10% Humano

Alanna Collen · Capítulo 10 de 16

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8 Restauração microbiana

OITO

 

Restauração microbiana

 

Na noite de 29 de novembro de 2006, Peggy Kan Hai, uma advogada de 35

anos, dirigia na chuva a caminho de um encontro com um cliente na ilha de

Maui, no Havaí, quando foi atingida por um motociclista que vinha a 260

quilômetros por hora. Presa nas ferragens de seu carro, sangrando na cabeça e

pela boca, ela perdia e recobrava a consciência. O jovem morreu na estrada em

meio aos destroços de sua moto.

Em 2011, após cinco anos de cirurgias para reparar os ferimentos na cabeça e

nas pernas, o pé esquerdo de Peggy necrosou. Com a vida ameaçada pela

disseminação da sepse, ela não teve escolha senão se submeter a uma cirurgia

para amputar parte do pé e ligar os ossos do tornozelo. Três dias após a operação,

Peggy ficou gravemente doente, com náusea e diarreia. Sua enfermeira ficou

horrorizada e no dia seguinte convocou o cirurgião, que assegurou à paciente

que se tratava apenas de uma reação à medicação – anestésicos, antibióticos e

analgésicos. Na mesma noite, ela recebeu alta e foi para casa, com diferentes

remédios.

Algumas semanas depois, Peggy parou de tomar os remédios apesar da dor

no pé, na esperança de que as coisas melhorassem. Não melhoraram. A manhã

seguinte marcou o início de dois meses de até trinta episódios diários de diarreia.

Peggy perdeu 20% do peso corporal, seus cabelos caíram, seus nervos ficaram

agitados e sua visão ficou embaçada. O médico insistiu que ela tinha sintomas

condizentes com abstinência de opiáceos, mas depois concluiu que se tratava de

síndrome do intestino irritável ou de doença do refluxo gastroesofágico. Peggy

recusou a medicação para diarreia, certa de que mascarar os sintomas da doença

apenas agravaria o quadro.

Vários meses depois, ela foi enviada a um gastroenterologista no hospital

onde fizera a cirurgia do pé. Após uma colonoscopia (um procedimento em que o interior do cólon é examinado com uma pequena câmera), Peggy encontrou a

explicação para a diarreia grave: ela tinha Clostridium difficile, ou C. diff.

C. diff é aquela bactéria particularmente nociva que já mencionamos no

capítulo 4, capaz de causar uma infecção terrível e potencialmente letal. Sempre à

espreita, é uma presença constante em hospitais e no intestino de pessoas

saudáveis. Vários truques lhe dão uma vantagem em relação a outros micróbios e

à equipe de limpeza do hospital. Para começo de conversa, nas últimas décadas,

uma nova cepa mais resistente e perigosa que as versões anteriores se

desenvolveu. É bem provável que tenha sido uma mutação em reação à constante

corrida armamentista entre as bactérias e os antibióticos que lançamos contra ela

e seus primos. No momento, a C. diff está na frente.

Seu outro truque – que ela compartilha com até um terço das bactérias que

vivem no intestino e muitos patógenos – é o fato de ser capaz de formar esporos.

Como um tatu assustado enrolado em sua carapaça, a C. diff se envolve em uma

espessa camada protetora para sobreviver quando os tempos ficam difíceis.

Produtos de limpeza antibacterianos, ácidos estomacais, antibióticos e

temperaturas extremas não conseguem afetar esses esporos, deixando as

bactérias a salvo até o perigo passar.

As circunstâncias de Peggy eram típicas. Ela recebera antibióticos durante a

cirurgia e depois passara vários dias no hospital. Os antibióticos, além de

impedirem que seus ferimentos infeccionassem, destruíram sua flora intestinal,

deixando-a vulnerável à invasão da C. diff. Como uma erva daninha, essa

bactéria havia feito uma confusão em seu intestino antes que os micróbios

benéficos pudessem restabelecer suas colônias. O gastroenterologista prescreveu

a Peggy vários tratamentos com altas doses de antibióticos para livrá-la da

infecção por C. diff, mas essa abordagem fracassou e a paciente acabou ficando

ainda mais doente.

À medida que a visão e a audição de Peggy se deterioravam e seu peso se

tornava perigosamente baixo, ela e seu marido perceberam que precisavam

tomar medidas drásticas para restaurar os micróbios em seu intestino e expulsar

a C. diff. A questão era como.

O dilema de Peggy Kan Hai não afeta apenas as vítimas da C. diff. Muitas

outras pessoas que sofrem de doenças do sistema digestivo e outros distúrbios

resultantes de um ecossistema microbiano danificado também se empenham em

descobrir como desfazer o mal e reintroduzir uma colônia saudável de amigos

microbianos. Sem dúvida, manter uma boa alimentação e evitar antibióticos

desnecessários são medidas fundamentais para preservar uma microbiota saudável, mas e se sua colônia já foi dizimada? E se espécies importantes há

muito já partiram e oportunistas tomaram seu lugar? E se o seu sistema

imunológico já não sabe ao certo quais são os inimigos e quais são os aliados?

Cuidar das ruínas de uma comunidade microbiana antes próspera talvez seja um

pouco como borrifar água nos brotos ressequidos de uma planta abandonada: às

vezes a única opção é recomeçar, preparar a terra e plantar novas sementes.

 

Em 1908, Ilya Mechnikov publicou um livro com um título estranhamente

positivo – algo que não era característico do biólogo russo. Ele havia tentado

suicídio duas vezes – por uma dose excessiva de ópio e deliberadamente se

infectando com febre recidiva, num esforço por se tornar um mártir da ciência.

No entanto, seu terceiro livro, O prolongamento da vida: Estudos otimistas,

tratava não de apressar a morte, mas de adiá-la, e talvez fosse uma tentativa para

melhorar seu astral à medida que se aproximava de um confronto final – desta

vez inevitável – com a própria mortalidade. Mechnikov, que ganhou um Prêmio

Nobel por seu trabalho sobre o sistema imunológico no mesmo ano da

publicação de seu livro, compartilhava com seu antigo mestre Hipócrates a ideia

de que a morte reside no intestino. De sua perspectiva relativamente moderna e

esclarecida, Mechnikov suspeitou de que os recém-descobertos micróbios do

intestino seriam a verdadeira causa da senilidade.

Das alturas metodológicas da ciência do século XXI, ler o tratado de

Mechnikov é uma experiência alarmante e às vezes divertida. Embora sua

hipótese seja interessante, faltam-lhe provas para sustentá-la e ela parece se

basear em algumas conclusões equivocadas, como a ideia de que morcegos não

têm intestino grosso, possuem pouquíssimos micróbios e, mesmo assim, vivem

mais que outros mamíferos pequenos. É a presença de micro-organismos – e o

intestino grosso que os abriga – a responsável por trazer a morte prematura a

populações mais densas de mamíferos, ele supunha. Então qual seria a função do

intestino grosso? “Em resposta à pergunta, formulei a teoria de que o intestino

grosso aumentou nos mamíferos para possibilitar que esses animais corressem

por longas distâncias sem terem que parar para defecar. O órgão, então, teria a

simples função de um reservatório de refugo.”

Mechnikov não foi o único a achar que os micróbios do intestino faziam mal

à saúde. Uma importante hipótese nova sobre a causa de uma série de doenças,

tanto físicas quanto mentais, vinha circulando entre médicos e cientistas.

Denominada “autointoxicação”, seu princípio central afirmava que o cólon seria,

nas palavras de um médico francês, “um receptáculo e laboratório de venenos”. As bactérias do intestino estariam apenas apodrecendo os restos de comida e

criando toxinas que causavam não só diarreia e prisão de ventre, mas fadiga,

depressão e comportamento neurótico. Em casos de loucura ou melancolia

profunda, era comum que a remoção cirúrgica do cólon fosse prescrita –

conhecida como procedimento de “curto-circuito”. Apesar da taxa de

mortalidade assustadoramente alta e de um alto impacto na qualidade de vida

dos pacientes, os médicos da época achavam que essa intervenção radical valia a

pena.

Longe de criticar o grau de respeito ao método científico de um vencedor do

Prêmio Nobel, mas as experiências de Mechnikov em microbiologia intestinal,

ao menos nesse livro, mal atendiam a padrões razoáveis de repetibilidade ou

comparação com um grupo de controle. Sua maturidade científica coincidiu com

um momento da história em que os cientistas médicos estavam dominados pelo

entusiasmo com os caminhos de pesquisa abertos pela teoria dos germes de

Louis Pasteur. Hipóteses abundavam, mas pouco tempo ou energia mental eram

dedicados ao estudo paciente, à experimentação ou coleta de indícios antes que a

nova tropa de microbiologistas médicos se pusesse, de rabo abanando, a farejar

ideias novas.

