10% Humano
7 Desde o primeiro minuto
SETE
Desde o primeiro minuto
Aos seis meses, um filhote de coala começa a espiar para fora da bolsa
abdominal da mãe. Está na hora de começar a fazer a transição da alimentação,
passando da ingestão exclusiva de leite para sua dieta adulta de folhas de
eucalipto. Para a maioria dos herbívoros, essa não seria a mais apetitosa das
dietas. As folhas são duras, tóxicas e quase destituídas de nutrientes. O genoma
dos mamíferos nem sequer está equipado com os genes necessários para
produzir as enzimas capazes de extrair algo de nutritivo do eucalipto. Mas os
coalas conseguiram contornar esse problema. Como vacas, ovelhas e muitos
outros, os coalas utilizam seus micróbios para extrair, do material vegetal fibroso,
o grosso da energia e dos nutrientes de que precisam.
O problema é que os filhotes não dispõem dos micro-organismos necessários
para digerir as folhas de eucalipto. Cabe às suas mães semear uma comunidade
microbiana no intestino deles. Quando chega a hora certa, a mamãe coala
produz uma substância mole que escorre, chamada “papa” – uma pasta parecida
com fezes, constituída de eucalipto pré-digerido e um inóculo de bactérias do
intestino. Ela oferece essa papa aos filhotes, proporcionando a eles não só o início
de uma microbiota, mas também alimento suficiente para a colônia começar.
Uma vez que esta tenha se estabelecido, o filhote já passa a dispor de sua própria
força de trabalho minúscula que transforma suas habilidades digestivas e torna o
eucalipto comestível.
Receber a microbiota da mãe é algo comum, mesmo entre os não mamíferos.
As mamães baratas mantêm a microbiota em células especializadas chamadas
bacteriócitos, que expelem seu conteúdo microbiano ao lado de um ovo em
desenvolvimento dentro do corpo dela. O ovo então engloba as bactérias antes de
ser posto. Mamães percevejos, por sua vez, adotam uma abordagem mais
semelhante à do coala, untando a superfície de seus ovos com fezes cheias de bactérias ao depositá-los. Depois que os ovos são chocados, as ninfas
imediatamente consomem essas fezes. Aves, peixes, répteis e outros animais
também são conhecidos por transmitirem sua microbiota à prole, seja dentro do
ovo ou quando o filhote nasce.
Quaisquer que sejam as inclinações dos pais, suprir a prole de um bom
conjunto de micróbios que lhe sirva de auxílio em seu percurso parece um ritual
quase universal. O fato de ser algo tão comum diz muito sobre os benefícios
evolutivos de passar a vida em companhia de micro-organismos. Se untar ovos e
engolir bactérias são a norma, esses comportamentos se desenvolveram para
serem assim e, de alguma forma, devem oferecer vantagens em termos de
sobrevivência e reprodução para os indivíduos que os possuem. E quanto a nós,
humanos? Está claro que nossa microbiota é benéfica, mas como asseguramos
que nossos bebês recebam as sementes de sua própria colônia?
Nas primeiras horas de vida, um bebê passa de predominantemente humano
para microbiano – ao menos com relação ao número de células. Submerso em
seu saco morno de líquido amniótico dentro do útero, o bebê está protegido dos
micróbios do exterior, inclusive os de sua mãe. Mas quando a bolsa se rompe, a
colonização começa. A jornada do bebê para nascer é como um corredor polonês
de micro-organismos. Na verdade, “corredor polonês” dá a impressão errada,
porque os seres microscópicos que o bebê encontra não são inimigos, mas
amigos. Trata-se de um rito de passagem microbiano, revestindo o bebê – antes
quase estéril – de micróbios vaginais.
Ao emergir à luz, o bebê recebe outra dose de micróbios. Por mais
repugnante que pareça, ingerir fezes no início da vida não é exclusividade dos
coalas. Durante o trabalho de parto e o nascimento, os hormônios responsáveis
por induzir as contrações e a pressão do bebê descendo faz a maioria das
mulheres defecar. Os bebês tendem a nascer com a cabeça primeiro, voltada para
o bumbum da mãe, parando por um momento com cabeça e boca em posição
estratégica, enquanto aguardam a próxima contração para ajudá-los a sair. Ainda
que isso cause nojo, trata-se de um começo auspicioso. Após o nascimento, a
nova camada de micróbios fecais e vaginais que a mãe forneceu ao recém-
nascido lhe proporciona uma proteção simples e segura.
Também é provável que esse seja um comportamento “adaptativo”. Ou seja,
o fato de o ânus estar tão próximo da vagina não deve ser por acaso, nem que os
hormônios que provocam contrações no útero tenham um efeito laxante. A
seleção natural pode muito bem ter feito assim por beneficiar o bebê – ou ao
menos não causar mais mal do que bem. Receber o presente dos micro-organismos e seus genes, que vêm atuando em harmonia com o genoma de sua
mãe, é um bom ponto de partida.
Se comparados com aqueles encontrados em amostras retiradas da vagina,
das fezes e da pele da mãe e do pai, os micróbios presentes no intestino de um
recém-nascido mais se assemelham aos da vagina da mãe. Espécies pertencentes
aos gêneros Lactobacillus e Prevotella são as mais comuns. Esses micróbios
vaginais são um grupo bem seleto – bem menos diversificados do que aqueles no
intestino da mãe –, mas parecem ter um papel especializado no trato digestivo
em desenvolvimento do bebê. Acredita-se que, onde existem Lactobacillus, não
há patógenos. Nenhum C. diff, nada de Pseudomonas nem Streptococcus. Essas
bactérias nocivas não conseguem se estabelecer porque são expulsas. Conhecidos
como bactérias do ácido láctico, os lactobacilos criam esse composto – que
confere o sabor azedo ao iogurte e cria um ambiente hostil para outras bactérias.
Além disso, essas espécies também produzem antibióticos próprios – as
bacteriocinas – para eliminar patógenos que estejam competindo com elas pelo
espaço nobre no intestino vazio do recém-nascido.
Mas por que os micróbios encontrados no intestino dos bebês se assemelham
mais aos do canal vaginal do que aos do intestino de sua mãe? Se eles estão no
intestino para ajudar na digestão, não seriam os mais adequados? Os médicos, e
muitas mulheres, sabem muito bem que os lactobacilos prosperam na vagina –
há muito tempo se sabe que um pouco de iogurte pode ser usado como remédio
caseiro para tratar um surto de candidíase. Supõe-se normalmente que essas
bactérias do ácido láctico estejam lá para proteger a vagina de infecções, mas
embora façam isso bem, este não é seu propósito principal.
As bactérias da vagina se alimentam de leite. Elas extraem o açúcar
encontrado no leite – a lactose –, convertendo-o em ácido láctico para gerar
energia. Os bebês também se alimentam de leite, convertendo a lactose em duas
moléculas mais simples – glicose e galactose –, que são absorvidas pelo intestino
delgado e depois convertidas em energia para o bebê. Qualquer lactose que
consiga atravessar o intestino delgado sem ter sido digerida não é desperdiçada,
indo direto para as bactérias do ácido láctico presentes no intestino grosso. Os
lactobacilos que um bebê adquire ao passar pelo canal vaginal não estão lá para
proteger a vagina da mãe, mas para colonizar o bebê. Talvez pareça exagerado ter
uma vagina permanentemente colonizada por bactérias do ácido láctico, mas a
função principal desse órgão é dar à luz – e com muito mais frequência do que
ocorre hoje no mundo desenvolvido. A vagina é o portão de entrada do bebê e
evoluiu de forma a fornecer o melhor ponto de partida na corrida da vida.
