Um aprendiz de ciência
VIII - As academias
Tive a oportunidade de presidir duas academias de ciências. A primeira, a Academia Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro, como mencionei antes. A segunda, a Academia Pontifícia de Ciências, no Vaticano, de 1972 a 1988, o que me levou a Roma, pelo menos, duas vezes por ano.
A presidência da Academia Brasileira de Ciências fui eleito pela generosidade de Arthur Moses, que a presidira durante mais de vinte anos e levou-a à sua atual sede na rua Anfilófio de Carvalho, no centro da cidade. Nessa ocasião, estive várias vezes em entretenimento com o ilustre bacteriologista, pois desejava convencê-lo a instalar a academia num belo edifício da rua Dona Mariana, o qual possuía um vasto terreno e uma construção secundária, onde poder-se-ia instalar uma pousada para visitantes nacionais e estrangeiros, convidados da academia. Meus argumentos foram vãos, pois Arthur Moses achava que nós, da comunidade científica, estávamos acostumados às reuniões plenárias quinzenais que se realizavam no edifício da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco, e que nos permitiam, acabadas as sessões, formar rodas de conversação e discussão em alguns dos bons bares existentes no antigo edifício do Hotel Avenida. Neles, quantas vezes, malgrado a diferença de idade, me entretive com homens da estatura intelectual de Álvaro Alberto, Miguel Ozorio, Francisco Venâncio Filho e Roquete Pinto, entre outros.
Um dia, Arthur Moses chamou-me ao seu laboratório particular na rua da Quitanda e, para surpresa minha, declarou que sentia-se cansado e desejava se afastar da presidência da Academia Brasileira de Ciências. Para minha maior surpresa, indicava-me para sucedê-lo. Insisti muito para que ele não desistisse do cargo que, com tanta nobreza e exatidão, ocupava sem nenhuma divergência grave a perturbá-la. Disse-me que sua decisão era definitiva. Arrependo-me, até hoje, de não ter insistido mais para que ele a modificasse, porque, sem dúvida alguma, foi ele um presidente de qualidade inexcedível. A surpresa de seu convite foi grande, porque havia ele deixado o Instituto Oswaldo Cruz e me haviam dito que Moses divergira da orientação administrativa de meu pai. Estava eu errado, pois que, nas várias vezes em que conversamos sobre as lutas que meu pai travara na Academia de Medicina e na reforma que fizera na Saúde Pública, Arthur Moses, talvez timidamente, sempre elogiara meu pai.
Era um cargo importante a que eu nunca havia almejado, mas que, de modo algum, poderia recusar. Chegado o momento da eleição, a academia, em sessão plena, elegeu-me presidente por um período que deveria ser de quatro anos. Tive apenas um voto contra — para minha surpresa, de um grande amigo — e um voto em branco, o meu próprio.
Minha atividade como presidente da Academia Brasileira de Ciências foi de apenas dois anos (1964-1965). Mesmo assim, pude prestar um serviço que considero relevante, com a doação obtida do presidente Castello Branco, quando me chamou para ser embaixador do Brasil na Unesco, como já relatei. Modifiquei também um pouco os hábitos de trabalho daquela instituição, reunindo-me com a diretoria uma vez por semana. Dessas reuniões participou, quase regularmente, o embaixador Hélio Scarabotolo, que, no Ministério das Relações Exteriores, ocupava a seção na qual se decidiam os acordos cien-tíficos, multi ou bilaterais, que o Brasil estabelecera ou estava estabelecendo com os governos de outros países.
Um episódio marcou a minha curta passagem pela presidência de nossa academia. No dia da minha posse, à qual compareceu o presidente Castello Branco, recebi, ao fim da solenidade, um documento de grande importância firmado pelos meus amigos da velha casa de Oswaldo Cruz. Meus companheiros de Manguinhos protestavam contra a administração que fora, de certa maneira, imposta por um grupo de militares da Escola Superior de Guerra. O documento foi-me entregue por um dos meus melhores e mais admirados amigos: Walter Oswaldo Cruz. Foi este o mais brilhante dos meus companheiros de geração, tendo, desde cedo, mostrado em seus trabalhos de pesquisa e na sua capacidade de formação de discípulos mestria só encontrável nos grandes cientistas de todos os tempos.
Rapidamente decidi o que deveria fazer com o documento a mim apresentado. Resolvi, para isso, convocar uma sessão especial da academia limitada aos membros do Instituto Oswaldo Cruz, que fossem acadêmicos, para discutir o que se estava passando na instituição que é a minha alma mater. Essa sessão realizou-se no dia 4 de agosto de 1966. Aos presentes expliquei, inicialmente, a razão de suas convocações, pois, na verdade, a academia não podia fugir à responsabilidade de defender a autonomia científica do Instituto Oswaldo Cruz e de cada um de seus pesquisadores. Dois campos se formaram. Em um desfilou-se a série de turbulências ocorrentes no instituto e que, mais tarde, foram compendiadas por Herman Lent no seu livro O massacre de Manguinhos. No outro, fez-se a defesa da situação existente, sendo que coube a Olímpio da Fonseca Filho a responsabilidade de representar esse grupo.
