Um aprendiz de ciência
V - Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
V - Instituto de Biofísica Carlos
Chagas Filho
O Instituto de Biofísica só passou a existir oficialmente com o decreto-lei n° 8.393, de 17 de dezembro de 1945. Sua criação deu-se de um modo todo especial: tendo sido Raul Leitão da Cunha nomeado ministro da Educação e Saúde, chamou-me ao seu gabinete para me perguntar o que eu achava que deveria ser feito por nossa universidade. Respondi-lhe que a primeira coisa seria o estabelecimento do tempo integral, particularmente para as cátedras fundamentais. A seguir, propus a ele que se organizassem institutos de ensino e pesquisa nas várias disciplinas básicas. Era este um assunto que eu havia discutido com professores da Universidade de São Paulo, sendo que, na ocasião, fui uma minoria esmagada. Leitão da Cunha perguntou-me quais os institutos que deviam ser criados imediatamente. Física, química e matemática seriam os primeiros, com a responsabilidade de neles se ministrar o ensino dessas matérias para todos os cursos da universidade. Perguntoume, ainda, o ministro, se eu poderia me ocupar da criação do Instituto de Física. Respondi-lhe, de imediato, que não teria eu a competência necessária, mas que havia na universidade um professor capaz de fazê-lo: Joaquim da Costa Ribeiro. Leitão da Cunha tomou nota e, virando-se para mim, perguntou: "E para você, o que devo fazer?" Disse-lhe sem pestanejar: "Criar o Instituto de Biofísica, que terá a função de implantar a pesquisa na Faculdade de Medicina e trazer para o nosso meio os métodos físicos que despontaram nos centros maiores depois da Segunda Guerra Mundial, e o desenvolvimento dos métodos eletrônicos." Leitão da Cunha aquiesceu imediatamente, como também aquiesceu à minha proposta de incluir, na universidade, o Instituto Oswaldo Cruz e o Museu Nacional. O ministro pediu-me que obtivesse o apoio dos membros dessas duas instituições ao que eu propunha. Foi assim que pude começar a trabalhar com grande independência administrativa - como diretor do Instituto de Biofísica era membro do Conselho Universitário - e recursos necessários ao planejamento que havia feito.
O desafio era mais do que tentador, pois ia realizar o sonho de ver a pesquisa básica ser exercitada na Faculdade de Medicina. Dois problemas, entretanto, surgiram para serem resolvidos imediatamente. O primeiro, o do potencial humano, então inexistente. O segundo, o do equipamento do laboratório com as novas técnicas físicas e bioquímicas que havia visto e aprendido, algumas delas, na minha viagem à Europa. Em seguida, havia o problema da escolha de um tema de pesquisa que reunisse um certo número de características e, principalmente, a de ser um modelo encontrado, se possível, somente no Brasil. Isto para pôr em ação a minha idéia de que, em países como o nosso — estamos no início da década de quarenta —, a pesquisa chamada "nacional" deve tratar de um assunto característico do país, ainda que usando a melhor colaboração técnica e intelectual do estrangeiro.
Quanto à formação de pessoal, era-me fácil compreender que, com a guerra, o avanço técnico e científico dos países do Primeiro Mundo havia aumentado consideravelmente. Quantos foram os instrumentos que, na minha curta viagem à Europa eu só havia visto em livros e revistas! Para a constituição do núcleo de jovens pesquisadores que se juntaram a mim e que, realmente, permitiram a formação do Instituto de Biofísica, procurei, em nosso país, encontrar alguns dos elementos de que necessitava. Tive então a surpresa agradável de ver o instituto ser procurado por inúmeros estudantes de medicina e de outras disciplinas, os quais se juntaram ao pequeno núcleo formado por Tito Leme Lopes, Moura Gonçalves, José Veiga Salles e Oromar Moreira. Todos os companheiros do primeiro grupo tiveram projeção na comunidade científica e muitos deles vieram a ser titulares, seja na nossa universidade, que ainda se denominava Universidade do Brasil, seja em outras. Creio que a atração pelo instituto nascia do fato de estar ele muito perto do centro da cidade, único campo em que podia competir com o Instituto Oswaldo Cruz. Creio, ainda, que o nome de meu pai exerceu influência nessa procura e, por fim, a minha relativa mocidade, talvez, o que me permitiu uma grande convivência com alunos pouco mais moços do que eu.
Preocupei-me, também, com o ensino ministrado em aulas teóricas — três vezes por semana — e aulas práticas dadas para pequenas turmas. Ao mesmo tempo, interessei-me pela modificação dos métodos de ensino, com a possível utilização dos novos métodos de comunicação. Estava eu influenciado pelas palestras às quais assistira de um educador francês, L. Dieuzaide, que realizara, na França, experiências do mais alto interesse. Para tanto, chamei de Brasília o livre-docente de biofísica Luiz Carlos Lobo. Assim foi feito o projeto do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (Nutes) que, localizado inicialmente numa das salas do nosso instituto, na Praia Vermelha, foi posteriormente instalado no Edifício do Centro de Ciências Biomédicas, no Fundão. O Nutes deu origem a um projeto patrocinado pela Organização Pan-Americana de Saúde, destinado a levar aos países latino-americanos, por meio do Centro Latino-Americano de Tecnologia, Educação e Saúde (Clates), as vantagens metodológicas obtidas aqui no Rio.
Quanto ao tema de pesquisa, o tempo de escolha foi mais longo. Sabia que o grupo de Aristides Leão iria trazer para o laboratório o estudo do sistema nervoso central, capítulo assim resolvido. Entre modelos abundantes em nosso país, cogitei do bicho preguiça e dos vaga-lumes, extremamente abundantes em alguns pontos do país, porém já utilizados em laboratórios de projeção, como os de Newton Harvey, da Universidade de Princeton. A preguiça é de difícil manutenção em cativeiro e foi preterida pelo peixe-elétrico do Amazonas, o chamado poraquê, para o estudo do qual o Jardim Zoológico de Nova York havia organizado recente expedição ao Amazonas. Essa expedição fora subsidiada por um milionário americano, B. Baruch, que tinha sido informado de que, do órgão elétrico do poraquê, poder-se-iam tirar substancias de ação contra a impotência sexual. O ministro da Agricultura de então, Fernando Costa, por coincidência ou por informação cuja origem desconheço, chamou-me, um dia, ao seu gabinete e prometeu-me recursos bastante amplos para que eu estudasse o vaga-lume. Tal oferecimento, de grande valia, mostrava, sem dúvida, o alto interesse de Fernando Costa pela exploração de riquezas brasileiras. Levei algum tempo estudando a bibliografia existente sobre o assunto e cheguei à conclusão de que, provavelmente, a escolha seria decepcionante, face ao que se estava fazendo em países mais bem apetrechados. Ainda mais que, na época, a importação do moderno equipamento produzido durante a guerra era de difícil acesso.
