Um aprendiz de ciência

Carlos Chagas Filho · Capítulo 10 de 15

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Um aprendiz de ciência

VII - Ciência e cultura: criação do CNPq, conferências das Nações Unidas e embaixada do Brasil na Unesco

VII - Ciência e cultura: criação do

CNPq, conferências das Nações

Unidas e embaixada do Brasil na

Unesco

 

Envolvi-me muito, e durante longos anos, com o que foi, sem dúvida, a melhor alavanca que a ciência brasileira teve. A criação do Conselho Nacional de Pesquisa, uma velha aspiração da comunidade científica, foi um processo longo, que penso ter tido início numa série de reuniões que Paulo Assis Ribeiro realizou na primeira sede da Fundação Getúlio Vargas, na Praia de Botafogo. Ali juntaram-se cientistas mais idosos e mais moços, que discutiram, com bastante interesse, a organização científica do Brasil. Eu já me havia interessado pelo assunto, quando da minha viagem à Europa. René Wurmser me havia dito como a ciência francesa havia tomado um novo impulso com a criação, por Jean Pérrin, do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), no momento em que a Frente Popular havia tomado o governo com a vitória da esquerda nas eleições. Wurmser se ofereceu para que eu tivesse uma entrevista com Jean Pérrin. Fui por este recebido com a maior afabilidade, mesmo porque havia ele visitado o Brasil e se tornara amigo dos Ozorio de Almeida.

Era Pérrin um homem de estatura baixa, encimado o corpo bastante forte por uma linda cabeça onde sobressaíam dois olhos maravilhosos, desta cor azul que só se encontra em alguns seres da humanidade. Com a maior gentileza explicou-me o que era o CNR S e como havia sido criado, dando-me todo o material disponível, referente à sua criação, para que eu o trouxesse para o Brasil. Foi o que fiz, entregando-o ao ministro Gustavo Capanema, que mostrou-se entusiasmado com a idéia e levou esse material ao presidente Getúlio Vargas. Na ocasião, escrevi um pequeno trabalho sobre o CNRS, que passou despercebido, embora publicado pela Seção de Intercâmbio Internacional do Ministério das Relações Exteriores, dirigida pelo ministro Temistocles da Graça Aranha.

Faltava, entretanto, para dar maior peso ao movimento, uma personalidade de alto calibre. Surgiu ela na pessoa do almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva. Álvaro Alberto era uma personalidade de elevada qualidade intelectual e formação técnica. Professor na Escola Naval, a excelência de seus estudos sobre explosivos dera-lhe grande proeminência na comunidade de defesa. Acabara de exercer função importante nas Nações Unidas, função na qual coube-lhe a presidência da Primeira Conferência sobre Energia Nuclear, realizada em Nova York. Presidiu-a com a eficiência que o caracterizava, e voltou dos Estados Unidos com dois objetivos indispensáveis ao desenvolvimento nacional: o da criação de uma organização para gerir a pesquisa científica e tecnológica em nosso país e, ainda, o de dar o seu empenho para que o Brasil, rico em minerais uraníferos e em areias monazíticas, desenvolvesse um projeto nuclear. Seu prestígio pessoal, não só nas Forças Armadas, como também na comunidade científica, que não podia deixar de admirar o seu trabalho na incipiente Academia Brasileira de Ciências, seja como seu membro ativo, seja como seu presidente, tornou possível a criação do Conselho Nacional de Pesquisas (lei 1.310, de 15/10/1951), mais tarde transformado em Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (lei 6.129, de 6/11/1974) e, dentro deste, de uma comissão de energia atômica que daria origem, mais tarde, ao Conselho Nacional de Energia Nuclear.

Na ocasião em que se criou o CNPq, estava eu em Paris ministrando um curso sobre "a aplicação de métodos radioativos à histologia", para o qual fora convidado por A. Monier, da chamada Sorbonne, quando Costa Ribeiro telefonou-me para dizer que eu deveria solicitar a Afonso Arinos, meu cunhado, seu empenho para que eu fosse incluído no Conselho Deliberativo do órgão recém-criado. Respondi-lhe que não faria o pedido, o que aconteceu. Ao chegar ao Rio, algum tempo depois, Álvaro Alberto telefonou-me com a sua habitual gentileza, dizendo-me que, infelizmente, não pudera me colocar no conselho, mas que fazia questão da minha colaboração e que me pedia para aceitar a posição de chefe do Setor de Pesquisas Biológicas, dentro da Divisão Técnico-científica que seria dirigida por Costa Ribeiro. Foi assim que comecei minhas atividades no conselho, fazendo Álvaro Alberto questão de que eu participasse sem voto, mas com voz ativa, nas reuniões mensais do mesmo.

Dirigindo o Conselho do CNPq, Álvaro Alberto podia estender o horário de trabalho até altas horas da noite, sem mostrar a menor fadiga. Eram verdadeiras reuniões de trabalho, as quais, iniciadas às quatro horas da tarde, nunca terminavam antes das onze horas da noite. Muitas vezes saíam estafados das reuniões, como eu mesmo, os conselheiros, muito mais moços do que ele. A essas reuniões, Álvaro Alberto trazia ao nosso conhecimento todos os projetos apresentados ao conselho e, com a maior simplicidade, discutia conosco as decisões que desejava tomar, bem como as orientações que pensava seguir. Memória prodigiosa o ajudava a discernir, com a maior lucidez, as difíceis questões que se apresentavam. Tinha Álvaro Alberto o poder de contemporizar, no melhor sentido, as forças antagônicas aos projetos do conselho, que se batiam, muitas vezes, com desconhecimento real. Sua exemplar honestidade completava o quadro de um varão de probidade por todos reconhecida.

A atividade no conselho era extremamente agradável. Seu corpo administrativo havia sido escolhido com muito cuidado pelo almirante e, diariamente, por assim dizer, tínhamos contato com os pesquisadores que para lá se dirigiam a fim de levar os seus progressos ou discuti-los. Eu fazia parte do grupo de direção científica, comandado pelo admirável Joaquim da Costa Ribeiro, acompanhado de assistentes da melhor qualidade. Para me auxiliar na tarefa de encarregado do Setor de Biologia convidei Antônio Moreira Couceiro, que mais tarde veio a ser presidente do conselho, e Gustavo de Oliveira Castro. Meus contatos com Costa Ribeiro, então diretor do Departamento Científico, eram bem antigos. Vários fatores haviam facilitado a nossa amizade, inclusive as boas relações de meu pai com a família dele. Além do mais, Costa Ribeiro tinha se juntado a Oliveira Castro e a Carneiro Felippe, no esforço de me ajudar na preparação do meu concurso para a faculdade. Passei horas em sua companhia, no laboratório da Escola Politécnica, localizada, então, no Largo de São Francisco, preparando a parte prática da prova a que iria me submeter. Tal convivência levou-me à intimidade da família e coube-me ver crescer seus nove filhos. Um deles, Carlos, tornou-se mais tarde, por concurso, professor-adjunto do Instituto de Biofísica. Os momentos que passei em contato com a família de Joaquim da Costa Ribeiro marcaram profundamente a minha alma.