Foi uma sessão para mim extremamente angustiante, pois que naquele dia nascera o meu primeiro neto, que sofrerá, logo depois do nascimento, duas paradas cardíacas. Fui obrigado a acompanhar o seu estado de saúde pelo telefone, até que terminou a sessão na qual as discussões, embora acerbas, nunca chegaram a superar os limites da educação. Em seguida, fiz um resumo do que havia sido debatido, debate no qual o grupo de crítica ao diretor de Manguinhos saíra-se vantajoso, e entreguei meu relatório, juntamente com o documento que fora trazido por Walter Oswaldo Cruz, ao ministro da Casa Civil no Palácio das Laranjeiras, Luiz Vianna. Acho que fiz o que era possível fazer. E que o diretor combatido tinha todo o apoio da Escola Superior de Guerra.
Aliás, sobre o episódio, permito-me contar um fato interessante, ocorrido em outra situação. Estava eu em Paris quando encontrei, no Café de Paris, Walter Oswaldo Cruz e sua mulher. Conversa vai, conversa vem, disse-me ele estar satisfeito com a nova direção dada ao instituto, dirigido agora por um ilustre cardiologista, que se tornara famoso por seus trabalhos sobre as cardiopatias chagásicas. Obtemperei-lhe que, malgrado minha admiração várias vezes expressa, tanto pelo médico como pelo especialista, creio que lhe faltavam o renome e a convivência com problemas de administração suficientemente grandes, para nomeá-lo para o cargo. Sua grande vantagem era a de ser médico de Getúlio Vargas. O que eu disse ao Walter, eu já havia dito ao próprio cardiologista, quando ele veio, certa manha, à Praia Vermelha, convidar-me para diretor de Manguinhos, em nome do presidente Vargas. Disse mais, ao Walter, que uma nomeação desse tipo daria margem a nomeação de pessoas — e dei-lhe um exemplo — não qualificadas para o cargo, que havia sido ocupado por Oswaldo Cruz, por meu pai e por Cardoso Fontes. Quando Walter chegou ao Rio, a nomeação do candidato que eu indicara como simples palpite já havia sido feita. Naturalmente, nunca consegui convencer Walter de que eu de nada sabia, quando com ele conversara.
Decorridos alguns meses, deixei para me substituir na presidência da academia, Aristides de Azevedo Pacheco Leão, seguindo então para Paris. Tempos depois, fui a Genebra participar de um comitê de pesquisas médicas na Organização Mundial de Saúde. Aproveitei a volta, já que estava de automóvel, para percorrer os lindos campos da França central, visitando com cuidado a Borgonha. Cheguei a Paris no meio da noite. No dia seguinte, fui acordado muito cedo pelo núncio apostólico em Paris, Righi-Lambertini, que manifestou o desejo de ver-me com urgência. Se possível, às onze horas daquele mesmo dia. Aquela hora encontrava-me no escritório de Lambertini, quando uma porta se abriu e apareceu-me uma figura de grande porte, na qual eu senti, desde logo, a fina educação do alto clero romano. Era o futuro cardeal. Depois das frases de apresentação, disse-me ele que o papa Paulo VI convidava-me para ser presidente da Academia Pontifícia de Ciências. Confesso que fiquei tão atônito que, atabalhoadamente, perguntei-lhe se tinha certeza do que estava me dizendo. Monsenhor sorriu e mostrou-me o telegrama que o fizera chamar-me. Não podia imaginar que tal atribuição pudesse me ser conferida. Na verdade, havia sido eleito para a Academia Pontifícia poucos anos antes (1961) e participara apenas de uma das reuniões plenárias, que nela se realizam periodicamente.
Estávamos em 1972. Agora, decorridos vinte e seis anos, ainda me pergunto quem terá indicado o meu nome a Sua Santidade. Penso que influíram a voz de dom Eugênio Sales e a do cardeal Benelli, que me conhecera quando estava eu na Unesco e era ele o observador do Vaticano. Com Benelli, estabeleci relações bastante cordiais, continuação dos entretenimentos que havíamos tido no Rio, ainda que esparsos, quando Benelli era um dos membros da Nunciatura Apostólica. Com monsenhor Lambertini ficou combinado que eu iria a Roma no prazo mais curto possível. Assim foi feito. Surpreendi-me quando, ao chegar ao Aeroporto de Fiumicino, encontrei um carro com placa do Vaticano à minha espera. A tarde, veio o mesmo buscar-me e fui diretamente ao palácio papalino para me encontrar com Paulo VI, o que foi para mim uma surpresa, pois pensava que primeiro teria que ver o cardeal substituto Villot, e com Benelli, que, logo depois, seria feito cardeal de Florença.
