Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 4 de 12 · parte 3/3

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Um Defeito de Cor

Capítulo dois

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O padre Notório usava batina castanha feita de um tecido leve que brilhava e acompanhava os passos dele, amarrada na cintura por um cordão comprido, também castanho. Em Vez de sapatos, usava sandálias abertas que mostravam pés muito finos, de dedos longos, com a pele clara parecendo tão macia quanto a das mãos. A cabeça estava coberta por um enorme chapéu de palha e, no pescoço, tinha pendurado um grosso cordão de ouro com crucifixo de madeira.

O Gabriel, o estudante de padre, estava vestido como gente comum e era mais jovem ainda, talvez tivesse uns quinze ou dezesseis anos, não muito mais do que isso, e parecia uma moça de tão bonito e delicado. Era magro e bastante alto para a idade, a pele muito branca, os olhos azuis como os da sinhazinha Maria Clara, e também tinha a mesma cor de cabelo, cor de cabelo de milho.

Depois que se refrescaram, o Sebastião foi com eles até o quarto da sinhá Ana Felipa, onde ficaram de conversa o resto da tarde, com a Antônia entrando e saindo a toda hora para ver se precisavam de alguma coisa, mas, na verdade, era por curiosidade mesmo. Não sabíamos que ele estaria acompanhado, e a sinhá tinha mandado ajeitar apenas um quarto.

O padre Notório preferiu que continuasse assim, que apenas fosse colocada mais uma cama, pois queria ter o rapaz sempre por perto, para ajudá-lo a refrear os arroubos da juventude, pois não se devia dar oportunidade para que fosse desperdiçada uma vocação.

Fomos dispensados logo após o jantar, mas o Sebastião e a Antônia dormiram na cozinha da casa-grande junto com a Rita, e depois nos contaram que o sinhô José

Carlos e as visitas ficaram acordados até tarde, na sala, conversando e bebendo vinho.

Na manhã seguinte, o padre Notório convocou todos os escravos da casa e avisou que, a partir daquele dia, rezaríamos pela sinhá e pelo filho dela, que antes de começarmos os trabalhos deveríamos nos reunir na sala e rezar dez Ave-Marias, dez Pai-Nossos e dez Glórias ao Pai, e que ele faria o mesmo com os outros escravos antes de eles irem para seus postos no baleeiro ou na plantação.

Depois dos dois turnos de reza, na casa-grande e na senzala, o padre Notório e o seminarista Gabriel ainda rezavam um terço com a sinhá e a sinhazinha, que, de início, não queria se levantar tão cedo, mas teve que ceder, mesmo de má vontade. Acabado o terço, a sinhá era carregada até a varanda, onde fazia companhia para as visitas, para tomar a fresca e conversar. Eu gostava de ficar por perto e torcia para que a sinhazinha quisesse brincar na varanda também, pois, apesar de não entender muitas das coisas que eles falavam, nem sempre em português, o que eu entendia já fazia valer a pena.

Comentavam sobre livros que tinham lido, falavam de lugares no estrangeiro para onde já tinham viajado, das festas na capital, das coisas que aconteciam na corte. O

sinhô José Carlos às vezes participava dessas conversas sobre a corte, e fiquei sabendo que eles não gostavam do governo estrangeiro, português, queriam que o Brasil fosse governado por um brasileiro, e que em muitos lugares já havia lutas para que isso acontecesse. Depois do almoço, todos se retiravam.

Para a sesta e só a sinhá não se levantava mais, embora estivesse recobrando as forças. Estava muito mais animada com o seu estado, que parecia ir a termo daquela vez. Ela tinha encomendado enxoval em São

Salvador e quase todo dia chegavam peças novas, principalmente roupas e mantas, umas mais lindas que as outras. E também enfeites para o quarto e toalhas, que eram benzidos pelo padre Notório antes de serem guardados na cômoda.

Depois da sesta, as visitas saíam para caminhar pelas redondezas, e às vezes o padre nem vestia roupas de padre. Estavam maravilhados com a região e sempre comentavam sobre as frutas maduras colhidas no pé, os riachos aprazíveis, as praias nas quais não se via vivalma, um paraíso de Deus na terra. Em uma das tardes, enquanto eu e a sinhazinha tínhamos aula com o Fatumbi, o Tico e o Hilário seguiram os dois, e quando voltaram para casa, estranhamente ficaram pela cozinha, rodeando a Esméria, sinal de que queriam contar alguma coisa.

Percebendo isso, a Esméria disse que não queria saber de maledicências, pois se o sinhô José Carlos, a sinhá Ana Felipa ou o capataz Eufrásio ouvissem os meninos fazendo fuxico, iam mandar cortar a língua dos dois para que nunca mais se intrometessem na vida dos outros.

