Um Defeito de Cor
Capítulo dois
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
até decorar duas rezas importantes, a Ave-Maria e o Pai-Nosso, pois a qualquer momento a sinhá Ana Felipa poderia mandar me chamar para ver se eu já sabia rezar como gente de bem.
Eu não conseguia entender que mal havia em falar de abiku, de Ibêjis, de voduns, mas a Esméria retrucou com tanta braveza que não me atrevi a contar sobre as promessas que tinha feito à minha avó, como providenciar o pingente da Taiwo, que eu tinha que trazer sempre comigo e que ainda estava representado pela concha amarrada no pescoço. Naquela noite sonhei com a Taiwo, que não disse nada, mas parecia brava comigo.
Nega Florinda
Aos domingos e nos dias santos, todos os escravos tinham folga certa, menos nós, os da casa-grande, que precisávamos trabalhar se os senhores assim quisessem.
E sempre queriam, pois falavam que a nossa vida era bem melhor que a vida dos escravos que viviam na senzala grande, e que, portanto, não fazíamos favor algum abrindo mão de certas regalias. De fato, eu já tinha percebido que a nossa vida era melhor mesmo, apesar do pouco contato com os outros, de quem o sinhô José Carlos fazia questão de nos manter afastados.
Segundo a Esméria, era para que não pegássemos de novo os vícios selvagens dos pretos, e assim servirmos melhor aos brancos. Mas eu desconfiava que ela não cumpria muito bem esta ordem, pois em algumas noites que eu fingia dormir, via que ela se levantava e saía, voltando somente na hora de torrar e moer o café para o desjejum. Ela também conversava muito com a Nega Florinda, que aparecia de vez em quando na fazenda e de quem eu já tinha ouvido a sinhá Ana Felipa dizer que não gostava, por ser metida até as unhas com bruxarias, embora se divertisse com as histórias que a preta
contava.
A Nega Florinda era das pessoas mais antigas da ilha, morava lá desde que tinha chegado da África, ainda mocinha, e já era forra havia tanto tempo que ninguém vivo se lembrava dela como escrava. Era muito velha e parecia saber todas as histórias do mundo, desde que o mundo era mundo, como ela mesma dizia. Como recontadeira, andava de casa em casa e recebia algum dinheiro ou mesmo sobras de comida, que aceitava de bom grado antes de se agachar em qualquer canto e contar histórias.
Até a sinhá se aproximava para ouvi-la, e não se importava se algumas pretas da casa ou da cozinha também ficassem por perto. Parecia que o Tico e o Hilário tinham faro para as histórias, pois os dois podiam estar longe que davam um jeito de aparecer.
Aliás, os dois estavam sempre sumidos, e muitas vezes, quando se precisava deles para fazer algo ou levar recado a pedido dos senhores, quem tinha recebido a incumbência de encomendar o serviço a eles acabava tendo que fazê-lo, porque só eram encontrados quando o assunto também lhes interessava.
Eu me assustei um pouco na primeira vez que vi a Nega Florinda se aproximar da varanda onde eu estava com a sinhazinha Maria Clara. De longe, ela parecia um dos egunguns
(egunguns:
"esqueleto",
espírito
dos
antepassados, egum), que eu tinha visto certa vez passeando pelas ruas de Uidá. Era baixa e andava curvada, os passos rápidos para compensar as pernas curtas, e usava uma bata inteiriça e colorida que ia até os pés, com um pano-a-costa jogado sobre o ombro direito e, em uma das mãos, uma bolsa de tecido, onde guardava o dinheiro ou as prendas que recebia por suas histórias.
Usava vários colares de contas coloridas em volta do
pescoço, e em uma corda amarrada na cintura pendurava um sino pequeno e barulhento, que tilintava para anunciar sua chegada. A sinhá Ana Felipa não deixava que a Nega Florinda fosse recebida sem que ela estivesse presente, pois queria ter certeza de que, como desdenhava, a velha não contaria histórias de feitiços nem dos demônios que os pretos chamavam de santos e cultuavam como se fossem capazes de grandes feitos.
Mas quando a sinhá estava cansada de bordar ou de ler, a Nega Florinda era até bem recebida, com direito a refresco e um pedaço de pão ou bolo, sem falar no dinheiro. Além de dizer alôs (Alô: conto, história), muito bem, era interessante ver como a Nega se preparava, batendo palmas ritmadas antes de começar e durante a narração, com força e velocidade diferentes, para ajudar a fazer suspense. A primeira história que ela contou eu já conhecia, a minha avó tinha contado para mim, para a Taiwo e o Kokumo enquanto tecia sob o pé de iroco, com uma pequena diferença no final, que a Nega Florinda devia ter feito para agradar à sinhá Ana Felipa. Era a história do teiú e da tartaruga (tartaruga Em iorubá, um dos apelidos da tartaruga é ajapá, que significa "a fada da cabeça pelada"), que viviam em um lugar onde há muito tempo não chovia, fazendo com que todos passassem fome.