O poraquê parecia-me ideal para o estudo das transformações energéticas em seres vivos. Tendo em vista o que observara em Paris, nos seminários de Auger e Fessard sobre o Torpedo, uma oferta decidiu o que deveria fazer. Veio ela do empresário Joaquim Rôla, que, na ante-sala do Cassino da Urca, de sua propriedade, mantinha um aquário repleto de poraquês, com a finalidade de mostrar ao público, muitas vezes embasbacado, a faculdade na produção de eletricidade por animais. Prometeu-me fornecer aqueles de que eu necessitava e, mais ainda, apresentou-me ao senhor Bernardo Maiman, que, ictiologista amador, trazia do vale amazônico peixes que serviam como atrações circenses. Com essa ajuda, via eu o caminho que desejava seguir. Electrophorus electricus — condutor de eletricidade, como o apelidou Lineu — era um espécimen biológico que me permitiria estudar, ao lado da transformação bioquímica em energia elétrica, aspectos extremamente interessantes da bioquímica, bioestrutura e biologia celular, em estudo comparativo com outros animais, principalmente aquáticos. A multiplicidade de possibilidades de linhas de pesquisa que o animal oferece traz, ainda, a oportunidade de uma investigação multidisciplinar, que é o caminho mais certo para o desenvolvimento científico, infelizmente perturbado, hoje, pela especialização linear.
O outro campo de atividade com que tive que me defrontar foi o da formação de pessoal. Dois caminhos tinha eu a seguir o primeiro, o da formação em nossos próprios laboratórios, daqueles que o desejassem. O segundo, o envio ao estrangeiro do maior número possível de moços e moças cuja experiência é hoje denominada, com freqüência, de "iniciação científica". Infelizmente, na ocasião não haviam fontes financeiras em nosso país para esses estágios no estrangeiro. Tive, então, a ajuda da Fundação Rockefeller, que só se alargou, mais tarde, com o Conselho Britânico, também muito restrito em suas possibilidades, e, finalmente, o Serviço Cultural do Ministério das Relações Exteriores da França, aquele que mais socorreu o instituto, principalmente quando, em Paris, foi assumido por Louis Joxe e madame Gabrielle Mineur, que veio a ser adida cultural da França no Brasil, e que aqui exerceu uma incomparável atividade de cooperação entre os nossos países.
Uma terceira etapa consistiu em fazer vir, para estagiar em nosso instituto, o maior número de cientistas, de bom ou melhor calibre, dos países desenvolvidos. Esta foi, aliás — e não o esqueçamos —, a política de Oswaldo Cruz, trazendo para trabalhar em Manguinhos von Prowazeck, Max Hartmann, G. Giemsa e Hermann Düerck. Seguindo essa orientação, o instituto recebeu mais de duzentos visitantes, na sua quase totalidade cientistas de notório saber e grande congenialidade.
Dos primeiros visitantes a estagiar conosco por mais tempo cito René Wurmser e sua mulher, Sabine Filitti Wurmser, os quais, deslocados de Paris para Lyon pela ação inconseqüente e maldosa da Gestapo, aqui vieram passar um pouco mais de dois anos, até que o governo do general De Gaulle mandou buscá-los para que auxiliassem as tropas independentes francesas no seu esforço de guerra. A colaboração dada pelo casal Wurmser ao nosso desenvolvimento é incalculável. Partilharam conosco todos os problemas e nos ajudaram a vencer as vicissitudes.
Ao chamar cientistas estrangeiros para estagiarem no Instituto de Biofísica, nunca me preocupei com o tempo que aqui deveriam ficar, mas sempre com a qualidade daquilo que vinha escrito nos contratos. Certamente, a de Wurmser foi a mais longa permanência, e a mais curta foi a de Fritz Lipmann. Este passou oito dias nos laboratórios da Praia Vermelha, mas foi o suficiente para configurar, a todos os que ali foram ter nas longas aulas-conferências que Lipmann pronunciou, a significação exata dos ligamentos fosfóricos ricos em energia e do modo de transmissão da mesma de molécula para molécula. Parece-me que ficou satisfeito com os contatos feitos e com o nível de conhecimento encontrado, dizendo-me mesmo que receberia em seus laboratórios, com a maior satisfação, um dos meus mais brilhantes companheiros de trabalho, Maury Miranda.
Dentre as iniciativas tomadas nessa ocasião, assinalo a criação de um laboratório de radiobiologia e um de citoquímica. A necessidade de um laboratório de radiobiologia era iminente pelo fato de se dar um fundamento científico mais exato à radioterapia, e pelo desenvolvimento que as pesquisas com energia nuclear haviam tomado. Estamos, ainda, na época do assombro e horror causados pelas explosões de Hiroshima e Nagasaki, e do atraso nos conhecimentos básicos que pudessem se contrapor, por menor que fosse o efeito, à terrível destruição produzida pelas armas nucleares. A primeira medida tomada nesse sentido foi o convite feito a Raymond Latarjet, um jovem e já ilustre pesquisador francês, para vir ao Brasil. Latarjet aqui esteve durante três meses e, terminado seu estágio, convidou, para minha alegria, um dos jovens que se ensaiavam na ciência, Luiz Renato Caldas, a estagiar no Instituto Curie, de Paris. Luiz Renato Caldas cursava, na ocasião, o segundo ano médico, mas teve coragem bastante para aceitar o desafio e interromper, por quase um ano e meio, o seu curso na Praia Vermelha. A estada de Caldas em Paris deu-se em momento extremamente oportuno, pois abria-se à ciência moderna a era da biologia molecular e os pesquisadores do Instituto Pasteur, Jacques Monod, François Jacob e André Lwoff, trabalhavam em íntima colaboração com a equipe do Instituto Curie. Mais tarde, para acompanhar o desenvolvimento da chamada biologia moderna criou-se, no Instituto de Biofísica, uma seção de radiobiologia, que lhe foi entregue. Desde esse momento, estudos sobre o bacteriófago tornaram-se rotina na instituição. Este setor ampliou-se com a criação de um laboratório de fotobiologia, onde foram estudados os efeitos terapêuticos do ultravioleta no herpes e a ação bacteriotóxica do corante que tinge as águas do rio Negro.
Luiz Renato Caldas deu um grande impulso à radiobiologia em nosso país. Moço, não poupou suas energias, dividindo-as, sabiamente, entre o Hospital dos Servidores, onde ingressou por concurso, em primeiro lugar, e o Instituto de Biofísica, no qual passava a maior parte do tempo. Pelas condições especiais da disciplina, Caldas foi um dos poucos pesquisadores da Biofísica a dividir suas atividades em duas etapas: a da pesquisa fundamental, que exercia no Instituto de Biofísica, e a da aplicação dos conhecimentos obtidos, aqui e além-mar, na radioterapia do câncer.