Mesmo assim, a mídia, o público e uma turma de charlatães logo entraram na

onda da autointoxicação no início do século XX. Além das cirurgias de cólon,

surgiram alguns outros tratamentos contra as bactérias ruins. Um deles era a

hidroterapia do cólon, defendida até hoje pelos “spas medicinais”, mas malvista

pela comunidade médica. O outro era ingerir uma dose diária de bactérias

benéficas, o que chamamos agora de probióticos.

As divagações de Mechnikov sobre o prolongamento da vida humana se

originaram de um rumor que ouvira de um estudante búlgaro. Dizia-se que entre

os camponeses da Bulgária havia grande número de centenários e que o segredo

de sua longevidade era uma dose diária de leite azedo: o iogurte. Claro que o

sabor do leite fermentado vinha do ácido láctico produzido quando a bactéria

que Mechnikov denominou “bacilo búlgaro” fermentava o açúcar da lactose.

Hoje esse grupo de bactérias é classificado como Lactobacillus delbrueckii,

subespécie bulgaricus, mas costuma ser chamado de Lactobacillus bulgaricus. O

biólogo russo acreditou que essas bactérias produtoras de ácido láctico estariam

desinfetando o intestino, matando os micróbios daninhos responsáveis pela

senilidade e pela morte.

Logo, vários comprimidos e bebidas contendo Lactobacillus bulgaricus e

Lactobacillus acidophilus se tornaram disponíveis nas lojas. Anúncios de resultados fantásticos encheram periódicos médicos e jornais. “Os resultados são

no mínimo surpreendentes. Não apenas o fim da depressão mental e física, mas

uma enxurrada de vitalidade nova”, alegava uma marca. A autointoxicação

rapidamente passou a ser aceita por médicos e pelo público em geral, e, nas

primeiras décadas do século XX, a indústria dos probióticos decolou.

Mas não durou. A teoria da autointoxicação era um castelo de cartas

científico que sustentava a indústria cada vez mais instável dos probióticos.

Todas as camadas de hipóteses interligadas que formavam sua estrutura tinham

seu mérito, mas pouquíssimos indícios para respaldá-las. Assim como com as

promissoras e novas pesquisas sobre o papel dos micróbios patogênicos como

causa de distúrbios mentais graves, Freud e seus seguidores derrubariam essa

teoria. Paradoxalmente, ela seria substituída por um castelo de cartas bem mais

pernicioso na forma da psicanálise e do complexo de Édipo.

Um importante protagonista na derrubada da teoria da autointoxicação foi

um médico californiano chamado Walter Alvarez. Usando pouco mais indícios

do que os que respaldavam as ideias microbianas de Mechnikov, Alvarez adotou

a teoria psicanalítica. Rotulava pacientes que levantavam a ideia de

autointoxicação como psicopatas, dispensando-os após a consulta inicial. Em vez

de adotar uma perspectiva médica, tendia a construir seus diagnósticos com base

na personalidade e na aparência de seus pacientes. Segundo ele, mulheres que

tinham enxaquecas, por exemplo, seriam aquelas com corpos femininos

pequenos, elegantes, com seios bem formados. Ele aconselhava seus colegas

médicos a procurarem mulheres assim e verificarem seus sintomas de acordo.

Mesmo a mais básica das queixas gastrointestinais – prisão de ventre – já não era

vista pelos médicos da época como uma consequência de micróbios incômodos,

mas como hipocondria crônica combinada com fixações erótico-anais.

A ciência da autointoxicação sem dúvida carecia de rigor – até porque os

microbiologistas não possuíam as ferramentas necessárias. Apesar disso, em

meio aos charlatães, as limpezas do cólon e os iogurtes de origem microbiana

duvidosa eram boas ideias. Somente em 2003 o valor dos probióticos no

tratamento de distúrbios mentais voltou a ser discutido por um grupo corajoso

de cientistas. Mas eles já dispunham da tecnologia de sequenciamento do DNA,

um sistema de revisão científica por pares e um clima de pesquisa livre das

nuvens contaminadas pela culpa do pensamento freudiano.

Os probióticos, então, embora tenham conseguido manter sua presença nas

prateleiras dos supermercados em forma de alimentos e comprimidos, só

voltaram à consciência científica recentemente. Mais uma vez, a indústria dos probióticos está prosperando. Sem prometer nada, fabricantes de iogurtes e leites

fermentados usam uma inteligente estratégia de marketing para sugerir que você

vai se sentir mais brilhante, inteligente, vigoroso, menos inchado, mais desperto,

feliz e saudável se tomar uma ou duas bebidas reforçadas com lactobacilos toda

manhã. As marcas concorrem em torno das cepas contidas em seus produtos e

de seus supostos benefícios. Pedidos de patentes reivindicam o direito de

produzir e comercializar as combinações específicas de genes e cepas que dão a

cada variedade de probiótico seus próprios poderes especiais. Lactobacillus

rhamnosus mais Propionibacterium, por exemplo, para expulsar a E. coli 0157.

Ou Lactobacillus combinado com “dialquil isossorbido” para combater a acne.

Que tal uma inserção vaginal composta de nove espécies de Lactobacillus e duas

de Bifidobacterium para equilibrar o pH vaginal? E que tal uma variante genética

bem específica de Lactobacillus paracasei para as mulheres grávidas prevenirem a

alergia em seu bebê recém-nascido?

Tudo vai muito bem, mas, apesar das solicitações de patentes, as normas que

regulamentam os medicamentos na maioria dos países não permitem que

produtos contendo bactérias façam alegações de benefícios à saúde. O que antes

eram apenas alimentos fermentados e suplementos dietéticos estão começando

agora a parecer remédios – graças às pesquisas científicas dos benefícios à saúde

trazidos pelas bactérias vivas que eles contêm. Claro que, se espécies de

Lactobacillus conseguem mesmo impedir infecções de E. coli, curar acne ou

prevenir alergias, os fabricantes de iogurte vão querer que seus clientes saibam

disso. Mas medicamentos reais precisam passar por uma cara bateria de testes

clínicos antes de serem liberados ao público. Ao menos em teoria, as companhias

farmacêuticas precisam comprovar que seus remédios são eficazes e seguros.

Claro que comer iogurte é seguro, mas será eficaz? Será que os probióticos

conseguem realmente tornar você mais saudável e feliz?

Em termos técnicos, a resposta é um retumbante sim, mas isto porque a

própria definição de probiótico, de acordo com a Organização Mundial da

Saúde, os considera “micro-organismos vivos que, quando ministrados em

quantidades adequadas, trazem benefícios à saúde do hospedeiro”. Portanto,

perguntar se “os probióticos funcionam mesmo?” não faz sentido. A pergunta

real, então, é quais bactérias – e quantas delas – conseguem prevenir, tratar ou

curar uma doença?

Gostaria de surpreender você com histórias de recuperações milagrosas

provocadas por pouco mais que um pote de iogurte ou uma colônia liofilizada de

bactérias amigáveis. Gostaria de lhe contar que Lactobacillus inventedus vai curar a febre do feno do seu filho e que Bifidobacterium fantasium vai ajudar você a

perder peso. Mas é claro que as coisas não são tão simples assim.

Em seu intestino existem 100 trilhões de micróbios. 100.000.000.000.000. São

mais ou menos 1.500 vezes o número de seres humanos vivendo no planeta, tudo

isso espremido dentro da sua barriga. Esses 100 trilhões de micro-organismos

são formados por cerca de 2.000 espécies diferentes, entre as quais estão

incontáveis cepas distintas, todas com um arsenal específico de habilidades

genéticas. Sim, esses micróbios são na maior parte seus “amigos”, mas as relações

entre eles nem sempre são tão amistosas assim. Populações lutam por espaço,

expulsando oponentes mais fracos, espécies defendem seu pedaço mediante uma

guerra química, matando quem ousar invadi-lo. Indivíduos competem por

nutrientes, desenvolvendo uma cauda para se propelirem até territórios mais

lucrativos.

Agora imagine acrescentar um potinho de iogurte a essa confusão toda.

