Um aprendiz de ciência

Carlos Chagas Filho · Capítulo 6 de 15

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Um aprendiz de ciência

III - Aprendiz de ciência

 

Chegado ao Rio, retomei uma parte da rotina que deixara. Substituí o basquetebol pelo "frontão" — pelota basca — no campo da rua Visconde de Rio Branco, onde conheci personalidades diferentes. Eram os pelotários profissionais. Tinham uma concepção de vida muito diversa da grande maioria das pessoas com quem até então eu convivera. Uns eram useiros e vezeiros em trapacear, outros corriam atras da pelota com toda a seriedade e eram insuscetíveis às trapalhices vantajosas que lhes eram oferecidas pelos aficionados do jogo. Dois deles tornaram-se meus amigos: Ramuntcho e Taccolo, ambos bascos. Várias vezes — seja com Emmanuel Dias, seja no automóvel que meu irmão me emprestava —, após uma passada rápida no mercado da Praça Quinze, onde comprávamos peixe, íamos para a Barra da Tijuca. Lá, qualquer um dos dois preparava o peixe na grelha e temperava à moda das terras de Espanha. Um dia, procuraram-me no hospital. Iam embarcar para Xangai, paraíso dos pelotários, com um substancial contrato no bolso. Graciosamente, convidaram-me a ir com eles.

A grande atração profissional no Rio era o Pavilhão de Doenças Tropicais. Cheio de vida, pairava entre os que o freqüentavam um entendimento que poucos grupamentos médico-sociais terão tido. De lá, de acordo com a combinação feita com meu pai, seguia para Manguinhos a fim de iniciar a minha formação científica em matérias básicas. Muitas vezes, quando não havia autópsia, eu gazeteava a enfermaria para ver se alcançava, na Leopoldina, o chamado "trem das professoras", em que "iam todas sedutoras para a escola trabalhar", como cantam Benedito Lacerda e Cristóvão de Alencar numa canção divulgada pela voz de Sílvio Caldas.

Levava comigo para o laboratório o longo aprendizado adquirido nas mesas de autópsias e a minha admiração pelos que ali me haviam ensinado: Osvino Pena, provavelmente o mais brilhante dos patologistas brasileiros, Magarinos Torres, um operário de seu trabalho científico, Burle de Figueiredo, sempre preciso, ainda que pouco detalhista, e Azevedo Penna, o mais moço e com o qual, por esta mesma razão, tinha mais intimidade e mais facilidade em solicitar-lhe informações, mesmo que banais.

Deixando a anatomia patológica, sem me esquecer da necessidade de ligar função e forma, fui estagiar em Manguinhos no laboratório de José da Costa Cruz, cientista com vestígios de sua formação secundária ecoando na simpática prosódia portuguesa adquirida no seu curso de humanidades, feito em Lisboa. Paraense e lisboeta, tomara-se um carioca típico. Costa Cruz era personalidade do mais alto valor, do que dá testemunho a confidencia feita, muitos anos mais tarde, pelo belga Jules Bordet, nobelista de fama pelos seus trabalhos sobre imunologia, que me disse ter sido ele o melhor dos alunos que haviam passado pelos seus laboratórios. Ante a minha perplexidade, continuou: "Neste número estão incluídos todos os estrangeiros, e, ainda, os meus compatriotas." Costa Cruz trabalhava numa metade do pequeno edifício do relógio, que hoje abriga a Casa de Oswaldo Cruz, cuja outra metade fora destinada ao Serviço da Peste, onde trabalhava Henrique de Aragão. Seu laboratório, destacado centro da microbiologia no Brasil, era relativamente pequeno. A presença de seu chefe, de um ou mais estagiários, e a minha, tornavam-no uma colméia pequena para as suas abelhas, todas dominadas pelo carisma de Costa Cruz. Muito cordial, procurava, nas horas vagas, entreter-se comigo discutindo problemas variados que iam da filosofia, em que eu era muito pouco valoroso, até religião, passando pelos temas que começavam a preocupar o mundo intelectual e a sociedade: o freudismo, difundido no Brasil pela obra de Porto-Carrero e pelos artigos admiráveis de Medeiros de Albuquerque, e o marxismo, ainda enquistado em certos núcleos que formavam as células iniciais do futuro partido. Provavelmente, pela minha formação "centrista", em que os valores clássicos da sociedade brasileira eram prestigiados, nunca me aproximei do comunismo, malgrado a profunda admiração que partilhava com os jovens da minha geração, por Luiz Carlos Prestes, que, com a sua "coluna da liberdade", atravessou o Brasil de cabo a rabo, lutando pelos oprimidos e enfrentando o "oficialismo". Também estabeleceu-se, entre mim e o freudismo, uma certa hesitação, que persistiu por muito tempo. E que, na ocasião, já havia eu obtido boa informação dos mecanismos que regulam a atividade do sistema nervoso central e não compreendia como as hipóteses freudianas podem se coadunar com os progressos da biologia moderna. Pouco a pouco, começam a se estabelecer laços cientificamente significativos entre o corpo e a mente, o que já era intenção de Sigmund Freud, como podemos ver seja no Projeto para uma psicologia científica (1895), seja em O ego e o id (1923), quando ele fala "do misterioso salto do corpo à mente".

Costa Cruz também gostava de discutir literatura e, naturalmente, o seu forte eram os mestres portugueses. Nas discussões, permitia-me opor a minha ignorância ao seu conhecimento, sem se irritar ou me deixar em situações ridículas. Nossas controvérsias continuavam, freqüentemente, no café-restaurante Heim, na rua da Assembléia. No fim de alguns meses, ele me havia ensinado as técnicas habituais da microbiologia, a formação de colônias, a separação de gêneros pelo aspecto de suas colônias, e as várias técnicas de fermentação que permitem identificar espécies. Tínhamos um relacionamento extremamente agradável, do que dá prova o fato de que, alguns anos depois, quando se desenvolviam as técnicas modernas da biologia do pós-guerra, no Instituto de Biofísica, pediu-me que o acolhesse na Praia Vermelha, o que fiz com o maior prazer. Ocupava-se, então, da cristalização de proteínas biológicas, começando pelo bacteriófàgo. Infelizmente, a sua colaboração durou pouco tempo porque, rapidamente, uma apendicite aguda o levou.

O meu afastamento da microbiologia foi orientado pelo próprio Costa Cruz, que um dia me chamou ao seu gabinete e me disse que, naquele momento, a microbiologia era uma ciência quase esgotada e que só poderia sobreviver quando a ela fossem aplicados os métodos que a biologia começava a absorver da física e da química. Falou-me da necessidade de encontrar sistemas que permitissem uma observação mais profunda da morfologia das bactérias. Esse sentimento, dizia ele, nascia da frustração que tinha em não poder identificar o bacteriófago, embora sabendo da sua existência. Costa Cruz foi um dos primeiros pesquisadores, fora do círculo limitado do Instituto Pasteur, que admitiram a existência do vírus descrito por d'Hérelle, cujas características e ação antibactericida eram dele bem conhecidas. Esses estudos levaram-no a pesquisar, com cuidado, as propriedades gerais dos vírus através do bacteriófago. O seu tratamento do assunto era atraente. Uma vez levei Enrico Fermi ao laboratório de bacteriófagos, visita durante a qual — estamos em 1935 — Costa Cruz fez a Fermi uma exposição sobre as propriedades do vírus e, particularmente, do bacteriófago. Essa exposição modificou completamente o programa de visita de Fermi ao Instituto Oswaldo Cruz, em vista do tempo durante o qual os dois cientistas conversaram. Fermi tinha um compromisso para realizar uma conferência na Academia Brasileira de Letras e, era óbvio, iríamos chegar atrasados àquela reunião, muito mais mundana do que científica. Enrico Fermi olhou as horas marcadas no topo do edifício do qual saíamos e disse-me, um pouco preocupado: "Você há de me desculpar a perturbação do horário prefixado. E que os vírus são, por certo, alguns dos sistemas de maior interesse que se encontram na natureza. Se eu tivesse que começar de novo, certamente iria me dedicar ao seu estudo." Tais palavras indicam a extraordinária visão de um cientista que já havia, na ocasião, produzido a desaceleração dos nêutrons, a contribuição decisiva que, nas mãos de outros, permitiu a eclosão do engenho nuclear.

Repensando as palavras de Costa Cruz, resolvi deixar o laboratório de microbiologia e procurei estagiar no laboratório de Miguel Ozorio de Almeida, cuja excelência experimental só era superada pelos seus conhecimentos de matemática, física e química. Dedicava-se ele ao estudo do sistema nervoso central, à relação entre superfície tegumentária do tônus muscular e à crioepilepsia.