Eles então disseram que nada falariam sobre o que tinham visto os padrecos fazendo, os dois nuzinhos no riacho, e saíram correndo, com a Esméria no encalço deles dizendo que estavam loucos em insinuar uma blasfêmia daquelas e que não ousassem repeti-la para mais ninguém. No dia seguinte, ficamos sabendo que a notícia se espalhara entre os pretos da senzala grande e que, na reza matinal, tinha sido difícil para o capataz controlar o riso deles, sendo que alguns até se recusaram a participar de culto feito por jimbandas. A Esméria me explicou que jimbanda, em língua de preto de Angola, era homem que gostava de homem em vez de gostar de mulher. O padre Notório percebeu o acontecido e naquele dia mesmo comunicou à sinhá Ana Felipa que estava na hora de ir embora, pois tinha compromissos na capital, que treinaria uns pretos para continuarem puxando a reza todas as manhãs e que, depois do resguardo, a própria sinhá poderia se encarregar disso. Desavisada e gostando de ter companhia para conversar, ela pediu que ficasse apenas mais uns dias, pelo menos até a festa de São José, de quem era devota e para quem ia libertar um escravo.

A Antônia comentou que havia quatro anos que a sinhá não organizava tal festa. O último liberto tinha sido o preto Dandão, um dos primeiros escravos Pai do sinhô José Carlos, que o chamava de sinhozinho e já estava tão acostumado a ser escravo que não queria ser liberto.

Achavam que ele tinha morrido de desgosto três dias depois de receber a carta, entendendo a liberdade como um castigo por algo errado que tivesse feito, e não como um presente ou um direito. No ano seguinte, acreditando que o Dandão tinha desfeiteado a bondade dela, a sinhá não quis fazer nada e apenas reuniu os escravos da casa para rezar um terço. Nos outros dois anos ela esteve sempre de cama, porque ficava pejada na mesma época. O padre Notório concordou em ficar por São José santo que ele muito apreciava, e, passando por cima das pequenas insubordinações, começou a ensaiar com os escravos da senzala grande uma música de louvor para ser cantada durante a festa.

O dia de São José era dia de guarda, quando ninguém podia trabalhar, e para o almoço dos escravos teria até carne fresca. Eu não sabia o que os escravos da senzala grande comiam porque eles mesmos preparavam sua comida por lá, mas, com certeza, era diferente da nossa.

Podíamos comer o que sobrava das refeições da família, pois a Esméria sempre exagerava na quantidade. A sinhá quase não aparecia na cozinha e o sinhô não se importava com esse tipo de coisa ou não tinha noção de quanta comida se preparava naquela casa, se para três ou para doze pessoas. A Esméria achava que ele até desconfiava mas não dizia nada, e nisto ele era bom.

Aliás, naquela época ela achava que o nosso dono era boa pessoa, mesmo metido em sem-vergonhices arrumadas pelo capataz Eufrásio ou por outros homens de confiança e deitando-se com as pretas da senzala grande. Mas a maior expectativa da festa, muito mais do que a comida, era a alforria.

Todos queriam saber para quem seria dada, e a sinhá disse que só revelaria no dia da festa, que não adiantava nada bajulá-la porque não se deixaria enganar por preto dissimulado, pois se lembrava muito bem das faltas, dos desserviços e da ingratidão de cada um. Quase sempre a alforria era dada para um dos pretos da casa e todos estavam apostando que daquela vez seria para a Esméria. Ela tinha sido escrava do pai do sinhô José Carlos, chegada de África ainda mocinha, e estava na fazenda havia mais de quarenta anos. Eu ficaria feliz por ela, que já tinha até começado a fazer planos, mas preferia que ficasse, por ser para mim a mãe ou a avó que eu não tinha mais. Perguntei por que nunca tinha se casado e ela me disse que não adiantava muito se casar em uma situação como a nossa, porque, conforme o querer dos sinhôs e das sinhás, o casal vivia junto ou era separado com a venda de um deles, ou dos dois para pessoas diferentes.

O natimorto

Três dias antes da festa, no meio da noite, a Antônia entrou apavorada na senzala pequena, pedindo a ajuda da Esméria e da Maria das Graças porque o filho da sinhá estava nascendo. O Sebastião, que também passava as noites na casa-grande, já tinha saído para buscar a aparadeira na Vila de Itaparica. Eu também quis ir para a casa-grande e a princípio a Esméria não queria deixar, mas depois achou que era melhor, que eu podia fazer companhia à sinhazinha Maria Clara, mantendo-a no quarto. O que não foi nada difícil, pois ela apenas acordou com um dos gritos da sinhá e logo em seguida voltou a dormir, dizendo que não era a

primeira vez que aquilo acontecia. Aproveitei para deixar a porta aberta e observar o movimento.

