar?

— Ninguém, coronel, não se altere. Não há ainda nenhuma candidatura. O comandante, Carmosina, eu e outros amigos queremos obter seu acordo, para isso estou aqui. O senhor é padrinho de Ascânio, patrono da candidatura dele. Nós não somos contra Ascânio, somos contra a fábrica de dióxido de titânio. É só Ascânio dizer que não tem nada com a fábrica, que não vai favorecê-la e acabou-se a briga. Mas, se ele não aceitar, não temos outro jeito, coronel, porque não queremos que Agreste vire… como o jornal disse… uma lata de lixo…

O velho descansa o queixo na bengala, nada mais resta da cólera, os olhos apagados, a voz lenta e baixa repete:

— Uma lata de lixo… Isso mesmo. Carmosina leu pra mim. Não já lhe disse que falei com Ascânio? Falei, faz dias. Sabe o que ele me respondeu? Que tinha muita honra em ser candidato da fábrica, que ia até o fim de qualquer maneira. Que ninguém vai impedir que ele arranque Agreste da leseira.

A mão descarnada busca a mão de Tieta, toca os dedos repletos de anéis, pedras preciosas:

— Ouça, minha filha: você está conversando com um bode já sem serventia, solto no campo para morrer. O desinfeliz pensa que ainda é o pai do terreiro, não é mais nada, até os cabritos novos lhe metem os pés. O coronel Artur de Figueiredo, que mandava e desmandava, se acabou. Não nomeio mais candidato nem disputo eleição. Tu não vê? De um lado, os capitalistas da fábrica, não são nem daqui. Do outro, tu, Tieta, que eu conheci menina, descalça, tangendo as cabras, agora coberta de brilhantes. Não conto mais para nada. — Na voz, cansaço e amargura.

Comovida, Tieta afaga-lhe a mão, carinhosamente:

— Não diga isso, coronel. Se o senhor largar Ascânio de mão, não tem fábrica que eleja ele. O senhor é o dono da terra, manda na gente daqui. Tanto isso é certo que se o senhor me pedir ou me ordenar, eu acabo com a candidatura do comandante neste instante, aqui mesmo. Contra o senhor, não me levanto nem para salvar as cabras.

Desponta um sorriso nos lábios murchos do ancião:

— Não acredito que esse titânio mate cabras, Tieta, tu diz isso pra me enrolar. Mas não te peço nem te ordeno nada. Não me meto mais, cada um faça como quiser. Ascânio pensa que está agindo certo, é lá com ele. Tu, Carmosina, o comandante, não sei quem mais, acham o contrário. Se eu ainda tivesse ambição de dinheiro, era bem capaz de apoiar a tal indústria, me associar com os forasteiros, por dinheiro a gente vende até a alma. Se ainda tivesse amor à vida, apoiava vocês, o pior homem do mundo pode às vezes ter um gesto grande. Não tenho mais nada a ganhar nem a perder no mundo, Tieta, perdi até o gosto de mandar. Mas agradeço o que tu disse, a consideração que teve com um velho. Tuas palavras puseram mel em minha boca, perto da hora da morte.

— Coronel, antes de ir embora, queria uma coisa.

— Pois ordene.

— Conhecer Ferro-em-Brasa, aquele seu bodastro. Para comparar com o bode Inácio, um que foi do velho Zé Esteves.

— Vou mandar lhe levar no curral.

— Não me acompanha? Vamos, me dê o braço, se levante… — toma o braço do coronel e o prende contra o seio.

Descem juntos os degraus da varanda:

— Tu não é gente. Tu é o cão em figura de mulher. — Um suspiro fundo. — Se eu tivesse dez anos menos, se andasse aí pelos setenta e cinco, ah!, tu não ia continuar viúva que eu não deixava.

DO DESVELO CÍVICO E DA JUSTIÇA DIVINA

 

NO SÁBADO, A CIDADE AMANHECEU EM PLENA

CAMPANHA ELEITORAL. “Para prefeito vote contra a poluição votando no comandante Dário de Queluz”, recomendam faixas, em número de quatro, colocadas em pontos estratégicos, nos logradouros de maior circulação. Uma, bem em frente à prefeitura. Tabuletas convidam a população a comparecer em massa no dia seguinte, domingo, por volta das cinco da tarde, após a matinê e antes da bênção, ao grande comício de lançamento da candidatura do comandante Dário de Queluz. O candidato usará da palavra e o poeta De Matos Barbosa declamará os Poemas da maldição.

Faixas e placares confeccionados no quintal do bangalô do comandante pela eficiente equipe, cujo desvelo cívico a bela Carol saudara prazenteira e esperançosa. Em casa de dona Milu, dona Carmosina e Aminthas, dois crânios, redigiram uma espécie de manifesto ao povo, expondo as razões da candidatura do comandante. Impresso em Esplanada, em papel amarelo, o volante se destina a farta distribuição em Agreste, no sábado e no domingo. Dias de agitação subterrânea, sábado de ocorrências sensacionais.