Formou-se, entre o almirante e eu, nessa ocasião, uma intimidade de pensamento que me permitiu, muitas vezes, influenciá-lo, tendo em vista a minha experiência na direção científica de um laboratório e o conhecimento que apreendera, tanto no Conselho Nacional de Pesquisas Científicas, francês, como nos Conselhos Setoriais que J.B. Haldane estabelecera na Inglaterra, logo depois do término da Primeira Guerra Mundial. Defendi, junto a Álvaro Alberto, uma relação íntima do pesquisador com o conselho, caracterizada pelo fato de que aquele se dirigia diretamente a nós, conselho, sem a anuência do chefe da instituição a que pertencesse. Essa norma foi mantida durante muito tempo, até mesmo contra a vontade de um dos diretores do Instituto Oswaldo Cruz. Limitei, o mais possível, a concessão de auxílios a grupos médicos amparados por fortes forças políticas, mas sem trabalho científico que justificasse o auxílio. Procurei conhecer de perto pesquisadores e instituições solicitadoras de auxílios, tendo várias vezes viajado para melhor conhecer o desenvolvimento da pesquisa científica no país.

Consegui, sem dificuldades, que Álvaro Alberto criasse as bolsas de complementação correspondentes, na verdade, ao tempo integral. Procurei incentivar as pesquisas de interesse biológico relacionadas, principalmente, com o conhecimento e a proteção do meio ambiente. Quero dizer que os anos que vivi no Conselho Nacional de Pesquisas foram, para mim, admiráveis, não só aqueles em que exerci atividades de diretor do Setor de Biologia, como também nos que passei como membro do Conselho Deliberativo. A começar pela cordialidade e capacidade de direção de Álvaro Alberto, que eu considero um dos personagens de melhor valia que conheci na minha vida, até os funcionários mais ou menos graduados e, também, os membros do Conselho Deliberativo, todos davam ao trabalho uma expressão de dedicação e patriotismo, o que me fazia acreditar na significação, direi até da importância, para o Brasil, da tarefa que me incumbia. Era o mesmo sentido de progresso e realização que me animava ao trabalho no Instituto de Biofísica.

Entretanto, nunca será suficiente assinalar o que representou, para o progresso do nosso país, a presença de Álvaro Alberto, sem o qual os primeiros passos do Conselho Nacional de Pesquisas teriam sido por demais lentos e não teriam tido a eficácia que tiveram.

Ao lado dos pedidos de auxílio que chegavam à nossa sede na avenida Marechal Câmara, resolvi, também, procurar instituições que devessem receber auxílios globais. Uma delas foi o Museu Nacional, que ainda não pudera auferir das vantagens de ter sido integrado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de algumas visitas à instituição, propus que a mesma recebesse um auxílio global que permitisse ao seu diretor o atendimento de certas deficiências e a correção de alguns problemas graves, tais como a conservação do material do Museu de Antropologia. Meu pedido foi aprovado, sem a menor contestação, pelo Conselho Deliberativo.

Durante o período que vai desde a minha integração ao Conselho Nacional de Pesquisas até a ida para a Unesco, tomei parte em várias reuniões de instituições governamentais. A primeira delas foi a participação no Comitê de Estudo da Ação das Radiações Ionizantes, na ONU , que vim a presidir em 1956. O comitê foi organizado logo depois da consternação mundial provocada pelas explosões nucleares, que eliminaram do mapa as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, e das primeiras explosões nucleares atmosféricas realizadas pela União Soviética. A nação que pediu a sua criação ao Conselho das Nações Unidas foi a Índia. A minha indicação para representar o Brasil foi feita por Marcelo Damy de Souza Santos, então presidente do Conselho Nacional de Pesquisas e, em conseqüência, também presidente da Comissão de Energia Atômica, daquele dependente, e da qual eu fazia parte, e que deu origem ao Conselho Nacional de Energia Nuclear.

Inicialmente, a Comissão da ONU foi presidida por um ilustre radio-biologista belga, o professor Zenon Bacq, o qual substituí, depois de dois anos de sua presidência. Era o comitê constituído por quatorze membros, delegados dos países de origem, com alguns dos melhores especialistas em radiobiologia de todo o mundo. Foi o momento em que o perigo das radiações ionizantes alarmou, a meu ver, justamente, o homem da rua. Assinalo, ainda, que uma das causas desse fato foi a posição quase heróica de alguns cientistas norte-americanos, como Linus Pauling, que não escondiam nada à população e, muitas vezes, serviam de publicidade à imprensa menos escrupulosa. Por causa da diferença do fuso horário, várias vezes fui acordado muito cedo, para o meu gosto, por jornalistas cariocas que desejavam que eu interpretasse as últimas declarações do grande Pauling.

As sessões eram bianuais e realizavam-se sempre na sede em Nova York. O trabalho do secretariado era extensíssimo e compreendia todos os aspectos das conseqüências da ação das radiações ionizantes. Nunca poderei enunciar o quanto me foi útil, do ponto de vista científico e técnico, minha passagem por essa comissão. Impressionava-me, também, a preparação dos delegados que vinham às nossas reuniões e, mais particularmente, dos representantes da Rússia e de outros países comunistas, diria eu, quase em oposição à dos países ocidentais, entre os quais sobressaía, sem dúvida, a representação dos Estados Unidos, fortemente apoiada por sua Comissão Nacional de Energia Nuclear.

Colateral ao programa nuclear do qual estávamos tratando, é interessante sublinhar a longa discussão sobre a utilização, em medicina, dos raios X. Um dos episódios mais curiosos da minha passagem pela presidência do comitê foi a reação bem-sucedida que tive que impor contra numerosos documentos, principalmente de origem pan-americana, que solicitavam uma manifestação do comitê contra a utilização dos raios X, para aplicações médicas. Pareceume, a certo momento, que havia uma espécie de frenesi contra as radiações ionizantes e, particularmente, contra a utilização médica dos raios de Roentgen. Assim é que, numa das conferências que se realizaram, periodicamente, no Instituto de Biofísica para estudos de radiações ionizantes, um grande geneticista brasileiro, de temperamento talvez exaltado, declarou que não permitira a utilização dos raios X na ocasião em que um dos seus filhos pequenos sofrerá uma fratura no femur. Propunha, com ardor, a limitação exígua na utilização de raios X, assunto que saiu da pauta com a intervenção veemente de Crodowaldo Pavan, um dos melhores cientistas brasileiros, especialista em genética.

O que eu aprendi na convivência dos colegas do Comitê de Radiações, inclusive dos delegados da União Soviética, ainda que muito ortodoxos, foi extraordinário e, mais uma vez, mostrou-me a importância que tem, para o desenvolvimento do conhecimento, a sua abordagem horizontal.

Deixei, e direi, com pena, o Comitê de Radiações quando, subitamente, sem ter a mínima noção do que seria, fui designado por U Thant, em 1963, para secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para a Aplicação da Ciência e da Tecnologia ao Desenvolvimento. Creio que essa experiência internacional, vivida com paixão, é que levou Henri Laugier, que bem conhecia o Brasil, onde estivera a convite dos irmãos Ozorio de Almeida, a indicar o meu nome. Essa proposição foi aceita pela comissão encarregada do esboço geral do programa, que rejeitou a proposta brasileira de ser nomeado, para tal posto, um dos nossos economistas de escol.

A indicação, da qual não tinha o menor conhecimento, nem mesmo da existência da conferência, pegou-me de surpresa. Chegava eu dos Estados Unidos quando recebi a visita do secretário da embaixada, Fernando Buarque Franco, que vinha me informar de que eu havia sido nomeado e indicar a necessidade de minha ida a Nova York, para uma entrevista com o secretário-geral U Thant. Fui sacudido ainda na minha perplexidade por um telegrama enviado por U Thant, pedindo-me resposta a um telegrama que me remetera, mas que infelizmente não chegara às minhas mãos. A princípio relutei, mas, de comum acordo com minha mulher, resolvi aceitar o convite para ir a Nova York e discutir com o secretário-geral a minha nomeação.

