Um aprendiz de ciência
IV - Cátedra
Em fevereiro de 1936, fui chamado ao telefone, em Manguinhos. Recebi assim a notícia que me estarreceu: Francisco Lafayette havia morrido. Sabia que a sua situação pulmonar se havia agravado, mas estava longe de pensar em um desfecho mortal. Não me lembro de como caminhei do telefone, situado no edifício central, ao laboratório. Mais tarde, passado aquele primeiro momento de choque e emoção, julguei que seria apropriada a indicação de Miguel Ozorio, em plena forma, para substituí-lo. Telefonei para Branca Fialho e ela se entusiasmou, evidentemente, com a idéia, que fracassou porque a congregação da Faculdade de Medicina recusou-se a validar o concurso de Miguel Ozorio, feito vinte anos antes. Os argumentos que dei a Pedro Pinto, o professor mais influente no Conselho Técnico-administrativo, de nada valeram. Disse-me ele que haveria concurso e que eu deveria me preparar para o mesmo. Aliás, minha inscrição só era permitida porque eu havia, meses antes, prestado o concurso de livre-docente e, assim, podia, pelo regulamento, concorrer sem ter completado seis anos de formado. Todos os meus amigos insistiram para que eu me preparasse para o concurso; resolvi, pois, encarar seriamente essa hipótese e fiz um plano de estudos que pôde ser executado graças ao fato de as provas só terem sido realizadas quase dois anos depois do falecimento de Francisco Lafayette.
Para preparar-me em exercícios práticos de física, freqüentei, quase diariamente, o laboratório de física da Escola Politécnica, onde tive como professor Joaquim da Costa Ribeiro, um dos mais nobres homens que encontrei na vida. Foram noventa e dois exercícios, em parte repetidos no laboratório da Praia Vermelha. Para dominar o setor de eletricidade e medidas elétricas, ancorei-me na pessoa de Francisco de Oliveira Castro e freqüentei, durante mais de um mês, o laboratório de medidas elétricas que Oliveira Castro havia montado, para satisfação de Marinho de Azevedo, professor da disciplina na Escola Politécnica.
Estudava pelo menos cinco horas por dia, entrando, muitas vezes, noite adentro. Morávamos na rua Jardim Botânico, 230, em uma casa muito aprazível, que se tornou um centro de atração para muitos amigos. Assim é que, quase diariamente, ali iam ter Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, José da Frota Moreira, Almir Castro e outros mais. Discutiam, conversavam, tocavam violão e cantavam, enquanto eu me aferrava aos livros. Foi esta a parte mais difícil da minha preparação. Metia-me no escritório, no andar superior, mas não podia deixar de ouvir o ruído da conversa dos amigos na sala de visitas. As vezes, uma canção entoada por Vinicius atravessava com facilidade as paredes e o chão, e isso era mais do que uma razão para que eu perdesse o compasso com o que estudava. Entretanto, eram sempre momentos de encanto e, até hoje, escuto a voz carinhosa e quente de Vinicius pedindo "à Lua branca de fulgores e de encanto" que enxugasse as suas lágrimas de poeta. Era-me difícil retornar ao estudo e só depois de alguns minutos é que a concentração tomava conta de mim.
Nessa ocasião, organizei uma biblioteca de livros especializados que muito me ajudaram. Na sua realização tive o grande auxílio do senhor Eric Eichner, dono da Livraria Alemã, de uma só porta de entrada, na rua da Alfândega. Encomendou da Europa os livros de que eu necessitava e, principalmente, permitiu-me acumular uma conta de quatorze contos, que só pude saldar recebendo atrasados de quase um ano do Instituto Oswaldo Cruz. A minha prova oral foi considerada muito boa e baseou-se na repetida leitura de um tratado francês sobre hidrodinâmica. Há, dessa época, um episódio muito interessante. Entrava eu na Faculdade de Medicina com vários livros debaixo do braço, quando me deparo com Pedro Pinto. Depois de uma amena troca de palavras, Pedro Pinto virou-se para mim e disse: "Vou lhe dar um conselho, que tiro de Santo Agostinho: eu só temo o homem de um só livro." Conselho prudentíssimo que me fez concentrar no estudo de três ou quatro dos dez volumes que havia adquirido.
Houve grande dificuldade na escolha da banca do concurso, pois foram declarados suspeitos Miguel Ozorio de Almeida e Baeta Vianna, sob a alegação de serem meus amigos. Afinal, com seis candidatos, fez-se o concurso, durante o qual houve turbulências, pois um dos candidatos, meu companheiro na cátedra, acusou a mesa de me proteger, assegurando que os pontos listados para o sorteio eram assuntos de minha preferência.
Minha prova oral teve numerosa assistência. Na véspera, havia eu feito um ensaio geral, em casa, com a presença de Carneiro Felippe, que se mostrou muito preocupado, pois eu havia gasto mais de hora e meia, quando o tempo estipulado era de cinqüenta minutos não prorrogáveis. Ajudaram-me na preparação da prova oral Pedro Nava e Paulo de Carvalho, mais tarde professor de farmacologia. A eles coube a feitura dos dezesseis quadros que exibi durante a prova. Encerrei-a exatamente aos cinqüenta minutos, com o último dos desenhos preparados. Carneiro Felippe exultou com a precisão que consegui dar ao assunto tratado.
Na prova escrita também fui feliz e apresentei o assunto com a concisão que se encontra no livro Thermodynamics, de um autor inglês, E. Guggenheim. Terminadas as provas, tive que esperar três dias para saber o resultado, pois, pela nova regulamentação seguida por Leitão da Cunha, presidente da banca, os resultados só poderiam ser divulgados em sessão pública da congregação, especialmente convocada para tal. Felizmente, um encontro fortuito com Fróes da Fonseca revelou-me o resultado que me indicava para professor catedrático. Era o princípio de uma nova fase da minha vida.
