Um aprendiz de ciência
II - Estudos médicos
Minhas últimas férias em Oliveira foram no início de 1926. Dali fui chamado por meu pai, pois deveria prestar exames para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Meu pai percebera que, com a Reforma Rocha Vaz, o programa do mesmo se tornara muito mais complexo, e temia que eu não estivesse bem preparado. Eu deveria, pelo menos, rever alguns pontos da matéria, principalmente aqueles relativos à física e à química. Ingenuamente, eu achava que o que sabia era suficiente e, nos quinze dias que faltavam para o exame, só aceitei receber, de Paulo Carneiro, umas aulas de química. Foi o que me salvou, pois as perguntas com que tive que lidar, na prova escrita e na oral, eram muito mais difíceis do que eu pensara, e a matéria mais complexa do que a que eu aprendera para os exames do Pedro II. Na Reforma Rocha Vaz, que então se implantava, as várias matérias do exame vestibular não eram mais feitas em uma só banca, mas sim em bancas separadas de física, química e história natural. Nas provas escritas, com exceção da de química — graças aos ensinamentos de Paulo Carneiro —, não me saí bem. Assim mesmo consegui classificar-me em 87° lugar, numa turma de pouco mais de duzentos alunos.
Matriculado na faculdade, minha primeira e grande preocupação foi escapar dos primários e lamentáveis trotes com que os veteranos se divertiam à custa dos calouros. Lembro-me, até hoje, da gritaria de alguns alunos mais velhos procurando "o filho do Carlos Chagas", enquanto estava eu escondido num desvão do anfiteatro de física, ajudado pelo Magalhães, velho funcionário da Praia Vermelha.
Iniciado o curso começou o desapontamento. Os professores, embora competentes, limitavam-se a permanecer no edifício da Praia Vermelha pouco além do tempo despendido nas aulas, o que restringia o contato com os alunos. Exceção seja feita ao ensino de anatomia, professada no Instituto Anatômico, na rua Santa Luzia. Embora o material cadavérico para as aulas oficiais fosse relativamente escasso, aquele cedido às aulas dos livres-docentes era, no entanto, abundante; de qualquer modo, podia-se trabalhar com facilidade e dissecar à vontade. Já na cadeira de biologia e parasitologia, que também fazia parte do currículo do primeiro ano, havia apenas dois microscópios, e tínhamos que formar, com graves inconveniências, filas enormes para observarmos, por somente alguns momentos, uma preparação. Em compensação, o professor titular da mesma disciplina, Pacheco Leão, na sua bonomia e grande capacidade didática, era uma atração para nós todos. Diretor do Jardim Botânico, onde residia, recebia-me com freqüência, às tardes, para percorrermos juntos parte do grande parque vegetal. Tal convivência foi importante porque supriu, em muito, as falhas do meu conhecimento biológico. Encantador no falar, Pacheco Leão fascinava-me, ainda, com as estórias que me contava sobre a Bacia Amazônica, que bem conhecera em companhia de meu pai.
Outro curso que nos animava, no segundo ano, era o de histologia: a abundância de microscópios, quase individuais, e de cortes histológicos, fazia-nos sentir mais perto dos objetivos que nos haviam levado à Faculdade de Medicina. Penso que, enquanto alguns dentre nós tinham uma verdadeira vocação para a medicina clínica, era eu mais fascinado pelos microscópios e pela observação do funcionamento de tecidos e órgãos. Foi a falta de uma faculdade de ciências no Rio de Janeiro e no Brasil o que me levou à escolha da Faculdade de Medicina.