Bendita agitação! Nas idas e vindas, Ricardo, dito Pau-Para-Toda-Obra, se desenvolve. Do outro lado do quintal, desfalece na hora da sesta a oprimida manceba. Por entre as trepadeiras, trocam juras e promessas, traçam planos; o senhor de escravos passará o fim da semana em Mangue Seco, com a esposa e os netos. Na torre da igreja, ao entardecer, Cinira fita a paisagem tranqüila do burgo, um pé no barricão, o outro levantado (para facilitar). Por detrás da mangueira, Maria Imaculada, infalível às nove da noite em ponto, quando a luz se apaga abrindo os caminhos das barrancas do rio à circulação romântica dos namorados. Depressa, depressa, bem, que o tempo é curto. Em casa, Tieta espera, impaciente. Quanto a dona Edna, aguarda vez, afinal ninguém é de ferro, nem sequer um seminarista adolescente, ávido de ação, quase fanático.

Na sexta-feira, o silêncio do motor não interrompeu os afazeres dos devotados partidários do comandante. Nem Ricardo correu ao encontro de Maria Imaculada. Posta a par com antecedência, a menina concordara em sacrificar por uma vez o medido momento de prazer à boa causa. Fidélio, Seixas, Ricardo, Peto, Sabino, atravessam a noite colocando faixas e tabuletas, sob o comando de Aminthas e a fiscalização de Osnar. Infenso a qualquer esforço físico — reservo meu físico para os embates de amor —, Osnar dita ordens, caga regras. O comandante superintende os trabalhos, o rosto grave, preocupado com a elaboração do discurso para o comício, tremenda responsabilidade. Bafo de Bode concedera de início o suporte de sua presença aos militantes do meio ambiente. Mas, tendo conseguido subtrair dos cuidados de Osnar uma garrafa de pinga quase cheia, sumira.

Terminam todos na pensão de Zuleika, onde os aguardava uma peixada comemorativa, encomendada pelo benemérito Osnar. Todos, menos o comandante, por incorruptível, e Ricardo, por seminarista. Não se apressa o jovem, todavia, a recolher-se. Coincidindo a vigília cívica com a partida de Modesto Pires para o regaço da família, na praia, acontece uma porta apenas encostada na solidão de Agreste, à espera de valente justiceiro.

Nas ocorrências daqueles dias agitados, prevaleceu o desentendimento, divididas as opiniões, envenenadas. Mas quando certos fatos vieram à tona e os chifres de Modesto Pires tornaram-se públicos e aceitos, houve acordo unânime, não se ouviu acusação e crítica aos autores da façanha.

Autores, sim, o que não retira de Ricardo a glória de ter sido o primeiro a vencer as barreiras perversamente intransponíveis do respeito aos poderosos, do medo da vingança dos prepotentes — e a fazer justiça. Justiça divina, segundo o povo, cansado de esperar o auspicioso evento desde que, há aproximadamente seis anos, o dono do curtume importara dos confins de Sergipe as graças muitas de Carol, com elas enriquecendo o patrimônio de Agreste. Limitando, no entanto, o valor do gesto com a prática de mesquinha e egoísta exclusividade.

Bafo de Bode, ao retornar na esperança de mais cachaça, encontra a praça vazia. Tomando pelos becos ermos distingue, no primeiro alvor da madrugada, a robusta sombra do bom samaritano no ato de transpor a porta da escravatura para proclamar a abolição. Inimigo das tiranias e da propriedade privada, Bafo de Bode exclama para o escasso auditório de dois vira-latas e uma cadela:

— Seja feita a justiça de Deus! Mete ferro, padrequinho!

DA VOLTA DA ANIMAÇÃO

 

OU DE COMO O PAU COMEU

 

COM A FÁBRICA, VAI VOLTAR A ANIMAÇÃO, PROMETERA

ASCÂNIO TRINDADE ao coronel Artur de Figueiredo. Decorridos poucos dias os acontecimentos deram-lhe razão; não se fez sequer necessário o estabelecimento da indústria para a feira de Agreste reaver movimento e entusiasmo dignos dos falados tempos de antanho. Alvoroço de tal magnitude a ponto do beato Possidônio, convencido de que chegara o dia do Juízo Final, abandonar a cuia de esmolas, entregando-se por inteiro à salvação dos pecadores, brandindo o cajado redentor.

No sábado, arribando de manhãzinha à praça do Mercado (praça Coronel Francisco Trindade — Intendente Municipal, ensina a placa; o povo, rebelde, não aprende) os feirantes depararam com algumas novidades, entre as quais uma faixa, esticada entre duas varas fincadas no chão, propondo a candidatura do comandante e uma tabuleta, convocando para o comício. Esta última, fazendo parelha, num poste bem no centro da praça, com o placar do cinema que anuncia sensacional bang-bang no fim de semana: “Porrada à beça!”, promete.

A princípio, faixa e tabuleta despertaram pouco interesse. A curiosidade dos matutos voltava-se para novidades maiores e mais vistosas: os novos postes de luz, da hidrelétrica do São Francisco, gigantescos, belos, impressionantes. Dois deles já colocados de pé; os feirantes esticavam os pescoços buscando divisar as lâmpadas. Um terceiro, ainda estendido no chão, reuniu curiosos a admirá-lo, em exclamações de pasmo.

Alguns mais letrados soletraram as palavras da faixa, raros se interessaram pela tabuleta, a maioria não sabia ler. Assim, a feira começou normalmente, vindo a ganhar influência somente quando Ricardo e Peto começaram a distribuir os volantes. Aí, foi aquele deus-nos-acuda.