Imagine o pequeno bando de turistas, nadando em meio ao leite e ao açúcar do

iogurte que lhe servem de veículo – talvez uns 10 bilhões deles, em busca de um

local onde se instalar. Pode parecer uma multidão, mas são quatro zeros a menos

que a multidão já instalada. Um exército nada impressionante para um campo de

batalha desse tamanho. Como filhotes de tartaruga se aventurando no vasto

oceano pela primeira vez, muitos serão provavelmente destruídos aos primeiros

salpicos de liberdade fora de sua garrafinha de plástico. Para aqueles que

alcançam o intestino – algo com certeza possível –, o desafio é se estabelecer e

encontrar meios para sobreviver – algo difícil num território já lotado e nada

acolhedor.

Além da inferioridade numérica, o conjunto de habilidades desses bravos

turistas é pequeno. Todos pertencem à mesma cepa de bactéria, com os mesmos

genes e, portanto, os mesmos recursos. Em comparação com as mais de 2 mil

espécies presentes no intestino e os mais de 2 milhões de genes que carregam, os

turistas, probióticos ou não, têm um repertório bem limitado de truques sob a

manga. Ao final, a influência que podem exercer sobre a saúde de seu hospedeiro

– nós! – importa tanto quanto qualquer outro obstáculo em sua jornada para

trazer o benefício implícito em seu título de probiótico.

Antes que eu seja processada, porém, permita-me dizer o que os turistas que

conseguem se estabelecer por tempo e em número suficiente para fazerem algum

efeito têm a oferecer. Não estou falando só de iogurte, mas de pílulas, barras, pós

e líquidos de estilo mais medicinal que contêm bactérias vivas – às vezes mais de

uma espécie.

Comecemos pela expectativa mais básica que você poderia ter quando se fala

em probiótico: algo que compense os efeitos colaterais mais desagradáveis dos

antibióticos. A dizimação do exército da microbiota costuma aparecer como

consequência indesejada quando tentamos eliminar um tipo de micróbio com

antibióticos. Para muitas pessoas – cerca de 30% dos pacientes – o resultado

dessa redução microbiana é a diarreia. Chamada “diarreia associada a

antibióticos”, essa condição costuma passar depois que o tratamento termina, a

não ser que você tenha o azar de ter contraído algo como C. diff, como ocorreu

com Peggy Kan Hai após sua cirurgia no pé. Se a diarreia é causada apenas pela

perda de bactérias benéficas, substituí-las por mais bactérias boas deveria deter –

ou ao menos melhorar – os sintomas.

É o que ocorre. Não precisamos de nenhum voto de confiança para acreditar

que, entre 63 testes clínicos bem projetados, incluindo um total de quase 12 mil

participantes, descobriu-se que os probióticos reduziam muito as chances de

desenvolver diarreia associada a antibióticos. Das trinta entre cem pessoas que

normalmente teriam diarreia, apenas dezessete terão se estiverem tomando

também um probiótico. Mas não é tão fácil decidir em termos exatos quais

bactérias e qual dose são mais eficazes. É bem provável que antibióticos

específicos tenham uma tendência maior a induzir diarreia, e saber quais são eles

poderia transformar uma receita de probióticos combinados num meio de

evitarmos esse efeito colateral.

Os probióticos também dão sua contribuição aos bebês muito pequenos. Às

vezes, quando nascem cedo demais, o intestino deles começa a morrer. Com o

uso de probióticos preventivos, o risco de vida desses bebês prematuros diminui

em 60%. Além disso, em bebês e crianças com diarreia infecciosa, os probióticos

– particularmente uma cepa conhecida como Lactobacillus rhamnosus GG –

reduziu a duração da doença.

Mas e quanto às doenças mais complexas? E os transtornos que já se

estabeleceram? Para distúrbios mentais e autoimunes plenamente desenvolvidos,

como diabetes tipo 1, esclerose múltipla e autismo, o problema dos probióticos é

que são insuficientes e chegam tarde demais. As células do pâncreas que liberam

insulina já pararam de funcionar, as células nervosas já perderam sua bainha e as

células cerebrais em desenvolvimento já tomaram o rumo errado. Mesmo nas

alergias, embora nenhuma célula seja destruída, o sistema imunológico já está

descontrolado. Trazê-lo de volta à normalidade pode ser tão difícil quanto

despertar as células do pâncreas ou revestir os nervos de volta.

Estudos reais, bem projetados e revisados por pares descobriram que

probióticos de diferentes marcas, espécies e cepas podem de fato deixá-lo mais

feliz e saudável, melhorando o humor, aliviando irritações de pele e febre do

feno, reduzindo os sintomas da SII, prevenindo a diabetes gestacional, curando

alergias e até ajudando na perda de peso. Embora a maioria desses transtornos

não seja totalmente curável – ao menos não em apenas poucas semanas ou meses

de tratamento –, os probióticos oferecem alguns benefícios. Mas é na prevenção,

mais que na cura, que vemos melhor seu real efeito.

Vejamos este experimento com camundongos, por exemplo. Existe uma

espécie que, por uma peculiaridade genética, quase com certeza desenvolverá o

equivalente da diabetes tipo 1 em ratinhos ao atingir a fase adulta. Mas quando

os pesquisadores ministraram a eles todos os dias, a partir da quarta semana de

vida, um composto chamado VSL#3 – um probiótico formado por 450 bilhões

de bactérias de oito cepas diferentes –, esse “destino” genético se atenuou.

Enquanto 81% dos camundongos que receberam placebo desenvolveram

diabetes ao atingir 32 semanas, somente 21% dos que receberam o probiótico

desenvolveram a doença. Isso significa que três quartos deles foram protegidos

de um transtorno autoimune quase inevitável com uma única dose diária de

bactérias vivas.

Iniciar seu tratamento com probióticos um pouco mais tarde, com 10

semanas de vida, mostrou-se um caso em que se aplica a máxima do “antes tarde

do que nunca”. Com 32 semanas, cerca de 75% dos camundongos tratados com

placebo estavam diabéticos, mas apenas 55% dos camundongos tratados com

probióticos haviam desenvolvido a doença. Embora menos impressionante, a

redução nos casos de diabetes ainda assim foi significativa.

As centenas de bilhões de bactérias contidas no VSL#3 – que afirma possuir

mais indivíduos e espécies que qualquer outro produto probiótico no mercado –

de algum modo alteraram o desenvolvimento da diabetes nos camundongos

geneticamente suscetíveis. Seria esperado que o sistema imunológico logo

passasse a ter aversão às células do pâncreas, mas essas bactérias parecem

impedir isso. O sistema imunológico dos camundongos tratados com esse

probiótico arregimenta uma equipe de glóbulos brancos do sangue que marcham

para o pâncreas, onde liberam um mensageiro químico anti-inflamatório que

impede a destruição das células desse órgão. É um dado muito inspirador: talvez

um tratamento com probióticos a intervalos adequados fosse capaz de deter essas

doenças antes que se desenvolvessem em seres humanos também. Há um teste clínico em andamento para examinar essa ideia, mas os resultados ainda vão

demorar algum tempo.

Os probióticos, portanto, devem ter algum tipo de efeito sobre o

funcionamento do sistema imunológico para serem benéficos à saúde. Voltando

à origem subjacente das doenças do século XXI – a inflamação que assola nosso

corpo –, os probióticos precisam derrotá-la para demonstrarem seu real valor.

Você se lembra das células T reguladoras (T ) de que falamos no capítulo 4? regs

Elas são os generais do sistema imunológico encarregados de acalmar os

linfócitos sedentos de sangue quando não há nada para atacar. Em última

análise, esses generais são controlados pela microbiota, que recruta mais e

melhores T para impedir que o sistema imunológico lance um ataque contra regs

ela. Os probióticos imitam esse efeito, encorajando as T existentes a suprimir regs

os membros rebeldes das fileiras do sistema imunológico. Mais uma vez, o

probiótico VSL#3 mostrou um efeito benéfico sobre os camundongos, reduzindo

o efeito do intestino permeável – que parece ser tanto causa quanto consequência

da inflamação.