Ao contrário de Costa Cruz, Miguel Ozorio era esguio, alto, marcado o seu rosto muito menos pela barba, que sempre usou, do que pela vivacidade do seu límpido olhar azul-claro. Convidado por Chagas, viera para Manguinhos, deixando, assim, o laboratório particular que dividira, inicialmente, na rua Almirante Tamandaré e, depois, na rua Machado de Assis, com seu irmão Álvaro Ozorio. Esse laboratório, que foi criado e subsidiado por Cândido Gaffré, sucede, na lista de laboratórios de fisiologia, àquele que, meio século antes, Louis Couty, preparador no Colégio de França, e João Batista Lacerda, haviam fundado no Museu Nacional.

O laboratório da rua Machado de Assis, que eu tive a oportunidade de freqüentar já no seu ocaso, era um centro de vivência científica e intelectual. Entre outros freqüentadores, Amoroso Costa, Fernando Laboriau, Paulo Galvão, Antônio Silva Mello, Otávio Couto e Silva e Branca Fialho participavam das tertúlias nas quais os mais variados problemas científicos, sociais e muitas vezes históricos eram discutidos. Ali surgiu o trabalho de Álvaro Ozorio A determinação do metabolismo básico no homem tropical, importante sob dois aspectos: o primeiro diz respeito à íntirna relação de um ser humano com o seu ambiente, relação essa na qual procurou-se determinar as leis físicas que regulam a transmissão do calor de um corpo qualquer ao meio que o circunda. O segundo é o da criação de um conceito fundamental para o nosso país: o emprego de modelos nacionais estudados pelas técnicas as mais avançadas, o que, de um modo geral, significam técnicas internacionais. Esse conceito define e determina o que se deve chamar "a ciência nacional". Isto não significa nenhum tipo de xenofobismo ou de estreito nacionalismo, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento natural e social de nosso país.

Foi observando o cuidado com que Miguel preparava o seu arranjo experimental e a atenção com que acompanhava o desenvolver de uma experiência que cheguei à conclusão de que podemos distinguir, na investigação científica, duas fases de igual importância. A primeira é o arranjo experimental que, na sua simplicidade — o que torna mais fácil a execução da experiência —, determina o seu aspecto estético. A segunda é o cuidado a dar aos mínimos detalhes, o que garante a qualidade da mesma e a sua reprodutibilidade. E a reunião dessas duas características que torna perene qualquer experimentação.

Miguel Ozorio chegava ao laboratório no seu automóvel e, no seu invulgar desejo de precisão, dava-nos conta do tempo que havia levado de sua casa, na estrada do Açude, Alto da Boa Vista, até Manguinhos. Procurava todos os dias melhorar a sua performance, o que também fazia nas suas experiências quotidianas. Nestas, a perfeição, a elegância e a economia dos gestos provocavam sempre a minha admiração. Lembrando-me delas com freqüência, penso num pequeno ensaio de Paul Valéry que descreve, na beirada do Sena, a perfeição com que um decaído encadernador de livros preparava os que lhe haviam sido entregues. Nem um gesto a mais. Nem um ornamento que desse assimetria à cobertura do volume, tampouco a menor sombra de desordem na reposição do material usado. Mais tarde, vim a encontrar no ateliê de Cândido Portinari e, depois, no de Glauco Rodrigues, a mesma limpeza e a mesma ordem que Valéry presenciara na pequena oficina das bordas do Sena. O ensaio de Valéry fez-me estabelecer uma distinção na realização experimental. De um lado, a precisão; do outro, a elegância. Foi ainda naquele laboratório que tive a oportunidade de conhecer, conviver e tornar-me amigo de Mário Viana Dias e Haiti Moussatché.

Alguns meses depois, um pequeno episódio arrefeceu o meu entusiasmo por Miguel Ozorio, arrefecimento que durou muito pouco tempo. Miguel dera-me para ler e comentar um artigo seu sobre a teoria elétrica da excitação dos nervos. O artigo era muito mais matemático do que físico e eu o deveria ter recusado, dada a minha incompetência. Aceitei, no entanto. Li-o com o maior cuidado e, no fim de algum tempo, levei-o de volta e tive a coragem de indicar o que pensei serem erros. Miguel nada disse e agradeceu-me o interesse. Alguns dias depois, íamos para a cidade — Miguel Ozorio, Carneiro Felippe e eu, no Ford que Miguel apelidara de "Nêutron" —, quando, sentado no fundo, ouvi Miguel quase sussurrar a Felippe: "Você sabe, eu sou um indivíduo muito liberal. Entreguei um artigo meu ao Carlinhos para que ele fizesse os comentários e ele encontrou vários erros, que na verdade não o eram. Eu não me incomodei nada com isto e não mudei meu relacionamento com ele." Esse episódio me fez procurar um outro orientador, mas, ao mesmo tempo, foi para mim uma lição modelar: a de discutir com os meus companheiros mais moços os erros que eu cometera. Não me era fácil deixar a companhia de Miguel Ozorio, que muito me atraía, e não sabia como resolver o impasse. A solução veio do próprio Miguel Ozorio, que, disposto a fazer uma longa viagem pela Europa, aconselhou-me a trabalhar, na sua ausência, com Carneiro Felippe.

José Carneiro Felippe era, por assim dizer, um recém-chegado a Manguinhos. É que meu pai desejava estender a ação do instituto à fisiologia e à físico-química. Para a fisiologia, escolheu Miguel Ozorio de Almeida. Para a físico-química, a escolha recaiu sobre Carneiro Felippe, uma das pessoas de maior conhecimento científico e cultural que conheci. Surgiu a escolha de Felippe de uma viagem de Chagas a Belo Horizonte, onde o encontrou à frente do laboratório de análises físicas e químicas que organizara naquele estado. Depois de várias entrevistas, Chagas convenceu o ilustre governador de Minas Gerais, Raul Soares, a abrir mão do seu auxiliar, pois o laboratório já estava organizado e em pleno funcionamento rotineiro. Carneiro Felippe, que tinha grande interesse por questões biológicas, aceitou o convite. Fora ele aluno laureado da Escola de Minas de Ouro Preto e, após a graduação, voltara para sua cidade natal, São João del Rei, ocupando-se da extração e venda de minérios. Ao mesmo tempo, seu interesse pelo progresso científico e sua formação básica na escola fundada por Gorceix permitiam-lhe acompanhar os grandes progressos da física e da mineralogia, realizados no primeiro quartel do século XX. Sua aparência frágil era acompanhada de um constante pigarro, conseqüência, certamente, de ser fumante inveterado e, muitas vezes, de cigarros de marca comercial. Freqüentemente, no entanto, preparava-os com suas próprias mãos, usando fumo forte enrolado em folha de palha, numa constância igual apenas àquela com que ingeria café, fortíssimo, permanentemente requentado em bule disposto sobre um bico de Bunsen. Carneiro Felippe era de uma simplicidade só comparável à sua capacidade intelectual. Foi ele quem completou a minha preparação científica: ensinou-me a manejar microscópios complexos, instrumentos de determinação do índice de refração, as técnicas habituais de dosagem química, inclusive a determinação elementar dos componentes de uma substância, e, mais do que tudo, iniciou-me no método quantitativo e na análise estatística dos resultados experimentais obtidos. Tentou, ainda, introduzir-me no que, para mim, era um misterioso mundo: o da epistemologia. Muitas vezes passei os fins de semana em Manguinhos na sua companhia. Dormíamos nos quartos adrede construídos por Oswaldo Cruz , no terraço do edifício central, para que os pesquisadores da instituição nela pudessem pernoitar. Esgotado pela fadiga do dia, embalavam-me os ruídos do silêncio que conhecera nas noites do sertão e que também povoam os espaços vazios dos grandes edifícios. Seriam, provavelmente, a contração ou a dilatação de paredes e de portas, mas tinham um tom misterioso, que me servia de acalanto. Aos domingos, à tarde, quando a estrela-d'alva apenas despontava, tomávamos a pé o caminho da estação. Nunca deixei de me assombrar com a maneira precisa com que Carneiro Felippe identificava uma planta ou um arbusto durante a caminhada. Apontando-me o céu, informava-me das características das várias estrelas, cujo brilho já vencia o lusco-fusco do entardecer, da sua posição dentro de uma constelação e, muitas vezes, de sua proximidade da Terra. De vez em quando parava, perguntando-me se eu conhecia tal ou qual poeta clássico. Antes que pudesse responder, repetia-me, na sua voz clara e na sua dicção mineira, um soneto ou uma ode da poética portuguesa ou brasileira. Parecia-me estar na presença de um grande vulto da Renascença. Entre nós estabeleceu-se uma relação de mestre e aluno como as que existiam outrora. Depois de passar com ele o dia em Manguinhos, bem tarde da noite, às vezes depois do cinema ou do basquetebol, ia eu à casa de Carneiro Felippe, na rua Visconde de Caravelas, onde nos entretínhamos discutindo ciência. Subia diretamente para a sua biblioteca e ali começavam os seus ensinamentos, que iam até o sol raiar. Foi assim que, utilizando um método preponderantemente histórico, ensinou-me o mestre a teoria dos quanta, a história da radioatividade e os princípios básicos que caracterizam as radiações corpusculares ou ondulatórias, os princípios da física atômica, os rudimentos da teoria da relatividade. Um dia perguntou-me como eu definiria a ciência. Disse-lhe que, para mim, a ciência era a busca do conhecimento por métodos particulares que caracterizam cada disciplina científica. Ponderou-me, nessa ocasião, que o homem primitivo também seria um cientista, ao que respondi positivamente, mas que a ciência só se desenvolveu quando instrumentos materiais ou convencionais, como no caso da psicanálise, foram se aperfeiçoando. Acordei com Felippe o conceito de que a ciência é uma parte da filosofia, aquela que cuida do meio em que vive o homem, das relações entre os seres vivos e da sua evolução. Por ser, na verdade, uma emanação através do consciente de intuições do inconsciente e da alma do ser humano, a ciência, por isso mesmo, se conjuga, no quadro das realizações humanas, com a arte e todos os momentos de criatividade.