Gumercindo Saruê, pequeno produtor de farinha de mandioca, contemplara os postes, boquiaberto; mal reparara na faixa, nem se dera conta da tabuleta. Um homenzarrão com fama de valente, dado a brigas. Chegou a ser preso num domingo de cachaça. Armado de foice, pusera a correr os dois filhos de siá Jesuína, viúva de cabelo na venta. A viúva não se acomodou enquanto não viu Saruê no xadrez — a cadeia de Agreste, quase permanentemente vazia, ocupa uma sala dos fundos da prefeitura, com grades na janela. Ascânio, ao tomar conhecimento do incidente, abandonando o bilhar, acalmou a mãe irada, abriu a porta da prisão e mandou Gumercindo em paz. O gigante, agradecido, jurou:

— Conte comigo, seu doutor, para a vida e para a morte.

Não eram palavras vãs como se verá agora mesmo, pois Ricardo e Peto haviam surgido na feira e começaram a distribuição dos prospectos redigidos pela indignada dona Carmosina em colaboração com o sardônico Aminthas. Enquanto faixas e tabuletas limitavam-se a anunciar a candidatura do comandante, com breve referência à poluição, o volante estendia-se sobre as razões da campanha, destinada a salvar Agreste, paraíso ameaçado de podridão. Citava trechos da crônica de Giovanni Guimarães, baixava o pau na Brastânio, “empresa multinacional destinada a encher o bandulho de estrangeiros à custa da miséria do povo”. Descia igualmente a ripa em Ascânio: “aproveitando-se do posto que ocupa, presta-se ao jogo sujo desses criminosos que querem transformar Agreste numa lata de lixo”. Impedir a eleição desse “pleibói matuto, agente a soldo dos empresários da morte”, era obrigação de todos os cidadãos do município.

Ricardo cumpria dever ditado pelo mais puro idealismo; Peto trabalhava contra pagamento prometido por Osnar, um dos financiadores da candidatura do comandante, mas os dois irmãos, o abnegado e o mercenário, cumpriam conscienciosamente a tarefa recebida, indo de pessoa em pessoa, feirantes e fregueses, distribuindo os volantes de mão em mão. Sabino, preso ao balcão da loja, não teve participação no início da folgança.

Diante dos sacos de farinha de Gumercindo Saruê, Peto entregou um prospecto ao vendedor, outro à compradora, dona Jacinta Freire, beata das mais xeretas. Gumercindo, pensando tratar-se de anúncio de cinema, deixou o papel cair no chão. Dona Jacinta, porém, interrompendo a compra, dedicou-se à leitura, em voz alta; outro jeito não teve o feirante senão escutar. Ao ouvir o nome de Ascânio, interessou-se, pediu explicações. Dona Jacinta satisfez-lhe a curiosidade com prazer. Indicou a tabuleta no centro da praça, apontou a faixa, releu os insultos com gorjeios na voz, adorando. Incrédulo, Gumercindo perguntou:

— Querem tirar doutor Ascânio da prefeitura?

— Para botar o comandante Dário. Diz que Ascânio…

Homem de ação, Saruê procura com os olhos o menino que distribui aquele papel imundo e o enxerga mais adiante, descansando da árdua empreitada enquanto chupa um picolé. Gumercindo parte para Peto, estende as mãos para tomar o maço de volantes, consegue tirar alguns que rasga com raiva, quer o resto:

— Me entregue essas porqueiras, seu moleque.

Ora, como de sobejo se sabe, Peto é parada. Unindo a ação à palavra, vibra um pontapé na canela de Gumercindo e xinga-lhe a mãe.

— O que é isso, compadre? — intervém Nhô Batista, outro lavrador de Rocinha, ao observar o amigo, cego de ódio, buscando agarrar o menino.

— Estão querendo tirar doutor Ascânio da prefeitura!

A notícia se espalha, corre como um rastilho de pólvora, ou seja, rápida e peçonhenta, comovendo a feira. A maioria dos vendedores, procedentes quase todos do distrito de Rocinha, tinha Ascânio em grande estima. Os habitantes da beira do rio e da orla do mar, fornecedores de peixe, mariscos, caranguejos e guaiamuns, juravam pelo comandante — numericamente em minoria, eram temidos, alguns possuíam fama de contrabandistas e tradição de luta contra a polícia.

A caça a Peto através da feira, com lances espetaculares e muita mercadoria derrubada, deu início à desordem. Safa-se Peto, desatando uma vara de porcos nos pés de Saruê e seus asseclas. Parte para o bar em busca de reforços; a última coisa que viu na confusão foi Ricardo sendo agarrado por um grupo, os volantes espalhando-se ao vento. O bar cheio, vieram todos.

Feira assim animada não houve jamais. Desbancou a de 4 de junho de l938, na qual o façanhudo cabo Euclides tentou capar, na vista do povo, o violeiro Ubaldo Capadócio, que lhe desonrara o leito, comendo-lhe a esposa Adélia. Capadócio escapou por milagre. Não escaparam a faixa e as tabuletas — as duas, pois o placar do cinema, anunciando profeticamente porrada à beça, foi igualmente destruído. Acontece que os pescadores, de início ignorantes da causa do conflito, demoraram a participar da festa. Mas, quando se deram conta do desaforo ao comandante, o pau comeu.

