Um aprendiz de ciência

Carlos Chagas Filho · Capítulo 4 de 15

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Um aprendiz de ciência

I - Infância

 

O Rio de Janeiro onde nasci, era 1910, e passei a minha infância e adolescência era, então, uma cidade deliciosamente calma, sem o tumulto que hoje tanto nos preocupa. Assim é que, já nos anos trinta, quando comecei a minha vida profissional, ia, em menos de quarenta minutos, de minha casa na rua Paissandu até a estação da Leopoldina, onde tomava o trem para o Instituto Oswaldo Cruz. Primeiro, seguia no ônibus da linha Guanabara-Clube Naval, onde se fazia a baldeação para a linha Clube Naval-Leopoldina. Tomava lugar, em geral, no andar superior, pois os ônibus desta linha tinham dois andares, como os de Londres, de onde a concessionária Light & Power os havia importado. Era uma cidade tranqüila o nosso Rio, assim como era tranqüila a vida das crianças e dos adolescentes de então. As festas infantis eram raras e eu só me lembro de ir à casa do marechal Souza Aguiar, nosso vizinho na rua Paissandu, e às reuniões nas casas de meus primos, especialmente dos que moravam na rua Marquês de São Vicente. Nas idas a Copacabana, raríssimas, tomava-se o bonde que, lenta mas eficazmente, nos transportava para o bairro que, na época, era quase um subúrbio. Passava-se pelo Túnel Novo. Ipanema era mais longe e o bonde atravessava o Túnel Velho. Ia-se, uma vez por ano, à casa de uma prima de minha mãe. Fazíamos uma espécie de piquenique e, no fim da tarde, permitiamme molhar os pés nas águas, as mais das vezes muito frias — assim delas me lembro —, do mar. A casa ficava na esquina ainda não delineada da atual Farme de Amoedo. Raras eram as residências ao longo da praia e só em parte separadas da areia pelo asfalto da avenida, hoje a Vieira Souto.

Meus dias começavam cedo. Meu pai vinha me acordar já recendendo a cigarro. Logo depois surgia a Fräulein Elza Dingues, minha governanta alemã, e, em seguida, eu ia ver minha mãe. Logo que podia, desvencilhavame da Fräulein e ia brincar com minha imaginação, no pomar, saltando de árvore em árvore, de jamelão a abacateiro, tentando imitar as façanhas de um herói épico que encontrava nas páginas do folhetim Coração Leal. Tentava, como ele, proteger os índios da perseguição sanguinária dos brancos invasores. Creio que essa fantasia infantil foi a semente de muitas das lutas que travei mais tarde.

Meu irmão Evandro, cinco anos mais velho, foi, desde o princípio, objeto da minha maior admiração. Mas eu o via pouco, pois ele saía de casa muito cedo, a princípio para ir ao colégio, e, com o passar do tempo, à faculdade ou ao hospital. Meu único companheiro de divertimentos era o Diomedes, filho da Maria, a simpática cozinheira de meus avós Fernando e Maria Lobo. Era um garoto forte, um pouco mais velho do que eu, mas sempre disposto a me acompanhar nas travessuras e a ser meu "pau-mandado". Depois que crescemos, perdi-o de vista completamente, até que um dia, pelos anos quarenta, vim a encontrá-lo em frente ao cinema Guanabara. Lá estávamos, vários amigos, entre os quais Occhialini, Vinícius de Moraes, Plínio Sussekind da Rocha e Otávio Faria, para assistir a uma fita considerada verdadeira obra de arte pelos grandes cinéfilos da época, todos contrários ao cinema falado, opinião da qual eu não partilhava. Essa fita deveria ser uma obra-prima, se levássemos em conta a grande maioria dos filmes norte-americanos, únicos que aqui chegavam, e que, em sua maior parte, cantavam as glórias das armadas ianques na região do Pacífico; desenhavam, ainda, uma imagem irreal da vida universitária norte-americana, e nada tinham a ver com a sucessão do grande filme de David Griffith O nascimento de uma nação. Aproximei-me do Diomedes, então, e como o achei extremamente alcoolizado, disse-lhe: "O que é isso, Diomedes?" Olhou-me com um olhar muito vago e fez a seguinte reflexão: "Oh! Gente, eu que sou o fisionomista, e o senhor é que está me reconhecendo!" Alguns dias depois, apareceu no meu escritório no antigo edifício da Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha. Não sei como descobriuo meu endereço, mas queria me ver para pedir desculpas pelo estado em que eu o encontrara. Estava admiravelmente bem vestido, e vendo que eu apreciava o seu trajar, disse-me: "Eu vou me regenerar porque agora me amiguei com a costureira que tem um ateliê na rua da Passagem." Vinha me visitar constantemente e contou-me que, na sua ascensão social, tirara a mãe das atividades domésticas. Assim foi por muitos anos, com periodicidades várias, mas sempre bem trajado e dizendo que estava trabalhando com eficiência. Mais ou menos cinco anos depois deixou de aparecer. De vez em quando sua imagem me vinha à mente na lembrança de uma passagem infantil, ou na semelhança com um preto que eu via na rua. Um dia apareceu-me uma senhora modesta. Pedindo desculpas por me perturbar, vinha informar-me de que era a viúva do Diomedes — com quem se casara no civil e no religioso —, morto num desastre de trânsito na Cidade Nova. Lembro-me de como meu coração se confrangeu: era mais uma etapa da minha vida infantil que desaparecia. Perturbou-me, por muito tempo, a idéia de que eu não dera ao Diomedes a atenção e o auxílio que nossa amizade exigia.