A permanência na faculdade era muito agradável. Seu amplo pátio nos permitia uma convivência alegre, muitas vezes chistosa, com os colegas, e o café, na saída dos fundos, era outro ponto de reunião. Além do mais, freqüentemente jogávamos uma pelada no saguão de entrada, interrompida pela chegada do Magalhães, que, com o porteiro João Pedro, formava a dupla de nossos guardiães e, ao mesmo tempo, protetores e vigilantes da integridade da casa. Fiz, nesse período, grandes amizades, entre as quais cito, apenas, Almir Castro, Walter Oswaldo Cruz, Emmanuel Dias, Haroldo de Freitas e Tito Enéas Leme Lopes. Alguns destes me acompanharam pelo resto da vida e, nas minhas lembranças, se confundem com outros como Lozir Vianna, Eudoro Villela, Joaquim de Oliveira Neto e Pedro Nava, que tanto a enriqueceram. Walter, Emmanuel e eu estávamos ligados, também, por laços de amizade familiar. Meu pai trabalhara com Oswaldo Cruz, de quem fora discípulo, e Ezequiel Dias fora seu companheiro nos primeiros tempos de Manguinhos. Os três decidimos usar nossos dias livres, que eram muitos, pois com freqüência nos atulhamos a algumas das aulas práticas, deixando de lado as aulas teóricas, para fazermos um primeiro estágio no Instituto de Manguinhos. Falamos com o velho Chagas, que aceitou nossa idéia e nos encaminhou ao laboratório clinico do Hospital de Manguinhos, solicitando a José Guilherme Lacorte que supervisionasse nossa formação laboratorial. Tudo ali era simpático, até mesmo a longa caminhada que muitas vezes tivemos que fazer da Estação do Amorim até o hospital.
Além de José Guilherme Lacorte, o corpo de pesquisadores do hospital era constituído por Eurico Villela, seu diretor e velho companheiro de trabalho de meu pai, que o trouxera de Belo Horizonte para o Pio, e Álvaro Lobo Leite Pereira. Eurico Villela, cuja fisionomia era marcada pelas amplas sobrancelhas que quase mascaravam a profundidade do olhar, era não só um apurado clínico como um experimentado conhecedor das técnicas laboratoriais. De aspecto severo, escondia, no entanto, uma grande suavidade no seu convívio diário. Álvaro Lobo Leite Pereira, sempre jovial e sorridente, era por igual competente e capaz de pôr em função novas técnicas de bioquímica recém-trazidas do exterior. Quando ali chegamos, Álvaro Lobo ocupava-se da determinação de iodo nas regiões ricas em chagásicos, com o fito de estabelecer o possível relacionamento do hipoiodismo com o freqüente bócio observado nos doentes de mal de Chagas. Era afável e respondia com interesse a todas as nossas curiosidades.
José Guilherme Lacorte, muito simpático, embora taciturno, foi realmente o primeiro mestre que tive nas artes científicas. Começou por ensinar-me a reconhecer os vários vidros do laboratório e como devem ser lavados, utilizando-se soluções sulfocrômicas. Em seguida, o manejo das balanças de precisão, pois ainda não haviam as elétricas, como hoje, e a boa medida era feita pelo método da dupla pesagem. Logo após veio a preparação dos esfregaços de sangue e a contagem percentual dos vários tipos de leucócitos. A fórmula de Schilling, assim conhecida, era, então, uma novidade. Isto sem falar na hematimetria e na leucocitometria. O hematócrito também não ficou esquecido. Todo esse ensinamento me iniciou no método quantitativo e me serviu, mais tarde, para ministrar, durante dois anos, um curso de princípios de hematologia na cadeira de anatomia patológica. Considero o tipo de iniciação que me foi dado, com pequenos exercícios que partem da preparação adequada do material a ser utilizado e com o aprendizado elementar do método quantitativo, o caminho ideal para dar início ao noviciado prático de um cientista.