A regra do tempo integral ou exclusivo é essencial para o desenvolvimento científico de uma instituição de pesquisa. Houve instituições dessa ordem, no Brasil, que tiveram as maiores dificuldades no seu próprio desenvolvimento ou, então, tiveram o seu trabalho esmorecido porque não conseguiram as condições necessárias para implantar, nos seus quadros, o tempo integral, conquista da ciência que de nenhum modo pode ser menosprezada. Essa dificuldade se acentuou ainda mais quando, à medida que o país se desenvolveu, instituições públicas ou particulares vieram procurar, nos quadros científicos, os elementos necessários à sua evolução, e tornou-se gravíssima quando a nova Constituição, promulgada em 1938, proibiu, como já dito, de maneira a mais vigorosa, qualquer tipo de acumulação de cargos. Tão saudável disposição só poderia ser realizada se os salários dos pesquisadores tivessem sido elevados, de forma que não lhes fizesse falta a fração que o dispositivo de desacumulação retirava dos seus estipêndios mensais. Essa situação não alcançou o Instituto de Biofísica, apenas começante, mas descontrolou algumas das melhores instituições de pesquisa e atingiu, profundamente, as universidades, cujo corpo docente possuía, em grande parte, professores que acumulavam outros cargos. Este é um exemplo de uma medida que, sendo indispensável, teve um efeito que custou a ser saneado, e só o foi quando o Conselho Nacional de Pesquisas, graças à ação de Simões Lopes e do almirante Álvaro Alberto, criou bolsas complementares de tempo integral e novos dispositivos legais vieram tornar possível alguns casos de duplo emprego. Durante esse tempo, o Instituto de Biofísica foi crescendo, principalmente no setor de pessoal. Muitos dos jovens que foram procurá-lo resolveram permanecer em seus laboratórios. Verifiquei, então, como tinha sido profícua a transformação do laboratório em instituto, pois, para vários deles, pude encontrar situações que, embora não fossem ideais, eram equiparáveis às bolsas do Conselho Nacional de Pesquisas, sem dúvida um dos alicerces da edificação do instituto e um dos elementos-chave do desenvolvimento da ciência brasileira, a partir dos meados do século XX.
Quando senti que poderia me afastar do instituto por algum tempo, resolvi fazer uma segunda viagem de aperfeiçoamento ao estrangeiro. Essa viagem foi de extraordinária significação para mim. Ampliei na França, na Itália e na Inglaterra o meu universo cultural e apreendi como evoluiu a ciência moderna, assim chamada aquela que se desenvolveu, sobretudo durante e após a Segunda Guerra Mundial. Sem dúvida, essa viagem, embora curta, pois fiquei apenas cinco meses na Europa, deu-me uma nova dimensão da significação da ciência e da tecnologia no mundo moderno e um conceito de como elas devem se desenvolver.
Foi o que tentei fazer no Instituto de Biofísica. Criei o instituto movido por razões que cada vez me parecem mais claras. Para poder pesquisar na universidade, precisava eu de certa liberdade administrativa, o que a nova situação institucional me dava tirando parte do peso burocrático que existe em qualquer atividade ligada ao Estado. Com o instituto, podia me mover muito mais facilmente dentro da universidade. Além do mais, e possivelmente de maneira primordial, teria eu independência para dirigir-me às fontes doadoras de recursos, tais como o Congresso Nacional, as fundações estrangeiras, ministérios e personalidades de visão. A criação do instituto causou, em muitos círculos, apreensão, e algumas tentativas de cópia da minha iniciativa foram ensaiadas. Na verdade, não era ela, propriamente, uma inovação, pois já existia na universidade um Instituto de Radioterapia e, ao mesmo tempo, uma situação especial dada à clínica obstétrica, na maternidade-escola. Achei melhor não entrar em polêmica e a única pretensão que se realizou foi a de que o diretor do instituto pertenceria ao Conselho Universitário.
Foi essa uma época em que realizei, auxiliado por vários dos meus amigos, muitas das minhas idéias sobre pesquisa, universidade e sociedade. Na universidade, por exemplo, como já mencionado, chamei a atenção de Leitão da Cunha, então ministro da Educação, para a criação de institutos básicos de ciência, que foram implantados. Obtive, também, a inclusão do Museu Nacional na nova instituição, criando-se a categoria de Instituição Nacional. Infelizmente, tal iniciativa gorou em relação ao Instituto Oswaldo Cruz. Embora vencido, não fiquei convicto. O episódio pode ser relatado, pois é curioso. Para incluir o Instituto de Manguinhos na universidade, o ministro Leitão da Cunha solicitou-me que obtivesse um documento no qual a maioria dos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz se mostrasse de acordo com a idéia. Isto foi executado sem dificuldade e a transferência foi feita e, logo em seguida, desfeita, em face de um novo abaixo-assinado firmado, na sua grande maioria, pelos mesmos signatários do primeiro, pedindo que o ato fosse revogado. O que aconteceu. Consegui, ainda, um regulamento para o Instituto Oswaldo Cruz, com a criação de departamentos especializados. Não que eu quisesse comandar o Instituto de Manguinhos, mesmo porque já recusara, por três vezes, um convite presidencial para presidi-lo. E que a minha formação dentro do espírito do Instituto de Manguinhos a ele me ligou, definitivamente, e de forma inapagável. Chego algumas vezes a crer que, se o meu pensamento e a minha emoção se fixam no desenvolvimento do Instituto de Biofísica, uma grande parte do meu coração permanece do outro lado da avenida Brasil, no Instituto Oswaldo Cruz.
Na criação do Instituto de Biofísica não houve, da minha parte, o menor desejo de engrandecimento, ou de me sobrepor à atividade de meus outros colegas universitários. Conduziu-me, nessa operação, o desejo de implantar na universidade, marcada pelo interesse intelectual dos jovens e das jovens que a procuravam, as novas técnicas que havia visto na Europa e que ainda não eram correntes no Brasil, muitas delas podendo trazer, até mesmo, modificações conceituais nos modelos institucionais que as caracterizavam.
Não foi difícil a formação de pessoal necessário. A verdade é que, como já disse, começaram a aparecer rapidamente candidatos a um estágio nos laboratórios do instituto. De outra parte, eu mesmo quando encontrava provas de vestibular de excepcional qualidade, convidava o aluno a procurar-me e comigo discutir a validade de um aprendizado científico e, até mesmo, de uma carreira científica. Os que aceitavam o meu oferecimento recebiam uma pequena ajuda mensal, sob a égide de monitoria. O aluno aceito depois da entrevista, quase sempre feita comigo, era encaminhado a um dos pesquisadores do instituto, que assumia, então, a tarefa de ser orientador. Além do mais, o instituto ministrava um curso especial para os monitores no qual aprendiam as técnicas comuns no laboratório de pesquisa, começando pela lavagem de vidros. Antes do término, tinham eles obrigação de fazer o cálculo estatístico das medidas realizadas. Aos que se destacavam nesse estágio, a ida ao estrangeiro, para o aperfeiçoamento, era-lhes facilitada.
