Um aprendiz de ciência
IX - Lembranças afetivas: viagens, carnaval e Annah
IX - Lembranças afetivas: viagens,
carnaval e Annah
Minha vida durante o período da faculdade, e mesmo depois, quando eu já trabalhava no Instituto Oswaldo Cruz, decorreu num Rio de Janeiro diferente do de hoje. Além do mais, na minha falta de preocupações mais sérias, não tomava eu conhecimento da miséria que já se alastrava morros acima, mas ainda não tinha invadido o âmago da cidade. Achava, também, que a presença de meu pai na direção do Departamento Nacional de Saúde Pública era uma segurança de que os problemas sanitários seriam resolvidos, em mais ou menos tempo. Por isso mesmo, podia me dedicar, ao lado dos esportes (basquetebol, à noite; esgrima, duas vezes por semana), a uma vida social que, não sendo muito intensa, pois eu dava muita importância aos estudos, era, assim mesmo, animada. Ocupava-me bastante de música, sendo, como disse, freqüentador assíduo, ainda que de carona, do Teatro Municipal. Operas, concertos e balés contavam sempre com a minha presença. Houve um momento em que a sociedade carioca ficou com a mania dos patins de quatro rodas e improvisaram-se rinques em vários clubes. Eu ia sempre ao do Fluminense. Sem ser a grande estrela, era um bom patinador, o que facilitou mais tarde patinar no gelo, quando fui viver na Suíça.
A primeira vez que eu saí do Brasil para uma viagem aos Estados Unidos foi em 1919, quando acompanhei meu pai, minha mãe e Evandro, meu irmão. Foram quinze dias em um vapor da Munson Line, onde me beneficiei muito aperfeiçoando meu inglês, bastante primitivo. Para tanto ajudou-me, enormemente, o alemão que aprendera com a Fräulein Elza Dingues. A tripulação com quem eu conversava entendia perfeitamente a minha mistura de inglês com alemão. Viagem tranqüilíssima, sem nenhum contratempo. A chegada a Nova York foi um deslumbramento! De início, a Estátua da Liberdade e, em seguida, os arranha-céus que eu desconhecia totalmente. No começo, ficamos hospedados no Hotel Macalpin, bem em frente à Estação Pensilvânia, que me pareceu gigantesca. Depois, quando meu pai começou sua viagem pelos Estados Unidos para pronunciar conferências em várias universidades, fui morar com meu tio Hélio Lobo, cônsul-geral do Brasil, no Riverside Drive. Ali morei até nossa volta para o Brasil, quase três meses depois, já que meu pai foi também ao Canadá, onde, em Toronto, visitou Best e Banting, descobridores da insulina. Era também a sua primeira viagem à América do Norte e, pelo que me contou minha mãe, foi recebido gloriosamente nos vários centros científicos que visitou, tendo, logo de início, recebido o título de Doutor Honoris Causa na Universidade de Harvard. Sua visita a Toronto trouxe outro resultado importante. E que logo que nós voltamos para o Brasil, minha mãe apresentou sinais de diabetes, o que fez com que meu pai se dirigisse aos dois médicos de Toronto, que passaram a lhe enviar, com todas as precauções necessárias, vidros de insulina, logo depois comercializada pela companhia Lilly, o que permitiu uma sobrevida de mais de trinta e quatro anos à Mãezinha.
Em Manhattan fui a vários museus, porém, o que mais marcou minha passagem, foi a visita que meu pai, um pouco contra a minha vontade, obrigou-me a fazer ao Instituto Rockefeller, onde assombrei-me ao visitar Alexis Carrel no seu laboratório.
Vestido numa bata verde e acompanhado por todos os seus assistentes, mostrou-me ele um pedaço de um coração de cobaia batendo normalmente. Era o início da cultura de tecidos desenvolvida particularmente, nos anos seguintes, na Alemanha. Tive muito contato, também, com meninos americanos, que se juntavam nos parques que margeiam o Riverside Drive, para jogar beisebol. Logo me ajustei ao jogo. Tive alguns entreveros, porque, pelo fato de usar calças curtas, até que minha mãe comprou-me as calças bombachas que os meninos americanos usavam, era eu chamado, com um certo desprezo, de French boy. Um dia, um dos garotos atarracados e bem mais fortes do que eu abusou da caçoada. Revidei. Cheguei em casa com um pouco de sangue no rosto. Minha mãe quis me proibir a brincadeira, mas eu consegui, depois de algum tempo, convencê-la a que eu voltasse ao jogo. Lá estava o meu adversário, que veio falar comigo gentilmente, e nós nos entendemos muito bem na meia língua inglesa que eu já falava. Voltando ao Rio, ao Colégio Rezende e às atividades familiares, recomecei minha vida com um certo orgulho de ter sido um visitante dos Estados Unidos. Na época, o importante era ir à Europa.