Embora as bactérias do ácido láctico sejam boas para os bebês nos primeiros
dias da vida, mais à frente eles vão precisar de uma flora intestinal que faça mais
do que decompor leite – ou seja, de alguns micróbios do intestino da mãe. Além
da saudação fecal no nascimento, eles também adquirem algumas bactérias da
flora intestinal encontradas na microbiota vaginal da mãe. A comunidade
bacteriana que vive na vagina de mulheres grávidas é diferente. Entre as espécies,
passam a ser encontradas algumas que normalmente estariam no intestino.
Tomemos o Lactobacillus johnsonii, que costuma ser encontrado no intestino
delgado, onde produz enzimas para decompor a bile. Durante a gravidez, porém,
sua população na vagina dispara. É uma bactéria agressiva, produzindo grandes
quantidades de bacteriocinas capazes de matar patógenos ameaçadores, o que lhe
garante mais espaço no intestino do bebê.
Durante a gravidez, a microbiota vaginal muda, perdendo a diversidade. É
como se estivesse reduzindo a comunidade, preparando-se para semear o bebê
com seus primeiros micróbios mais essenciais. Quando um bebê é colonizado,
sua flora intestinal é relativamente diversificada – incluindo algumas das
bactérias fecais (do intestino) da mamãe e vaginais. Mas essa coleção inicial
também se reduz depressa, passando a se limitar apenas às bactérias capazes de
ajudar na digestão do leite. Acredito que as espécies fecais que o bebê obtém da
mãe sejam rapidamente escondidas no refúgio do apêndice, prontas para serem
usadas depois.
A colônia inicial que fixa residência no intestino do bebê forma um ponto de
partida crucial para a microbiota que vai se desenvolver nos meses seguintes,
possivelmente fixando sua trajetória por diversos anos. Em nosso mundo
macroscópico, um trecho exposto de rocha acumulará liquens, depois musgo, até
que o movimento desses pioneiros resulte em solo suficiente para sustentar
plantas pequenas e, no futuro, arbustos e árvores. Um trecho de solo exposto
poderá um dia se tornar um bosque de carvalhos na Grã-Bretanha, uma floresta
de bordos nos Estados Unidos ou uma floresta tropical na Malásia. O mesmo
vale para o “terreno exposto” do intestino – a microbiota começa com uma
seleção simples de bactérias do ácido láctico e depois vai se tornando cada vez
mais complexa e diversificada. Trata-se de uma sucessão ecológica: cada estágio
proporciona o habitat e os nutrientes necessários ao próximo.
A sucessão em escala microscópica ocorre no intestino do bebê e em sua pele
também. Os colonizadores iniciais – os pioneiros – influenciam quais espécies
vão se instalar ali a seguir. Assim como uma floresta de carvalhos fornece nozes e
uma floresta tropical fornece frutas, a microbiota produz diferentes recursos para o bebê em desenvolvimento. Ela desempenha um papel importante no
refinamento do metabolismo do bebê e na educação de seu sistema imunológico.
Células imunológicas, tecidos e vasos sanguíneos crescem e se desenvolvem sob
as instruções de uma microbiota “interesseira”, mas benevolente. Graças a uma
dose saudável de micróbios vaginais, a parceria microbiana do bebê já começa
bem.
Até aí tudo perfeito. Não fosse o fato de que, hoje em dia, milhões de bebês
nascem sem nem chegar perto da vagina da mãe. Em alguns lugares, dar à luz
por cesariana é mais comum que os partos normais. Quase metade das mulheres
no Brasil e na China se submetem a uma cirurgia cesariana em vez de darem à
luz. Levando em conta o número de mulheres vivendo na área rural desses países
– sem acesso a um hospital –, a taxa média de cesarianas na área urbana tende a
ser ainda maior. De fato, em certos hospitais no Rio de Janeiro, a taxa de
cesarianas excede 95% dos nascimentos. O caso chocante de Adelir Carmen
Lemos de Goés, em 2014, dá uma ideia de como a preferência por cesarianas está
arraigada na sociedade brasileira. Tendo passado por duas cesarianas, Adelir
queria dar à luz por parto normal, e deixou o hospital quando lhe informaram
que isso não seria possível. Quando voltava para casa para ter seu bebê, foi
apanhada por policiais militares, levada de volta ao hospital e forçada a se
submeter a uma cesariana. Parece que os partos normais são considerados
prolongados e imprevisíveis demais para muitos hospitais brasileiros.
Mesmo em países onde a escolha da mulher é respeitada, cesarianas são
surpreendentemente comuns. Muitas pessoas são informadas de que, depois da
primeira cesariana, terão que fazer sempre cesariana, porque a cicatriz no útero
poderia se romper sob a pressão das contrações, mas isso não é verdade. Hoje
acredita-se não haver risco extra significativo em dar à luz por parto normal após
até quatro cesarianas anteriores. Em alguns hospitais nos Estados Unidos, até
70% dos nascimentos são por cesariana. A média no país fica em substanciais
32%. É típico que haja entre um quarto e um terço dos nascimentos por
cesariana nos países desenvolvidos, e muitos países em desenvolvimento não
ficam atrás. Na verdade, alguns estão até à frente: República Dominicana, Irã,
Argentina, México e Cuba estão na faixa dos 30% e 40%.
Desnecessário dizer que nem sempre foi assim. Cesarianas são usadas com
parcimônia há séculos, geralmente para salvar um bebê de ficar aprisionado
dentro de uma mãe agonizante. O último século, porém, com o avanço da
anestesia e o aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas, trouxe a oportunidade de salvar não apenas o bebê, mas a mãe também. Se antes um bebê podia morrer
por falta de oxigênio num parto difícil ou uma mãe podia sofrer hemorragia, as
cesarianas proporcionaram uma alternativa mais segura. A partir do final da
década de 1940, tornaram-se cada vez mais comuns à medida que os antibióticos
atenuavam o risco à mãe. A década de 1970 testemunhou um grande
crescimento, que continua com força total desde então. As cesarianas são agora a
cirurgia abdominal mais comum do mundo.
Grande parte da imprensa popular, alimentando as polêmicas, pode levar
você a acreditar que esse aumento se deva à opção comodista pela alternativa
rápida, conveniente e indolor – em vez de horas de trabalho de parto –, além da
preservação da vagina. Embora as taxas de cesarianas eletivas pré-trabalho de
parto venham crescendo, a maior parte do aumento deve-se na verdade às
cesarianas extras realizadas durante o trabalho de parto, seguindo
recomendações de parteiras e obstetras. Mesmo nos serviços de saúde públicos,
como o National Health Service do Reino Unido, os médicos passaram a recorrer
mais depressa às cesarianas quando as coisas ficam difíceis. Estamos falando de
trabalhos de parto que não avançam com rapidez suficiente, bebês grandes que
poderiam ficar presos ou partos pélvicos, em que o bebê está numa posição ruim
e não pode ser virado.
Para muitas mulheres, a recomendação médica de uma cesariana durante o
trabalho de parto vem na forma de um alívio cheio de culpa, oferecendo a
oportunidade de escapar da dor, da exaustão e do medo de um parto normal. A
própria existência de uma alternativa prontamente disponível ao parto natural
contribui para que as mulheres achem que forçar a saída do bebê é difícil ou
arriscado demais. Mas a realidade é diferente. Na média, os riscos envolvidos em
uma cesariana planejada excedem os riscos de um parto normal. Na França, por
exemplo, cerca de quatro mulheres saudáveis morrem em cada 100 mil após o
parto normal, mas cerca de treze morrem após uma cesariana. Mesmo em
circunstâncias não fatais, as cesarianas são mais perigosas que os partos normais:
infecções, hemorragia e problemas com anestesia – em suma, todos os riscos de
uma cirurgia abdominal estão presentes.
