Um aprendiz de ciência

Carlos Chagas Filho · Capítulo 1 de 15

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Um aprendiz de ciência

A significação deste livro

 

Josué Montello

Ao denominar a si mesmo um aprendiz de ciência, no título deste seu livro, Carlos Chagas Filho segue a boa tradição segundo a qual o autor de uma obra autobiográfica, no enunciado de seu título, deve realçar os próprios méritos com um traço de modéstia, já que é ele, no texto evocativo, a personagem central.

Um dos grandes mestres do período clássico português, dom Francisco Manoel de Melo, associou a condição de aprendiz à nobreza lusitana, e daí a peça que, no entender de outro mestre, Teófilo Braga, teria inspirado, em parte, o teatro de Molière: O fidalgo aprendiz.

O aprendiz, no caso de Carlos Chagas Filho, teria, assim, uma conotação superior, própria da condição humana, se não estivesse associado, no campo específico, à própria condição de todos aqueles que, por força da vocação e da aplicação especializada, souberam ajustar o pendor pessoal ao tirocínio da própria vida.

Diz-nos o velho Domingos Vieira, no seu copioso Tesouro da língua portuguesa, que, na corte de dom João IV, para ser elevado à condição de fidalgo aprendiz, era preciso saber "danças e bailados novos, como a galharda e a pavanada".

Nosso Carlos Chagas Filho, se buscou na condição de aprendiz de ciência o abrigo de sua própria natureza, acertou na expressão adequada, ao reconhecer que a ciência, como domínio do saber especializado, implica necessariamente a preparação gradativa, de que emerge, com a plenitude do saber, o cientista completo, seguindo o caminho que o levaria à glória dos nomes internacionais. Que outros se contentassem com o saber individual, no campo restrito das experiências pessoais.

Carlos Chagas Filho, mais do que o cientista que se limita ao renome restrito, cioso de seu próprio saber, fechado em si mesmo, fez-se o mestre de gerações sucessivas, e com isto continua a preparar, à revelia da idade e das limitações que o tempo impõe a todos nós, outros cientistas, outros mestres, com o mesmo empenho. Direi mesmo: com idêntica devoção.

Quem consulta o Anuário da Academia Brasileira, relativo ao período compreendido entre 1993 e 1997, pode constatar esta evidência: aos seis livros publicados por Carlos Chagas Filho, entre 1973 e 1989, correspondem as vinte e três publicações que vieram a lume sob os cuidados de seu estímulo e a responsabilidade de seu renome internacional.

A mais recente dessas publicações, Science for Development in a Solidarity Framework, sob a chancela da Academia Pontifícia de Ciência, então presidida por nosso patrício, em Roma, diz bem de seu desempenho no plano político superior.

Mais do que um puro homem de ciência, no campo de suas especialidades, é ele, hoje, com o seu saber, com as suas glórias, com a sua devoção às grandes causas do mundo contemporâneo, um benemérito da humanidade.

Certa vez, em Paris, convidado para assistir a uma de suas conferências, fui ao endereço indicado, no cair da tarde. Realizava-se ali, em sala próxima, outra conferência, e havia uma multidão que enchia os corredores, estendendo-se para outras dependências do prédio.

Pensei, de mim para mim, que se tratava dos audientes do outro conferencista, enquanto ia pedindo licença, degrau a degrau, para tentar alcançar o local em que ouviria Carlos Chagas Filho. E tive esta surpresa confortadora: toda aquela multidão estava ali, não para ouvir o outro orador, e sim atraída por nosso patrício.

Senhor da língua alheia, e mestre de sua ciência, Carlos Chagas Filho estava ali como estaria no Rio de Janeiro, ou em São Paulo, ou em outro ponto de sua pátria, com o mesmo saber, a mesma fluência, a mesma visão objetiva da ciência contemporânea, dando a nós, seus patrícios e seus admiradores, a oportunidade de nos orgulharmos dele, mais uma vez, como testemunhas de sua glória.

Apresentado por Maurice Druon, em Paris, na Academia Francesa, a Louis de Broglie, ouvi do famoso criador da mecânica ondulatória as mais altas referências a Carlos Chagas Filho, nosso antigo embaixador junto à Unesco. Bem mais tarde, quando me coube ser um de seus sucessores no mesmo posto, recolhi, com o meu orgulho de brasileiro, e de seu confrade na Casa de Machado de Assis, as mais desvanecedoras alusões ao seu saber e ao seu prestígio, como um dos líderes da instituição, enquanto representou ali o nosso país. Não foi apenas um diplomata, com seu tato e sua experiência, na sucessão, ali, de outro mestre: Paulo Carneiro. Foi ele próprio indi vidualizado por sua personalidade inconfundível.

O duque de Broglie, num de seus últimos livros, Certitudes et incertitudes de la science, em 5 de julho de 1963, em Paris, teve a oportunidade de reconhecer, com a claridade de seu saber e de suas experiências, que as aplicações da ciência contemporânea iriam proporcionar a todas as sociedades humanas as iniciativas mais importantes, correspondentes a dois séculos de conquistas aceleradas. E acrescentamos: a que ele próprio, com seu saber e a sua imaginação, iria associar as conquistas que o levariam ao Prêmio Nobel.

E é ainda o mesmo duque de Broglie, no prefacio ao livro de um mestre do jornalismo em língua francesa, Luc Durtain, Les grands figures de la science française, quem reconhece que "evocar as grandes figuras dos grandes sábios é um dos modos mais vivos e mais ajustados à realidade histórica para que sigamos, ao longo das idades sucessivas, o progresso das ciências".

Carlos Chagas Filho, ajustando-se pessoalmente à compreensão da ciência contemporânea, legou-nos duas obras imperecíveis: primeiro aquela em que recompôs o itinerário científico de Carlos Chagas, seu pai, a quem deveu, além da própria vida, o exemplo supremo que fez de seu filho uma das figuras patrimoniais da ciência brasileira, e agora, como remate provisório (porque há de ter continuação), a lição suprema de suas próprias experiências, ao longo de toda uma vida benemérita, reunidas neste volume.

Mais do que um livro evocativo, Um aprendiz de ciência, na obra de Carlos Chagas Filho, é bem uma síntese autobiográfica, com a qual, à maneira de Jean-Jacques Rousseau, no prefacio de Les confessions, irá comparecer diante de Deus, daqui a muitos anos.