A convivência com Carneiro Felippe ensinou-me, também, que o cientista deve ser um homem de um só objetivo, o conhecimento, mas que não pode, de modo algum, deixar que esta busca, bem como a linha que a ele leva, se despregue de fatos, ocorrências e informações, os quais muitas vezes se situam longe da linha-mestra. O pesquisador que assim proceder não passará de um simples pantomimeiro e nada dará de contribuição verdadeira a essa extraordinária realização do espírito humano que é a ciência. Desse modo, Carneiro Felippe, ao me dar as bases de um conhecimento técnico que me permitiram até mesmo a realização extremamente complexa de um aparelho de medição de pH, medição essa hoje tão simplificada que pode ser manejada pelo menor dos principiantes, mostrou-me a importância do encontro da ciência com as outras atividades do espírito humano. Não é demasiado afirmar que, ao lado de meu pai, foi Carneiro Felippe quem me indicou as veredas da pesquisa científica.

Minha vida era preenchida por intensa agitação, pois, além das atividades de formação médica, no Hospital São Francisco de Assis, e de iniciação científica, em Manguinhos, o basquete e a pelota basca, entre outros esportes, serviam ao desenvolvimento do meu corpo. Além do mais, havia a parte cultural. E dessa época a leitura de dois livros muito diversos, mas de fundamental importância na minha formação: Jean Christophe, de Romain Rolland, que me mostrou o que mais tarde Bernanos fortaleceu, isto é, a imperiosa necessidade de não aceitar tabus e prepotência. O outro, contraface dessa medalha, Em busca do tempo perdido, de Proust, principalmente na descrição do que se passava nos salões dos "Guermantes", ensinou-me a procurar sempre colocar as pessoas nas dimensões do seu próprio mundo, e quebrou discriminações, ensinando-me o respeito a comportamentos muitas vezes rechaçados. Estava longe da Mme. de Ségur e de Jules Verne. Os novos autores levaram-me ao caminho de Mauriac, Green, Rosamund Léman, Maurice Baring, Thomas Mann, Hermann Hesse, e aos escritores americanos que formam o ciclo de ouro do pós-guerra de 1914-1918.

O mundo da música invadiu-me sob vários aspectos. Pequeno, ouvira minha avó Maria Lobo tocar no violão os clássicos da música erudita. Era uma brava violonista. Minha desabrida paixão pelos grandes vultos da Revolução Francesa forçava-me, cada vez que ela se dispunha a tocar violão, a pedir que encerrasse seu recital enchendo o salão com os vibrantes acordes da Marselhesa. E mais: completava meu prazer ouvir meu irmão que, além de vários instrumentos, também tocava violão e, com voz afinada, cantava toadas sertanejas. As minhas alegrias musicais eram exaltadas, mais ainda, pela minha participação, na qualidade de comparsa, nas óperas levadas à cena no Teatro Municipal. As temporadas eram fabulosas. Os grandes cantores operísticos de passagem pelo Rio demoravam-se, ora na ida, ora na vinda do Teatro Colón, de Buenos Aires. Entre as óperas inesquecíveis cito A Traviata, de Verdi, com Claudia Muzio e Miguel Fleta, de cujas árias mais importantes lembro-me até hoje e tento cantarolar. Quando se montou um excepcional espetáculo em comemoração à posse de Washington Luís como presidente da República, um dos trechos escolhidos foi aquele em que a Traviata recebe a sociedade parisiense. Nele se celebra a alegria com a famosa estrofe que começa com o verso "libiame nei aliete calice che la belleza infiora". Enverguei, para o meu encanto, um uniforme de mordomo para servir champanhe aos convidados da Dama das Camélias. Pude, assim, estar perto dos grandes artistas que transformaram aquele evento numa noite extraordinária e única para mim. E que eu já me havia esquecido do medo com que, aos sete anos de idade, assistira, levado por meu avô Fernando Lobo, ao Mefistófeles, e as dificuldades que encontrara em Wagner se haviam esmaecido.

Nas várias oportunidades que tive de ir ao Municipal, assisti, ainda, a Carmen, de Bizet, com Gabriella Besanzoni Lage, cuja voz, de tão forte, fazia estremecer os cristais que adornavam o palco, e a L'elisir d'amore, cantado por Tito Schipa, além das óperas em que eu entrava de penetra ou, então, misturava-me ao coro. Certa vez, por estar minha mãe doente, fui com meu pai a uma temporada wagneriana. Ouvir todo o O anel dos Nibelungos, de Wagner, foi difícil, mas certamente constituiu uma das sementes da minha posição anti-hitleriana, a qual me levou, logo depois do golpe de Munique, a uma rixa num pequeno bar da rua da Lapa, O Túnel, conflito iniciado pelo próprio dono do estabelecimento, um alemão de vastas proporções, ofendido por ter eu cantado, com voz forte, uma canção anti-hitleriana, na qual dizia-se que em Berlim estavam os loucos: "Nach Berlin wo die verükten sind".

Ao lado das óperas, era assíduo aos concertos. No Municipal, assisti aos maiores musicistas da época, sendo Brailowsky o meu favorito. Nunca me esqueci da primeira vez em que o ouvi tocar a Appassionata.

O teatro de comédias era menos procurado por mim. Nele dominava a presença de Leopoldo Fróes, mais tarde seguido por Procópio Ferreira. Fróes, com a sua prosódia portuguesa, era um artista admirável: simples nos gestos, forte na expressão e muito insinuativo na entonação. Em companhia de colegas, ia ao que hoje chamam de "musicais", no Teatro Recreio: um misto de comédia musical e muito de chanchada. A recordação mais viva que guardo daqueles momentos vem de ter assistido à estréia de Sílvio Caldas, ali cantando a bela canção Formosa.

Os grandes sucessos anuais eram a vinda de Chabi Pinheiro — que lotava o enorme Teatro Lírico pela presença maciça da colônia portuguesa, ainda extremamente numerosa e rica na cidade —, ou de uma trupe francesa, às vezes de teatro leve, outras de comédia dramática. Esta última teve, durante a Segunda Guerra, uma revivescência com os espetáculos de Louis Jouvet e Madeleine Ozeray e, nos anos cinqüenta, pelas várias turnês da companhia de Jean-Louis Barrault e Madeleine Renauld. Estes tornaram conhecida do público brasileiro a poesia de Paul Claudel, que aqui viveu como ministro plenipotenciário da França nos últimos anos da guerra de 1914-1918.

Assinalo, ainda, pela influência que exerceram em mim, os sucessivos espetáculos de Berta Singerman. Declamadora de excepcional qualidade, também lotava o Teatro Lírico. Levou-me a apreciar a arte declamatória genuína e a me entusiasmar por certos poetas de língua espanhola, alguns latino-americanos, como Ruben Dario e Amado Nervo, cujos versos sabia de cor. Um dos poemas de Amado Nervo, "Cobardia", é uma bela lição de desprendimento, assim como "Los caballos de los conquistadores", de Dario, o maior épico da conquista da América Latina pelos aventureiros espanhóis. A admiração que tenho por esse poema não perturbou a posição anticolonizadora que tem sido a minha. Continua ela a mesma, pautada, entretanto, por certos conceitos fundamentais, entre os quais o de que uma nação que não sabe impedir um sistema de colonização, qualquer que ele seja, não merece ser uma nação.