No Hospital Oswaldo Cruz, mais tarde Hospital Evandro Chagas, ao mesmo tempo que freqüentava o laboratório, ocupei-me do serviço de ambulatório, no qual tive, inicialmente, a supervisão de Álvaro Lobo. Às segundas, quartas e sextas-feiras, examinávamos, aproximadamente, trinta doentes, na maioria acometidos de verminoses e malária, cujo diagnóstico laboratorial era-me fácil fazer. A vida dessas gentes nos obrigava a levar mais tempo do que o comum na anamnese dos doentes, isto porque já se sentia a importância das condições sociais na evolução de uma doença. Foi nessa ocasião que começou a se formar, em mim, a idéia de que, ao lado do aspecto pastoriano das doenças, há um fator social e somatopsíquico cujo desconhecimento pode tornar a doença crônica. Essa idéia levou-me, muitas vezes, a internar doentes cujo tratamento poderia ter sido ambulatorial, a fim de que pudessem eles receber carinho e, no hospital, alimentação mais adequada do que a que receberiam em casa. Essa experiência me levou, bem mais tarde, quando diretor da Faculdade de Medicina, a fazer com que os alunos, antes de se empenharem nas disciplinas clínicas, fossem obrigados a visitar continuadamente famílias de doentes da Ilha do Governador, pois à concepção holística da doença deve-se somar o conhecimento das condições sociais de suas vidas, realizando-se, assim, uma síntese do que deve ser a relação médico-paciente, afastando aquele de uma especialização restritiva. Durante o tempo em que freqüentei o hospital, Emmanuel Dias começou a trabalhar em tripanossomíase americana, e Walter Oswaldo Cruz em hematologia, particularmente em anemia verminótica. Os dois tornaram-se internacionalmente conhecidos por seus trabalhos. Nos últimos anos em que estive no hospital, juntou-se a nós um jovem estudante de medicina, Haiti Moussatché, que, trabalhando mais tarde com Miguel Ozorio de Almeida em um dos laboratórios centrais do instituto, tornou-se, em pouco tempo, um cientista de invulgar prestígio. Dentre os discípulos de meu pai, o mais moço era Gilberto de Freitas, que acompanhou Chagas até o momento de sua morte e se tornou um dos meus grandes amigos.
O ambiente do hospital era fértil para aqueles que ali conviviam. Particularmente alegre era a hora do almoço, quando nos reuníamos todos, e ao qual compareciam, além de meu pai, alguns dos maiores nomes do instituto. Era uma hora de debates em que fervilhavam idéias muitas vezes contraditórias, mas sempre estimulantes para o surgimento de novos conceitos e a abertura de novas hipóteses de trabalho científico. Para os meus dezessete anos, esses contatos eram extremamente importantes e me permitiam enfrentar o dilema de ser, ao mesmo tempo, filho do diretor e irmão de um jovem que crescia na sua produção científica e no conceito de seus pares. Recordo-me, por exemplo, das discussões sobre o bacteriófago, cuja realidade havia sido posta em dúvida, mas que meu pai defendia com ardor, secundado por um especialista no assunto, José da Costa Cruz, certamente um dos maiores microbiologistas que conheci e freqüentemente convidado para almoçar conosco. Lembro-me, ainda, de uma acesa discussão provocada pelo discurso de posse de meu pai, na Faculdade de Medicina, sobre a necessidade da associação da pesquisa ao ensino. Alguns pesquisadores presentes consideravam, ingenuamente, e contrariando os conceitos de Chagas, que o ensino pode ser prejudicial à pesquisa, esquecendo-se de que uma distribuição de tempo bem equilibrada não anula o pesquisador, mas, ao contrário, pode alargar o raio do círculo de seus conhecimentos e de sua capacidade de reflexão.
Foi com pesar que deixei o Hospital Evandro Chagas. É que, trabalhando no Pavilhão Carlos Chagas do Hospital São Francisco de Assis, comecei a interessar-me pela anatomia patológica. O serviço de necropsia obrigatória desse hospital estava instalado num pequeno prédio ao lado do pavilhão e era ligado, diretamente, à seção de anatomia patológica de Manguinhos.
Com a ida de Eudoro Villela para a França, no usufruto de uma bolsa concedida pela Fundação Oswaldo Cruz — criação infelizmente efêmera de Salles Guerra, que não deve ser confundida com sua atual homônima —, um lugar de auxiliar de autópsias surgiu no quadro do Hospital São Francisco de Assis. Pleiteando-o, passei, assim, a trabalhar no lugar de Eudoro Villela, na seção de anatomopatologia, e em Manguinhos. Minha tarefa era árdua, pois iniciava o trabalho às sete e meia para que o serviço de abertura de cadáveres estivesse pronto quando chegassem, para o diagnóstico final, os clínicos do hospital e os patologistas do Instituto Oswaldo Cruz: Osvino Pena, Magarinos Torres, Burle de Figueiredo e Azevedo Penna, todos verdadeiros titãs na especialidade. A minha chegada tão cedo ao necrotério era penosa porque, além de jogar basquetebol, à noite, pelo menos três vezes por semana, eu não dispensava passar pelo Café Lamas — velho café querido! — antes de ir para casa, todas as noites.