O Carnaval era, sem dúvida, um momento em que o divertimento tomava as rédeas. Bailes nos clubes, passeios na avenida e o corso no automóvel de minha tia Conceição Abranches ocupavam o meu tempo nos três dias de folguedo. Fora deles, eram as batalhas de confete realizadas, principalmente, na Zona Norte, sendo que uma delas, a da rua Dona Zulmira, era imperdível, como se diz hoje. Nessas "batalhas" fiz algumas amizades que perduraram durante muito tempo.
Um dia, em 1934, um colega meu de enfermaria, Aristides Paz de Almeida, convidou-me para participar do seu grupo no Carnaval. Era um grupo de quase vinte pessoas, distinguidas por uma grande águia pintada numa blusa azul. Achei muito feia a fantasia, mas não discuti, mesmo porque o meu automóvel era indispensável para transportar o pessoal de um lado para o outro. Fomos aqui, fomos ali, para terminar no Country Club, onde a festa chegava ao auge. Ao entrar, vi uma moça que achei linda e dispus-me a dançar com ela. Pedi ao rapaz que a acompanhava, meu colega Luiz Torres Barbosa, que me apresentasse a ela. Ele recusou-se e eu, perdendo a cerimônia, fui diretamente à menina e me apresentei, dizendo que eu sabia que meu pai era amigo do seu pai. Tratava-se de Annah. Dançamos um pouco, mas logo tive que seguir com o grupo, que foi comer ostras no mercado da Praça Quinze. Passei muito tempo sem vê-la, embora a procurasse nos lugares freqüentados pela sociedade do Rio, como a sessão das dez no Cinema Palace, às segundas-feiras, seguida de um sorvete na Americana, no andar térreo do Edifício Serrador. Só consegui reencontrá-la uma tarde, no Jockey Club, em um Grande Prêmio ganho pelo cavalo Tigipió, propriedade de um criador do Nordeste. Passei, então, a procurá-la no footing que, aos domingos, se fazia no calçadão da praia de Copacabana. Aí começamos a conversar, até que um dia vi uma finda senhora sentada num banco, olhando para nós com grande curiosidade. Tratava-se de Amelinha, irmã mais velha de Annah. Esta me levou à sua presença e à de seu marido, Múcio de Senna. Amelinha disse que não era conveniente que nós ficássemos conversando na praia e o melhor seria irmos à sua casa, o que fizemos subindo a rua Sá Ferreira até a Pompeu Loureiro, onde ela morava.
Minha segunda viagem ao exterior, quando já rapaz, foi ao Uruguai. Meu pai fora convidado a participar da X Conferência Pan-Americana, que se realizava em Montevidéu. A delegação brasileira, chefiada por Afrânio de Mello Franco, contava, entre outros membros, com Francisco Campos. Montevidéu é, sem dúvida, uma das cidades mais aprazíveis em que vivi. O mês que ali passei marcou profundamente, de um lado, a noção da importância da compreensão entre homens de diversas nacionalidades ou origens e, mais ainda, a minha vida sentimental. E que Annah acompanhara seu pai, e o nosso namoro, que começara no Country Club e se estendera ao footing dos domingos no agora chamado calçadão da avenida Atlântica, estabilizou-se, definitivamente, malgrado os "avisos" dados a seu pai por Afraninho, que também fazia parte da delegação, de que Afrânio deveria suspeitar de que a minha presença em Montevidéu traria resultados importantes. Afrânio de Mello Franco não quis tomar conhecimento das premonições da família, e chegou a permitir que Annah, acompanhada de Dorinha, filha de Francisco Campos, fosse passar três dias em Buenos Aires com alguns amigos da delegação integrante, aos quais, mais do que rapidamente, eu me juntei.
Em Montevidéu, a vida de um adjunto sem responsabilidades face à delegação brasileira era a mais agradável possível. Festas, reuniões sociais e passeios com algumas personalidades uruguaias tornaram minha estada a mais útil, tanto mais que me aproximei muito do grupo de médicos que, ao lado de Clemente Estable, começavam a erigir o Instituto de Biologia. O ministro da Educação, Juanicó, homem de fina estrutura intelectual e moral, me mostrou como funcionava o sistema educacional uruguaio, extremamente avançado. Curiosamente, era ele parente de Annah, pois que também descendia do marechal Callado, que fora lutar para o estabelecimento do Uruguai e que se casara com uma uruguaia antepassada do ministro. Impressionou-me muito, em Montevidéu, o grau de escolarização das crianças e a superioridade do ensino secundário, quando comparado com o nosso, que, já nessa ocasião, apresentava sinais de decadência.