Alguns dias depois, a congregação se reuniu em sessão pública e confirmou, por unanimidade, o resultado do concurso. Transcorridos os trâmites burocráticos, tomei posse da cátedra. Como já trabalhava na cadeira, foi-me muito fácil assumir o controle do laboratório. Os assistentes que serviam com Francisco Lafayette pediram demissão em conseqüência da nova Constituição, promulgada por Getúlio Vargas, que proibia acumulações de cargos. Eu mesmo solicitei, imediatamente, rescisão do contrato que me ligava ao Instituto Oswaldo Cruz. Contra essa minha decisão opuseram-se vários amigos, entre os quais meu irmão Evandro. A razão principal dessa oposição é que não se poderia jamais pesquisar na universidade e que eu me esterilizaria no simples exercício de atividades didáticas. Meu requerimento de dispensa do Instituto de Manguinhos só foi entregue, por Evandro, na véspera da data limite para que os funcionários que acumulavam cargos apresentassem a sua opção. Evandro passou-me vários telegramas para Paris, onde eu me encontrava, só tendo desistido do seu intento de não entregar o meu pedido depois de uma longa conversa telefônica em que eu lhe expus a minha firme decisão de assumir a cadeira na faculdade. Impeliam-me nesse sentido, entre outros, dois motivos principais: a possibilidade de discutir com alunos a matéria ao meu encargo e, principalmente, a intenção de implantar a pesquisa fundamental na universidade, segundo o modelo de atividade que aprendera no Instituto Oswaldo Cruz. Essa implantação fora ensaiada, anteriormente, por Pinheiro Guimarães e Álvaro Ozorio de Almeida, mas sem continuidade.
No dia 23 de novembro de 1937 tomei posse e pronunciei um discurso simples, no qual enunciava as linhas gerais do que seria a minha conduta como titular.
Ao entrar como professor para a Faculdade de Medicina, meu objetivo principal, como já enunciei, era associar o ensino à pesquisa, tornando-a rotineira no lindo e ameno edifício da Praia Vermelha. Trazia para a universidade o que havia aprendido com os mestres de Manguinhos. Além da preparação básica de um convívio extremamente agradável, a noção fundamental de que só pode pesquisar aquele a quem a pesquisa distrai. Ai daquele cientista que não tem o sentido lúdico que o trabalho científico teórico ou experimental traz! Esteriliza-se, este, no meio do caminho e transforma a sua vida seja num desastre intelectual, seja numa amargura sem fim. Penso que aqueles pesquisadores que cedo vão atrás da suposta glória que a administração pode trazer, glória essa que nada mais é do que a sensação falaciosa do poder, só o fazem porque perderam a expressão lúdica que deve acompanhar a pesquisa científica ou, então, por desencontros com a realidade experimental, que lhes trouxe o desânimo, impedindo-os de continuar sua trajetória, muitas vezes de brilhante início.
A primeira medida administrativa que tomei foi a de chamar Tito Enéas Leme Lopes para ser meu assistente e chefe de laboratório. A segunda foi a de manter o jovem Lafayette Rodrigues Pereira como participante das atividades a serem desenvolvidas. Tito Enéas Leme Lopes era realmente uma personalidade de exceção. Profundo conhecedor das matérias com que teria que lidar, associava à inteligência rara uma extraordinária capacidade didática e uma comunicabilidade em que se confundiam sua bonomia e generosidade. Ficou ao meu lado até morrer. A sua popularidade com os alunos era total e era a ele que estes levavam as suas dificuldades intelectuais e, até mesmo, problemas de ordem pessoal.
Decidida essa primeira fase de organização da cátedra, achei que, dados os progressos científicos alcançados durante a guerra — muitos dos quais ainda não divulgados em nosso país —, e não tendo eu a preparação para realizar o que desejava, tomei a decisão, de comum acordo com minha mulher, de ir me aperfeiçoar no Velho Mundo. Razões econômicas me levaram a escolher a Europa por ter garantida a hospedagem em Paris na casa de meu cunhado, Afrânio de Mello Franco Filho, então servindo na Embaixada Brasileira e, em Londres, dispúnhamos de um convite do British Council.
Como não havia nenhum sistema prático para obter recursos para viagens de aperfeiçoamento, fui obrigado a vender o automóvel que eu havia comprado, como já disse, com a soma que me fora concedida pelo Prêmio Dona Antonia Chaves Berchon des Essarts, e, como diz Dorival Caymmi em uma de suas canções, "vendemos tudo o que tínhamos": umas poucas ações e alguns objetos de valor. Além disso, Afrânio de Mello Franco presenteou Annah com soma aproximada de dez mil francos. Assim, com o que conseguimos, tomamos o navio inglês da Royal Mail, o S.S. Highland Patriot, acompanhados de Dorinha Campos, amiga da nossa família, e sua governanta, uma professora inglesa, Miss Helen Saville. Nosso destino era Cherbourg, depois de uma parada em Lisboa, o que deu início ao meu encantamento pelas terras de Portugal. De Cherbourg tomamos o trem que nos levou à Gare Saint Lazare, onde nos esperavam Afrânio e Gemina Enquanto nossa bagagem, de pouca monta, era levada diretamente para a rua André Colle-de-Boeuf, residência de meus cunhados, um táxi nos levou ao rond point dos Campos Elísios, que subimos a pé, lentamente, ouvindo as detalhadas explicações de Afrânio. Não quis ele que eu chegasse a Paris sem imediatamente sentir o amálgama das culturas e civilizações que se misturam ao sentimento gaulês. Fomos até o Arco do Triunfo. De lá, então, tomamos outro táxi e seguimos para a casa onde iríamos morar, muito perto do Sena e fazendo parte do ème 16arrondissement. A impressão que me deu Paris, de imediato, foi a de deslumbramento, impressão que se acentuou durante os meses em que ali estive. Chegados à rua André Colle-de-Boeuf, conversamos até altas horas com os nossos anfitriões.
No dia seguinte acordei cedo, pois pretendia, desde logo, mergulhar na vida científica parisiense. Telefonei para o professor René Wurmser perguntando-lhe se poderia ir vê-lo e apresentar-lhe uma carta de recomensdação, que me fora dada por Miguel Ozorio. Wurmser, que posteriormente veio a se tornar um dos meus maiores amigos e, em muitos aspectos, meu mentor científico, marcou-me uma entrevista para o mesmo dia. Procurei, ainda pelo telefone, o professor Henri Piéron, que havia conhecido no Rio e que era grande amigo dos Ozorio de Almeida. Gentilmente, Piéron marcou um encontro para o dia seguinte.