Malgrado o temor que então tinha de avião, a viagem foi muito agradável, pois Silvia Amélia e Maria da Glória, duas de minhas filhas, me acompanharam. Ali chegado, verifiquei que se tratava de algo de grande porte, pois esperava-me na pista do aeroporto um carro oficial da ONU e o oficial de gabinete de U Thant, encarregado de me ajudar em meus primeiros momentos. Dirigi-me apressadamente à casa de meus amigos Adolf e Beatriz Berle, onde deveria ficar hospedado, e depois de um banho rápido fui à sede da instituição, início de um torvelinho que só terminaria um ano depois, e no correr do qual, além da minha presença quase constante em Genebra, visitei o Canadá, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a União Soviética e os países da Europa continental.

Digo, com a maior sinceridade, que ainda tinha pretensões de não aceitar a proposta que me seria feita por U Thant. Adolf Berle procurou me dissuadir das minhas intenções. Chegando ao edifício da ONU , fui rapidamente recebido pelo secretário-geral, uma das pessoas mais atraentes que tenho conhecido. Conversamos mais de meia hora. Expliquei-lhe como me considerava incompetente para tal posição. U Thant ouviu-me com a paciência e a calma características do cidadão oriental. Apenas de quando em vez um sorriso no olhar indicava o seu interesse pelo que eu estava dizendo. Era U Thant uma pessoa extremamente agradável, daquelas com quem se pode ter uma compreensão mútua ao primeiro encontro.

U Thant disse-me que precisava de uma pessoa como eu: jovem, regularmente conhecido no mundo científico e oriundo de um país em desenvolvimento. Garantiu-me que me daria a mais ampla liberdade de ação e que, qualquer que fosse a decisão que eu tomasse, estaria sempre a meu lado. Na verdade, deixou pouco espaço para que eu recusasse o convite. Concedeu-me, também, uma condição especial que para mim apresentava vantagens: a de que eu só seria "funcionário" da ONU quando em contato direto com problemas da conferência, cujo objetivo era levantar o nível científico e tecnológico dos países em desenvolvimento. Como eu não desejava abandonar de todo o trabalho no Instituto de Biofísica, U Thant liberou-me para que eu viajasse ao Brasil quantas vezes o trabalho em Genebra assim o permitisse. U Thant pôs-se de acordo comigo, assinalando apenas o prejuízo financeiro que isto me traria, pois que a ONU só poderia me pagar os dias em que eu estivesse totalmente ao seu serviço. Em seguida, já com a experiência adquirida em outras ocasiões e temendo a burocracia que tudo invade, disse-lhe, ainda, que para poder trabalhar com liberdade precisaria ter uma linha direta com ele, que poderia ficar certo de que eu não abusaria desse privilégio. U Thant concordou comigo e, no fim de algum tempo mais, firmamos um "acordo de cavalheiros" que durou todo o tempo em que a conferência se realizou.

Apresentou-me, logo depois da entrevista, a um funcionário da ONU, Katzin, natural da África do Sul, que seria encarregado da parte puramente administrativa da conferência. Um pouco truculento para o meu gosto, Katzin, que se havia notabilizado nas campanhas africanas de luta contra o domínio alemão, me ajudaria a fazer marchar a grande máquina que se estava preparando.

Voltei ao Rio e vinte dias depois segui para Genebra, deixando Annah e as quatro meninas. Em Genebra, hospedei-me no Hotel de La Paix, até que Annah viesse com minhas filhas ao meu encontro, ocasião em que aluguei um apartamento pequeno, mas muito simpático, no Parque de Budé. A rotina seguida foi sempre a mesma: chegar ao meu escritório às oito e meia, almoçar na própria sede da ONU ou em um dos restaurantes da cidade, e rapidamente reassumir o trabalho que ia se avolumando, e que, em geral, terminava em torno das vinte e duas horas, quando o meu secretariado já mostrava sinais de cansaço. A tarefa era pesada, pois mais de cem países se inscreveram para a conferência, enviando mais de três mil documentos, que foram reduzidos, pela análise feita por meus assistentes, para aproximadamente dois mil. Achei que não poderia, por ser demais oneroso, publicar, nas várias línguas das Nações Unidas, todos os documentos aceitos. Em conseqüência, organizei um comitê para fazer o resumo das idéias neles apresentadas, o que resultou na publicação de sete volumes, de aproximadamente trezentas páginas. Representou, na verdade, um trabalho mais do que intenso e, não fosse o grupo de colaboradores de alto nível, entre os quais Filomena Bovet-Nitti, que me auxiliaram, dificilmente poderia ter sido realizado. Tive, durante os onze meses que vivi em Genebra, algumas turbulências, difíceis de serem evitadas.

Foi nessa ocasião, em Genebra, que conheci de perto o que é a dificuldade da convivência de homens de opiniões e raças diferentes, muitas vezes obcecados por filosofias políticas e até mesmo religiosas, que os tornam inimigos intratáveis. Vi, também, que se os homens têm esse comportamento indesejável, o mesmo se pode observar entre as nações, pois uma das maiores dificuldades que tive durante todo o trabalho foi a de tentar harmonizar as potências que se julgavam prejudicadas por decisões que eu havia tomado e que eram impostas pelas circunstâncias.

Tendo sido acordado que a conferência começaria pela exposição de certos assuntos, a escolha dos oradores para cada um deles foi difícil. Era eu procurado, diariamente, pelos chefes de delegação, que solicitavam, às vezes em atitudes que me obrigavam a reagir ao que diziam, a inclusão de tal ou qual dos seus patrícios na lista dos oradores. A URSS, a França e mesmo os Estados Unidos, vieram muitas vezes ao meu escritório, até na véspera da inauguração do certame, para dizer-me que seus países iriam se retirar da reunião caso eu não modificasse a decisão de ter entregue o relatório de um tema a um membro de outra delegação, e não à deles. Nesse sentido, a grande potência que melhor comportamento apresentou foi a Grã-Bretanha, que aceitou, sem discutir, todas as minhas decisões, o que não foi o caso da França, país com o qual eu mantinha relações em todos os níveis de interesse para a conferência.

Numa organização internacional, o pensamento corre mais rapidamente do que o vento, por mais veloz que este seja. Era quase impossível evitar a espionagem dentro dos próprios serviços que eu dirigia. Qualquer decisão minha, escrita ou até mesmo expressa oralmente a um interlocutor que eu imaginava de boa-fé, dava origem a uma corrente de informações que circulavam com rapidez no palácio onde trabalhávamos, e atingia, ainda com maior rapidez, o exterior, por mais distante que ele fosse.

O episódio mais grave ocorreu em conseqüência da idéia que tive de incluir entre os participantes da conferência um ou dois representantes "técnicos" da Alemanha Oriental, que não fazia parte da ONU . Procurei me comunicar diretamente com U Thant para dizer da minha pretensão, com a qual ele concordou. Não sei como, mas não havia eu ainda tomado uma decisão final, nem escolhido o orador tedesco que eu iria convidar, quando entrou pela minha sala, batendo forte com os pés no chão, o delegado da União Soviética, que protestava contra a minha decisão, que só seria aceita pelo seu governo se a minha escolha recaísse em um dos três nomes que me indicou. Retorqui com certo vigor, do que ele se lembrou mais tarde num dos coquetéis realizados no fim da conferência. Se eu tivesse seguido a minha idéia, a organização da ONU teria então sofrido modificações, que só vieram mais tarde.