O sinhô José Carlos estava na sala, andando de um lado para o outro com um copo de bebida nas mãos, acompanhado pelo padre Notório. De vez em quando o padre largava o copo e se ajoelhava diante do oratório, onde quase já não havia mais espaço para os santos, de tanta vela acesa. A casa também estava muito iluminada, com todos os lampiões acesos, inclusive os do lado de fora, onde a movimentação dos pretos da senzala grande também já tinha começado. Alguns iniciavam os trabalhos do dia, outros rezavam e outros, curiosos, queriam apenas saber o que estava acontecendo. No quarto, a sinhá berrava para que salvassem o filho dela, que nem se importava em morrer, desde que o filho sobrevivesse, e não havia quem conseguisse acalmá-la.

O sinhô estava impaciente porque a aparadeira demorava a chegar e, pelo andamento das coisas, não havia tempo de mandar buscar médico na capital.

A todo momento as mulheres entravam no quarto carregando tinas com água quente e panos limpos, e saíam com tudo sujo de sangue. Eu me lembrei dos abikus que comiam as cabeças das mães quando nasciam, e rezei para os meus santos e os da sinhá para que isto não acontecesse com ela. Para mim, era mais do que certo que ela tinha jeito para atrair abikus, mas eu nunca poderia dizer isso a ela, que, além de não acreditar, ainda mandaria me castigar por estar professando bruxarias de pretos.

Quando a aparadeira chegou já era tarde, mas em qualquer momento que ela tivesse chegado seria tarde, porque a criança já estava morta dentro da sinhá ha muitos dias. A aparadeira sabia disso pelo jeito como o inocente estava quando nasceu, e ela já tinha visto casos em que o corpo da mãe demorava a acreditar que o corpo do filho estava morto e que seria desse jeito que o

poria no mundo. O pior era quando isso não acontecia e danava tudo lá dentro, morrendo a mãe e a criança. No caso da sinhá, era um menino que, mesmo Se ainda tivesse vida ao nascer, não teria sobrevivido por estar muito mal formado pelo adiantamento da boa hora.

A aparadeira passou o resto da noite na casa e antes de ir embora explicou às mulheres como cuidar da sinhá, que estava fraca pela perda de sangue e precisaria ter comida

de

resguardo

e

muito

repouso,

sem

aborrecimentos. Disse também que se ela não desse mostras de se recuperar, era para chamar um médico da cidade, porque ela só entendia de nascimentos, o que já não era mais o caso. O sinhô José Carlos, ao saber do acontecido, sumiu na escuridão da noite e não apareceu nem para almoçar no dia seguinte. O Tico me contou que a preta Verenciana, com quem ele costumava se deitar de vez em quando, também tinha sumido da senzala grande depois de ser acordada pelo capataz Eufrásio.

O padre Notório e o seminarista Gabriel ficaram ao pé da cama da sinhá Ana Felipa durante toda a manhã, enquanto ela alternava momentos de profundo desespero com outros em que nem dava por si, quando então eles puxavam o terço e obrigavam as pretas a acompanhá-los. A sinhazinha Maria Clara passou o dia normalmente, como se nada tivesse acontecido, e nem teve curiosidade de saber como a sinhá estava passando.

No fim da tarde eu vi o caixãozinho branco sair. O

anjinho tinha passado o dia todo na sala, rodeado de muitas velas. Vi o cortejo de longe, porque a Esméria mandou que eu me afastasse da casa e levasse a sinhazinha

Maria

Clara,

para

ela

não

ficar

impressionada, serviço para o qual também chamou o Tico e o Hilário, que já tinham sido perdoados pelo acontecido na mata.

Mas não adiantou muita coisa se a intenção era poupar a sinhazinha, porque, como eles tinham visto a criança, ela

estava curiosa para saber como era. No início eles não queriam falar, mas ela os obrigou e acabamos sabendo que a criança não tinha nem pele, nem olhos, nem nada, e que tinha um buraco bem no alto da cabeça, sem cabelo, parecendo mais uma assombração coberta de sangue.

A sinhazinha perguntou se eles já tinham visto assombração e eles disseram que sim, que viam sempre no meio dos matos e não tinham medo. Ela disse que também não tinha medo, e que qualquer dia queria ir com eles para o meio do mato caçar assombração. Eles corrigiram, dizendo que as assombrações não apareciam durante o dia, só à noite, e a sinhazinha disse que então assim seria, que qualquer noite era para baterem na janela que nós iríamos para o mato com eles, para ver se eram mesmo corajosos.

Os meninos diziam que eram corajosos e ela repetia que duvidava. O caixãozinho branco deixava a sala nos braços do Sebastião seguido pelo Notório e pelo seminarista Gabriel, que segurava uma panela de alça comprida improvisada como defumador. Atrás deles iam o capataz Eufrásio com alguns de seus homens e as pretas da casa, menos a Antônia, que ficou fazendo companhia à sinhá.