Naquela mesma manha saí para andar um pouco pela cidade. Afrânio me ensinara como utilizar o metrô. Estudando o mapa de Paris, resolvi descer na Estação Concorde, atravessar a ponte e percorrer todo o Boulevard Saint Germain, para chegar ao Instituto de Biologia Físico-Química. Situado ao lado do Panthéon, na rua Pierre Curie, ali trabalhava Wurmser. Nessa trajetória, fui respirando Paris e imaginando onde teriam vivido todos os personagens de Em busca do tempo perdido, ou quais seriam as casas que Proust freqüentara. Não podia nem imaginar que, mais tarde, nos anos sessenta, iria residir numa delas. Essas divagações fizeram com que chegasse atrasado, meia hora, ao escritório de René Wurmser, mas o tempo perdido foi tempo ganho, pois pareceu-me que naqueles vinte ou trinta minutos de caminhada eu me integrara à vida parisiense.
Na esquina do Boulevard Saint Michel havia um restaurante muito simpático: entrei e almocei. Posteriormente, isto se tornou um hábito, pois do Institut de Biologie Physico-Chimique à Rotisserie Perigourdine era um passo. Passei pelo Panthéon, deixando de lado o Jardim do Luxemburgo. Cheguei à rua Pierre Curie e logo me deparei com a entrada do Instituto de Biologia Físico-Química. René Wurmser me esperava e, com gentileza, acedeu à minha participação nos trabalhos do instituto, nos quais o meu grande interesse era o de ter melhor conhecimento dos potenciais de oxirredução. Levou-me ao laboratório onde eu deveria iniciar minhas atividades e no qual trabalhava Sabine Filitti Wurmser, sua mulher, que também amavelmente me recebeu, mostrando minha mesa ao lado da sua. Formou-se entre nós, imediatamente, uma amizade profunda, que avançou pelos anos afora, amizade extremamente valiosa e que deu nova dimensão à minha vida científica. Logo depois, fui conversar com Wurmser e formular o meu programa de trabalho. Indiquei-lhe o que eu não sabia e ele estabeleceu o roteiro que eu deveria seguir para dominar o conceito e as técnicas de determinação dos potenciais de oxirredução.
Penso que René Wurmser, homem de profundo conhecimento científico e valioso humanista, me aceitou porque eu era originário de um país de pouco desenvolvimento científico, para o qual deviam convergir o auxílio e os interesses dos países de maior importância política e social. A necessidade de auxiliar o desenvolvimento científico dos países menos evoluídos foi, sem dúvida, uma das marcas de toda a minha ação internacional e o que me levou a aceitar a posição de secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social para os Países em Desenvolvimento, realizada em 1963, depois de um ano de preparação em que vivi em Genebra.
Minha estada no Instituto de Biologia Físico-Química não podia ter sido mais atraente. Estava bem aparelhado e com verbas de custeio amplas, patrocinadas principalmente por Edmond de Rothschild, e a congenialidade dos seus pesquisadores e do pessoal técnico, até mesmo do concièrge, deixoume perfeitamente à vontade e como se estivesse em casa, desde o primeiro dia. Além da esplêndida biblioteca, pude participar de reuniões quinzenais, às quais compareciam, com freqüência, as maiores expressões da ciência francesa, como madame Curie ou Langevin ou, então, intelectuais e filósofos de grande valia, como Paul Valéry. Também no instituto assisti às conferências de Meyerhoff, Szent-Gyorgyi e Haldane, tendo tido, assim, oportunidade de conhecer alguns dos cientistas europeus de maior renome no período de entre-guerras.
Estávamos no dia 14 de dezembro de 1937 e marcou-se para o dia 2 de janeiro o início do meu estágio no Instituto de Biologia Físico-Química, depois de uma rápida excursão que faríamos à Itália.
No dia seguinte fui me encontrar com Henri Piéron, de novo com carta de Miguel Ozorio. Piéron tinha estado no Brasil e conhecia muito bem os Ozorio de Almeida. Era ele professor de fisiologia das sensações na Faculdade de Ciências da Universidade de Paris, localizada na Sorbonne. Ao contrário de Wurmser, porém igualmente afável, era um homem de grande estatura, com uma linda cabeça onde se destacavam seus olhos amendoados e a pequena barba sempre muito bem tratada. Combinei com ele de acompanhar o seu curso e dividir o meu tempo entre o laboratório de Wurmser e o laboratório de Alfred Fessard, no Collège de France.
Alfred Fessard foi dos primeiros fisiologistas a utilizar os amplificadores eletrônicos, os registradores eletromagnéticos e os oscilógrafos de raios catódicos, para estudar as propriedades eletrogênicas dos nervos e dos tecidos. Realizava, além do mais, uma reunião científica semanal, e a primeira a que assisti, na ocasião, tinha como objeto de estudo o peixe-elétrico, Torpedo marmorata. Em companhia de Daniel Auger, os trabalhos eram realizados na Estação de Biologia Marinha de Arcachon, no golfo de Biscaia, mas seu laboratório tinha todo o equipamento para o trabalho com nervos periféricos. Nesse seminário, decidiu-se uma grande parte do meu destino científico, pois ali aprendi a importância que o estudo da bioeletrogênese animal tem para o conhecimento de diversos mecanismos da biologia.
Foi fácil contatar Alfred Fessard, que já conhecia o Brasil por ter vindo passar algumas semanas no convívio dos irmãos Ozorio de Almeida. Aceitou, imediatamente, a idéia de me receber, uma vez por semana, no seu laboratório na Fundação Singer-Polignac, no Collège de France, onde comecei a trabalhar com os instrumentos de registro dos potenciais bioelétricos, seja com oscilógrafos mecânicos, seja, principalmente, com oscilógrafos de raios catódicos. Fessard ensinou-me, também, os princípios fundamentais da ampliação de potenciais elétricos com válvulas eletrônicas. Desse convívio, do qual participou também Denise Albe-Fessard, nasceu uma amizade profunda e uma colaboração que se realizou, com freqüência, nas sucessivas vindas do casal francês aos laboratórios da Praia Vermelha. Também pude seguir o curso de bioeletrogênese que Fessard professava no Collège de France.