Realmente, o convite me surpreendeu. Minha fé sempre foi profunda e eu creio que ela chegou a mim por intermédio de minha mãe, da Fräulein, alemã católica de quatro costados, e vovó Mariana, mãe de meu pai, que vivia sempre com um terço na mão. A minha religiosidade eu penso tê-la adquirido, principalmente, na Fazenda da Tartária, onde tantos verões passei. Ali, antes de irmos dormir, juntávamo-nos todos, os tios, os primos, as visitas, os colonos mais próximos da casa da fazenda, para rezarmos juntos o terço, recitado em voz alta, tio Henrique comandando a oração. Influiu-me, também, ao que assisti nas Semanas Santas passadas em Oliveira. No Rio, entretanto, naquela ocasião, eu pouco freqüentava a Igreja da Glória do Largo do Machado, a mais próxima da minha casa. Minha mãe tinha uma grande fé, mas sua religião era um pouco particular. Tanto assim que, de um momento para o outro, passou a ir à missa aos sábados — bem antes de essa concessão ter sido feita por Roma —, pois, nos domingos, tinha a obrigação de ajudar a preparação do almoço no qual se juntavam sempre amigos, como Figueiredo Rodrigues, Armando Godoy, o comandante Chagas Moura e, até o seu rompimento com meu pai por motivos de serviço, Belisário Penna, e outros ainda. Nesses almoços conheci a fina flor do sanitarismo brasileiro de então. Mais tarde, em parte por curiosidade intelectual e, em parte, para me encontrar com Annah, segui um curso sobre tomismo, ministrado por frei Secondi. Creio que a personalidade deste, encantadora, carinhosa e altamente humana, foi um dos fatores que mais me aproximaram da Igreja Católica. Durante toda a sua vida, tive a oportunidade de encontrálo com freqüência e, cada vez que o fiz, dele recebi uma lição de humanidade e espiritualismo. No entanto, os grandes líderes intelectuais do catolicismo no Rio, como Alceu de Amoroso Lima, que conheci melhor, Jackson de Figueiredo, que não conheci, e até mesmo Sobral Pinto, não tiveram nenhuma influência sobre mim, embora eu os admirasse e, particularmente, a Tristão de Athayde.
No entanto, havia alguma coisa que me impedia de maior aproximação com a Igreja. Quem derrubou esse obstáculo foi Georges Bernanos quando, em Barbacena, tinha eu ido para tratar-me de uma primoinfecção tuberculosa, em 1942. Muito mais tarde, em Roma, tive a oportunidade de conhecer um dos maiores servidores da Igreja, o dominicano Enrico di Rovasenda, que foi chanceler da Academia Pontifícia de Ciências de 1964 até 1986. O que ganhei com a sua convivência é indescritível. Afável, altamente intelectual, tinha o humanismo e o liberalismo como características de seu pensamento cheio de uma fé inamovível. Todas as minhas dificuldades com interpretações "fundamentalistas" de católicos por demais zelosos eram rapidamente superadas pela capacidade dialética do ilustre sacerdote. Foram discussões inesquecíveis, aquelas vividas no silêncio da Casina Pio IV, rodeada pelos jardins do Vaticano, linda sede da Academia Pontifícia de Ciências. Rovasenda havia sido engenheiro antes de entrar para o convento, tendo, ainda estudante, participado das lutas da juventude antifascista na era de Mussolini. Dedicara uma grande parte de seu tempo à criação da dinâmica associação dos Laureati Cattolici, uma das forças importantes do movimento contra a ditadura. Digo que, sem Enrico di Rovasenda, o sucesso de minha missão como presidente da Academia Pontifícia de Ciências não teria existido. Até o presente, mantenho com Rovasenda uma correspondência que me é de salutar efeito.
A minha ida direta a Paulo VI pareceu-me, e o foi, um bom presságio. Meu encontro com o papa Montini terá sido momento dos mais emocionantes pelos quais tenho passado na vida. Anteriormente, havia visto de perto e em condições especiais o papa Pio XII, figura impressionante. Passando por Roma em 1947, fomos levados pelo secretário da Embaixada do Brasil, Galvão Bueno a assistir a uma bênção de Pio XII aos soldados italianos que, a comando do governo fascista, iam colonizar a Abissínia, hoje Etiópia. Meu primeiro choque e emoção deram-se quando a figura esguia e austera do papa Pacelli entrou no grande salão onde se realizou a cerimônia. Além da solenidade da ocasião, Pio XII apresentava grande semelhança com Afrânio de Mello Franco, meu sogro.
A segunda emoção foi produzida pelo forte, para não dizer violento, discurso com que Pio XII censurou o governo da Itália e aconselhou aos seus ouvintes que procurassem seguir, na sua "difícil missão", os passos de compreensão e justiça que nos ensinou Jesus. Meu ânimo, indignado diante da truculência dos governos nazistas, dobrou de alegria com as palavras do papa. Esse momento é inesquecível.
Outro Sumo Pontífice que conheci foi o papa Roncalli, João XXIII, a quem coube dar início aos estudos do Vaticano II. João XXIII era uma figura da maior simpatia. De formas opulentas, seu olhar meigo e seu sorriso simpático não podiam ocultar a profundidade do pensamento de quem recebia a cátedra de São Pedro em momento de grande agitação nos meios religiosos, civis e eclesiásticos. Bonachão, tinha a estrutura humana que mais tarde vim a encontrar nos camponeses do norte da Itália. Da primeira vez que com ele estive, já acadêmico da Pontifícia Academia de Ciências, perguntou-me sobre o Brasil, querendo que eu fosse a detalhes. Estávamos, como disse, numa época de agitação política e movimentos sociais. A sua pergunta sobre qual a solução que eu propunha para o Brasil, disse-lhe de imediato: "A reforma agrária." Fixou-me por alguns minutos e depois, apontando para o chão, disse-me que a cada momento de sua "difícil missão" — e o qualificativo é dele — pensava em nosso país e que nunca deixava de orar por ele nas suas missas. Sem dúvida, João XXIII transmitia uma força interior extraordinária, ao mesmo tempo que se sentia nele um homem apegado à terra, às gentes e aos seus problemas.