Elas tinham rosários nas mãos e um pano preto cobrindo as cabeças, e pareciam rezar. Olhando o cortejo, eu me benzi e dei um beijo no meu pingente de ibêji, sentindo grande tristeza ao me lembrar de tanta gente que já tinha visto morrer em tão pouco tempo. Primeiro o Kokumo, depois a minha mãe, a Taiwo e a minha avó, fora todos os outros que não eram da família, todos os que tinham sido atirados ao mar para virar comida de peixe. Fiquei com o estômago embrulhado e vomitei; o Tico disse que eu era fraca, e que estava até vomitando de medo de ir com eles para o mato caçar assombração.

Eu nem respondi, havia um silêncio muito grande dentro

de mim e ao meu redor, onde nem os passarinhos cantavam, nem o vento piava, nem as ondas batiam.

Nada, nada, nada. O pequeno cortejo pegou a praia, na direção da igreja do povoado, e sumiu por trás dos coqueiros. Eu fiquei olhando o nada, com vontade de também fazer nada, mas me levantei e saí caminhando em direção à água, o que ninguém percebeu.

Sentada na areia, fiquei olhando o mar e chorando todas aquelas mortes que pareciam estar dentro de mim, ocupando tanto espaço que não me deixavam sentir mais nada. Os olhos ardiam com as lágrimas salgadas, como se fossem mar também, e senti uma solidão do tamanho dele, do tamanho da viagem da África até o Brasil, do tamanho do sorriso da minha mãe quando estava dançando, do tamanho da força com que a Taiwo segurava a minha mão enquanto observávamos o nózinho de sangue do Kokumo.

Eu ainda não tinha chorado por eles, e só fui parar quando, tarde da noite, a Esméria voltou do povoado e sentiu minha falta, indo procurar em todos os lugares onde sabia que eu gostava de ficar. Ela se sentou ao meu lado e me chamou de sua menina, puxou minha cabeça de encontro ao quente do peito dela e me embalou com cantigas da África. Então cantou até que eu dormisse, como naquele dia em que a minha mãe dormiu para sempre no quente do colo da minha avó, em Savalu. Ou como no dia em que eu e a Taiwo dormimos no barracão, embaladas nos braços de Nana e de Iemanjá.

Despedidas

Durante alguns dias a sinhá se trancou no quarto e proibiu que abrissem as janelas ou entrassem lá com velas ou lampiões acesos. Disse que era daquele jeito que estava se sentindo, com tudo escuro por dentro e por fora, e eu sabia muito bem do que ela estava falando. A festa de São José foi cancelada, mas mesmo

assim os pretos da senzala grande receberam a comida que já tinha sido comprada para eles, e foi mantida a promessa de alforriar um preto por devoção assim que terminasse o período de nojo.

O padre Notório e o seminarista Gabriel foram embora para a capital e a única coisa que alegrava os meus dias eram as aulas do Fatumbi. Mas no dia em que a sinhá saiu do quarto, branca como cera de vela e toda vestida de preto, disse que mandaria a sinhazinha Maria Clara estudar em um colégio de freiras em São Salvador, e que o Fatumbi só daria aulas por mais alguns dias, tempo suficiente para ensinar o que ela deveria saber para não fazer muito feio. Ela também disse que a escolhida para a alforria tinha sido a Antônia, o que me alegrou bastante porque a Esméria continuaria comigo, quase uma compensação pela tristeza de perder a sinhazinha e as aulas do Fatumbi.

Quando soube da notícia, a sinhazinha não reclamou e disse que até ia gostar de morar longe, que nada na capital poderia ser pior do que a presença daquela bruxa. Achei que ela não devia falar aquilo, porque eu tinha começado a entender a dor e a revolta da sinhá Ana Felipa. O sinhô José Carlos às vezes não voltava para dormir, e a Rita disse que em tais noites a sinhá também não dormia, ficava feito fantasma andando pela casa com um rosário nas mãos e chorando.

A Antônia perguntou à sinhá se podia transferir a carta de alforria para a sua filha que morava na senzala grande, que seria um presente maior do que a liberdade para ela própria. Depois de muito reclamar dizendo que a Antônia era uma ingrata, a sinhá concordou. Eu nem sabia que a Antônia tinha uma filha, que diziam ser filha do pai do sinhô José Carlos, muito mais clara que a mãe.

Eu vi quando as duas se despediram na porta da cozinha, abraçadas e chorando, a filha dizendo que ia trabalhar muito e logo teria dinheiro para comprar a

carta da mãe. Foi a primeira vez que ouvi dizer que qualquer um de nós podia trabalhar e ganhar dinheiro para comprar a liberdade, e perguntei à Esméria como aquilo podia acontecer. Ela me desencorajou dizendo que era muito difícil, que na cidade até podia acontecer, porque lá os pretos faziam outras coisas nas horas de folga, aos domingos e nos dias santos, que alguns podiam trabalhar por conta própria e juntar dinheiro.