O pau comeu de todos os lados, muitos nem souberam os motivos da briga, todos se envolveram. Prejuízo vultoso e geral: sacos e sacos de farinha, de feijão, de arroz, de milho, derramados, frutas e legumes pisados, esmagados, mantas de charque pelo chão, peixes servindo de arma de combate e caranguejos soltos entre os campeões. O profeta Possidônio, tendo proclamado mais uma vez o fim do mundo, baixou o cajado sobre uns e outros, indiferente às posições políticas, eram todos condenados pecadores.

Nem Ascânio, vindo da prefeitura às pressas, conseguiu acabar com a briga. Tampouco o comandante, roubado à redação de seu discurso. Nem mesmo padre Mariano, cuja intervenção apenas impediu que o comandante e Ascânio se atracassem.

Mas quando Tieta, alertada por Sabino, apareceu na praça empunhando o bordão do velho Zé Esteves, semelhando a Senhora Sant’Ana, e entrou no meio do povo gritando: parem com isso!, todos abriram passagem para ela e tudo serenou. Tarde demais para salvar a faixa e a tabuleta, mas a tempo de recolher os escombros de Ricardo. Na hora exata; nem bem levantara e conduzira o sobrinho glorioso (equimoses no rosto e nas pernas), surgiram na praça em pé de guerra, vindas de horizontes diferentes, a pequena Maria Imaculada, a devota Cinira, a pretendente Edna e a liberta Carol. Também Ricardo possui eleitorado. Reduzido mas de qualidade.

 

DE TIETA TODA ORNADA DE CHIFRES

 

OS GRITOS DE TIETA DESPERTAM PERPÉTUA. ENFIA A

SAIA negra sobre o camisolão, toma o candeeiro, abre a porta a tempo de enxergar Ricardo fugindo pelo corredor, apanhando sem soltar um pio, nu em pêlo, ai, Senhor meu Deus! Desatinada, mandando ao diabo contenção, decoro, conveniências, desprezando qualquer espécie de cautela, a tia o persegue até a porta da rua; o bordão ronca nas costas do sobrinho. O bordão do velho Zé Esteves, o mesmo que exemplou Tieta quando o pai soube, por intermédio de Perpétua, do caixeiro-viajante.

Ricardo ainda tenta voltar em busca de um calção mas a fúria, de cajado em riste, no auge da dor de corno, o atinge na face, na face angelical e pérfida, como a atingira Zé Esteves em outra distante madrugada — também ela tinha a face angelical. Fecha o corredor, vibra o cajado, ameaça os celestiais e traiçoeiros quimbas do aleivoso, a divina e perjura estrovenga. Num salto, Ricardo ganha a rua, salva os preciosos bens. Não refeito ainda da surpresa, desarvorado, vê-se na praça, trajando lanhos, vergonha e o anel de jade, a porta fechada com violência sobre a voz colérica a expulsá-lo: — Suma de minha frente!

Tieta toda ornada de chifres. Ela os fora recolher na beira do rio. Quando a luz do motor marcou a hora combinada, estava a postos: assistiu ao encontro atrás da mangueira, acompanhou o traste e a moleca até à escuridão da bacia de Catarina. Sujeitando o orgulho à dura prova, postou-se à escuta para cumular-se de indignação, suar o ciúme inteiro, gota a gota. Aberta em chagas, aviltada, coberta de lama, abjeta, ridícula, corneada. Escutou os risos, perdeu a conta dos suspiros, mediu o silêncio dos beijos, aprendeu as mil nuanças da palavra bem, repetido refrão: me beija de novo, bem, me morde; mete em mim, bem; não vá embora, bem, demore mais; ai, bem!

Logo ao regressar de Mangue Seco, começara a suspeitar da existência de outro rival, além de Deus: humano e fêmea. Pôs-se à escuta, recolheu informações mas quis ter certeza, tirar pessoalmente a limpo, tão impossível lhe parecera. Viu, ouviu, quase participou. Era verdade. Deixara-se enganar, ela, Tieta, vaidosa e segura de si, como se fosse a mais tola e confiante das raparigas.

Conforme fazia todas as noites, no quarto se despiu e perfumou. Assim o esperara para que as últimas centelhas de paixão se extinguissem quando ele a tocasse com as mãos ainda quentes do corpo da menina e sobrassem tão-somente humilhação e raiva.

Jamais lhe acontecera. Lucas fugira temendo se prender, não por causa de outra. Fora necessário retornar a Agreste para um homem ousar. Um homem? Cabrito apenas desmamado, vestido de batina, de inocência e medo, um menino donzelo, cabaço cuja flor ela colhera na noite das dunas ao luar.

DO DIÁLOGO DAS DUAS IRMÃS

 

SOBRE ASSUNTOS DE FAMÍLIA,

CAPÍTULO UM TANTO SÓRDIDO ONDE

É LAVADA A ROUPA SUJA E

SE PÕE MERDA NO VENTILADOR

 

DESNUDA, FLORESCIDA EM GALHAS, RECOBERTA DE

CHIFRES E ISSO que ela não sabe da missa a metade, Tieta enfrenta a irmã. Despira-se à espera do pulha, para degustar todos os condimentos da traição, percorrer a escala da vileza até o fim, sentir o desespero transformar-se em ódio quando ele estendesse a mão ainda quente do calor da outra e lhe tocasse o corpo. Assim acontecera.