Minha primeira entrevista com Paulo VI foi encantadora, como todos os vários contatos que com ele tive. Era o papa Montini um homem simples, de convívio agradabilíssimo. Sentia-se nele, entretanto, uma auréola de angústia a que o levavam, principalmente, os acontecimentos do mundo e a realização próxima do Concilio Vaticano. Todas as minhas sugestões foram por ele aceitas, o que me permitiu pedir a nomeação de seis novos membros do maior valor, como Rita Levi-Montalcini e Jerôme Lejeune, sem a anuência do conselho da academia, que eu, aliás, ainda não havia formado. A nomeação de Rita Levi-Montalcini tinha dois significados: o de ser ela mulher e hebréia. Quanto a Jerôme Lejeune, que ainda não havia tomado as posições radicais que veio a assumir, sua presença fazia-se necessária por não haver na academia um geneticista de nomeada.
Durante as inúmeras ocasiões em que tive a oportunidade e a honra de estar com Paulo VI, essa impressão de preocupação cada vez mais se afirmava. Perguntou-me ele, no primeiro encontro, que pretendia eu fazer como presidente da Academia Pontifícia. Não hesitei em dizer-lhe que queria fazer dela uma academia de ação, ao lado do prestígio que lhe dava sua posição de estar diretamente ligada a Sua Santidade. Lendo o livro de Régis Ladous, Des Nobels au Vatican, publicado recentemente, verifiquei que, sem ter conhecimento prévio, penso que por inspiração superior, disse ao papa que Pio XI, o grande reformador da Academia Pontifícia, expressara, nos seus discursos à academia e no regimento que estabelecera em 1936, que os membros da academia deveriam ser escolhidos apenas pelos seus méritos científicos, sem distinção de raças e sem nenhuma outra discriminação, nem mesmo religiosa. Pedi, também, a Paulo VI, autorização para elaborar um novo regimento, que substituísse aquele promulgado por Pio XI, já superado pelo extraordinário progresso da ciência nos últimos cinqüenta anos. O regimento que elaborei foi promulgado pelo Santo Padre sem nenhuma modificação.
No mesmo dia em que fui recebido por Paulo VI, foi me ver no hotel o doutor Pietro Salviucci, que, com o título de chanceler, dirigia o secretariado da Academia Pontifícia. Salviucci representava, verdadeiramente, os arquivos da academia. Altíssimo e bem magro, uma cigarrilha pendente sempre dos seus lábios, fora professor de matemática no ensino secundário. Era essencialmente um romano de velha tradição, sua família conhecida pela capacidade de dominar o trabalho de publicações. Havia sido indicado para trabalhar na academia a pedido do presidente Gemelli, e a ela se dedicara de corpo e alma. Foi meu secretário-geral durante pouco tempo, pois havia atingido o limite de idade para funcionários do Vaticano, servindo-me com a maior lealdade, embora, acredito, não estivesse de acordo com muitos dos meus projetos. Deu-me, também, durante todo o tempo em que trabalhamos juntos, grande contribuição, informando-me sobre as atividades pregressas da academia e sobre o entrelaçamento da atividade que eu ia exercer e os outros órgãos do Vaticano.
A Academia Pontifícia de Ciências foi criada em 1502 por Federico Cesi, duque de Acquasparta, que pretendia reunir, em uma de suas propriedades, todos aqueles interessados nos fenômenos naturais. Cesi a denominou Academia dos Linces, por considerar que esses animais são capazes de enxergar mais longe, o que seria o caso dos cientistas. Resumindo um pouco sua história, direi que a academia fundada por Cesi viveu com altos e baixos, até que o governo italiano a absorveu com o nome de Accademia Nazionale dei Lincei, no momento em que se fez a concordata entre o Estado Italiano e o Vaticano, em 1870. Algum tempo depois é eleito papa Pio XI, que resolveu dar nova força à Academia dos Linces. Para isso cercou-se de um sacerdote da mais alta valia, o jesuíta Agostino Gemelli. Havia este participado na Primeira Guerra Mundial como piloto de aviões de combate. Voltando á Itália, resolveu dar maior vigor a um pequeno estabelecimento de ensino superior em Milão, transformando-o na Universidade do Sagrado Coração. Assumiu, fogosamente, a direção de certas associações católicas suspeitas de convicções antifascistas e fez frente a enormes dificuldades na organização de sua universidade, que tinha que manter relações com o governo de Mussolini. Foi Gemelli um sábio conselheiro de Pio XI que, depois de muita meditação, reformulou a Academia de Cesi, transformando-a, em 1936, na atual Academia Pontifícia de Ciências. Esta tinha tido, desde o início, o apoio do papa Benedito XV, interessado em lutar pela paz, já que se tornara evidente que as nações européias preparavam-se para uma contenda armada. Benedito XV acreditava que os cientistas podiam servir melhor do que qualquer outro profissional ao estabelecimento de uma harmonia internacional, cada vez mais ameaçada pelos movimentos que se haviam formado na Espanha e na Europa oriental.
Os pontos mais importantes no novo regimento foram estabelecidos por Gemelli e muitos deles pareceram por demais liberais a muitos elementos da Cúria e, até mesmo, a católicos de todo o mundo.