Quando se trata de probióticos, três fatores são importantes. Primeiro: quais

espécies e cepas o produto contém? Com frequência, essas informações não são

detalhadas ou não correspondem ao conteúdo real quando é feita a cultura ou o

sequenciamento de suas amostras. É provável que quanto mais espécies, melhor,

embora tenhamos pouca compreensão do impacto de diferentes cepas sobre o

corpo. Segundo: quantas bactérias individuais, ou unidades formadoras de

colônia (UFCs), o produto contém? Lembre-se da competição que esses turistas

enfrentam em seu caminho pelo intestino. Quanto mais UFCs, maiores as

chances de surtirem efeito. Terceiro: como essas bactérias estão embaladas? Os

probióticos vêm em variadas formas: pós, pílulas, barras, iogurtes, bebidas e até

cremes para a pele. Alguns vêm misturados com outros suplementos – um

complexo multivitamínico, digamos. Simplesmente não se sabe o que esses

compostos fazem com as bactérias, e muitos probióticos em forma de iogurte

vêm acompanhados de uma boa dose de açúcar – o que pode até fazer com que

ofereçam mais riscos que benefícios à saúde.

O primeiro desses pontos – as espécies e cepas – é provavelmente o mais

controverso. O legado de Mechnikov perdura até hoje em muitas das cepas

comercializadas como probióticos. Membros do gênero Lactobacillus, apesar de

todo o seu valor na produção de iogurte, não são tão numerosos assim na flora

intestinal de um adulto. É verdade que eles prosperam no intestino de bebês

nascidos de parto normal que mamam no peito, mas uma vez feito seu trabalho, sua quantidade passa a representar menos de 1% da comunidade bacteriana

intestinal total. Os lactobacilos largaram na frente na indústria dos probióticos

por um simples motivo: sua cultura é possível. Já que, ao contrário da maioria

dos membros da flora intestinal, conseguem sobreviver em contato com o

oxigênio, são relativamente fáceis de cultivar numa placa de Petri ou mesmo

num tanque de leite quente. Isso significa que sua presença foi distorcida para

mais nos primeiros estudos da flora humana. Se os probióticos tivessem surgido

no admirável mundo novo do sequenciamento do DNA e das culturas

anaeróbicas (sem oxigênio), é provável que não tivéssemos selecionado os

lactobacilos como o grupo mais adequado para fortalecer nossas colônias

diversificadas.

É verdade que os probióticos têm seu lugar, mas e se você estiver numa

situação como a de Peggy Kan Hai? Com seu peso despencando e sem outras

opções de antibióticos, ela estava desesperada. O risco de desenvolver

“megacólon tóxico” passou por sua mente. Seu cólon poderia explodir de

verdade, liberando seu conteúdo na cavidade abdominal. Se isso ocorresse, suas

chances de morrer eram terrivelmente altas. No ano anterior, cerca de 30 mil

pessoas haviam morrido de infecção de C. diff nos EUA – bem mais do que

morrem de AIDS, por exemplo –, e Peggy não queria se juntar à estatística.

Havia, porém, uma opção de tratamento. Peggy ouvira um amigo mencionar

que sua irmã, que trabalhava como enfermeira, tinha lhe contado que pacientes

com diarreia grave estavam recebendo uma terapia nova, disponível em poucos

hospitais no mundo. Aparentemente, vinham melhorando. Peggy estava disposta

a tentar qualquer coisa. Após algumas ligações telefônicas para um desses

hospitais, ela comprou passagens do Havaí para a Califórnia a fim de começar o

tratamento. Seu marido iria acompanhá-la, mas não apenas para dar apoio

moral. Seria ele quem forneceria a Peggy a doação de que tanto precisava: um

novo conjunto de micróbios. O fato de esses micro-organismos se encontrarem

em suas fezes não desanimou nenhum dos dois. Simplesmente não havia outras

opções.

Conhecido como Transplante da Microbiota Fecal ou Bacterioterapia, o

nome já indica em que esse tratamento consiste. As fezes de um indivíduo são

coletadas e inseridas no intestino de outro. Parece nojento, mas não somos a

primeira espécie a ter essa ideia. Outros animais, de lagartos a elefantes,

entregam-se à coprofagia ocasionalmente. Para alguns deles, como coelhos e

roedores, comer as próprias fezes é parte essencial de sua alimentação,

permitindo um segundo acesso aos nutrientes ocultos nas células das plantas depois de terem sido rompidas pelos micróbios do intestino. Não se trata de uma

contribuição irrelevante à sua ingestão calórica. Ratos atingem apenas três

quartos de seu tamanho normal quando são impedidos de comer as próprias

fezes.

Para outras espécies, porém, a coprofagia é relativamente incomum e os

zoólogos com frequência costumam considerá-la um “comportamento anormal”.

As matriarcas de manadas de elefantes, por exemplo, produzem um esterco

aquoso, aparentemente para que os membros mais jovens da manada possam

apanhá-lo com suas trombas e ingeri-lo. Os chimpanzés também comem as fezes

uns dos outros. De acordo com a zoóloga britânica Dame Jane Goodall – cujos

estudos dedicados dos chimpanzés na Tanzânia levaram a uma revolução em

nossa compreensão do comportamento desses primatas –, alguns chimpanzés

praticam a coprofagia quando têm diarreia. O excesso de frutas recém-

amadurecidas da floresta pode resultar num surto de diarreia, à medida que os

micróbios do intestino dos chimpanzés se ajustam à nova fonte de comida. Um

dos animais estudados por Goodall, uma fêmea chamada Pallas, sofria de

diarreia crônica intermitente por dez anos. Sempre que a diarreia retornava, ela

passava a ingerir fezes. De nossa recém-descoberta perspectiva microbiana, é

possível especular que Pallas estivesse aproveitando as fezes de chimpanzés

saudáveis para restaurar seu próprio equilíbrio microbiano. Talvez chimpanzés

com diarreia, após se fartarem com uma nova colheita de frutas, sejam

coprofágicos porque isso lhes permite adquirir de outros membros da tropa que

já passaram por mais ciclos de frutas os micróbios “certos”.

Embora seja algo raro na vida selvagem, animais presos em zoológicos têm

um gosto especial pela coprofagia – para o prazer das criancinhas e o desgosto de

seus cuidadores. Essa prática costuma ser atribuída ao tédio – acompanhada de

comportamentos típicos, como se balançar para a frente e para trás, andar de um

lado para outro e se limpar obsessivamente. Um psiquiatra habituado a lidar com

pacientes no espectro autista, com síndrome de Tourette e transtorno obsessivo-

compulsivo poderia observar algumas semelhanças entre esses comportamentos

em seus pacientes e nos animais em cativeiro. Sem falar no fascínio pelas fezes –

tanto comê-las quanto esfregá-las por aí – exibido por crianças com autismo

mais grave, bem como por alguns pacientes esquizofrênicos e com TOC. A

interpretação freudiana para a causa do comportamento repetitivo, tanto de

animais quanto de pacientes, poderia ser de ausência dos pais ou frustração

psicossocial. A interpretação fisiológica, porém, tem uma abordagem mais

microbiana: haveria melhor meio de corrigir uma microbiota aberrante que está produzindo um comportamento repetitivo do que consumir as fezes de

indivíduos saudáveis? A coprofagia, então, não seria uma conduta anormal, mas

sim adaptativa: um animal doente tentando corrigir sua disbiose.

De fato, em experimentos, fornecer folhas fibrosas a chimpanzés em cativeiro

reduz seu comportamento coprofágico. Na verdade, eles não as comem, mas as

chupam e as colocam sob a língua. Trata-se de um palpite, mas será que estariam

sugando a camada de bactérias que vivem de digerir essas folhas? Assim

poderiam semear a própria microbiota com bactérias, ou genes bacterianos, que

os ajudam a digerir seus alimentos, como os japoneses cuja microbiota contém

genes de bactérias originárias de algas usadas no sushi que comem. Tendo acesso

aos micróbios benéficos das folhas, talvez a coprofagia perca a importância para

os chimpanzés cativos.

É fácil fornecer uma microbiota nova a camundongos de laboratório livres de

germes: basta hospedá-los com camundongos já colonizados. Alguns dias de

coprofagia depois, os ratinhos passam a ter os mesmos micróbios. Tantos que

mesmo hospedar dois grupos de camundongos que já possuam um conjunto

completo de micróbios pode resultar em mudanças nas espécies que cada um

abriga. Em outro experimento interessante conduzido por Jeffrey Gordon na

Washington University, em St Louis, em 2013, pesquisadores tomaram dois

conjuntos de camundongos livres de germes e inocularam um deles com a

microbiota do intestino de seres humanos obesos. O detalhe desse experimento

foi que cada uma dessas pessoas obesas tinha um irmão gêmeo magro. Assim, o

segundo conjunto de ratinhos livres de germes recebeu micróbios do intestino

dos irmãos gêmeos magros. Como era esperado, os camundongos com a

microbiota obesa acumularam mais gordura corporal que aqueles com a

microbiota magra. Cinco dias após a inoculação, os dois conjuntos de ratinhos

foram reunidos com seu colega correspondente, que havia recebido as bactérias

do irmão gêmeo. O notável é que os camundongos obesos ganharam menos peso

vivendo junto com seus “irmãos gêmeos” magros do que se não tivessem sido

expostos a eles. O exame da microbiota dos dois grupos de camundongos revelou

que a microbiota dos camundongos obesos havia mudado e passado a se parecer

mais com a dos magros, enquanto a dos magros permanecera estável.