Mas na roça, e principalmente na ilha, era quase impossível, que eu podia esquecer.

A sinhazinha Maria Clara foi embora alguns dias depois do padre, levando um baú cheio de roupas e alguns brinquedos, dizendo que lá no colégio também teria um quarto só para ela, sem ninguém para vigiá-la. Ela me deixou um embrulho de presente e disse que eu só poderia abri-lo no dia do meu aniversário, e que mesmo sendo preta eu podia considerá-la minha amiga. O

Fatumbi foi embora no mesmo barco que ela e também deu um jeito de esconder alguns livros e papéis para mim, indicando o lugar para que eu fosse buscar mais tarde, no mato.

Quando deixaram a casa junto com o sinhô José Carlos, que acompanhou a filha até o colégio, a sinhá me chamou e disse que daquele momento em diante eu ajudaria a Esméria e a Maria das Graças na cozinha.

Mas tempos depois ela mudaria de idéia e, de certa forma, eu já estava sentindo que isto ia acontecer, desde a noite em que sonhei com a Taiwo e ela estava triste olhando para mim. Ou eu olhando para ela, não sei. Foi logo depois do meu aniversário, quando abri o presente da sinhazinha Maria Clara, aquele vestido com o qual um dia eu tinha me olhado no espelho do quarto dela.

Um dos melhores presentes que ganhei, mesmo sabendo que não teria como usá-lo. Senti muita falta da sinhazinha, das nossas brincadeiras, das tardes que passávamos na varanda trocando as roupas das bonecas

e fazendo penteados. Foi por causa disso que me lembrei da antiga roupa de trabalho, a que eu tinha antes da farda feita para a visita do padre Notório, e resolvi usar o tecido para costurar uma boneca e uma roupinha de boneca, como a minha avó fazia para mim e para a Taiwo.

Eu ficava inventando coisas para fazer, já que o trabalho na cozinha era pouco e a Esméria e a Maria das Graças já viviam discutindo para ver quem ficava com as ocupações. Desde que a sinhazinha tinha ido morar na capital, o sinhô José Carlos passava dias sem aparecer em casa e a sinhá Ana Felipa comia cada vez menos.

Escondida na despensa, com a porta fechada, eu estudava nos livros que o Fatumbi tinha deixado para mim e treinava a escrita, mas já tinha usado todos os papéis.

Ele também tinha me dado um livro com muitas Páginas de letras miúdas, que eu tentava ler, mas não conseguia.

Quero dizer, ler eu conseguia, mas não entendia direito.

As palavras eram complicadas e cansava-me ao fim de poucas linhas, sem que ao menos eu me lembrasse do que estava escrito nas linhas anteriores. Certo dia, cansada de ler e aproveitando que estava na hora da sesta da sinhá, e também porque ela nunca ia aos cômodos dos fundos, eu me sentei à porta da cozinha, peguei a antiga farda e comecei a costurar uma boneca.

Para minha grande surpresa, e justo naquele dia, a sinhá tinha resolvido caminhar um pouco e apareceu no quintal, dando a volta por fora da varanda. Assim que viu o que eu estava fazendo, tomou a boneca das minhas mãos e gritou para a Esméria atear fogo naquilo, dizendo que, daquele dia em diante, não queria mais ver minha cara preta e feia de feiticeira na frente dela, porque não lhe custava nada mandar arrancar os meus olhos, como tinha feito com a vadia da Verenciana.

A Esméria tentou interceder por mim, dizendo que era só uma boneca e que eu era só uma criança, mas a sinhá deu um tapa no rosto dela e disse que, se abrisse a boca para dizer mais uma só palavra, iria para o tronco como os bichos da senzala grande, onde, aliás, era o lugar do bicho que eu era, igualzinha a eles. E que eu deveria agradecer por ela não mandar acender uma fogueira usando meu corpo como carvão, para atiçar o fogo.

Disse ainda que a bruxa branca ela já tinha mandado embora, que faria de tudo para que a sinhazinha Maria Clara nunca mais voltasse à fazenda, porque quando a menina botava os olhos em cima dela, sentia o ventre secar. Restava então se livrar de mim, que tinha ficado incumbida de terminar o trabalho da outra, que era não deixar que ela tivesse filhos. Continuou dizendo que sabia muito bem o que eu estava fazendo, que já tinha ouvido falar naquilo, que aquela boneca era ela, a sinhá Ana Felipa, e que eu só ia esperar ela pegar filho de novo para enfeitiçar a boneca e arrancar coisas de dentro dela, como se estivesse enfiando a minha mão dentro do ventre da própria sinhá e puxando o filho para fora.

Eu me lembrei imediatamente das bonequinhas da minha avó e de que nunca eram usadas para fazer o mal.