Bem mais tarde, fiz uma segunda viagem a Montevidéu, agora em missão oficial do Itamarati. Essa missão foi decorrente de um acordo entre os nossos governos, o qual determinava a ida a Montevidéu de dois brasileiros para professarem aulas ou conferências. Foi meu companheiro o professor Júlio Cesar de Mello e Souza, acompanhado de sua mulher. Eu também viajei com Annah. Seguimos de trem. Estafante percurso que me permitiu conhecer o interior gaúcho, pois a viagem pelo estado do Pio Grande do Sul foi feita, principalmente, de dia. Em Montevidéu fui extremamente bem acolhido pela comunidade científica. R. Talice havia realizado trabalhos significativos sobre a doença de Chagas e fez questão de me mostrar, detalhe por detalhe, o que tinha realizado. Da melhor qualidade. Annah e eu aproveitamos para voltar a Buenos Aires, onde ficamos dois ou três dias. Foi nessa ocasião que conheci, mais detalhadamente, um dos grandes cientistas jovens que encontrei na vida: Eduardo Braun Menendez. Trabalhava ele no Instituto de Fisiologia dirigido por Bernardo Houssay, uma das figuras singulares da comunidade científica latino-americana. Passei muitas horas conversando com Braun Menendez, que depois veio ao Rio para saber exatamente como se estava organizando o Conselho Nacional de Pesquisas. Mais tarde, tive a felicidade de ter em meu laboratório seu filho Jorge Braun Cantilo, que defendeu tese de doutorado em medicina e viveu com a sua admirável mulher Inês, longo tempo, na rua Joaquim Nabuco, bem próximo da casa em que Annah e eu moramos até hoje.
Com a ajuda de primas de Annah e de amigos comuns, nosso namoro foi continuando e se firmando, até que um dia meu pai foi pedir, para mim, a mão de Annah em casamento. Alguns meses mais tarde este se realizou, no dia 6 de julho de 1935, na Igreja Nossa Senhora da Paz, com grande simplicidade, já que Amelinha e meu pai haviam falecido.
Sete anos depois, exatamente no dia 15 de agosto, nascia a primeira de minhas filhas: Maria da Glória, que recebeu esse nome por ser o dia de Nossa Senhora da Glória. Minha felicidade foi imensa. Quando ia para casa, encontrei-me com Manuel Bandeira na rua do Ouvidor, esquina com a travessa do mesmo nome. Perguntou-me o motivo da minha euforia. Contei-lhe do nascimento de Maria da Glória. Despedimo-nos e, ao chegar em casa, havia um recado para que lhe telefonasse. Assim o fiz. Disse-me Manuel que fizera para ela um poema: Maria da Glória: "Esta é Glória, esta é Maria"..., e assim por diante.
Dois anos mais tarde nascia Silvia Amélia: novo poema. Mais dois anos: Anna Margarida. Pedi ao Manuel que fizesse um poema, nele usando, também, o nome de Mariana. Por razões sentimentais disse-me que não poderia fazê-lo. Escreveu, então, Anna Margarida. Eu acrescentei o Maria. Sete anos depois nascia a última de minhas "quatro filhas únicas", como costumo dizer. Falei com Manuel pedindo-lhe que lhe desse o nome: Cristina Isabel. E assim foi. Hoje, são quatro senhoras da mais alta qualidade, que me deram treze netos e, até agora, oito bisnetos.
Não posso deixar de acentuar a minha união com os irmãos e as irmãs de Annah, particularmente Virgílio, sem dúvida um dos varões mais ilustres e mais patrióticos que eu conheci. Dedicou toda a sua vida ao Brasil, mantendo-se sempre a distância de cargos e posições. A única que ocupou foi a de interventor no Banco Alemão, sem receber a menor retribuição financeira. Um dia, de madrugada, o telefone de minha casa tocou. Era Dulce, sua mulher, mais do que aflita, que pedia que eu fosse à sua casa, pois Virgílio fora covardemente assassinado, certamente por determinação de forças políticas que combatera impiedosamente.