Dando andamento às minhas idéias já expostas ao papa Paulo VI, procurei, desde logo, realizar um tipo de reunião que servisse para focalizar alguns problemas científicos de grande significação para a sociedade e do maior interesse para a compreensão da evolução do mundo. Haveria grupos constituídos, no máximo, de dez membros, cientistas de todo o mundo. Escolhidos nos termos do regimento, mas não pertencentes necessariamente ao quadro da academia, completariam a atividade das sessões plenárias, muito mais amplas, e das quais deveriam participar todos os acadêmicos. Essas reuniões deram, certamente, uma grande divulgação aos trabalhos da academia, sendo que suas atividades e conclusões seriam difundidas sob a forma de monografias, artigos etc. Permitiram essas reuniões levar ao Vaticano, nos dezesseis anos em que presidi a academia, aproximadamente mil e quinhentos cientistas oriundos de todas as partes do mundo.
Dos dois grupos de trabalho iniciais, o primeiro dedicou-se ao estudo da dessalinização da água, dada a importância que tem esta para a vida e a sua paulatina diminuição no globo. E o segundo, aos estudos sobre a origem da vida, tendo em vista o reconhecimento da existência, em condições laboratoriais especiais, de moléculas pré-bióticas. Permitiram eles, também, a ida ao Vaticano de cientistas provenientes de nações sem laços diplomáticos com a Santa Sé. Nessa ocasião, apareceram, em certos meios menos esclarecidos, críticas à minha atuação, que teria tendência de judeizar a academia. Essa interpretação deformada do meu pensamento ocorreu em conseqüência da predominância de especialistas israelenses na semana de estudos sobre dessanilização, tendência essa natural pela importância dos trabalhos realizados em Israel para a produção de métodos de dessalinização. Permitiram elas, também, levar à Casina Pio IV alguns dos novos acadêmicos, como Severo Ochoa, que se ocupou, principalmente, das moléculas prébióticas.
Durante o tempo em que presidi a Academia Pontifícia de Ciências, fiz organizar várias "semanas de estudos". Nelas foram discutidos assuntos da maior importância não só na área científica como também na social. Uma das mais significativas foi a que tratou dos métodos utilizados para a prorrogação da vida e que concluiu que esses métodos, economicamente pesados, devem ser suspensos somente quando ficar demonstrada a morte cerebral do paciente.
Acho, todavia, que o que mais profundamente marcou a minha passagem pela presidência da Academia Pontifícia foi o movimento em prol do combate à guerra nuclear, a datação do Santo Sudário e, ainda, a reabertura do Processo Galileu.
Quando cheguei a Roma, preocupava-me, já, o movimento para o desenvolvimento da energia nuclear e de suas possibilidades bélicas. Aprendi isto na ocasião em que fiz parte do Comitê de Estudo da Ação das Radiações Ionizantes sobre os Seres Vivos, organizado pelas Nações Unidas. Acho curiosa a atitude daqueles que fazem mofa desses comitês internacionais. Este ao qual pertenci, nas Nações Unidas, permitiu-me conhecer de perto aquüo que me fora dado apreender por meio de livros e revistas.
Conseqüentemente à minha passagem pela Comissão da ONU, dei início, no Instituto de Biofísica, como já me referi, a um maior esforço no Setor de Radiobiologia, chefiado por meu companheiro Luiz Renato C. da Silva Caldas, um dos melhores especialistas no assunto em nosso país, profundo conhecedor de todos os aspectos da questão, tendo, além do mais, feito parte, durante dois anos, do Secretariado da Comissão da ONU . Integrou esse esforço, com destaque, a série de palestras sobre o assunto, o projeto chefiado por Eduardo Penna Franca sobre os efeitos das areias monazíticas de Guarapari, Espírito Santo, e os cursos sobre a aplicação de radioisótopos em biologia e medicina.
Partindo dessas experiências, fiz com que a Academia Pontifícia tomasse uma posição firme contra a utilização da mesma para fins bélicos. Para isto, convoquei uma reunião de presidentes das academias científicas de todo o mundo, à qual compareceram mais de sessenta representantes, para a elaboração de um documento que mostrasse ao mundo o verdadeiro perigo que a energia nuclear pode representar. Esse documento, assinado unanimemente por todos os presidentes e representantes das academias, na presença de Sua Santidade João Paulo II, em setembro de 1982, foi posteriormente entregue, por determinação do papa, aos presidentes e primeiros-ministros das quatro potências possuidoras de armas nucleares, assim como ao embaixador Kittani, presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas, e ao secretário-geral desta, Kurt Waldheim. A mensagem da academia foi entregue a Ronald Reagan por Severo Ochoa, Victor Weisskopf e Howard Hiatt. A de Margaret Thatcher, o Prêmio Nobel Max Perutz e eu mesmo a levamos. A Mikhail Gorbachev, foram entregá-la Marini-Bettòlo e o nobelista belga Christian De Duve. E, finalmente, a de Francois Mitterrand chegou pelas mãos de Leprince-Ringuet e Jerôme Lejeune. A exceção do grupo que visitou o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, os demais delegados da academia foram recebidos com a maior cordialidade pelos chefes-de-estado. Um pouco mais tarde, em conseqüência de formulações errôneas dos jornais romanos, resultantes de uma entrevista que dei à imprensa na Casina Pio IV, os jornalistas publicaram que a academia havia tomado uma posição contra a chamada "guerra nas estrelas", assunto que nunca fora a debate no seio da instituição que eu presidia. Meu desmentido não teve a menor divulgação e, em conseqüência, pelo que fui informado mais tarde, o presidente Reagan enviou um emissário especial para solicitar, de João Paulo II, uma desaprovação da atitude jamais assumida, na realidade, pela Academia Pontifícia.