Quando comecei a freqüentar o colégio, era a Fräulein que me preparava para a caminhada que fazia da rua Paissandu à rua Soares Cabral. Nos dois primeiros dias, duas coisas me preocuparam. A primeira, a presença da governanta, pois já me achava grande demais para ter que sair à rua acompanhado. A segunda, a mochila nos ombros, na qual eram colocados os meus livros e a merenda. Desusada na época, chamava a atenção de todos os que me viam no longo trajeto: rua Paissandu, rua Ipiranga, rua do Rozo - hoje Coelho Neto -, rua Guanabara, que ainda não se chamava Pinheiro Machado, Álvaro Chaves e parte da rua Soares Cabral.

Lembro-me da primeira vez que entrei no Curso Lyra. Fui levado, imediatamente, à presença da diretora: dona Hermínia Lyra da Silva. Dona Hermínia era uma grande dama: a voz suave deixava seu interlocutor à vontade; o fino perfil e o cabelo grisalho davam-lhe o feitio de um medalhão antigo, mas o que transparecia de sua pessoa era uma expressão de bondade que nunca esquecerei. Fiquei rubro de vergonha e mal sabia o que dizer. Dona Hermínia chamou um veterano, Antônio Ferreira Jacobina, para ser o meu guia. Levou-me ao pequeno recreio, onde conheci os meus primeiros amigos: Carlos Alberto Rocha Faria, Arthur Pizzarro, Álvaro Nunes Pereira e Mário Van Erven. Graças à intermediação de Antônio Jacobina, fui recebido de braços abertos e integrado à "turma". Alguns dias mais tarde, sentados na beira da calçada, fui informado por eles dos mistérios da vida, que me eram totalmente desconhecidos.

A volta do colégio era diferente. Saía com Carlos Alberto Rocha Faria, passávamos pelo Fluminense, que ainda não tinha construído o seu estádio, e tomávamos a rua Paissandu na sua embocadura, em frente ao Palácio Guanabara. Vínhamos sempre pelo lado ímpar, passando pelo campo de futebol do Clube de Regatas do Flamengo e, em seguida, pelo portão do Clube de Tênis Paissandu, reduto dos funcionários britânicos da Light, e, logo depois, o grande jardim que circundava a casa de José Carlos Rodrigues, alugada para residência do embaixador da França. Cem metros adiante, parávamos na quitanda do seu Antônio, onde comprávamos deliciosas mariolas, que já se perderam na memória de muitos cariocas. Ali, Carlos Alberto e eu nos separávamos: seguia ele para a rua Senador Vergueiro, onde morava, e eu atravessava a rua, o que na época não oferecia perigo, para entrar no número 148 da Paissandu, que, como descrevi no livro Meu pai, era uma casa de dois andares construída no meio de um jardim, no fundo do qual um frondoso pomar permitia saborear mangas, abacates, jamelões e outras frutas brasileiras. De um dos lados, uma longa e agradável varanda onde as plantas e as orquídeas, em seus xaxins, todas tão do agrado de minha mãe, competiam, na alegria de suas cores, com os ornados ladrilhos de fabricação portuguesa que decoravam o piso. Entre a casa e o pomar, uma grande área cimentada, que me permitia, primeiro, andar de velocípede, depois, de bicicleta e, por fim, treinar tênis enviando a bola à parede da larga cozinha onde dois fogões de lenha facilitavam a minha mãe exercer maravilhosamente sua atividade culinária. Nossa casa foi visitada por inúmeros cientistas estrangeiros que, na vinda ao Rio, não dispensavam a visita a meu pai, que lhes oferecia sempre um almoço apetitoso na ampla sala de jantar.