Nudez agressiva, bela e opulenta, na pujança dos seios arrogantes, das longas coxas, da altaneira bunda de saracoteio, da negra e profusa mata de pêlos — além da cornadura, apenas o bordão. Ao vê-la de tal sorte impudica e colérica, Perpétua decidira adiar a inevitável explicação, o difícil confronto. Para conversação de sutilezas e meias-palavras, de subentendidos, exige-se tranqüilidade, ânimo sereno. Desaconselhável em hora de cabeça quente e orgulho ferido. No ajuste da prestação de contas, Tieta pode resolver cobrar aleives do passado.

Perpétua tenta cerrar a porta do quarto, recolher-se, borrar dos olhos o que vira. Mas não chega a completar a manobra de recuo. Tieta percebe o bruxuleio da chama do candeeiro, adivinha a irmã à espreita, a raiva culmina:

— Que faz aí, escondida, espiando?

Descoberta, Perpétua mostra-se, avança um passo:

— O que aconteceu? O que é que isso significa?

A voz sibilante não reflete escândalo e furor, apenas espanto. Ainda há tempo para salvar a moralidade, manter a decência. Disposta a colaborar, Perpétua deixa margem para qualquer versão satisfatória: Ricardo vem se revelando voluntarioso e desobediente, não cumpre horários, merece repreensão e castigo. Quanto à nudez dos personagens, explica-se pelo calor do verão ou não se fala nisso, detalhe secundário. Salvas as aparências, as negociações tornar-se-ão mais fáceis. Mas Tieta, descontrolada, despreza a oportunidade, põe a merda no ventilador:

— Significa que o cachorro de seu filho se atreveu a me botar os cornos com uma putinha descarada, coisa que nenhum homem me fez.

Perpétua abafa um grito com a mão. Avança mais um passo, encosta-se na parede do gabinete:

— Quer dizer que tu e Cardo… Que horror, meu Deus! — Pasmo e repulsa estampam-se na face severa mas novamente a mão impede o lamento. Em Agreste, o sono dos vizinhos é leve; despertados pelo estardalhaço de Tieta, quantos não estarão à escuta?

Arrastando o pesado fardo da traição, a abundante colheita de chifres, Tieta caminha para o quarto, senta-se na cama, as pernas dobradas, indecente postura. A indignação e a raiva prosseguem implacáveis, agora voltadas contra a irmã:

— Não venha bancar a inocente, fazendo que não sabia quando estava farta de saber.

— O que é que tu quer dizer com isso? Tu está louca! Eu te recebi em minha casa, de braços abertos, pensando que tu tinha mudado. Tu não mudou nada, é a mesma depravada de antes. Desencaminhou um menino inocente, temente a Deus, desgraçou a vida dele. Ia ser padre, agora está excomungado… — abafa um soluço, mãe em pânico, estarrecida. — E ainda tem coragem de dizer que eu sabia. Vade-retro! — Não cabendo mais remendo, resta-lhe enfrentar a situação, tomar a ofensiva.

— Não sabia! Cínica! — o desejo de Tieta é esbofetear a hipócrita, baixar-lhe o bastão nas costas como fez com o nojento. — Quem foi que mandou o filho de noite para Mangue Seco quando viu que eu estava tarada por ele? Com olho no meu dinheiro, pensa que não me dei conta? Mas você se esqueceu de explicar a ele que não nasci para carregar chifres. Não sei onde estou que não lhe meto o braço.

O candeeiro na mão, no corredor, diante da porta do quarto, acuada contra a parede, suor frio na testa, Perpétua reage:

— Tu está inventando calúnias para fugir à responsabilidade. — A voz agressiva, o dedo num gesto acusador. — Tu não pode desviar um menino inocente do sagrado caminho do sacerdócio, cortar sua carreira, sem…

— Sem pagar, não é? Você só pensa em dinheiro. Antigamente, só pensava em arranjar um homem disposto a te comer, não era?

— Nunca tive esses pensamentos, não sou tua igual.

— Então por que você prometeu um filho a Deus? Não foi para arranjar um homem com quem trepar? Você não é igual a mim porque é pior. Astuciou tudo isso para me tomar dinheiro. Quando me cedeu a alcova e botou ele para dormir ali defronte, já foi um plano. Eu devia ter desconfiado.

— Mentira! Nem me passava pela cabeça…

— Depois, quando me viu de olho nele, armou o bote, não foi?

— Não adianta tu continuar inventando embustes. Eu quero saber o que é que tu vai fazer para compensar meu filho. E quero saber agora mesmo.

— Compensar teu filho? De quê? Era um donzelão, capaz de terminar veado, dando por aí, fiz dele um homem. Como se você acreditasse que padre tem de ser virgem.

— Era um menino imaculado, bem ouvido, respeitoso, só pensava em seus deveres. Agora nem parece o mesmo, tomou a rédea nos dentes. Tu fez dele teu igual. Está igual ao que tu era, maldita! Tu abusou dele. Tem coragem de negar?

— O que você quer é que eu pague o cabaço de seu filho, não é?