Sobre esse documento, fontes oficiais dos países possuidores de armamento nuclear nunca se manifestaram, o mesmo não ocorrendo, entretanto, com organizações acadêmicas e organismos não-oficiais, que se manifestaram favoráveis às conclusões nele contidas. Infelizmente, no Brasil, esse importante documento teve sua repercussão minimizada pelo interesse que o desenvolvimento da energia nuclear inspirava em muitos de nossos dirigentes.
Outro momento saliente da minha presença na academia foi o da datação do Santo Sudário. Encontrando-se o mesmo em Turim, onde representa o que de mais importante existe na cidade, o cardeal Ballestrero foi ao Santo Padre pedir que a academia procedesse à datação do mesmo. Tentei, então, demover Sua Santidade de tomar tal iniciativa, pois afirmava que a datação poderia dar a idade do Sudário com uma aproximação, no melhor dos casos, de cem anos, para mais ou para menos, e que, no momento, a datação não serviria para uma demonstração precisa de que a expressiva face desenhada no Santo Sudário fosse a de Jesus Cristo. Meus argumentos foram vãos, e, assim, ajudado pelo professor Vittorio Canuto, da Nasa, convoquei uma comissão especialista em datação pelo carbono-14. Recentemente, o professor Harry E. Gove, que dirigiu o trabalho da comissão de técnicos escolhidos por mim e por Canuto, publicou um livro em que relata todos os fatos: Relic, Icon or Hoax?. Esse livro, editado em 1996 pelo Institute of Physics Publishing de Bristol, tem tido boa repercussão nos Estados Unidos. O resultado da datação levou à conclusão de que o tecido onde está estampada a imagem da cabeça de Jesus fora feito no ano 600 d.C. Essa constatação causou profunda emoção em vários meios religiosos e, particularmente, na cidade de Turim. Embora eu nunca tenha feito a menor tentativa de perturbar o trabalho da comissão, o resultado final causou-me apreensão, pois, certamente, milhares de católicos, como eu mesmo, teriam preferido que o tecido tivesse sido elaborado nas vizinhanças da data do nascimento de Jesus. Vários grupos na cidade de Turim e em outras cidades da Europa tentaram discutir o resultado, chegando alguns leigos a pôr em dúvida a capacidade dos peritos que haviam feito a datação. Quero crer que muitos desejavam que a datação confirmasse a hipótese de o Santo Sudário ter envolvido o corpo de Jesus Cristo. Porém, o resultado objetivo não permitiu mais que assim se pensasse. A publicação com os detalhes da operação, como se encontram descritos no livro de Gove, e amplamente difundidos pela imprensa européia, tornaram as reclamações sem significação, e rapidamente o resultado da experiência científica foi esquecido.
Outra iniciativa foi encaminhar os trabalhos da academia para o estudo do Processo Galileu. Quem me chamou a atenção, inicialmente, da importância de um reexame da atitude da Igreja em relação a esse grande sábio, foi o cardeal da Áustria, König, que veio de Viena dois ou três dias depois da minha posse, especialmente para discutir o assunto comigo. Em uma entrevista com João Paulo II, toquei no assunto, assinalando que o Processo Galileu era uma constante crítica dos agnósticos à Igreja Católica. João Paulo II nada me disse no momento, mas na primeira vez que se dirigiu em público à academia, referiu-se a Galileu. Tratava-se de uma reunião especial em homenagem ao centenário de Albert Einstein, muito justa homenagem, aliás, visto que a academia nunca o chamara para o seu seio. João Paulo II referiu-se a Galileu e a Einstein dizendo que enquanto este nunca fora incomodado pela Igreja, Galileu sofrerá, da mesma, forte perseguição, incitando a que a academia retomasse o estudo do Processo Galileu, o que foi feito logo a seguir por uma comissão presidida pelo cardeal Martini, de Milão. Sem dúvida, foi um serviço que se prestou à nossa Igreja. Um dos resultados positivos desse trabalho é o fato de que todo o processo de Galileu, que se encontra na biblioteca do Vaticano, pode hoje ser visto por pessoas credenciadas. Parece-me que essa abertura aproximará mais a ciência da Igreja.
Quero crer que a minha atividade na academia correspondeu ao que eu propus a Paulo VI. Na verdade, realizei, nos dezesseis anos em que a presidi, mais ou menos vinte e cinco semanas de estudos, além de grupos de trabalho das sessões plenárias anuais e mesas-redondas. Não só renovei os métodos de trabalho, como também pude nomear para a academia o maior número de cientistas mulheres, representantes das comunidades científicas judaica e muçulmana, bem como personalidades agnósticas. Graças ao apoio que recebi de João Paulo II, nunca tive dificuldades ou atritos com a Cúria Romana, nem mesmo quando realizei uma semana de estudos sobre experimentação biológica moderna, assunto em certos pontos de extrema delicadeza, e um grupo de estudos sobre inseminação artificial. A única reação contra este foi a de um alto prócer do Vaticano, que resolveu fazer o seu próprio grupo de trabalho para o mesmo assunto. O resultado da reunião não teve a menor repercussão, ao contrário daquela que realizei, e à qual esteve presente, entre outros, Jerôme Lejeune, de extraordinária capacidade científica e intelectual, e cuja fidelidade às determinações da Santa Sé não poderia ser posta em dúvida.