As cesarianas são uma alternativa crucial ao parto normal em circunstâncias
necessárias – algumas mulheres não têm opção senão dar à luz dessa maneira. A
Organização Mundial da Saúde estima que a taxa ideal de cesarianas deveria
estar entre 10% e 15% de todos os nascimentos. É neste ponto que as mulheres e
seus bebês estão protegidos dos riscos do parto, mas sem riscos desnecessários da
cirurgia. No entanto, para os médicos, é um desafio decidir quais mulheres devem passar pela cesariana. Para mulheres que optam por uma cesariana
eletiva, os riscos não costumam ser plenamente explicados ou sequer
mencionados pelos profissionais de saúde.
Nas circunstâncias atuais, os maiores riscos da cesariana para o bebê tendem
a estar ligados aos primeiros dias e semanas de vida. Eis o que o Serviço Nacional
de Saúde do Reino Unido tem a dizer sobre o assunto:
Às vezes a pele do bebê pode ser cortada ao se abrir o ventre. Isso
acontece em dois entre cada cem bebês nascidos por cesariana, mas
geralmente é curado sem qualquer dano adicional. O problema mais
comum afetando bebês nascidos por cesariana são dificuldades na
respiração, embora isso costume ser um problema para bebês
prematuros. Para bebês nascidos de cesárea com 39 semanas ou mais,
esse risco respiratório se reduz significativamente a um nível semelhante
ao associado ao parto normal. Logo após o nascimento, e nos primeiros
dias de vida, seu bebê pode respirar rápido demais, mas a maioria dos
recém-nascidos recupera-se completamente após dois ou três dias.
Raras são as menções aos impactos de longo prazo do nascimento por
cesariana no bebê em desenvolvimento. O que antes era considerado uma
alternativa inofensiva ao parto normal vem tendo seus riscos à saúde – tanto da
mãe quanto do bebê – cada vez mais reconhecidos. Nos primeiros dias, por
exemplo, os bebês nascidos por cesariana são mais suscetíveis às infecções. Até
80% dos casos de infecções por SARM em recém-nascidos ocorrem nos nascidos
por cesariana, que também têm uma tendência maior a desenvolver alergias. Os
bebês de mães alérgicas – que são provavelmente predispostos à alergia – têm
uma chance sete vezes maior de também desenvolver alergia se tiverem nascido
por cesariana.
Os bebês de cesariana também têm uma chance maior de serem
diagnosticados como autistas. Pesquisadores do Centro para Controle de
Doenças (CDC) dos Estados Unidos estimam que oito em cada cem crianças
atualmente autistas estariam protegidas de desenvolver a doença caso ninguém
nascesse de cesárea. Da mesma forma, pessoas com transtorno obsessivo-
compulsivo têm o dobro de chances de terem nascido por cesariana. Algumas
doenças autoimunes também foram associadas à cesariana, como a diabetes tipo
1 e a doença celíaca. Até a obesidade tem alguma ligação. Num estudo de brasileiros adultos jovens, 15% daqueles nascidos por cesariana eram obesos,
comparados com 10% daqueles nascidos de parto normal.
Você deve ter notado a conexão. Essas são as doenças do século XXI. Embora
cada uma delas resulte de múltiplos fatores – de riscos ambientais a
predisposições genéticas –, a coincidência entre cesarianas e o maior risco de
surgimentos dessas doenças é impressionante. Amostras da microbiota do
intestino de bebês podem revelar se eles nasceram de parto normal ou não,
muitos meses após o nascimento. A microbiota vaginal que coloniza o corpo de
um recém-nascido por dentro e por fora não consegue colonizar um bebê
nascido por cesariana. Em vez disso, ele encontra primeiro os micróbios do
ambiente, enquanto seu corpinho é puxado por mãos com luvas, mostrado aos
ansiosos pais e depois conduzido pela sala de cirurgia para ser enxugado com
uma toalha e examinado. Numa cirurgia esterilizada, isso pode significar as
piores infecções hospitalares – Streptococcus, Pseudomonas e Clostridium difficile
talvez – bem como a pele da mãe, do pai e da equipe médica. São esses micro-
organismos da pele que formam a base da microbiota do intestino do bebê
nascido por cesariana.
Se, por um lado, a microbiota da vagina da mãe e do intestino da criança são
semelhantes após um parto natural, por outro, a comunidade microbiana do
bebê nascido por cesariana não se assemelha à de sua mãe. Em vez das bactérias
que digerem lactose – Lactobacillus, Prevotella e assemelhadas – fornecidas pelo
parto normal, os micróbios da pele estão presentes: Staphylococcus,
Corynebacterium, Propionibacterium, e assim por diante. Não são bactérias que
digerem lactose, mas espécies que adoram sebo e muco. O que deveria ser o
início de um bosque de carvalhos mais parece uma floresta de pinheiros.
Pesquisas aos poucos vêm desvendando quais são as consequências dessa
diferença na microbiota associadas ao nascimento por cesariana. Qualquer que
seja o mecanismo subjacente, as preocupações com o impacto da forma de parto
no desenvolvimento futuro da microbiota do intestino foram suficientes para
levar o cientista do microbioma Rob Knight à ação quando sua esposa teve que
passar por uma cesariana de emergência no nascimento de sua filha em 2012.
Tendo se envolvido em diversos estudos sobre o desenvolvimento da flora
intestinal infantil, Knight estava disposto a tentar impedir quaisquer
consequências negativas da cesárea. Após aguardar que a equipe médica saísse da
sala, usou um cotonete para transferir microbiota vaginal de sua esposa para a
filha.
Embora esse ato subversivo não costume receber apoio entre a equipe médica
obstétrica, seu potencial é grande. Rob Knight e Maria Gloria Dominguez-Bello,
que é professora do Departamento de Medicina da Universidade de Nova York,
agora vêm realizando um grande teste clínico para descobrir se o ato de
transferir micróbios da vagina de uma mulher para seu recém-nascido pode
atenuar alguns dos efeitos de curto e longo prazo das cesarianas. A técnica
experimental é simples: um pequeno pedaço de gaze é inserido na vagina da mãe
uma hora antes de entrar na sala de cirurgia. Logo antes do primeiro corte, a gaze
é removida e colocada num pote esterilizado. Poucos minutos depois, quando o
bebê já saiu, ele é esfregado com a gaze: primeiro na boca, depois pelo rosto e no
resto do corpo.
Trata-se de uma intervenção simples, mas eficaz. Resultados preliminares da
análise de dezessete bebês nascidos em hospitais de Porto Rico mostram que a
flora intestinal dos bebês inoculados estava mais próxima da microbiota vaginal e
anal de sua mãe do que a dos outros bebês nascidos por cesariana. Embora essa
medida não tenha normalizado por completo a microbiota daqueles bebês, o
impacto foi significativo, aumentando o número das espécies normalmente
vistas em crianças nascidas de parto normal.
As consequências microbianas dos nascimentos por parto normal e cesariana
levantam algumas questões intrigantes para as quais ainda não temos respostas.
Qual o impacto de um parto na água sobre o primeiro inóculo do bebê? Qual a
ação da água morna, possivelmente impregnada com os restos de algum
composto antibacteriano usado para limpar a superfície da banheira, sobre a
microbiota vaginal e sua transferência para a pele e a boca do bebê? E os
nascimentos em que o recém-nascido surge ainda envolto no saco amniótico,
sem nenhum contato com os micróbios genitais da mãe? E como comparar, em
termos microbianos, o parto domiciliar e o realizado no ambiente supostamente
mais limpo de um hospital?