Para sobreviver, o teiú se arriscava para roubar o inhame que crescia dentro de uma rocha mágica vigiada por um homem muito bravo, e foi enganado pela fada da cabeça pelada. Mas no final deu tudo certo e a fada foi punida, apanhando muito do dono da roça, que quebrou seu casco em vários lugares. Arrependida, a fada recebeu ajuda da barata, que coseu o casco e o deixou daquele jeito, com as marcas das rachaduras. Perto da sinhá Ana Felipa, a Nega Florinda disse que a ajuda tinha sido de Nossa Senhora, mas tive quase certeza de que ela sabia o final verdadeiro.
Em um dia em que a Nega Florinda apareceu e não pôde ser recebida porque a sinhá estava de repouso para não perder a criança, aproveitei para conversar com ela.
Imaginei que ela poderia me ajudar porque talvez fosse da mesma região que a minha avó, já que as duas conheciam a mesma história. Desse modo, entenderia a minha necessidade de cumprir as promessas feitas, de providenciar um Xangô, uma Nana, uma Oxum, os Ibêjis e, principalmente, o pingente que representaria a Taiwo, para que eu pudesse ficar com a alma completa, a alma que nós duas dividíamos antes de ela morrer.
Estávamos na varanda quando a Nega Florinda chegou, e como a sinhazinha adorava ouvir suas histórias, foi pedir à sinhá que deixasse a Nega Florinda contar uma história só, mesmo ela não estando por perto. Com a negativa da sinhá, a sinhazinha Maria Clara se trancou no quarto, chorando, e eu aproveitei para seguir a Nega Florinda até a praia.
Antes, procurei pelo Eufrásio, o capataz, ou pelos homens que trabalhavam com ele, e não vi ninguém por perto. Na praia, apenas alguns pretos da senzala grande cuidavam dos barcos de pesca, ocupados com as próprias vidas, não dando importância ao que eu fazia da minha. Mesmo assim, pedi que entrássemos um pouco pelo palmeiral, para o caso de alguém aparecer de repente. A Nega Florinda disse que já sabia que eu precisava falar com ela e que podia ajudar. Contei como eu tinha chegado até ali e ela disse que isso já era um sinal de que os voduns e os orixás estavam comigo, mesmo que no momento eu não pudesse cultuá-los como mereciam, pois se eu tinha sobrevivido era porque havia uma importante missão a cumprir. Ela também era jeje, capturada em Ardra mais de sessenta anos antes, vivendo como liberta havia mais de trinta.
No Daomé, tinha chegado a ser voduno (Voduno ou vodúnsi: nome dado às sacerdotisas jejes no culto de
Dãnh-gbi, a Grande Serpente), como a minha avó antes de ser expulsa da corte de Abomé. Disse também que devia conhecer quase todos os voduns que a minha avó conhecia e que poderia até me falar deles, mas não adiantaria muito porque eles eram de África e ainda não estavam assentados no Brasil, tinham ficado por lá.
Alguns assentamentos já estavam sendo providenciados, mas aquela não era a minha missão porque, do contrário, eu já teria recebido um sinal.
Muito menos era a missão dela, que, embora continuasse acreditando neles, na ajuda deles, sabia que não podiam fazer muita coisa por nós. No Brasil, o culto aos orixás era forte demais até para o grande poder que os voduns possuíam. Ela também disse que eu poderia me valer dos orixás para cultuar alguns voduns, porque, na Bahia, Mawu, Khebiosô, Legba, Anyi-ewo, Loko, Hoho, Saponan e Wu eram cultuados como Olorum, Xangô, tlegbá, Oxum, Iroco, Ibêjis, Xaponã e Olokum.
Na Bahia, os orixás já tinham tomado conta das cabeças dos pretos e o culto deles vinha de muito tempo, praticado por quase todos os africanos que, por muitos e muitos anos, iam Parar naquelas terras. Nossos voduns nunca teriam força para ganhar um pouco de espaço ou atenção, e para eles estava destinado um lugar não muito longe dali, do qual, por enquanto, ela nada podia falar.
A Nega Florinda foi embora prometendo me ajudar, primeiro com o pingente da Taiwo, depois com a estátua dos Ibêjis, as maiores urgências. As outras coisas chegariam cada qual a seu tempo, como tinha que ser naquele lugar onde fingíamos cultuar os santos dos brancos.
As descobertas
A sinhá Ana Felipa já estava de cama havia três meses e
o sinhô José Carlos tinha mudado de quarto, porque a sinhá exigia cuidados constantes e ele precisava dormir e descansar para o trabalho do dia seguinte. Além das dores, ela ainda sentia o pavor de perder novamente a criança que esperava, e mantinha a Antônia e a Firmina dia e noite ao pé da cama. Duas pretas da senzala grande foram chamadas para ocupar a cozinha, e a Maria das Graças e a Esméria passaram para o serviço da casa.