O ensino no Curso Lyra era excelente, ministrado, sobretudo, pelas sobrinhas de dona Hermínia, uma das quais dona Minote — naquele tempo os alunos ainda não chamavam as professoras de "tia" —, a quem eu recorria nas horas difíceis por que passam os alunos que, muitas vezes, não têm tempo de preparar suas lições. Fui um bom aluno, mesmo porque a Fräulein me ensinara disciplina mental quando me alfabetizara, tarefa não exercida por minha mãe, que ainda não se refizera da gravíssima gripe espanhola que a acometera. As aulas que mais me fascinavam eram as de canto, nas quais interpretávamos as canções infantis francesas, o que me facilitou, enormemente, o aprendizado dessa língua. Essas aulas me possibilitaram, alguns meses depois, e com a ajuda de um dicionário, a leitura do livro da condessa de Ségur Jean qui grogne et Jean qui rit, no seu texto original. Com que esforço! Eu estava preparado para tais empreendimentos porque a Fräulein já me fizera ler e traduzir do alemão, minha primeira língua, o livro de Goethe O sofrimento do jovem Werther. Foram duas duras experiências que me permitiram mais tarde, na estada no Colégio Rezende, fazer a análise lógica da Confederação dos Tamoios.

No Curso Lyra havia uma aula de história natural na qual se falava de plantas e bichos, da natureza, enfim. Talvez tenha sido esta a minha primeira iniciação às ciências, completada pela minha longa permanência, de manhã cedinho, no pomar da casa da rua Paissandu, onde aprendi a conhecer, num diálogo solitário com a natureza, as plantas, o verde e os pequenos animais que por lá passavam.

Do Curso Lyra fui para o ginásio no Colégio Rezende, uma das grandes instituições de ensino secundário do Rio de Janeiro. Dava-se ao ensino, nessa casa, a maior atenção, e a qualidade do mesmo seguia os moldes do que se fazia no Colégio Pedro II.

Aquele contato inicial com a natureza veio a ser reforçado com a minha primeira estada no campo, numa pequena fazenda em Sobragi, perto de Juiz de Fora. Sobragi era um sonho de calmaria e beleza campestre. Nosso passeio principal era ir à beira do Paraibuna para tentarmos fisgar um lambari — tarefa difícil nas águas um tanto revoltas da região. Desse modo, à grande alegria na pesca de um peixe se juntava aquela de ver a passagem dos comboios na linha férrea situada na outra margem do rio.

Era o sítio propriedade de meu tio Otávio Barbosa Carneiro, casado com Aurora, irmã de minha mãe. Otávio Carneiro aparece-me, cada vez mais, como um homem excepcional. Magro, alto, com um pequeno cavanhaque, tinha no olhar uma extrema suavidade, que podia mascarar a sua extraordinária força de vontade. Era um positivista ortodoxo e, durante muito tempo, freqüentador do Templo da Humanidade. Amigo de Teixeira Mendes, nem por um momento deixou de lado a ortodoxia do seu pensamento comtiano, demonstrando, entretanto, uma grande compreensão pelos que não partilhavam de suas idéias. Assim é que permitiu que seus sete filhos fossem batizados, seguindo os desejos de minha tia Aurora. Foi neutra, também, a sua posição de combate a alguns dos seus companheiros de fé religiosa à vacinação obrigatória, tanto no tempo de Oswaldo Cruz como no de meu pai. Empreendedor, começou sua vida trabalhando, sob a direção de Trajano de Medeiros, nas oficinas de construção de vagões para a Estrada de Ferro Central do Brasil, e foi, mais tarde, o responsável pela construção do primeiro grande arranha-céu da cidade, o edifício do jornal A Noite, no início da avenida Rio Branco.