Minhas atividades culturais não me afastaram, por um momento sequer, do meu desejo de apreender o que pudesse no meu estágio de formação, em Manguinhos. No laboratório de Carneiro Felippe encontrava-me constantemente com outros cientistas do instituto que iam procurá-lo para discutir hipóteses e resultados. Sem participar diretamente desses colóquios, a eles assistia como ouvinte. Muitas vezes Carneiro Felippe vinha rediscutir comigo os assuntos debatidos, certamente com o objetivo de dar oportunidade ao desenvolvimento do meu pensamento. Entre os interlocutores mais freqüentes de Carneiro Felippe encontravam-se Alcides Godoy e Astrogildo Machado.

Godoy tinha trabalhado em vários assuntos, mas naquele momento interessava-se, principalmente, pelo desenvolvimento da microscopia óptica, que, admitia ele, podia se desenvolver com novas tecnologias. Godoy tinha tido uma formação invejável porque, logo no princípio de sua carreira, fora enviado por Oswaldo Cruz para um longo estágio no Instituto de Físico-Química criado por Wilhelm Ostwald, em Leipzig. Com sólido apoio do governo imperial alemão, Ostwald, em conjunto com, entre outros, os eminentes cientistas Jacobus van't Hoff e Svante Arrherius, dera origem a algumas das principais raízes da físico-química moderna. Alcides Godoy era extremamente brilhante, e a tal ponto que, muitas vezes, era difícil acompanhá-lo. Seu pensamento corria mais depressa do que o lápis ou o giz com que desenhava um esquema no papel ou, em seus cursos, no quadro-negro. Tinha uma perfeita noção da separação entre a ciência básica e a aplicada, mas considerava que o interfluxo entre elas deveria ser constante. Astrogildo Machado, ao contrário do ser ebuliente que era Godoy, caracterizava-se como um indivíduo calmo e extremamente cuidadoso na evolução do seu pensamento. Pesquisador de talento, era muito ligado à aplicação dos conhecimentos adquiridos, mas não em sua busca para a utilização na prática. Vê-lo pesar ou preparar uma solução era um espetáculo, tal a precisão com que o fazia. Godoy e Machado foram os autores da vacina contra o carbúnculo sintomático, e Godoy, aquele que, precedentemente, havia criado a vacina contra a peste da manqueira.

Nesse período, resolvi me inscrever no curso de aplicação do Instituto de Manguinhos. Curso excelente, ainda que moroso. Era lecionado pelas principais figuras do Instituto Oswaldo Cruz. E, se havia disciplinas mais concentradas, outras, pela sua própria natureza, eram lecionadas em tempo mais extenso. E o caso da bacteriologia, na qual tive como professor João Carlos Nogueira Penido. A preparação era muito segura porque semeávamos os vários microorganismos em um dia, esperávamos o seu crescimento vinte e quatro horas depois e aí começavam as reações químicas, principalmente de fermentação, necessárias à sua identificação. Penido tinha acompanhado algumas das missões de Manguinhos ao interior do país, o que o tornava um excelente companheiro para o aperitivo, que tantos de nós tomávamos ao voltarmos do instituto. Encantavanos com a série de estórias que tinha acumulado nessas excursões.

De todas as disciplinas, a microscopia foi a mais difícil para mim, ministrada por Godoy com grande precisão e, às vezes, como eu pensava, com teoria. Foi durante o curso que conheci um dos grupos mais fortes do instituto: o da zoologia médica, em que ponteavam Cesar Pinto, excelente didata, e o entomólogo Ângelo Moreira da Costa Lima, figura singular das ciências brasileiras. A seriedade de sua atitude professoral era trocada, no laboratório, por uma deliciosa bonomia em que se misturavam informações preciosas sobre a biologia dos insetos. Extremamente simpático, nunca se estabeleceu, entre nós, qualquer obstáculo que pudesse ter nascido da diferença de idades ou da minha posição, muitas vezes difícil, de filho do diretor.

Outro professor excepcional pelo seu conhecimento era Aristides Marques da Cunha, cujo prognatismo dava-lhe um ar de grande simpatia. Lecionava protozoologia de uma maneira extraordinariamente interessante. Se, na primeira aula, a bitonalidade de sua voz provocou o riso entre alguns de nós, deixou, mais tarde, de ser percebida, tal a qualidade de sua preleção, a minúcia de suas demonstrações microscópicas e o interesse suscitado pelas questões que nos propunha. Durante anos foi, para mim, um prazer ir ao seu laboratório para explorar-lhe o conhecimento e a verve.

Seduziu-me, desde logo, a personalidade de Lauro Travassos. Lauro tinha uma figura impressionante: alto e corpulento, voz clara e forte, e entradas profundas separavam o cabelo partido ao meio. Sob o aspecto de um morfologista que a muitos parecia arraigado, era, na verdade, um conhecedor da biologia dos animais, que tão bem descrevia, e um trabalhador inveterado. Grande parte do seu tempo era empregada no interior do país para a busca de material de estudo e, por isso mesmo, a pessoa que melhor podia traduzir, para nós, os hábitos da gente camponesa. Foi um grande "mestre", formando escola do maior valor. Destaco, entre seus discípulos mais próximos, Teixeira de Freitas, Herman Lent, Souza Lopes e Sebastião de Oliveira.

Outro zoologista pelo qual nutri a maior admiração foi Gustavo de Oliveira Castro. Sua pouca produtividade, nascida da sua extensa curiosidade pelo mundo animal e vegetal, era compensada por uma erudição biológica, geral e especializada, que o tornava uma extraordinária fonte de informação para todos nós, estudantes, que dele nos aproximávamos. Dessa erudição dei-me conta quando prestei exames na disciplina de helmintologia. Haviam me dito, sem base, que Lauro Travassos me visaria caso eu não estivesse bem preparado. Passei uma semana com Gustavo de Oliveira Castro, quer no instituto, quer no laboratório de biologia animal do Ministério da Agricultura, situado na avenida Maracanã, revendo os métodos de diagnóstico de vermes. Fui muito feliz na prova, pois, dos dez exemplares dos quais deveria dar o gênero e a espécie, só errei um. Naturalmente, helmintologista mal preparado que era eu, não consegui identificar a espécie mais fácil.

E difícil traçar o perfil de um cientista a partir dos numerosos pesquisadores a que me referi. Devo, entretanto, salientar como fundamental a preparação básica que era a deles. Não uma preparação especializada ao detalhe, mas um conhecimento amplo do capítulo geral a que pertencia a disciplina que seguiam. De outro lado, quero fazer referência especial à persistência com que todos seguiam, ou para melhor dizer, perseguiam a hipótese de trabalho que os havia guiado no início de uma experimentação. Além do mais, diga-se que, malgrado divergências especiais, e certamente as houve, um esprit de corps a todos movia na defesa da instituição onde mourejavam. Certamente, uns seriam mais inteligentes do que outros. A alguns, uma intuição mais forte lhes facilitava o caminho, mas essas diferenças não se faziam sentir senão para aquele que as procurasse com esforço. Do mesmo modo, talvez alguns fossem mais vaidosos do que outros, mas, de maneira geral, a vaidade, sempre existente, justificava-se pela contribuição dada ao conhecimento científico.

Havia também, comum a todos, um grande poder de crítica, aplicado, de um modo geral, sem exageros, sem preferências, aos trabalhos de amigos ou não. Esse poder de crítica parecia-me sempre exagerado em relação aos trabalhos não originários de Manguinhos. Tomei conhecimento desse espírito de reserva nas ocasiões em que, levado por Carneiro Felippe ou Costa Cruz, ia almoçar na mesa à qual se sentavam, sempre, Astrogildo Machado, Júlio Muniz, o mais acerbo de todos, e Miguel Ozorio, o mais gracioso.

O almoço era servido no caramanchão cuja limpeza e aprazibilidade causava-nos admiração. Muitos dos pesquisadores, entretanto, traziam de casa sua marmita e, assim, não compareciam ao caramanchão ou o faziam raramente. Um deles era Adolpho Lutz, por todos respeitado e admirado, e do qual se contavam episódios extraordinários de argúcia e hilariantes casos de esquecimento. Um desses, por exemplo, dizia do seu comparecimento ao instituto, durante os áridos verões que lá vivíamos, vestido com roupas de inverno. Acontecera que um termômetro doméstico havia-se quebrado e, na sua miopia, Lutz verificara apenas a presença de temperaturas baixíssimas na coluna de mercúrio e sua rígida disciplina suíça obrigara-o a seguir as indicações do termômetro. Durante anos meu pai ia buscá-lo na rua do Matoso para levá-lo a Manguinhos. Acompanhei-o várias vezes nessa missão, e era agradável ver Adolpho Lutz de longe, já fora do portão, consultando seu relógio de bolso, para verificar se não estávamos atrasados. Durante anos, também, meu pai levava o almoço de Lutz, pois minha mãe o preparava para ambos.