Diga-se de passagem que U Thant aprovara a minha idéia e me autorizara a realizá-la. Só não o fiz pela intempestiva intervenção do delegado soviético. A atitude deste foi seguida, alguns minutos depois de sua saída da minha sala, pelo delegado dos Estados Unidos. Respondi a este da mesma maneira que respondi àquele. O único remorso que tenho da minha atividade na conferência foi o de ter finalmente cedido à pressão das duas potências. Isto me impediu de realizar uma abertura internacional, limitada exclusivamente ao domínio científico e técnico que, entretanto, seria útil para a humanidade.

Foi difícil, também, fazer com que certos conferencistas, pois que os havia quatro por dia, mantivessem seus discursos dentro da linha que havia sido ajustada previamente e pela qual cada postulante poderia defender a sua política de maneira a mais agressiva, mas deveria deixar de lado qualquer tipo de agressão a países com que existissem linhas de tensão política e social. Um dos casos que mais me irritaram foi o de um ilustre francês, que seria o meu porta-voz, se assim posso dizer, na questão da reforma agrária, e que era um sábio de grande renome internacional e, mais ainda, irmão de um dos meus mais íntimos amigos franceses. Em vez de expor a teoria do que deveria ser uma reforma agrária genuína, gastou ele o seu tempo de quarenta minutos em explicações minudentes sobre o que o seu país pretendia fazer na África. Tal fato obrigou-me a dirigir um comunicado a algumas delegações expressando o meu desapontamento, já que uma das metas que eu estava disposto a fazer progredir na conferência era a da ampliação da reforma agrária.

Para mim, a conferência foi extraordinariamente útil, malgrado a opinião de J. Oppenheimer, que encontrei um dia num dos cafés da Rive Droite. Muitos radicalizavam, avaliando que a Conferência de Genebra foi um fracasso: uma espécie de "feira" de ciência e tecnologia, em que os países poderosos vendiam os seus produtos, de maneira clamorosamente deselegante, aos países pobres. Eu não penso assim. O que me vem à mente é o reflexo de noites e mais noites maldormidas, nas quais discuti comigo mesmo e repensei todos os fatos que se passavam no âmbito da conferência. Estou convencido de que foi ela produtiva pelo que criou de novas idéias e novas perspectivas. Sobretudo, porque gerou o aparecimento de novas relações internacionais e mostrou que a aplicação da ciência e da tecnologia constitui um inesgotável horizonte para a civilização humana, que somente a sordidez e o egoísmo do homem podem destruir.

Creio que posso dizer que a conferência foi extremamente proveitosa para muitos dos países emergentes, os quais souberam aproveitar o que de importante ali se apresentou, pois não deixei que ela se transformasse apenas em um balcão de venda de tecnologia aos países subdesenvolvidos, com idéias e material científico as mais das vezes superados, o que era desejo das grandes potências. Mas, ao lado dessa pirataria científica, certamente muito foi aproveitado para a construção de uma base científica e tecnológica, em nações que apenas começavam a se estruturar. Acho que os vários volumes em que foram condensadas todas as idéias, ainda hoje, passados quase trinta anos, têm o seu lugar na mesa dos ordenadores da política científica de cada país.

Não posso deixar de assinalar que, nessa disputa indesejável de procura de mercado, e não de disseminação de idéias, uma potência se destacou pelo desprendimento com que participou dos trabalhos da conferência, a Grã-Bretanha, desfazendo, assim, o conceito de um colonialismo rígido. Talvez essa posição tenha sido conseqüência da sua extraordinária ligação com as próprias colônias, as quais se apresentaram numa posição de extremo progresso em relação a outras.

Minha ligação com a ONU prosseguiu com a minha indicação para participar de um comitê constituído de quatorze membros, destinado a examinar a atividade conseqüente à Conferência de Genebra e, ao mesmo tempo, examinar novas propostas e novas situações surgidas no mundo. Esse comitê, que se reunia duas vezes por ano, teve, realmente, uma atividade fecunda. Entre os seus ilustres participantes estavam Pierre Auger, da França, G.K. Menon, da Índia, e Abdus Saiam, do Paquistão, figuras do mais alto destaque da comunidade científica internacional. Abdus Saiam, durante uma de nossas reuniões, comunicou-me o seu projeto para a criação de uma Academia de Ciências do Terceiro Mundo. Durante os últimos anos de sua existência, tive ocasião de presidir o comitê, tendo suas reuniões sido realizadas no meu escritório da delegação do Brasil, na Unesco. Foi aí que traçamos as linhas-mestras do que deveria ser a Conferência sobre o Meio Ambiente, que se realizou em 1969. Foi este o momento em que sem exageros, porém com uma vontade firme, tornei-me ambientalista, não no sentido profissional, mas naquele em que o ambiente vem a ser uma preocupação preciosa.

Participei, também, da atividade de outras duas organizações internacionais: a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e a Organização Mundial de Saúde (OMS). Em ambas aprendi muito mais do que contribuí, mas pude me abeirar de alguns dos problemas mais pungentes da humanidade. Para a Organização Pan-Americana de Saúde, fui indicado por um jovem brasileiro, Maurício da Silva, ilustre pediatra que as dificuldades de um bom exercício da medicina, no Rio de Janeiro, levaram ao estudo dos problemas de saúde populacional. Foi ele um excelente membro da direção da Organização Pan-Americana de Saúde, na ocasião dirigida pela sabedoria do chileno Abraão Horwitz. As reuniões bianuais levavam-me a Washington duas vezes ao ano. Na sede da organização encontrava-me com figuras exponenciais, como Bernardo Houssay, com o qual tive inúmeras divergências que, entretanto, não abalaram a minha admiração pelo seu trabalho, nem diminuíram o carinho com que ele acompanhava, muitas vezes discordando delas, as minhas intervenções. A atividade na Organização Pan-Americana de Saúde deu-me a impressão de um trabalho fecundo e de ação muito produtiva.

Já na Organização Mundial de Saúde, fiz parte do Comitê de Estudos dos Programas Experimentais. Fui a ele levado por um dos grandes brasileiros que conheci, com capacidade de organização e de visão extraordinárias: Marcolino Candau. Ao lado dele convivi, também, com Ernani Braga. São estes dois sanitaristas cuja contribuição ao Brasil não poderá nunca ser esquecida.

Minha permanência na OMS deu-me um vasto entendimento dos problemas que os países enfrentam na sua ação essencial para a vida do povo: a proteção de sua saúde. Fiquei sabendo que as diferenças étnicas e, até mesmo, culturais não proporcionam as dificuldades que a sociedade tem para enfrentar os problemas de saúde, estes intimamente ligados ao processo econômico, trazendo, em conseqüência, divergências que só poderão ser vencidas pela compreensão, por parte da sociedade, do que o povo realmente deseja.