Os mestres de Manguinhos eram realmente extraordinários e embasbacavam-nos, a todos que assistíamos ao trabalho, pela precisão com que podiam ligar a lesão anatômica ao quadro clínico. O mais fino, nesse sentido, era Osvino Pena, que, ao mostrar a discrepância entre o diagnóstico por eles elaborado e o achado anatômico encontrado na fria mesa de mármore, nunca deixou mal nenhum dos clínicos. Porções das peças anatômicas eram enviadas aos laboratórios de Manguinhos, onde comecei a trabalhar, para que o exame macroscópico fosse confirmado microscopicamente. Foi um período de extraordinário aprendizado, que me fez compreender a importância da relação entre forma e função, ou seja, estrutura e ação, para a boa interpretação dos fenômenos biológicos normais ou patológicos.
Se minha preparação clínica — feita com Eurico Villela na 12ª enfermaria do Hospital São Francisco e complementada pelo curso de Genival Londres — era apenas satisfatória, a preparação cirúrgica era muito deficiente. Para supri-la, de acordo com meu pai, resolvi passar as ferias de verão em Juiz de Fora, onde morava um de meus colegas mais chegados, Maurício Duarte. Naquela mais do que aprazível cidade fiquei morando na casa do doutor Antônio Augusto Teixeira, na rua Santo Antônio, casado com minha tia Juanita, deliciosa figura feminina, uma das irmãs mais moças de minha avó Mariana. Tia Juanita era um exemplo singular da mãe brasileira, daquelas que Agassiz tão bem descreve no relatório de sua viagem ao Brasil. Religiosa, ia à missa diariamente, e nunca percebi, no seu rosto pleno de bondade, nenhum traço de impaciência ou de irascibilidade.
Antônio Augusto Teixeira era o varão típico da velha Minas Gerais. A voz grossa e o aspecto severo não lhe tiravam os sentimentos de compreensão e amizade com que cercou o sobrinho, no qual encontravam-se, por certo, traços do estabanamento de um jovem carioca. Tempos mais tarde, quando, de madrugada, passava de carro pelas cidades de Minas Gerais, ao ver, contrastando com a maioria das casas já de luzes apagadas as bibliotecas de luzes acesas, nas quais provectos varões de idade avançada liam, lembrava-me sempre de sua figura debruçada sobre os livros, em sua biblioteca. O casal tinha seis filhos. Das três meninas, uma tornou-se freira. O mais velho, Carlos, veio a ser um médico ilustre e um dos fundadores da Escola de Medicina de Juiz de Fora. O mais moço, Antônio, meu coetâneo, tornou-se advogado eminente no foro juiz-forano. José de Castro Teixeira veio para o Instituto Oswaldo Cruz, onde se dedicou, com brilho, à virologia, tendo sido um dos pesquisadores mais diretamente ligados a meu pai.
Para Juiz de Fora levei preciosas descrições e observações de meu pai, que ali passara, intercorrentemente, uma parte da sua adolescência, quando sua avó possuía a Fazenda Bela Vista, no Piau, para depois vir morar na cidade. Com isto quero dizer que já conhecia um pouco das tradições da terra.
Tia Juanita deu-me total liberdade, da qual não abusei. A única coisa que me pediu é que não passeasse na rua onde se instalara o Colégio "Gramberi". Receava que os prosélitos da Igreja Reformada, que haviam instalado magnífico educandário na cidade, me atraíssem para os esportes que ali se realizavam, afastando-me, assim, de Roma. Logo que me arrimei fui procurar Hermenegildo Villaça, o grande médico da cidade, e depois seu filho, João Villaça. Obtive, desse modo, permissão para freqüentar o pronto-socorro.