Outra figura fascinante, mas que pouco freqüentava o caramanchão, era Costa Lima, sempre de macacão azul, destoante das batas brancas usadas. Seu pequeno laboratório era constantemente o ponto de encontro, em torno das dez horas, para um cafezinho fresco. Costa Lima era um admirável causeur, ainda que muitas vezes a sua conversa descambasse para o picaresco. Era o que mais cedo chegava ao instituto, o que nos permitia fazer blague dizendo ser ele um passageiro usual do "trem das professoras". Na verdade, Costa Lima chegava cedo ao laboratório para dar início a uma atividade febril que só terminava a horas avançadas da tarde, o que lhe permitiu classificar insetos que vinham de todas as partes do mundo para o seu diagnóstico. Assim, pôde realizar seu sensacional trabalho Insetos do Brasil, em que os mesmos são descritos morfologicamente e analisados do ponto de vista do comportamento biológico. Ia eu conversar sempre com ele e não me lembro de ter deixado o seu laboratório sem ter apreendido alguma coisa de ciência ou de como se faz ciência.

Um outro exemplo do que era a vida de Manguinhos e a severidade com que os neófitos podiam ser tratados ocorreu com Gomes de Faria De alta estatura e olhos amendoados, Gomes de Faria era uma verdadeira enciclopédia científica. Foi ele quem primeiro me ensinou os elementos de enzimologia em aulas paralelas às do curso do instituto. Sua projeção científica era de tal ordem que foi convidado por Fonseca Costa a criar um departamento de bioquímica e fermentação no Instituto Nacional de Tecnologia. Freqüentemente ia vê-lo para discutirmos sobre o que eu estava fazendo. Era muito severo nas críticas, o que foi de grande proveito para mim. Lembro-me, de uma feita, que trabalhei todo o fim de semana em preparações de fígados de amarelentos, tentando obter uma nova coloração para a identificação dos lipídios na célula hepática. Num domingo, à tarde, achei que havia obtido as preparações ideais e, imbuído do meu sucesso, levei uma das lâminas para Gomes de Faria examiná-la. Expliquei toda a técnica usada e, por fim, coloquei minha preparação no microscópio. Gomes de Faria observou-a durante algum tempo; levantou-se, pegou a lâmina, quebrou-a ao meio, colocando na cesta de lixo os dois pedaços. Virou-se para mim, que estava com os olhos cheios de lágrimas, e disse: "Não se incomode, meu caro, com o que fiz. Você ainda tem que aperfeiçoar muito o seu método para poder apresentá-lo a alguém." Semanas mais tarde, consegui uma preparação melhor e vi como tinham sido justas as suas observações, as quais, de modo abrupto, fizeram com que eu recomeçasse o trabalho.

Pensando em todos esses mestres com os quais convivi, mais se solidificou, em meu espírito, o conceito de que a ciência busca a verdade. Esta se faz seja por um contato permanente entre o pesquisador e o objeto inquirido, seja, como nas ciências históricas, com uma separação entre os mesmos, no tempo e no espaço. É óbvio que esse conhecimento se torna válido pela aplicação de métodos que, muitas vezes de caráter geral, apresentam aspectos específicos na abordagem de tal ou qual hipótese. Diga-se, aliás, que essa busca de conhecimentos a partir de uma "informação" é a base da hipótese a ser perseguida. Essa informação tem várias fontes, muitas das quais se passam na esfera do subconsciente, mas, qualquer que seja o ritmo da busca desses conhecimentos, deve-se levar em consideração que não pode ela se firmar somente na procura de uma possível verdade, em que a hipótese inicial se transformou, ou então ser formulada a sua busca em condições que não correspondam à realidade contingencial em que vive o pesquisador. Isto poderia ser expresso de uma maneira mais simples, dizendo-se que a busca do conhecimento por meio de uma hipótese deve-se abrir para horizontes imprevisíveis na formulação inicial do processo, isto é, não se deve querer buscar o que se deseja, e sim o que a realidade nos fornece. Mesmo nos países em condições econômicas precárias, o trabalho a ser realizado deve levar em consideração as mesmas condições. Isto exige, por parte do pesquisador ou dos grupos de pesquisa, uma análise cuidadosa das suas possibilidades experimentais e intelectuais, para que não haja desperdício material e enfiaquecimento do potencial humano.

Desse tempo de Manguinhos guardo, com especial carinho, a recordação das minhas idas à biblioteca. Dirigida por Overmeer, que Oswaldo Cruz trouxera da Holanda, a biblioteca era um assombro de riqueza bibliográfica. Nela permanecia longas horas examinando revistas de física, química e biologia, que só ali podiam ser encontradas. Cito, como exemplo, os Annalen der Physik. Neles encontravam-se os mais significativos artigos que haviam provocado algumas das principais revoluções científicas de todos os tempos, como a que se processou, por exemplo, antes da Segunda Guerra Mundial, na física teórica e experimental. Esses artigos me interessavam muito, não só porque me preparavam para melhor compreender as conversas com Carneiro Felippe, como também me davam um baseamento histórico indispensável ao conhecimento mais perfeito de qualquer disciplina científica. Overmeer verificava com cuidado se eu não estava surrupiando, para levar para casa, um exemplar da biblioteca, e só depois de ter constatado que eu, disciplinadamente, não o fazia (mesmo porque, simples estagiário e, mais tarde, assistente, não tinha tal direito), mostrou-se extremamente cordial, auxiliando-me a encontrar muitos dos volumes que eu procurava. Por causa do seu espírito disciplinador e, talvez ainda, pela pouca facilidade no manejo do português, pintava-se Overmeer como um aterrador guarda de livros. Era, sim, um protetor dos mesmos e, estou certo, se não fosse sua vigilância e seu rigor, a biblioteca do Instituto Oswaldo Cruz não teria se transformado na grande instituição que todos admiramos.

Quero também assinalar a extraordinária assistência que me deu um dos varões mais completos que conheci: Joaquim Venâncio. Natural de uma fazenda de minha avó, veio cedo para o Rio e meu pai o empregou com acerto no Instituto Oswaldo Cruz. Desde o primeiro dia em que fui a Manguinhos, Venâncio me mostrou todos os detalhes do prédio e acompanhou-me por toda a parte. Era uma espécie de babá que me protegeu durante anos. Pouco a pouco tornou-se um conhecedor dos variados animais que eram utilizados nas experiências dos pesquisadores. Trabalhando com Adolpho Lutz, dele se conta que podia reconhecer a espécie de uma rã pelo seu coaxar. A pessoa de Venâncio é a demonstração das possibilidades imanentes que existem em todas as camadas sociais de nosso país.

Em Manguinhos, eram de excepcional valia os serviços auxiliares iniciados por Oswaldo Cruz, que havia trazido artesãos do maior quilate, até da Europa. A mecânica de alta precisão, a indústria de vidro, a capacidade de projetar circuitos elétricos, e tudo o mais que compõe a infra-estrutura de um estabelecimento científico era provido do que de melhor se possa imaginar. Direi, ainda, que esses artesãos pertenciam a grupos familiares que deram ao mundo científico nacional um exemplo de capacidade e de desprendimento. Certamente, uma das alavancas que asseguraram a ascensão científica do instituto foi o auxílio dado aos seus pesquisadores pelo grupo de técnicos, especialistas de variados matizes, que ali labutaram e, até mesmo, ali se formaram. Não há instituição científica que possa viver sem esse grupo de colaboradores nunca bem compreendido por nossas autoridades governamentais, que sempre lhe negaram a remuneração compatível com a qualidade do seu trabalho.

A dificuldade de dar aos técnicos e auxiliares um nível adequado de salário e até um tratamento mais humano, no dia-a-dia, foi uma das constantes preocupações que tive durante minha vida. No entanto, os resultados obtidos eram sempre frustrados pela rigidez das normas burocráticas e administrativas e que sufocam a vida da pesquisa no Brasil. Disto resultou sua evasão para o setor particular. Eu mesmo tive a amarga experiência de preparar técnicos auxiliares, até mesmo enviando-os ao estrangeiro, para vê-los, depois, deixarem o Instituto de Biofísica atraídos por outras entidades que lhes garantiam condições que a universidade não podia assegurar. Acho que uma das grandes diferenças entre a nossa ciência e a do mundo industrializado é que, em nosso país, não se oferecem as condições econômicas e sociais que os artesãos científicos merecem.