Um dia, em janeiro de 1966, fui acordado muito cedo por um telefonema do presidente da República. Ainda um pouco sonolento, atendi ao telefone e, com espanto, verifiquei que o meu interlocutor era o próprio presidente. De início procurei disfarçar para verificar se não era um trote, ao que ele me disse que eu podia estar tranqüilo, pois era, na verdade, Castello Branco quem me falava. Depois de uma rápida conversa em que lhe pedi desculpas pela lentidão da minha interlocução, pois "não estava acostumado a que o presidente me chamasse ao telefone antes das sete da manhã" — e, diria mesmo, a nenhuma hora —, pediu-me ele que fosse vê-lo às onze e meia, esperando que eu fosse pontual, pois ele o era muito. Cheguei ao palácio na hora exata e logo fui recebido. Eu o havia encontrado uma única vez na casa de Ugo Pinheiro Guimarães, na rua Paissandu. O presidente, depois de algumas palavras de cortesia, disse-me que, provavelmente, eu não saberia a razão pela qual me havia chamado, ao que, com meu assentimento, declarou que desejava me nomear embaixador do Brasil na Unesco. Fiquei algum tempo perturbado, mas disse, de imediato: "Mas o senhor pretende tirar o Paulo Carneiro?" E um pouco petulantemente, acrescentei: "Paulo Carneiro é o homem mais importante no cenário intelectual da Unesco. Espero que essa sua decisão não seja irreversível, pois o Brasil sofrerá com a mesma." Disse-lhe que estava muito honrado pelo convite, mas que, além da dificuldade de não magoar Paulo Carneiro, eu tinha compromissos. O primeiro era que eu não gostaria de deixar a direção da faculdade, tanto mais que sentia que as minhas idéias eram partilhadas pelos meus colegas de congregação. O segundo era que a Academia Brasileira de Ciências vivia em grande dificuldade financeira, sem nenhuma renda própria, e o terceiro era que eu precisava aparelhar melhor os serviços hospitalares da Faculdade de Medicina. O presidente disse-me que a questão do meu substituto na faculdad e não apresentaria dificuldades. Cabia a mim apresentar uma lista de três professores e que ele nomearia o que eu indicasse. Quanto aos recursos para a academia, que eu estudasse a melhor fórmula com Roberto Campos, a quem ele mesmo telefonaria. Assim foi feito. O candidato que eu escolhi na lista tríplice, para diretor da faculdade, foi o professor José Leme Lopes. Roberto Campos me atendeu prontamente, dando uma verba de um milhão de cruzeiros, que foi absorvida muito mais pela universidade do que pela Faculdade de Medicina.

A solução dada ao problema da Academia Brasileira de Ciências foi resolvida de uma maneira esplêndida. Castello Branco sancionou a lei n° 5.092, de 30 de agosto de 1966, publicada no Diário Oficial, que autorizava o Poder Executivo a doar Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional à Academia Brasileira de Ciências. O valor dessas obrigações era de um bilhão e seiscentos e sessenta milhões de cruzeiros, com vencimento no prazo de vinte anos. Computados os juros de seis por cento ao ano, a soma recebida pela Academia Brasileira de Ciências corresponde a um total de setecentos e cinqüenta mil dólares, conversão feita levando-se em conta o valor do dólar no dia da publicação do decreto. Castello Branco tornou público o seu apoio à Academia Brasileira de Ciências no discurso que nela pronunciou, na ocasião da comemoração do cinqüentenário de sua fundação. Este foi, sem dúvida, um bom serviço que eu prestei à academia, embora alguns colegas meus tenham considerado, na ocasião, que o caráter temporário da ajuda não era o ideal.

A minha pergunta sobre Paulo Carneiro, Castello Branco respondeume: "A minha decisão é irreversível. O senhor reflita e venha depois me dar a sua resposta. Seria bom que o senhor mesmo comunicasse a minha decisão ao embaixador Paulo Carneiro." Saí estonteado do encontro e fui para casa, tendo chamado para presenciar o telefonema que eu iria dar ao velho amigo Paulo Carneiro, seu irmão Trajano. Pelo telefone, Paulo, na sua generosidade, disse: "Se eu tenho que sair, gostaria que meu substituto fosse você."

Depois de alguns dias, fortemente pressionado por Luiz Vianna Filho, voltei ao palácio para aceitar a minha indicação. Preparei-me, assim, para embarcar para Paris, o que levou ainda dois meses, pois o Senado só se reuniu um mês depois de chegada a respectiva mensagem do presidente e de realizada a sabatina a que fui submetido.

Não me foi difícil responder aos vários quesitos que me foram propostos, quase sempre muito simpáticos à minha pessoa. É que, no ano que passara, havia eu tomado parte em várias reuniões de interesse do programa da Unesco. Como membro do Comitê Consultivo da Organização Pan-Americana de Saúde, fora algumas vezes a Washington. Dessas viagens tirei sempre grande proveito para incrementar o meu conhecimento sobre a vida científica internacional e sobre alguns problemas de educação, de interesse dos países em desenvolvimento e da própria Unesco.

Conhecia eu, bastante bem, o funcionamento dessa organização internacional, pois fui um dos delegados brasileiros à sua Primeira Conferência Geral, realizada durante um mês de árduos trabalhos, em Paris. Fui também delegado do Brasil à Segunda Conferência Geral, realizada no México, em 1947. O ambiente desta pôs-me em contato mais direto com os problemas latino-americanos e o desenvolvimento científico e cultural. Também alargou o horizonte dos meus conhecimentos a minha presença no Conselho Consultivo da Organização Mundial de Saúde, onde eram agitados, principalmente, problemas relativos aos países da África e da Ásia. A Conferência do México, das mais interessantes conferências internacionais a que tenho comparecido, além de acentuar a riqueza da nação hospedeira, das suas gentes, hábitos e cultura, ofereceu-me ainda a oportunidade, única, de me pôr em contato com personalidades da França que, posteriormente, vieram a prestar uma grande colaboração à minha atividade no Brasil. Entre elas cito: o reitor da Academia de Paris, professor Jean Sarraihl, profundo conhecedor da língua e da civilização espanhola; Louis Joxe, chefe do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores da França; e Paul Rivet, antropólogo cujos estudos sobre a população da América Latina foram importantíssimos para o conhecimento da mesma. Entre outros de igual nível intelectual, cito Jacques Maritain, com o qual me entretive longas horas, em debates às vezes controvertidos, sobre a personalidade de Bernanos e sua obra literária, esta, sem dúvida, incontestável.

A minha ida e adaptação ao trabalho na Unesco foi muito fácil. Tinha a me proteger a sombra dessa figura gigantesca que foi Paulo Carneiro, sem dúvida um dos seres mais perfeitos que conheci e que tanto me ensinou, desde os tempos em que me fez compreender as fórmulas das moléculas orgânicas, quando eu me preparava para o vestibular de medicina. Sempre pronto a me auxiliar naquilo de que eu necessitava, a me indicar os caminhos que eu devia seguir, foi com a maior emoção que o vi no Aeroporto de Orly, no dia da minha chegada a Paris. Uma das certezas que levo na vida é que nunca o magoei e procurei, o mais possível, mostrar a todos quanto pude, as qualidades extraordinárias desse varão único, em que se mesclavam as virtudes cristãs e a rigidez do puro pensamento filosófico de Auguste Comte.

Outro acontecimento que facilitou a minha vida na Unesco foi ter participado de uma Assembléia Geral para a discussão da política científica e tecnológica organizada pela ONU. Nesta, tive um papel preponderante ao não permitir que fosse avante um projeto dos países do Oriente, que desejavam a supressão das responsabilidades da Unesco em relação à ciência internacional, criando-se, para tanto, uma agência que representaria, ao mesmo tempo, novas frustrações, novos custos e mais empregos para intelectuais sem perspectivas no Terceiro Mundo. Custou-me muito obter o apoio necessário de certos países emergentes, mas tive, no entanto, o dos países da América Latina, o qual, somado ao dos países ricos, eliminou a possibilidade dessa absurda criação.