Levanta-se, desce da cama, o corpo lascivo e afrontoso. Rebolante, dirige-se para o armário, toma da maleta onde guarda o dinheiro, destranca-a e suspende a tampa, separa um maço de notas e as atira em direção à irmã. Espalham-se no chão:

— Toma, eu pago o cabaço que comi. Foi bom, valeu a pena, me fartei. Vai, recolhe a paga, caftina de merda. Tu me dá nojo.

Perpétua pousa o candeeiro, penetra no quarto, agacha-se, cata as cédulas. A voz se eleva do chão, fanhosa mas abrandada, conciliadora.

— O que tu deve fazer é adotar os dois meninos…

— Adotar? Como meus filhos? — De novo em cima da cama, Tieta observa Perpétua de quatro, juntando e recolhendo as notas. — É isso que você deseja… Para serem meus únicos herdeiros, não é? Não faz mal que eu passe a ser mãe de meu macho? Tu é demais.

Ao vê-la andando de gatas, o braço estendido sob a cama, em busca de alguma cédula ali extraviada, os peitos murchos balançando sob o camisolão, o coque desfeito, os cabelos tombando sobre o rosto azedo de beata, a feiúra de bruxa e o olho aceso, apossa-se de Tieta um sentimento misto de admiração e pena, a juntar-se à raiva — que diabo de mulher capaz de tudo pelos filhos.

— E dizer que teve um homem que te quis, te desejou, dormiu contigo e te fez filhos. Contando, não se acredita.

Relembra então uma idéia louca, grotesca imagem que certa ocasião lhe atravessara o pensamento: imagina Perpétua em cima daquela cama, sobre o fofo colchão de lã de barriguda, embolada com o marido na hora da folgança, espantosa visão! De súbito a raiva desaparece, Tieta começa a rir:

— Se você disser uma coisa, contar a verdade, eu prometo te botar no meu testamento.

Perpétua eleva o rosto, suspeitosa e interessada, cúpida.

— Na hora agá, me diga, tu e o major ficavam no papai-e-mamãe ou faziam sacanagem? Ele gostava de uma boquilha?

Ao pensar na irmã tentando o ipsilone com o marido, Tieta é sacudida por um ataque de riso incontrolável. Quer parar e não consegue, o riso desborda em gargalhada descomunal: enxerga Perpétua agarrada ao badalo do major — bem servido, a julgar pelo filho. Na risada foram-se os cornos, todos eles, os cravados na beira do rio por Maria Imaculada e os outros, dos quais nunca teve conhecimento.

— Respeite os mortos, desgraçada! — Perpétua se levanta feito doida, as mãos gadanhando as cédulas, os olhos esbugalhados fitando o leito, sentindo os cheiros, revendo os gestos.

Ruído de chave na porta, passos leves no corredor. Perpétua trata de compor-se, enfia o dinheiro nos bolsos da saia para que a outra desavergonhada, de volta do pecado — cada noite chega mais tarde —, não fique a par do acontecido. Ao perceber movimento, luz e riso na alcova, Leonora se aproxima:

— Boa noite, dona Perpétua. De que ri tanto, mãezinha?

Mãezinha não consegue deter o frouxo de riso, visão mais cômica! Tendo conseguido apagar dos olhos a figura do major, viril e apaixonado, a despir o pijama de listras amarelas, Perpétua explica:

— A gente estava conversando, as duas. Tieta achou graça numa bobagem que eu disse… — levanta o candeeiro. — Amanhã a gente continua, mana.

Se Tieta pensa ter colocado ponto final no assunto com aqueles contos de réis, ah!, se engana, não conhece a irmã mais velha. Perpétua quer e há de obter papel passado no cartório, firma reconhecida, não faz por menos. Vai saindo mas retorna, rápida, para recolher uma cédula junto ao armário. Deve haver outras. Voltará amanhã, antes de Araci varrer o quarto.

Tieta ainda ri quando Leonora começa, a voz desconsolada:

— Mãezinha, ai, mãezinha! Coitado de Ascânio. O pobre está desesperado…

 

DA ALPARGATA DO CÃO,

LÍNGUA E OLHO DA CIDADE

 

NA BARRA DA MANHÃ, BAFO DE BODE ABRE OS OLHOS

NA SARJETA ONDE A CACHAÇA o derrubara na noite anterior. Sarjeta é força de expressão folhetinesca — adormecera na porta do Cine Tupy, abrigado contra o vento e a chuva. Levantando-se, toma o caminho do Buraco Fundo. Ao atravessar a praça da Matriz, percebe movimento na porta da casa de Terto. Detém-se para identificar o apressado a partir tão cedo quando pode demorar-se, tranqüilo — Terto, o dedicado marido, adora dormir até bem tarde, na rede pendurada no alpendre, o sono pesado e plácido dos bons cabrões, satisfeitos de seu estado (aqueles que assumem, como escreveria um jovem autor moderno).