Essa primeira permanência naquele país completou-se com uma longa visita ao Instituto Pasteur, acompanhado pelo eminente professor Émile Marchoux, que havia sido aluno de Pasteur, e conhecera rapidamente Oswaldo Cruz. Marchoux, eminente tropicalista, visitara o Brasü no início do século, a convite do governo Rodrigues Alves, para estudar a situação da febre amarela em nossa cidade. Guardara de nosso país uma extraordinária recordação e por duas vezes se referiu à intimidade com que fora recebido, ele e a senhora Marchoux, pela viúva do marechal Deodoro, que os convidara para jantar. Lembrava-se, com emoção, que essa velha dama brasileira mantinha na mesa, admiravelmente bem posta, o lugar que o marechal ocupara.
Com Marchoux percorri todo o instituto, detendo-me, particularmente, nas reminiscências existentes ainda do relacionamento de Pedro II com essa instituição, que recebera ajuda de nosso imperador. Foi, ainda com ele, que visitei e me ajoelhei junto ao túmulo de Louis Pasteur. A emoção que senti na época, e que hoje ainda sinto, impediu-me, naquele instante, de fazer qualquer comentário com Marchoux. Ainda em sua casa, pois que residia em um apartamento em prédio situado no próprio campus da instituição e mandado construir por Émile Roux, tomei conhecimento de alguns hábitos franceses de então. Nada de aperitivos, pois o vinho que se tomava à mesa não podia ter o seu sabor modificado. O menu era abundante e variado, tomando-se, entre o prato inicial e a carne, um pouco de sorvete, o chamado coupe normande. Antes da sobremesa, um prato de ervilhas com pequenas porções de presunto. As frutas eram servidas depois dos doces. O mesmo se deu nas casas em que fui recebido no período entre as duas guerras. Èmile Marchoux apresentou-me a algumas figuras centrais do instituto, adjetivando-me sempre com a declaração de ser eu filho do "le grand Chagas". Assim conheci, entre outros, Metchinikov, D'Hérelle e Ramon. Lembro-me, também, de um jovem pasteuriano esguio, de olhos azul-claros, um sorriso um pouco sarcástico, então iniciante na carreira na qual obteve o Prêmio Nobel: André Lwoff.
Acertei com Fessard, como disse anteriormente, que tão logo voltasse da Itália, nos primeiros dias de janeiro, iria procurá-lo.
Nossa viagem à Itália foi rápida. Fomos diretamente a Nápoles. Infelizmente nevava, coisa raríssima. Em Roma, a estada foi esplêndida e compensou totalmente o receio que eu tive de visitar um país fascista. Não sei por que, já que não tinha nenhuma missão oficial, fui procurado, logo ao chegar, por um representante do governo que tentou, à viva força, estabelecer um programa de visitas. Indiquei-lhe que estava em viagem de turismo e que gostaria, apenas, de visitar o professor Nicola Pende. No dia marcado, apareceu-me no hotel, cedo, um representante do Ministério da Educação, que me levou em carro de luxo, precedido de uma bateria de motocicletas, ao serviço do professor Pende. Encontrei-o numa mesa enorme no fundo de um grande salão. Quando me aproximei, ele levantou o braço esquerdo e me saudou à moda de Mussolini. Eu fiquei atônito, sem saber o que dizer. Vendo o meu embaraço, Pende, como para se desculpar, disse: "Qui si saluta alla romana". A conversa, depois, foi amável e ele mostrou interesse em levar à Itália um certo número de profissionais brasileiros, e enviar ao Brasil alguns dos seus assistentes, para melhor difusão das suas concepções biotipológicas.
Outra visita que fiz foi a Fermi, que gentilmente nos convidou para jantar. Eu o tinha conhecido por ocasião da viagem que fez ao Brasil, e a sua amabilidade se transformou na maneira cordial com que me levou ao seu laboratório e para jantar em sua casa. Algumas de suas frases relativas ao estabelecimento de um intercâmbio com o Brasil me pareceram vagas e produziram em mim uma certa confusão, que só veio a dissipar-se quando, alguns meses mais tarde, após o recebimento do Prêmio Nobel, Fermi e sua mulher se exilaram nos Estados Unidos, deixando a Itália para sempre. Voltando à França, iniciei meus trabalhos.
A estada em Paris foi extraordinária. Eu trabalhava o dia inteiro, interrompido apenas pelo esplêndido almoço na Perigourdine, seguido sempre de uma caminhada pelo quarteirão. As noites eram, também, plenas. Afrânio e Gemina faziam questão que saíssemos para irmos com eles ao teatro ou a um pequeno café concert. Faziam sucesso, no teatro, peças de Montherlant e outros, mas a grande atração, pela excelência imbatível do espetáculo, era a Comédie Française. Foi nessa ocasião que assisti, pela primeira vez, a Cyrano de Bergerac e, até hoje, me emociono ao lembrar das tiradas românticas ou poéticas, sempre admiravelmente apresentadas. Digo, aliás, que cada vez que assisto ao Cyrano, a emoção se repete.
Na música popular o grande sucesso era Charles Trenet e, num pequeno teatro da avenida Wagram, começava a ser conhecida a extraordinária Edith Piaf. O hábito de ir aos pequenos café concerts permaneceu em nós. Madeleine Renaud e Jean-Louis Barrault afastavam-se do teatro clássico, possivelmente em busca de maior aproximação com o povo. Em um deles, fui "apresentado" a Jacques Prévert, quando Dany Dauberson cantou Feuilles mortes. Mistingue, Georges Ullmer e outros que vieram a se tornar famosos despontavam na noite parisiense. A saga dos caramujos, mais tarde, completou o nosso apreço pela música popular francesa, que encantava as platéias do Cassino Atlântico, no Rio, por vários artistas gauleses, o principal talvez tendo sido Jean Sablon.
Depois de alguma indecisão, pois eu desconhecia os cientistas com os quais deveria me entreter na Inglaterra, decidimos, Annah e eu, aceitar o convite do British Council. Felizmente o fizemos, pois a nossa estada foi extremamente proveitosa. Ficamos alojados num apart-hotel, o Atheneum Court, em Piccadilly. No dia seguinte à nossa chegada, tive o primeiro contato com a ciência inglesa, por intermédio de Sir Frederich Donnan, que nos havia convidado para jantar em sua casa de três andares, muito simpática, no Woburn Square, perto do University College, onde Donnan ainda professava. Na primeira vez que fui a Londres, logo depois da Segunda Guerra Mundial, fui ver a casa de Donnan. Estava completamente destruída pelo bombardeio dos V2.