Mesmo os partos normais são relativamente estéreis no mundo ocidental.
Em comparação com os partos – muitas vezes feitos em casa – de grandes áreas
da África, Ásia e América do Sul, dar à luz na maior parte da Europa, da América
do Norte e da Australásia é um processo altamente medicalizado. Camas, mãos e
instrumentos são lavados com sabonetes antibacterianos e esfregados com álcool
antes de entrarem em contato com a mulher em trabalho de parto e seu bebê.
Quase metade das mulheres americanas recebem aplicações intravenosas de
antibióticos para impedir que transmitam bactérias nocivas, como estreptococos
do Grupo B, aos seus bebês. E todos os bebês americanos recebem uma dose de antibióticos logo após o nascimento, para o caso de a mãe ter gonorreia – o que
poderia, em raras situações, causar uma infecção ocular. Ignaz Semmelweis
ficaria satisfeito em ver suas medidas antissépticas empregadas de forma tão
completa e eficaz, e não há dúvida de que alguns milhares de mães e bebês
estejam vivos hoje graças a essa higiene. Mas isso é diferente do que o genoma e o
microbioma humano esperam. E essa diferença e suas consequências deveriam
orientar o próximo passo na melhoria dos cuidados médicos a gestantes e bebês.
Em última análise, esse não é um dilema que a mulheres devam enfrentar
sozinhas ou lidar com a culpa. Não é o grupo relativamente pequeno de
mulheres que optam pela cesariana eletiva pré-trabalho de parto que precisa
mudar, mas toda uma cultura de medicalização do nascimento. Já existem
muitas iniciativas para reduzir a taxa de cesarianas ao redor do mundo, a maioria
enfocando os riscos para a mãe e o uso de recursos escassos em procedimentos
cirúrgicos desnecessários. A essas preocupações deveria se juntar uma maior
compreensão dos riscos e benefícios dos partos por cesariana para a saúde dos
recém-nascidos, tanto a curto quanto a longo prazo.
Depois dos primeiros segundos de vida e dos micróbios que os acompanham,
as sementes da microbiota de um bebê ainda têm um longo caminho a percorrer
para chegar à maturidade. O que se desenvolverá depois depende dos cuidados
nos dias, semanas e meses que virão.
Em 1983, a Professora Jennie Brand-Miller teve um filho. Alguns dias depois, foi
forçada a desenvolver um interesse particular pela cólica infantil. Seu bebê
chorava inconsolavelmente, embora parecesse saudável. Brand-Miller e seu
marido haviam se envolvido antes em pesquisas sobre a intolerância à lactose – a
incapacidade de digerir a lactose do açúcar do leite usando a enzima lactase. Eles
acharam que essa poderia ser a causa da cólica. O marido de Brand-Miller se
concentrara em responder a essa questão em seu Ph.D., organizando um teste
controlado por placebo de gotículas da enzima lactase para bebês com cólicas.
Infelizmente, não houve nenhuma diferença no tempo de choro entre os bebês
que receberam a lactase e o placebo. Mas houve uma diferença na presença de
hidrogênio no hálito deles.
Isso os intrigou. O excesso de hidrogênio no hálito indica que bactérias no
intestino estão decompondo a comida. A maior parte da lactose, porém, deveria
ser decomposta pelas enzimas do próprio corpo em dois açúcares menores:
glicose e galactose. Se as bactérias vinham produzindo hidrogênio, deviam estar
recebendo uma refeição considerável, o que indicava que alguma outra molécula não decomposta no intestino delgado estava passando adiante. Brand-Miller
conhecia um conjunto de compostos chamados oligossacarídeos que formavam
grande parte do leite materno. Mas essas moléculas eram consideradas inúteis, já
que o corpo humano não dispõe das enzimas necessárias para decompô-las.
Então ela e o marido tiveram um palpite. Talvez os oligossacarídeos estivessem lá
não para alimentar o bebê, mas as bactérias de seu intestino.
Os oligossacarídeos são carboidratos constituídos de cadeias curtas de
açúcares simples (oligo significa “poucos”). O leite humano contém uma enorme
variedade deles – cerca de 130 tipos diferentes. Isso é bem mais do que o leite de
qualquer outra espécie. O leite de vaca, por exemplo, tem poucas variedades.
Quando adultos, nada em nossa alimentação contém essas moléculas, e no
entanto elas são produzidas pelo tecido mamário de mulheres grávidas e
lactantes. Esta é uma pista sobre sua importância: por que produzir
especificamente algo que não tem função?
Para verificar sua teoria, Brand-Miller e seu marido fizeram um teste.
Mediram a quantidade de hidrogênio no hálito de bebês ao receberem glicose
com água e a compararam com a de bebês que ingeriram água com
oligossacarídeos purificados. A glicose não causou aumento no hidrogênio,
indicando que foi absorvida no intestino delgado, e não digerida pelas bactérias
do intestino. Mas a mistura de oligossacarídeos produziu um pico nos níveis de
hidrogênio – aqueles compostos estavam passando direto pelo intestino delgado
para alimentar não o bebê, mas sua flora intestinal.
Os oligossacarídeos são agora conhecidos como fundamentais para encorajar
as espécies certas de micróbios a florescerem na flora intestinal incipiente do
bebê. Os que recebem leite materno têm a microbiota dominada por lactobacilos
e bifidobactérias – que, ao contrário do corpo humano, produzem enzimas
capazes de usar oligossacarídeos como sua única fonte de alimento. Na forma de
resíduos, elas sintetizam os importantíssimos ácidos graxos de cadeia curta
(AGCCs): butirato, acetato, propionato e, o mais valioso para os bebês, lactato
(também conhecido como ácido láctico). Esse ácido alimenta as células do
intestino grosso e desempenha um papel crucial no desenvolvimento do sistema
imunológico do recém-nascido. Em termos simples: enquanto os adultos
precisam ingerir fibra alimentar, os bebês precisam dos oligossacarídeos do leite
materno.
A função dos oligossacarídeos encontrados no leite materno humano não se
resume a servir de alimento para bactérias. Nos primeiros dias e semanas de vida,
a flora intestinal do recém-nascido é muito simples e altamente instável. Populações de bactérias passam por altos e baixos. Com isso a comunidade fica
vulnerável. A entrada de um patógeno – Streptococcus pneumoniae por exemplo
– pode causar um estrago, dizimando os grupos benéficos. Os oligossacarídeos
também prestam um serviço de limpeza. Antes que uma bactéria patogênica
possa causar qualquer dano, precisa aderir à parede intestinal usando pontos
específicos em sua superfície. Os oligossacarídeos encaixam-se perfeitamente
nesses pontos, privando espécies nocivas de um local onde se estabelecer. Dos
cerca de 130 tipos de oligossacarídeos, dezenas já são conhecidos como
específicos para determinados patógenos, encaixando-se em seus locais de
aderência como uma fechadura e uma chave.
A composição do leite materno se adapta às necessidades do bebê à medida
que vai crescendo. Logo após o nascimento, o leite inicial, chamado colostro, está
repleto de células imunológicas, anticorpos e umas quatro colheres de chá de
oligossacarídeos por litro de leite. Com o tempo, conforme a microbiota vai se
estabilizando, o teor de oligossacarídeos diminui. Quatro meses após o
nascimento, cai para menos de três colheres de chá por litro, e no primeiro
aniversário do bebê contém menos de uma.