Encontrei, também, desde o início da atividade que desenvolvi como chefe da delegação do Brasil junto à Unesco, o apoio permanente da Sessão de Cooperação Intelectual do Itamarati e, particularmente, do então secretário Hélio Scarabotolo. E ainda mais, o apoio decisivo de Adisheshiah, diretor-adjunto e, particularmente, de René Maheu, diretor-geral, durante todo o tempo em que exerci o meu posto. Gozei, como já disse, de uma grande ligação com essa eminente figura que foi René Maheu, na qual eu encontrei tudo aquilo que aprendi a admirar na velha França, até mesmo a sua caturrice. Trazia-me ele o reflexo já quase perdido do tempo da velha École Normale da Rue d'Ulm. Não sei mesmo se Maheu ali estudou, mas a sua formação é típica da ocasião em que aquela escola formou o grupo de escol que criou a França pós-napoleônica. Com Maheu havia eu adquirido certa intimidade, em conferências anteriores, o que me permitiu uma forma muito direta de entretenimento. Cada vez que o queria ver, convidava-o para um almoço num dos grandes restaurantes de Paris — éramos ambos gourmets —, tendo o cuidado de lhe enviar, na véspera, uma pequena agenda na qual se encontravam os temas que iria com ele discutir. Esses temas, na sua grande maioria, eram relativos ao Brasil ou à América Latina, mas, em parte, diziam respeito à própria atividade da Unesco.

Lembro-me da satisfação com que Maheu se referiu a um documento que lhe enviei mostrando a importância de uma modificação global do currículo do Segundo Ciclo, em geral sobrecarregado com matérias de interesse intelectual, mas de pouca utilidade civil, e o reforço, no mesmo, das línguas nacionais em muitos países, quase sempre marginalizadas pelo esquecimento de que a cultura de um país é, em parte, uma função do desenvolvimento de sua própria língua. Uma iniciativa à qual Maheu deu o maior apoio foi a organização, em 1967, de um simpósio internacional de pesquisa sobre "o cérebro e o comportamento humano". Para este simpósio tive todo o apoio do diretor-geral da Unesco. Pude escolher um pequeno comitê de organização que trabalhou, duramente, na sua realização e, até mesmo, consegui levar à Europa, para me auxiliar diretamente, um brasileiro e companheiro de trabalho, Darcy Fontoura de Almeida, ilustre pesquisador da área de biofísica, que me acompanha, fielmente, desde o início da minha atividade. O colóquio teve a maior aceitação e mais de seis Prêmios Nobel dele participaram, dando um brilho extraordinário às reuniões que encheram vários dos anfiteatros da sede da Unesco, em Paris.

Um dia, surpreendeu-me Maheu enviando-me um dos seus chefes de serviço para convidar-me a fazer parte da Comissão Internacional de Salvaguarda de Veneza. Fiz-lhe ver que me faltava competência para tanto, mas ele não se convenceu e assim, durante anos, tive a oportunidade única de reviver, na velha cidade dos doges, os limites que separam as civilizações que se sucederam no mar Mediterrâneo, experiência de fertilidade única para a compreensão da vida e o estudo da humanidade. Maheu tinha, talvez, uma excessiva confiança em mim. Por duas vezes escolhi, para ele, novos diretores: Carlos Flexa Ribeiro, para diretor de Educação, e o geneticista italiano Adriano Buzzatti-Traverso, para a Ciência.

Uma das cartas que recebi quando o governo brasileiro, abruptamente, mas para o meu bem, me retirou da Unesco foi escrita por Maheu. E uma carta que releio com emoção, na certeza de que, durante a minha passagem por aquela instituição, fiz o melhor que pude, ainda que longe do que desejaria ter feito. Assim dizia a carta:

Vendredi, 21 Novembre 1969

Cher ami,

A mon retour d'Asie, je trouve votre lettre du 19. La nouvelle

qu'elle m'apporte me choque et me peine profondément.

Je m'habituerai difficilement à ne pas vous avoir à mês cotés,

vous qui n'avez cessé d'être pour moi un appui sans défaut, un

encouragement constant et généreux, une source inépuisable

d'idées. Du moins ai-je la satisfaction de pouvoir en tout lieu

compter sur votre amitié. Je vous écris ces quelques lignes

encore sous le coup de l'emotion, dans la melée des affaires

qui, comme à chaque retour, m'assaillent de toute part.

Elles me sauraient en aucune matière constituer le témoignage

d'admiration et de reconnaissance quej'espère avoir l'occasion

de vous manifester avant votre départ.

Veuillez les accueiller cependant, ainsi que Madame Chagas qui

a toujours été si compréhensive et si bonne pour moi et à qui je

vous prie de renouveler mes respectueux hommages, comme

l'expression très sincère de mes profonds regrets et l'assurance

de ma fidèle amitié.

René Maheu

A minha saída da Unesco foi-me muito proveitosa. Já havia realizado a minha missão e, se mais tempo ficasse fora do Brasil, ser-me-ia muito difícil continuar aquilo a que me havia proposto, seja a implantação de uma atividade de pesquisa científica contínua, na minha universidade.

O meu intercâmbio com Maheu fez-se por intermédio de numerosas cartas e ofícios (cerca de duzentos) que lhe enviei regularmente, no período entre 1966 e 1970. O assunto dessas minhas comunicações é bastante variado, relativo, amiúde, a atividades próprias da Unesco, porém, as mais das vezes, ao Brasil ou à América Latina. Esse meu intercâmbio é apresentado a seguir, resumidamente, pois não me é possível analisar todas as minhas mensagens a Maheu, limitando-me, na exposição que se segue, apenas a algumas sugestões:

Em carta enviada em 9/6/1966, peço apoio para um workshop sobre neurobiologia, no Chile, e assinalo que a idéia preconcebida de que a pesquisa sobre cérebro só poderia ser levada a cabo nos países desenvolvidos parecia destituída de fundamento. Havia todo um trabalho a fazer sobre a etologia humana nos povos que não tinham recebido, ainda, a marca da civilização moderna, países nos quais o comportamento social merece uma atenção que sobrepassa os limites das ciências sociais e se insere nos aspectos biológicos, vale dizer, nas pesquisas cerebrais propriamente ditas. Sendo tão óbvia a importância das pesquisas no domínio do cérebro, em minha opinião, deveriam entrar no programa da Unesco. Seria, pois, interessante estabelecer um acordo de cooperação Unesco/Ibro (International Brain Research Organization), esta em dificuldades financeiras. Tais considerações me levaram a apresentar um projeto de resolução que garantisse a continuação da Ibro, o apoio para o workshop sobre neurobiologia e, ainda, que se consolidasse a idéia da realização de uma conferência científica sobre " O cérebro e o comportamento humano". Ambos foram realizados com grande sucesso em Santiago do Chile e em Paris, respectivamente.

Outra preocupação que me inquietava era a necessidade de se conceber um plano integrado para a conservação da natureza e para a proteção e salvaguarda dos bens artísticos no Brasil, ameaçados pela crescente penetração das rodovias para o Oeste e, eventualmente, pelo desenvolvimento da atividade turística. Achava imperativo efetivar-se o entrosamento e a colaboração entre o Serviço do Patrimônio Histórico, o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, a Academia Brasileira de Ciências e o CNPq, numa planificação global que levasse em consideração uma perspectiva largamente aberta à conservação dos bens artísticos e de certos patrimônios naturais. Seria necessário integrar tudo isso nos projetos de desenvolvimento do país. Ressaltei, ainda, as possibilidades para o turismo nas cidades do litoral, como Salvador ou Parati, sem deixar de lado as cidades antigas do interior, indispensáveis ao bom conhecimento do barroco em nossas plagas, com referência especial à cidade de Goiás Velho. Terminei sugerindo que a Unesco enviasse missão para avaliar as questões expostas. Uma das conseqüências dessa sugestão foi o tombamento da área do Pelourinho, em Salvador, Bahia.