Guardo da minha passagem pela presidência da Academia Pontifícia de Ciências extraordinária recordação. Nela convivi com duas personalidades de características diferentes, mas de excepcional valor humano e intelectual: o papa Montini e o papa Wojtyla. Aquele, parecia reservado e ansioso. Este, ao contrário, aberto e tranqüilo. Entretanto, nunca deixei de saber o que pensavam a respeito das propostas que lhes fazia. Paulo VI, algumas vezes, deu o beneplácito dois ou três dias depois ao que eu propunha. Wojtyla dava-me a sua opinião quase que no momento em que eu acabava de expor a minha pretensão. Diferentes no físico, eram iguais no desejo de bem servir à Igreja e à humanidade.
Reservaram-me, os dois, duas das maiores emoções que tive em minha vida. A primeira foi a da entrega, por Paulo VI, da medalha da academia ao físico inglês Stephen W. Hawking. Quase sem movimentos, pois atingido por uma esclerose em placas, Hawking, transportado por uma enfermeira e por sua mulher, em uma cadeira de rodas, dava a impressão de um corpo quase sem substancia. Sua cabeça e os grandes olhos azuis encimando larga boca mantinham-lhe um aspecto juvenil. Era ele o decifrador de um importante fenômeno conhecido como "buraco negro", sobre o qual, depois de seus trabalhos, centenas de astrônomos se debruçaram. A academia decidiu entregar-lhe a sua mais alta distinção, a Medalha de Ouro Pio XI. A solenidade foi emocionante. Na Sala Real do Vaticano inúmeros convidados comprimiam-se. Para a emoção de todos os presentes, Paulo VI levantou-se do seu trono e ajoelhou-se aos pés de Hawking, colocando ao redor do seu pescoço o precioso símbolo do reconhecimento. Raros foram aqueles que puderam resistir à cena e que não enxugaram, com seus lenços, as boas lágrimas que haviam tomado conta de seus olhos.
O outro evento que gostaria de citar foi o da beatificação de Maximiliano Kölbe. João Paulo II presidiu a todo o cerimonial, ao qual estiveram presentes, com seus uniformes de prisioneiros de Auschwitz, inúmeros companheiros de Kölbe no terrível episódio do campo de concentração. Entre esses prisioneiros, estava aquele que Kölbe havia substituído, heroicamente, no caminho da câmara de gás. Aí, também, os presentes não puderam resistir e raríssimos foram os que contiveram as lágrimas, no momento em que foi tocado o hino do campo dos prisioneiros massacrados por Hitler.
Minha atividade na academia foi extraordinariamente auxiliada pela singular figura do dominicano padre Enrico di Rovasenda, que substituiu o antigo secretário-chanceler Pietro Salviucci.
Quando deixei a presidência da Academia Pontifícia, em 1988, passei algum tempo julgando se minha atividade fora boa ou má. Não posso deixar de confessar que, com grande pesar, vi o meu mandato se extinguir, mas, pensando sobre o que realizei, acho que fiz até mais do que podia, considerando que eu não residia em Roma e lá permanecia duas, no máximo três vezes por ano, por tempos variáveis de três semanas a quatro meses. O que havia prometido a Paulo VI, seja informar à Santa Sé dos principais acontecimentos e orientações da ciência, eu havia realizado, mas ficou-me a certeza de que quem lucrou com essa permanência em Roma fui eu mesmo. Ampliou-se, de maneira extraordinária, o horizonte de minha modesta cultura. Arraigaram-se, ainda mais, meus sentimentos de ligação com o poder espiritual, sem perder, de nenhum modo, minhas idéias de liberdade e de esperança. Cada momento que vivi em Roma deu um pouco mais à minha vida.
Creio ter sido uma ousadia a minha pretensão de entrar para a Academia Brasileira de Letras. Dois motivos me levaram a tanto. Primeiramente, a vaidade, pois penso que ninguém se apresenta candidato a uma academia sem um componente de vaidade nesse desejo. O segundo, foi o de querer ocupar um lugar que meu pai desejou e nunca conseguiu. Lembro-me de que quando da morte de Miguel Couto, seu grande exemplo, houve em nossa casa um certo movimento para isto. Nesse momento entra em cena Tristão de Athayde que, impulsionado por várias correntes, apresenta-se candidato. Imediatamente, meu pai desistiu da sua intenção, pois sabia não só do prestígio de Alceu, como também não tinha dúvida da terrível oposição que a ele faria Afrânio Peixoto. Desse modo, sua candidatura nunca se formulou. Aliás, Alceu um dia procurou-me dizendo que não sabia que meu pai teria sido candidato.