A perfeição que testemunhei no preparo de soro antipestoso, ou no trabalho de vidraria - que deu origem às fabricas de ampolas no Brasil -, era absoluta. Também assim era a mecânica fina, que se podia ali fazer com o auxílio de Júlio Grimaldi. Com ele consegui, nos albores da minha carreira experimental, construir o pequeno difrator de elétrons destinado a estudos cristalográficos. Foram estes descontinuados quando fui forçado a me preparar para o concurso da Faculdade de Medicina. Qualidade artesanal como a que havia em Manguinhos só vim a encontrar, muito mais tarde, quando comecei a conhecer os laboratórios do Primeiro Mundo.

Havia um laço de afeição e amizade entre pesquisadores, técnicos e artesãos. Entretanto, só raramente figuravam estes últimos como co-autores dos trabalhos publicados, quando muitas vezes o eram. Tal reconhecimento eu vi na Grã-Bretanha, onde os principais trabalhos de Archibald V. Hill eram assinados, também, pelo extraordinário mecânico que lhe preparou os minúsculos pares termoelétricos e construiu os galvanômetros ultra-sensíveis, que permitiram a determinação da quantidade de calor produzida no nervo pela passagem do impulso nervoso.

A perplexidade pela morte de meu pai, em 1934, fez-me refletir sobre a permanência, ou não, na instituição que considero a minha alma mater. Não que eu gozasse de privilégios especiais por ser filho de Carlos Chagas O único, talvez, tenha sido o meu contrato para auxiliar de assistente - sem prejuízo para nenhum outro pretendente -, obtido pelas normas que levavam a essa contratação, pelo estágio científico ali realizado e pela aprovação no curso, ao que se poderiam juntar minha atividade no Hospital Evandro Chagas, em Manguinhos, e meu trabalho positivo no Serviço de Anatomia Patológica do Hospital São Francisco de Assis. Creio que, de um modo geral, a minha contratação foi bem aceita, pois que não houve pronunciamentos contra a mesma. Dedicava meu tempo, quase integralmente, ao instituto, interrompido apenas três vezes por semana para dar aula de hematologia, normal e patológica, no curso de anatomia patológica da Faculdade de Medicina, ministrado por Leitão da Cunha. As aulas iam de meio-dia e meia a uma e meia, o que me obrigava a ir ao instituto pela manhã, seguir para a praia de Santa Luzia, no chamado Instituto Anatômico, e retornar a Manguinhos. Isso só podia ser feito graças às facilidades do tráfego na época e graças ao fato de ter podido comprar a linda Fiat conversível, minúscula, conhecida como "Balilla", tipo 514, com o dinheiro que havia ganho em 1931 com o Prêmio Dona Antonia Chaves Berchon des Essarts, e mais seis contos de réis, emprestados por um tio. Embora de segunda mão, o carro custou-me doze contos de réis.

Quero ainda me referir às características de duas figuras com quem muito convivi. Magarinos Torres era o "operário" da ciência. Sentava-se à sua mesa e, com a paciência de um monge, estudava, lâmina por lâmina, os resultados histológicos de autópsias praticadas nos dias anteriores. Era um homem simples, mas de extraordinária compostura científica. Raramente eu o vi voltar atrás na conclusão de um diagnóstico, mas se tivesse que fazê-lo o faria cem vezes, pois admitia, com facilidade, os seus erros — um exemplo que seguíamos —, ainda que escassíssimos e, na maioria, resultantes do descuido com que a preparação histológica havia sido feita por mim ou por outro qualquer dos seus ajudantes.

Em oposição à economia de palavras com que Torres nos explicava um quadro macroscópico ou um detalhe de uma preparação, Osvino Pena era um expositor extraordinário. Alto, cabelos bem implantados, deixando, todavia, aparecer a sua larga testa, tinha a voz de um tribuno. Falava com simplicidade, embora nela se percebesse sua extraordinária erudição; fazia-o, entretanto, sem jactância. Profundo conhecedor de fisiopatologia, muitas vezes o ouvi, ao redor da mesa de necropsia, explicar aos clínicos presentes, deixando-os perfeitamente à vontade, as razões dos erros cometidos no diagnóstico a que haviam chegado. No entanto, não magoava ninguém. Eram pequenas dissertações nas quais recordava a fisiologia normal e os mecanismos de sua perturbação patológica. Deixava-me sempre atônito pela simplicidade e qualidade de suas exposições.

No Setor de Anatomia Patológica trabalhei, ainda, com duas grandes figuras: Burle de Figueiredo e Penna de Azevedo. Burle de Figueiredo distinguia-se pela simplicidade de suas explicações e pela qualidade das preparações histológicas que ele próprio fazia, introduzindo sempre métodos novos. Elegante, sem exageros, me encantava voltar de Manguinhos a seu lado, na sua Lancia conversível. Aproveitávamos a carona para discutir os aspectos mais interessantes das atividades do dia. Penna de Azevedo, mais moço do que os outros, tornou-se o bom companheiro a quem eu recorria a cada dúvida que me aparecia. Sempre cortês, Penna de Azevedo tinha grande paciência para esclarecer e entretinha-se comigo na explicação do seu importante trabalho sobre a tripanossomíase americana.

Os estudos médicos continuaram numa divisão imperfeita entre as aulas da faculdade, sempre marginalizadas, e os trabalhos no São Francisco e em Manguinhos, os quais assumi com toda a regularidade.

A vida, dividida entre o instituto e a faculdade, ainda me dava tempo para o lazer. Ao esporte sempre dei preferência e, durante certo tempo, dediquei-me ao remo, que deixei por ter que me levantar muito cedo para chegar à garagem do Clube de Regatas Guanabara. O cinema era quase uma ocupação, mas devo confessar que nunca fui capaz de guardar o nome dos diretores, o que me caracterizava como um amador — aquele que se lembra de um filme pelo nome do ator principal. Houve momentos em que me dediquei seriamente ao bilhar. Jogava sinuca num salão da rua São José, defronte à estação de bondes, hoje ocupada pelo Edifício Avenida Central. Muitas vezes deixei o salão bem passadas as doze horas da noite. Eram meus companheiros vários colegas, mas o grande jogador, sem dúvida, era Walter Oswaldo Cruz, também campeão de xadrez.

Politicamente, o último ano da faculdade foi muito agitado. A população do Rio, influenciada por líderes de alta expressão oratória, como Maurício de Lacerda, que haviam substituído líderes mais velhos, como Irineu Machado e até mesmo Paulo de Frontin, mostrava-se cada vez mais contrária a Washington Luís. Este, na expressão demagógica de muitos, nada mais era do que a representação da plutocracia paulista. De outro lado, o movimento da Aliança Liberal arrancava mais simpatias pela imagem que se formara de Antônio Carlos de Andrada e Silva, então governador de Minas, e Getúlio Vargas, que havia abandonado a pasta da Fazenda do governo Washington Luís para ser governador do estado do Rio Grande do Sul. Minha casa, sempre muito visitada por mineiros de grande quilate, era um centro de discussões sempre favoráveis à Aliança Liberal e ao doutor Getúlio Vargas.

Nós, estudantes, várias vezes saímos às ruas em manifestações de desapreço ao governo. Ocupada a avenida Rio Branco, éramos, depois de um sem-número de discursos, as mais das vezes inflamados e sem muito conteúdo, contidos pela Polícia Montada. Salvavam-nos da espadeirada os donos das casas de comércio que, sabiamente, se protegiam com portas semicerradas. A maioria dos jornais era oposicionista e estava a auxiliar o movimento anti-governista. Apporelly, o Barão de Itararé, lançava, semanalmente, um jornalzinho, A Manha, que fazia o gáudio dos oposicionistas.