Foi no meio dessa confusão toda que eu, depois de meses, deixei a varanda e a cozinha e entrei pela primeira vez na casa-grande, que não era chamada assim por acaso. Fiquei encantada com a sala de muitos móveis, com grandes sofás de madeira escura cobertos por almofadas ricas em bordados e pinturas, inteiras no comprimento do encosto e do assento, e outras soltas, menores, jogadas por cima das maiores.
As pequenas eram de crochê ou de renda, de diversas cores e formatos, redondas, retangulares, quadradas, trabalhadas com linha finíssima, formando desenhos muito delicados. Havia também muitas poltronas e cadeiras, algumas da mesma madeira escura dos sofás, com os assentos de palha trançada que davam repouso para mais almofadas, quase todas vermelhas. Havia muito vermelho e dourado pela sala, como os xales jogados sobre bancos e móveis que eu nem sabia para que serviam, e que a Esméria explicou serem para descansar os pés.
À direita da porta da frente ficava um móvel com estátuas de santos, todas muito lindas e algumas vestidas com roupas de verdade, como a Nossa Senhora, a mãe do Menino Jesus, e o São José, o pai. Sobre este móvel também havia um vaso com flores e um castiçal de prata, e era dever da Antônia cuidar para que sempre houvesse lá uma vela acesa e um copo com água. Na parte de baixo do móvel ficava uma tábua um pouco
elevada do chão, onde a pessoa se ajoelhava para rezar sobre uma almofada vermelha com bordados e franjas em dourado. Esse móvel tinha um nome também muito bonito, que eu tive dificuldade para aprender a falar, genuflexório. Em cada uma das paredes que separavam a sala da varanda, três janelas protegidas por cortinas, através das quais eu nunca tinha me atrevido a olhar pelo lado de fora, com medo de ser repreendida.
Havia também uma mesa redonda com quatro cadeiras e muitas outras mesinhas espalhadas pelos cantos, com objetos de vidro, de prata ou de ouro, como cinzeiros, vasos com flores, caixinhas para rapé, castiçais e garrafinhas, tudo sobre delicadas toalhas de renda. Um outro móvel, com quatro prateleiras e porta de vidro, guardava copos de vários tamanhos e cores, em vidros tão finos que mais pareciam papel colorido, e também alguns pratos com desenhos que a Esméria disse serem do estrangeiro, da Europa, de onde tinham saído as famílias do sinhô e da sinhá. Havia mais pratos desses, com pinturas, pendurados nas paredes, ao lado de quadros que tanto eram de paisagens estrangeiras como de gente.
Logo à entrada, ao lado da porta, um outro móvel com guarda-chuvas e capas de chuva, chapéus de todos os tipos, cores e tamanhos, luvas, e o que eu mais gostei, um espelho. Desde que me olhei nele pela primeira vez, não consegui passar um único dia sem voltar a fazê-lo sempre que surgia uma oportunidade.
A Esméria parou na frente dele e me chamou, disse para eu fechar os olhos e imaginar como eu era, com o que me parecia, e depois podia abrir os olhos e o espelho me diria se o que eu tinha imaginado era verdade ou mentira. Eu sabia que tinha a pele escura e o cabelo duro e escuro, mas me imaginava parecida com a sinhazinha. Quando abri os olhos, não percebi de imediato que eram a minha imagem e a da Esméria
paradas na nossa frente. Eu já tinha me visto nas águas de rios e de lagos, mas nunca com tanta nitidez.
Só depois que deixei de prestar atenção na menina de olhos arregalados que me encarava e vi a Esméria ao lado dela, tal qual a via de verdade, foi que percebi para que servia o espelho. Era como a água muito limpa, coisa que, aliás, ele bem parecia.
Eu era muito diferente do que imaginava, e durante alguns dias me achei feia, como a sinhá sempre dizia que todos os pretos eram, e evitei chegar perto da sinhazinha. Quando era inevitável, fazia o possível para deixá-la feia também, principalmente em relação aos penteados. Pegava em seus cabelos com as mãos sujas de banha ou de terra e inventava maneiras estranhas de prendê-los.
Sem a Sinhá por perto e com a sinhazinha enfrentando a Esméria e a Antônia dizendo se eu tinha feito, então estava bonito, pois elas não entendiam nada de penteados, ficava por aquilo mesmo, e eu ria sozinha pelos cantos. O sinhô José Carlos não ligava para essas coisas; aliás, ele não ligava para a filha, por não ter o dom do afeto e por considerá-la culpada pela morte da mãe. E assim foi até o dia em que comecei a me achar bonita também, pensando de um modo diferente e percebendo o quanto era parecida com a minha mãe.
O espelho passou a ser diversão, e eu ficava longo tempo na frente dele, fazendo caretas e vendo a minha imagem repeti-las, até o dia em que a sinhazinha viu e me chamou para ir ao quarto dela. A Esméria tinha dito para eu nunca entrar lá, porque, se sumisse alguma coisa, poderiam dizer que eu tinha roubado.