De novo, podemos aprender com o coala e outros marsupiais, desta vez sobre
a importância dos oligossacarídeos no leite. A maioria desses animais possui
duas tetas, que ficam dentro da bolsa. Apenas uma delas é usada pelo filhote
durante todo o seu período de amamentação. Se dois filhotes nascem em duas
temporadas consecutivas, cada um fica com sua própria teta. O notável é que as
tetas fornecem leite adequado à idade de cada filhote. O recém-nascido recebe
leite rico em oligossacarídeos e pobre em lactose, enquanto o mais velho recebe
uma dose menor de oligossacarídeos, mas bem mais lactose. Uma vez que o
filhote tenha deixado a bolsa, o teor de oligossacarídeos em seu suprimento de
leite cai ainda mais.
Esse leite sob medida mostra que os oligossacarídeos não estão diminuindo
simplesmente porque a mãe não consegue manter sua produção. Pelo contrário,
os marsupiais se adaptaram para fornecer à sua prole o leite apropriado à
comunidade microbiana de cada um. A natureza selecionou o leite que traz
benefícios aos micróbios, porque os micróbios trazem benefícios aos mamíferos.
Os oligossacarídeos não são o único ingrediente-surpresa no leite materno.
Por décadas, mamães lactantes caridosas têm feito doações a bancos de leite de
hospitais. Eles são a salvação de bebês cujas mães não conseguem amamentá-los,
muitas vezes porque nasceram prematuros ou doentes demais para começar a
mamar, fazendo com que o suprimento da mãe secasse. Mas os bancos de leite sofrem um problema constante: o leite está sempre contaminado por bactérias.
Muitos desses micróbios vêm da pele do mamilo e seio, mas por mais que a pele
da doadora seja minuciosamente esterilizada antes da coleta, os micro-
organismos nunca são eliminados do leite materno.
Técnicas assépticas de coleta cada vez mais sofisticadas, combinadas com
tecnologia de sequenciamento do DNA, revelaram a razão por trás dessa suposta
contaminação. Essas bactérias pertencem ao leite materno. Não são intrusas da
boca do bebê ou do mamilo. Pelo contrário, foram acrescentadas ao leite no
próprio tecido mamário. Mas de onde vêm? Muitas não são bactérias típicas da
pele que, de sua moradia normal na superfície do seio, se infiltraram nos canais
de leite. São bactérias de ácido láctico, mais normalmente encontradas na vagina
e no intestino. De fato, o exame das fezes da mãe revela grupos correspondentes
em seu intestino e leite. De algum modo, esses micróbios saíram do intestino
grosso e foram até os seios.
A procura de micro-organismos migrantes no sangue mostra a rota que
tomaram. Eles são passageiros clandestinos, deslocando-se dentro de imunócitos
chamados de células dendríticas – que participam voluntariamente do tráfico das
bactérias. Situadas em meio ao denso tecido imunológico que circunda o
intestino, essas células são capazes de estender seus longos braços (dendritos)
intestino adentro para verificar quais micróbios estão presentes. Em geral são
responsáveis por englobar os patógenos e depois aguardar que outro grupo de
células imunológicas – as células NK, ou “células exterminadoras naturais” –
apareça e as destrua. Extraordinariamente, as células dendríticas também podem
aprisionar bactérias benéficas desatentas dentre a multidão para transportá-las
pelo sangue até os seios.
É possível ver esse mecanismo em funcionamento num estudo com
camundongos. Enquanto apenas 10% das fêmeas não grávidas tinham bactérias
em seus gânglios linfáticos, esse número crescia para 70% nas fêmeas em
gravidez avançada. Após dar à luz os filhotes, o número de bactérias nos gânglios
linfáticos caiu vertiginosamente, mas ao mesmo tempo a proporção de fêmeas
com bactérias no tecido mamário aumentou para 80%. Tanto nos camundongos
quanto nos humanos, parece que o sistema imunológico está agindo não apenas
para manter os micróbios ruins a distância, mas também para proteger os
micróbios bons para que possam ser transmitidos ao recém-nascido. É uma
ótima estratégia: as bactérias ganham um novo lar com poucos competidores
pelo espaço, e o bebê/filhote ganha um suprimento de bactérias úteis para
suplementar as recebidas no nascimento.
Assim como o teor de oligossacarídeos no leite materno muda à medida que
o bebê vai crescendo, o mesmo acontece com a combinação de micróbios
presentes no leite. As espécies necessárias ao bebê no primeiro dia são diferentes
das necessárias com um, dois ou seis meses. O colostro contém centenas delas.
Gêneros como Lactobacillus, Streptococcus, Enterococcus e Staphylococcus foram
detectados, em quantidades de até mil indivíduos por mililitro de leite. Isso
significa que um bebê pode chegar a consumir cerca de 800 mil bactérias por dia
só no leite. Com o tempo, os micróbios no leite ficam menos numerosos e
passam a ser de espécies diferentes. Alguns tipos de bactérias que habitam a boca
dos adultos são encontradas no leite produzido vários meses após o nascimento,
talvez preparando o bebê para a introdução de alimentos sólidos à sua dieta.
Curiosamente, a forma como um bebê nasce tem um grande impacto sobre
os micróbios encontrados no leite de sua mãe. O teor microbiano do colostro de
mulheres que deram à luz por cesariana eletiva é notadamente diferente daquele
das que deram à luz por parto normal. Essa diferença persiste por pelo menos
seis meses. Mas em mulheres submetidas a cesarianas emergenciais durante o
trabalho de parto, a microbiota do leite se assemelhou bem mais à de mães que
deram à luz por parto normal. Algo no trabalho do parto soa um alerta,
informando ao sistema imunológico que está na hora de se preparar para o bebê
sair do corpo e começar a ser nutrido por leite materno em vez de placenta.
Parece provável que os muitos hormônios poderosos liberados durante o
trabalho de parto sejam esse alerta. Sua liberação altera quais micróbios são
transferidos do intestino para os seios. A cesariana, portanto, cria uma diferença
duplamente perniciosa: altera não apenas o inóculo microbiano que o bebê
recebe ao adentrar o mundo, mas também os micróbios que ele vai receber pelo
leite materno.
Os oligossacarídeos, bactérias vivas e outros compostos encontrados no leite
materno proporcionam o alimento ideal para o recém-nascido e sua microbiota,
encorajando a instalação de micróbios benéficos e guiando a flora intestinal até
que sua comunidade fique mais parecida com a dos adultos. Ele também impede
a colonização por espécies nocivas e educa o sistema imunológico infantil sobre
o que deveria levantar alguma suspeita e o que merece permanecer ali.
Então como fica a alimentação por mamadeira (ou seja, com fórmula
infantil)? Como a fórmula afeta a microbiota em desenvolvimento do bebê? Os
modismos da alimentação infantil são tão volúveis quanto os do comprimento
das saias. Mesmo antes de a alimentação por mamadeira se tornar uma opção
realista para as mães, havia uma alternativa. As amas de leite eram comuns antes do século XX, com as tendências entre as classes sociais mudando de forma
semelhante às da alimentação por mamadeira nos últimos cem anos. Em dado
momento, parecia impróprio às mulheres da aristocracia alimentarem seus
próprios bebês; em outro, as da Revolução Industrial estavam adotando amas de
leite, enquanto a elite social voltava a amamentar os próprios bebês.
No fim do século XIX e início do XX, as amas de leite perderam o emprego
para as alternativas cada vez mais práticas de alimentação por mamadeira.
Mamadeiras de vidro facilmente esterilizáveis, bicos laváveis de borracha e
fórmulas de leite de vaca modificado transformaram a alimentação por
mamadeira: de uma alternativa por necessidade passou a uma alternativa por
opção. As taxas de amamentação despencaram. Em 1913, 70% das mulheres
amamentavam os próprios recém-nascidos, mas essa cifra caiu para 50% em
1928 e apenas 25% ao final da Segunda Guerra Mundial. Em 1972, a
amamentação alcançou seu nível histórico mais baixo: apenas 22%. Após dezenas
de milhões de anos de lactação mamífera, a amamentação de bebês recém-
nascidos quase parou no período de apenas cem anos.