Se fôssemos chimpanzés, poderíamos compartilhar nossas fezes para nos

mantermos magros e saudáveis. Mas a boa notícia é que a coprofagia é

inteiramente desnecessária para nos beneficiarmos da microbiota saudável de

um colega humano. O que não quer dizer que a alternativa clínica – o

transplante fecal – seja completamente palatável. Em sua forma mais grosseira, o procedimento envolve misturar fezes de um doador saudável com soro

fisiológico, colocar tudo num liquidificador e depois esguichar esse composto no

intestino grosso do paciente através de um longo tubo de plástico com uma

câmera acoplada – um colonoscópio – inserido de baixo para cima, por assim

dizer. Às vezes, os transplantes fecais também são realizados de cima para baixo,

via um tubo nasogástrico, que entra pela narina e desce pela garganta, chegando

até o estômago.

Um dos pioneiros no uso moderno dos transplantes fecais, Dr. Alexander

Khoruts, recorda suas primeiras experiências na preparação de suspensões fecais:

“Fiz os dez primeiros transplantes da forma antiga, com um liquidificador no

banheiro da sala de endoscopia. Durante essa experiência, rapidamente percebi

os obstáculos práticos à realização de transplantes fecais num ambiente clínico

movimentado. A potência olfativa do material fecal humano se revela ao toque

do botão do liquidificador e pode ser bem nauseante – capaz de esvaziar as salas

de espera.” Não apenas isso, mas preparar um aerossol das fezes, por mais livre

de patógenos que seja, não é particularmente seguro para o médico que o faz.

Mesmo os micróbios mais bem-intencionados podem ser prejudiciais se

entrarem no lugar errado – o que é saudável no intestino pode ser muito nocivo

nos pulmões.

A ideia de transplantes fecais é nojenta, não é? Se você ainda estiver lendo,

vou tentar acabar com essa má impressão. Para mim, existem duas formas de

lidar com o fator “nojo” dos transplantes fecais. Uma é dourar a pílula, usar

eufemismos e esperar que você não pense demais no assunto. A outra é

confrontar seu nojo. Sim, parece repugnante, mas são apenas micróbios, plantas

mortas e água – cerca de 70% são bactérias. A cor marrom vem do pigmento dos

glóbulos vermelhos decompostos, convertidos por seu fígado e ejetados como

refugo. E, sim, o cheiro é ruim. Mas não passam de gases, sobretudo ácido

sulfídrico e outros contendo enxofre, criados pelos micro-organismos do

intestino ao decompor os restos da sua alimentação.

O nojo é uma emoção protetora que se desenvolve para nos manter afastados

de coisas que podem nos fazer mal. Vômito, matéria em putrefação, nuvens de

insetos, cadáveres de pessoas que não conhecemos nem amamos, coisas viscosas,

pegajosas. E fezes. Sentimos um nojo especial pelas fezes dos animais que comem

carne (Onde você ia preferir colocar a mão? Num cocô de cachorro ou de vaca?)

e de nossos colegas humanos. No mundo inteiro, fazemos a mesma cara quando

somos confrontados com algo nojento: recuamos a cabeça, nosso nariz se achata

e franzimos as sobrancelhas. Costumamos levar as mãos ao peito e nos afastar. Se a coisa for realmente repugnante, vomitamos na hora. Essa reação de nojo

codificada pela evolução ajuda a evitar que entremos em contato com patógenos

que poderiam estar no vômito, na matéria em putrefação, na coisa viscosa, na

coisa pegajosa. Ou nas fezes.

Portanto, não querer pensar em cocô, menos ainda no de outra pessoa

entrando em seu corpo, é perfeitamente natural. Mas, em vez disso, pense por

um momento numa transfusão de sangue. É provável que essa ideia não lhe

cause tanto nojo. Pense em bolsas de sangue coletadas de doadores saudáveis

com cuidado e examinadas para evitar doenças que poderiam estar ocultas nas

células ou no plasma. Rotuladas com o grupo sanguíneo correspondente e data

de coleta, penduradas, salvando vidas. Uma imagem bem clínica, estéril, quase

futurista.

Mas o sangue, assim como as fezes, pode carregar patógenos, como o HIV e o

micro-organismo que causa a hepatite. O sangue, assim como as fezes, apodrece

quando é exposto a bactérias no ar. E as fezes, tanto quanto o sangue, podem

salvar vidas. Pense na suspensão de microbiota fecal pelo que ela realmente é: um

líquido com propriedades benéficas à saúde. O Dr. Alexander Khoruts costuma

contar a história de uma aluna de medicina que foi doar suas fezes para pacientes

com C. diff. Quando ela contou aquilo aos amigos, muitos dos quais também

estudantes de medicina, em vez de elogiarem sua abnegação e comentarem que

precisavam também arrumar um tempinho para doar – como teriam feito se ela

estivesse doando sangue –, riram e zombaram de seus esforços.

Os médicos do século XXI, que já conhecem o crescente estudo da

microbiota, não foram os primeiros a descobrir as propriedades curativas das

fezes. Um médico chinês do século IV chamado Ge Hong escreveu, em seu

Manual de prática e emergência clínica, que ministrar uma bebida feita das fezes

de alguém saudável a pacientes com intoxicação alimentar ou diarreia grave

proporciona uma cura milagrosa. O mesmo tratamento é mencionado 1.200

anos depois, de novo em outro livro médico chinês, desta vez referido com “sopa

amarela”. Parece que naquela época era tão difícil tornar os transplantes fecais

palatáveis aos pacientes – metaforicamente falando – quanto agora.

No entanto, convencer alguém que tenha passado os últimos três meses no

banheiro e perdido um quinto de seu peso corporal a dar uma chance ao

transplante fecal é bem mais fácil. Para Peggy Kan Hai, o nojo de transplantes

fecais que porventura tivesse antes de ficar doente desapareceu. Na clínica da

Califórnia, poucas horas após a colonoscopia e a irrigação com uma suspensão

dos micróbios fecais filtrados de seu marido, ela já tinha melhorado. Pela primeira vez em meses não sentiu necessidade de ir ao banheiro toda hora,

ficando quarenta horas seguidas longe dele. Alguns dias depois, a diarreia havia

desaparecido. Após duas semanas, seus cabelos tornaram a crescer, a acne em seu

rosto começou a sumir e Peggy voltou a ganhar peso.

A taxa de cura de infecções recorrentes de C. diff com tratamento de

antibióticos é de cerca de 30%. Mais de um milhão de pessoas são infectadas a

cada ano, e dezenas de milhares morrem. Mas o tratamento com transplante

fecal oferece uma taxa de cura superior a 80%. Para quem tem alguma recaída

após o primeiro transplante – como aconteceu com Peggy –, um segundo

transplante eleva a taxa de cura para mais de 95%. Difícil pensar em qualquer

outra doença potencialmente fatal que possa ser curada em um só procedimento

não cirúrgico, sem necessidade de remédios, a um baixo custo e com tão alta taxa

de sucesso.

Os transplantes fecais se tornaram a base dos tratamentos oferecidos pelo

professor e gastroenterologista Tom Borody no Centro de Doenças Digestivas,

em Sydney, na Austrália. Em 1988, esse médico teve uma paciente, Josie, que

havia contraído uma bactéria quando foi passar as férias em Fiji e, desde então,

vinha sofrendo de diarreia, cólicas, prisão de ventre e inchaço. O que deveria ter

sido uma cura fácil com uma prescrição de antibióticos começou a se arrastar,

chegando ao ponto de Josie tentar o suicídio. Borody, preocupado com o

sofrimento da paciente, já não tinha opções para tentar restaurar seu estado de

saúde. Ele mergulhou na literatura médica e descobriu o caso de três homens e

uma mulher que, em 1958, haviam desenvolvido diarreia grave com dor

abdominal após serem tratados com antibióticos – caso similar ao de Josie. Três

deles ficaram à beira da morte, na terapia intensiva, e as estatísticas não eram

favoráveis: uma taxa de mortalidade de 75% na época. Seu médico, Ben Eiseman,

resolveu tratá-los com um transplante fecal. Horas ou dias após receberem os

enemas fecais, todos os quatro conseguiram se levantar e sair do hospital –

completamente livres da diarreia que os atormentara por meses.