Mas como a sinhazinha insistiu e eu morria de curiosidade, fui. Andamos pelo longo corredor que tinha o mesmo piso da sala, de tábuas largas e compridas,
uma mais clara ao lado de outra mais escura, com tapetes coloridos jogados de espaço a espaço. O
corredor era escuro, pois não tinha janelas como os outros cômodos, somente muitas portas fechadas e três lamparinas, que ficavam apagadas durante o dia.
Quando a porta do quarto da sinhazinha se abriu, eu me imaginei entrando em um outro mundo, cor-de-rosa como o tapete que cobria o chão. Tudo era dourado, branco ou cor-de-rosa, como a cama e o dossel, onde estava presa uma cortina feita de tecido muito leve e transparente, salpicado de flores bordadas.
Ou a cômoda e o armário, onde ficavam guardadas as roupas e os sapatos, assim como o móvel que tomava toda uma parede e estava cheio de brinquedos de variados tipos, tamanhos e cores, principalmente bonecas. No chão, em meio a algumas almofadas, um cavalo de madeira pintado de branco com os pés iguais aos da cadeira de balanço em que a sinhá se sentava na varanda, com o rabo e a crina cor-de-rosa trançados e amarrados com fita.
A sinhazinha abriu a porta do armário e eu vi mais roupas do que dez crianças juntas poderiam vestir, e, na porta, no lado de dentro, um imenso espelho, onde era possível ver nós duas juntas, de pé e de corpo inteiro.
Fiquei fascinada, e mais ainda quando ela disse que eu podia pegar uma roupa para ver como ficava em mim.
Ela era maior que eu, mas, mesmo assim, escolhi um vestido longo, do mesmo tecido da cortina que rodeava a cama, com diversas camadas de saias rodadas, sendo que a de cima estava bordada com minúsculas borboletas coloridas. Ela também me emprestou pares de luvas e sapatos que não couberam nos meus pés, mas fiz questão de ficar equilibrada em cima deles, com os dedos enfiados o mais que eu podia agüentar. A sinhazinha buscou na sala uma sombrinha cor-de-rosa, que combinava com todo o resto e completava o meu
fascínio.
Olhando no espelho, eu me achei linda, a menina mais linda do mundo, prometi que um dia ainda seria forra e teria, além das roupas iguais às das pretas do mercado, muitas outras iguais às da sinhazinha. Ela também deve ter me achado bonita e ficado com ciúme, pois logo deu a brincadeira por terminada e pediu que eu tirasse tudo antes que estragasse, ou antes que a sinhá Ana Felipa aparecesse e brigasse com nós duas.
Mas a sinhá não ia aparecer, ela não se levantava da cama, para ver se conseguia segurar a criança que estava esperando, deixando a sinhazinha Maria Clara inteiramente aos cuidados da Esméria. E era bem possível que a sinhá não aparecesse nem se estivesse boa, pois comentavam que depois que ela se casou com o sinhô José Carlos, meses após a morte da sinhá Angélica, quando deveria ser uma mãe substituta para a sinhazinha, nunca cuidou da menina. Diziam que até a maltratava, e depois se tornou indiferente, como era naquela época. A indiferença ainda era acrescida de rancor, porque a sinhazinha Maria Clara era a lembrança de que ela não conseguia dar filhos ao sinhô José Carlos, ao contrário da finada sinhá Angélica e de algumas pretas, como diziam ser o caso da mãe do Tico e do Hilário.
Brincadeiras
Sem a presença da sinhá Ana Felipa o ambiente na casa era muito melhor, mesmo com a Esméria nervosa com tanto trabalho e com o Sebastião mantendo a ordem e mandando em todo mundo como se fosse branco.
Tínhamos mais liberdade, principalmente eu e a sinhazinha, que podíamos acompanhar o Tico e o Hilário em brincadeiras que, se a sinhá Ana Felipa visse, brigaria com a sinhazinha e mandaria castigar os meninos.
Todas as pessoas gostavam deles, menos ela, que não permitia que nenhuma de nós duas conversasse com eles, os negrinhos de boca suja, como ela dizia. Bem se via que era perseguição, e o sinhô José Carlos não disfarçava certo prazer nas ocasiões em que ficava contra ela, a favor dos meninos. Mas naqueles dias podíamos brincar à vontade, e uma das brincadeiras preferidas dos meninos, que logo caiu no gosto da sinhazinha, era caçar passarinhos. Eu acompanhava só para não deixá-la sozinha com os moleques, pois, mesmo sendo mais nova, eu me sentia responsável Por ela, e, com certeza, seria castigada caso algo ruim acontecesse.