João Villaça era um médico de qualidades excepcionais. Uma de suas facetas, que é a marca dos grandes homens, era a simplicidade no trato, qualquer que fosse o nível social de seu interlocutor. De fina educação, tinha todos os gestos e a elegância de movimentos que devem ser as características de um bom cirurgião. Ao lado de sua impecável técnica, mostrava uma base sólida. Treinado em patologia durante dois anos no Instituto de Manguinhos, Carlos Chagas tudo fizera para vê-lo ingressar em seus quadros. Em vão. Sua inclinação era a prática médico-cirúrgica, e a mística de sua vida, a cidade de Juiz de Fora, onde se instalou logo ao voltar do estágio na Alemanha.
Guardo, dessas temporadas, a lembrança do carinho com que ali fui tratado por Almada Horta, grande amigo de meu pai, e do enternecimento que me davam as tertúlias literárias, nas quais a figura principal era a de Belmiro Braga.
Voltei, ainda algumas vezes, ao convívio da gente de Juiz de Fora. Gente fina e discreta. Não posso esquecer, por exemplo, umas ferias de São João que passei na Fazenda São Felipe, linda propriedade do cunhado de Maurício Duarte, onde se misturavam o cultivo da terra e a criação bovina. Foram quatro dias de incomparáveis festejos e de alegria sem exageros.
No final do quinto ano médico, um episódio veio modificar a minha orientação profissional, direcionada para a anatomia patológica das doenças tropicais. É que fui assistir a uma conferência do professor francês Fauré-Fremiet, do Colégio de França. Falou ele sobre "a cinética do desenvolvimento", apresentando fenômenos biológicos não só analisados matematicamente como, também, interpretados à luz de conhecimentos físicos e químicos. Fiquei deslumbrado, pois tomei conhecimento de que os fenômenos que eu estudava, macro e microscopicamente, na análise morfológica que fazia, podiam ser aprofundados em uma nova dimensão. Esta seria realmente a que poderia explicar o que a aparência morfológica nos ensinava. Concluí que ali estava o caminho que eu queria seguir. Levei algumas semanas refletindo sobre a atitude a ser tomada: passar da patologia médica ao estudo da essência dos fenômenos celulares. Fui ver meu pai e, pela primeira vez, achei-o alquebrado, pois estava sofrendo de um surto de alergia que lhe atacava, regularmente, as mãos. Um pouco narcisicamente, achei que ele ficaria desapontado com o que seria, na verdade, um abandono da ciência médica tropical. Não foi assim que Chagas reagiu ao meu pedido, considerando-o razoável. Pediu, apenas, que eu fosse passar algum tempo no hospital de Lassance para estudar, em contato próximo, os aspectos essenciais de uma parte das moléstias que assolam o nosso país. Organizou-se, assim, uma pequena expedição, na qual me acompanharam Emmanuel Dias, a auxiliar de farmácia Maria dos Impossíveis, e Raul Avelar, que ajudava meu pai em vários misteres e que bem conhecia Lassance e as regiões vizinhas. Para lá partimos, no princípio de janeiro, e nos instalamos no pequeno hospital onde moramos durante os seis a oito meses que ali ficamos. Ajudou-nos, enormemente, em nosso trabalho, o guia original da região, conhecido como "Caburé", cujo apelido nunca soube compreender, pois era ele um homem de seus quarenta anos, de bela prestância, que nada tinha de cafuzo e que se parecia muito com um dos grandes astros do cinema americano de então, Ronald Colman.
O hospital era um pequeno prédio de um só andar, cinco cômodos, a cozinha e dois banheiros. Um dos cômodos servia de sala de exames, e uma parte de um dos banheiros, de laboratório. Nossas camas eram protegidas por cortinados e, à noite, freqüentemente ouvíamos o bater dos Triatoma infestans, barbeiros invasores de domicílios, contra o filó. Os pés de nossas camas de ferro eram mergulhados em potes de vidro, cheios de soluções tóxicas, impeditivas da subida, para a cama, dos numerosos escorpiões que à noite apareciam. Certa vez, Maria dos Impossíveis, ao tentar pegar um vidro na prateleira de sua farmácia, recolheu o braço com um desses terríveis animais agarrado a um de seus dedos. Foi, certamente, o caso clínico mais difícil com que me defrontei durante a minha estada em Lassance, pois, malgrado o emprego de soro antiescorpiônico produzido pelo Instituto Ezequiel Dias, nada aliviou a dor e o sofrimento de minha auxiliar.