Se os oligossacarídeos e as bactérias vivas do leite materno são responsáveis
por nutrir as sementes da microbiota do intestino de um bebê, mudando de
acordo com seu crescimento, quais as consequências microbianas da
mamadeira? O leite usado nas fórmulas ainda é, com frequência, leite do “peito”,
mas de uma vaca, não de uma pessoa. O leite de vaca evoluiu – apesar da grande
interferência humana nos últimos 10 mil anos – para ser a nutrição ideal para
bezerros e seus micróbios. Só que a flora intestinal de um bezerro é
drasticamente diferente da de uma criança de peito. Portanto, o leite de vaca
sozinho deixa muito a desejar como alimento de recém-nascidos, com frequência
levando a deficiências de vitaminas e minerais que podem causar escorbuto,
raquitismo e anemia. As fórmulas modernas são suplementadas com muitos
extras essenciais, mas não costumam conter células imunológicas, anticorpos,
oligossacarídeos ou bactérias vivas.
A diferença mais óbvia na flora intestinal dos bebês alimentados por
mamadeira é a diversidade de espécies e grupos. Bebês que não mamam no peito
têm cerca de 50% mais espécies no intestino. Em particular, os que são
alimentados exclusivamente por mamadeira tinham bem mais espécies do grupo
Peptostreptococcaceae, que inclui o patógeno nocivo Clostridium difficile. Se o C.
diff assume o controle, pode causar diarreia incurável, sendo fatal nas crianças
com uma frequência assustadora. Enquanto um quinto dos bebês que só tomam
leite materno porta o C. diff, esse micróbio está presente em quase quatro quintos dos bebês que se alimentam de leite em pó. É provável que muitas dessas crianças
o tenham contraído na sala de parto – quanto mais longa a estadia no hospital,
maiores as chances de o recém-nascido contrair esse patógeno.
Enquanto a grande diversidade de micróbios parece ser um indicador de boa
saúde nos adultos, nos bebês ocorre o inverso. Parece importante cultivar um
grupo bem seleto de espécies nos primeiros dias de vida – com ajuda das
bactérias do ácido láctico da vagina e dos oligossacarídeos do leite materno –
para proteger os bebês de infecções e preparar seu sistema imunológico em
formação. Mesmo combinar a amamentação com a mamadeira já aumenta a
diversidade indesejada de micróbios, inclusive da bactéria C. diff, produzindo
uma microbiota com uma composição intermediária entre a dos bebês
exclusivamente amamentados e a dos que só são alimentados por mamadeira.
Mas será que importa mesmo se os bebês têm uma diversidade só um pouco
maior de micro-organismos na barriga? Será que encorajar um grupo diferente
de bactérias pode mesmo causar algum mal? O fato de a amamentação ser
melhor costuma ser bem enfatizado, mas com pouca compreensão do que isso
realmente significa para a saúde da criança. O exame dos dados mostra um forte
contraste entre a saúde de bebês amamentados e a daqueles alimentados por
mamadeira.
Para começo de conversa, bebês alimentados por fórmula infantil têm uma
tendência maior a contrair infecções. Quando comparados com bebês que só
mamam no peito, os que são alimentados exclusivamente por mamadeira têm o
dobro de chance de ter infecções no ouvido, uma chance quatro vezes maior de
irem parar no hospital com infecção do trato respiratório, o triplo de chance de
sofrer uma infecção gastrointestinal e uma chance 2,5 vezes maior de contrair
enterocolite necrosante – na qual parte do tecido do intestino morre. Têm
também o dobro de chance de morrerem de síndrome da morte súbita infantil.
Nos Estados Unidos, a mortalidade infantil (antes de um ano) é 30% maior entre
os bebês que não foram amamentados, mesmo levando em conta inúmeros
outros fatores – como tabagismo na gravidez, pobreza e educação – e excluindo
bebês cuja doença os impediu de mamarem no peito.
Os bebês alimentados por mamadeira também têm quase o dobro de chance
de desenvolver irritações de pele e asma, maior risco de desenvolver leucemia
infantil – um câncer do sistema imunológico – e diabetes tipo 1. É provável que
também tenham mais chances de contrair apendicite, amigdalite, esclerose
múltipla e artrite reumatoide. Para os pais, muitos desses riscos são
suficientemente pequenos. Mas, como com o impacto da alimentação por mamadeira sobre a mortalidade infantil, o impacto sobre os milhões de bebês
nascidos todos os anos é significativo o bastante para que devamos nos
preocupar.
Talvez o mais importante seja que alimentar os bebês com fórmula infantil
praticamente duplica suas chances de desenvolverem excesso de peso. Quando os
cientistas querem saber se um efeito é uma causa verdadeira, não apenas uma
correlação coincidente, procuram pela “dependência da dose”. Se um fator –
digamos, o volume de álcool consumido – é mesmo responsável por causar um
efeito – digamos, maior tempo de reação – seria de esperar que o tempo de
reação aumentasse de acordo com o consumo (doses extras) de álcool – ao
menos até certo ponto. Quanto maior a dose, maior o tempo de reação.
A mesma relação pode ser vista entre a amamentação e o risco de obesidade.
Um estudo descobriu que, para cada mês extra de amamentação no peito até a
idade de nove meses, o risco médio de crianças apresentarem excesso de peso
caía cerca de 4%. Dois meses de amamentação faz o risco cair 8%, três meses,
12%, e assim por diante. Após nove meses de amamentação, uma criança tem
30% menos chances de desenvolver excesso de peso – em comparação com uma
criança alimentada por mamadeira desde o nascimento. Já a amamentação sem
qualquer suplementação de fórmula infantil parece ter um efeito ainda mais
significativo, reduzindo o risco de desenvolvimento de excesso de peso em 6% a
cada mês. O impacto da mamadeira sobre as chances de ter excesso de peso ou
obesidade não se limita à primeira infância. Crianças mais velhas e adultos
continuam mais passíveis a terem dificuldades com peso como consequência de
seu tipo de alimentação quando bebês. A obesidade costuma vir acompanhada
da diabetes tipo 2, e bebês que não mamaram no peito não são exceção. Crescer
tomando apenas fórmula infantil torna uma criança 60% mais passível de
desenvolver diabetes na vida adulta. À semelhança da cesariana, muitos dos
riscos da falta do leite materno estão relacionados às doenças do século XXI.
Para a geração baby boomer, nascida numa época em que a mamadeira era a
norma, esses fatos e cifras talvez sejam bem tangíveis. Em meados dos anos 1970,
o aleitamento materno voltou à moda, sobretudo entre os mais abastados e
instruídos. Na década seguinte, quase o triplo de mulheres já vinham
amamentando seus recém-nascidos.
Mas a Geração X e a Geração do Milênio não estão livres dos riscos trazidos
pela mamadeira. Embora nas últimas duas décadas a amamentação nos países
desenvolvidos tenha aumentado progressivamente, passando de cerca de 65% em
1995 para quase 80% nos últimos anos, o comportamento quanto à amamentação ainda está longe das recomendações oficiais. Para os 20-25% dos
bebês que jamais recebem um único gole de leite materno e os outros 25% que
passam a tomar fórmula infantil nas primeiras oito semanas, o aumento no
índice de amamentação não é um grande consolo. Mesmo entre os bebês que são
amamentados depois do nascimento, metade começa a receber suplemento de
fórmula já durante a primeira semana. Nos Estados Unidos, apenas 13% das
mães seguem as recomendações da Organização Mundial da Saúde, de seis meses
de amamentação exclusiva seguida da introdução de alimentos complementares
apropriados, mas mantendo o leite materno por até dois anos ou mais. Na Grã-
Bretanha, menos de 1% das mães amamentam exclusivamente até o sexto mês do
bebê.