Eu tentava ficar de longe, sem olhar, mas, mesmo não olhando, sabia exatamente quando eles matavam algum passarinho, pelo piado triste ou pela falta do piado. Era como se sentisse a dor e o desespero deles, como se parte de mim também sofresse com eles. De início, a sinhazinha soltava algumas palavras de pena mas logo se acostumou e passou a gostar da idéia, pedindo aos meninos que segurassem as aves aprisionadas entre as mãos para que ela as acertasse com uma pedrada, sem risco de errar, a poucos metros de distância. Os meninos eram certeiros com o bodoque mesmo de longe, e ficavam orgulhosos quando conseguiam atingir os bichinhos bem entre os olhos. Se não morriam na hora, ficavam tontos e não conseguiam voar, sendo presa fácil para a sinhazinha. Eu me sentia muito mal com tudo aquilo e falava com ela, que nem ligava. As fugidas para as matas, atrás dos meninos e seus bodoques ou arapucas, eram seu passatempo preferido, substituindo até as bonecas. Chegou a me dar duas de presente, que a Esméria não me deixou levar para a senzala enquanto a sinhá Ana Felipa não autorizasse, com medo de que eu fosse castigada.
A Esméria me contou sobre alguns castigos a que os pretos eram submetidos, raramente os da senzala pequena, que, pelo bom tratamento recebido, acabavam
se comportando melhor. Embora precisassem ter muita paciência para não aceitar provocações dos outros, que estavam sempre tentando criar confusão para que um escravo de casa fosse mandado para a pesca ou para a roça, dando oportunidade para que alguém da senzala grande ocupasse o seu lugar. Com medo dos castigos e querendo também acabar com a matança dos passarinhos, resolvi contar para a Esméria um acontecimento que provocou a minha primeira briga séria com a sinhazinha, mas que nem se comparava ao que poderia ter acontecido caso alguém nos denunciasse.
Certo dia, na mata, o Tico perguntou se queríamos vê-lo fazendo xixi, e já foi logo desamarrando o cordão e abaixando a calça. Eu já tinha visto muitos membros, mas a sinhazinha não, e começou a rir, achando aquilo muito engraçado. Os meninos disseram que os membros também eram chamados de passarinhos e que, ao invés de beberem água, como os de verdade, cuspiam água. O
Hilário também abaixou a calça e começou a fazer xixi, guiando o jato na direção de uma fila de formigas, fazendo um risco sobre o caminho que elas traçavam. Eu me lembrei dos riozinhos do Kokumo e da minha mãe e da volta que as formigas davam para evitá-los.
O Tico fez a mesma coisa, e o membro dele começou a ficar duro e a crescer, não do mesmo jeito que os membros dos guerreiros em Savalu, mas ele perguntou se eu ou a sinhazinha queríamos segurar nele e ajudar na matança das formigas. Ela parecia que ia aceitar e já estava andando na direção dele quando, pela primeira vez, fiz o que ela não queria. Peguei em seu braço com toda a minha força e saí correndo, e enquanto ouvíamos as gargalhadas dos meninos, ela reclamava que o vestido estava se prendendo nos galhos e ficando todo rasgado. Mesmo assim, não parei até chegarmos à casa, com ela me chamando de preta fedida, dizendo que ia mandar o pai me castigar no tronco e que nunca mais ia
querer saber de mim.
De fato, ficou dois ou três dias sem falar comigo, mas depois se esqueceu da promessa e também dos passarinhos, o que deve ter coincidido com a conversa que a Esméria teve com ela e depois com os meninos.
Eles me contaram que ela jurou que cortaria fora os membros deles, caso se atrevessem a mostrá-los de novo à sinhazinha.
Voltamos às bonecas, mas elas já não tinham mais muita graça, e de vez em quando a sinhazinha me pedia para falar sobre os membros dos homens, como é que eles faziam para ter aquilo, até que tamanho cresciam, se serviam para outras coisas além de fazer xixi.
Eu não contei o que sabia e o que já tinha visto, pois se fosse pega falando daquelas coisas para ela, aí é que poderia mesmo ir para o tronco ou ficar sem a língua, como tinha acontecido com o velho Fulgêncio, preto forro que às vezes chegava até a porta da cozinha querendo alguma coisa para comer. A Antônia contou que o ex-dono dele tinha mandado cortar a sua língua porque falou o que não devia. A sinhazinha era dois anos mais velha do que eu, mas não sabia nada daquilo, que eu também preferia não ter sabido tão cedo, pelo menos, não nas circunstâncias do acontecido.
Fé
Certo dia, a casa amanheceu em polvorosa, pois a sinhá Ana Felipa tinha começado a botar sangue e ainda faltavam mais de quatro meses para a época certa de a criança
nascer.
Foi
chamada
uma
aparadeira
(Aparadeira: parteira) famosa na ilha, e ela disse que não podia fazer muita coisa, que a sinhá tinha que ter fé, muita fé.
As outras vezes, nada tinha adiantado, nem as ervas das
pretas benzedeiras, a quem ela recorreu achando que ninguém sabia, nem os remédios de botica. Nem a fé, pois todas as tentativas eram amparadas com muita reza. A sinhá exigia que houvesse pelo menos uma preta sempre ao lado dela, desfiando o rosário, e que era substituída assim que a voz demonstrasse cansaço.