Os dias eram longos. Eu era acordado entre quatro e cinco horas da manhã pelos primeiros doentes que chegavam vindos, muitos deles, de longas distâncias. Gente muito simples, uns mais bem vestidos do que os outros e, apesar das condições sociais muitas vezes precárias, eram eles de grande asseio pessoal; as mulheres vinham sempre acompanhadas pelos maridos. Para minha surpresa, falavam o português sem grandes erros, lentamente, para que cada palavra fosse bem ouvida. Todos tinham um traço de solidariedade com seus compadres e parentes. O diagnóstico não era difícil: verminose, malária e doença de Chagas. As mais das vezes, tinham os chagásicos corações extremamente aumentados — os corações bovinos. Como possuíamos um bom laboratório, um razoável equipamento de raios X portátil e um eletrocardiógrafo de funcionamento regular, podíamos completar os diagnósticos. Uma vez por semana procedíamos a uma reação de Wasserman com amostras de sangue coletadas durante a mesma. O almoço era seguido de uma pequena sesta, depois da qual partíamos para caçar animais vespertinos. Nos dias em que não caçávamos, ou depois da volta da caçada, dedicávamo-nos aos exames de laboratório e à discussão dos casos vistos. Seguia-se o jantar, servido entre seis e seis e meia, o que nos permitia receber, bem cedo, os sanfoneiros e violonistas que nos encantavam até em torno das dez horas.
A caçada era indispensável para a nossa boa manutenção, já que carne só vinha de Curvelo uma vez por semana. Foi um tempo de cardápios extraordinários: codornas, perdizes, jacus, além de rechonchudos leitões presenteados pelos pacientes que atendíamos e que traziam, também muitas vezes, galinhas novas, com as quais o cozinheiro preparava deliciosos pratos ao molho pardo.
Lassance era uma cidade de menos de dez mil habitantes, e as brigas, raríssimas. O mais importante na minha atividade eram as excursões que fazíamos ao redor de Lassance e que tinham por fim verificar o estado de saúde da população rural e esparsa, seja em pequenas localidades, seja em choças isoladas. Noventa por cento dos habitantes dessas choupanas eram malarientos crônicos ou em estado agudo, e quase todos com ancilostomose. O diagnóstico era, em geral, feito com o auxílio de um microscópio portátil, mas o exame do sangue em gota pendente levou-me semanas para aprender. Uma das experiências invulgares que tive passou-se numa das mais longas excursões. Vendo, ao longe, um grupelho de choupanas, para lá me dirigi mais apressadamente, malgrado as advertências do Caburé, às quais não dei atenção. Ali chegando, percebi a razão de sua preocupação. Tratava-se de uma pequena colônia de hansenianos. Segui com eles a rotina de sempre e encontrei, além da doença maldita, o mesmo quadro mórbido reinante em Lassance: anemia, malária, verminoses etc. A única dificuldade que tive foi ter que saborear o café que, gentilmente, me ofereceram em pequenas latas amassadas pelo uso constante. Consegui fazê-lo sem mostrar a menor dificuldade. O café, aliás, era uma cocção de ervas secas do local, que nada tinha a ver com o sabor do mesmo. A doença os tinha marginalizado. Daí a alegria com que nos receberam.
Muitas vezes as excursões se prolongavam por dois ou três dias, o que nos obrigava a arranchar ao relento, já que nos era impossível aceitar a hospedagem nas casas da região, todas elas provavelmente contaminadas pelo barbeiro. Noites inesquecíveis, em que o calor de uma pequena fogueira protegia-nos do frio que assalta o Planalto Central à noite. A conversa se prolongava até tarde. Mas o melhor nesse entretenimento era o Caburé. Contava-nos estórias de fantasmas, mulas-sem-cabeça, feitiçarias e golpes de mau-olhado. A convicção que punha no seu relato era total, principalmente nas estórias em que, em encruzilhadas, o gênio das trevas aparecia. Felizmente, para mim, o cansaço da longa caminhada diária me dominava quando eu já estava prestes a acreditar no que ele contava.