Claro que amamentar é difícil, sobretudo nos primeiros dias e semanas. Para
algumas mães, não há possibilidade de escolha e a amamentação está fora de
cogitação, talvez devido a algum problema de saúde do bebê ou falta de leite.
Para outras mães, pressões financeiras e a falta de apoio determinam as opções
disponíveis. Mas é provável que a sociedade como um todo tenha perdido de
vista o que é “normal” em termos de aleitamento materno. Nas sociedades
tradicionais pré-industrializadas, os bebês são amamentados bem mais tempo do
que no Ocidente. É comum a criança ser desmamada aos 2, 3 ou 4 anos, com
frequência até a chegada do próximo bebê.
As mulheres devem ser livres para escolher como criar os próprios filhos,
mas nenhuma deveria ter que fazer essa escolha sem acesso a informações
honestas sobre o impacto de cada opção. Além disso, seria bom para os bebês se
houvesse melhorias na qualidade da fórmula infantil. No momento, poucas
contêm oligossacarídeos ou bactérias vivas. O problema é que decifrar a mescla
perfeita dos 130 tipos diferentes de oligossacarídeos e incluir uma comunidade
saudável dos grupos mais benéficos de bactérias é algo que por enquanto está
além de nosso alcance. Tentar antes de conhecermos as consequências poderia
trazer resultados desastrosos.
Nos primeiros três anos de vida, a flora intestinal de uma criança é altamente
instável. Populações de bactérias chegam e partem, lutando pelo território.
Novos grupos invadem, outros recuam. No primeiro ano de vida, há um declínio
lento e constante na população do gênero Bifidobacterium. Porém as maiores
mudanças ocorrem entre os 9 e 18 meses de vida, provavelmente acompanhando
a introdução de novas variedades de alimentos sólidos. Em um experimento, a
introdução de ervilha e outros legumes e verduras precedeu uma alteração na microbiota: antes dominada pelos filos Actinobacteria e Proteobacteria, ela
passou a ser composta de Firmicutes e Bacteroidetes. Essas alterações drásticas
constituem marcos no desenvolvimento do bebê.
No período entre 18 meses e 3 anos, a flora intestinal fica cada vez mais
semelhante à de um adulto, ganhando estabilidade e diversidade ao longo do
tempo. No terceiro aniversário de uma criança, as diferenças iniciais na
composição da microbiota causadas pelo tipo de alimentação que receberam
quando bebês já foram superadas pelos grupos novos contraídos de outras
pessoas e lugares. As bactérias do ácido láctico, antes tão abundantes, tornam-se
mais raras à medida que a microbiota se adapta a novos alimentos e
circunstâncias.
À medida que a criança vai ficando mais velha, os micróbios em seu intestino
passam a ficar menos parecidos com a microbiota vaginal e cada vez mais
semelhantes à flora intestinal da mãe. Em parte, isso se deve ao fato de morarem
na mesma casa, cercados dos mesmos micróbios, e comerem a mesma comida.
Mas também se deve aos genes compartilhados. É notável que nosso genoma
tenha certo controle sobre as espécies que abrigamos. Os genes envolvidos na
programação do sistema imunológico também influenciam as espécies
bacterianas autorizadas a viver dentro do corpo. Como mãe e filho
compartilham cerca de metade de seus genes, para a criança é bom receber um
conjunto equivalente de micróbios. Afinal, nos primeiros minutos de vida, o
sistema imunológico de um bebê precisa enfrentar uma invasão maciça de
bactérias, do tipo que nunca mais encontrará. Conseguir sobreviver ao que
poderia ter sido considerado uma enorme infecção revela que o bebê já estava
genética e imunologicamente prevenido. É provável que ter certa informação
prévia sobre quem é amigo e quem é inimigo já dê uma grande ajuda ao bebê
para enfrentar o ataque das bactérias vaginais de sua mãe ao cair de cabeça num
mundo repleto de micróbios.
A beleza do microbioma é o fato de ser adaptável de formas que o genoma
humano jamais será. À medida que seus hormônios aumentam e diminuem, que
você envelhece, que prova novas comidas e visita lugares novos, seus micróbios
tiram o máximo de proveito da situação. Nutrição carente? Sem problemas –
seus micróbios o ajudarão a sintetizar as vitaminas que estão faltando. Muito
churrasco? Não tem problema, seus micróbios vão desintoxicar as partes
queimadas. Mudando de hormônios? Ótimo – seus micro-organismos também
vão se adaptar a isso.
Na juventude e na fase adulta, o corpo precisa de quantidades diferentes de
vitaminas e minerais. Os bebês, por exemplo, precisam de muito ácido fólico,
mas não conseguem ingerir os alimentos que o contêm. Seu microbioma, porém,
está repleto de genes que sintetizam ácido fólico a partir do leite materno. Por
outro lado, os adultos não precisam de tanto ácido fólico e já costumam obter o
suficiente na alimentação, de modo que, em vez de genes para sintetizar essa
vitamina, seus micróbios contêm genes que a decompõem. Com a vitamina B12
acontece o oposto: quanto mais envelhecemos, aumenta o número de genes para
sintetizá-la. Mas seus micro-organismos não fazem isso por pura gentileza – eles
também precisam dessas vitaminas ou de seus precursores. Muitos outros genes
envolvidos na síntese ou decomposição das moléculas de alimentos mudam com
a idade, de modo a tirar o máximo de proveito da alimentação e acompanhar as
mudanças no corpo.
As pessoas com quem você vive também podem ter um grande impacto nos
micróbios que você carrega. Assim como deixa vestígios de sua presença quando
passa tempo num local – impressões digitais, pegadas, DNA em células da pele e
fios de cabelo –, você costumar deixar sua assinatura microbiana para trás. Um
estudo descobriu que era fácil identificar qual família pertencia a qual casa pela
simples comparação dos micróbios existentes nos pés, nas mãos e no nariz delas
com os encontrados no chão, nas superfícies e nas maçanetas.
Durante esse estudo, três dessas famílias mudaram de casa. Em poucos dias,
suas novas moradias já haviam sido colonizadas por suas bactérias, substituindo
as dos moradores anteriores. De fato, a contribuição dos membros da família à
microbiota da casa foi tão dinâmica que, se ficassem ainda que uns poucos dias
fora, seu rastro microbiano já começava a esfriar. O declínio constante na pegada
microbiana de uma pessoa poderia ser usado para criar uma linha do tempo
confiável o suficiente para uso em investigações forenses. A tecnologia do DNA
mudou completamente a investigação na cena do crime, mas o seu microbioma é
ainda mais específico – imagina quais segredos ele poderia revelar.
Membros da mesma família tendem a ter microbiotas bem semelhantes,
enquanto pais costumam compartilhar os mesmos grupos de bactérias com os
filhos. Optar por morar com amigos, ou mesmo com estranhos, porém, traz
como resultado o compartilhamento de mais que apenas o leite. Um lar incluído
no estudo não era habitado por pessoas da mesma família. O convívio no mesmo
ambiente foi suficiente para ocasionar uma mescla das microbiotas. Todos os
moradores tinham muitos micróbios em comum, especialmente nas mãos. Dois deles mantinham um relacionamento e, por isso, compartilhavam ainda mais
micro-organismos entre si do que com o terceiro morador.