Foi este um dos dois grandes choques que levei na vida. A morte de meu pai, embora súbita, era por assim dizer esperada. Nas vésperas, eu o acompanhara ao enterro de um dos seus colegas e colaboradores e ficara tão impressionado com a sua palidez que, ao chegar em casa, comuniquei a Evandro a minha preocupação. Combinamos levá-lo a um exame completo para saber exatamente o que tinha. Não conseguimos realizar o nosso intento, pois ele faleceu três dias depois. O outro choque foi a morte inesperada de Evandro. Tenho para mim que muitos dos nossos problemas sanitários estariam mais bem encaminhados se Evandro tivesse vivido mais tempo. Sua força de trabalho, sua inteligência e seu carisma eram a segurança de que muito ainda poderia ele fazer, além do que realizara. Evandro desapareceu aos trinta e cinco anos, como já disse, num desastre de um avião comercial em plena enseada de Botafogo, no momento em que ia visitar sua filha, em São Paulo.
Muito viajei, mas sempre a serviço, preocupado ao mesmo tempo em deixar o Instituto de Biofísica, que crescia, e Annah e as meninas, que nem sempre puderam me acompanhar. Nessas viagens fui sempre guiado pelo meu Bom Pastor, pois apenas uma vez tivemos um desastre de avião. Foi numa das ocasiões em que Annah e eu partimos de Roma em direção ao Rio. Contrariando o roteiro, o comandante resolveu tomar passageiros em Lisboa. Na hora de levantar vôo, estouraram os pneus do avião e o comandante foi obrigado a realizar a operação chamada "cavalo-de-pau", a cinqüenta metros do mar, sem poder impedir que numerosos pedaços de cimento da pista penetrassem na fuselagem, assustando todos os passageiros, entre os quais se encontrava o atual cardeal dom Lucas Moreira Neves. Não houve vítimas, mas os estragos no avião foram de tal ordem que a Varig foi forçada a requisitar, do Brasil, um outro avião. Em conseqüência, ficamos um dia e meio num hotel muito confortável, no Estoril, o que nos permitiu fazer um longo passeio por Lisboa, o que é sempre muito agradável.
Na verdade, sempre que pude passei por Paris. Várias vezes ali estive por maiores temporadas. Assim, quando fui dar um curso sobre tecidos excitáveis, na Sorbonne, ou quando, em outra ocasião, dei aulas sobre historradiografia, técnica que eu havia aprendido com a pesquisadora belga A. Ficq. Meu grande patrono em Paris foi Pasteur Vallery-Radot, neto do grande Pasteur. Foi ele me ver na primeira viagem que fiz depois da última guerra, no Hotel Lutetia, um dos poucos que podiam receber estrangeiros, pois tinha aquecimento. O frio era intenso em Paris e a faculdade de obter bens de consumo era muito restrita. Annah e eu, que fomos de navio, tínhamos levado uma enorme mala cheia de mantimentos, os quais rapidamente distribuímos aos amigos mais caros. Aqueles que possuíam propriedade no campo ainda tinham um pouco de fartura. Entretanto, faziam questão de nos receber em casa, numa hospitalidade que não se pode descrever. Eram todos grandes nomes da ciência, particularmente da medicina, que tinham conhecido meu pai, do qual com freqüência lembravam os trabalhos, a ação sanitária, e até mesmo as distrações que cometia no cotidiano. Nessa viagem resolvi defender tese de doutorado em ciências, o chamado "doutorado da universidade", que não exige os quatro anos para a tese de docteur en sciences. No dia da minha defesa, na Sorbonne, o frio era intensíssimo, e tanto eu quanto os meus examinadores não pudemos dispensar os pesados sobretudos que usávamos. Não havia calefação e a temperatura na rua era de -22°C. Livrei-me, assim, de uma obsessão, que era a de praticar ciência sem ter um título condizente.
Pasteur Vallery-Radot vinha freqüentemente me ver. Levou-me, várias vezes, ao seu serviço no Hospital Broussais, admiravelmente instalado, no qual pronunciei duas conferências. Além do mais, fui com ele à Academia de Medicina de Paris, da qual me fez membro associado, grau acima do de membro correspondente. Convidou-me, com freqüência, para almoços e jantares em sua casa, e ali conheci eminentes figuras do cenário cultural francês, muitas das quais membros da Académie Française, da qual Vallery-Radot fazia parte. Entre eles, Paul Claudel.
Outro anfitrião extraordinário foi o diretor do Instituto Pasteur, Jacques Tréfouel. Entre as variadas oportunidades que Thérèze e Jacques nos proporcionaram para melhor conhecer Paris, das mais interessantes foi um jantar em sua casa, com Sacha Guitry. Contou-nos ele a sua vida e episódios interessantíssimos de sua carreira. Fez-nos rir e chorar, pois, grande artista que era, introduzia em todas as suas descrições uma extraordinária mímica.