Coube-lhe organizar a companhia de navegação do São Francisco e uma usina termoelétrica, fornecedora de eletricidade para a cidade de Pirapora. A Viação São Francisco mantinha dois barcos que faziam, regularmente, a viagem entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia. Verificando os trabalhos da companhia, Otávio Carneiro fez, um dia, uma viagem a Juazeiro. Na volta, adoeceu gravemente. Astrogildo Machado, seu concunhado, seguiu para Pirapora na tentativa de salvá-lo. Tudo em vão.

Trazido para o Rio, Otávio Carneiro teve um sepultamento extraordinariamente comovente, o qual seguiu, exatamente, as normas da religião da Humanidade. Seu corpo, velado em sua casa da rua Marquês de São Vicente, 300, dela saiu ao som da "Ave-Maria" de Gounod. Nunca esquecerei a emoção que tive vendo desaparecer um grande homem e assistindo ao desespero dos amigos e de meus primos e primas, ainda todos pequenos. Sua última lembrança para mim foi o envio, na véspera da minha formatura, de um volume: Conseil aux médecins, escrito por Audifret. Livro comtista, nada sectário, tendo sido escrito antes da era pasteuriana.

Otávio Carneiro sentia em si a necessidade do progresso. A fazenda de Sobragi, tentativa onerosa, tinha como finalidade principal a adaptação do gado holandês, leiteiro por excelência, às condições climáticas brasileiras, resultando num aumento de produção de leite. Meu tio queria, também, tentar a criação do cavalo percherão, extremamente útil para o transporte de cargas. Ainda mais, desejou utilizar Sobragi para a criação de pôneis, muito populares na Argentina, e de grande utilidade nas pequenas propriedades. Para realizar os seus ideais, Otávio Carneiro trouxe para Sobragi, como capataz,o peão argentino Palamoni, que salvou minha vida em um episódio cuja lembrança até hoje me faz estremecer. E que, para me ensinar a andar a cavalo, amarrou-me à sela encilhada em um pequeno pônei. Este, sob o comando do capataz, começou a andar calmamente. De súbito, porém, a barrigueira cedeu, a sela rodou e eis-me de cabeça para baixo, amarrado ao cavalo! Até hoje tremo ao pensar na sensação que então senti. Salvou-me a extraordinária força do argentino que, com um murro na testa do animal, o fez parar por instantes, o que deu tempo para que me desvencilhassem da situação em que me encontrava.

O idealismo de Otávio Carneiro estendeu-se, ainda, ao desejo de criar grandes plantações de mamona, com o fim de obter óleos vegetais que pudessem servir de combustível. O retorno de Sobragi era sempre tristonho. Deixava a liberdade — ainda que supervisada, de longe, por minha tia Aurora, pelos capatazes e pela Nica, ama de meus primos — para a vida regrada da rua Paissandu e do Colégio Rezende.

Foi no Colégio Rezende que eu aprendi, realmente, a disciplina do estudar, o que fez desabrochar e fortalecer o meu espírito. Para lá seguia, pela manhã, em torno das nove e quinze, no bonde da linha Humaitá-Largo do Machado, que dez minutos depois me deixava na rua Bambina, onde ficava o colégio. Voltava para casa mais ou menos às cinco horas da tarde, mas o tempo ali passado era magnificamente aproveitado. Tínhamos aulas com professores de grande nomeada, como João Ribeiro e Silva Ramos, de história geral e português, respectivamente, e com professores mais jovens, dois dos quais marcaram muito a minha formação: Ruy Fioravanti, mais tarde professor do Pedro II, e Paulo Gama, que deixou o colégio para ser promotor numa cidade de Minas Gerais. Eram moços de grande instrução e repetidores da matéria dada pelos professores titulares, entre os quais dona Silvia Rezende e o professor Niemeyer, com quem tive aulas de latim durante três anos.