No dia 24 de outubro de 1930 tive uma experiência única. Acordei de madrugada com uma zoeira incrível. Minha avó, guerreira de quatro costados, já estava na janela da frente quando ali cheguei. Eram tanques do Exército que iam ao Palácio Guanabara para depor Washington Luís. Vesti-me às pressas e saí correndo na mesma direção. Por um acaso feliz encontrei, na esquina de Paissandu com Guanabara, o tenente Mena Barreto, que comandava um batalhão revoltado. Conhecia-o do tempo em que tirei a minha carteira de reservista. Simpatizara comigo na ocasião do exame oral imposto aos estudantes de medicina que haviam vaiado um batalhão do Terceiro Regimento, sediado na Praia Vermelha. As reprovações eram freqüentes e eu não sei como consegui responder às perguntas que me foram feitas. Isto me deu um certo prestígio com os oficiais examinadores e Mena Barreto não se esquecera de mim. Convidou-me para entrar, o que fiz subindo até o andar nobre do palácio. Ali encontrei vários políticos da situação, que pareciam em desespero. Alguns deles eu conhecera na minha própria casa. Sobressaía, entre os agitados políticos que ali estavam, a calma de Otávio Mangabeira, que parecia estar aconselhando a todos que tivessem uma atitude mais ponderada. Como eu o conhecia, trocamos algumas palavras. Perguntou-me o que eu estava fazendo lá. Contei-lhe o episódio que ali me levara e o seu conselho foi simples: "Logo que puder, volte para a sua casa porque o ambiente aqui pode se tomar violento." Não segui o conselho de Mangabeira e continuei perambulando pelos salões quase vazios do palácio. Alguns estavam fechados e eu sabia que era o local onde Washington Luís, com alguns dos seus ministros e poucos amigos, havia se refugiado. Num certo momento, ouviu-se um rumor vindo do exterior do edifício: as tropas se movimentavam, pareceu-nos a todos. Na verdade, o que acontecia era que as tropas que fechavam a entrada do palácio estavam abrindo espaço para a chegada do cardeal Leme, que se propunha a intermediar uma solução para o conflito. Depois de muita discussão resolveu-se que, na companhia do cardeal, Washington Luís iria para a fortaleza de Copacabana. Eu, já meio enfarado do que via, fui-me retirando, mas não sem assistir a uma das cenas mais emocionantes da minha vida. Encontrava-me no meio da escada que desce ao térreo, a do lado esquerdo de quem olha para o palácio, quando vi Washington Luís aparecer acompanhado do cardeal e de um certo número de pessoas. Encostei-me na parede para deixar o cortejo passar. Notei, logo de início, um fato impressionante que mostrava o desagrado de Washington Luís. Caminhava sempre um passo à frente do cardeal Leme, com quem não trocou palavra. Mais ainda: no patamar que divide a escada em dois lances, um jovem oficial de Marinha, creio que ajudante-de-ordens do presidente, dele se aproximou e quis se ajoelhar para beijar a sua mão. Com energia, mas discretamente, Washington Luís evitou o episódio e sussurrou ao referido oficial palavras que muito o sensibilizaram e o levaram às lágrimas. Em seguida, Washington Luís desceu o resto da escada e entrou no carro que já o esperava e em cujos estribos se aboletaram quatro oficiais do Exército. A tristeza do episódio tão dramático foi tal que me dirigi logo para casa, onde relatei a minha avó tudo o que tinha visto. Ela, no seu exagero florianista, sorria de satisfação com o que eu lhe contava.

Meu entusiasmo pela revolução durou pouco. É que meu pai, que estava na Europa em missão junto ao Comitê de Higiene da Liga das Nações, regressou antecipadamente ao Rio (novembro de 1930). Fomos todos esperá-lo no cais e qual não foi nossa surpresa quando não o vimos descer junto com minha mãe e os outros passageiros. Um médico da Saúde dos Portos chegou, apressadamente, para nos dizer que meu pai havia descido na lancha da Polícia Militar e tinha ido diretamente para a Quarta Delegacia Auxiliar. Seguimos todos para casa, onde algumas horas depois chegou meu pai, muito cansado e bastante magoado. Fora ele liberado por Afrânio de Mello Franco, ao qual um amigo comum avisara do ocorrido. A prisão de Chagas, ainda que temporária, era injustificada, não só pela probidade de sua vida, como também pelo fato de que Chagas se havia mostrado, desde cedo, ardente adepto da Afiança Liberal. E bem claro que, em momentos de perturbação social, denúncias se acumulam para prejudicar inimigos. No caso de meu pai, ao que se apurou, ainda que imprecisamente, fora a denúncia de um médico que o levara a ser considerado suspeito e perigoso pelo governo revolucionário. Esse médico, membro da Academia de Medicina, não podia perdoar meu pai por ter ele, como diretor do Departamento Geral de Saúde Pública, mandado fechar seu consultório, no qual era associado a um charlatão alemão que prometia a cura da hanseníase. O episódio, sem dúvida, marcou muito a vida de meu pai. Todos nós ficamos extremamente constrangidos e sem meios de levantar o protesto que desejávamos. Na verdade, Getúlio Vargas não manifestava, na ocasião, grande entusiasmo por meu pai. E que um dos companheiros deste, escolhido para um cargo importante na direção do Departamento Geral de Saúde Pública, levara meu pai a exonerá-lo do cargo de confiança, por causa dos repetidos pronunciamentos contra o governo de Artur Bernardes. Afastado da função que tinha, malgrado a sua capacidade, passou a exercer a assessoria do governo do estado do Rio Grande do Sul e, portanto, ligado diretamente ao novo presidente da República. Certamente tinha ele influenciado Vargas em relação a meu pai. Logo depois de sua subida ao poder, Getúlio Vargas quis substituir o velho Chagas na direção do Instituto Oswaldo Cruz, pretendendo nomear, para o mesmo, um eminente cirurgião de São Paulo, doutor Sérgio Meira, que chegou a vir ao Rio, na companhia de alguns de seus conhecidos, para visitar o Instituto de Manguinhos. Foi Luiz Simões Lopes, ao que tudo indica, quem o demoveu do propósito. Passavam-se os dias e formou-se um movimento estudantil contra o qual me opus e que, na verdade, me tornou impopular. E que os estudantes de medicina e de outras entidades de ensino médio e superior haviam obtido, do novo governo, um decreto que permitiria ao aluno passar de um ano para o outro sem a prestação de exames. Isto nada mais era do que a repetição, numa analogia sem base, do decreto promulgado logo depois da epidemia de gripe espanhola. Eu me opus à nova "promoção por decreto". Meu pai, entretanto, pediu-me que não prestasse exames para não me indispor com meus colegas.

Iniciado o ano de 1931, renovei o meu estágio em Lassance, mas a partir de junho, quando retornei ao Rio, comecei a me preocupar com o fim do ano, que marcaria o término da minha carreira acadêmica. Creio que esse sentimento tomou conta de todos os meus colegas de turma — e será assim mesmo, nos dias atuais —, ainda que, na ocasião, o mercado de trabalho médico fosse de mais fácil acesso do que é hoje.

Essa sensação de incerteza sobre o futuro mais se agravava à medida que o tempo corria, tanto mais que, numa homenagem que me pareceu descabida, resolveram meus colegas, e o conseguiram, que a nossa formatura fosse realizada no dia 31 de outubro, data que marcava o primeiro aniversário da revolução vitoriosa. Eu deveria ser o mais calmo, pois tinha garantida a minha presença como estagiário no Instituto Oswaldo Cruz, assim como acontecera, cinco anos antes, com meu irmão Evandro, que pôde abrir a porta de sua carreira profissional sem qualquer dificuldade. Meu caso era uma exceção, mas a situação para muitos de meus colegas poderia parecer duvidosa.

Não me emocionei no dia da formatura. Ao contrário, achei a solenidade um pouco oca, tendo em vista que o discurso do nosso paraninfo, o professor Juvenil da Rocha Vaz, me pareceu medíocre. Rocha Vaz fora, no governo Bernardes, um dos grandes homens da medicina, tendo exercido, além da clínica numerosa, várias funções significativas. Foi, simultaneamente, diretor da Faculdade de Medicina, reitor da Universidade do Brasil - como então se chamava a Universidade Federal - e mentor do Conselho Hospitalar. Tinha em mãos um grande poder. Exercia suas atividades com critério, mas sem grandes iniciativas, penso. Era professor da Faculdade de Medicina, nomeado em conseqüência da reforma, em 1925, que levou o seu nome. Fizemos parte, assim, da sua primeira turma de alunos. Com ele discuti inúmeras vezes, porque não aceitava a sistemática e rígida utilização da biotipologia que Viola criara na Itália e da qual Nicola Pende, endocrinologista de renome, era o grande arauto. Pende era um viajante que, sob as ordens de Benito Mussolini, percorria o mundo e, particularmente, a América Latina, para difundir as idéias de Viola e as excelências da medicina italiana protegida pelo ditador fascista. Com Rocha Vaz tive vários pequenos entreveros, no período em que tentei mostrar a ele a impossibilidade de ajustar os doentes de moléstias infecciosas, como doentes de febre tifóide, aos paradigmas da biotipologia. Creio que Rocha Vaz nunca se agastou com as minhas críticas à biotipologia, exageradas como a de qualquer jovem. Pelo contrário, foi extremamente cortês quando fiz o meu concurso para catedrático. Era ele o diretor da faculdade.

Muito interessante e de boa qualidade intelectual foi o discurso do nosso orador, Luís Novelli. Calmo, com idéias bem construtivas e em muito bom português, Novelli esteve bem acima e longe dos vários discursos de doutorandos, todos eles rebarbativos, e muitas vezes insolentes, com caráter de plataforma política e não de exposição de idéias.