Ao encontrá-lo andejo em ronda pelas ruas e becos da cidade, em horas tardas, tudo vendo e comentando, Amélia Dantas (atualmente Régis), de apelido Mel, ex-primeira dama do município, classificara o mendigo de alpargata do cão. Segundo Barbozinha, Bafo de Bode é o olho da cidade. O olho do cu, acrescenta Aminthas. Tanta coisa viu, nada mais o espanta. Não pode porém esconder o pasmo ao reconhecer no cidadão metido num velho par de calças de Terto o seminarista Ricardo. Em camisola, pendurada ao pescoço do rapaz, dona Edna se despede num chupão daqueles. As calças de Terto, apertadíssimas, vão-lhe mal, por que o padreco as usa? Trajava batina quando Bafo de Bode o surpreendera acompanhando a meninota, inquilina de Zuleika, para os barrancos do rio. Vestia calção e camisa esporte ao atravessar a proibida porta de Carol, não se haviam passado quatro dias. De batina o avistara ainda na véspera, galgando os degraus da torre para consolar a indócil vitalina. Sem falar… Cala-te boca.

Retomando a marcha, corifeu da cidade, Bafo de Bode revela e aconselha:

— Gentes, vamos pôr o cu no seguro que a Pomba do Divino está solta em Agreste!

 

DA PASTORA E DO BODE NOVO

 

RICARDO CRUZA O JARDIM DA PRAÇA, AS CALÇAS

JUSTAS NÃO LHE PERMITEM CORRER. Bate na porta do fundo, Araci abre, espoca em riso: seu Cardo está tão engraçado, ai que moço mais bonito! Um dia há de reparar nela, se Deus quiser.

Entra, veste a batina, está terminando de arrumar a mala quando sente que alguém o observa, levanta a vista. Nos trajes negros, o terço na mão, Perpétua, preparada para ir à igreja. Ameaçadora, pronta para a acusação e o castigo, no rosto a indignação e a repulsa, os olhos fuzilando, a voz terrível — mas contida para não acordar as duas amaldiçoadas:

— O que é que está fazendo, excomungado?

— Vou tomar a marinete para Esplanada, daqui a pouco.

— Tomar a marinete? Com ordem de quem?

— De ninguém, mãe. Em Esplanada, pego o ônibus para Aracaju, salto na estrada para São Cristóvão.

— O que é que tu está pensando? Não tem mais mãe a quem obedecer? Ficou maior de idade? Trate de guardar suas coisas e ir se deitar. Mais tarde, vai me prestar contas, se prepare.

— Vou passar uns dias com frei Timóteo, no convento. Ele me convidou. Depois que Tieta… que a tia viajar, eu volto.

— Não vai ir para lugar nenhum. Faça o que eu lhe disse.

Sabe que não vai ser obedecida, que nunca mais mandará nele. Irmã mais velha, jamais mandou em Tieta, jamais foi por ela obedecida.

— Já disse, mãe, que vou para São Cristóvão. Não fiquei maior de idade, fiquei homem, não vê? Não tente me impedir, não quero sair fugido. Eu volto, fique descansada.

— Tu nem parece mais meu filho. Tu está igual a ela. Era nossa vergonha: de dia com as cabras, de noite no pecado. Tu quer tomar o lugar dela. Tu não tem medo do castigo de Deus?

Desde a morte do major, sente pela primeira vez vontade de chorar.

— Meu Deus mudou também, mãe, não é mais semelhante ao seu. Meu Deus perdoa, não castiga.

— Mas tu não pode ir embora assim, antes de se acertar tudo. Ela te desviou do bom caminho, te perverteu, pôs minha promessa a perder. Tem de compensar o mal que praticou. Trouxe o pecado para esta casa, te desgraçou, a maldita.

— Não, mãe. Eu era cego, ela me ajudou a enxergar. Não sei se vou ser padre ou não, ainda é cedo para saber. Mas fique certa de que se eu não me ordenar é porque Deus não quis. Quando eu souber, lhe digo. Mas vou continuar a estudar, não tenha medo.

— Tu jura que é mesmo para o convento que tu vai?

— Já lhe disse. Agora, ouça, mãe: a tia foi boa demais comigo. Nunca poderei pagar o que devo a ela.

Toma da mala, sorri para a mãe, sereno e terno:

— A bênção, mãe.

— Ai, meu Deus! — a mártir eleva os olhos para o céu.

Ao voltar-se em direção à saída, Ricardo vê Tieta na porta da alcova, o corpo bem-amado vestido com uma réstia de luz da manhã recente.

— Adeus, tia… Tieta!

— Adeus, Cardo. Pode me chamar de tia. Diga ao frade que estou em Agreste, que vai ser uma briga de foice.

A porta da rua se fecha sobre Ricardo. Sem sequer olhar para a irmã, Tieta reentra no quarto. Pastora de cabras, sente orgulho do sobrinho. Igual a ela, sem tirar nem pôr, Perpétua tem razão. Bode novo, sem peias, livre nos outeiros, de cabeça erguida, herdeiro de sua rebeldia. O que passou, passou, capricho louco, fica a saudade, tanta!

 

DE FATOS E RUMORES, CAPÍTULO ONDE O ÁRABE CHALITA EXPRIME VAGA

ESPERANÇA

OS DEZ DIAS QUE ABALARAM AGRESTE, DEFINIA

 

AMINTHAS, leitor de autores proibidos, parafraseando John Reed, ao se referir àquele breve e tumultuado período. Ele próprio concorrera para o clima de grotesco pesadelo: manobrando invisíveis cordões, esteve por detrás de algumas graves ocorrências. Se bem a responsabilidade maior fosse geralmente atribuída a dona Carmosina.