Se não houve muita dificuldade no encontro de candidatos às monitorias e à construção da base científica de sua formação, a escolha de um modelo biológico recaiu, como já disse, no Electrophorus electricus (L.), pelo número de mecanismos biológicos diversos nele encontrados. E ainda, porque a missão de Coats, Cox e Nachmanson, pesquisadores norte-americanos do Jardim Zoológico de Nova York e da Universidade de Columbia, subvencionados por uma fonte privada para estudar o E. electricus na Bacia Amazônica, havia publicado um longo artigo sobre os aspectos macroscópicos da atividade do poraquê. A leitura desse artigo serviria de guia para a comparação com os resultados que obtivéssemos. Na verdade, assim foi. Não conseguíamos encontrar a velocidade de transmissão nervosa que aqueles autores citavam e que estavam em profundo desacordo com aquela que era considerada normal pelos neurobiologistas da época. Aqueles pesquisadores partiram do pressuposto de que a descarga elétrica iniciava-se no limite anterior do órgão principal, quando, na realidade, ela se deflagra no terço médio, propagando-se o fenômeno excitatório para a frente, ou seja, para a cabeça, e para a extremidade posterior.
Na primeira vez que fiz uma exposição sobre os trabalhos realizados no instituto, a assistência, composta por pesquisadores do Departamento de Fisiologia do University College, em Londres, local da minha preleção, deu sinais evidentes de regozijo por eu ter encontrado um engano na referida publicação. Por isso mesmo, quase todas as questões que me foram formuladas ao término da minha exposição referiam-se a essa omissão dos articulistas.
O peixe-elétrico, portanto, tornou-se uma das três linhas-mestras da pesquisa do Instituto de Biofísica. Uma outra foi o estudo da chamada depressão alastrante, ou Leão's spreading depression, como é conhecida mundialmente. Esse fenômeno foi descoberto por Aristides Azevedo Pacheco Leão, que ingressou no quadro do instituto logo depois de sua chegada dos Estados Unidos, onde trabalhou num dos mais famosos centros de fisiologia da América do Norte: a Universidade de Harvard. Aristides Leão, sem dúvida um dos maiores cientistas que conheci, era extremamente simples e culto, grande estimulador da pesquisa entre os jovens e excepcional professor de fisiologia geral e comparada, sobre a qual discorria com facilidade e profundidade, o que só o conhecimento e a reflexão podem trazer. Tinha, além do conhecimento real do seu campo de trabalho — a eletrobiologia —, uma esplêndida erudição e vasta capacidade criativa em todo o domínio da biologia básica e da ecologia. Integrado ao instituto, Leão rapidamente organizou o seu laboratório, cercado de seus discípulos, entre eles Hiss Martins Ferreira, Eduardo Oswaldo Cruz, Romualdo José do Carmo, Carlos Eduardo Rocha Miranda e Gustavo de Oliveira Castro, os quais rapidamente transformaram-se em chefes de escola. Desenvolveram-se trabalhos sobre bioeletrogênese no músculo cardíaco embrionário. Esta linha, conseqüência do interesse em estudar a eletrogênese cardíaca, trouxe ao Brasil, por seis meses, o professor Brian Hoffman, da Universidade do Estado de Nova York.
Muitos foram os pesquisadores estrangeiros que estagiaram nos laboratórios de eletrofisiologia do instituto. Destaco a presença de Jan Bures, da República Tcheca; Wade Marshall, do National Institutes of Health (NIH), EUA; Tsuneo Tomita, da St. Marianna University, Japão; e Charles Nicholson, da Universidade de Nova York, EUA. Bures , cujo laboratório tem estudado a depressão alastrante durante várias décadas e que publicou um importante livro de revisão sobre mecanismos e aplicação do "fenômeno de Leão", visitou o Brasil, patrocinado pela Unesco.
A messe de atividades científicas do grupo permitiu a realização de um significativo simpósio internacional, organizado por Romualdo José do Carmo, que resultou na publicação de um volume, Spreading Depression, pela Springer-Verlag, em 1992. Aristides, falecido em dezembro de 1993, deixou um grande número de discípulos espalhados no Brasil e além-mar, como testemunha Jan Bures, representando a Academia de Ciências da República Tcheca, na homenagem póstuma que a Academia Brasileira de Ciências lhe dedicou, em abril de 94:
I feel to be an old alumnus of Leão's invisible college, of the
informal scientific community the members of which are
scattered all over the world, but are nevertheless unified by the
mysterious spell of a challenging problem, by the strong bonds
formed in the joint pursuit of knowledge.
Isto é uma indicação de seu valor e do seu reconhecimento como cientista pela comunidade científica internacional. Aristides era um artífice experimental de qualidade insuperável. Suas experiências, simples e facilmente reproduzíveis, apresentaram resultados de extraordinária significação para o conhecimento do funcionamento do cérebro. Não só descobriu o fenômeno da depressão alastrante como, já aqui no Brasil, descreveu todas as suas principais características. Consiste a depressão alastrante de um apagamento reversível da atividade elétrica espontânea do córtex, causada por estimulação local, que invade, lenta e sucessivamente, as regiões circunjacentes — donde o nome depressão alastrante — e pode passar de um hemisfério para o outro. Provavelmente está ligada aos mecanismos íntimos de certos fenômenos patológicos que ocorrem no cérebro, como, por exemplo, a epilepsia jacksoniana e a enxaqueca. Alterações físico-químicas, que ocorrem no momento de sua produção, são estudadas, cuidadosamente, não só aqui no Brasil, mas em vários laboratórios espalhados pelo mundo, e podem trazer contribuição de grande valia para o conhecimento dos fenômenos psicossomáticos. Aristides Azevedo Pacheco Leão teve decisiva influência na projeção internacional do Instituto de Biofísica como instituição de excelência.
A terceira linha a que quero me referir é a do cultivo do tripanossoma em cultura de tecidos. Foi graças ao estímulo e à subvenção material que Evandro Chagas me deu que resolvi, ao assumir a cátedra, criar um grupo em torno desse assunto, já que era de interesse do Serviço de Estudo das Grandes Endemias. Hertha Meyer trabalhou no instituto como líder do laboratório de cultura de tecidos até o seu desaparecimento, em 1990, aos oitenta e dois anos, sem descanso ou férias prolongadas. Tornou-se uma pesquisadora de renome internacional e o seu trabalho permitiu à UFRJ conceder-lhe o título de Doutor Honoris Causa, primeiro título honorífico do seu curriculum vitae. A assiduidade de Hertha Meyer ao trabalho, no qual punha toda a sua dedicação e inteligência, foi certamente um grande estímulo a todos os jovens que passaram a estudar e trabalhar no Instituto de Biofísica.