O jantar foi extremamente agradável, dele participando Eugene Guggenheim, também do University College. Surpreendi-o quando dei a entender que conhecia seu livro sobre termodinâmica, que me havia sido de grande valia na preparação do concurso. Pelo espanto que demonstrou, verifiquei que Guggenheim mal podia acreditar que um jovem cientista do Terceiro Mundo conhecesse o volume por ele publicado apenas alguns meses antes.
No dia seguinte fui ao Kings College e ali conheci Maurice Wilkins, que me falou, para meu maior interesse, dos avanços recentes da microscopia óptica. Mais tarde, convidei-o para vir ao Brasil e o seu curso sobre "microscopia de reflexão" foi extremamente bem sucedido.
Uma das visitas mais importantes a que já me referi foi ainda no University College, foi a Archibald V. Hill, famoso pela determinação da quantidade de calor que é produzida em um nervo no momento da passagem de um impulso nervoso. Para fazê-lo, obtivera a colaboração de um técnico de laboratório que preparava os pares termoelétricos e o galvanômetro, de grande sensibilidade, utilizado no trabalho. Hill, reconhecendo a contribuição que fora dada por seu técnico, colocou também o seu nome nas publicações. Este é um exemplo que deve estar presente em todos aqueles que se dedicam à pesquisa científica. Hill, muito alto, tinha uma personalidade bastante atraente, marcada, principalmente, pelo seu olhar de um azul-celeste inesquecível e por um sorriso sempre constante em suas conversas. A sua contribuição ao esforço de guerra fez com que Sua Majestade lhe outorgasse uma das mais altas distinções que se concedem a um cidadão britânico: o de Companion of Honour.
Sem dúvida, entretanto, o clímax da minha estada na Inglaterra foi a minha curta viagem a Cambridge e sua famosa universidade. Havia eu escrito a Edgard Adrian manifestando o desejo de visitar o Departamento de Fisiologia que ele ali dirigia. A resposta veio rápida, pedindo que eu marcasse a data em que poderia estar em Cambridge a fim de reservar, imediatamente, lugar no hotel. Cheguei a Cambridge, não sei por que, bastante emocionado, emoção acrescida pelo fato de Adrian ter vindo nos esperar na estação. Era eleja avançado na idade, extremamente simpático, cabelos quase totalmente brancos, escorridos, e fumava, de vez em quando, um cachimbo certamente mais velho do que ele. No mesmo dia levou-me ao departamento e me pôs a par do método de trabalho ali adotado. Considerava que uma instituição universitária era essencialmente uma unidade de pesquisa, o que exigia tempo integral para os seus quadros. A expressão "tempo integral" nunca fora por eles utilizada, pois que seria difícil admitir que um pesquisador tivesse outra atividade senão aquela que se passasse num laboratório. Decidiu a universidade que, para combinar ensino e pesquisa, fosse adotada uma fórmula pela qual o pesquisador usaria um tempo variável para ensino — de um a três meses — e o restante seria dedicado, exclusivamente, ao trabalho científico. Aprendi logo o que já estava no meu espírito. E que o pesquisador precisa de tempo de lazer e da convivência com os seus colegas e companheiros de trabalho. Por isso mesmo, na Cambridge que visitei, algumas horas eram gastas no almoço e no jantar, não obrigatório, mas a ser comparecido, pelo menos, uma vez por semana.
Adrian convidou-me para, no dia seguinte, jantar no University College, do qual veio a ser Master. A data é fácil de ser lembrada, pois coincide com a iníqua invasão da Austria pelas tropas de Hider: 11 de março de 1938. Terminado o jantar, um episódio emocionou a todos os presentes. É que o Master do College, então um eminente matemático, levantou-se e comunicou o acontecimento. Um jovem professor veio à frente da mesa em que estávamos, tentou dizer umas palavras, mas não conseguiu pronunciá-las e caiu em prantos, retirando-se às carreiras. Tratava-se de um brilhante professor austríaco que gozava de um ano sabático em Cambridge. Adrian virou-se para mim, pôs sua mão no meu braço e disse, com a voz embargada: " This means war!" Durante alguns segundos a sala foi tomada por um grande murmúrio que, pouco a pouco, foi esmaecendo. As faces de todos, concentradas, indicavam a preocupação que a notícia causara. Sob um grande silêncio foi servido o Porto pós-prandial e, lentamente, a sala se esvaziou. Adrian, que foi feito mais tarde lorde com direitos sucessórios, pela contribuição dada ao esforço de guerra, disse-me, ainda: "E o momento de nós nos unirmos no combate ao nazismo."
Uns dias mais tarde, terminado o descanso que se fazia depois do almoço, Adrian me informou que gostaria que eu o acompanhasse a um seminário sobre estatística; ele compreenderia muito pouco do que o orador queria dizer, por ser o mesmo neozelandês, de prosódia de difícil compreensão pelos britânicos, mas considerava o assunto da maior importância. Assim, fui com ele ao seminário. A sala cheia e o orador, uma pessoa de pequena estatura, rechonchudo, hermético na sua apresentação, era muito amável no entretenimento. Tratava-se de Ronald Fischer, um dos responsáveis pela criação da estatística de pequenas amostras. Geneticista, verificara as dificuldades de utilização da estatística clássica nas suas experimentações genéticas, nas quais predominavam as pequenas amostras. Como Adrian, não entendi quase nada do que Fischer havia exposto, mas os exemplos dados convenceram-me da importância dos métodos por ele apresentados e que nada mais eram do que o desenvolvimento das idéias de um pesquisador da indústria produtora de cerveja, Student, que publicara seus artigos com esse pseudônimo, porque só assim podia fazê-lo. Foi daí que começou o meu interesse pela estatística de pequenas amostras. No dia seguinte fui à Livraria Cambridge, de fazer inveja às melhores que tenho visitado. Adquiri os livros de Fischer e outros mais que tratavam do mesmo assunto.