Borody, entusiasmado com a possibilidade de cura de sua paciente, sugeriu-

lhe a ideia. Esta, assim como Peggy Kan Hai, estava disposta a qualquer coisa. O

médico ministrou o transplante durante dois dias. Alguns dias depois, Josie

estava muito melhor – tanto que já podia voltar a trabalhar. A resistência a esse

tratamento era tamanha na época que Borody não teve coragem de contar a

ninguém o que fizera para ajudar Josie, mas daquele momento em diante, ele e

sua equipe passaram a usar transplantes fecais sempre que acreditavam que uma

restauração microbiana pudesse ser benéfica ao paciente. No decorrer do ano seguinte, realizaram 55 transplantes para curar problemas que variavam de

diarreia e prisão de ventre a doença inflamatória intestinal. De todos os

pacientes, 26 não melhoraram, mas nove melhoraram e vinte se recuperaram por

completo.

Nos anos seguintes, Borody e sua equipe descobriram quais doenças

respondiam ao transplante fecal. Atualmente, já realizaram mais de 5 mil

transplantes, a maioria para tratar síndrome do intestino irritável com diarreia

predominante e infecções por C. diff. Com uma taxa de cura de 80% em sua

clínica, o transplante fecal é de longe a terapia mais eficaz para essa forma de SII.

O tratamento da prisão de ventre é mais difícil, pois tem uma taxa de cura de

apenas 30% e podem ser necessários muitos transplantes repetidos. Apesar dos

casos de sucesso e da demanda dos pacientes, Borody e outros médicos que

aplicam essa técnica costumam ser chamados de charlatães. Como as fezes não

são um medicamento que possa ser fabricado e vendido, os transplantes não

estão sujeitos às regras e regulamentações farmacêuticas – e como testes clínicos

não são rigorosamente necessários, muitos médicos duvidam da real eficácia dos

transplantes fecais.

Mas Peggy Kan Hai e outras pessoas em sua situação têm se mostrado

dispostas a aceitar a ideia. Nas palavras de Peter Whorwell, professor de

medicina e gastroenterologia da Universidade de Manchester: “Meus pacientes

de SII estão ansiosos por isso.” Na realidade, são os médicos que costumam

hesitar – seja devido ao fator nojo, seja por considerarem o transplante fecal uma

pseudociência.

Embora o Centro de Doenças Digestivas seja uma clínica de

gastroenterologia, Borody testemunhou casos de pacientes de outras doenças que

tiveram uma recuperação extraordinária. Não é nenhuma surpresa que alguns de

seus pacientes com prisão de ventre e diarreia também sofram de certas doenças

do século XXI. Bill, um homem que vinha sofrendo de esclerose múltipla havia

anos e não conseguia mais andar, fez uma visita a Borody para um transplante

fecal na tentativa de aliviar os sintomas de sua prisão de ventre crônica. Após

vários dias de infusões fecais, começou a se sentir diferente. Com o tempo,

recuperou a saúde e a capacidade de andar. Hoje, é como se nunca tivesse sido

afetado pela esclerose múltipla.

Bill não foi seu único paciente de doença autoimune a recuperar a saúde

depois de receber transplantes fecais. Dois outros pacientes de esclerose múltipla,

uma mulher jovem no estágio inicial da artrite reumatoide, uma vítima da

doença de Parkinson e um paciente de púrpura trombocitopênica idiopática – uma doença em que o sistema imunológico destrói as plaquetas de sangue – se

recuperaram após transplantes fecais. Resta verificar se essas curas

aparentemente milagrosas se deveram aos transplantes ou foram remissões

espontâneas.

Como fezes não são medicamentos – e tudo de que você precisa é um

liquidificador, um pouco de soro fisiológico, uma peneira e uma ajudinha de

alguns vídeos do YouTube –, qualquer um pode ministrar seu próprio

transplante fecal, e milhares de pessoas o fazem. Não é de estranhar que entre

elas estejam pais de crianças autistas. O próprio Dr. Borody testemunhou

melhorias no estado de saúde de crianças autistas após transplantes fecais e a

ministração repetida de micróbios fecais através de uma bebida aromatizada. Sua

intenção era aliviar os sintomas gastrointestinais, não os psíquicos, da doença,

mas o médico conta que várias crianças melhoraram após o tratamento. O caso

mais encorajador foi de uma criança com um vocabulário de pouco mais de vinte

palavras que disparou para cerca de oitocentas nas semanas após a terapia

microbiana. Por enquanto, tudo isso é circunstancial e nenhum teste clínico foi

realizado para avaliar os efeitos do transplante fecal em pacientes autistas,

embora alguns tenham sido planejados. Mas a falta de provas não é suficiente

para deter os pais: para muitos deles, qualquer tentativa é válida.

Para distúrbios como autismo e diabetes tipo 1, os transplantes fecais podem

– como os probióticos – ter chegado tarde demais e serem insuficientes. Se o

dano já foi causado e as janelas de desenvolvimento se fecharam, a restauração da

microbiota saudável pode apenas evitar danos adicionais. No entanto, no caso de

outros distúrbios, com sintomas progressivos, talvez seja possível reverter os

danos.

Você se lembra do experimento no capítulo 2 em que a microbiota do

intestino de uma pessoa obesa foi colocada num camundongo livre de germes?

Duas semanas depois, o camundongo havia engordado, mesmo não comendo

mais que antes. Mas o que aconteceria se você realizasse o experimento ao

contrário? O que aconteceria se você transferisse a microbiota de uma pessoa

magra e saudável para uma obesa? Foi exatamente o que uma equipe de

cientistas do Centro Médico Acadêmico de Amsterdã fez.

O objetivo não era ver se as pessoas obesas perderiam peso. Em vez disso, eles

queriam descobrir qual seria o impacto imediato da microbiota magra. Será que

receber uma colônia microbiana de uma pessoa magra melhoraria o

metabolismo da pessoa obesa? No capítulo 2 mencionamos a existência de dois

grupos de pessoas obesas: as saudáveis e as doentes. Os obesos doentes – de longe, a maioria – não são apenas gordos, mas também possuem sintomas do

problema de saúde mais economicamente importante de que você nunca ouviu

falar: a síndrome metabólica. Uma constelação perigosa de distúrbios, esta

síndrome inclui não apenas a obesidade, mas diabetes tipo 2, hipertensão e

colesterol alto. Gastam-se bilhões todos os anos para tratar as vítimas da

síndrome metabólica – que, em última análise, está por trás da maioria das

mortes no mundo desenvolvido. No topo da lista de mortes associadas à

síndrome metabólica estão a doença cardíaca, cânceres relacionados ao

sobrepeso e derrames.

Um dos aspectos da síndrome metabólica – a diabetes tipo 2 – oferece um

ótimo indicador da saúde de uma pessoa. Ao contrário da variedade “tipo 1”,

cujas células produtoras de insulina foram destruídas pelo sistema imunológico,

o diabético tipo 2 costuma ser capaz de produzir insulina. O problema é que suas

células não reagem a ela. A insulina é um hormônio que instrui as células do

corpo a armazenarem glicose (o açúcar) do sangue na forma de gordura quando

ela não é necessária para gerar energia naquele momento. À glicose proveniente

da comida, corresponde a liberação de certa quantidade de insulina para evitar

que os níveis de glicose no sangue fiquem perigosamente altos. Mas se os níveis

de insulina no sangue estão sempre elevados, o corpo começa a ignorar o pedido

de armazenar glicose. Isso constitui a resistência à insulina, uma condição

perigosa. Cerca de 30% a 40% das pessoas com excesso de peso ou obesas têm

diabetes tipo 2, e 80% delas acabarão morrendo de complicações cardíacas.