O estímulo à iniciação científica e ao estudo da natureza sempre foram objeto das minhas cogitações de homem devotado à ciência e ao magistério. Dessa forma, fiz ver quão benéfica seria a criação de um programa contemplando esses dois aspectos. Tal programa seria desenvolvido com a ajuda de um kit preparado pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (Ibecc), de São Paulo. Seria também de grande valia a realização, pela Unesco, de cursos preparatórios para professores de ensino primário que se envolveriam com o projeto de iniciação às ciências. Deles deveriam participar professores da América Latina e da África. Essas considerações decorreram da análise crítica que fiz do programa então elaborado pela Unesco, o que me levou à conclusão de que o incremento dado ao ensino das "ciências fundamentais" era muito reduzido.

Solicitei o apoio justificado da Organização à Primeira Exposição Surrealista Internacional, que seria realizada em São Paulo, em maio de 1967, e mostraria sua importância para a difusão dos princípios fundamentais do pensamento surrealista. Uma das suas conseqüências seria a de impulsionar, em linhas modernas, o desenvolvimento intelectual.

Propus modificação no mecanismo de realização da Conferência Geral da Unesco, e insisti na formação de um comitê consultivo, escolhido pelo diretor-geral, dentro das regras que determinavam o seu funcionamento.

Levei ao conhecimento do diretor-geral a minha contribuição ao Congresso Americano, perante o qual pronunciei uma conferência sobre "Ciência e Tecnologia nos Países em Desenvolvimento", assinalando, mais uma vez, as dificuldades de comunicação. Por fim, voltei ao tema da realização de uma conferência sobre educação científica e da necessidade da formação de quadros científicos.

Dirigi-me ao diretor-geral para formular as linhas gerais pelas quais deveriam ser criadas e organizadas as faculdades de ciências, financiadas pelo fundo especial das Nações Unidas, e no quadro das atividades da Unesco. Dois pontos seriam essenciais: a utilização do que chamei "a estrutura ecológica local", e o emprego de "métodos os mais avançados". Reforcei, então, o meu ponto de vista de que, sempre que possível, o centro de ensino científico esteja ligado ao sistema universitário e, ao mesmo tempo, focalize os problemas mais característicos da sociologia e da natureza de cada região.

Explicitei minha inquietação com a migração de talentos e a pobreza do número de bolsas da Unesco. Assinalei a importância de um justo equilíbrio entre as bolsas dadas no campo das ciências sociais e das ciências chamadas exatas, sem o qual não haveria possibilidade de se criar o humanismo científico. Nesse contexto, fiz um comentário sobre a dificuldade de se encontrarem, por falta de entrosamento com a Unesco, interlocutores realmente válidos no campo das ciências humanas e sociais. Com relação à Terceira Sessão de Informações, apresentada pelo diretor-geral, enfatizei a importância da criação de centros de excelência e a sua possível transformação em centros de formação avançada.

Chamei a atenção para a importância de se dar mais enfoque aos projetos nacionais e internacionais, do aspecto plástico que se encontra na ciência moderna e que vai desde o domínio atômico-molecular às dimensões galácticas. Desse ponto de vista, poder-se-ia prever uma profunda inter-penetração entre a criação artística e o que se poderia chamar "a estética da profissão científica". Uma exposição desse tipo serviria para estabelecer novo laço entre as atividades do espírito humano que, entre os vários campos, são entretanto separadas pelo quadro material, no qual evolui, respectivamente, a vida do artista ou do cientista.

Mencionei, ainda, a importância de um seminário sobre a formação de administradores científicos e, para tal, a necessidade da organização de cursos de informação científica para jornalistas, assunto que poderia ser desenvolvido pela Unesco.

Ressaltei a necessidade de esforços para a criação de uma Faculdade de Ciências na Bahia. Mais ainda, enviei carta indicando o interesse na fabricação simples e elementar de equipamento científico para o ensino básico.

Fiz considerações sobre a importância do projeto apresentado na 14ª Conferência Geral, intitulado "O homem e o meio", felicitando, ao mesmo tempo, o diretor-geral pelo interesse que o mesmo estava suscitando no secretariado. Seguem-se considerações sobre as favelas, assinalando a influência do meio sobre o comportamento humano.

Em seguida, considerações sobre a migração definitiva ou temporária, bem como sobre as dificuldades de adaptação que a mesma oferece, propondo que a Unesco criasse um sistema pelo qual os cientistas que tivessem migrado pudessem visitar, regularmente, seus países de origem.

Falando sobre Brasília, elogiei a idéia da utilização dos centros de excelência para intensificar, no plano regional, o ensino superior de pós-graduação. Apresentei uma lista de onze centros situados em universidades brasileiras e capazes de colaborar com a Unesco neste projeto. No campo da Física, assinalei a importância do Centro Latino-Americano de Física, localizado no Rio de Janeiro, e das várias universidades brasileiras capazes de prover um curso de física de alto nível e com característica de pós-graduação.

Indiquei a importância da criação de uma escola de técnicos, com caráter regional e semelhante à que foi organizada em Belo Horizonte, graças à colaboração do Department of Overseas Cooperation, da Grã-Bretanha, do British Council e do Conselho Nacional de Pesquisas.

Na carta 153, propus um projeto de colaboração do Instituto Francês do Petróleo com a Unesco, para implantar, no nordeste do Brasil, a indústria de produção de proteínas pela alga Spirulina maxima.

Insisti, também, sobre a importância do esforço que a Unesco deve fazer para a formação de quadros de cientistas e técnicos nos países em desenvolvimento, assinalando que a Unesco deveria imaginar um tipo de universidade capaz de desenvolver, nesse domínio, as potencialidades de cada nação.

Sugeri ao diretor a criação de um centro de música no nordeste do Brasil, que serviria, sobretudo, para o estabelecimento de um estudo da música latino-americana, seja na época colonial, no período clássico, ou na época moderna. O centro deveria servir, também, para a ordenação da música folclórica.

Insisti na reformulação dos interesses da Unesco no sentido de uma integração maior entre ciências exatas e ciências sociais. Ainda, procurei estimular a publicação da revista Impacto, que exerceu, durante um certo tempo, grande influência nos meios científicos e intelectuais, acentuando o seu caráter de independência e, particularmente, a não-competição com as revistas de leitura usual, tais como Nature ou Scientific American, sugerindo que a Unesco deveria se ocupar, principalmente, com a política científica nos países em desenvolvimento.

Propus que cientistas ou especialistas dos países em desenvolvimento pudessem realizar estágios de até vinte e quatro meses nos serviços da Unesco, não só visando ao seu próprio aprendizado como, também, para difundir, nos países de origem a ação daquela organização.

Na minha volta da Mesa-Redonda sobre Política Cultural, realizada em Mônaco, felicitei o diretor-geral e o sub-diretor-geral, senhor Elmandjrá, pelo sucesso da mesma, assim como assinalei as dificuldades da ação da Unesco no campo cultural, já que neste os problemas têm um caráter nacional, e esse caráter deve ser protegido, tornando assim mais difícil uma política de educação e desenvolvimento cultural.