Depois das visitas indispensáveis aos museus londrinos, à Royal Society e à Royal Institution, eu, cheio de entusiasmo pela ciência inglesa e pelos admiráveis espetáculos teatrais, voltei com Annah a Paris, onde ficamos ainda duas semanas para, finalmente, tomar de volta, em Cherbourg, o mesmo navio que nos tinha levado.
No Rio, encontramos alguns amigos nos esperando e o aviso de que haveria uma reunião da congregação a se realizar naquela mesma manhã. Deste modo, fui diretamente do cais do porto para a Praia Vermelha. A sessão era presidida por Raul Leitão da Cunha, e o assunto em pauta, um abaixo-assinado dos professores pedindo aumento de vencimentos. Depois de uma rápida discussão foi votada a moção; votei contra aqueles que haviam sido meus professores, e quando me levantei para expressar minha opinião, Leitão da Cunha voltou-se para mim e, solenemente, me disse: " O jovem professor está consciente de que é o único voto contra?" Respondi-lhe que sim e a moção foi aprovada antes de encerrada a sessão. Aloysio de Castro disse, então, algumas palavras elogiando a minha atitude. Certamente ela desagradou a muitos dos professores presentes, não só por ser eu muito moço — tinha então vinte e sete anos —, como, também, porque lhes pareceu um desafio de um aluno aos velhos mestres que o haviam sempre tratado com muito carinho. Uma das razões do meu voto era que não desejava pedir um favor a quem já era ditador no país e também porque pareceu-me que não podia eu pedir aumento de vencimentos na primeira ocasião em que me manifestava publicamente, tendo escolhido a carreira do magistério e dela conhecendo todas as vantagens e desvantagens, entre as quais, o baixo salário.
Assumindo a cátedra, duas preocupações tomaram conta de mim. A primeira, a de encontrar elementos para compor o corpo docente que deveria me acompanhar. A segunda, a de encontrar um tema de pesquisa que correspondesse, de um lado, aos meus interesses científicos, focalizados, na ocasião, principalmente nas transformações de energia que se passam no organismo vivo; e, de outro lado, que fosse bastante amplo para que nele se utilizassem as várias técnicas que eu havia apreendido na Europa e pudesse dar ao laboratório, que eu estava ampliando, um aspecto multidisciplinar.
Como já visto, o primeiro ponto foi solucionado com o convite que fiz a Tito Enéas Leme Lopes para vir trabalhar comigo, e o pedido a Baeta Vianna para que, caso pudesse, me indicasse dois nomes para exercerem funções de assistentes. Este atendeu logo ao meu pedido e me indicou José Moura Gonçalves e João Batista Veiga Salles, que viriam preencher minha deficiência no domínio da bioquímica. Baeta Vianna solicitou-me, também, que recebesse no laboratório Oromar Moreira, que estava se preparando para o concurso de professor catedrático da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Oromar fez a sua tese sobre oxirreduções no ano e meio que passou conosco, encantando a todos por sua simpatia e bonomia mineira.
Não foi difícil, para mim, contratar os novos colegas, pois os assistentes que tinham servido a Francisco Lafayette Rodrigues Pereira haviam todos pedido demissão devido ao artigo da Constituição de 1938, que proibia a acumulação de cargos. Naquela ocasião, seria impossível viver com a remuneração de assistente de ensino superior. Obtive de Luiz Simões Lopes, criador e presidente do Dasp (Departamento Administrativo do Serviço Público), a criação de uma função de técnico especializado. Para essa função, foram nomeados os que eu pretendia tornar assistentes. Dos companheiros de Francisco Lafayette mantive, apenas, o doutor Carlos Feio, já próximo da aposentadoria, e, como monitor, o filho de Francisco Lafayette, como mencionei anteriormente. Enéas Leme Lopes trabalhava, na época, como fiscal das cooperativas de leite em Guaratinguetá. Fora meu colega em todo o curso médico e eu conhecia sua prodigiosa cultura, bem como o seu desejo de ajudar os que o cercavam. Dizem que Tito, ao receber meu convite, embarcou no primeiro trem que partia para o Rio, deixando aberta a casa e nela os seus pertences. Era uma inteligência fora do comum, não só pela profundidade de suas inferências em relação ao que via ou lia, como ainda pela extraordinária mobilidade de sua mente. Havia em Tito, além do mais, um aspecto juvenil que guardou por toda a vida. A sua capacidade didática era muito acima do comum, e foi graças a ele que pude manter, em perfeita continuidade, um curso composto de setenta e dois assuntos distribuídos em quase noventa aulas.
Além disso, organizei para os alunos, que eram geralmente avessos a qualquer fórmula ou raciocínio matemático, um curso sobre estatística de pequenas amostras, realizado por Almir Castro. Seguido pelos outros companheiros de trabalho, a aplicação da estatística de pequenas amostras tornou-se uma rotina, no laboratório. Esse estudo foi completado, mais tarde, pelo conjunto de aulas ministradas por Giorgio Mortara, um exilado italiano que então trabalhava no Serviço de Estatística Nacional.
A colaboração dada à minha atividade por Moura Gonçalves foi inestimável. De um modo geral, era ele particularmente importante por sua disciplina de trabalho, coragem de atitudes e capacidade expositiva. Coube-lhe, entre muitas outras realizações, a montagem de uma instalação ótica de eletroforese, com a qual realizou trabalhos de significativa importância. Mais tarde, Moura Gonçalves foi convocado para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.
Veiga Salles teve, também, papel relevante na formação do grupo inicial do instituto. Convidado para uma instituição científica em São Paulo, sua permanência no Rio foi relativamente curta. Tempos depois, perdeu a vida num desastre automobilístico, lá mesmo, em São Paulo.
Duas aquisições, da mais alta significação, vieram enriquecer o quadro do instituto: a de Hertha Meyer e a de Aristides Azevedo Pacheco Leão.