A minha avó até poderia ter feito uma bonequinha para que a sinhá conseguisse segurar os filhos, como sempre quis. Achei tudo aquilo que ela estava falando muito errado, injusto, pois eu não conhecia nada de magia e nem queria fazer mal a ninguém. Mas quando ia dizer isso, a Esméria não deixou e mandou que eu fosse embora, que sumisse dali. Saí correndo para o meio do mato e ainda pude ouvir os gritos da sinhá me acompanhando, enquanto a Antônia e a Esméria tentavam acalmá-la. O Tico e o Hilário correram atrás de mim perguntando o que tinha acontecido, mas gritei que me deixassem em paz, que eu queria ficar sozinha e não falaria nada.

Se quisessem saber, que fossem perguntar à sinhá.

Quando achei que já estava longe o bastante, fiquei sentada sob uma árvore pensando nas coisas que tinham acontecido naquela casa nas últimas semanas, achando que seria bom mesmo ficar longe de lá, como tinha dito a sinhazinha Maria Clara.

Desde que tinha perdido o filho, a sinhá Ana Felipa nunca mais fora a mesma, nem tirou o luto, mesmo depois do período de nojo recomendado. Ela passava os dias andando pela casa com um rosário na mão, brigando e castigando por nada, fazendo com que interrompêssemos o trabalho para rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Se algum de nós errasse, ela aplicava um corretivo com um pedaço de tábua que passou a carregar sempre no bolso, cinco pancadas em cada mão.

Quase não comia, e mesmo quando se sentava sozinha à mesa, mandava colocar o prato do sinhô José Carlos, que aparecia cada vez menos. Quando aparecia, eles nem se falavam. Isso foi assim até o dia em que a sinhá ficou sabendo pelo capataz Eufrásio que a preta Verenciana estava pejada e diziam na senzala grande que o sinhô José Carlos estava se deitando com ela. A sinhá perguntou pelo sinhô e o Eufrásio disse que ele estava na capital e só voltaria no dia seguinte. Ela então mandou que buscassem imediatamente a preta Verenciana onde quer que ela estivesse, além de mais dois ou três homens fortes, obedientes e de confiança.

Verenciana A sinhá se ajoelhou diante do oratório e rezou até que os homens aparecessem carregando a Verenciana presa pelos braços, quando então saiu para o quintal e parou na frente deles, olhando a preta de cima a baixo, sorrindo e perguntando se ela estava com medo, e por que não sentia o mesmo medo ao se deitar com o sinhô.

A sinhá andava em volta dela, sempre insultando, e não

se importava que nós estivéssemos por perto, olhando. O

Tico e o Hilário tinham acompanhado todos os procedimentos do Eufrásio e foram nos chamar na cozinha, dizendo que a preta Verenciana, pejada do sinhô, estava no quintal, esperando para falar com a sinhá Ana Felipa.

Quando viu a cena, a Esméria se pegou com os santos dela e me mandou para dentro da casa. Antes eu tivesse obedecido, pois teria sido poupada de ver aquilo. A Verenciana estava de pé, altiva, presa pelos braços, não falava nada, mas também não desviava os olhos dos olhos da sinhá. Ela era linda, alta, um corpo que parecia ser cheio de curvas mesmo sob a roupa larga. Tinha pele lisa e castanha, os cabelos escuros e longos, pelo menos era o que mostravam os cachos que escapavam por baixo do lenço amarrado na cabeça. Muito mais jovem e bonita que a sinhá, e já dava para perceber que estava mesmo pejada, a barriga saliente sob a bata.

A sinhá então se abaixou, meteu as mãos sob a própria saia, levantou-a até a altura do joelho e pegou uma faca que estava amarrada à bota. Uma faca pequena, mas a lâmina brilhava de tão afiada. A Esméria tentou falar com ela, implorando que largasse aquilo, por Deus por São José, por todos os santos de devoção, que mandasse castigar a preta e pronto, mas que não sujasse as próprias mãos. O Eufrásio parecia preocupado e com medo do que estava para acontecer, e também tentou falar com a sinhá, que novamente nem deu ouvidos.

Parecia que no mundo dela, naquele momento, existia só ela, a barriga da Verenciana e a Verenciana, que não demonstrava medo, impassível, aumentando ainda mais a raiva da sinhá, que não parava de gritar palavrões que provavelmente nem o Tico e o Hilário sabiam o que significavam.

Ninguém tinha coragem de se aproximar, pois, sem tirar os olhos da Verenciana, a sinhá apontava a faca para

qualquer um que se mexesse, dizendo que o assunto era entre as duas, que não era para nos intrometermos, pois ali quem mandava era ela. Começou a passar a faca na barriga da Verenciana, dizendo que era muito triste para uma mulher não ver o filho entre os braços, e que Verenciana ia sentir isto na pele.

Quando percebeu que o filho estava ameaçado, a Verenciana se transformou e, apavorada, começou a pedir clemência, pedir que a sinhá não matasse o filho ainda dentro da barriga dela, que o inocente não tinha culpa, que, se a sinhá deixasse, ela sumiria dali naquele instante mesmo e nunca mais voltaria para perturbar a vida de ninguém, e muito menos para se deitar com o sinhô José Carlos.