À primeira vaga a que me apresentei fui derrotado por Gildázio Amado, ilustre jornalista cujas crônicas sobre o Rio de Janeiro encantavam a todos nós. Pouco depois dessa eleição ocorreu a morte de Marques Rebelo, o grande romancista da vida carioca. Não pretendia me candidatar, tão de imediato, após minha derrota. Encontrei-me por acaso com Silva Mello, que insistiu para que eu me inscrevesse, assinalando que "devia eu me apresentar enquanto meus amigos ainda viviam". Essa frase me perturbou um pouco, mas levou-me a me inscrever contra um admirável escritor, José Cândido de Carvalho. Dediquei-me, então, a fazer as visitas de candidatura. Enquanto algumas pessoas me dizem que essas visitas são penosas, eu sustento o contrário. Fui sempre extremamente bem recebido por todos a quem procurei. Lembro-me, particularmente, da hora e meia em que me entretive com Elmano Cardim, que me incentivou muito na minha pretensão. Esta levou-me a conhecer Mário Palmério, em Uberaba, e Gilberto Freyre, no Recife. De todos recebi muito boa aceitação. Lancei, também, um livro, que deu início à série de volumes que tenho publicado. O minuto que vem (Ed. Tempo Brasileiro, 1972) é a coletânea de meus trabalhos aparecidos em jornais e revistas, anteriormente. A eleição não foi fácil. Venci-a no quarto escrutínio, por apenas um voto. E bem verdade que o meu "adversário", escritor admirável que se tornou meu amigo, tanto merecia ser acadêmico que se elegeu logo depois. Tenho pela academia a maior apreciação e considero, realmente, um grande privilégio a ela pertencer.
Na ocasião em que fui candidato e me elegi, era seu presidente uma figura de singular significação na vida brasileira: Austregésilo de Athayde. Eu o havia conhecido na casa de Ana Amélia Carneiro de Mendonça, onde, com um grupo de jovens, entre os quais cito particularmente Luiz Simões Lopes, que considero um dos mais valiosos brasileiros que conheci, entretinha-me com freqüência. Minhas relações com Ana Amélia, grande dama brasileira, dataram da época em que, eleita rainha dos estudantes, um grupo de rebeldes quis diminuir o seu prestígio na ocasião em que lhe foi prestada uma homenagem no Teatro Municipal. A temperatura subiu muito e, em companhia de Hildefonso Mascarenhas, enfrentei um entrevero com estudantes menos respeitosos. Nas várias vezes em que fui à rua Marquês de Abrantes, ali me encontrei com Austregésilo, que, não sabia eu, fazia a corte a Maria José, irmã de Ana Amélia. Austregésilo recebeu-me na academia, penso que, a princípio, com certa dificuldade, que logo se dissipou quando nossa convivência tornou-se mais freqüente. Guardo, entretanto, do ilustre varão, uma grande impressão. Seu conhecimento, vale dizer, sua erudição eram de uma inteligência superior, bem como suas intervenções em ocasiões de debate, nas sessões acadêmicas. Guardo, também, do ilustre presidente, saudades do carinho com que me tratou durante todo o tempo em que convivemos, malgrado divergências de opinião muito freqüentes.
Assistir a uma sessão vespertina da academia é algo de extremo interesse. Os acadêmicos estão sempre alertas a todos os movimentos intelectuais que se passam no Brasil e no exterior, e têm um vasto conhecimento profundo da vida intelectual de nosso país. Na comemoração de efemérides, trazem ao nosso conhecimento uma análise penetrante de acontecimentos ou pessoas nelas envolvidos, dando a impressão de que conhecem profundamente nosso Brasil, suas gentes, seus expoentes, sua vida nos seus mínimos aspectos. As sessões das quintas-feiras são, para mim, uma lição de humildade.
Meu primeiro livro, Homens e coisas de ciência, foi publicado pela Universidade do Brasil, em 1956, e nele faço uma apreciação sobre ciência e cientistas. Mais tarde, em 1972, a Ed. Tempo Brasileiro lançou O minuto que vem. Em 1979, Cultura e ciência foi lançado pela UFRJ e FUJB (Fundação Universitária José Bonifácio), como parte da Coleção Memória. A Casa de Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, publicou, em 1991, o livro de ensaios Conceitos e contraconceitos e, em 1993, Meu pai, biografia de Carlos Chagas.
Pertenço, ainda, a algumas academias nacionais e estrangeiras. Posso afirmar, no entanto, que nunca solicitei a minha admissão a qualquer uma delas. Fui aceito na Academia Brasileira de Ciências por indicação de Álvaro Alberto. Tornei-me membro da Academia Nacional de Medicina quando Osvino Álvares Pena passou de titular a emérito, para que eu pudesse participar das festividades comemorativas do cinqüentenário da descoberta da Doença de Chagas, já como acadêmico. Para membro associado da Academia de Medicina de Paris, fui proposto por Pasteur Vallery-Radot. O diretor do Instituto Pasteur, Jacques Tréfouel, foi quem me fez membro associado do Instituto de França. Marcel Florkin me levou a membro da Academia Real de Medicina da Bélgica, e Celestino da Costa, a membro da Academia de Ciências e Letras de Lisboa, às quais se juntam a American Academy of Arts and Sciences, a Accademia dei Quaranta, de Roma, a Academia de Medicina de Buenos Aires, a American Philosophical Society e a All India Academy of Sciences, entre outras. Contribuí para a criação da Academia de Ciências da América Latina (Acal), motivado pelo entusiasmo de Raymundo Villegas, eminente pesquisador venezuelano, tendo sido eu seu primeiro presidente. Participei, de maneira significativa, na criação, por Abdus Saiam, da Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede em Trieste. Do mesmo modo, algumas universidades estrangeiras outorgaramme títulos de Doutor Honoris Causa: quatorze ao todo. Cito, entre elas, três, por seu relacionamento com a nossa cultura: a de Paris, título que meu pai também recebeu, a de Coimbra e a de Salamanca.
Entre outros títulos, fui também feito cidadão honorário da cidade de Oliveira, Minas Gerais, e pesquisador honorário do Conseil National de la Recherche Scientifique e da Fundação Oswaldo Cruz.