Hertha Meyer foi convidada a participar do nosso trabalho porque desejava eu obter, no laboratório, a cultura do Trypanosoma cruzi para vários tipos de pesquisa, entre os quais o da observação dos potenciais elétricos produzidos em corações normais e em corações onde o T. cruzi fora cultivado. Já havia eu abordado o assunto, convidando para trabalhar conosco João C. Machado, que instalou a nossa primeira câmara de cultura de tecidos com uma perfeição e metodologia impecáveis. Com a morte de seu irmão, Astrogildo, foi ele ajudar os sobrinhos no estabelecimento da indústria de vacinas para a febre aftosa e o carbúnculo sintomático, até então fabricadas em Manguinhos, mas dele desalojada por imposição do Dasp, que não permitia o recolhimento do produto da venda à tesouraria do instituto. Ficara, assim, desativado o laboratório de cultura de tecidos do Instituto de Biofísica.
O destino me ajudou, então, quando Eudoro Villela, que trabalhava no Instituto Oswaldo Cruz, informou-me da presença de Hertha Meyer como subempregada no laboratório de febre amarela, mantido pela Fundação Rockefeller no Instituto de Manguinhos, onde não podia exercer seus dons naturais de pesquisadora. Hertha Meyer trabalhara com Albert Fischer no Instituto Kaiser Wilhelm, em Berlim, Dahlem. Convidei-a, imediatamente, para trabalhar no Instituto de Biofísica e, graças ao auxílio que Evandro Chagas obteve de Guilherme Guinle, seu laboratório foi instalado em condições bastante satisfatórias. Rapidamente começou a produzir e os primeiros registros elétricos de corações embrionários em cultura de tecidos foram obtidos. O trabalho, apresentado na primeira reunião da SBPC — Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência —, realizada em Campinas, foi muito apreciado e abriu as portas para o auxílio que Guilherme Guinle passaria a dar ao nosso instituto, depois de 1940.
Novembro de 1940 marca um hiato na minha vida. É que no dia 8 desse mês, dia a dia, dezesseis anos depois da morte de meu pai, estava eu no meu laboratório quando fui chamado por meu amigo Paulo Lacaz. Perguntou-me ele se eu sabia que um avião da Vasp, em rota para São Paulo, havia caído na enseada de Botafogo. Eu recebi a notícia sem me comover, mas alguns minutos depois, raciocinando, pensei que possivelmente alguma coisa grave havia acontecido, pois era raro que Lacaz me procurasse. Saí apressadamente, trêmulo, guiando o carro com dificuldade, sem querer pensar no pior, e fui para casa. Quando ali cheguei já me esperavam alguns amigos. Evandro se encontrava no avião que fora abalroado por um pequeno monomotor usado pela Shell, para propaganda. Eu havia estado com meu irmão na véspera, a seu chamado, no bar do Hotel Central, onde o encontrei na companhia de Valério Konder. Nada me disse da viagem que iria fazer, no dia seguinte, para se despedir da filha Tatiana, pois, duas semanas mais tarde, iria passar mais tempo do que o habitual nos Estados Unidos. Difícil para mim descrever o que senti. Uma das minhas preocupações maiores foi procurar saber se nossa mãe já tinha tido conhecimento da tragédia. Fui com Annah à rua Senador Correia, onde ela morava, e ali a encontrei terrivelmente abalada. Ainda vivia o golpe da morte de meu pai e, agora, tiravam-lhe o primogênito.
Evandro exercia, então, uma função de extraordinária significação para o Brasil. No hospital do Instituto Oswaldo Cruz, hoje Hospital Evandro Chagas, criara o Serviço de Medicina Tropical, que denominou "Serviço de Estudo das Grandes Endemias". Com uma atividade inesgotável, Evandro conseguira, sem recursos do governo, estabelecer mais de dez postos de estudos das doenças que assolam o Brasil, concentrando-se, particularmente, em malária, esquistossomose e doença de Chagas. Viajava por todo o Brasil, tendo recebido um auxílio substancial, em matéria de transporte, da Força Aérea Brasileira. O grande Guilherme Guinle, durante toda a atividade do Serviço de Estudo das Grandes Endemias, atendeu às despesas decorrentes da mesma, que atingiam, no momento da morte de Evandro, quatrocentos contos de réis mensais.
A personalidade de Evandro atraiu muitos jovens de todos os pontos do Brasil ao estudo das doenças tropicais. Era Evandro uma figura fascinante. De pequena estatura, o que marcava seu rosto era a penetração dos seus olhos azuis e a sua faculdade de comunicação. Por onde passava deixava sempre a marca da sua presença, seja no meio médico, seja no social, sendo de assinalar o interesse com que era procurado pelas moças mais bonitas de cada cidade que visitava. Assim foi, praticamente, em todas as capitais de nossos estados. No Pará, a sua ação foi tão importante que, sob a sua influência, criou-se o Instituto de Patologia do Norte, que depois da sua morte passou a denominar-se Instituto Evandro Chagas. A sua atividade era realmente incessante. Em uma das fases de sua vida passou meses em Fortaleza, acompanhando a campanha contra o mosquito gambiae, que, vindo da África, ameaçava, com grande perigo, invadir todo o território brasileiro. A campanha foi empreendida pela Fundação Rockefeller, mas Evandro foi um dos coadjuvantes, hoje pode-se assim dizer, daquela mais do que benemérita instituição. A convivência social com Evandro era extraordinariamente agradável: sabia apresentar, no momento correto, a anedota apropriada. Discorria, sem nenhum vestígio de egocentrismo, numa voz que nunca se elevava, a não ser em momentos justos. Além disso, não transmitia "disse-que-disse" e nem trazia à conversa o nome daqueles que — e infelizmente foram muitos — o combatiam aberta ou sorrateiramente. Nas suas vivências fora do Rio, principalmente, era um excelente conviva, pois, para arrematar qualquer serão, empunhava um violão e cantava as modinhas mais em voga na época. Cientificamente, tinha grande valor. Disse-me Salomão Adler, por ocasião do Primeiro Congresso sobre Doença de Chagas, que Evandro era, sem dúvida, um grande parasitologista. Afirmou-me, também, que a Leishmania que Evandrodescrevera em doentes com leishmaniose visceral, no Ceará, era realmente uma espécie nova e que cabia a Evandro ter tido a oportunidade, e eu diria a coragem, de assim a apresentar. Evandro conhecia muito bem os vaivéns do método experimental, que aprendera pela experiência e observação, muito mais do que pela leitura de livros e tratados.