Uma das recordações mais extraordinárias que tenho dessas excursões é aquela em que, chegando depois de uma longa viagem, à tardinha, às margens do rio das Mortes, que passa perto de Lassance, o tropel de nossos cavalos fez com que se levantasse um bando de araras que multicoloriram o céu. Eram cem? Eram mil? Não sei dizê-lo. Georges Bernanos, durante sua estada na vizinhança de Pirapora, assistiu ao mesmo espetáculo. Penso que a ele se referiu em uma de suas cartas a amigos. Dizia ele ser impossível existir um espetáculo tão lindo e tão surpreendente. De outra feita, chegando à margem de um afluente do rio das Mortes, o cavalo que eu montava retesou-se e, empacado, desobedeceu ao meu comando de ir adiante. A causa de sua reação era uma surucucu que passava na beira do regato. Vi, então, como os animais podem sentir presenças que escapam, totalmente, ao homem.
Ao redor de Lassance, multiplicavam-se propriedades agropecuárias, cujos proprietários viviam, muitas vezes, em Curvelo, talvez mais longe. A vida desses donos de terra não era fácil, e as fazendas, ainda que bem mantidas, não apresentavam as mesmas comodidades das que visitei em outras regiões de Minas Gerais. Lembro-me da simplicidade do vestuário do maior latifundiário e criador de gado da região, que se tornou meu paciente. Suas botinas, por exemplo, eram feitas com a carapaça de tatu pregada numa sola de madeira.
Lassance tinha a rua principal, que acompanhava o leito da estrada de ferro, e pequenas ruas que a ela afluíam. Na avenida Afonso Pena, como era denominada, encontravam-se o mercado principal da cidade, uma farmácia, um açougue, um armarinho, o colégio e, mais ainda, muitas das casas dos "notáveis": o juiz de direito, a professora, a residência citadina de alguns dos fazendeiros, o posto policial e uma pequena capela. Duas ruas se destacavam pelo grande movimento: a do "Tiro" e a da "Faca", cujos nomes verdadeiros nunca cheguei a conhecer. Nelas, a grande maioria das casas era constituída por albergarias, ou então bordéis. Nesses locais permaneciam, por alguns dias, os boiadeiros que traziam manadas do interior da Bahia para o abate, em Curvelo. A parada em Lassance servia ao descanso dos peões e, ainda, para o fortalecimento do gado, pois as invernadas que circundavam a cidade eram de boa qualidade, permitindo, em pouco tempo, a engorda da boiada cansada. Os bordéis prestavam homenagem aos visitantes da cidade, que compareciam como convidados de honra aos bailes de sábado. Tinham esses convidados o privilégio de conservar as suas armas, não sendo obrigados a depositá-las em um baú posto na entrada das casas, o que acontecia com todos os outros freqüentadores. Os homenageados não podiam dançar e a eles cabia a conta da cerveja consumida durante a noitada que terminava, impreterivelmente, à meia-noite. A esses bailes vinham os homens da avenida Afonso Pena, nunca acompanhados de suas mulheres, às quais era proibido o convívio com as rameiras. O comércio na cidade era baseado, principalmente, no sistema de escambo: leite por verduras, ovos por came, e outros, já que o dinheiro era muito escasso. Uma nota, mesmo de valor pequeno, era uma posse valiosa, e as moedas, brincadeira de colecionador. Um exemplo que posso dar da importância relativa do dinheiro passou-se durante uma caçada que fiz. íamos em busca de uma onça-preta que estava atacando bezerros pelas fazendas da vizinhança. Numa noite de vigília, quando esperávamos o quase amanhecer, iluminados por uma pequena fogueira na serra do Cabral, me contou Sinhô José, o "onceiro" que nos acompanhava, que havia ele trocado de mulher, mas fora obrigado a recompensar seu comparsa na barganha com dez mil-réis, já que sua nova companheira era de cor branca, e a outra, índia. Em verdade, uma grande parte da sociedade lassanciana era machista, do que dá prova o episódio contado, o