Outro fator decisivo no desenvolvimento inicial do instituto foi o da presença, em seus laboratórios, do casal René Wurmser. Quando da minha viagem à Europa, logo depois de empossado na cátedra, conheci René Wurmser, como já relatei, no Instituto de Biologia Físico-Química, em Paris. Com ele trabalhei durante três meses. Wurmser, um varão de excepcionais qualidades, tinha uma personalidade tão forte que transparecia através de sua simplicidade. Havia feito uma carreira brilhante. Mobilizado durante a Primeira Guerra Mundial, fez parte do Corpo Expedicionário Francês que foi combater nos Dardanelos. Na volta à França, foi chamado a trabalhar na Sorbonne para, logo depois, fazer parte da extraordinária missão francesa que foi criar a Universidade de Estrasburgo, composta de um grupo de excepcional capacidade científica e qualidade humana. O governo francês enviou esse grupo à Alsácia, já agora desocupada, para dar maior prestígio à presença francesa nas províncias que os alemães, pelo Tratado de Versalhes, foram obrigados a devolver à França. Já em Estrasburgo, Wurmser começou seus trabalhos sobre fotossíntese, ali determinando o fator de transformação de energia trazida pelos fotões ao processo de fotossíntese. Wurmser foi um dos principais autores da trans-formaçao pós-pasteuriana que a biologia francesa experimentou após a guerra. Sua estada no Brasil, bem como a de Sabine, sua mulher, foi um sucesso. Serviu para a introdução da nova metodologia criada no após-guerra, assim como para a formação de novos cientistas, pois ambos eram bons orientadores e muito generosos na apreciação dos jovens aprendizes de ciência. E ainda deram vigor ao campo da biologia moderna entre nós. A presença do casal Wurmser no Rio de Janeiro, interrompida várias vezes para idas a São Paulo e a Minas Gerais, trouxe-nos benefícios incalculáveis. A afeição que dedicavam à terra francesa, berço de René e pátria adotada por Sabine, de origem romena, fez com que ambos vivessem os férvidos dias do fim da guerra numa intensidade angustiante, ainda que vivida com a certeza da vitória. Lembro-me da emoção de ambos, que era a de nós todos, antinazistas, no dia do desembarque das tropas aliadas na Normandia. Era a jogada final, da qual sairia ou a vitória da justiça e da razão, ou a destruição da liberdade. Por coincidência, passamos a noite na casa de minha mãe, com a qual morava minha avó, Maria Lobo, oitenta anos já passados, porém, a mais segura da vitória dos aliados, o que fazia com que ficasse com seu rádio ligado, até bem passada a hora da meia-noite, ouvindo a última emissão, em português, da BBC de Londres e pondo-se, assim, em contato com as últi-mas notícias da batalha que ocorria no continente europeu.
René Wurmser foi recebido com calor pela comunidade acadêmica brasileira. A sua modéstia e simpatia envolventes, bem como a vontade de prestar serviço, fizeram dele amigo de numerosos companheiros. Disto tenho conhecimento pelas visitas em que o acompanhei, a São Paulo e a Belo Horizonte. Tornou-se amigo de Georges Bernanos, com o qual passou vários fins de semana, em Paquetá, quando Bernanos deixou Barbacena para vir morar no Rio, segundo ele, para ficar mais perto da guerra. Wurmser admirava, profundamente, a francofilia do povo brasileiro, que os arroubos integralistas do governo não tinham conseguido arrefecer. Um dos episódios que talvez mais o ligaram ao Brasil passou-se quando de nossa volta de Belo Horizonte, onde havíamos ido participar de uma reunião científica. Ao pararmos em um pequeno restaurante em Itabira, para jantar fora de hora, o garçom começou a falar francês conosco. Wurmser, surpreso, perguntou-lhe como aprendera aquela língua. O rapaz, timidamente, informou-lhe que nunca havia saído de Itabira, mas que aprendera francês porque a considerava uma língua de inigualável beleza. Bernanos, que estava conosco, e os Wurmser foram tomados de um irresistível choro convulsivo. Tempos mais tarde, quando Bernanos tomou o pequeno vapor que o levaria a Londres, fui acompanhá-lo até o cais. Ao voltar, pesou-me o coração. Sabia que perdia um sólido apoio, de todos os pontos de vista.
Alguns meses mais tarde, fiz de novo o caminho do cais, para levar o casal Wurmser ao navio que também tomaria o rumo da Inglaterra, onde René iria trabalhar no grupo de cientistas que se juntara ao general De Gaulle para combater a ocupação da França pelas tropas hitlerianas. Wurmser contou-me, depois, a tensão em que ali viveram, sob a ameaça constante dos engenhos V1 e V2.
A presença de René Wurmser no instituto abriu caminho para a minha intenção de trazer ao convívio dos meus colegas os grandes nomes da ciência internacional, o que foi uma linha seguida pelo Instituto de Biofísica, como já mencionei. Durante a guerra, essa comunicação internacional era bastante difícil, direi mesmo, quase impossível. Alguns cientistas americanos percorrendo a América Latina se detinham no Rio e era já o instituto que os acolhia. Um dos que mais tempo se demoraram em nossos laboratórios foi Keith Porter, da Universidade de Harvard, que foi ao laboratório de Hertha Meyer para verificar, de visu, a cultura de plasmódios em cultivo de tecidos. Nossa expectativa era sondar a possibilidade de uma cultura mais abundante que permitisse a obtenção de estudos avançados sobre a capacidade de formação de anticorpos nos animais de experiência, o que seria um caminho para a obtenção de uma vacina antimalárica — tanto mais necessária quanto essa endemia aumentava em todo o mundo e, particularmente, nas regiões asiáticas, para onde a guerra se havia estendido. Os plasmódios haviam se tornado resistentes a uma série de produtos químicos de uso habitual. O fim da guerra determinou a cessação dessa linha de trabalho.
De um certo momento em diante, tornou-se fácil a obtenção de recursos para trazer ao Rio eminentes cientistas de maior ou menor projeção internacional. As fontes, como já dito, foram a Rockefeller Foundation, responsável pela vinda do casal Wurmser; o governo francês, por meio do Departamento Cultural do seu Ministério do Exterior; o British Council; a Unesco; e Guilherme Guinle. Evidentemente que, com a criação do Conselho Nacional de Pesquisas, tornou-se muito mais fácil o intercâmbio com os centros científicos do mundo.