À formatura seguiu-se um baile realizado no Automóvel Clube, na rua do Passeio. Envergávamos o traje a rigor, para alguns quase um suplício e, com dificuldade, mantinha-se a gravata preta no lugar. A grande maioria, entretanto, estava muito bem posta e parecia ser o smoking o traje de todos os dias. As moças eram lindas. Vinham de todos os cantos da cidade e de vários pontos do país. Vestidos novos, cores as mais variadas, faziam-me lembrar a descrição de Proust em uma passagem de Em busca do tempo perdido. Cada um dos formandos trouxera sua mulher ou sua namorada, ou aquela dama especialmente convidada para a grande noite. Eu me fiz acompanhar de uma das moças mais finas do Rio, filha de um professor da faculdade, o que permitiu a muitos dos meus colegas pensar que ela fosse a minha noiva. Noite estupenda! A alegria do baile e a ofuscante beleza das moças fizeram com que muitos de nós, senão a totalidade, esquecêssemos que o "amanhã" representaria, na verdade, o começo de uma nova vida.

Esse período final na faculdade foi marcado por encontros importantes para mim. Com Freud, por exemplo, cuja obra foi-me dada a ler por Branca de Almeida Fialho. Li com garra os dois primeiros volumes, os que tinha, mas ficou-me da leitura um misto de admiração e de desconfiança. Admiração comum a todos os que lêem, com atenção e sem preconceitos, os livros do extraordinário neurofisiologista, psiquiatra e filósofo vienense. Desconfiança que persiste em pequena dose, até hoje, pelo fato de não encontrar uma base organicista naquelas maravilhosas páginas que havia lido. Este é um tema presente com freqüência no meu pensamento e, até mesmo, em discussões familiares, e flutua no meu espírito a vontade de saber como fazer a ponte entre o conhecimento do psiquismo e os avanços da biologia moderna. Dele tiro um conceito que me diz que não se deve rejeitar, por princípio, o que não lhe agrada, seja por preconceitos, idéias diferentes, ou sentimentos que nada têm a ver com o racionalismo científico.

O outro encontro foi com o marxismo. Não consegui absorver certos princípios fundamentais que vieram depois a se popularizar. Também nunca soube nem pude tomar uma atitude antimarxista irredutível. Ao contrário, muitas vezes procurei me ajustar a certas verdades da teoria marxista que são tão óbvias que não podem ser, de modo algum, rechaçadas. Porém, o que mais me atraía no marxismo era o apoio dado à ascensão sócio-econômica dos desprotegidos e dos marginalizados. Nunca fui influenciado, na minha posição, por motivos religiosos, porque a minha completa adesão ao catolicismo veio muito mais tarde, por influência das aulas de frei Secondi e da leitura de Santo Tomás de Aquino.

Tive, também, a ajudar-me na formação do meu espírito, alguns amigos de preciosa convivência que vieram completar o que meu pai, Evandro e Hélio Lobo me haviam ensinado. Além de Almir Castro e Tito Leme Lopes, meus colegas de turma, vim a conhecer e conviver com Álvaro Vieira Pinto, Plínio Sussekind da Rocha e outros. Com eles tomei conhecimento de pontos de filosofia - que eu não havia apreendido -, de história e, principalmente, de poesia, música e literatura, completando, assim, a minha personalidade. Mais tarde, seria ela burilada pelos meus mestres de Manguinhos e por personalidades como Bernanos, René Wurmser, Odilo Costa, filho, Afrânio de Mello Franco, meu sogro, e Virgílio de Mello Franco, entre outros.

Logo depois de nossa formatura, um movimento político de grande envergadura, a revolução de São Paulo contra o regime imposto por Getúlio Vargas ao Brasil, tomou conta do meu espírito. Em nossa casa, a começar por minha avó Maria, a guerreira, todos nos filiamos à corrente pró-paulista. Por causa disso e das minhas posições muito fortes a favor de São Paulo, ao que se sabe, discutiu-se muito, de novo, no Palácio Guanabara, a exoneração de meu pai da direção do Instituto Oswaldo Cruz. Em determinado dia, fiquei horas no Café Amarelinho com um grupo que eu não conhecia, esperando o momento em que nos seriam fornecidas armas para tomar o Ministério da Educação. O governo, mal informado, pensou que fosse meu pai o envolvido no movimento. Fui, com centenas de estudantes, espadeirado numa manifestação na avenida Rio Branco. Estava eu tão fascinado pelo movimento que, um dia, levei ao embaixador Ciro de Freitas Vale o meu anel de formatura, que fora de meu pai, para ser entregue àqueles que recolhiam recursos para assegurar a vitória das forças paulistas. Data de então, creio, o deslumbramento que tenho por São Paulo, sua gente e suas instituições.

Encerrado o episódio, a vida voltou ao que era, e as minhas atividades continuaram a se dividir entre Manguinhos e a Faculdade de Medicina. Nesta eu havia mudado de direção. Deixara a cadeira de anatomia patológica e conseguira minha transferência para a de física biológica, onde fui carinhosamente recebido por Francisco Lafayette Rodrigues Pereira, seu titular. Diferentes em muitos aspectos, Leitão da Cunha, meu primeiro chefe, e Lafayette tinham, entretanto, traços comuns. Ambos eram extremamente atentos às atividades de suas cátedras, as quais exerciam com extrema pontualidade. A diferença entre eles encontrava-se no trato dado aos seus amigos e interlocutores; enquanto Leitão da Cunha, extremamente cerimonioso, mantinha-os a uma certa distância -com raríssimas exceções -, Lafayette era de uma irresistível bonomia, simples, acessível, e um grande apreciador de conversas. Ao sair da faculdade, na Praia Vermelha, ia para a cidade onde, primeiramente, fazia ponto na Livraria Odeon, fornecedora da grande biblioteca particular que mantinha em sua casa no início da rua Voluntários da Pátria. Depois, ia a um café na esquina da avenida Central com a rua São José, onde encontrava-se com vários amigos e, inclusive, discípulos, para um inesgotável bate-papo, aos quais trazia sua contribuição contando casos da história da faculdade, de sua passagem por Minas Gerais, ou da história das ciências. Sua extraordinária erudição era devida, penso, ao longo tempo em que exerceu, logo depois de formado, as atividades de radiologista em São João del Rei. Nesta cidade fez amizade com José Carneiro Felippe, que havia terminado o curso na Escola de Minas de Ouro Preto. Ali fora residir com o intento, logo fracassado, de se tornar um comerciante de minérios de ferro. Em São João dei Rei, Lafayette preparou o seu concurso para professor na Faculdade de Medicina, que certamente deixou eco na história da faculdade. Com um único adversário, Miguel Ozorio de Almeida, as opiniões da sociedade médica eram de que o jovem especialista interiorano não podia competir com um dos mestres mais renomados do nosso mundo intelectual. Foi assim, com surpresa, que o voto da congregação - que na ocasião era elemento votante no julgamento dos concursos - consagrou Francisco Lafayette. Este, franzino, com a voz embaçada por uma rouquidão que existiu até o seu falecimento, esteve sensacional na sua exposição oral, tratando de um assunto que parecia muito difícil a todos, "o segundo princípio da termodinâmica", com uma simplicidade e uma inteligibilidade que a todos encantou. Essas características eu as encontrei nas múltiplas vezes em que conversamos no laboratório, em sua casa, ou até no cafe da cidade, quando me fizeram compreender a teoria da relatividade e os novos avanços sensacionais da física atômica. Ao assumir a cátedra, Lafayette soube que o professor de fisiologia não se interessava por instalar uma sessão experimental em sua cátedra e recusara um donativo vultoso na ocasião. Lafayette resolveu utilizar essa doação e, no seu desprendimento, embarcou acompanhado da mulher, dona Odette, às suas próprias custas, para a Europa, onde comprou todo o material que enriqueceu extraordinariamente o acervo do seu laboratório.

Minha atividade inicial consistiu, essencialmente, em dar o curso de física aos alunos do curso de farmácia, anexado à Faculdade de Medicina, o que me foi de extremo proveito, pois aprendi a dar aulas, uma constante preocupação em toda a minha vida, tarefa que procurei melhorar a cada dia. Devo dizer que muito aprendi com meus alunos, pois o verdadeiro processo de ensino é a reciprocidade com que mestres e alunos se entretêm.

Nos anos a que acabo de me referir dei início à atividade de pesquisa. No fim de algum tempo publiquei o meu primeiro trabalho, muito simples, sobre o que se chamava "condução elétrica nuclear". Deixou muito a desejar, pois não realizei as contraprovas indispensáveis à grande maioria dos trabalhos experimentais, senão à sua totalidade. Tive um momento de imensa alegria e emoção — que todo iniciante deve sentir — ao vê-lo citado, com imerecida ênfase, em um tratado alemão de bioeletricidade.