A sinhá disse que sabia que a criança não tinha culpa e que apenas comentara que a mãe nunca veria o filho, e era isso que ia acontecer. Mandou que os homens segurassem a Verenciana com toda a força, arrancou o lenço da cabeça dela, agarrou firme nos cabelos e enfiou a faca perto de um dos olhos. Enquanto o sangue espirrava longe, a sinhá dizia que olhos daquela cor, esverdeados, não combinavam com preto, e fazia a faca rasgar a carne até contornar por completo o olho, quando então enfiou os dedos por dentro do corte, agarrou a bola que formava o olho e puxou, deixando um buraco no lugar.

A Verenciana, que primeiro tinha urrado de dor, desmaiou nos braços dos que a seguravam, e a sinhá deu ordem para que eles não a soltassem, mantivessem em pé. Examinou o olho arrancado, limpou o sangue no vestido e disse que era bonito, mas que só funcionava se tivesse um par. Fez a coisa com o outro olho, guardando os dois no bolso, quando então disse aos homens que podiam levá-la e que não a deixassem morrer de jeito nenhum, porque ela tinha que saber o que significava sentir um filho crescendo dentro da barriga e depois não

poder vê-lo, e também porque queria saber se o senhor seu marido ainda ia querer se deitar com uma preta sem olhos. Terminou ordenando que nenhuma palavra fosse dita ao sinhô José Carlos sobre aquilo, que ela mesma se encarregaria de contar. Então, como se nada tivesse acontecido, como se tivesse acabado de dar a mais simples das ordens, entrou em casa e se trancou no quarto.

Acordando orixás

O Eufrásio se desesperou e, não sabendo direito o que fazer, ficou debruçado sobre a Verenciana, que tinha sido colocada no chão, tentando conter o sangue que escorria dos dois buracos deixados no rosto da moça. A Esméria gritou com ele e mandou que a levassem para a senzala pequena, e que o Tico e o Hilário corressem para a senzala grande ou para a roça.

Eles deviam chamar o Valério Moçambique e a Rosa Mina, explicando o que tinha acontecido e pedindo que providenciassem com urgência tudo o que fosse preciso para salvar a vida da Verenciana. E que falassem também com o Pai Osório, pois toda ajuda seria necessária. Os dois ajudantes do Eufrásio carregaram a desfalecida para a senzala pequena enquanto ele ia ao lado, chorando feito criança e pedindo perdão, pois a culpa tinha sido dele.

Tinha sido por amor que ele contara a sinhá que a Verenciana estava pejada do sinhô, só por amor, e que o amor tinha se transformado em ódio porque ela não aceitara se deitar com ele e tinha se deitado com o sinhô, que logo a trocaria por outra. Ele disse que só tinha contado, para que a sinhá passasse uma descompostura nela, como já tinha feito com tantas outras pretas, e que ela, com medo, parasse de deitar com o sinhô, ficando mais fácil para ele, Eufrásio, conquistar a moça. Dizia também que se dispunha a aceitá-la mesmo pejada, e que estava até guardando dinheiro para libertá-la e os dois viverem juntos, mas que nunca poderia imaginar aquela tragédia.

Como falava sem parar, a Esméria mandou que ele se calasse e fosse até a casa ver o que estava acontecendo, que mandasse a Antônia ferver muita água e não voltasse mais na senzala. Se quisesse ser útil, era para arrumar óleo suficiente para manter o lampião aceso durante a noite toda, pois precisariam de claridade. Eu não sabia o que fazer, então tirei meus orixás do esconderijo e comecei a rezar para que eles também ajudassem a Verenciana.

Foi o Valério Moçambique quem chegou primeiro. Era um preto velho, muito magro, de olhos enormes e saltados, o que dava a ele uma aparência sempre assustada, mesmo não estando. Era benzedor e carregava muitas sementes nas mãos magras e de unhas compridas e sujas. Algumas daquelas sementes eu já tinha visto em África, mas não me lembrava dos nomes, como também as outras que formavam os vários colares que ele tinha no pescoço, entremeadas com contas e búzios.

Ele chegou perto da Verenciana e começou a esfregar uma mão na outra, como se estivesse aquecendo as sementes entre elas, enquanto rezava e cantava em iorubá. A Verenciana, até então quieta como se estivesse morta, tentou levantar os braços, que estavam estendidos ao lado do corpo, querendo levar as mãos aos olhos, no que foi impedida. O Valério Moçambique então olhou para a Esméria e fez um sinal de que aquilo era bom, que ela ter reagido era um recado dos orixás.