Algumas considerações devem ser feitas. A primeira, relativa ao cuidado com que era ensinado o português, com aulas de gramática e análise lógica diárias. Silva Ramos vinha às quintas-feiras e discutia conosco a qualidade de nossas redações, ora feitas sobre um tema por ele recomendado, ora de livre escolha. Na sua prosódia portuguesa, corrigia-nos o estilo e, quando necessário, os erros gramaticais. O ensino era admirável, feito numa grande intimidade com o notável mestre que, um dia, deu a seguinte resposta a um estudante mais petulante que lhe perguntara quando iria nos ensinar gramática: "Gramática, meu caro menino, não se ensina, aprende-se!"

Éramos quatorze alunos, entre os quais se distinguiam: Maria Eugenia Serra, que, logo depois de formada, tirou o primeiro lugar no concurso para funcionário do Banco do Brasil; Marina Moscoso, que conseguiu realizar uma brilhante carreira no Itamarati; Reinaldo e Alberto Cruz Santos, grandes companheiros; Horácio de Carvalho, o de maior distinção entre nós todos e que residia numa linda mansão em frente ao colégio; Fernando Gusmão Lobo, o mais brilhante da turma; Higas Chagas Pereira, o mais popular, pois era um bom futebolista, chegando a jogar no primeiro time do Flamengo como meia-esquerda — denominação da época —; e Silvia Vaccani, tão bonita quanto excelente aluna de matemática.

A segunda consideração que desejo fazer é que não havia provas parceladas e, para obtermos os doze certificados de exames preparatórios necessários à matrícula na universidade, tínhamos que prestar exames no Colégio Pedro II, onde as bancas eram amedrontadoras para os alunos estranhos à instituição, íamos cedo para a rua Larga, onde fazíamos os exames escritos. A seguir, duas horas de intervalo, que podiam ser gastas no cinema "poeira", cujo proprietário nos deixava entrar sem que tivéssemos que pagar o bilhete inteiro. Depois do almoço, tinham início as provas orais, que se prolongavam, muitas vezes, até às tantas, findo o que um inspetor vinha colocar, no quadro da entrada, o resultado da média dos dois exames, sendo quatro o grau mínimo de aprovação. No entanto, a seriedade dos exames era, certamente, a mola — a "virada" — que nos fazia estudar ao chegar o fim do ano.

No colégio a vida era muito agradável. Dois recreios de meia hora pareciam-nos curtos demais, porém, na grande maioria, tínhamos tanto interesse pelo estudo que voltávamos às pressas, interrompendo, muitas vezes pela metade, a pelada que estávamos jogando. Uma das nossas maiores distrações era espreitar a casa vizinha. Tínhamos sido informados de que nela morava uma senhora lindíssima, que aqui fixara residência depois da passagem de uma trupe de teatro. Ficávamos um grande tempo do recreio olhando por cima do muro para ver se a vislumbrávamos. Isto nunca aconteceu. O mais que chegamos a ver foi o seu cachorrinho de estimação. Muitos anos mais tarde, vim a conhecer a senhora Champlinska, pois assim se chamava nossa vizinha, num baile de fim de Carnaval no Palace Hotel. Vi-me, subitamente, dançando com uma gordinha simpática de cabelos ruivos. Não sei por que perguntei-lhe se era ela a Champlinska. Perguntou-me como eu a tinha reconhecido. Disse-lhe que tinha sido uma inspiração e que, durante anos, eu a havia espreitado por cima do muro do colégio, mas que só agora conseguia vê-la, o que lhe provocou uma gargalhada.

Saíamos do colégio sem tumulto, cada um para o seu lado. Não havia a confusão que hoje vemos a porta de quase todos os colégios, produzida pelo amontoado de automóveis que vão buscar os alunos, ou então, dos ônibus que levam as crianças de volta às suas residências.