Em pessoas saudáveis – com excesso de peso ou não –, o nível de açúcar no

sangue sobe brevemente após uma refeição. A concentração de glicose do sangue

aumenta, a insulina é liberada e o nível de açúcar no sangue volta a cair. Essa

reação rápida indica que as células são “sensíveis” à insulina – ou seja, estão

obedecendo às instruções de armazenar a glicose para uso posterior. Entre as

pessoas resistentes à insulina, não existe esse pico de glicose. O açúcar no sangue

aumenta, mas começa a cair bem devagar. Um meio de reverter a resistência à

insulina poderia impedir muitas mortes associadas à síndrome metabólica.

Assim como transferir micróbios de pessoas obesas para camundongos pode

fazer com que eles ganhem peso, Vrieze e Nieuwdorp, que estavam conduzindo

o estudo holandês, quiseram saber se transplantar fezes de pessoas magras e

saudáveis para pessoas obesas poderia atenuar os sintomas relacionados ao

excesso de peso. Para isso, começaram um teste clínico que chamaram de

Administração Fecal para Perder Resistência à Insulina. Será que um transplante

fecal de microbiota “magra” poderia torná-las mais sensíveis à insulina? Será que suas células passariam a armazenar glicose mais rápido? Eles trataram nove

homens obesos com uma infusão das fezes de doadores magros e outros nove

com uma infusão das próprias fezes para serem o grupo de controle. Seis

semanas após o transplante fecal, os homens que receberam as microbiotas

“magras” se tornaram mais sensíveis à insulina. Suas células passaram a

armazenar glicose no dobro do ritmo anterior, quase igualando a sensibilidade à

insulina dos doadores saudáveis magros. Os homens obesos que tiveram as

próprias fezes postas de volta em seu intestino armazenaram glicose no mesmo

ritmo – sua sensibilidade à insulina permaneceu baixa como antes.

É incrível pensar que os micróbios vivendo em seu intestino podem

representar a diferença entre ser saudável e sofrer de um distúrbio com 80% de

chances de doença cardíaca. A diversidade da microbiota dos homens que

recuperaram a sensibilidade à insulina aumentou, passando de uma média de

178 para 234 espécies. Entre as espécies extras, estavam grupos de bactérias

produtoras do butirato, um ácido graxo de cadeia curta que desempenha um

papel importante na prevenção da obesidade. Esse composto é benéfico para as

células do intestino grosso, fortalecendo as cadeias de proteína que unem as

células de sua mucosa, cobrindo-a de uma camada espessa de muco e impedindo

o intestino de se tornar permeável.

Vrieze e Nieuwdorp também querem saber se os transplantes fecais de

micróbios magros podem causar a perda de peso em pessoas obesas, como

acontece com os camundongos. Um segundo teste para descobrir se isso também

funciona com seres humanos ainda está em andamento. Os resultados poderiam

revolucionar o tratamento da obesidade e da síndrome metabólica – poupando

dinheiro e melhorando a vida de muitas pessoas.

Se os distúrbios da síndrome metabólica – incluindo a diabetes tipo 2 –

podem ser revertidos pela restauração da microbiota intestinal saudável, será que

os transplantes fecais são na verdade necessários? Será que os probióticos teriam

o mesmo efeito? Dois testes bem projetados da espécie Lactobacillus ofereceram

resultados encorajadores, trazendo benefícios tanto para a sensibilidade à

insulina quanto para o peso corporal. Em última análise, quaisquer que sejam a

espécie e o resultado, os probióticos são um bálsamo e passam por nós – mas não

permanecem muito tempo. Para extrair seus benefícios, você precisa tomá-los

repetidamente. E ainda que os tome todos os dias, acrescentar apenas probióticos

à dieta é como enviar um soldado de infantaria à guerra sem munições.

Para um efeito persistente, precisamos oferecer aos micróbios benéficos um

ambiente onde eles possam florescer, dia após dia, sem a necessidade de uma intervenção externa para aumentar sua população. E, assim, chegamos aos

prebióticos. Não se trata de bactérias vivas, mas de comidas de bactéria que

estimulam a expansão de populações inteiras das cepas mais saudáveis. Com

nomes complicados como fruto-oligossacarídeos, inulina e galacto-

oligossacarídeos, parecem aditivos químicos suspeitos listados no rótulo de uma

refeição congelada. Mas embora sejam compostos químicos como qualquer

alimento – das cenouras (betacaroteno, ácido glutâmico e hemicelulose, por

exemplo) à carne (dimetilpirazina, 3-hidroxi-2-butanona e muito mais) –, sua

origem não é sintética. São encontrados em alimentos de origem vegetal – nas

fibras não digeríveis que deveríamos estar comendo também. No entanto,

também estão disponíveis na forma de suplementos alimentares.

Os benefícios dos prebióticos, isolados ou em suas embalagens originais

deliciosas (particularmente presentes na cebola, no alho, no alho-poró, nos

aspargos e na banana, para citar alguns), podem ser mais amplos que os dos

probióticos. Sua eficácia foi constatada na recuperação de casos de intoxicação

alimentar, no tratamento de irritações de pele e até na prevenção do câncer de

cólon, mas as pesquisas ainda estão no estágio inicial. A boa notícia é que os

prebióticos também podem ser um tratamento para a síndrome metabólica, pois

encorajam a presença de bifidobactérias e Akkermansia muciniphila, que ajudam

a vedar o intestino permeável, reduzir o apetite, aumentar a sensibilidade à

insulina e estimular a perda de peso.

 

No fundo, o transplante fecal não é tão diferente de um probiótico: o objetivo

dos dois é fornecer ao paciente micróbios benéficos ao intestino. Um costuma

ser cultivado em laboratório, enquanto o outro é cultivado no ambiente ideal do

intestino de alguém. É só uma questão de tempo antes que os dois conceitos se

combinem. Com uma cápsula bem projetada que entregue seu conteúdo no local

exato do intestino, a mesma comunidade de micróbios fecais que constituem a

solução usada no transplante pode preencher um medicamento que será

engolido com um copo d’água. Sua superioridade em relação a um probiótico

composto de sobras da história científica – os lactobacilos – seria imensa, sem os

inconvenientes, as despesas e a humilhação associada ao transplante fecal

realizado por colonoscópio.

O professor Borody vem trabalhando no desenvolvimento de uma cápsula

assim em colaboração com Alexander Khoruts. Em dezembro de 2014, no

ambiente regulatório relativamente tranquilo da Austrália, ele já conseguiu usar

a cápsula para curar um paciente australiano de C. diff pela primeira vez. Essas pílulas contêm a mesma solução fecal usada por Borody em transplantes, mas é

ministrada por via oral.

A cientista do microbioma Dra. Emma Allen-Vercoe, porém, em meio às

regulamentações mais rigorosas do Canadá, vem trabalhando em fezes sintéticas.

Usando a mesma tecnologia aplicada nas pesquisas sobre o autismo – a câmara

de cultura livre de oxigênio que chamam de Robogut –, ela e a especialista em

doenças infecciosas Dra. Elaine Petrof, da Queen’s University em Kingston,

Ontário, prepararam um coquetel de micróbios conhecidos para substituir as

fezes brutas em transplantes fecais. A receita dessa mistura vem sendo

aperfeiçoada há 41 anos no intestino de uma mulher cuja saúde é perfeita. Achar

alguém tão saudável assim levou quase o mesmo tempo.

Todos os anos, Allen-Vercoe ministra uma disciplina de microbiologia

introdutória para cerca de trezentos alunos de graduação na Universidade de

Guelph. E todos os anos faz ao grupo a mesma pergunta: alguém aí nunca tomou

antibiótico? Ninguém jamais levanta a mão. Mesmo entre a população atlética,

jovem e saudável de estudantes universitários, parecia impossível encontrar

alguém cujos micróbios não tivessem sido sujeitos ao dano colateral potencial

dos antibióticos. No entanto, ela acabou achando uma mulher que havia sido

criada na área rural da Índia, onde os antibióticos não eram muito disponíveis.

Quando criança, nunca tomara antibióticos e, depois de adulta, recebera uma

única dose, após levar pontos no joelho. Ela estava fisicamente apta, saudável,

sem doenças e seguia uma dieta orgânica, balanceada. Allen-Vercoe enfim achara

a doadora de fezes perfeita.

