Um aprendiz de ciência
X - Concentração, alegria e otimismo
Para a formação do Instituto de Biofísica, tive, sem dúvida, auxílios de toda a parte. Quero, inicialmente, assinalar o de Annah, que compreendeu a minha vocação. Desejo, também, enfatizar que, sem a ajuda de Guilherme Guinle nada teria sido feito. Do mesmo modo, o auxílio que me deu o reitor Pedro Calmon e vários companheiros da universidade, como Paulo de Góes, Raymundo Moniz de Aragão e Deolindo Couto. Quero me referir, também, a três funcionários que exerciam funções mais simples, mas que muito me ajudaram: Augusto da Silva, primeiro servente do Instituto de Biofísica, Wilton Batista de Paula e Raquel Ribeiro dos Reis Soares. Assinalo, ainda, que sem a colaboração de Ana Maria Leão Teixeira eu não poderia ter organizado o instituto.
Minha contribuição foi a de realizar um grande esforço baseado em que nada se pode fazer sem concentração, alegria e otimismo. Esta, aliás, é a maneira pela qual um pesquisador deve se conduzir. A concentração significa ter fixado na cabeça o problema de maior ou menor relevância do momento. Para isso, o tempo integral é indispensável. Por isso mesmo me recusei a assumir vários postos simultaneamente à cátedra universitária. Do mesmo modo, só se realiza um trabalho que tenha em si um componente lúdico. O otimismo é necessário pelas contrariedades que qualquer atividade pode apresentar, ainda mais em um país em que a atividade científica é tão mal compreendida, mesmo que objeto de uma falsa apreciação.
Ser-me-ia impossível descrever toda a atividade dos meus companheiros do Instituto de Biofísica, alguns citados neste texto. Foram sua solidariedade e compreensão que me levaram a realizar o que pude fazer. A atividade do instituto pode ser traduzida nos mais de mil duzentos e trinta trabalhos publicados, nas quase oitocentas teses realizadas e no pesado trabalho de ensino de graduação, pós-graduação e iniciação científica, que fazem com que passem pelas nossas salas de aula e laboratórios mais de quatro mil e quinhentos alunos por ano, já que o instituto é encarregado do ensino das disciplinas de fisiologia e biofísica para todos os cursos que as tenham no seu currículo, como medicina, farmácia, odontologia, biologia, psicologia, educação física, nutrição e enfermagem.
Creio que o objetivo que eu tinha quando solicitei a Leitão da Cunha a criação do Instituto de Biofísica, seja o de associar o ensino à pesquisa, já que essa combinação é o que caracteriza uma universidade, como bem assinalou o cardeal Newman, foi alcançado. De mim, sei que fiz o que pude e que a minha carreira científica foi sacrificada, em parte, pelas atividades que exerci fora do Brasil. Disto não me arrependo, pois de cada uma delas pude trazer alguma coisa de fertilizante para o nosso grupo. Destaco na minha atividade somente a demonstração da molecularidade de um receptor de fármacos, no caso o receptor colinérgico, encontrado no órgão elétrico do Electrophorus electricus (L.) e observado graças à utilização de um curare radioativo preparado, inicialmente, no Instituto Pasteur de Paris, com a colaboração de Jacques Tréfouel e Gérard Milhaud e, posteriormente, depois de lhe ter fornecido a técnica de obtenção, comercializado pela Nuclear Chicago Company.
Se os resultados da minha carreira científica não foram o que eu desejava, a alegria que ela me trouxe, tão bem acompanhado que fui por minha mulher e minhas filhas e genros, amparado, ainda, pela amizade dos meus colegas de instituto e de universidade, sem dúvida preencheu minha vida.
E agora? Pretendo continuar no mesmo ritmo que caracterizou a minha vida, tendo, como objetivo, o avanço do conhecimento científico em nosso país, com os olhos sempre voltados para a melhoria das condições de vida de todos aqueles que nele vivem.
Termino fazendo próprias as palavras de René Wurmser, numa carta em que me escreve, aos cento e um anos de idade:
Je m'etonne moi même de conserver, malgré tout, tant de
curiosité pour ce qui se passe dans le monde et plus encore
pour cette diablesse de biophysique, tourment et enchantement
de ma vie. *
* Espanto-me de conservar, apesar de tudo, tanta curiosidade pelo que se passa no mundo e mais ainda por esta diaba de biofísica, tormento e encantamento de minha vida.