Fiz os "preparatórios" em quatro anos, sendo o exame de português sempre o mais difícil. As matemáticas eram divididas em três anos: no primeiro, aritmética; no segundo, álgebra; e no terceiro, geometria e trigonometria. Isto nos permitia um estudo muito mais tranqüilo do que aquele que se faz hoje, com o sistema de círculos que se repetem com raios de maior extensão. O que sei é que nós, secundaristas, saíamos do colégio muito bem preparados para enfrentar o exame vestibular na universidade. Não me consta a existência, na época, dos "cursinhos", hoje espalhados por toda a cidade.

Nossas férias eram bianuais: as de São João e de São Pedro, que duravam uma semana, e as grandes férias de verão. Além disso, numerosos feriados, muitos dos quais desapareceram do calendário escolar, como o 14 de julho, Dia da Tomada da Bastilha, e o 19 de novembro, Dia da Bandeira. Essas constantes interrupções não nos prejudicavam porque a recuperação era rápida, pois que passávamos quase todo o dia no colégio. Estudávamos, também, à noite, quando nossa atenção não era absorvida, como hoje em dia, pelos canais de televisão. Para a grande parte dos estudantes, quase todos de classe média, aquela era uma etapa importante da vida.

No Colégio Rezende, uma boa porcentagem de alunos tinha situação econômica diversa. Dona Marieta Rezende, sua diretora e administradora, de elevadas qualidades, estabelecera critérios diferentes para a cobrança das mensalidades, pagas de acordo com a situação financeira de cada família. Desse modo, havia muitos que freqüentavam o colégio gratuitamente. Dona Marieta, prima distante de minha mãe e irmã de Leonidas Rezende, com sua mentalidade progressista e inovadora, queria estender a todos os benefícios de uma educação acima da média. Tínhamos por ela um grande respeito e, também, medo, quando convocados à sua sala. Esse medo, no entanto, se dissipava, pois, apontando os erros que havíamos cometido, Marieta Rezende o fazia sem provocar humilhações e com um carinho quase maternal. Até hoje me admiro com o feto do nome de Marieta Rezende não ter sido consagrado pelas autoridades educativas do Rio de Janeiro para a denominação de um colégio público, tal a qualidade que caracterizou a vida dessa professora. O ambiente do Colégio Rezende, onde tive as primeiras aulas de física e química, foi, sem dúvida, um fator de extraordinário progresso para o menino da rua Paissandu.

Foi durante o curso secundário que passei a gozar as ferias de verão na Fazenda da Tartária, perto de Oliveira. Na primeira vez fui acompanhando minha avó Mariana Cândida e ali demoramos alguns dias. Depois, seguimos para Oliveira. Há, dessa viagem, um episódio curioso. Ali chegando, vovó Mariana resolveu que eu deveria fazer a primeira comunhão, pois encontravase residindo na casa-grande — que havia sido de meu bisavô e, na ocasião, pertencia a tio Henrique — monsenhor Aureliano Mourão, que batizara meu pai. Tive que confessar pela primeira vez. Aguardei numa salinha contígua àquela em que monsenhor Aureliano estava confessando os penitentes. Como monsenhor era muito surdo, os penitentes tinham que referir os seus pecados em voz altíssima, com o que completei a "formação" que se havia iniciado na calçada da rua Soares Cabral...

Na Tartária e em Oliveira, onde tinha a grande liberdade de visitar meus tios e com eles me entreter, foi que eu realmente aprendi a conviver com as gentes e a conhecer a hospitalidade do povo brasileiro. Transcrevo, aqui, uma carta que me foi enviada por minha prima Francisca Vivas de Castro, de quinze anos, bisneta de meu tio Henrique, por ocasião das comemorações, em Oliveira, do 90° aniversário da descoberta da doença de Chagas:

Caros primos professor Carlos Chagas e dona Annah:

Como no tempo de seu bisavô, professor Carlos Chagas,

também hoje a Tartária se preparou para receber tão ilustres

hóspedes. Assim como antigamente, foram acesos os fomos,

achas de lenha foram trazidas do mato, secadas e rachadas

para que o fogão lançasse suas chamas nos fundos de nossas

panelas e os quitutes e quitandas estivessem fresquinhos e

deliciosos à mesa de nossos visitantes. Tudo isto faz parte da

centenária tradição mineira de hospedagem. As toalhas foram

tiradas dos baús, lavadas e engomadas, perfumadas com

alfazema e capim-de-cheiro. O café foi torrado e moído, os ovos

foram colhidos fresquinhos, o fubá moído no velho "moinho

d'água". Licores e doces foram feitos das mais saborosas frutas

do pomar. As vassouras vasculharam cada canto do velho

casarão e nenhum grão de poeira ficou a salvo. Até nossas

flores e plantas receberam rega especial. Tudo para que jamais

a tradição de boa hospedeira deixasse de existir na Tartária.