A morte de nosso pai marcou-nos, a ambos, de maneira profunda, embora Evandro tivesse, certamente, muito mais relacionamento científico com ele do que eu, em conseqüência da diferença de idade: ele era cinco anos mais velho. Nós tínhamos por nosso pai uma extraordinária amizade e admiração, pois víamos nele a imagem do que desejávamos ser.
Evandro era o natural substituto de meu pai por todos os títulos científicos e acadêmicos. Bastaria citar, além dos trabalhos publicados, a sua tese de livre-docência sobre A forma cardíaca da doença de Chagas e seu trabalho no Hospital São Francisco de Assis, onde, ainda estudante, dava cursos de radiologia e eletrocardiografia para médicos, cursos esses de larga procura pois, à sua competência e experiência, Evandro juntava uma extraordinária capacidade didática. Além do mais, era um clínico notável e, em várias ocasiões, me admirei de seus diagnósticos, feitos à cabeceira do doente, muitas vezes contestando os chefes de enfermaria. Fez-se, entretanto, para substituir meu pai, uma conspiração que o impedisse de alcançar a cátedra. Um exemplo desse ardil pode ser observado no seguinte fato: dirigi-me ao diretor da Faculdade de Medicina para perguntar-lhe, cordialmente, a razão pela qual não se havia dado a Evandro, depois da morte de meu pai, a chefia interina da cátedra, já que o curso equiparado, que ministrava às tardes, tinha tanta freqüência — e, na maioria, assistido pelos mesmos alunos — quanto aquele dado por meu pai, pelas manhãs. A resposta que obtive foi que Evandro tinha levado uma vida de boêmio e que ninguém poderia garantir o seu comportamento como professor, informação essa que lhe fora dada por um dos maiores amigos de meu pai. Formou-se, assim, uma banca relativamente medíocre, que deu a cátedra a um respeitável professor de grande conceito moral e pessoal, mas de pouco comércio com a ciência e com as doenças tropicais. Pôde-se perceber a diferença entre os dois candidatos pelas provas do concurso. As de Evandro foram de uma superioridade esmagadora, juízo que não é só meu, mas de todo mundo que lhes assistiu. Pequenos fatos mostram, ainda, a flagrante parcialidade, tão comum nos concursos aos quais vim a assistir na minha faculdade. Um dos examinadores, ao ser interrogado por um amigo por qual razão tinha dado, na prova oral, menor nota a Evandro do que ao candidato vencedor, respondeu com a simplicidade de um beócio: "É que para o Evandro foi sorteado um caso de doença de Chagas, que ele tinha obrigação de saber muito bem." O resultado nada mais fez do que dar mão forte à cabala que se organizara, não só contra Evandro, mas, também, a favor do seu único adversário.
Citarei, dentre os jovens que se inspiraram em Evandro no estudo das doenças tropicais, por exemplo, Wladimir Lobato Paraense, que se tornaria, dentro de pouco tempo, grande malacologista, dando contribuição significativa ao estudo da esquistossomose; Leonidas e Maria Deane; e, ainda, Felipe Nery Guimarães, que viria a ser, mais tarde, diretor do Instituto Oswaldo Cruz. Antônio Couceiro, do Recife, foi um dos chamados por Evandro, mas chegou ao Rio depois da morte de meu irmão. Passou então a fazer parte do grupo de pesquisadores que se abrigaram junto ao Instituto de Biofísica da UFRJ.
A morte de Evandro trouxe modificações ao Serviço de Estudo das Grandes Endemias. Foi necessário, primeiro, encontrar o substituto de meu irmão. Seus companheiros consideraram que eu seria o candidato natural. As circunstâncias me levaram a aceitar o cargo e, assim, vi-me trabalhando das oito ao meio-dia, no Serviço de Estudo das Grandes Endemias, para garantir a sua atividade e, a partir das quatorze horas, na Praia Vermelha, no instituto que eu havia criado e que já tomara um certo desenvolvimento.
Dois objetivos se antepunham ao meu trabalho. Um deles era a necessidade de manter, financeiramente, o Instituto de Biofísica. O outro, o de incluir no Serviço Público Federal, vale dizer, no Instituto Oswaldo Cruz, os que assim o desejassem. Conversando com Guilherme Guinle, ficou assentado que ele continuaria a manter o serviço até o momento em que o mesmo fosse absorvido pelo governo federal. Para integrar os rapazes que ali trabalhavam fui me entender com Luiz Simões Lopes. A receptividade que teve o meu pedido foi a maior possível, o que era de se esperar de um homem com a visão e o interesse pelo serviço público, ao qual se sacrificara, inteiramente, Simões Lopes.
Outro aspecto na vida de Evandro é dado pela sua extraordinária capacidade de enfrentar problemas, por mais complexos que fossem. Assim é que a criação do Serviço de Estudo das Grandes Endemias encontrou natural antagonismo por parte de muitos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz. Era novidade e, como tal, merecia uma análise, de cabo a rabo, para ser aceita. Além do mais, trazia ela para a casa elementos desconhecidos e, em geral, bem jovens, desfazendo a pretensão de muitos que já ali trabalhavam. Ainda mais, era um desafio científico, pois que os assuntos a serem abordados eram todos do interesse de vários laboratórios. Evandro conseguiu vencer todos os obstáculos. Cardoso Fontes, então diretor do Instituto de Manguinhos, dera a Evandro apoio a uma iniciativa que não era do agrado de todos os funcionários do Instituto Oswaldo Cruz, e Simões Lopes criara as condições para enquadrar os companheiros de Evandro no serviço público. Ao fim de quatro meses após a morte de meu irmão, pude ir a Guilherme Guinle para lhe dizer que as suas responsabilidades no projeto que tanto lhe devia estavam terminadas. Naquele momento, Guilherme Guinle disse-me: "Se agora minhas responsabilidades com seu irmão ficam suspensas, quero me dedicar, do mesmo modo, ao seu trabalho no Instituto de Biofísica." Foi-me difícil saber como agradecer-lhe. Creio que a minha gratidão se manifestou através do meu olhar. O oferecimento de Guilherme Guinle era a garantia de que eu poderia pesquisar na universidade.