As cientistas usaram as fezes de sua superdoadora para criar uma

combinação singular de cultura de micróbios. Selecionaram 33 cepas bacterianas

sabidamente não perigosas, fáceis de cultivar e elimináveis com antibióticos se

necessário. Petrof tinha duas pacientes mulheres que estavam muito doentes

havia meses, com infecções recorrentes de C. diff após um tratamento com

antibióticos. Em vez de ministrar um transplante fecal tradicional, o plano foi

semear o intestino das pacientes com fezes sintéticas. Horas depois, as duas

mulheres estavam livres da diarreia e prontas para voltar para casa. Graças ao

sucesso inicial desse tratamento, Allen-Vercoe e Petrof transformaram os

Transplantes de Microbiota Fecal em algo muito mais moderno: Terapia de

Ecossistema Microbiano.

Enquanto Allen-Vercoe, Petrof e Borody aperfeiçoam seus produtos e

transpõem as barreiras necessárias, os transplantes fecais tradicionais vão

continuar sendo o protocolo-padrão do tratamento de infecções recorrentes de C. diff. Mas o futuro do transplante fecal está na personalização. Tudo bem usar

as fezes de um doador escolhido e examinado, mas por que não levar esse

processo um passo adiante? Pense na escolha de um doador de esperma: as

mulheres podem ver vídeos de um pai potencial sendo entrevistado sobre sua

vida e seus pontos de vista, podem ler um currículo com suas realizações e seu

histórico de empregos, percorrer estatísticas sobre a altura, peso, histórico

médico e longevidade de sua estirpe genética: dos futuros avós e bisavós

biológicos. Em essência, ao escolher um doador de esperma, as mulheres

inspecionam a proveniência dos pequenos feixes de genes que serão misturados

aos seus próprios – para complementá-los. Genes para saúde e genes para

felicidade.

O mesmo vale para um doador de fezes. Tudo bem, os genes que você obtém

vêm embalados em um papel de embrulho microbiano, não em um bando de

células humanas especializadas, mas são genes mesmo assim. Genes que

contribuem para a altura, para o peso, até para a longevidade. Genes para saúde e

genes para felicidade.

É inevitável que, à medida que os transplantes fecais forem se tornando mais

comuns, nós iremos, como consumidores, passar a exigir mais de nossos

doadores. Embora se faça a triagem dos doadores para doenças relacionadas à

microbiota e até para certos transtornos mentais, eles não são escolhidos a dedo

nem individualmente compatibilizados. Mesmo sem descermos ao nível dos

genes, é fácil imaginar os benefícios de um pouco mais de diferenciação. Que tal

doadores vegetarianos para receptores vegetarianos, por exemplo? Presume-se

que uma microbiota ajustada à sua dieta resultaria em uma transferência mais

tranquila. Talvez um doador mais magro proporcionasse uma vantagem

adicional a um receptor com excesso de peso em sua busca por saúde. E há a

possibilidade de que traços de personalidade sejam compatibilizados – micróbios

extrovertidos, alguém se habilita? Ou mesmo aprimorados – que tal um astral

melhor graças a um excremento otimista? Quem sabe até uma dose de

Toxoplasma para apimentar as coisas?

Por enquanto tudo isso é fantasia, mas lembra os debates sobre os “bebês

projetados” dos anos 1990. Depois de dominarmos os detalhes sobre os genes

microbianos e entendermos exatamente como interagem com os nossos,

poderemos fazer transplantes fecais muito mais personalizados. Por ora, nos

baseamos na ideia de que, se uma comunidade de micróbios do intestino é boa

para uma pessoa, será igualmente boa para outra. Mas conforme nos

aprofundarmos nas forças que moldam cada uma de nossas colônias pessoais – genética, alimentação, histórico, interações pessoais, viagens, etc. – sem dúvida

seremos bem mais rigorosos na seleção dos micro-organismos que vamos adotar.

Querer restaurar uma microbiota saudável é ótimo, mas o que é uma

microbiota saudável? Como Alexander Khoruts e Emma Allen-Vercoe

descobriram, encontrar um adulto saudável o suficiente para ser considerado um

bom doador de fezes não é fácil e mais de 90% dos voluntários não atendem aos

critérios de triagem. Levando em consideração que essas pessoas são voluntárias

porque se julgam saudáveis, a porcentagem real de pessoas ocidentais cuja

microbiota vale a pena ser transplantada provavelmente começa com zero. Como

comparar as microbiotas ocidentais, assoladas por antibióticos, repletas de

gorduras e açúcares e privadas de fibras, com as microbiotas não adulteradas das

pessoas que vivem em sociedades pré-industriais?

Não surpreende que a diferença seja grande. Uma equipe internacional de

pesquisa liderada por Jeffrey Gordon, da Washington University, em St. Louis,

Missouri, coletou fezes de mais de duzentas pessoas vivendo em duas culturas

pré-industriais, rurais e tradicionais. O primeiro grupo veio de duas aldeias

indígenas na Amazônia venezuelana, onde milho e mandioca formam a base de

uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras e proteínas. O segundo, cuja dieta

era semelhante e dominada por milho e verduras, provinha de quatro

comunidades rurais no sudeste do Malaui. A equipe de Gordon sequenciou o

DNA da microbiota fecal de todos eles e comparou os grupos de micróbios

encontrados com os de mais de trezentas pessoas vivendo nos Estados Unidos.

O gráfico com os dados da microbiota das três nacionalidades diferencia

claramente as amostras de habitantes dos Estados Unidos daquelas das duas

outras populações. Já a microbiota dos índios americanos e a dos habitantes do

Malaui coincidiram, apresentando poucas diferenças relativas entre os micróbios

que as compunham. Esses dois grupos de pessoas vivem a mais de 11 mil

quilômetros de distância, mas seus microbiomas se assemelham mais entre si do

que aos de pessoas vivendo em sociedades urbanas mais próximas. Não apenas a

microbiota dos norte-americanos tem uma diferença clara em sua composição,

mas também é menos diversificada. Enquanto os índios tinham em média mais

de 1.600 grupos diferentes de micróbios e os habitantes do Malaui chegaram a

1.400, os norte-americanos tinham menos de 1.200.

É difícil não concluir que a microbiota dos norte-americanos é a aberração

neste caso. Examinando os diferentes grupos bacterianos e as funções que

desempenham, podemos julgar mais facilmente se a microbiota ocidental está

danificada ou é apenas diferente. Os pesquisadores descobriram que os níveis de 92 espécies permitiam prever se a microbiota viera de um intestino norte-

americano ou não. Destas, 23 pertenciam a um só gênero: Prevotella. Você deve

se lembrar dele. É o mesmo encontrado no intestino das crianças de Burkina

Faso citadas no capítulo 6, que tinham esse grupo de bactérias devido à sua

alimentação. As células de plantas fibrosas nos cereais, favas e verduras que

comiam tornavam os membros do gênero Prevotella as espécies dominantes em

sua flora intestinal. Obviamente, as amostras que continham essas 23 espécies de

Prevotella pertenciam à microbiota dos habitantes de culturas pré-industriais.

Os pesquisadores também quiseram descobrir quais enzimas eram mais

diferentes entre as amostras. As enzimas são as abelhas operárias do mundo

molecular: cada uma tem uma função específica, decompondo proteínas, por

exemplo, ou sintetizando vitaminas. Daquelas produzidas pelos micróbios no

intestino das amostras, 52 se distinguiram. Na verdade, o microbioma dos norte-

americanos continha mais genes para enzimas sintetizadoras de vitaminas. Eles

também haviam produzido mais enzimas para decompor substâncias

farmacêuticas, o metal pesado mercúrio e os sais de bile produzidos pelo

consumo de alimentos gordurosos.

Em essência, as diferenças entre o microbioma das amostras refletiram as

diferenças entre mamíferos carnívoros e herbívoros. Enquanto os micróbios no

intestino dos norte-americanos eram especializados em decompor proteínas,

açúcares e substitutos do açúcar, os do intestino dos índios e habitantes de

Malaui eram mais adequados para decompor os amidos encontrados em plantas.

A restauração microbiana é um campo novo e incerto da medicina.

Quaisquer que sejam as possibilidades médicas da probiótica, da prebiótica, dos

transplantes fecais e da Terapia de Ecossistema Microbiano, vale o velho ditado:

é melhor prevenir do que remediar. Nossa espécie chegou perto de perder para

sempre a diversidade microbiana que nos torna humanos. Não fossem as

sociedades remanescentes vivendo livres de antibióticos e de fast food em

algumas partes do mundo, jamais saberíamos como a microbiota do intestino

humano “deveria” ser. Agora, cabe àqueles de nós cujo ecossistema interno já

reflete a perda de biodiversidade do planeta Terra virar o jogo para o bem de

nossos filhos e netos.