O casarão ainda é o mesmo de sua infância, caro professor;

mais envelhecido em sua estrutura física, de difícil

conservação, mas sob seu telhado colonial, no abrigo de suas

velhas paredes o mesmo calor humano de gerações

descendentes de capitão Carlos. Nosso velho assoalho de

tábuas largas e centenárias ainda conserva o som dos passos

fortes do capitão Carlos, de meu bisavô, seu tio Henrique e de

meu avô Leopoldo, do andar macio de sua avó Mariana, o ruído

dos pezinhos a correr do menino Carlos Chagas e os passos

educados da criança carioca, os seus passos, professor Carlos

Chagas Filho.

O célebre e eterno "mingau da Tartária" ainda é servido à nossa

mesa, feito do leite fresquinho de nossas vacas, tirado pelos

nossos retireiros. Tudo igual e tão diferente: não mais os velhos

lampiões e lamparinas, não mais os carros de bois e os

cavalos. Tudo muda, só não pode mudar o coração dos

homens. Neste deverá haver sempre os sentimentos de

hospitalidade, de respeito e temor a Deus, de reverência e

saudade aos nossos antepassados, de garra para enfrentar o

futuro.

Seguindo talvez os seus passos e os de seu pai, Carlos

Chagas, meus dois irmãos Leopoldo e Max estão estudando

medicina. Meus pais lutam para manter a velha Tartária de pé,

para fazê-la produtiva e auto-sustentável, o que não tem sido

fácil. Papai na lida diária do fazendeiro e Mamãe tentando

disfarçar na casa, as velhas manchas do tempo com flores,

paninhos de crochê e tantos mimos mais. Esta é a nossa vida,

queridos professor e dona Annah. Ainda ouvimos de nossos

empregados a velha saudação: "Vamos apiá, a casa é de

vanceis"; nossos morros e colinas ainda estão "lá em riba";

nossos passarinhos ciscam no terreiro e, pela manhã e tarde,

trinam em nossas velhas mangueiras e jaboticabeiras. O "João

de Barro" continua fazendo sua casinha, mantendo a entrada

de costas para a chuva.

Tudo igual, só os homens mudam...

Hoje a Tartária revive seus dias de glória. Já cedinho nossas

portas e janelas se abriram à brisa suave de nossos campos, e

os raios mornos do sol de inverno aqueceram todos os

aposentos para que, quando vocês chegassem, nossas

paredes emanassem o mesmo calor que há tantas gerações

aquece o velho casarão.

Bem-vindos à nossa Casa, queridos professor e dona Annah,

que este momento não seja apenas um momento de saudade,

mas sim a certeza de que as velhas tradições mineiras aqui

ainda estão preservadas. Que as almas daqueles que nos

precederam e iniciaram a história da família Castro, muitas

vezes alegre, outras vezes dolorosa, estejam hoje na Paz do

Senhor Deus e que Ele lhes permita verem, nem que seja por

um breve instante, a alegria deste momento.

Como representante da última geração dos Castro, sinto-me

orgulhosa em saudá-los.

Que esta seja a primeira mas não sua última visita à nossa

Casa e que a proteção de Deus esteja sempre com vocês.

Francisca Vivas de Castro

A religiosidade de meus parentes, aliada à beleza das procissões da Semana Santa e das visitas aos cruzeiros — implantados sempre num ponto alto das fazendas —, começou também a penetrar na minha alma e me fez pensar na existência do além do cotidiano da Terra. Nessas longas caminhadas, muitas vezes comecei a meditar sobre a beleza que trazem ao homem suas crenças e suas esperanças, coisa que existe até hoje como componente essencial de minha alma.