Um aprendiz de ciência
Depoimento
Paulo de Góes Filho
Os laços que me ligam ao professor Carlos Chagas Filho são antigos e permaneceram estreitos ao longo de toda a minha vida. Ao me solicitar este depoimento, acredito que o professor Chagas tenha pensado no trabalho que realizei para minha dissertação de mestrado em antropologia social, no Museu Nacional, e que versou sobre o instituto que hoje leva seu nome.
Para mim, a figura de Carlos Chagas Filho parecia incorporar todos os atributos que definiam o "tipo ideal" de cientista, sendo freqüente a prática de consultá-lo ou convocá-lo para "representar" a comunidade em ocasiões em que se desejava homenageá-la, como, por exemplo, no episódio de comemoração dos trinta anos do CNPq, em 1981.
A escolha do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi fruto, por sua vez, de uma série de fatores, alguns ligados a minha própria biografia, outros relacionados à facilidade de acesso à instituição e aos informantes. Por essa razão, no processo de construção de meu objeto precisei dedicar um considerável esforço de "desnaturalização" e de "dessubstancialização". Esta era a contribuição que poderia fazer a partir de meu trabalho antropológico para resgatar o trabalho de uma vida que mudou a ciência brasileira, sem cair no elogio fácil e no discurso consagrador. Meu depoimento é, portanto, fruto de um trabalho que, se confirmou toda a minha admiração por Carlos Chagas Filho, não tem aí seu ponto de partida.
Foi no decorrer de uma longa pesquisa que fui progressivamente percebendo a grande diversidade e complexidade do Instituto de Biofísica, a riqueza da trajetória de seus pesquisadores, a multiplicidade das interseções com outros segmentos da sociedade, a criatividade das invenções de Chagas, sua presença na criação do campo científico no Brasil, ou seja, um conjunto de fatores que a tornavam uma instituição singular.
O Instituto de Biofísica mantém nos últimos cinqüenta anos uma incontestável posição de liderança na maior parte dos movimentos (a criação do Conselho Nacional de Pesquisas, em 1951, a reforma universitária e a instituição de pós-graduação no Brasil, entre outros) que permitiram que o campo científico ganhasse autonomia no Brasil e que a produção e a reprodução acadêmicas obtivessem amplo reconhecimento social.
O principal papel do instituto foi o de mobilizar apoios, governamentais e não-governamentais, vencer resistências internas e externas dentro do espaço em que deveria legitimar-se e sobretudo, por intermédio de seu fundador, o professor Carlos Chagas Filho, criar categorias que hoje constituem tradições da ciência brasileira, mas que nem sempre estiveram ali.
Numerosos princípios que aparecem hoje como naturais aos cientistas brasileiros são, na verdade, o resultado de hábeis criações do professor Chagas. Entre estes assomam como mais significativos aqueles que tornaram indis sociáveis o ensino e a pesquisa, impuseram a "necessidade" de se criar uma ciência "nacional" de "padrão internacional" e separaram a produção científica de sua utilidade imediata, transformando a "qualidade" e a "excelência" da produção nos únicos critérios legítimos de reconhecimento.
Ao longo de minha pesquisa para dissertação de mestrado, que intitulei O Brasil no biotério: o Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho e o jeito brasileiro de fazer ciência, pude perceber numerosas estratégias inovadoras que foram fruto da dedicação e da inteligência desse pesquisador exemplar.
Transcendendo as regras aparentemente rígidas do "mundo da ciência" pude constatar, no caso estudado, como puderam ser incorporados a esse espaço outros "estilos de vida" percebidos aos olhos do senso comum como pertencentes a dimensões da "cultura" brasileira estranhas ao campo científico.
Hoje, são recorrentes as representações que associam à "comunidade científica" uma única forma legítima de aquisição de prestígio, fundada em critérios objetivos de qualidade e competência.
Entretanto, as relações entre o corpo de pesquisadores do IBCCF e os mais diversos segmentos da sociedade brasileira, particularmente suas elites, foram um traço marcante para a caracterização do grupo que ao longo dos anos integrou o instituto. Entretanto, imputar exclusivamente a esta associação o prestígio do instituto seria uma interpretação ingênua. A estratégia foi inversa: foram os investimentos ali realizados na incorporação ao Brasil das regras que se consagravam internacionalmente, e que pouco a pouco tornavam o campo científico uma dimensão privilegiada do mundo internacional, que deram a essa instituição seu caráter singular.
Essas estratégias de conversão ao mundo da ciência de distintos tipos de capital, a par do prestígio científico pessoal do professor Chagas, resultaram no que hoje é a ciência brasileira no que tem de melhor.
O equilíbrio resultante do uso discriminado, nos momentos apropriados, de distintos tipos de capital através daquelas estratégias que se mostrassem potencialmente mais eficazes foi fundamental, tanto na gênese quanto na consolidação da instituição. O professor Chagas, em inúmeras situações, usou de seu prestígio e de sua rede de relações para trazer ao mundo da ciência apoios e recursos que sem seu empenho, e muitas vezes sacrifício pessoal, jamais ali chegariam. E não foi só o instituto que se beneficiou dessa atitude. Durante a década de setenta a Academia Brasileira de Ciências, por exemplo, sobreviveu graças a uma dotação do governo federal que o professor Chagas obteve em troca da aceitação do cargo de embaixador junto à Unesco.
O êxito do instituto não resultou "naturalmente" e "exclusivamente" da adoção por seu fundador de uma "fórmula" racionalmente preconcebida ou foi a conseqüência de um projeto integralmente articulado. Na verdade, foi a permanente avaliação e percepção das condições sociais que se apresentaram em cada conjuntura específica que orientou as decisões tomadas por Carlos Chagas Filho, gerando as condições de possibilidade para que o processo de conversão dos vários tipos de capital ao campo científico se realizasse com êxito.
O outro conjunto de questões que pautou meu trabalho teve como referência a dimensão "nacional" dessa experiência, sobretudo na medida em que a aquisição de prestígio no campo científico é fortemente influenciada por representações que atribuem, tanto no "discurso científico", quanto no "discurso nativo" sobre a ciência, a precedência do caráter "universal" e "supranacional" do conhecimento científico sobre seu caráter local e nacional. A articulação entre essas duas dimensões, pude perceber, pelo menos na tradição brasileira, implicou significativos investimentos na valorização de um terceiro espaço, a interseção entre duas dimensões — nacional e internacional. Nesse sentido, a valorização por Chagas do "intercâmbio" e a importância dos postos internacionais em sua trajetória revelaram como foi central esse papel na reconfiguração das fronteiras do "mundo da ciência".
Com base nessas observações sobre o Instituto de Biofísica e sobre os estilos de vida de seus pesquisadores, é possível supor que a "ciência" feita ali se impôs, ao longo dos anos, como modelo, tornando-se paradigma do "jeito brasileiro de fazer pesquisa".
Foi por meio desses princípios que se tornou possível criar as bases para o reconhecimento de uma ciência nacional baseada na utilização de modelos autóctones.
Nas palavras do próprio professor Chagas:
Foi por isso que escolhi como modelo de trabalho o peixe-
elétrico. Se não tivesse sido o peixe, o modelo que eu
escolheria seria a preguiça. Não sei quando, mas certamente
bem no começo de meu trabalho, é que surgiu esse tipo de
orientação, que cada vez mais se enraíza em mim, de que nos
países subdesenvolvidos devemos usar as técnicas mais
avançadas em modelos autóctones...
É essa lição que devemos manter viva para que possamos manter vivo o exemplo do professor Carlos Chagas Filho.