Já tinha recebido visitas de médicos da capital e até mesmo da corte, que ficava a muitos dias de navio da Bahia, na província do Rio de Janeiro. Mesmo assim, todas as vezes que a sinhá ficava pejada, as crianças não vingavam. Só podiam ser abikus, e eles não iam querer ficar enquanto não fossem tomadas as providências. Mas eu é que não ia voltar a falar nesse assunto, uma vez que a Esméria já tinha me repreendido.
Uma noite, sonhei com a Taiwo, quero dizer, acho que era a Taiwo, vestida com a roupa que a sinhazinha Maria Clara tinha me emprestado, pois tive a mesma sensação de quando nos olhávamos nos olhos por sobre os ombros da minha mãe, em Savalu. Parecia eu, mas era a Taiwo, e estava feliz, olhando nos meus olhos e sorrindo, enrolando a barra do vestido em volta das pernas, de um lado para outro.
Logo na manhã seguinte, enquanto eu ajudava a Esméria a torrar e moer o café, a Nega Florinda apareceu e, sem dizer nada além de um breve cumprimento, foi embora depois de me entregar um embrulho com o pingente que todo ibêji que sobrevive à morte do outro deve usar para conservar a sua alma, e mais uma pequena escultura, também em madeira, representando os dois Ibêjis juntos. Mostrei à Esméria e ela me levou de volta à senzala pequena, de onde quase todos já haviam saído, menos os dois moleques, o Tico e o Hilário, que ainda dormiam de roncar.
Ela me ajudou a cavar um buraco no local onde estava a minha esteira, suficientemente fundo para atingir a base
da parede que entrava para dentro da terra, e deixando um oco, como se fosse uma caverna. Foi assim que descobri como os pretos guardavam os seus santos, escondidos dos olhos dos brancos, e que todas aquelas paredes já deviam estar apoiadas em quase nada. Até a Esméria tinha lá os seus orixás, mesmo já estando acostumada aos santos dos brancos e tendo simpatia por alguns deles, como São Benedito, que era preto como nós, ou Nossa Senhora da Conceição, que se reza como Iemanjá, assim como São Jorge é Xangô e Santo Antônio é Ogum, ou São Cosme e São Damião, que são os Ibêjis.
Depois que colocamos a esteira para esconder a entrada do buraco, ela me pediu para tomar bastante cuidado na hora de tirar meus Ibêjis de lá, para ter certeza de que não havia ninguém olhando. Caso contrário, eu arriscaria não só o meu esconderijo, mas o de todos os pretos, pois poderiam mandar fazer uma busca nas senzalas. O pingente de ibêji, ao contrário do que eu pensava, não representava uma criança, como ainda era a Taiwo quando morreu, mas uma adulta com peitos e racha, que era como ela deveria ficar se tivesse crescido.
Manter a Taiwo viva, esse era o papel do pingente, ou amuleto, que eu trago sempre comigo, pendurado no pescoço. Dias depois, um Xangô foi se juntar aos Ibêjis no esconderijo, também presente da Nega Florinda.
Fatumbi
Quase por milagre, a sinhá Ana Felipa deu sinais de melhora e estava esperançosa de conseguir segurar a criança até o final. Um dia, depois de ler a correspondência enviada da capital, ela chamou a Esméria e o Sebastião e disse que receberíamos visita importante. Eu estava ouvindo atrás da porta quando o Sebastião foi incumbido de preparar a casa para receber o padre Notório com todo o conforto e todo o luxo a que ele estava acostumado.
O padre ficaria alguns dias na fazenda, porque, como ela disse, a casa estava precisando da presença de Deus, que era por isso que as crianças não vingavam. A Esméria deveria cuidar da cozinha, caprichando no preparo das refeições e de bolos, tortas e outros quitutes finos, coisas muito diferentes das que ela fazia pensando que todos na casa eram pretos acostumados a comer de qualquer jeito. A sinhá perguntou se algum dos escravos da casa sabia ler, porque ela tinha um caderno com receitas que queria que a Esméria e a Maria das Graças aprendessem a preparar e servissem durante a estada do padre Notório. A Esméria disse que não, que ninguém sabia ler ou escrever, e a sinhá respondeu que era o que esperava mesmo, que cabeça de preto mal dava para aprender a falar direito, quanto mais para ler e escrever.
E ela, que não podia se levantar da cama, era quem tinha que ver tudo isso, e ia falar com o sinhô José Carlos para saber se entre os pretos da capital havia algum letrado que pudesse ajudar na casa durante aqueles dias. Na manhã seguinte, junto com as compras que ela tinha mandado fazer em São Salvador, chegou um preto do escritório que o sinhô tinha por lá, que a sinhá nos apresentou dizendo que ficaria conosco durante a visita do padre, porque precisava mostrar que a fazenda também tinha escravos de qualidade e não apenas os sem inteligência como nós, e que ele leria as receitas e todas as outras instruções que ela daria por escrito.
E já que ele estava disponível, o Sebastião deveria providenciar um horário, todos os dias, para que a sinhazinha Maria Clara tivesse aulas de ler e escrever, pois a menina estava sendo criada xucra como preta, e alguém tinha que tomar providências.