Para as mulheres, a flutuação hormonal enfrentada todos os meses pode ter
um impacto enorme na constituição microbiana do corpo. Em muitas, o ciclo
menstrual está ligado a mudanças abruptas nas espécies vivendo na vagina, com
populações se expandindo e se reduzindo em sincronia perfeita com cada
período. Mas, para outras, as mudanças na composição da microbiota vaginal
parecem completamente aleatórias, sem qualquer ligação com a época do mês.
Ainda outras têm uma comunidade quase constante que parece não ser afetada
pela menstruação ou ovulação. O interessante é que, entre essas mulheres cujas
comunidades aumentam e diminuem, a atividade dos grupos e espécies presentes
em geral permanece a mesma. Uma cepa dominante de Lactobacillus pode de
repente desaparecer, mas é substituída por outro produtor de ácido láctico, talvez
uma cepa amigável de Streptococcus. Assim, o mesmo serviço continua sendo
realizado, embora as espécies tenham mudado.
Eu já mencionei que a composição da microbiota vaginal de uma mulher se
transforma durante a gravidez. O mesmo vale para sua flora intestinal. Durante a
gravidez, uma mulher ganha entre 11 e 16 quilos. Grosso modo, isso inclui um
bebê de 3,2 quilos, mais 3,6 quilos de placenta, líquido amniótico e sangue extra.
Os 4,5 a 9 quilos restantes são gordura. No último trimestre, os indicadores
metabólicos de uma mulher grávida são muito semelhantes aos de alguém que
esteja sofrendo as consequências da obesidade sobre a saúde. Excesso de gordura
corporal, colesterol alto, níveis maiores de glicose no sangue, resistência à
insulina e indicadores de inflamação podem acompanhar tanto a obesidade
quanto a gravidez.
Mas enquanto na obesidade esses sinais apontam para problemas de saúde,
na gravidez significam algo bem diferente. As mudanças no metabolismo da
mulher – sua capacidade de processar e armazenar energia – são cruciais para a
gravidez. A camada extra de tecido adiposo que ela ganha provavelmente fornece
ao feto uma rede de segurança, garantindo que sua mãe tenha energia suficiente
para suportar seu crescimento. Significa também que ela dispõe da energia de
que vai precisar para produzir o leite materno depois do nascimento.
Como Ruth Ley, da Universidade Cornell, já conhecia a diferença entre a
microbiota de pessoas magras e gordas, se perguntou se as mudanças
microbianas por trás da obesidade também seriam responsáveis pelas alterações
metabólicas na gravidez. Ela e sua equipe estudaram os micróbios presentes no
intestino de 91 mulheres ao longo da gestação. No terceiro trimestre, a microbiota das mulheres já estava profundamente diferente dos primeiros dias
de gravidez, tornando-se menos diversificada, e dois grupos – Proteobacteria e
Actinobacteria – ficaram muito mais abundantes – essas alterações se
assemelham aos indicadores de inflamação em roedores e seres humanos.
Já vimos no capítulo 2 que transplantar a microbiota de pessoas obesas para
camundongos livres de germes faz com que acumulem gordura corporal
rapidamente. Essa é uma boa forma de demonstrar que os micróbios são
responsáveis pelo aumento de peso, não apenas sua consequência. Ruth Ley
adotou a mesma abordagem com a microbiota das mulheres no terceiro
trimestre de gravidez. Será que os micro-organismos presentes seriam a causa ou
a consequência das mudanças metabólicas da gravidez que se assemelham às da
obesidade? Camundongos livres de germes que receberam um transplante da
microbiota de mulheres no terceiro trimestre de gravidez ganharam mais peso,
tiveram um aumento nos níveis de glicose no sangue e ficaram com mais
inflamação do que os que receberam a microbiota de mulheres no primeiro
trimestre de gestação. Essas mudanças podem ajudar a coletar e encaminhar
recursos para o bebê em crescimento.
Depois que o bebê nasce, a flora intestinal da mãe leva algum tempo para
voltar ao normal, mas acaba voltando. Por ora não se sabe ao certo por quanto
tempo os micróbios da gravidez permanecem no corpo nem o que os faz
mudarem outra vez, mas é intrigante pensar que a amamentação (e talvez os
hormônios do parto) pode ter algo a ver com isso. Os efeitos da amamentação no
peso do bebê são bem conhecidos, aparentemente por consumir as calorias
armazenadas durante a gravidez. Ainda não se sabe, porém, se ela também
reverte as mudanças microbianas da gravidez, mas sabemos que reduz os riscos
de diabetes tipo 2, colesterol alto, pressão alta e doença cardíaca ao longo da vida
da mulher.
Embora seja afetada pela alimentação, por hormônios, viagens ao exterior e
antibióticos, a flora intestinal permanece razoavelmente estável no decorrer da
vida adulta. A velhice, porém, junto com outras mudanças na saúde, modifica as
comunidades microbianas do corpo. À medida que o corpo começa a dar sinais
da idade, seus passageiros microbianos fazem o mesmo. Claro que,
individualmente, pouquíssimas células humanas duram a vida toda, e a maioria
das células microbianas duram poucas horas ou dias. No entanto, como o
superorganismo que é, ao envelhecer, a colônia humana começa a ficar menos
eficiente e a falhar com mais frequência. O sistema imunológico é o grande
responsável por isso, tendo se encarregado de liderar os anticorpos por décadas. Com a idade, ele vai ficando cada vez mais irritável. O constante zunido dos
mensageiros químicos pró-inflamatórios percorrendo o corpo idoso lembra a
inflamação crônica de baixo nível encontrada nas doenças do século XXI. Essa
mescla de inflamação e envelhecimento, a característica médica do final da vida,
está intimamente associada à saúde.
Não surpreende que esteja também associada à composição da flora
intestinal. Pessoas idosas, com um grau maior de inflamação e saúde mais
comprometida têm uma comunidade intestinal menos diversificada, com menos
espécies conhecidas por acalmar o sistema imunológico, e mais que o estimulam.
Só não está claro ainda se a idade causa inflamação – que por sua vez causa
alterações na microbiota – ou se são as mudanças na microbiota que
desencadeiam a inflamação. Mas como na velhice a alimentação tem um papel de
destaque na manutenção da comunidade microbiana, é provável que a
microbiota seja uma força importante no processo de envelhecimento. Apesar de
ser uma ideia muito nova, alguns cientistas já estão animados com a
possibilidade de manter as pessoas saudáveis por mais tempo ou mesmo estender
a vida humana, através de alterações na flora intestinal dos idosos.
Da primeira inspiração até a última, vivemos acompanhados por nossa
colônia de micróbios. À medida que nosso corpo cresce e muda, nosso
microbioma se adapta, fornecendo uma extensão de nosso próprio genoma
capaz de se ajustar em questão de horas para melhor satisfazer nossas
necessidades – e as dele. Se tudo correr bem, os micro-organismos representam o
melhor presente que a mãe pode dar ao filho, e as escolhas de nossos pais vivem
conosco – literalmente – enquanto aprendemos a andar, falar e cuidar de nós
mesmos. Quando nos tornamos adultos, a responsabilidade de cuidar de todas as
células em nosso corpo – tanto as humanas quanto as microbianas – recai sobre
nós. As mães transmitem não apenas os próprios genes, mas os genes de
centenas de bactérias e, embora a loteria genética da vida possua um elemento de
acaso, também há muito de escolha. Quanto mais conhecimentos reunirmos
sobre a importância e as consequências do parto natural e da amamentação
prolongada e exclusiva, mais fortes seremos para oferecer a nós mesmos e aos
nossos filhos a chance de uma vida melhor, com mais saúde e felicidade.