Em outra carta, assinalei que o esforço deveria ser renovado nos domínios culturais, pois que o desenvolvimento social, que deve ser o objetivo do desenvolvimento econômico, não pode ser obtido senão pela valorização do que há de mais imanente na vida de cada país ou região, e que a atividade da Unesco deveria ser dirigida, cada vez mais, nessa direção. O ideal de paz que nos conduz não será atingido, senão, pelo respeito internacional baseado na dignidade humana, fortalecida pelo crescimento das características da alma coletiva, o pleno desenvolvimento da cultura e defesa dos direitos de cada indivíduo, e não baseada no desenvolvimento das riquezas materiais, cujo traço mais característico é a procura, em nossa civilização, dos bens de consumo.

Voltei a falar, em outra ocasião, sobre a criação das Faculdades de Ciências e sugeri a organização de um centro de educação para crianças anormais, citando o exemplo da experiência realizada em Belo Horizonte, na Fazenda do Rosário, pela senhora Helena Antipoff.

Fiz, também, um apelo para que a Unesco organizasse exposições itinerantes de ciências, semelhantes às que observei no Palais de la Découverte, que seriam de grande utilidade nos países de pouco desenvolvimento científico.

Apresentei as possíveis linhas de trabalho resultantes do colóquio sobre "o cérebro e o comportamento humano".

Propus que a Unesco publicasse uma edição especial das obras de Manuel Bandeira para ser largamente difundida, conjuntamente com o disco do festival realizado em Provence, onde poemas e canções do poeta, traduzidos belamente para o francês por Michel Simon, foram interpretados por artistas franceses.

Em outra oportunidade, fiz observações sobre a distribuição geográfica e a necessidade de respeitar competências na distribuição dos trabalhos da organização, assim como assinalei a importância da utilização dos computadores nos trabalhos da Unesco e nos países em desenvolvimento.

Apresentei considerações restritivas sobre a nova organização da Divisão de Ciências da Unesco, acentuando a necessidade de um melhor desenvolvimento do setor de educação científica e, além do aumento de bolsas da Unesco e sua racionalização, sugeri a importância de um convênio Unesco/Ibro.

Defendi a realização, no Palácio da Unesco, de uma exposição sobre o marechal Cândido Rondon, que sucederia àquela feita em homenagem a Nehru. A exposição teria, também, o objetivo de silenciar os detratores do Brasil que proclamavam nosso interesse desumano no extermínio dos indígenas. A exposição, orçada em quinze mil dólares, não foi realizada, pois não obtive o interesse da divisão cultural do Itamarati, embora a idéia tivesse sido aceita pelo diretor-geral da Unesco.

Sugeri a edição, pela Unesco, de dois livros: O índio brasileiro e a Revolução Francesa, de Afonso Arinos de Mello Franco, e A superioridade do homem tropical, escrito por Silva Mello. Uma análise dos livros está incluída no ofício enviado. Faço, ainda, a proposição de ser organizado e publicado um volume sobre o barroco brasileiro.

Mencionei, na carta 180, a idéia de um novo sistema para difusão das atividades da Unesco nos Estados-membros.

Apresentei projeto para a criação de uma Faculdade de Ciências em São José do Rio Preto, São Paulo, e lancei o nome de Alexandre Eulálio Pimenta da Cunha para oficial de ligação entre a Unesco e a Comissão de Salvaguarda de Veneza. Ainda, mostrei ao diretor o grande interesse pelos trabalhos realizados em Salvador sobre radioatividade natural, dando a idéia da visita, ao Brasil, do professor Laberye.

Ao despedir-me do diretor-geral, em carta de 20/1/1970, sugeri que a Unesco servisse de centro internacional de informação e formação de quadros, no domínio do ensino para crianças e adolescentes excepcionais, já que as condições do hábitat moderno da vida, que se desenvolve em nossa civilização, para não me referir somente às modificações de certas regras de comportamento, nos informavam que, num futuro próximo, o número de retardados aumentaria vertiginosamente. Parece que o tratamento bioquímico, bem-sucedido em alguns casos, ou o exame pré-nupcial não modificariam o problema senão de uma maneira ilusória. Seria necessário, pois, integrar esses seres humanos na sociedade, dando-lhes "uma certa viabilidade econômica".

Insisti, ainda, para que a Unesco realizasse como função fundamental uma reformulação do ensino secundário, o qual não correspondia mais ao progresso de nossa sociedade. E mais, que a Unesco deveria criar uma sonoteca internacional para preservar os ritmos primitivos das coletividades. Esse assunto passa despercebido numa sociedade voltada para o progresso mecânico e na qual raros são aqueles que experimentaram e foram tocados pelo ritmo invasor, perturbador e extraordinário de uma noite passada na floresta tropical ou nas savanas. Nessas noites, tem-se a impressão de ouvir vozes não humanas provindo das árvores e das plantas, interrompidas, de tempos em tempos, pelo canto de animais noturnos.

Acrescentei, ainda, que no momento em que as prioridades científicas estavam concentradas nas pesquisas sobre o cérebro, as quais podem levar a uma parte da explicação do comportamento, consciente ou inconsciente, não se poderia eliminá-las de uma organização como a Unesco. Enfatizei, também, o seguinte:

Por razões que não sei explicar, numerosos são aqueles que

consideram, infelizmente, que a pesquisa sobre o cérebro deve

ser um privilégio dos países desenvolvidos. Se nós

considerarmos o custo do estabelecimento de um laboratório de

pesquisa sobre o cérebro, só posso admitir que essa atitude

tenha origem numa discriminação intelectual. Infelizmente,

muitos dos cientistas dos países desenvolvidos consideram que

certas pesquisas superam não somente as capacidades

materiais dos países em desenvolvimento, mas as capacidades

intelectuais de seus pesquisadores. Ora, isso é um grave erro.

Para enfrentar todos os problemas de seu desenvolvimento,

estes últimos países devem, ao contrário, desenvolver as

pesquisas sobre o cérebro, não só como pesquisas de base,

mas também de aplicação.

E assim concluo a minha carta:

É pois, em nome de toda uma região de um país em

desenvolvimento, seja do Terceiro Mundo, que eu vos dirijo este

apelo, na espera de que ele receberá a generosa atenção que

sempre foi dada às minhas outras iniciativas.

Uma das atividades que desenvolvi simultaneamente às da Unesco foi a organização da reunião do Comitê para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico dos Países em Desenvolvimento, que eu então presidia, para a apresentação ao Conselho Econômico e Social da ONU de um projeto de organização da Conferência sobre Meio Ambiente, que veio a se realizar em 1972, em Estocolmo.

A estada na Unesco foi extremamente produtiva para mim. Além de viver em Paris, o que não é negligenciável, tive a oportunidade de conhecer o mundo por intermédio das inúmeras personalidades que, vindas dos quatro cantos do globo terrestre, participavam das atividades da organização, seja a título permanente, como funcionários, seja como representantes-delegados, seja como participantes das várias reuniões, quase que diárias, com que a entidade fazia caminhar os seus projetos. Entre os funcionários, muitos conheci da mais alta qualidade intelectual e moral. Cito, apenas como exemplo, o senhor Yves de Emptine, chefe da divisão de política científica, em cujo entretenimento muito aprendi. É falaciosa a tendência de achar que funcionários internacionais são homens e mulheres que fogem dos seus países para viver em melhores condições de trabalho e de vida. A grande maioria, direi mesmo, a quase totalidade daqueles com quem convivi, era constituída por pessoas que tinham realmente o ideal de contribuir para o progresso da civilização.

Entre os delegados e os representantes nacionais, conheci alguns que se destacavam pelo seu amor à causa internacional e ao progresso da humanidade. Foi, sem dúvida, minha estada na Unesco uma experiência riquíssima, vivida, cada minuto, com satisfação e interesse.