Uma boa contribuição ao desenvolvimento do Instituto de Biofísica foi a estada, entre nós, de Giuseppe Occhialini. Quando o Brasil entrou em guerra contra os afiados de Hitler, a Universidade de São Paulo teve que romper o contrato de trabalho que tinha com Occhialini. Conhecedor do fato, comuniquei-me com este e ofereci-lhe as condições, que não eram faustosas, para trabalhar no instituto. Occhialini aceitou e, durante o período de quase um ano em que esteve conosco, foi mais do que um esplêndido companheiro. Habilíssimo experimentador, bom físico teórico, a sua exuberante maneira de ser e de viver deu aos nossos laboratórios impulsos em todas as direções. Occhialini era, além disso, um grande curioso, o que caracteriza o cientista de alto nível. Rapidamente tomou conta de muitas das nossas atividades e, com sua iniciativa e inventividade, utilizou uma grande parte da aparelhagem que havia caído em desuso, guardada nos grandes armários que ocupavam o maior espaço do nosso departamento. Seu interesse científico, naquele momento, era a obtenção de emulsões fotográficas capazes de observar reações nucleares de pouca energia. Para isso, Occhialini mobilizou, praticamente, todo o pessoal auxiliar do instituto. Entretanto, seu charme, sua graciosa ironia e o sorriso que sublinhava a extraordinária limpidez dos seus olhos verdes tornaram possível uma convivência perfeita, que nunca se deteriorou. Sua ansiedade pelo que se passava na Europa e o seu enraizado antinazismo tiravam toda a tranqüilidade que um momento de calma pudesse lhe dar. Sua carreira científica foi brilhante e sustenta-se que pelo menos um Prêmio Nobel dado a um cientista inglês foi conseqüência do trabalho de Occhialini, quando de sua passagem pela Inglaterra. Conta-se, também, que nessa admirável nação de grande projeção científica, como é hábito colocar-se, depois do nome, iniciais qualificativas do currículo ou de uma honraria concedida pelo governo de Sua Majestade, Occhialini passou a se assinar Giuseppe Occhialini A.U.F., em um deboche, evidentemente, pelo sistema adotado, pois as iniciais A.U.F. indicariam as palavras Atleta da Universidade de Florença. Era a sua agulhada no establishment acadêmico inglês. Occhialini teve atuação brilhante no Departamento de Física da Universidade de São Paulo, onde o conheci e onde trabalhavam Marcelo Damy de Souza Santos, Gleb Wataghin, Paulo A. Pompéia, entre outros de grande mérito. Foi ali que se iniciou Cesar Lates. O Departamento de Física atingira, rapidamente, desde a sua formação no momento da criação da Universidade de São Paulo, um alto nível científico e prestígio internacional e prestou uma colaboração extraordinária ao Instituto de Biofísica. Interessado pela aplicação de radioisótopos, mas com conhecimento apenas livresco das técnicas utilizadas, fui àquele departamento aprender aquilo de que precisava. Marcelo Damy me orientou e me mostrou como se preparava um contador Geiger, tendo me fornecido os primeiros que vim a utilizar e dando-me o projeto do controle elétrico do contador. Além do mais, emprestou-me uma fonte de radioberílio, com a qual pude preparar quantidades mínimas de radiofósforo, até que um acordo com Robley Evans permitiu-me receber radioisótopos dos Estados Unidos. As mínimas quantidades de radiofósforo obtidas em trabalho realizado por Moura Gonçalves permitiram determinar a fonte de fosforilação da fosfocreatina. Com a chegada de radioiodo produzido no ciclotron do MIT, o instituto pode iniciar estudos sobre funções tireoidianas. Em experiência extremamente fina, Antônio Couceiro pode retirar, de um só folículo, a secreção ali contida.
Os trabalhos em radioisótopos que marcam o início da utilização dessa técnica em nosso país tiveram boa repercussão no estrangeiro. Assim é que, em uma conferência feita no Colégio de França, eu os apresentei na presença de pesquisadores de alto padrão, entre os quais Jolliot Curie. Em conseqüência desses trabalhos, o instituto desenvolveu um laboratório de auxílio aos serviços de clínica médica, nos quais a utilização da técnica de radioisótopos, praticamente do radioiodo, tornar-se-ia corrente. O incremento da técnica foi devido à entrada, para o quadro do instituto, de Eduardo Penna Franca, o segundo graduado em química a ingressar numa instituição que, pelo conservadorismo de nossas universidades, devia ser destinada somente aos diplomados em medicina, já que o Instituto de Biofísica estava ligado à Faculdade de Medicina. Ao mesmo tempo, foi-me concedido um auxílio pela Fundação Rockefeller para a realização de um curso intensivo de treinamento na técnica de radioisótopos. Entrei em contato direto com o professor J.D.Cooper, da Universidade de Chicago, que veio auxiliar, no instituto, a organização do curso. Teve o mesmo grande êxito, tendo uma parte das vinte vagas sido reservada para pesquisadores da América Latina. O curso repetiu-se durante os sete anos subseqüentes. A atividade comandada por Eduardo Penna Franca estendeu-se a vários centros hospitalares do Rio de Janeiro. Mais do que isso, permitiu a utilização dessa importante técnica em muitos dos projetos de pesquisa realizados no instituto.
Uma outra iniciativa foi a da criação de um laboratório de eletrobiologia celular, que complementaria as pesquisas sobre a atividade cardíaca em células em cultivo. Para tanto, foram concedidos, pelo doutor Augusto Trajano de Azevedo Antunes, presidente da Caemi (antiga Cia. Mineração e Metalurgia, atual Cia. Auxiliar de Empresa de Mineração S.A.), quatrocentos contos de réis, com os quais foram enviados, aos Estados Unidos, Antônio Paes de Carvalho e Walmor Carlos de Mello, sendo que este último fixou-se naquele país, na qualidade de professor de fisiologia da Faculdade de Medicina de Porto Rico.
O estudo do Electrophorus electricus foi um dos temas que deram prestígio ao instituto. Permitiu ele o desenvolvimento de várias técnicas. Depois de serem estudadas as características anatômicas do animal escolhido como modelo biológico de grande interesse — conforme dito anteriormente —, estudo do qual participou o então professor de anatomia da Escola Nacional de Agronomia, W. Duque Estrada Bastos, passou-se primeiro à análise citológica do sistema eletrogênico, para depois serem estudados os mecanismos determinantes da descarga. Um universo extremamente pouco explorado, que foi se desvendando graças a um trabalho científico do qual participaram inúmeros pesquisadores do instituto, devendo ser sublinhada a participação de Aida Hasson Voloch, Antônio Couceiro, Lauro Sollero, professor de farmacologia da Faculdade de Medicina, Anna Francisca Falcato Ribeiro, Manuel da Frota Moreira, Alberto Barbosa Hargreaves, Maury Miranda e outros mais, já que aos iniciantes de atividade científica no instituto era quase obrigatório o trabalho com um tema originário da atividade do Electrophorus electricus. Assim, pouco a pouco, foi estudada a estrutura do órgão elétrico, que serviu à introdução das técnicas de citoquímica no instituto, suas principais enzimas, a comparação, sob vários aspectos, de sua estrutura com a dos músculos, na procura da origem embriogênica do mesmo, servindo, também, o órgão elétrico para a introdução, no instituto, das técnicas de estudo do citoesqueleto. Além do mais, estudando a eletroplaca isolada, Richard Keynes e Hiss Martins Ferreira mostraram a importância do mecanismo de movimentação do sódio na produção da descarga elétrica. Uma parte da atividade com esse modelo biológico serviu, ainda, para o estudo da transmissão neuroefetuadora. Nesse setor, uma experiência de curarização do órgão elétrico mostrou uma dissociação entre a paralisação da capacidade de produzir a descarga e a curarização muscular. Essa experiência mostrava a possibilidade de o órgão elétrico do poraquê ser uma boa fonte para a identificação e caracterização do receptor da acetilcolina. Para isso, obtive, no Instituto Pasteur de Paris, um curare radioativo. Este se associa ao transmissor do impulso nervoso que, no caso da eletroplaca, é a acetilcolina. Também o órgão elétrico serviu para pôr em prática o uso da microscopia eletrônica, embora essa técnica tenha sido desenvolvida, principalmente, para estudar as características submicroscópicas do Trypanosoma cruzi, trabalho iniciado por Hertha Meyer, ainda com o primeiro microscópio Phillips adquirido. O órgão elétrico serviu também para experiências do efeito da desnervação nas estruturas íntimas das células. Mais ainda, desenvolveu-se toda uma nova linha de pesquisa: a da utilização de fármacos radioativos para o estudo da sua ação e distribuição. A utilização de um curare radioativo permitiu inicialmente mostrar que um fármaco injetado no organismo pode ser encontrado em tecidos onde não exerce atividade. Permitiu, também, a localização, pela radioatividade nas eletroplacas, dos complexos formados pelo curare com o receptor (a substancia receptora), confirmando a proposição feita por A.J. Clark da existência de receptores. Em relação aos nossos trabalhos com a acetilcolina, Daniel Bovet escreveu um depoimento que também mostra a ambiência de fraternidade que sempre existiu no Instituto de Biofísica. Daniel Bovet assim se expressa:
Velletri 8.8.88
Cher Carlos,
Merci de ton précieux message. Cela a été interessant et
émouvant d'évoquer avec toi la période quasi cinquantenaire de
ces recherches sur l'acetylcholine et les curares qui ont si
profondément marqué la neurophysiologie et la biologie
contemporaine.