O preto se chamava Fatumbi; era muito alto, magro e sério, de uma seriedade que fazia com que ninguém se sentisse à vontade para se aproximar dele. No dia
seguinte à sua chegada, começaram as aulas para a sinhazinha Maria Clara aprender pelo menos as letras e os números, nos livros e cadernos que foram buscados às pressas na capital. Compraram também tinta, pena e outros apetrechos para a sinhazinha, e um quadro-negro onde o Fatumbi ia escrevendo o que ela precisava copiar.
As aulas eram dadas na biblioteca, que ficava atrás de uma das portas do imenso corredor, uma que eu nunca tinha visto aberta antes. Fiquei feliz por poder assistir às aulas na qualidade de acompanhante da sinhazinha, e tratei de aproveitar muito bem a oportunidade. Ela nunca estava muito interessada, e o Fatumbi tinha que chamar a atenção dela diversas vezes, como se ele fosse branco e ela fosse preta, motivo que me fez brigar com ele, pois eu achava que ninguém podia falar daquele jeito com a nossa sinhazinha. Mas depois entendi que ele tinha razão, que se ela não quisesse aprender por bem, que fosse por mal. Acho que foi por isso que comecei a admirá-lo, o primeiro preto que vi tratando branco como um igual.
Enquanto a sinhazinha Maria Clara copiava as letras e os números que o Fatumbi desenhava no quadro-negro, eu fazia a mesma coisa com o dedo, usando o chão como caderno. Eu também repetia cada letra que ele falava em voz alta, junto com a sinhazinha, sentindo os sons delas se unirem para formar as palavras. Ele logo percebeu o meu interesse e achei que fosse ficar bravo, mas não; até quase sorriu e passou a olhar mais vezes para mim, como se eu fosse aluna da mesma importância que a sinhazinha. Comecei a aprender mais rapidamente que ela, que muitas vezes errava coisas que eu já sabia.
As três horas de aula todas as tardes passaram a ser para mim as mais felizes do dia, as mais esperadas, e fiquei triste quando chegou o primeiro fim de semana, dias de folga que o professor aproveitou para ir até a capital.
O Fatumbi também estava alojado na senzala pequena, mas não tinha esteira, dormia sobre uma pele de carneiro que guardava escondida dentro de um saco de pano grosso e escuro. Isto fez com que eu me lembrasse dos muçurumins no barracão de Uidá, que também tinham as tais peles, e achei que o jeito do professor era bem parecido com o deles. Ele nunca olhava as mulheres nos olhos, apenas eu e a sinhazinha, e, mesmo assim, só quando estava nos ensinando. Com as outras mulheres nem isso, nem quando o assunto era trabalho; falava só o necessário e quando o Sebastião não estava por perto para servir de leva-e-traz.
Na segunda-feira, esperei ansiosa pela volta do Fatumbi, e quando ele passou por mim, sendo que não havia mais ninguém por perto, cumprimentei-o com um salamaleco.
Primeiro ele se assustou, mas depois respondeu ao meu cumprimento dando uma piscadela. Aquele ficou sendo o nosso segredo; eu sabia que ele era muçurumim, o que nem sempre eles gostavam que os outros soubessem.
Depois da minha descoberta, que eu achava ser só minha e sobre a qual não comentei com ninguém, achei que ele passou a me tratar melhor, dando um jeito de, à noite, deixar que eu estudasse em alguns livros da sinhazinha que ele levava para corrigir, arrumando também papel e pena para que eu pudesse copiar e fazer os exercícios. A Esméria ficava brava, dizia que era perda de tempo e que nem valia a pena eu aprender as letras e os números, porque não teria chance de usar.
Mas ela sempre ia ver o que eu estava fazendo antes que o pouco óleo do lampião acabasse e nós ficássemos no escuro, e perguntava alguma coisa, que número era aquele ou que letra era aquela, repetindo por um bom tempo depois. Eu também repetia; mesmo no escuro, eu ficava desenhando as letras na minha cabeça e tentando juntar umas com as outras, formando as palavras.
Palavras que depois eu passava para o papel, usando a
pena e uma tinta que o Fatumbi ensinou a Esméria a preparar com arroz queimado. Na segunda semana de aulas, chegou o padre tão esperado e tão bendito, porque, se não fosse por ele, a sinhá Ana Felipa não teria se lembrado de que a sinhazinha precisava se instruir, e eu junto com ela. Estava tão entretida com as aulas que nem acompanhei direito toda a movimentação na casa-grande. Eu e a sinhazinha passávamos a maior parte do tempo no quarto, ela fingindo estudar e eu estudando de fato, com os livros que não estavam em uso.
Um dia antes da chegada do padre Notório, pedi ao Fatumbi que escrevesse para eu copiar o Pai-Nosso e a Ave-Maria, que achei muito mais fáceis de rezar depois de ler e entender. Mostrei para a Esméria e ela disse que nunca poderia imaginar que ali, naquele monte de tracinhos que não diziam nada, pelo menos para ela, estavam orações tão bonitas. Eram mesmo orações bonitas, que mais tarde também aprendi em iorubá, eve-fon e, muitos anos depois, em inglês e em francês.