que era comum nas cidades brasileiras, mesmo nas de maior porte, como nos é referido por F. Biard no seu livro Deux années au Brésil (1862). Em Lassance, não foi o contato com a natureza primitiva, nem com a força de seus elementos — as trovoadas, a chuva espessa —, tampouco a beleza das noites crivadas de um sem-número de estrelas, entre as quais fulgia, de quando em vez, uma estrela cadente, o que mais me encantou. Foi a gentileza dos homens e das mulheres que lá encontrei. Simpáticos, evocadores das palavras de Deus, tinham na sua simplicidade alguma coisa de evangélico. Se pareciam gente de pouco riso, tinham como próprio cimento da comunidade uma solidariedade que, as mais das vezes, vencia as dificuldades intergrupais. A falta de ociosidade era uma das características daquela gente afeita a toda espécie de obstáculos materiais. De madrugada saíam para os seus afazeres rurais e só depois do sol se pôr é que as pequenas baiúcas se enchiam para o prazer de uma pinga, sempre excelente, de fabricação local ou oriunda das cidades do vale do São Francisco e raramente absorvida com exagero.
A vida terminava cedo, e às oito horas as luzes eram apagadas. Aqui e acolá havia uma rixa, muitas vezes seguida de um trocar de tiros de velhas garruchas — e não de revólveres, como se vê nos filmes de bangue-bangue —, a indicar que os tempos modernos ainda não se haviam integrado aos hábitos da cidade. No hospital, ouvíamos os tiros disparados no centro ou em seus arredores. Como caminha com facilidade o som nas terras despovoadas e de mato rasteiro! Se houve feridos em algumas dessas rixas — e por certo que sim —, nunca fui procurado por nenhum. E que nós, do hospital, éramos considerados como autoridade e, portanto, seríamos obrigados a tomar providências junto ao posto policial, sempre alheio a essas disputas. Na verdade, não estávamos preparados para atos cirúrgicos de maior extensão.
Foi, sem dúvida, em Lassance que aprendi a conhecer as gentes e a apreender melhor o que é a vida. O contato com os pacientes, a simplicidade da linguagem e a sinceridade dos sentimentos do povo que ali conheci foram da maior valia para a formação da minha própria personalidade. Agradavam-me, sobretudo, nesse convívio simples, as numerosas referências que os menos moços faziam a meu pai, que ali vivera por dois anos, pelo menos duas décadas antes. Falavam como se ele ali estivera na véspera. Cada um tinha um caso de um parente que meu pai tratara e, do episódio, guardava a recordação da dedicação, do zelo e da preocupação de Chagas com os seus pacientes. Outros, que com ele haviam caçado, elogiavam sua boa pontaria, sua infatigabilidade e a generosidade com que distribuía o butim que, com maestria, havia obtido. Nunca cheguei a caçar com meu pai, mas sei quanto se sentia remoçado e revigorado nas longas horas que passava espreitando o alçar vôo de uma perdiz ou de uma codorna, açodadas pela chegada intempestiva dos cães caçadores. O convívio com a população de Lassance trazia-me à lembrança os colonos e os tropeiros com quem tantas vezes me entretive na Fazenda da Tartária.
O calor humano dos habitantes de Lassance tornou amena a minha permanência de quase um ano, interrompida por duas vindas ao Rio: para prestar exames nos cursos equiparados, ministrados por livres-docentes — dentre outros, Genival Londres, Maurity Santos, Artidonio Pamplona —, e também para uma supervisão, por parte de meu pai e de Evandro, do que eu lá havia apreendido. Sem dúvida, foi uma experiência de clínica que ficou em minha memória para sempre e deu-me mais confiança no atendimento que me cabia fazer no ambulatório do Hospital Evandro Chagas.
Parti de Lassance certo de que estava mais preparado para a vida e convencido de que deveria realizar o meu desejo de ingressar, o mais rápido possível, no estudo das ciências básicas que servem à medicina.