En evoquant nos collègues de cette époque, j'y vois de plus ou
moins génereux, des gênereux et des méchants.
Est-ce en raison du caractère fondamental et abstrait des
problèmes soulevés, il me semble que plusieurs de ceux qui
avec toi se sont attachés a ce problème ont été singulièrement
peu génereux.
Toi et ton groupe avez representé une exception. Je me
souviens et aime à evoquer la generosité de tes invitations et de
l'hospitalité que j'ai reçue à Rio. Malgré la distance et la
geographie, Rio a, grâce à toi, representé dans cette aventure
du cholinergique le point de rencontre et d'échanges que ni
Londres, ni New York, ni Paris n'ont su être.
Cela sera passionant que tu le racontât.
L'été ici est splendide, mais nous réjouissons tandis que vous
êtes au travail.
A toi et aux tiens, Filomena et moi envoyons toutes nos amitiès.
Daniel Bovet
Seria impossível descrever todas as atividades científicas do instituto, que procurou sempre acompanhar o progresso científico, seja o que se faz através de novos conceitos e abre novas perspectivas, seja o que exige novas técnicas e novos instrumentos. E o caso, por exemplo, da biologia molecular, que vem se infiltrando em várias das atividades do instituto.
O grupo de Marcello Barcinski realiza estudos imunológicos de grande interesse. A variação da patogenicidade de diferentes raças de agentes patogênicos tem sido estudada, com resultado extremamente interessante, por técnicas imunológicas.
Outro caso exemplificador é o da introdução da genética. Deu-se ela depois que foi verificado o aumento, estatisticamente provado, de modificações cromossômicas em indivíduos habitantes de terras de alta radioatividade ambiental, como as praias onde existe areia monazítica, e em indivíduos submetidos a uma alta radiação, como os pilotos que voam em grandes altitudes. O instituto, para tanto, criou um laboratório de citogenética e chamou, para o seu quadro, um grande especialista: José Carlos Cabral de Almeida, cujas qualidades de pesquisador e clínico logo se afirmaram e que vem desenvolvendo trabalhos de repercussão internacional. Formou-se, em sua volta, um grupo de jovens da mais alta qualidade científica, o que torna a citogenética estudada no Instituto de Biofísica conhecida internacionalmente.
Esse exemplo indica como o instituto, ao lado do desenvolvimento do conhecimento, interessa-se por problemas práticos, aos quais a ciência pode dar importante contribuição. No campo das ciências básicas, o instituto tem mais de mil e duzentas publicações feitas em revistas científicas nacionais e internacionais do mais alto padrão. Ao mesmo tempo, tem sido chamado várias vezes para resolver problemas de ordem prática. E o caso da pesquisa de doping em cavalos de corrida e da determinação, pelos raios X, de fraturas na estrutura de grandes condutores hidráulicos. Do mesmo modo, nossa instituição se ocupa da contaminação, por metais pesados, das águas que se avizinham aos garimpos da Bacia Amazônica. Essa linha de pesquisa tem tido a maior repercussão nacional e internacional. O instituto acompanhou, também, a contaminação radioativa da atmosfera no momento das explosões nucleares, realizadas experimentalmente pela França, no Pacífico, e a sua ligação com os problemas ambientais torna-se cada vez mais intensa. Citem-se, ainda, estudos feitos por Luiz Renato Caldas, relativos a um pigmento que se encontra nas águas do rio Negro e que tem uma ação bactericida nítida.
Numerosos foram os pesquisadores estrangeiros — americanos, franceses, ingleses, italianos, alemães, espanhóis, portugueses, japoneses, australianos, dinamarqueses, belgas, holandeses, suecos, russos e latino-americanos — que ilustraram a atividade do instituto, fazendo seminários, pronunciando conferências ou participando de trabalhos experimentais. Há cinco anos, a lista dos mesmos era da ordem de, aproximadamente, trezentos pesquisadores.
A atividade de aproximação do instituto com a comunidade científica internacional fez-se, ainda, pela realização de simpósios ou colóquios. Da lista dessas reuniões citarei, inicialmente, aquela que tratou dos mecanismos de curarização, em 1957, fazendo-se a parte de debates no Museu Nacional. Essa reunião deu origem àquela sobre bioeletrogênese (1959), realizada no Hotel Glória, com o que se inaugurou o hábito de se fazerem reuniões científicas nos hotéis em que se hospedam a maioria dos participantes. Desejo citar, ainda, a que estudou os vários aspectos da tireóide, trazendo ao conhecimento da comunidade científica os progressos interdisciplinares dos estudos sobre essa glândula, organizada por Luiz Carlos Lobo.
Essas reuniões internacionais são organizadas com a participação ativa de um dos pesquisadores do instituto, tendo como finalidade trazer ao público trabalhos ali realizados, pôr em contato os nossos cientistas com altos valores de cada campo tratado e, em menor grau, obter informações detalhadas dos laboratórios estrangeiros, onde nossos pesquisadores, jovens ou menos jovens, possam estagiar para formarem seu espírito ou aprender novas técnicas de trabalho. Esse intercâmbio, que completa a formação final de nossos pesquisadores no estrangeiro, foi essencial para o desenvolvimento do potencial científico humano que o instituto apresenta hoje.
Uma das preocupações das direções do instituto tem sido a formação de técnicos nos vários níveis laboratoriais. Infelizmente, algumas das tentativas iniciais fracassaram pela impossibilidade de serem mantidos, no quadro do instituto, os técnicos de certo nível, devido aos baixos salários pagos pelo governo. Quando iniciamos o uso do oscilógrafo de raios catódicos, por duas vezes tivemos técnicos treinados por nós, os quais, em pouco tempo, foram levados à indústria privada, com pagamentos salariais que não poderíamos enfrentar. Acredito, também, que na grande maioria de nossas instituições científicas, pelo menos até agora, os técnicos não fazem parte do que seria um quadro de paracientistas e seus nomes não chegam às publicações, que, provavelmente, não teriam sido feitas sem a sua colaboração. Nas atividades realizadas pelo Instituto de Biofísica, foi decisivo o auxílio prestado, entre outros, por Augusto da Silva e Wilton Batista de Paula, que recebiam o magro salário de servente.