— Veja só o que você arranjou, Carmosina — acusa o coletor Edmundo Ribeiro, tomando assento numa cadeira, na agência dos Correios. — Todo dia uma novidade, uma briga, um escândalo, um bafafá…

— Quando não são dois ou três. A gente nem acabou de comentar uma encrenca, começa outra. Cada prato de dar gosto… — apóia o árabe Chalita, sentado no batente da porta. — Todo mundo perdeu a cabeça, só quero ver como isso vai terminar.

Dona Carmosina abre mão de qualquer responsabilidade:

— Eu? Quem sou eu? Pelo jeito, vão terminar me acusando de ter inventado a fábrica de dióxido de titânio. A gente estava aqui, bem no seu, em paz.

— Se você não vivesse lendo e espalhando notícias de jornal… — o coletor aponta o jornal mural, agora cobrindo a parede principal da sala.

— …vocês poderiam vender Agreste impunemente…

O tom e a linguagem dos diálogos mudaram. Desapareceram a cordialidade, o bom humor, os ritos de gentileza a fazerem da conversação — divertimento principal da comunidade, gratuito, ao alcance de todos — um requintado prazer. O acento tornou-se áspero, a injúria substituindo a malícia.

— Alto lá! — exclama Edmundo Ribeiro. — Não estou vendendo nada.

— Porque não conseguiu meter o dente no coqueiral, não por falta de vontade. Mas vive apoiando essa corja de venais. Ou pensa que não sabemos?

— Sabem o quê?

— Que assinou na lista de contribuições para a candidatura de Brastânio Trindade…

— Brastânio Trindade! Essa é boa… — ri o árabe. Nada se compara a uma prosa com pessoas inteligentes como dona Carmosina, a danada tem cada saída… — Por falar nisso, o que é que ele foi fazer em Esplanada?

— Ascânio viajou? — Dona Carmosina interessa-se, preocupada: — Quando?

— Hoje. Me disse que volta amanhã.

A marinete de Jairo faz ponto em frente ao cinema, ao lado da casa de Chalita, presença infalível na partida (horário rígido) e na chegada (horário imprevisível) do veículo, controlando os viajantes.

— Que espécie de maroteira terá ido tramar? Disse que regressa amanhã? Então só foi até Esplanada, não dá tempo para ir a Salvador. Ele anda desnorteado. Pensou que a eleição ia ser uma barbada, ficou de crista murcha com o comício.

— Pois eu ainda acho que ele se elege — considera o coletor. — Não nego o prestígio do comandante, mas, sabe como são essas coisas… Ascânio já está na prefeitura e, mais importante de tudo, é homem do coronel Artur… Porque prestígio mesmo, quem tem é o coronel.

— Foi homem do coronel, não é mais. Quem não sabe que o coronel se desligou da candidatura do doutor Dióxido?

— Doutor Dióxido, essa é demais… — contorce-se Chalita.

— Me diga uma coisa, seu Edmundo: foi por generosidade que Modesto Pires abriu a tal lista de contribuições, essa que o senhor assinou? Ou foi depois que o candidato de vocês voltou da Tapitanga, com o rabo entre as pernas e as mãos abanando? Sabe o que o coronel respondeu quando ele pediu dinheiro para a campanha? Que recorresse à Brastânio. Não venha me dizer que não soube.

— Soube, sim, Carmosina. Mas atualmente se fala tanta coisa, a gente não pode sair acreditando assim sem mais nem menos. É bem capaz que o coronel tenha negado ajuda a Ascânio, o velho está broco, cada vez mais canguinha. Mas também é verdade que não disse a ninguém para não votar em Ascânio. Estou mentindo? Se estou, me desminta.

— Aos que têm ido lá saber, o coronel Artur diz que cada um vote em quem quiser, de acordo com sua consciência. De broco, ele não tem nada e não foi por avareza que não atendeu ao pedido de dinheiro. Eu lhe digo mais: o coronel só não sai apoiando de frente a candidatura do comandante porque tem pena do afilhado. Mas pergunte a Vadeco Rosa o que foi que ouviu na Tapitanga, e não esqueça que Vadeco é vereador e tem um bocado de votos em Rocinha. Ele mesmo me contou. Foi pedir instruções, o coronel lhe disse para apoiar quem quisesse e bem entendesse, não tinha ordens a dar nem candidato a prefeito, estava retirado da política.

— Ainda assim, o pessoal de Rocinha come pela mão de Ascânio, a começar por Vadeco.

— Comia, a coisa está mudando. Depois de conversar com Tieta, Vadeco ficou muito abalado. Em Rocinha estavam pensando que Ascânio, depois de eleito, ia comprar as terras do município a peso de ouro. Quando viram que ele só pretende desapropriar os terrenos do coqueiral, ficaram danados. O senhor sabe que Tieta está indo de casa em casa? Para a semana, vamos fazer um comício em Rocinha, ela vai falar.

— Não tem dúvida… — reconhece o coletor. — Dona Antonieta é um grande trunfo, é só quem faz medo. O comandante, a gente vê, saiu candidato a contragosto, por imposição, e eu sei de quem…

Continuar: parte 4 de 4