Eu não tinha coragem de olhar para o rosto da Verenciana, então me sentei bem atrás da Esméria e achei que era melhor apenas rezar. De onde eu estava ainda dava para ver a quantidade de sangue perdido nos

inúmeros panos tingidos de vermelho. Os panos eram colocados sobre os olhos dela e trocados de tempos em tempos, muito menos amiúde depois que a Rosa Mina apareceu com uma infusão de ervas para colocar sobre as feridas. Também reconheci o cheiro de algumas delas, vendidas nos mercados em África, mas não sabia dizer quais eram. A Rosa Mina olhou para mim e viu o meu Xangô com a espada de duas pontas, saudou-o com três kaôs e se sentou ao meu lado, olhando para o santo e conversando com ele, enquanto o alisava com as mãos molhadas na infusão. O Valério Moçambique não tinha parado um só minuto, rezando, cantando e esfregando as mãos nas sementes para depois passá-las por todo o corpo da Verenciana. O Pai Osório apareceu mais tarde, todo vestido de branco e também cheio de colares, pulseiras e anéis feitos de contas, búzios, sementes e cascas de coco.

Disse que não podia fazer muita coisa, porque precisava de tambores e ali não era o lugar apropriado para tocá-los, mas tinha jogado os búzios e eles confirmaram que a Verenciana era de Ogum, para quem precisavam fazer uma oferenda. Ogum é guerreiro e com certeza ia socorrer sua filha, ajudando na luta contra a morte. A Esméria então mandou chamar o Eufrásio e disse que o Pai Osório precisava de uma garrafa de aguardente e de um charuto para Exu, mensageiro, aquele que deve ser saudado primeiro, e de uma vasilha de barro e de todos os tipos de frutas que pudesse arrumar, e também de mel. Tudo para Ogum, aquele que tudo vence. O

Eufrásio nem perguntou onde ia arranjar tais coisas àquela hora, voltando com tudo pouco tempo depois, quando o Pai Osório disse que também ia precisar de sete velas brancas e, se possível, de uma galinha e de milho para Omolu, aquele que dá e que tira as doenças.

O capataz foi até a casa-grande e o Pai Osório saiu com ele, pois de lá seguiria para a mata, a casa de Ogum, com muita fé e todas as oferendas.

Algum tempo depois da partida deles, a Verenciana finalmente deu sinal de estar fora de perigo e começou a chorar baixinho, calma, sem reclamar de nada, enquanto a Esméria derramava as lágrimas por ela. Ficou mais uns cinco dias na senzala pequena com as pretas da casa-grande se revezando para cuidar dela, e ali também recebeu algumas visitas da mãe, escrava da senzala grande. Durante todo o tempo, o Valério Moçambique e a Rosa Mina também apareceram, e nessas ocasiões eu procurava estar por perto, porque eles sempre tinham palavras bonitas de conforto e de fé que diziam para a Verenciana, mas que serviam para todos nós, em qualquer situação.

Voltando ao dia em que tudo tinha começado, a sinhá Ana Felipa entrou na casa com os olhos da outra dentro do bolso, trancou-se no quarto e só saiu de lá no dia seguinte, muito mais tarde que de costume. Já estávamos preocupados e curiosos com aquela demora, achando que ela pudesse ter se matado ou algo assim.

Mas ninguém se atreveu a entrar no quarto sem ser chamado, e foi com espanto que vimos quando ela abriu a porta e apareceu sem o luto, vestida de amarelo e estranhamente educada e feliz. Inclusive, coisa que nunca a havia feito antes, desejou bom dia ao Sebastião quando ele foi servir o desjejum.

Perguntou se o sinhô já tinha chegado da capital e o Sebastião respondeu que tinha acabado de ver o barco dele pertinho da praia. A sinhá então disse que ia esperar Por ele, que o Sebastião mandasse alguém correndo até a praia para avisá-lo e que nenhuma outra palavra fosse dita além do aviso. Chamou a Antônia e mandou que ela continuasse pondo a mesa do desjejum com tudo de bom que houvesse na casa, e que também apanhasse flores, pois queria jarros com flores sobre a mesa, flores frescas.

Quando o sinhô José Carlos entrou na casa e perguntou

se tinha acontecido alguma coisa, ela respondeu que não, que apenas estava com saudades do marido e queria tomar o desjejum com ele. O sinhô disse que já tinha comido na capital, mas que, se ela fazia questão, comeria de novo. O Sebastião serviu os dois e ela perguntou se o marido queria geléia do reino para acompanhar os pães. Quando ele respondeu que sim, ela entregou o pote ainda fechado, que ele abriu, remexeu com a colher e tirou de lá, junto com a geléia vermelha, um dos olhos da Verenciana. Quando o sinhô deu um grito e um salto da cadeira, a sinhá, como se nada de mais estivesse acontecendo, disse que se ele não gostava daquele sabor podia mandar trocar, mas que era para olhar bem, pois aquela geléia era especial, das preferidas dele.