A criação da atividade de pós-graduação na universidade deu, ainda, um maior impulso à pesquisa no instituto. Nasceu essa atividade em nossa universidade graças à vinda ao Brasil de um diretor da Fundação Ford: Alfred Brown. Convidou-me, este, para um almoço na sede da representação da entidade à qual pertencia. Disse-me que a fundação pretendia passar a auxiliar a pesquisa em nosso país e perguntou-me o que eu achava que deveria ser feito. Respondi-lhe que, para mim, o ideal seria que a Fundação Ford ajudasse a Universidade Federal do Rio de Janeiro a implantar um sistema de pós-graduação, associando, ao mesmo, o Instituto Oswaldo Cruz, a Faculdade Nacional de Filosofia e o Museu Nacional, instituições essas onde encontrar-se-iam pesquisadores de qualidade. Depois de longas tratativas, o projeto foi realizado na universidade, graças à ação de Moniz de Aragão e Paulo de Góes, que participaram de uma comissão, organizada por Pedro Calmon, a meu pedido: a Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa, e que deu origem à sub-reitoria com o mesmo nome. A verba inicial foi distribuída entre vários pesquisadores das instituições citadas, inclusive ao Instituto de Biofísica. Apenas um pesquisador, que não pertencia à universidade, declarou que não desejava receber recursos originários dos Estados Unidos. Todos os demais deram apoio à idéia e foram extremamente eficientes na instalação do sistema de pós-graduação, no Rio de Janeiro. A pós-graduação veio juntar-se o Conselho Nacional de Pesquisas, criado anteriormente, e, mais tarde, a Financiadora de Estudos e Projetos — Finep.
A pós-graduação permitiu a multiplicação de esforços no setor da pesquisa, trazendo aos nossos laboratórios, dentro das possibilidades de cada um, alunos de excelente qualidade no espírito e na ação. O número de trabalhos cresceu, bem como o de teses, que têm a validade enriquecida pela boa apresentação geral do assunto escolhido para o projeto de pesquisa. Estas, para serem submetidas à apreciação de uma comissão, têm que ser originais. Esse critério foi também o adotado pelo instituto quando apresentou à Faculdade de Medicina, nos idos dos anos cinqüenta, teses de doutoramento em medicina, julgadas, da mesma forma, por uma comissão de cinco examinadores, dois dos quais fazendo parte da congregação da faculdade, o que reviveu, com o caráter mais condizente e com o rigor de uma tese de doutorado, uma velha tradição daquele estabelecimento. Esse título foi obtido por vários dos pesquisadores atuais do instituto. Entre os doutores assim formados cite-se o nome de Jorge Braun Cantillo, da Argentina. Do mesmo modo, antes da criação da pós-graduação, o instituto procurou fazer com que seus pesquisadores obtivessem, por concurso, o título de livre-docente, sendo que doze assim o fizeram.
Entre os laboratórios do instituto que prestam serviços à comunidade científica do Rio de Janeiro, especial referência deve ser feita ao Centro de Microscopia Eletrônica, inicialmente organizado por Hertha Meyer e Raul Dodsworth Machado — este oriundo dos laboratórios do Ministério da Agricultura e especialista em óptica — e, posteriormente, desenvolvido de forma extraordinária, em pessoal e instrumental, por Wanderley de Souza.
Ao lado da atividade de pesquisa, o instituto desenvolve uma vasta ação de ensino. Pela disposição atual, cabe ao instituto ensinar as disciplinas de biofísica, fisiologia e parasitologia para todos os cursos da universidade que as tenham em seus currículos. Isto faz com que passem pelos anfiteatros e laboratórios da instituição, em média, quatro mil e quinhentos alunos de graduação por ano. Além desses, como o instituto mantém cursos de pós-graduação, mais de duzentos alunos de mestrado e doutorado freqüentam os seus laboratórios. A eles acresçam-se os estagiários de iniciação científica, em torno de cem, e, mais recentemente, os alunos do curso de formação à pesquisa biomédica.
Assim, o instituto vem desenvolvendo sua atividade dentro das normas que devem definir qualquer que seja a boa evolução social e econômica de um país. A universidade deve ser uma instituição de pesquisa, e, porque pesquisa, ensina, abordando os problemas essenciais de cada região e abrindo horizontes para o mundo, sem qualquer tipo de discriminação. Dessa forma, o Instituto de Biofísica contribui, decisivamente, para a cultura que deve ser o traço determinante da identidade de uma nação.
A atividade de pesquisa foi, também, incrementada pelas freqüentes viagens que fiz ao exterior, nas quais procurei conhecer o que de melhor se fazia, seja conceitualmente, seja tecnicamente, dentro dos campos de reflexão desenvolvidos no instituto. As viagens, de certo modo, complementavam a vinda ao laboratório dos cientistas que se reuniam para simpósios e em cursos especiais, como, por exemplo, o curso de perspectivas da biofísica, professado por vários pesquisadores de nomeada, entre os quais Severo Ochoa, Bernard e Alberte Pullman e John Eccles. O congresso sobre "curare e substâncias curarizantes" permitiu a vinda aos nossos laboratórios do casal Daniel Bovet e Filomena Bovet-Nitti, ambos do Istituto Superiore di Sanità, de Roma, e, assim, uma abertura para a ciência italiana em plena renovação do após-guerra. Em um trabalho no qual colaborou Daniel Bovet, publicado nos Anais da Academia de Ciências de Paris, indiquei ao mundo científico a importância do órgão elétrico do poraquê para o reconhecimento e a identificação do receptor colinérgico.
Na minha ida aos Estados Unidos para participar do comitê assessor de pesquisas da Organização Pan-Americana de Saúde, ou ainda à Suíça, onde fazia parte do Comitê de Pesquisas da Organização Mundial de Saúde, foi-me permitido tomar conhecimento íntimo da conexão entre as ciências básicas e os problemas de saúde. Do mesmo modo, foi-me extremamente útil o fato de ter sido eleito para secretário da Primeira Conferência para a Aplicação da Ciência e da Tecnologia ao Desenvolvimento, organizada pela ONU (1962-1963). A ela se seguiu a minha participação no Comitê das Nações Unidas para a Aplicação da Ciência ao Desenvolvimento. Essas duas últimas puseramme em contato com os problemas do crescimento científico dos países em desenvolvimento. Assinalo que o fato de tomar parte nesses colegiados só é significativo quando o seu participante dedica-se ao trabalho, analisa relatórios de atividades, deixando de lado o que se poderia chamar de "turismo científico", tão ao gosto de certos pseudocientistas, apadrinhados pela política reinante em seus países de origem. Essas incursões sempre foram curtas, pois era grande a minha ansiedade de voltar à Praia Vermelha.