Ao contrário do que eu imaginava, o padre Notório era moço, muito mais jovem que o sinhô José Carlos. E
bonito também, tanto que a Antônia falou que ele até se parecia com os santos. No dia da chegada dele, a sinhá Ana Felipa acordou animada, dizendo que estava se sentindo ótima e que talvez até se levantasse. Depois, ficou com medo de que o sangramento voltasse e mudou de idéia, ficando na cama apesar de ter trocado a camisola por um vestido e feito um toucador completo.
Chamou a Antônia para penteá-la e passou algumas cores no rosto, segundo ela para parecer mais saudável, porque não queria receber com aparência de morta o santo homem que estava chegando para pregar a vida.
Pediu também que chamassem a sinhazinha até o quarto, para ver se ela estava bem cuidada e vestida, e como tinha muito tempo que não a via, achou que estava mudada, que tinha crescido e já era quase uma moça.
Lamentou ter mandado fazer uns modelos de roupa de criança para ela com a modista da capital, que tinha estado na casa no início da semana anterior e de quem estava estreando um dos vestidos encomendados.
Todos nós, os escravos da casa, também ganhamos roupas novas. Fardas, como dizia a sinhá, tão bonitas que até se igualavam às roupas dos brancos. A minha farda era um vestido que se parecia um pouco com as roupas mais simples da sinhazinha, e não mais saia e bata, como eu sempre tinha usado. Para os homens foram encomendadas calças compridas até os pés, e não mais batendo no meio da canela.
A calça era cor de vinho e tinha uma listra branca do lado de fora das pernas, combinando com a cor da camisa. As mulheres ganharam saias longas e rodadas da mesma cor que as calças dos homens e com as mesmas listras brancas na bainha, em toda a volta, e batas brancas para serem usadas por baixo de um avental com peitilho, também branco. A farda do Sebastião, além da calça e da camisa, tinha um paletó cor de vinho que ia até a metade das pernas.
Mesmo com toda aquela roupa que não estávamos acostumados a usar, ninguém reclamou do calor, porque nunca tínhamos nos vestido daquele jeito. As roupas também tinham bolsos, luxo que era novidade para todos, e no peito do avental das mulheres estavam bordadas letras que mais pareciam desenhos, e que eu copiei muitas vezes. Um monograma, como ensinou a sinhá, que eram as letras que começavam o nome dela, A-F-D-A-A-C-G, de Ana Felipa Dusseldorf Albuquerque de Almeida Carvalho Gama. Ana Felipa era o nome de uma rainha do estrangeiro, Dusseldorf era herdado da mãe, Albuquerque, do pai, e Almeida Carvalho Gama, do marido.
A sinhá Ana Felipa disse que devíamos nos alegrar
porque os tempos tinham mudado muito e os monogramas eram bordados nas roupas, e não mais na pele dos escravos. Contou que, ao se casar, além do enxoval, a mãe dela ganhou duas mucamas e três pretos, todos com o monograma gravado no rosto com ferro quente. Disse também que achava um monograma muito mais bonito que as marcas que os pretos da senzala grande tinham no rosto, coisa de animais e não de gente.
Foi só então que reparei que nenhum dos escravos de casa tinha marcas no rosto, e esse era um critério que ela usava ao nos escolher, talvez até pensando em mandar gravar o tal monograma algum dia. Nenhum de nós também tinha marcas de varíola, embora essa doença não soubesse se a pessoa era branca ou preta, atacava de qualquer jeito, qualquer um, de qualquer idade. Era uma doença boa, cheguei a pensar na época, mas não consegui concluir e justificar o pensamento.
Hoje sei que é por causa disso, por ela não fazer distinção e deixar as mesmas marcas em quem quer que seja.
O padre
O padre Notório chegou pela praia, carregado na cadeirinha do sinhô José Carlos. A sinhá Ana Felipa ordenou que todos os escravos da casa estivessem de pé na varanda, esperando para se colocarem sob as ordens dele. Devíamos também pedir a bênção, provando que não éramos mais uns pagãos selvagens, e quando ele nos desse a mão para beijar, não beijar de fato, apenas fingir. Foi o que fizemos, mas, mesmo assim, após cada bênção ele limpava a mão na batina. Quando acabamos, ele disse que estava com calor e pediu água fresca, que o Sebastião serviu equilibrando o copo em uma rica bandeja de prata, para ele e para o moço que o acompanhava, Gabriel, um rapazola que estudava para ser padre. Eu nunca tinha visto um padre de perto, e não
imaginei que eles pudessem ser tão novos e bonitos, ao contrário do padre que eu tinha visto de longe, chegando de barco à Ilha dos Frades, que era velho e gordo, a barriga saliente debaixo da roupa toda preta, inclusive o chapéu.